Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro

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EKUMI




ekumi

Arquivo Histórico de Moçambique


   1998
    
     
    


Índice



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Primeira Parte



ekumip01






1

Cf. «jornal / fraternizar» n.º 116, ano 11, PT –
4510-460 S. Pedro da Cova (Rua 25 de Abril, 10),
Agosto-Setembro 1998, p. 8-13.
[Tel./Fax: (351) 224 635 958.
Cell: 93 661 72 12. E-mail: fraternizar@mail.telepac.pt ]









    
   
    


CAPÍTULO PRIMEIRO



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EricMorier-Genoud  
   
Louis Trichardt, 4 de Janeiro de 1998.  
Eric:  
Escrevo-te da margem sul do Lago Albassini. Graças à tua sugestão, é já a segunda vez que visito a família Girardin, de origem suíça, como tu, e permaneço alguns dias, quase semanas, no Shiluvari Lakeside Lodge – tão sugestivo pelo nome, encantador pela paisagem, acolhedor pelos modos simpáticos de todo o pessoal. 1
Recanto encantado
Acabo agora mesmo de tomar o chá das cinco com o casal Françoise+Pierre Cuenod, que me quis conhecer pessoalmente e mimosear com documentação inédita do tempo de Gungunyane. (Como vês, nunca esqueço o AHM que tão simpaticamente me acolheu.) 2
Casal empenhado
Isto é sempre belo, mesmo quando chove. E esta beleza e a lembrança de quem me sugeriu vir até aqui fez recordar-me de como despontou a minha vocação missionária, já lá vai mais de meio século (tinha eu quinze anos e, agora, tenho setenta e três). 3
Recanto para reflexão
Quando, no ano passado, aquele outro Eric, nosso comum amigo, proporcionou o nosso primeiro encontro, à hora do café – aquele café expresso sempre antecedido de um chocolatinho negro à moda da Bélgica – no AHM, começaste a interrogar-me sobre a minha vida em África, a minha amizade com os Padres Brancos (Sociedade dos Missionários de África), o meu trabalho no DIÁRIO DE MOÇAMBIQUE e na Diocese de Quelimane, e como tudo tinha começado. 4
Café aproximador
Nunca entendi bem o interesse de tudo isto para a tua tese de doutoramento e/ou outros estudos, mas pus à tua disposição todos os documentos que fui acumulando nestes quarenta e sete anos de Moçambique (seis na Beira, trinta e oito em Quelimane, três no Maputo). 5
Um arquivo
é sempre para ser
consultado
Nem sempre, porém, consegui transmitir-te correctamente a realidade por mim vivida neste quase meio século ou, se recuar até os tempos do hemisfério norte, nestes quase três quartos de século. 6
A palavra, por vezes, trai
Sei quão precioso é o tempo para os bolseiros que se acolhem a um arquivo histórico, e sempre receoso de, em vez de te ajudar a aproveitá-lo bem, levar-te a desperdiçá-lo em coisinhas inúteis, e sempre duvidoso daquilo que realmente era interessante para o teu trabalho, umas vezes devo ter sido excessivamente sintético, outras, incompleto, outras, impreciso. Eu sei lá: transmitir conceitos, juízos, raciocínios, ainda talvez se possa conseguir em termos próprios; para transmitir vivências, é preciso recorrer a termos adequados e a uma técnica e uma arte que estou longe de possuir. 7
O tempo é para ser bem aproveitado
A dispersão, sem atingir uma posterior concisão, foi sempre temível para mim, mas, muito mais, se vislumbro que isso vai prejudicar o trabalho intelectual dos meus companheiros ou das minhas companheiras. 8
Análise e síntese
Por isso, nesta tarde da solenidade da Epifania, ao contemplar o pôr-do-sol reflectido nas nuvens sobre a montanha, e nas águas do lago, comecei esta reflexão escrita sobre os inícios daquilo que penso ter sido a minha vocação missionária (frustrada ou não, os factos o dirão). 9
A estrela do Belo
Já de manhã havia partilhado na celebração da Palavra e na Eucaristia e no convívio da comunidade católica de Louis Trichardt. De manhã, a força da comunidade; de tarde, a força da solidão... sempre a contemplar a beleza que, transcendente, atinge o mais profundo e o mais elevado, e, transcendental, inclui tudo quanto existe, possa existir, pudesse ter existido (futuríveis), quer na realidade quer na imaginação. Só predicamentalmente posso conceber o feio, porque o ser, enquanto ser, é sempre belo. 10
Comunidade
acolhedora... num
fundo de beleza
Meu pai, no quintal mais alto que a cidade do Porto tem, levava-me a apreciar o pôr-do-sol lá para o ocidente – para os lados da Foz do Douro (minha terra natal) ou de Leça das Palmeiras (que nunca esqueço pelos longos passeios dados com ele a molhar os pés no mar...). 11
O sol a pôr-se
E, do lado oposto, com o binóculo, levava-me a penetrar nas montanhas de Valongo, onde o sol nascia. 12
...e a nascer
Em Santiago de Lobão, lá para os lados da Vila da Feira (cujo castelo com as suas ameias e o seu poço me atraía num misto de mistério e curiosidade), levava-me a respirar fundo o ar puro dos pinhais e toda a beleza da vegetação, a mais diversa, térrea ou projectada para o céu. 13
Os pinhais
Em Vila Real de Trás-os-Montes, eram as nascentes e os tanques, era o ribeiro de nome Tourinhas, a separar-nos dos lameiros do Conde de Mangualde (sucessor da Condessa de Vila Real), eram os campos, as vinhas, o olival, os pinhais, os carros de bois a darem-me boleia, as vacas a oferecerem-me, mesmo ali no curral, leite espumoso ainda quentinho, eram, sobretudo, as lareiras, onde os caseiros e/ou os feitores cozinhavam e onde me deliciava com aquela partilha não só do alimento, mas, acima de tudo, do convívio. (Como tudo isto me predispôs para mais tarde alinhar na aliança de operários e camponeses...) 14
A aldeia
E o Marão, sempre lá no fundo, que até da cama contemplava, quando, finalmente, me permitiram ter um quarto só para mim, e escolhê-lo na parte antiga do velho casarão. 15
As montanhas
Como, porém, resistir a ver a serra e as serranias só ao longe e não as sentir numa contiguidade corporal e, mais do que contiguidade, numa continuidade inefável? 16
...são para ser escaladas
E consegui – ora de bicicleta, ora a pé, ora de carreira, ora acompanhado, ora sozinho – atingir o sopé, a encosta e até os cumes! Primeiro, era no chamado Hotel dos Caçadores, no vale da Campeã (antes de chegar ao Alto-Velão), onde retemperava as forças. Depois, surgiu a Pousada (imitação dos Paradores de Espanha), mais acima, para lá do Alto-Marão, e aí o acolhimento tinha todo o sabor das montanhas. 17
mesmo com apoio
E, se tudo isto me atraía irresistivelmente, teria falhado na minha visão estética se ignorasse a beleza do corpo humano, sobretudo do corpo feminino com todos os seus dotes, que culminam na sensibilidade, no afecto, na vontade, na inteligência transfigurantes. O nu, para mim, não obstante certas crises de maniqueísmo contagiado, não era impureza, muito menos o amor (mas na liberdade, não nos conformismos e conveniências burguesas). 18
Nu sem malícia
Um strip-tease (a que adultos de bom senso e familiares próximos me levaram certa tarde) a culminar um espectáculo no Teatro de Sá da Bandeira do Porto (terminava eu a infância e entrava na puberdade) ter-me-á deslumbrado, não, porém, inclinado para o mal. 19
mas com beleza
Para mim, qualquer paisagem foi sempre inseparável do corpo humano, do corpo feminino, na sua integralidade, bem entendido, e não apenas no seu talhe físico. E, quando isto falta, falta tudo, porque ele é o cúmulo e a síntese de toda a beleza cósmica. 20
Síntese da beleza cósmica
Quem vive nesta intensidade e profundidade o belo, se tem necessidade de longos tempos de solidão, também os tem de convívio íntimo, de expansão do que tenha interiorizado. Tudo parte de fora, tudo é transformado dentro, ao menos no modo de ser, e tudo tem de ser transmitido para tornar mais bela a realidade. 21
O eremita e o cenobita
dentro de cada um
E isto não é fácil em estreitas relações familiares, num ensino doméstico até o limiar do liceu, em relações sociais de média ou alta burguesia, na temperatura morna do bom senso “humano”. 22
Águas mornas
A entrada para o liceu, graças à influência de um primo meu, médico, que também lá tinha um seu pupilo, abre-me novos horizontes: os da amizade (aquele género de amor que exige horizontalidade e reciprocidade, e que os laços de sangue tantas vezes reduzem a egoísmo) e os da liberdade, que se ia tornando progressiva, mas tantas vezes obstruída por costumes e legislação inadequada. 23
Tutelas que vão cedendo
Com o elã associativo que sempre me ferveu (embora para muitos continue sempre um isolado), crio um clube sem a menor sombra de discriminação classista, e, na espaçosa sala do sótão da casa paterna e no tal quintal donde se vislumbrava o mar e se avistavam as montanhas, um grupo de estudantes do Liceu Alexandre Herculano começa a divertir-se nos seus tempos livres (lembro-me, pelo menos, de ténis de mesa, patinagem, teatros, festas). 24
A maravilha da união
Mas, se tinha resolvido o problema da discriminação classista (o Clube Mestre de Aviz era frequentado até por colegas que viviam em ilhas ou em casas paupérrimas), não resolvi o problema da discriminação sexista. O liceu, embora com algumas professoras (eu tive duas: uma de francês e outra de português), era exclusivamente de rapazes. 25
Complementaridade
esquecida
A chamada coeducação era severamente interdita nos estabelecimentos de ensino, e a hierarquia católica severamente a condenava. Esperar as meninas da secção feminina, ali próxima, era só para grandalhões descarados. 26
Ou repudiada?
Pareceu-me até que seria mais fácil o acesso à prostituição do que o travar qualquer verdadeira amizade com o sexo oposto. De qualquer modo, se tive um ou outro conhecimento de elementos femininos da minha idade, nunca soube até a entrada na juventude o que fosse uma amizade desse género. E isso é essencial para a maturidade de qualquer ser humano. 27
E a perversidade dos resultados
Mesmo assim, o liceu proporcionou-me muitos contactos, abriu-me muitos horizontes, levou-me a muitos projectos, lançou-me na luta até no campo político. 28
Do mal o menos
O liceu, porém, talvez ainda fosse estreito para o que eu pretendia. E, de súbito, com dois colegas – o Joaquim e o Honorato (não muito de acordo comigo, mas sempre bons companheiros) –, apresento-me no seminário missionário de Cucujães, onde me proponho permanecer até ser enviado para África. Devia ter quinze anos. 29
Decisão súbita ou
preparada de longa data?
Influências da mais diversa ordem (desde o parecer médico até subtis maternalismos) levam o poder pátrio a apenas tolerar a minha entrada no seminário diocesano. 30
Os “bons” sensos posteriormente desmascarados
Aí descubro um mundo apenas vislumbrado, quando, em pequeno, fazia as orações da noite juntamente com as criadas, era levado ao domingo de manhã a uma missa onde se tocava órgão e o celebrante era bom orador, fiz a comunhão particular (sempre fui contra a chamada comunhão solene) preparado pela professora interna (a Flora1) que me levou ao exame de admissão ao liceu, e, depois, já neste, fui por meu pé à paróquia crismar-me2 – talvez o meu primeiro compromisso de lutar pelo bem comum. 31
Na comunhão dos “santos”
Aí (no Seminário de Vilar), descobri toda a beleza de um mundo, como acabo de dizer, apenas vislumbrado anteriormente, aí, mais uma vez, sempre com o mesmo elã associativo, crio uma liga eucarística com um grupo de colegas mais íntimos, ponho em movimento ideias missionárias, divulgo o conhecimento das ordens religiosas que me parecem mais aptas ao anúncio daquela boa nova do Belo feito carne e da consequente felicidade extensiva a todos os homens. (Eu próprio me propunha entrar numa delas.) Quando passo do Seminário de Vilar para o da Sé (chamado dos Grilos), onde completei o Curso de Filosofia, crio com outros colegas um jornalzinho manuscrito intitulado ÂNSIA. 32
Apesar das dificuldades
da união
E aqui toco outro filão que já vinha da infância e sobretudo da adolescência: o da beleza como cultura. Meu pai leva-me a concertos e à ópera. E esta, não obstante os enredos não me atraírem muito, empolgava-me na forma e ainda hoje me empolga – talvez como uma paisagem sublime, talvez como, mais tarde, uma verdadeira amizade (sobretudo feminina), ou como, ainda mais tarde, um bom café expresso. (Estou a falar de efeitos subjectivos, não, longe de mim, de valores objectivos.) 33
A par da Natureza,
a Arte
Minha avó materna escrevia, minha tia-avó também, minha mãe (que perdi aos três anos e mal relembro) escrevia e publicava3, meu pai escreveu um livro sobre Finanças4, manteve uma revista naturista5 durante vinte e cinco anos, e escrevia para jornais. 34
Genes “letrados”?
Eu, embora ainda no limiar do liceu desse dezenas de erros num simples ditado, em breve comecei a ler românticos e realistas e também a escrever. No quarto ano do liceu já me salientava (só nisso, nada de ilusões). 35
Ou vocação assumida?
Salvo erro, publiquei o primeiro artigo num jornal do liceu6, e outro num de Vila Real7. Discursei8 no liceu sobre política (estávamos na segunda guerra mundial) e, depois, no seminário de Vilar, sobre tema teológico9 embora, por fim, não tenha cursado a Teologia e me tenha limitado a finalizar a Filosofia). Ainda no seminário, publico um folheto10, um opúsculo11 e um livro12 sobre a Ordem de Cister. E preparo um sobre pedagogia13 contra os métodos usados nos seminários e nos asilos) e outro sobre filosofia, que certamente nunca teria aprendido nem vivido se não encontro aquele que para mim é a maior cabeça filosófica de Portugal: António Ferreira Gomes. 36
O espelho de nós mesmos
Minha mãe, além de escritora, era pianista e pintora. Meu pai mandou ensinar-me, sempre em casa (para me proteger...), piano e também dança. Levava-me a bailes, mas, como era pequeno, retirava-me antes da ceia e muito antes do pequeno almoço (como já nesse tempo era da praxe). 37
A Arte
no movimento corpóreo
Já fora do seminário, em 1947, tentei reatar a dança, cheio de entusiasmo, no Casino de Espinho, mas desconsegui (o meu par recusou-se...). Em África tentei diversas vezes e sempre desconsegui. Era – penso eu – uma expressão e uma expansão corporal indispensável para me realizar plenamente, mas sempre desconseguia (erros iniciais irremediáveis?). Na verdade, esse desconseguimento apenas teve raras excepções: numa boate do Far West e nos primeiros tempos da Revolução moçambicana. 38
Desconseguimento
fatal
Tudo isto para dizer que o belo artístico, nas suas mais diversas formas, até mesmo nas liturgias, deve ter-me influenciado tanto como o belo natural na génese da minha vocação missionária. 39
Génese da
inquietude
E a constante luta entre as duas linhas (platónica e aristotélica), entre idealismo e realismo (mais tarde diria materialismo dialéctico – não mecanicista – para ser compreendido pelos meus camaradas), e a constante necessidade de coerência (para não viver de ilusões), leva-me a nova opção: missionário sim, celibatário não. Tinha vinte anos (1945). 40
na consciência
filosófica
Mais tarde depararia com casais missionários, os mais zelosos, pastoras e pastores ardentes na evangelização, elogiados até pelos próprios missionários católicos. Por quê isso será possível nas outras Igrejas – ditas protestantes – e não o será, talvez com maioria de razão, entre nós, católicos? 41
Ilustração
comprovativa
Por quê a marginalização só pelo facto de não se ter vocação para o celibato (que, no entanto, admiro e compreendo profundamente)? 42
Marginalização
incoerente
É interessante como, não sei se a pensar nestas ou em outras opções, a última vez que ouvi ter-se referido a mim, António Ferreira Gomes terá dito a uma missionária leiga minha conhecida: –O Júlio é homem de opções. 43
A última notícia
de um amigo
Na realidade, muitas vezes tenho desconseguido, malgrado o meu desejo de coerência. 44
Desconseguimentos
sucedem-se
E eis-me, no fim de tanta poesia, no desfecho prosaico de vinte meses e meio como funcionário municipal num dos serviços mais monótonos da Contabilidade e (a meu ver) tão desnecessário que parecia mesmo inventado para justificar a minha presença. (Eu, que me supunha capaz de grandes sínteses contabilísticas... e que, por outro lado, tanto tempo necessitava para as minhas actividades intelectuais, políticas e apostólicas.) 45
Eu, na burocracia





1

Flora Pinto da Silva, de Lourosa, e hoje residente em Fátima.

2

Paróquia de N.ª S.ª da Conceição (antiga capela da Rua da Constituição), em 28 de Abril de 1938 (?)

3

RIBEIRO, Julieta Adelina Menezes Rodrigues

4

RIBEIRO, Jerónimo Caetano

5

«O VEGETARIANO»

6

RIBEIRO, Júlio (2.º ano – B) – Mocidade Portuguesa / I Passeio ao ar livre. «IDEA / Jornal dos Alunos do Liceu de Alexandre Herculano» n.º3, ano I, Porto (Avenida Camilo Castelo Branco), 1 de Abril de 1938, p. 3-4.

7

J.M.R.R. – Lógica e Ilógica / na formação da biblioteca individual e nas leituras. «ORDEM NOVA / Órgão da União Nacional do Distrito de Vila Real» n.º 74, ano XVI, Vila Real, 3 de Outubro de 1948.

8

«ORDEM NOVA» n.º 424, Vila Real (Avenida Carvalho Araújo, 48), 2 de Junho de 1940.

9

 

10

 

11

 

12

 

13

 




    
 

 
    


CAPÍTULO SEGUNDO



ekumip01c02

E, como se não bastasse esse exílio no funcionalismo dos Serviços Municipais de Águas e Saneamento do Porto, caio em atitude ainda mais prosaica: em busca de melhor salário, eis-me emigrante, em vez de missionário, a descolar da Portela de Sacavém, em avião americano, pelas dezassete horas de 29 de Setembro de 1950, uma sexta-feira (deixando mulher, dois filhos e bagagem, para seguirem pouco depois de navio). 46
Em busca de dinheiro
Escalámos, não me recordo bem se Dakar se Brazaville. Era noite escaldante, vi duas freiras de hábito e capacete colonial. Sábado, 30, pelas vinte e três horas, chegava a Joanesburgo. Um português, que vinha a meu lado, desembarcou com destino a Pretória. Eu e mais um jovem casal de portugueses desembarcámos. para, segunda-feira seguinte, 2 de Outubro, continuarmos rumo a Lourenço Marques1. 47
Pela primeira vez sobrevoo o Equador: latitude 0 grau
Alguns contactos com jovens brancos de Moçambique, certamente a estudar na capital sul-africana, logo me deram a perceber as suas tendências separatistas (sem dúvida do género de Ian Smith, mais tarde, no caso rodesiano). A despedida foi com uma gargalhada descarada nas minhas costas, provocada pelo meu patriotismo de então, nada menos descarado. Eu vinha cheio de “Fé e Império” num grande desejo de integração completa. 48
Ideais separatistas, já nessa época
Chegados a Lourenço Marques (hoje Maputo), a então DETA hospeda-nos, salvo erro, na Pensão Portugal2, e aí somos intimados a comparecer na Administração Civil, que grosseiramente nos recebe com ameaças... se dentro em breve nos não puséssemos ao fresco... de volta à Metrópole. (Um paraíso destes, para se manter como tal, não poderia ser para muita gente...) O casal, primeiro; e a mim nem sequer foi preciso repetir. E se o passaporte me apresentava como escritor, pior ainda... 49
O funcionalismo alguma vez foi acolhedor?
 Na Beira, depois de uma viagem de novo num Dakota, e com breve escala em Inhambane, Tavares Guimarães, licenciado em Filosofia pela Universidade Gregoriana e Chefe da Secretaria comum de quatro3 sindicatos de Manica e Sofala, aguardava-me amigavelmente, acolhe-me no seu apartamento e até me paga a alimentação no Hotel Central até o problema deemprego se resolver 50
A amizade, sim
Tavares Guimarães não desaguentara como eu, que havia frequentado a mesma Faculdade em Roma, mas só por um escasso trimestre. Aí havia nascido o meu primogénito4 (o começo de doze...). Quando Tavares Guimarães embarcou para Moçambique (anteriormente já tinha estado em Angola), pedi-lhe que visse a possibilidade de também eu embarcar. E não sossegou enquanto não conseguiu chamar-me – por telegrama e com urgência. (Estava eu com vinte e cinco anos, empregado no Porto e a viver em casa alugada em Espinho.) 51
O irmão que é ajudado pelo irmão
Vencidas as dificuldades que interesses opostos sempre levantam, mas desta vez a bem de ambas as partes, assumo a chefia da Contabilidade desses quatro Sindicatos. Novamente numa secção de contabilidade, mas agora noutra posição e com outras perspectivas. Mesmo assim, bem longe do sonho da adolescência e do início da juventude. 52
Um sonho a desfazer-se?
Decididamente não passava de um platónico – bem longe da linha aristotélico-tomista. Pelo vencimento, tão descomparável com o de funcionário camarário do Porto, poderia muito bem ser um materialista mecanicista, não dialéctico. 53
Eu, afinal, um platónico?
Incongruência e fracasso. Nem a posição em sindicatos me safava: eram sindicatos para defesa dos portugueses (assimilados incluídos, mas de que modo...) e não da massa trabalhadora africana. No caso dos ferroviários, seria para defender os direitos dos portugueses face aos privilégios dos ingleses. 54
Fatalismo?
Uma noite, porém, Tavares Guimarães, bem conhecedor de todo o meu misticismo contemplativo e missionário, leva-me à Missão de S. Benedito da Manga (passagem de nível), onde estivera Isidoro Gomes (que eu havia conhecido nos tempos liceais na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, na Praça do Marquês de Pombal do Porto) e agora entregue aos Padres Brancos (Sociedade dos Missionários de África), que Sebastião Soares de Resende conseguira trazer para a sua Diocese da Beira. 55
Miragem
Eram quatro (dois italianos e dois alemães), estavam a jogar as cartas. De brincadeira, exclamo: –Apanhados em flagrante. Riram, menos um, o italiano Ciro Masera, que logo deu a entender que estavam bem conscientes do recreio de que desfrutavam no serão. Mas foi o início de uma amizade, em breve partilhada pela Maria Ester (quando finalmente chegou) e por bastantes outros Padres Brancos espalhados por diversas Missões do Sena e agora do mundo. 56
Miragem animadora
Alugo uma casa não muito longe deles e ofereço os meus serviços, mas a primeira resposta é decepcionante. Mortier, alemão que havia sofrido muito na guerra na frente russa, era profundo e reservado, Gervásio, também alemão e o único não presbítero, era todo actividade e brincalhão. Ciro Masera e Cesare Bertulli, os dois italianos, aconselharam-me com a lengalenga do costume do bom exemplo e da oração. Sinceramente, não sintonizávamos, apesar de tudo quanto Tavares Guimarães me dissera deles e dos motivos pelos quais Sebastião Soares de Resende tanto os admirava. Mas seria que, de facto, também eles alinhavam na indispensabilidade do celibato para a vida missionária? 57
Miragem mesmo
O baptismo e o crisma, o que seria para eles? Eles que nem religiosos eram, mas simples seculares associados comunitariamente e sob juramento (sem qualquer espécie de votos), também considerariam o sacramento do matrimónio um impedimento para a vida missionária? Decididamente: não sintonizávamos. E regressei a casa, derrotado. 58
O deserto continuava
Mas afinal sintonizávamos, e em que medida! Passados uns dias, aparecem os dois a propor-me começar a trabalhar na expansão do livro católico. Um confrade deles, ouvindo falar da religiosidade dos portugueses, percorreu as livrarias da cidade da Beira e nem um só livro encontrou que pudesse alimentar esse apregoado catolicismo dos lusos. Como era possível? Por fim, na Livraria Salema, encontrou um livro sobre Inácio de Loyola... mas era um ataque cerrado aos jesuítas. Então eu ficaria incumbido de preencher tal lacuna. E, durante cinco ou seis anos, passei a trabalhar assídua e intimamente com Cesare Bertulli, que até pediu a Mortier e a Gervásio me construíssem uma casa dentro da própria Missão. (Ainda lá está, alguns metros atrás da maternidade, ao menos daquela época.) 59
Afinal a realidade era outra
De novo o elã associativo dá origem a um grupo, desta vez – e infelizmente – bastante homogéneo na cor e posição social, e bastante conservador, com grande pesar meu e de Bertulli – a figura central. (Sem essa figura, ora a meu lado, ora a trás de mim, ter-me-iam levado a sério?) 60
De novo a força da união
E fundámos a Biblioteca da Missão de S. Benedito, com estatutos, regulamentos e catálogos, aberta nos fins de semana e frequentada até por residentes da Beira (a quinze quilómetros), primeiro, só para leitura e empréstimo domiciliário, depois, com uma secção de vendas, quase exigida pelos leitores5. 61
A travessia do deserto acabava
E levámos o livro ao interior de Manica e Sofala, até a fronteira de Machipanda, e as margens do Zambeze, quase até o seu delta, aproveitando sempre cantineiros e propagandistas locais. 62
A expansão
Promovíamos reuniões, ora restritas aos bibliotecários, ora alargadas aos leitores e amigos – umas vezes para criticar o fundo e a forma de certas obras de literatura católica, outras, para aprofundar certos aspectos teológicos, sempre para movimentar e mobilizar boas vontades e esclarecer e abrir mentalidades até aí bem alheias ao ideal missionário. (E sem falar dos retiros espirituais, que também não faltavam.) 63
As iniciativas
A par destas actividades à volta do livro católico, foi o apoio à construção do cinema, do campo de jogos e do bairro residencial. Pela primeira vez, o negro deixava de estar condenado a só construir casas para os brancos e indianos... Pela primeira vez, o negro via filmes com actores e estrelas da mesma cor... Era entusiasmante trabalhar com Bertulli. A Maria Ester até pegava no jipe da Missão e ia de casa em casa angariar fundos ou material de construção. Bertulli era inteligência e fogo, interioridade e eficiência. 64
Quem é o meu próximo?
Nem sempre, porém, estávamos de acordo. Não éramos almas gémeas. E, depois, como posso eu estar sempre de acordo com os outros? Uma vez, por exemplo, ele queria construir todas as casas alinhadas e iguais, em série, por motivos de economia, evidentemente. Mas eu discordava de uniformizações, filas, elaborações em série, rotinas, monotonias. 65
Discrepâncias dialécticas
Já a Maria Ester, logo que nos conhecemos, me havia alertado para os efeitos negativos das filas, dos uniformes, da homogeneidade sexista de colégios e asilos: da educação em série em vez da educação personalizada. Ora as habitações todas iguais não acarretariam não digo os mesmos, mas semelhantes e/ou diversos efeitos – negativos – para os lares e para a comunidade residencial? Subordinar o bem psicossocial à economia e à quantidade de beneficiados estaria certo? 66
O grande encontro
Bertulli era firme e não vergava facilmente: bom ecónomo, gestor eficiente, não se deixava ir em “poesias”, embora ele próprio fosse um místico no interior e um artista (ainda em 5 de Abril de 1980, Sábado santo, pude contemplar alguns dos seus quadros na Residência dos Padres Brancos da Via Quinto Tosatti, 6, em Roma). E inventou uma plataforma: em vez de um só modelo de casas, seriam dois, intermediando casa sim casa não. Construiria em série, mas deixaria sempre o intervalo para construir o segundo modelo também em série. 67
A síntese dialéctica
Doutra vez, foi sobre as línguas: Bertulli queria, nas suas Missões, todo o esforço a incidir sobre o chisena – para que ao menos nessa língua todos se entendessem, a principiar pelos missionários com os seus estudos e as suas edições, os seus ensinamentos e os seus colóquios. Era a língua de toda a região do Sena. Sem ela, que comunhão poderia haver com o povo? Como descobrir as sementes do Verbo e transmitir o Evangelho? Marostica estava de acordo, mas queria, simultaneamente, serviços de culto e de catequese noutra língua para os não oriundos do Sena: na altura parece que se falava do changane6: eu inclinava-me mais para Marostica, mas só mais tarde, com Brentari7 , havia de clarificar melhor o problema das línguas e das suas variantes8 . 68
O chisena e o changane
Mas tudo quanto dei nestes cinco ou seis anos na Beira foi insignificante perante tudo quanto recebi. Foi, de facto, a minha iniciação missionária, projectada, depois, nos trinta e oito anos de actividade na Zambézia: vinte anos, sob mandato episcopal, dezoito, por direito do meu próprio Baptismo e, sobretudo, da Confirmação (pela qual, há quarenta e um anos, me havia comprometido na luta pelo bem comum), mas sempre, evidentemente, em comunhão com o bispo, primeiro, o português, aquele que me chamou, depois, o moçambicano, aquele que lhe sucedeu. (Diga-se, de passagem, que este último, embora, de muito interessado pelo meu trabalho nos primeiros anos, tivesse passado posteriormente a muito desinteressado, na verdade sempre me apoiou, ao menos com o seu trato afável.) 69
Iniciação e renascimento
A Sociedade dos Missionários de África, fundada pelo Cardeal Lavigerie e conhecida por Padres Brancos (devido à sua túnica branca, terço ao pescoço, turbante islâmico e cofió), tinha métodos de evangelização muito próprios e muito diferentes dos outros missionários, sobretudo portugueses. Sob certos aspectos, talvez se pudesse abrir uma excepção para os combonianos e, sob outros, para os Irmãozinhos de Jesus (de Charles de Foucauld). 70
Metodologia missionária
Um primeiro cuidado estava em misturar as nacionalidades (teria Lavigerie consciência de como ele próprio estaria apegado à França?) e outro era de nunca viverem em cada casa menos de quatro missionários (o mínimo três). Nisto estava Bertulli contra a tal “eficiência” que levaria Soares de Resende a preferir vê-los mais espalhados e, assim, ocupando mais território... 71
Vacina contra
nacionalismos e aventurismos
Depois era a construção da própria casa e não do templo, da escola ou de qualquer outra coisa. Antes de tudo, o mínimo de condições para manterem a saúde, reconfortarem-se da fadiga, poderem orar, estudar, planear, conviver entre si. Mas não se pense que não eram austeros: o caso da geleira que se recusavam a ter e que foi preciso o bispo oferecê-la para começarem a autorizá-la nas suas Missões – evidencia bem a têmpera destes homens. 72
Vacina contra ascetismos estéreis
Em seguida era o estudo da língua até ser falada e escrita corrente e correctamente, o reconhecimento do território da respectiva Missão, a visita às palhotas, os convívios com os adultos, a apreensão, compreensão e aprofundamento da cultura. 73
Incarnação, primeiro
Eu chamaria a isto já um pré-catecumenato, na medida em que se estabelecia uma plataforma humana, um diálogo pelo qual se descobria o que há de comum, o que há de positivo, o que o Espírito já tinha semeado mesmo sem a ajuda dos missionários. 74
Receber antes de dar
Depois, sim, uma evangelização organizada, um catecumenato intenso e nunca de menos de quatro anos, e sempre de adultos e de ambos os sexos. Tudo em ordem ao baptismo, evidentemente, mas só na altura própria e sempre por etapas. 75
Evangelização, depois
Casais e famílias na base das novas igrejas: não crianças arregimentadas em internatos (...ainda que para companhia e consolação dos missionários). Também os catequistas: não adolescentes saídos da escola, mas adultos e, de preferência, casais. 76
Assunto, antes de tudo, de adultos
Depois, sim, depois os sacramentos da iniciação, e, estes, pela ordem correcta da vigília pascal (Baptismo, Crisma, Eucaristia), depois, sim: a plenitude da vida com toda a sua base humana e todos os outros sacramentos que a enriquecem. 77
Sacramentalização, no fim
Impossível ser cristão, cristã, se, antes de tudo, o ou a catecúmena não for uma verdadeira pessoa, um verdadeiro homem ou uma verdadeira mulher, um verdadeiro africano ou uma verdadeira africana, consciente da própria cultura, em diálogo com os outros, mas com espírito crítico e sem se renegar a si mesmo ou a si mesma, à sua língua, à sua história, aos seus valores. 78
Mas sempre com os pés no chão
As tensões que isto criou com aqueles e aquelas que antes de tudo punham o ensino da língua portuguesa e de quanto ela implicava ou conotava (nacionalidade incluída) e que se deixavam embalar pelo triunfalismo de templos e de baptismos em série e em quantidade, e que se comunicavam por meio de intérpretes e que não olhavam a meios para encher internatos, as tensões que isto criou são fáceis de imaginar e tristes de descrever. 79
Tensões dialécticas
Mais tarde, muito mais tarde, mais de uma década depois, havia de eu ver padres brancos, jesuítas e franciscanos de mãos dadas, diocese em diocese (menos na de Lourenço Marques, onde não tiveram entrada), e um Bertulli muito “convencido” a dizer que chegaram em comum à conclusão da necessidade de um verdadeiro e longo catecumenato antes do baptismo – como se isso não fosse prática bem antiga em todas as missões dos padres brancos. 80
A humildade triunfa na verdade
Como me apeteceu dizer bem alto toda a verdade! Mas calei: o que estava em causa era uma verdadeira evangelização em todo Moçambique, e não a glória de uma sociedade missionária, não isenta, também, dos seus defeitos. 81
O zelo indiscreto
Descobri, naquele momento, a humildade de Cesare Bertulli, porque aquilo não era mera táctica. E recordei como muitos anos antes também havia descoberto semelhante aspecto (mas por outros motivos) em personagem que – penso – ninguém ou poucos consideravam humilde: António Ferreira Gomes. 82
A humildade de
duas personalidades tidas
por nada humildes
Com a amizade dos Padres Brancos, com o acesso que tinha a todas as suas casas, ora sozinho ora acompanhado de mulher e filhos, ora para descobrir esse mundo (novo para mim), ora para repousar, ora para discutir e reflectir, não estaria apto a deixar o part-time e passar ao full-time no serviço missionário? Estávamos em 1956: tinha trinta e um anos. 83
Part-time ou full-time?





1

Agora, Maputo.

2

Onde hoje, salvo erro, está instalada a Universidade Pedagógica (nota inserida em 29/10/2003).

3

Sindicato Nacional dos Ferroviários de Manica e Sofala e do Pessoal do Porto da Beira
Sindicato Nacional dos Empregados do Comércio e da Indústria – Secção da Beira
Sindicato Nacional dos Operários da Construção Civil e Ofícios Correlativos – Secção da Beira
Sindicato Nacional dos Motoristas e Ofícios Correlativos – Secção da Beira

4

Pedro Manuel Meneses Machado Ribeiro, nascido com sete meses em 9 de Dezembro de 1947, para uma breve passagem até 10 do mesmo mês e ano.

5

Lembro-me de alguns nomes: Belmira Sampaio Morgado, professora primária na escola oficial, ali mesmo junto à Missão, e marido, Alberto Morgado, director da mesma, José Telles Palhinha, tenente-coronel e director da fábrica de sabões, também na Manga, propriedade do seu irmão, advogado na Beira, Valentina Corte Real, dona de casa, e seu marido Armando Corte Real, administrador reformado, Matilde Schmidt, dona de casa, viúva, e sua filha Úrsula, empregada numa empresa da Beira, Orlando Fonseca Simões, contabilista da fábrica da Lusalite, no Dondo, e, depois, a meu convite, do Diário de Moçambique, quando, na segunda metade do ano 1958, assumi a gerência do Centro Social, Lda., firma proprietária daquele jornal. (Mais tarde, a Úrsula e o Orlando vieram a casar-se, e vivem actualmente em Pinheiro de Loures, perto de Lisboa.) A estes nomes há que acrescentar, é claro, o meu, o da Maria Ester e o de Cesare Bertulli, que, sem favor nenhum, éramos os que mais trabalhávamos.

6

 

7

Vid. NZU in http://www.julio-mrr.net

8

 




    
 

 
    


CAPÍTULO TERCEIRO



ekumip01c03

Na manhã de segunda-feira, 2 de Julho de 1956, depois de uma noite de fortes ondulações e enjoo (para mim que sonhei, como tantos outros, ser marinheiro... mas não fui nem sou), senti uma grande tranquilidade e calmia: estávamos a entrar no Rio Kwakwa, que os portugueses crismaram de Bons Sinais, e em breve ancorávamos no porto de Quelimane. Comigo, a Maria Ester, cinco filhos (dois nascidos em Coimbra e três na cidade da Beira), bagagem e até o Volkswagen. 84
Nova etapa
depois da noite escura
Ajudar no impulso inicial de uma recém-criada diocese era fascinante. Ganhar menos do que nos Sindicatos era a prova real da sinceridade de intenções. A Zambézia convertia-se na minha terra de adopção. Aí permaneceria trinta e oito anos (mais do que em Portugal, onde apenas vivi vinte e cinco, e na Beira, onde trabalhei seis anos). 85
O fascínio dos inícios
Aí me realizei como missionário leigo, aí ajudei à independência de um novo país, aí acamaradei com guerrilheiras e guerrilheiros, e, juntos, iniciámos uma revolução na fase da democracia popular (que se seguiu à democracia nacional e que, pensávamos, seria seguida, depois da célebre década, pela democracia socialista), aí senti o que era a liberdade de dizer quanto pensava (mesmo que não coincidisse com os comandantes) e de não ter de esconder certos livros nem de evitar certas coisas que, mesmo parecendo inocentes, muitas vezes provocavam as ameaças da PIDE/DGS ou mesmo as suas tenebrosas represálias. 86
Quatro décadas
de entusiasmo
Também foi aí que a Maria Ester se realizou plenamente como professora de educação física, porque, embora já em Portugal tivesse sentido todo esse entusiasmo profissional, e também na Beira, mas depois de bastante luta1 , a verdade é que foi em Quelimane que atingiu o seu auge – quer preparando mulheres de futuros líderes ou mesmo os futuros quadros femininos (em certos casos, até masculinos), quer, após a chegada das Forças Populares de Libertação Nacional, os futuros professores e professoras de educação física que haveriam de cobrir todo o vasto Moçambique. 87
A realização profissional
Também aí tivemos os cinco últimos filhos, também eles – mais um da Beira – ainda hoje construtores de Moçambique. 88
e familiar
Também aí surgiram as mais puras amizades, nada platónicas, mas bem fecundas – umas no campo apostólico, outras no político e não poucas em ambos os campos. 89
e social
Desde o início da minha estadia na Beira, tive sempre bastantes encontros e troca de cartas ou de simples bilhetes com Francisco Nunes Teixeira, quer por causa do comum amigo, Tavares Guimarães, quer por ele ser o secretário do bispo, quer pelas muitas discordâncias acerca do Diário de Moçambique, no qual eu colaborava assiduamente2 . 90
1.º Bispo de Quelimane
Apesar dessas divergências ou até reforçado por elas, nunca deixou de me acolher com a sua habitual afabilidade. E mais de uma vez me apoiou e elogiou no trabalho da difusão do livro católico, que consegui levar não só ao chamado mato, como até o âmago das cidades (primeiro, da Beira, depois, de Quelimane, e, finalmente, de Lourenço Marques). 91
Um apoio encorajador
Quando foi nomeado e sagrado bispo, numa refeição de despedida na minha casa da Missão da Manga (a tal construída sob a direcção e trabalho de Gervásio e Mortier), prontifiquei-me a segui-lo, rumo à Zambézia. Penso que lhe agradou a ideia, mas não quis aceitar sem que, primeiro, por lealdade, me oferecesse ao bispo da Beira, que também apreciava o meu trabalho e os meus escritos. 92
Despedida...
que não o foi
Na verdade, Sebastião Soares de Resende, já a braços com o peso de um jornal diário, teme meter-se agora na criação de uma livraria. Pedia que eu esperasse e que, entretanto, o continuasse apoiando escrevendo, como até aí, para o jornal. Mas há circunstâncias em que esperar não é virtude, parar é morrer: é como numa viagem (e nisso tenho razoável experiência), em que, desperdiçada uma oportunidade, dificilmente se recupera. E assim surgiu o APOSTOLADO PELO LIVRO E PELA LITURGIA , secretariado missionário da Diocese de Quelimane, com personalidade jurídica ao abrigo do art. 3.º da Concordata. 93
E surgiu uma livraria
A meu lado, nessa mesma altura, surge Joaquim Pinto de Oliveira a iniciar o semanário VOZ DA ZAMBÉZIA, onde também colaborei3 . 94
e um jornal
E uns três anos depois, no primeiro andar do novo edifício para onde jornal e livraria se transferiram, surge Maria José Bertão Carvalho da Cunha4 a iniciar um LAR FEMININO para jovens empregadas que não tivessem família em Quelimane ou lhes conviesse viver fora. 95
e um lar de moças
A solidariedade entre os três foi notória, e foi neste contexto que desenvolvi o meu trabalho de expansão do livro e desempenhei as outras tarefas que me iam sendo confiadas. Entusiasmo não faltava a cada um de nós, e penso nunca desmerecemos da confiança em nós depositada. 96
numa colaboração entusiasmante
E, neste contexto, logo me apercebi de que o pessoal da livraria não seria suficiente, impondo-se a necessidade de organizar um grupo de colaboradores que, nas horas vagas, desse alguma coisa de si mesmo e do seu tempo para a expansão do livro e actividades afins, complementares ou suplementares. De novo o elã associativo a ferver-me (em algum segundo me terá deixado de ferver?), dentro da livraria, nos contactos pessoais, nas viagens, na correspondência. 97
e novos grupos
Por muitas desilusões que tenha sofrido e por muitos fiascos de que tenha sido responsável, a verdade é que nunca teria vendido tantos livros, nunca teria feito tantas exposições e feiras, nunca teria criado tantos postos de venda até o mais recôndito mato, nunca teria organizado tantos encontros, os mais variados, desde fins de semana a retiros, desde conferências a cursos, desde semanas de estudo a nível de missão, em pleno mato, a outras a nível nacional (nessa altura teria de dizer-se “provincial”), se grupos permanentes ou de ocasião mo não tivessem permitido. 98
fecundos
E o mais enriquecedor nesses grupos foi a heterogeneidade constante e sob todos os aspectos. A escolha incidia sempre sobre a competência e a voluntariedade, e nunca se olhou a se era bispo ou presbítero, religioso ou leigo, duma classe ou doutra, de uma nacionalidade ou outra, ou sequer se tinham títulos académicos ou não. E todos (mulheres e homens) surgiam em sororal/fraternal convívio, em trabalho comum, em entusiasmo contagiante. 99
porque heterogéneos
Sem esse espírito associativo, também nunca teria surgido aquela escola nocturna para adultos, empregados durante o dia, nem aquela sala de costura iniciada e dirigida por prostitutas que quisessem, numa primeira fase, ao menos libertar-se economicamente, nem aquele serviço de visita às palhotas dos mais empobrecidos, nem a construção, também aqui (em Quelimane, como anos atrás na Manga) de casas para negros (até essa data, só os brancos as tinham), nem o apoio à entrada de negros no liceu (até aí só iam para o ensino técnico), nem aquele projecto (esse quase sem resposta por parte dos missionários) de levar até a universidade os que para isso mostrassem capacidade e vontade. 100
De novo o nosso próximo
Que tudo isto nem sempre foi pacífico, é evidente: um leigo a vender livros, vá que não vá... na falta de religiosas ou religiosos paulistas, é evidente. (Mais de uma vez pairou sobre mim o despedimento, se Paulistas se disponibilizassem para Quelimane, como se não houvesse trabalho para todos, como se os operários da seara já sobrassem...). Mas um leigo a intrometer-se em métodos missionários, a ir buscar Irmãs Brancas (do Cardeal Lavigerie) ao Malawi para falarem a padres e freiras, a reunir mestras e mestres de noviças e noviços do norte ao sul e falar-lhes, ele mesmo, simples leigo, sobre aspectos tão específicos da vida consagrada, não seria ir o carro à frente dos bois? 101
apesar da luta
mesmo ad intra
Lembro-me de como era preciso entrar com pezinhos de lã em alguns gabinetes de superiores, lembro-me até de boicotagens e sem dúvida de pressões sobre o bispo. Lembro-me de como me quebravam o entusiasmo quando falava sobre o que observara nas missões dos Padres Brancos. 102
Prudência e audácia
Também me lembro, porém, do acolhimento afectuoso nas missões, fosse em serviço fosse de férias, fosse só ou com mulher e numerosa prole. Lembro-me das longas conversas e confidências e da amizade que, por vezes, se ia criando, do apoio ao meu trabalho, fosse na expansão do livro, fosse na projecção dos tais filmes do Congo belga com actores negros, fosse, depois, na preparação das semanas missionárias. E lembro-me dos convites para dirigir reuniões de catequistas e professores (mesmo fora da diocese), e da confiança em ser eu mesmo a escolher o tema e as pessoas que me acompanhariam. 103
A vitória da amizade e fecundidade
E, pela minha parte, não poderia ser suficientemente delicado e prudente, e evitar falar de métodos de Padres Brancos, limitando-me a sugerir o seu conteúdo sem melindrar com os rótulos da proveniência? O que pretendia eu? Propagandear uma sociedade missionária (como outrora em Vilar) ou que os métodos de evangelização se transformassem? 104
Táctica ou respeito?
Tirando os rótulos, consegue-se, em certas circunstâncias, muito mais do que quando neles se insiste. Até na política isso é verdade, e no campo missionário também o não deixa de ser. 105
Rótulos podem estragar tudo
O mais interessante foi um dos que mais haviam reagido à minha simpatia pelos Padres Brancos, passados tempos, vir até mim a pedir que trouxesse dois deles à Zambézia, para falar aos missionários. (Nessa altura, só consegui um, e a custo, tão embrenhado estava no seu trabalho.) 106
Nova vitória da
humildade de
ambos os lados
E aqueles outros que ficavam longos serões a ouvir como eles trabalhavam: a maior parte das vezes era eu próprio, mas de uma vez, lembro-me eu, foi o Mortier que passava por Nauela e me encontrara lá. 107
Noites inesquecíveis
E outro que desejava renunciar a umas férias na Itália, apesar da sua mãe já estar velhinha, para passar esse tempo em alguma missão dos Padres Brancos e aprender deles. (O bispo aprovou: o superior religioso não...) 108
Desejo frustrado
Mas em 1972, no auge do meu entusiasmo por ter conseguido reunir em mesa redonda cento e sessenta e sete missionários do norte ao sul do país (na altura, tinha de dizer província), para se debruçarem, ora em grupo, ora em plenário, sobre a feminilidade em perspectiva banta, quase ia sentindo a terra a faltar-me sob os pés. 109
Quem muito alto voa...
Tudo parecia correr às mil maravilhas e já se delineava novo encontro para daí a um ou dois anos, desta vez sobre libertação comunitária (na altura tínhamos de dizer desenvolvimento comunitário...). 110
se esquece que pode cair...
Prudente presbítero, exactamente da sociedade para a qual eu pensara entrar aos quinze anos (agora tinha quarenta e sete), que começou por me apoiar e até me admirar, deve ter pensado que eu ia longe demais, pressionaria o bispo ou até o manipulasse, levando-o talvez a permitir coisas contra a consciência. 111
pode cair mesmo
   
Penso que uma dessas coisas teria sido, em fins de Agosto de 1969, quando consegui trazer o escritor belga Dominique Notomb para falar a noventa e sete missionários reunidos em Quelimane, pedirmos para comungarmos pegando na Hóstia com as mãos, e não sermos obrigados à má educação, à repugnância e ao infantilismo de pôr a língua de fora em momento tão importante para quem tem fé. 112
Disciplina intolerável
Possivelmente também se terá chocado com afirmações de conferencistas sobre os direitos da mulher dentro da Igreja, como se eu fosse o autor de tudo quanto se disse e se escreveu. 113
Direitos
impossível de reprimir
De qualquer modo, mais do que a mim, atingiria o meu bispo, que eu conheci bem – tanto nas virtudes como nos defeitos (que todos temos) – e posso garantir que nunca me pareceu que se deixasse manipular nem sequer por autoridades civis ou militares, muito menos por qualquer cristão, missionário, religioso ou presbítero que fosse. 114
Quem seria mais atingido?
Pode ter tomado decisões que nos pareciam colaboracionistas, mas não por servilismo, sim por convicção (como o seu último livro até parece evidenciar). 115
O carácter de português
Pode, por exemplo, ter-me incitado (e não era preciso muito para o fazer) a um trabalho político (em pequenos grupos) junto daqueles que futuramente talvez fossem a vanguarda do povo (caso do Carlos Lobo e outros), e, ao mesmo tempo, permitir uma experiência da Pátria Morena de um Lobiano do Rego. 116
Equidistância
da esquerda e da direita?
Ouvia, é certo, todas as opiniões, e deixava-me falar livremente e defendia essa liberdade quando presbíteros ou religiosos a quisessem coarctar. 117
Respeito pelas opiniões
Nunca senti que cedesse a pressões, políticas que elas fossem. (E eu estava bem atento a isso!) 118
Isenção nas decisões
   
Privadamente, arriscava-se a condenar todas as injustiças de que tivesse provas. Publicamente (e a que nível!) ouvi-o defender a mulher negra contra infames arbitrariedades do poder colonial5. 119
Coragem do poder espiritual perante o temporal
   
E também publicamente soube denunciar fé e império, mostrando o ridículo e de se imaginar que o baptismo, além do carácter de cristão, imprimisse um outro – o de português (cidadão ou indígena que fosse). E isto em anos quentes, e perante altas autoridades coloniais. E bem sabemos como eram sensíveis nestes assuntos. 120
Denúncia da
heresia contumaz
   
Esta é uma homenagem que não queria deixar de prestar àquele bispo que aceitou os meus serviços e, durante duas décadas, me encarregou de tantas tarefas apostólicas, permitindo assim que realizasse em pleno a minha vocação missionária, e que, ao vender--me a livraria (em vez de a fechar), ainda me deu oportunidade de continuar no mesmo rumo (aquele que fora imprimido por Cesare Bertulli e por ele próprio) durante mais dezoito anos, após a independência e nos tempos da Revolução. 121
Mesmo com outra concepção eclesiológica
Não vou continuar, Eric, porque tocar sequer em cada uma das minhas actividades durante essas décadas seria enveredar por um novo filão (e tem de ser um de cada vez). 122
Filões intermináveis
E falar da maneira como respondi ou correspondi a essa vocação depois de, juridicamente ao menos, ter deixado de me poder chamar missionário leigo, também exige nova e longa reflexão. 123
Por conta própria, mas em comunhão
Sempre pensei em tempo para escrever sobre muitas coisas: talvez nunca tivesse pensado em descrever a génese da minha vocação. 124
Elementos para uma autobiografia?
Oxalá ninguém considere isto simples memórias, mas um abrir caminho para muitos outros e muitas outras que não sintam vocação para o celibato, mas a sintam para a vida missionária no sentido mais estrito e específico da palavra. 125
...mesmo sem ser exemplar!
Em 1950, isso era raro entre nós, e, os poucos exemplos, quase só os encontrei no estrangeiro (onde a mania de povo eleito não se implantara). Hoje já muitos jovens de ambos os sexos e até casais (mesmo não protestantes) avançam para as missões (qualquer que seja o novo significado desta palavra ou até da sua nova designação). 126
poderei ser incitamento?
Duas perguntas, porém, me continuam a bailar acerca desses novos missionários leigos: 127
Mistificação do leigo
   
l.º – Vivem em fraternidade/sororidade com religiosos, presbíteros e bispos, ou numa hierarquização que de novo os converte em missionários de terceira ou quarta? 128
Para obedecer
   
2.º – São aceites ou até chamados como missionários de pleno direito ou apenas porque rareiam as tais vocações consagradas? 129
Para tapar buracos
   
separadores

Receio ter sido triunfalista (o meu entusiasmo pode bem levar-me a isso), mas olha que estou consciente não só dos sucessos (relativos que sejam), como também dos fracassos e incongruências. 130
Autovalorização?
A maior delas é, sem dúvida, o ter desconseguido aprender ao menos uma língua nacional. 131
O grande pecado
Três vezes tentei, e três vezes desconsegui. Na Manga, frequentei com a Maria Ester um curso de chisena, ministrado por Cesare Bertulli. Era à noite, e era tanto o cansaço e o sono... que desconsegui. 132
três vezes repetido
Em Quelimane foi um curso de etxuwabo (variante do makuwa) ministrado por Ludovico Festi: o meu activismo e a minha inépcia levaram-me novamente ao desconseguimento. 133
sempre com desculpas
Depois, nova esperança: um amigo, vindo de Portugal, ofereceu-me os seus serviços. Logo o esclareci de que o primeiro trabalho seria aprender uma língua banta. Após isso, ficaria no meu lugar, e aprenderia eu (já não era sem tempo). Ele insistiu em ser eu a começar. Recusei: esperaria os indispensáveis seis meses, até preconizados pelo Regulamento da Diocese. Só que, ele conseguiu, eu de novo desconsegui: esse meu amigo, depois de a aprender, decidiu enveredar por outro caminho, aliás também bem necessário – o de professor de filosofia no liceu. 134
Culpa... solteira
Não será, no entanto, isto que me levará a retorcer a verdade (...para justificação própria): se alguém quer ser missionário ou mesmo se alguém quer ser útil a Moçambique, comece por aprender uma língua nacional. Será meio caminho andado para qualquer tarefa que tenha de desempenhar. 135
Bem prega frei Tomás
Tenho aqui mesmo um exemplo quer no proprietário quer no gerente do lodge donde te escrevo. Neto e bisneto, respectivamente, do Dr. Georges Liengne, o célebre médico de Gungunyane, falam perfeitamente o changane, e, com essa língua, quando vão ao Maputo, entendem-se às mil maravilhas, mesmo sem saberem nada de português. 136
Mas outros não desconseguiram, e com naturalidade
Com estas três últimas reflexões – duas sobre a mistificação do leigo (termo tão pouco cristão) e uma sobre a língua – termino esta já longa carta, se, pela quantidade de palavras, já não lhe mudei a natureza e outro nome lhe deva atribuir. 137
O que de facto interessa de tudo isto
 Olha, Eric: por muito pequenino que tenha sido o meu contributo para a evangelização da Zambézia, em comparação ao de gigantes, como os Dehonianos e Capuchinhos, Jesuítas e seculares, Maristas e Hospitaleiros de S. João de Deus, e à grandeza de tantas mulheres – religiosas umas (Coração de Maria, Franciscanas Hospitaleiras, Vitorianas, Amor de Deus, Agostinianas e as posteriormente chegadas ou surgidas), seculares outras (Coração de Jesus, Teresianas de fugaz passagem, Auxiliares persistentes) – mulheres que, se, até certa altura e mesmo agora, mais não brilham, é penas pelo machismo estrutural (e pecaminoso senão herético) que ainda domina a nossa Igreja, e também, justiça seja feita mesmo contra elas, por elas próprias não se convencerem de que a humildade nunca pode contradizer a verdade e a justiça, por muito pequenino que tenha sido (e foi-o, de facto, dizia eu) o meu contributo para a evangelização da Zambézia, senti-me e sinto-me feliz por um dia ter sido aceite ao lado desses gigantes e dessas tais grandezas femininas, e penso que ainda hoje muito poderíamos fazer em comum. 138
Os e as verdadeiramente grandes
Comecei por dizer que tinham sido as tuas perguntas que me sugeriram esta carta alargada, mas na verdade já em 1991 Vito Valler, em carta de Agosto, me pedia material sobre as «lutas que tivemos ao longo dos anos que passaram», e em carta de 3 de Novembro, a minha «biografia resumida», tudo para a História dos 50 anos da chegada dos capuchinhos a Moçambique. Não sei se por falso pudor se por cobarde humildade (pudor e humildade não são nada o meu apanágio), fui sempre adiando. Depois foi o Sopa (a quem devo, com a Inês, o recanto que hoje ocupo) a sugerir-me memórias – termo que me repele, porque não sinto nostalgia, mas um grande entusiasmo em ajudar a construir o presente, e, se saudades tenho, é do futuro. 139
Três encorajamentos
Um abraço deste recanto da África austral para essa América do norte, onde buscas saber e sucesso. 140
De um moçambicano
para um suíço

Texto concebido em Louis Trichardt e terminado em Shiluvari,
aos 9 de Janeiro de 1998 (ontem completei 73 anos).


J Ú L I O

P.S.  
Estava eu a dactilografar esta carta (ainda não cheguei ao computador ou ele ainda não chegou até mim), e ainda numa falsa hesitação, quando recebo notícias de Trento: «Lembro-me do passado, do que fizeste na Zambézia, do teu profetismo, das tuas tentativas. Algo conseguiste, podes ficar satisfeito. Não largues esta tarefa importante.» Etc.etc. Já estamos em 30 de Abril, a Jessica foi para a Rússia em 28. O Eric vai ter com ela, depois de uma passagem por essas bandas. Eu vou ao hemisfério norte por sessenta dias, e espero passar pela Suiça. Lausanne está na minha agenda.  


patanal





1

 

2

 

3

 

4

 

5

 








    
 

 
    


Segunda Parte



ekumip02

    
 

 
    


CAPÍTULO PRIMEIRO



ekumip02c01

 

odete_a

 
O baptismo de água - penso eu - é para nos inserir de facto e de pleno direito na comunidade cristã, que deveria ser a mais fraternal/sororal de todas, com uma imensa pluralidade de carismas, mas sem a menor sombra de hierarquias. 141
Paradigma de todos os grupos
Uma anarquia, diria eu, se ao menos um leitor me compreendesse e não cometesse a grosseria tão frequente (até por pessoas de responsabilidade) de traduzir essa palavra por caos ou desordem. 142
Equívoco intencional?
Para se adquirir a chamada (ao menos pelos teólogos clássicos) graça santificante, bastaria - penso eu - o baptismo de desejo explícito ou até implícito. 143
Desejo eficaz
E estamos longe (não muito longe, porque afinal é dos meus dias) dos tempos em que condenávamos ao limbo as crianças não baptizadas e talvez até os chamados pagãos rectos e puros. Um estado natural, certamente cheio de delícias de um conhecimento filosófico de Deus e da criação (como lá se deveria aprofundar a teodiceia!), mas longe da glória da visão beatífica. 144
Conclusão teológica falida
Em «boa» hora (leia-se em má hora), mas não no princípio, também as crianças começaram a ser baptizadas (tempos de cristandade: não, certamente, de cristianismo). 145
Desvio que gera a cristandade...
de má memória
Os pais se arrogavam (também eu o fiz) o direito de tomar compromissos em nome dos filhos indefesos: tantas vezes gerar autómatos, senão apóstatas, em vez de criarem condições de oportunamente surgirem cristãos conscientes - o que só seria possível na idade adulta, na pujança dos inícios da juventude. 146
Arrogância de tutores
Nisso têm razão os baptistas: como tenho sempre presentes os noventa minutos passados com aquela calorosa pastora britânica que conheci em Nauela na véspera da Ascenção de 1957, salvo erro durante uma das visitas pastorais do primeiro bispo da então recente diocese de Quelimane! 147
Fidelidade ao Espírito
Tudo isto parecia ficar bem claro no Vaticano II, mas, em vez de se progredir, foi-se regredindo, penso que já nos últimos anos de Paulo VI, com um vislumbre de esperança com João Paulo I, logo apagada (por quantos anos?) com a subida ao trono de João Paulo II. 148
À prova a nossa esperança
Mais ou menos se vão aceitando os princípios (o ressurgimento dos catecumenatos é uma prova disso), mas, por motivos pastorais (a mágica palavra que, em vez de seguir os rectos princípios teológicos, os invalida na prática), continuam a baptizar-se crianças nas mais diversas idades - agora, diz-se, baseados na fé dos pais e da comunidade. 149
Pelo menos o reformismo
Só que, mesmo aceitando a proposição, seria preciso saber se a fé de cada progenitor/a, existindo, é de facto esclarecida, e se a dita comunidade não passará de tradicional paróquia, agora ingénua ou intencionalmente crismada com novo rótulo. 150
Mas em que bases?
Penso que, para minorar todos esses inconvenientes, Francesco Monticchio, capuchinho de Bari, meu pároco na altura, resolveu pelo menos só baptizar os filhos daqueles progenitores ou tutores que participassem em algumas reuniões de preparação. 151
Minorar o mal
Em Outubro de 1980, e Janeiro, Julho e Agosto de 1981, uns dez encontros ao todo, coube-me a vez de preparar e orientar esse minicurso, se assim se pode chamar. Nessa altura já estava longe do prestígio do missionário leigo de uma década atrás, e tive a prudência de me proteger sob o discurso calmo e sereno de um professor liceal, tido como conservador... 152
Cobardia ou desejo de eficiência?
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Se o baptismo de água insere na comunidade, parece evidente que a preparação para ele deve, antes de tudo, incidir no bom relacionamento entre os seus membros. Sem isso, nem sequer se poderia ou deveria falar em comunidade. 153
Inserção na comunidade
E, antes de tudo, o relacionamento dentro de cada casal, para depois passarmos ao relacionamento com os entes gerados, e depois com a sociedade nas suas mais diversas áreas, vertentes, aspectos. 154
Plano tripartido
Quando se fala em casal, parece que estamos viciados a logo pensarmos num contrato registado no foro eclesiástico e/ou civil, com aquele elenco de direitos e deveres, que levou a sintetizá-los no símbolo do nó indesatável - origem de tanta hipocrisia, infidelidade e infelicidade - que, no entanto, inúmeras gerações candidamente aceitaram. 155
Contrato fatal
Mas será, de facto, esse contrato que, entre cristãos, foi elevado a sacramento, ou a comunidade íntima, consciente, livre estabelecida entre duas pessoas que se amam conjugalmente? 156
Sinal:
de vida ou
de morte?
Lei e amor serão compatíveis? Ou aquela mata este? Não terá chegado o momento de optar entre o Antigo e o Novo Testamento? Dar este salto pelo menos antes de entrarmos no terceiro milénio do nascimento histórico de Cristo? Libertarmo-nos de um direito canónico que contradiz não só pontual como estruturalmente o Evangelho? Instituição, visibilidade, corpo, terá de traduzir-se por sociedade perfeita, hierarquia, estado soberano, rede diplomática? 157
Opção consciente ou renúncia à condição de ser humano
Ora, falando-se em casamento ou matrimónio, penso que poderemos colocar o acento na comunidade de amor conjugal, penso mesmo que é esta a sua essência, incluindo, portanto, a união de facto, registada ou não, que em boa hora foi incluída num projecto1 de lei de família em Moçambique, e que é muito diferente da união fortuita. 158
Essência do matrimónio
Para o perceber, temos de - sem negar as raízes, mas definitivamente - dar o tal salto (mais do que qualitativo, porque específico) da imposição da lei mosaica, que escraviza, para a proposta do novo mandamento, que liberta. 159
Salto para a liberdade
Aquele amar como a nós mesmos já parecia extraordinário: mas era apenas uma preparação progressiva para o amar como Eu vos amo. Estas últimas palavras, pronunciadas pela Palavra feita carne, levam-nos para lá das fronteiras do que até então parecia possível, levam-nos a uma universalidade e profundidade que nos torna outros: a quantidade levada a uma dimensão tal que nos transforma qualitativamente, que nos converte de velhos em novos. 160
A vida sem fronteiras
Maravilhosa pedagogia (ascese com que vamos vencendo o egoísmo): agora continuam a existir inimigos, mas também eles são alvo do nosso amor, não para que continuem a explorar-nos, mas para que lhes possamos proporcionar a recuperação. 161
Ascese que transforma o mundo...
E continuaremos a amar-nos a nós mesmos (que aberração não nos amarmos a nós mesmos!), mas agora com mais força para vencermos o egoísmo individual ou colectivo, porque o amor ao próximo excederá o amor a nós mesmos. 162
...nós incluídos
E Cristo não nos propôs outro mandamento. Quem nos poderá impor outros? 163
Jamais tutores para adultos
Além do amor universal, que pode não ser recíproco (como o amor que dedicamos a desconhecidos e até a inimigos), Cristo deu--nos ainda o exemplo da amizade (essa, por essência, é sempre recíproca) e não só com homens, mas também e talvez sobretudo (se não quantitativamente ao menos qualitativamente) com mulheres. 164
Amizade sem fronteiras
Outra novidade de há 2000 anos... ignorada ainda hoje por muitos e por muitas... que faremos para que essa ignorância não transite para o terceiro milénio? Ainda há poucos anos, até em conventos e seminários, a palavra amizade era tabu e sabemos em que degenerava. E aos casados e casadas só se toleravam amizades do mesmo sexo, e também sabemos em que degeneram. 165
Atrasados vinte séculos
Ora se Cristo, como dissemos, talvez não tenha sido com mulheres que travou o maior número de amizades, pelo menos em qualidade deve ter sido com elas que primou. 166
O primado da amizade
Biblistas e teólogos, parece que fugiam a falar-nos destas coisas, mas o Espírito fala agora bem alto pela voz de teólogas, ainda não tão alto, no entanto, como é necessário. (Ignorância, pelo menos, já não podemos alegar.) 167
Finalmente... teólogas!
Assunto muito interessante, sem dúvida, para o final do ano 1997, em que foi proposta a figura do Verbo feito carne, e para o início do ano 1998, em que nos é proposta a actuação do Espírito do Amor. Não poderia a Pastoral enveredar por aí na preparação do jubileu do ano 2000? 168
Sugestão pastoral
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Se no Cristo histórico encontramos o paradigma do amor universal e da amizade, é no Cristo místico que talvez possamos ir descobrindo o mistério do amor conjugal: na união hipostática e nas relações pessoais e íntimas daquilo a que tão prosaica e equivocamente nos habituámos a chamar Trindade, vamos exaurindo inspiração para as relações matrimoniais. 169
O histórico e o místico
Os dois mistérios mais grandiosos e inesgotáveis - o da Incarnação e o da Vida, da Verdade e do Amor personificados -, agora e aqui, vividos, espelhados e concretizados na intimidade de cada casal. 170
Síntese inefável
Talvez aqui se encontre o fundamento da unicidade tão apregoada docasamento. As nossas limitações humanas, se são compatíveis com um amor universal que abranja todos os homens, nós próprios incluídos e os inimigos também, e sem possibilidade de esperar reciprocidade (tal é essa universalidade!), e se podemos travar um relativo número de amizades, mas não excessivo (nem Cristo deve ter tido muitas), desconseguimos, em absoluto, manter mais do que um único amor conjugal, ao menos simultaneamente. 171
Mistério do uno
Que o digam os polígamos. Marido, não tomes duas mulheres: desposar duas é matar a primeira - canta-se num rito de iniciação da África banta. 172
Lição de mulheres bantas
E até os muçulmanos, ao terem o cuidado de exigir que o marido dê igual amor a cada esposa, chegam afinal à conclusão de que, sendo isso impossível, o Alcorão o que pretende é induzir à monogamia.  173
e do Alcorão
Isto me dizia um imamo, quando colaborava com a equipa organizadora de um encontro de quarenta e uma missionárias e missionários católicos, que se realizou em Quelimane, de 1 a 8 de Setembro de 1968, e que se debruçou sobre os problemas do matrimónio banto 174
Para além do ecumenismo
Esta exclusividade, porém, reduz-se ao plano genital, que, para funcionar, exige uma grande abertura em todos os restantes campos, e está longe, portanto, de fechar o casal. 175
Lusco-fusco da palhota e fogueira ao ar livre
O respeito pela profissão (que pode ser a mesma ou não), pelas amizades (que podem ser as mesmas nuns casos e outras, noutros), pelos gostos (que podem divergir em muitas coisas) - é essencial para que o amor conjugal não se apague. 176
Personalidades libertadas
Não é que a comunidade do casal se restrinja à esteira ou à cama, longe disso: o amor conjugal supõe, entre os dois, uma forte amizade proveniente de certos interesses comuns e de uma grande admiração recíproca ao menos em alguns aspectos das respectivas personalidades. E, evidentemente, pressupõe o amor universal que, neste caso, não será de inimigos. 177
Amplitude dos pressupostos
O que se reafirma é que a exclusividade do amor conjugal, longe de ser uma prisão ou um laço (evoque ele gravata ou forca), é fonte de liberdade - e tanto maior quanto maior for a fidelidade. 178
Liberdade proporcional à fidelidade
Talvez não haja nada que mais destrua o amor conjugal e as amizades de todo o género como quando, nos grupos de estudo, trabalho ou divertimento, estando presente algum casal, um dos cônjuges, só por o ser, se arroga qualquer direito a mais: é o fim do grupo e, mais tarde ou mais cedo, do próprio casal. 179
Morta a amizade...
A intromissão, a indiscrição, o ciúme matam o amor conjugal, a amizade e oxalá não cheguem a matar o próprio amor universal (que deixa de o ser se excluir uma única pessoa, talvez um único ser). 180
...morre o amor
E oxalá fosse desnecessário falar de igualdade, uma vez compreendida a exclusividade genital e relembrada a liberdade que todo o amor pressupõe. Infelizmente é por aí que tantas e tantas vezes se destrói a unidade (mas esta também vai necessitar de algum esclarecimento). 181
Desigualdade destruidora
Amor conjugal, que é muito diferente de desejo, embora o não exclua (há quem diga que gostar é de coisas, mas as pessoas, essas, amam-se), amor conjugal só é possível no respeito pela igualdade de direitos: direitos da pessoa (que está antes de qualquer diferença sexual ou de género: como isso se percebe bem nas línguas bantas e como isso se confunde tanto nas românicas!), direitos do sexo (que não se reduz à genitalidade, porque inclui os aspectos genético e hormonal), direitos de cada cônjuge. 182
Gostar de e amar a
Impossível viver as delícias somático-psíquico-espirituais da união genital, se no íntimo de cada um existir o menor complexo de superioridade ou inferioridade. Como me lembro daquela noite no meio dos arrozais, depois de um jantar em acolhedora palhota, assistido por Daniele Stanchina, capuchinho de Trento, em reunião de casais: uma mulher, de uma grandeza de alma invulgar, confirmada pelo marido, testemunhava isso mesmo (o novo prazer sentido pelos dois, quando conseguiram ultrapassar os pequenos desníveis que ainda restavam nas atitudes mentais... que as de comportamento já haviam desaparecido há muito). 183
Condição sine qua non
Igualdade de direitos na esteira (iniciativa incluída, é evidente: sem ela, que igualdade seria?) é impossível se não existir nos outros lugares e em todas as outras situações e circunstâncias: no local de trabalho, no de residência e no lar (nada de evocações culturais, na verdade cheias de malícia). Se não há profissões femininas nem masculinas, mas dimensões de género em cada profissão (o que exige existirem mulheres e homens em todas elas), também não há funções domésticas reservadas a cada cônjuge (salvo, como é óbvio, a paternidade e a maternidade no que têm de mais específico): os dois têm de participar em todas elas, e é se querem participar nas tais delícias a nível humano e não apenas a nível da animalidade. 184
A preparação começa fora da palhota
E não me venham com insinuações biopsíquicas... Nunca me esquece o que um companheiro sul-africano do A.N.C. me dizia, quando refugiado em Moçambique, em tempos do apartheid. Era casado com uma moça argentina, que ainda tinha as marcas corporais da tortura por, quando novinha, ter lutado com a irmã e o pai, cada um por seu lado, pela justiça social na América latina. Logo após o primeiro filho, perguntava-lhe eu a brincar, mas convencido de que é no lar que se conhecem os revolucionários: "-Então?  Esta noite coube-te a ti ou à tua mulher mudar as fraldas?" A resposta foi pronta e de uma simplicidade impressionante: "-Cabe-me sempre a mim. Só ela pode amamentar. É natural, por isso, que a compense ao menos mudando as fraldas do bébé durante a noite." E não eram católicos... 185
Exemplo de inesquecíveis camaradas
Admitida e praticada a igualdade de direitos, parece que o caminho para a decantada unidade ficará muito facilitado. Mesmo assim, tenho sempre presente uma passagem de um teólogo, salvo erro o dominicano Schillebeeck, em que se insiste para colocarmos mais o acento na comunicação do que na união - desejo não raras vezes gerador de ansiedades e frustrações. 186
Para evitar o nervosismo perfeccionista
É claro que unívoco é uma coisa e unido é outra: as diferenças não contradizem a união: pelo contrário, permitem a complementaridade e, portanto, o enriquecimento mútuo. Mas parece não haver dúvidas em que é mais psicológico, pedagógico, colocar o acento na comunicação - a todos os níveis e reciprocamente. 187
Mais do que união, talvez comunicação
Também na comunicação íntima dos corpos é fundamental não nos limitarmos a ver neles a parte física e biológica, mas todo o psiquismo (com a sua afectividade e emotividade), toda a espiritualidade (com a sua intelectualidade e voluntariedade) e, se entre cristãos, todo o suplemento vital que os sacramentos da iniciação (baptismo, crisma e eucaristia) nos conferem. 188
Hilemorfismo aplicado
Quantos casais (por culpa de quem ou de que instituição?) maniqueisticamente reduzem a parte específica do amor conjugal a uma fraqueza natural com que é preciso condescender (tolerar) para evitar males piores...  que ofenderiam ainda mais a castidade... 189
Dualismo platónico
Em boa hora, H. Caffarel, com as suas Équipes de Notre--Dame, vem esclarecendo o mundo cristão de que a castidade não tem nada de tabu, mas é uma virtude bem positiva que nos faz gozar no mais alto nível a união conjugal nos seus actos mais específicos. Mas no século XIX (diríamos melhor: no século XIX) - volto a evocar palavras do Professor E. Schillebeeck (desta vez no quarto colóquio para assinantes da revista CONCILIUM) - "pela primeira vez em toda a história da humanidade, apareceu alguém - Max Scheler - a encarar a sexualidade como expressão do amor. Antes do fim do século XIX, a sexualidade fora sempre considerada em vista da procriação e fora de todo o contexto de amor conjugal." 190
Revolução sexual dentro da Igreja?
No mundo banto, porém, desde há séculos, ao menos num plano natural, o acto conjugal, longe de ser uma união meramente física e fortuita, é um acto que implica a vibração de todas as forças sociais e cósmicas: actualização do mito da terra e da chuva que se entrelaçam para que a vida (em todos os seus aspectos) surja em abundância e para felicidade de todos. 191
Antigo testamento banto
É claro que o maniqueísmo foi uma heresia prontamente condenada, mas as suas sequelas aplicadas ao casamento (e não só) chegaram aos nossos dias. E o mais grave é que, não obstante todas as orientações para que se siga a linha hilemorfista de Aristóteles e Aquino, é a linha platónica (com o seu dualismo reactualizado em Descartes e tantos outros)  que informa desde há muito os nossos catecismos. Há pouco mais de meio século, António Ferreira Gomes, numa daquelas aulas que poucos conseguiam acompanhar, alertava-nos para essa triste realidade. E até no FRATERNIZAR temos assistido a incompreensões afinal talvez apenas devido à divergência destas duas linhas. 192
Como as agulhas do caminho de ferro...
Novamente tocamos o mais universal da filosofia com o mais concreto do acto amoroso dos esposos, o mais abstracto a tornar felizes ou infelizes os momentos mais decisivos da vida do casal. 193
Abstracto e concreto entrelaçam-se
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A distinção destas três espécies de amor (universal, de amizade e conjugal) são essenciais para evitar tantos equívocos na vida prática. 194
Distinguir para unir
O mais interessante é que, parecendo uma coisa corriqueira e que todos sabem, na verdade os equívocos estão sempre a dar-se. 195
O fácil revela-se difícil
A união genital é para exprimir o amor conjugal, e só este, portanto, o torna legítimo, coerente, puro, fonte de autêntico prazer, alegria e felicidade. A amizade, só por si, tem outras formas de expressão. 196
Expressões específicas
Se aquela é realizada só a título de amizade (como tantas vezes acontece), não só esta se esvai como o fugaz prazer traz consigo inerente um certo desgosto. Há uma incoerência natural. 197
Se se trocam...
Muito menos o amor universal poderia justificar semelhante acto. Nem união seria, mas simples contiguidade de corpos. E nem vamos falar de violações (dentro ou fora do matrimónio, com adultos ou com menores), porque isso seria das patologias mais graves. 198
...pode até chegar-
-se à aberração
Jorge Amado, no seu romance CAPITÃES DA AREIA, tem uma página lindíssima em que intuímos à maravilha a diferença entre amizade e amor conjugal. Aquela menina da rua, Dora, cria uma amizade a toda a prova com tantos outros meninos da rua. Mas há um e só um, Pedro, com quem ela se enlaça amorosamente: é o amor conjugal e não só a amizade, extensiva a todos os outros. Esta é aberta, abrange todo o grupo; aquele é exclusivo: só abrange um. E, menina da rua, já moça ( -Tu sabe que já sou moça?), distingue bem, toma a iniciativa, é correspondida, e morre feliz. Os outros, igualmente meninos da rua, também distinguem entre amizade e amor conjugal, respeitam, e acompanham-na nesse transe do desaparecimento físico. 199
Ilustração literária
Quando é que nós deixaremos de escolher o cônjuge por outros interesses que não sejam os do amor conjugal? Já não falo de interesses de dinheiro, poder ou posição, mas por qualidades muito boas e muito úteis para o lar e a família, que, no entanto, de pouco ou nada valem para o amor conjugal. 200
Incoerências levianas
Quantos dramas entre pessoas tão boas, mas que, se forem sinceras consigo mesmas, sabem quão infelizes são e quão infelizes fazem os seus companheiros ou as suas companheiras. 201
Consequências fatais
Se perguntássemos a cada um dos cônjuges se amam o outro ou a outra, teriam sinceramente de dizer que sim (mas de que amor: o conjugal?). São capazes até de dizer que têm uma certa amizade e muitas coisas em comum. 202
As tais confusões
Mas, se quiserem ser sinceros, têm de confessar também que isso não é amor conjugal, que esse não o sentem. E só esse justifica o casamento. 203
Irmãos ou cônjuges?
São divorciados de facto, mas aparentam ou querem aparentar que continuam a ser casados... se alguma vez o foram. 204
Hipocrisia de facto
E, se têm relações genitais, estas, de que qualidade são e que legitimidade ou autenticidade têm? Haverá moralista que, hoje, me diga que, para além do amor conjugal, algo possa justificar semelhante enlace? Serão as certidões de casamento que vão legitimar aquilo que de mais sagrado há na intimidade conjugal? 205
Concubinagem inconsciente
Não quero entrar nas implicações de tudo isto, mas parece-me urgente uma pastoral de verdade e a desmistificação de muitas situações. 206
Pastoral da verdade
Que amizade será aquela que força o companheiro ou a companheira (às vezes até são os que se armam em mais ciumentos ou ciumentas!) a representar um falso papel, só porque um dia houve um engano, pior ainda se prolongado durante anos? 207
Obstinação no erro
Que amor universal é esse que impede cada um de finalmente encontrar o amor conjugal? 208
Impedir o bem pode ser amor?
Que casamento é esse, no foro civil ou eclesiástico, que algema pessoas que se não amam conjugalmente? 209
Falsidade
Onde está a sua validade, tenham ou não dinheiro para a prova judicial? 210
Nulidade
E continuaremos a abençoar casais sem amor conjugal, ainda que não se odeiem ou tenham mesmo alguma ternura recíproca? 211
Mentira
Mas o matrimónio é para unir quem não se odeia ou mesmo dois bons amigos, ou para duas pessoas que, além disso, se amam conjugalmente? 212
Autenticidade esquecida?
E se, em vez de leis, canónicas que elas sejam, porque pior ainda (o mandamento de Cristo reduz-se a um e bem horizontal), fôssemos encarar o casamento como comunidade de amor (conjugal, evidentemente), baseado, portanto, na verdade e na liberdade, além de tornarmos felizes tantos lares, não iríamos dar golpe de morte na prostituição e nos chamados amores clandestinos? 213
Nunca perder de vista o essencial
A prostituição, para além dos muitos motivos económicos em jogo, não será alimentada grandemente por insatisfações (às vezes das mais inocentes) geradas no próprio casal? Que o digam psicólogos, sexologistas e psiquiatras (e até prostitutas e prostitutos). 214
Até para evitar o pior
E aquilo a que chamamos amores clandestinos? Clandestinas serão as uniões com quem se ama ou com quem se não ama, ainda que se patenteiem todos os certificados dos registos civis ou canónicos? 215
Onde está a clandestinidade?
É claro que já estou a ouvir o cansado argumento dos filhos - cansado, não porque não seja real, mas porque é sempre colocado para reforçar o erro, a falsidade, a mentira, portanto, a hipocrisia não só pontual como institucionalizada. 216
Lengalenga do costume
Ora os filhos são os que menos se deixam enganar. Eles sabem muito bem, embora à sua maneira, se os pais se amam conjugalmente ou não, e, por isso, não é perpetuando uma situação falsa que se vão tornar menos infelizes. De facto, só podem ser felizes se gerados e educados no amor conjugal e não em qualquer outro amor, por muito cristão que seja ou que pretenda ser... Mas o relacionamento entre progenitores e gerados não é para hoje. 217
A verdade feita carne
A nossa intenção ao dissertar sobre amor universal, amizade e amor conjugal é apenas desfazer os equívocos gerados pela sua não distinção prática. 218
Os três amores
Pareceu-nos assunto básico para que as comunidades cristãs e os casais e demais pessoas que as integram estivessem e estejam aptas a acolher os neófitos. 219
Comunidade não manipulada nem manipuladora
Pelo amor universal, o mundo será convertido à não violência activa - uma força muito mais eficaz do que a das armas mortíferas. 220
A paz conquistada
Pela amizade, força muito maior do que a da disciplina e a da hierarquia, produziremos não só bens económicos como também artísticos que satisfaçam o homem todo e todos os homens e não apenas certas élites. 221
Plataforma fecunda
Pelo amor conjugal, mesmo dentro daquelas limitações humanas (que talvez constituam o tão discutido pecado original), realizamos a maravilha das maravilhas: gerar a verdade, às vezes feita carne, na liberdade que é a única lei, porque o amor é o único vínculo. 222
A única lei e o único vínculo
Com a sua filosofia de fecundidade, fraternidade e reciprocidade - filosofia que nem por nada os Serviços de Instrução da época colonial queriam que se ensinasse -, bem preparados estão os povos bantos para esta revelação. 223
Ápice da cultura banta
Não resisto sem transcrever este texto de Samora Machel, em A LIBERTAÇÃO DA MULHER (...), de Janeiro de 1974: 224
Clarividência de um líder
 
"A relação familiar,
a relação homem-mulher,
deve ser fundada
exclusivamente no amor.
Não falamos aqui
das concepções românticas
e banais do amor, que pouco mais
são que excitação emocional
e idealizações sobre a vida real.
Para nós o amor só pode existir
entre seres livres e iguais,
que possuem um ideal
e engajamento comum,
ao serviço das massas e da Revolução.
É sobre esta base que se edifica
a identidade moral e afectiva
que constitui o amor.
Precisamos pois de descobrir
esta nova dimensão,
até hoje desconhecida no nosso País."
 
 
   

Sudwala Caves, 21 de Novembro de 1997

Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro
 





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CAPÍTULO SEGUNDO



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Maria João

Maria João



Leone Zeni é um capuchinho de Trento. Nunca esqueci os seus primeiros meses de África (vivia eu na Missão de Coalane): prescindiu de outras actividades e outras conversas, e estudou a fundo a língua banta da nossa área; não lhe agradaram as gramáticas anteriores dos seus confrades, e escreveu outra. Levou a sério o n.º 5 do título I da primeira parte do REGULAMENTO DOS MISSIONÁRIOS  das Dioceses da Beira e Quelimane, ou nem precisou disso, tão evidente era a necessidade da língua para a evangelização e tão grande era o atractivo da sua beleza e filosofia subjacentes. 225
A língua antes de tudo
Algum tempo depois, andava eu envolvido nas Équipes de Notre-Dame, sugeridas por Manuel Vieira Pinto, na altura promotor do movimento Por Um Mundo Melhor, vi, em Leone Zeni, uma sensibilidade pouco vulgar para compreender os problemas familiares, e logo me esforcei por também o envolver em retiros de casais. 226
Espiritualidade conjugal
Cerca de uma década e meia depois, tendo tido conhecimento das reuniões que eu preparara para os pais que desejavam baptizar os filhos (recém-nascidos ou ainda crianças), logo Leone Zeni surge na minha livraria (o que já não fazia há anos), e quis ver minuciosamente os esquemas, apreciar, anotar. 227
Esquemas de três sessões
Alguns meses depois, fins de 1981, inícios de 1982, estando eu no Far West, Bernardino Correia de Andrade, que havia sido ordenado presbítero em Quelimane e aí havia ficado célebre pelo Centro Juvenil que fundara, não obstante certos atritos com a Mocidade Portuguesa (então reinante), e pelas suas aulas de Moral no liceu, e que mais tarde foi assistir os portugueses numa cidade da Califórnia, também ele me pediu os referidos esquemas e que lhos explicasse de viva voz. 228
Apóstolo da juventude e não só
Durante cerca de um mês, bem queria tempo para isso, mas desaguentava, tal era a sua actividade, apenas interrompida para a oração e o indispensável alimento e repouso. 229
Sempre atarefado
Finalmente, uma hora antes do meu regresso, numa das salas de espera do aeroporto de S. Francisco, lá conseguimos tranquilidade e lá lhe mostrei e expliquei os referidos esquemas. Pediu-me por tudo que lhos desse e que, o mais brevemente possível, os traduzisse em prosa. 230
Mas persistente
Uma década e meia depois (será muito?), aqui estou eu a satisfazer o seu pedido, talvez em três artigos. Mas quando será que ele terá tempo para os ler? De qualquer modo, mesmo sem os esquemas à vista, já escrevi um sobre as relações dentro do casal, e, hoje, proponho-me escrever sobre as relações entre geradores e gerados, para, depois, talvez, falar do relacionamento com a sociedade. 231
Resposta tardia
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As relações entre pais e filhos só no preciso momento da concepção é que  podem dizer-se verticais. 232
Verticalidade momentânea
Estes não podem ser consultados por aqueles, como é óbvio, mas nem por isso vamos converter o facto numa fatalidade, desde que saibamos conduzir a momentânea verticalidade até uma permanente horizontalidade, através de uma cada vez menos acentuada obliquidade, nem sempre pacífica, mas sempre longa e lenta. 233
Logo convertida em obliquidade
Caminhada de noventa graus, com momentos cheios de beleza, mas também com graves crises, talvez, sobretudo, nos últimos graus, minutos e segundos. 234
Beleza e aridez
De direitos absolutos dos pais, nem mesmo na concepção se pode falar, porque, além de uma planificação familiar consciente (de que tanto hoje se escreve), também o batido lugar comum do fazer amor terá de ser mesmo amor e não qualquer amor, mas amor conjugal. 235
Autenticidade dofazer amor
O direito de procriar é condicionado pelo dever de gerar no amor e nas condições óptimas livremente escolhidas pelos cônjuges: gerar no amor quer dizer gerar no prazer, na alegria, na beleza, na liberdade. 236
A verdade sentida na carne
Não são meras plantas que estão a reproduzir-se, e mesmo estas é num quadro bem estético que o fazem. 237
Num ambiente estético
Nem são animais que, embora às vezes com bastante brutalidade, já manifestam certa ternura. 238
e de ternura
São seres humanos que, nessa ternura, têm de colocar toda a sua técnica, toda a sua ciência, toda a sua arte, toda a sua filosofia, e até todo o seu suplemento de vida que eu acredito os cristãos tenham. 239
Corpos em sua plenitude trasbordante
Só assim o desejo será informado e transfigurado no amor conjugal: já não é a satisfação própria que se procura, mas a do cônjuge. 240
...e amorosa
Suposto isto, e suposto que esse fazer amor não se banalize nem se ligue apenas à procriação, mas a gerar constantemente a verdade e a felicidade do casal, temos todas as condições psicológicas para bem encaminhar o tal relacionamento com os filhos até a meta final (mas final mesmo, sob pena de cair em paternalismos e maternalismos, leia-se, esclavagismos) da idade adulta. 241
Criatividade em cada abraço
A dificuldade está, suponho eu, no ritmo da horizontalização, que terá de ser progressivo, mas talvez nem sempre contínuo, talvez com saltos, recuos, paragens, sei lá. 242
Não basta estratégia:
é preciso táctica
Esta caminhada ao longo de dezasseis ou dezoito anos, em que o relacionamento não pode ser vertical, longe disso, mas também não pode ser horizontal, porque a criança não é um adulto de estatura pequena, e o adolescente também ainda não, esta caminhada num plano inclinado requer o recurso a todas as técnicas, ciências e artes de uma pedagogia bem esclarecida e também de um amor que não seja mero disfarce de egoísmo. 243
Criança, adolescente, adulto: mistério a descobrir todos os dias
O amor paternal e o amor maternal talvez sejam dos mais difíceis, porque há o cuidado, sob pena de morte, de cortar o cordão umbilical fisicamente, mas não há o mesmo cuidado em o cortar psicologicamente e, afinal, também é a vida que está em jogo: a felicidade de gerados e geradores. 244
O cordão difícil de cortar
Fica comprometida a função educativa e o próprio relacionamento conjugal. Aquilo a que chamamos amor paternal ou maternal não passa de egoísmo, a dois, a três, a quatro, mas sempre egoísmo e sempre mistificado! Atrevamo-nos a dizer esta verdade a um paizinho a uma mãezinha, e esperemos pela resposta! 245
Egoísmo disfarçado
E o amor conjugal, sem o tal cordão cortado, que futuro pode ter? Igualmente a morte. E os filhos, as maiores vítimas, às vezes até muito para além da idade adulta. Neles se procurará uma compensação do amor conjugal, uma sublimação, que se insiste em apelidar de amor paternal ou maternal. 246
Desvio desastroso
Talvez tivessem menos má sorte se os pais fossem buscar compensações fora do lar: pelo menos não os asfixiariam no tal egoísmo mistificado. E o pior é que é uma asfixia de que ninguém se dá conta. 247
A falsidade não adianta
Amor supõe alteridade. Se o cordão não é cortado, os filhos serão parte de nós mesmos e não outros, com quem possamos inaugurar relações do tal amor universal (que não exclui ninguém) e, mais tarde, relações de amizade, se nós quisermos, e eles, uma vez adultos, também quiserem. 248
Amor e amizade frustrados
Penso vir mesmo a calhar aquela frase que li no FRATERNIZAR n.º 47, página 23, a propósito do jesuíta Llanos: «se é verdade que ninguém pode escolher a família em que nasce, também é verdade que pode decidir com que famílias vai viver o resto da sua vida». 249
Jesuíta de punho erguido
E de nada vale querermo-nos enganar, dizendo que são relações de amizade que mantemos com os filhos, porque a amizade só é possível na horizontalidade, e esta não existe senão quando superadas as relações filiais, o que também só será possível na idade adulta. 250
O disfarce não compensa
Prolongar estas relações será paternalismo-maternalismo, sempre gerador de opressão, mais tarde ou mais cedo recíproca, tantas vezes imposta sob chantagem económica e/ou afectiva, e também de hipocrisia, quando se encena com muita naturalidade uma submissão ou uma ternura que, no fundo, não existem. 251
e gera opressões recíprocas
Um adulto, se o é, não precisa de paizinhos nem de mãezinhas, muito menos de avozinhos, avozinhas. Um adulto precisa, sim, de amigos e amigas das mais diversas idades e dos mais diversos meios, que podem ou não ser da mesma família, na condição, porém, de terem ultrapassado esse relacionamento consanguíneo ou de afinidade, mesmo nas formas de tratamento, porque estas têm muito mais influência psicológica e social do que muitas vezes se quer acreditar. 252
Não mistifiquemos, ainda que pareça cómodo ou polido
Não é sem motivo que psicólogos e filósofos afirmam ser preciso que os pais morram para que os filhos vivam. Será isso, afinal, que se pretende, quando se resiste à fraternidade entre gerações? 253
Para quê morrer, se basta cessar funções?
Cristo também aqui nos aparece como paradigma: « -Quem é minha  mãe e quem são meus irmãos?» (Mt,12,48) 254
Qual a essência da paternidade?
« -Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão e minha irmã e minha mãe.» (Mt,12,50) 255
E da filiação?
E é sintomático como eram e são muitas vezes exactamente os que não renunciavam ou não renunciam ao tratamento de familiares que mais repudiam a sua mensagem. (Ninguém é profeta na sua terra!) 256
Contradições de quem não quer ver
O sangue estreita e mata: o espírito é que vivifica e alarga horizontes. (Cf. Jo,6,63) 257
Alargar as tendas
E também aqui a lei das heranças joga um papel muito importante, felizmente não tanto nos que se radicaram em África, mas, sobretudo, nos que permaneceram na Europa. Muitos dos nossos conterrâneos o notaram mal puseram os pés no velho continente. 258
Acumulações nocivas
Não me vou alongar neste ponto, mas seria muito oportuna uma reflexão sobre os textos inéditos de Engels que tratam deste assunto, e também uma reflexão evangélica! E nada de preconceitos sobre certos autores... 259
Sentimentalismos interesseiros
E penso que tudo ficará bem claro se não tivermos medo em afirmar que os filhos, uma vez adultos, nada devem aos pais enquanto tais, e estes nada devem aos filhos enquanto tais. 260
Servo inútil
Devemo-nos todos uns aos outros, isso sim, enquanto seres humanos. 261
De novo: alargar tendas
Os filhos não foram consultados, é evidente. Os pais, se os geraram, automaticamente contraíram o dever de os educar, criando um clima permissivo para o seu livre desenvolvimento e as suas progressivas opções. 262
Só justiça. O amor é gratuito
Ser pai e ser mãe são funções que têm um princípio e um fim. Ninguém é pai ou mãe por essência (nem mesmo necessariamente). 263
Ser homem ou mulher é muito mais
Isso é o que se quis dizer sobretudo da mulher, mas nós sabemos com que intuito. (Já pensámos no que pode estar por trás da criação do dia da mãe e, mais tarde, do dia do pai, coitadinho...?) 264
Rasteira para mulheres desprevenidas
Não vamos falar do assunto. Mas temos pena que tantas mulheres tenham caído e ainda caiam na esparrela da mística feminina. 265
Mística feminina
É uma função maravilhosa a de ser mãe (e também a de ser pai) quando nos não apegamos a ela a ponto de querermos prolongá-la para além da idade adulta dos filhos. 266
O apego à função mata a obra
Mais maravilhoso ainda é, quando se acaba essa função, saber continuar a ser mulher. E quando se sabe que, mesmo não tendo sido mãe, nem por isso se deixou de ser mulher, talvez aconteça uma maravilha ainda maior. 267
Renúncia libertadora
A função paternal e maternal, como dizia, por mais criteriosamente desempenhadas que tenham sido, nunca nos dão direito a qualquer paga ou reconhecimento. Cumprimos o nosso dever e nada mais. (Cf. Lc,17,10) 268
O amor pode ser interesseiro?
A gratidão nunca pode ser forçada, exigida: deixaria de ser virtude se não fosse livre. Apelidarem os filhos de ingratos tem sido o recurso chantagista de muitos pais, para satisfazerem o seu egoísmo afectivo, económico, de poderio ou de prestígio. Mal sabem quão caro isso lhes custa, e sem conseguirem nenhum dos seus alvos, mas apenas frustração e ridículo. 269
O ridículo de querer paga por aquilo que deve ser gratuito
Quando os governos (e até os de esquerda têm caído nisso) impõem aos seus cidadãos deveres (até pecuniários) para com os ascendentes, estão a exigir deles o que ao estado ou à sociedade compete. 270
Governos manhosos
As reformas ou pensões é que têm de ser de tal ordem que permitam a cada um escolher o local de residência, o sustento, os lazeres e o ambiente que desejarem. Uma vida a trabalhar para a sociedade não deve dar pelo menos esse direito? 271
Uma aberração: reformas inferiores aos vencimentos
Deixem os descendentes livres, e também os ascendentes. Não vamos, em nome da família, cometer crimes semelhantes aos que se têm cometido em nome da pátria e até de Deus. 272
Liberdade - a parte mais valiosa da reforma
E não é pequeno o crime de coarctar a liberdade seja de quem for, e muito pior se for a liberdade de quem se vai tornando indefeso. 273
Liberdade - a melhor expressão de respeito
E se os filhos, depois de adultos, não têm mais deveres para com os pais, também estes não os têm para com aqueles, enquanto tais. É a altura de uns e outros escolherem livremente as pessoas com quem quiserem viver e com quem quiserem travar relações, uma vez que antes nem sempre o puderam fazer. 274
Não nos estorvemos uns aos outros
Os filhos, porque não puderam escolher os pais (muitas vezes nem sequer os amigos). Os pais, porque também, e felizmente, não puderam moldar a seu gosto o produto das suas entranhas. 275
Esforços felizmente falhados
Pais e educadores não são escultores, como tantas vezes, falsa e erradamente, se diz; e mal vai quando se esforçam por sê-lo. Matéria bruta, esculpe-se; não matéria viva, e muito menos pessoas. 276
de pretensos escultores
Estas é que se fazem, e os educadores devem procurar intervir sempre menos, proporcionando, porém, sempre mais um clima próprio ao desenvolvimento livre da personalidade das crianças e dos adolescentes. 277
A vida não aceita formas
Felizes uns e outros se se puderem eleger, um dia, como amigos, já, portanto, noutro tipo de relacionamento; mas isso nem se pode necessariamente esperar, nem muito menos forçar. 278
Possível reencontro
O importante é superar o relacionamento oblíquo (o vertical nunca deveria existir após a concepção), e definitivamente entrar na horizontalidade de adultos (jovens ou velhos não importa). 279
Abolir hierarquias
A família alargada, sem negar a sua importância em determinada conjuntura histórica, tem de, por um lado, reduzir-se à família nuclear (pais e filhos menores), e, por outro lado, alargar-se ainda mais, muito para além da consanguinidade e da afinidade: o amor, a amizade, a solidariedade não suportam fronteiras. 280
Quando se estagna
Doutro modo, a família alargada - com tantos méritos num passado não longínquo - passará a oprimir casais (se é que já o não faz) e a gerar mafias (se é que já não nos espreitam). 281
Germinar de mafias
E é pena que os antropólogos tantas energias gastem a estudar as estruturas familiares, clânicas e tribais, e tão pouco se debrucem sobre a filosofia que se pode descobrir nelas e para além delas. 282
Do passageiro ao permanente
Aquele avô que, ao nascer da neta ou do neto, toma nos próprios braços essa criança e a chama de minha irmã ou meu irmão, não nos sugere exactamente que, para além de tantas hierarquias impostas por determinadas conjunturas históricas, o que mais importa na filosofia da força vital e da fecundidade não é preservar o statu quo, mas construir a fraternidade de todo o ser humano, masculino ou feminino, velho ou novo? 283
O verdadeiro ideal da vida montante
Por quê só invocar a tradição para regredir e nunca para evoluir? Por quê só a invocar para restaurar privilégios ou criar novos privilégios, e nunca para um enriquecimento conjunto, que é exactamente um dos constitutivos essenciais da filosofia do muthu? 284
Tradição feita ideologia
Não é só em nome de Deus, Pátria e Família, que se cometem dos piores crimes. Também em nome da Tradição (e até dos bons costumes...). 285
...e a integrar três valores virados ídolos
Antes da independência, o ensino primava por domesticar a memória, como convinha a seres obedientes. Após a independência, começou por se dar o primado à inteligência, como convinha a construtores conscientes da nova sociedade: saber os porquês de tudo e não apenas do pequenino mundo da própria actuação. 286
Compreensão antes da memorização
Avançaríamos para a educação da liberdade se, mesmo antes da reacção estruturada (em que vivemos agora), não tivéssemos resvalado para o stalinismo, com poucas vozes discordantes e muito oportunismo. 287
A única lei
Mas, pelo menos nós, cristãos, temos de avançar por esse caminho. É exactamente aí que desejávamos chegar com a geometria da verticalidade logo ultrapassada pela obliquidade progressivamente a caminhar para uma horizontalidade permanente. É a geometria do relacionamento geradores-gerados, termos que logo se começam a inverter numa reciprocidade e numa proporção que compete à Pedagogia estudar. 288
Lei e meta dinâmica
Também aqui terminaria dizendo, se ao menos um leitor me quisesse entender: a grande meta a atingir ao fim dos dezasseis, dezassete ou dezoito anos das funções maternais e paternais está em os recém-adultos ficarem preparados para aceitarem a liberdade como única lei e o amor como único vínculo, e a lutar por isso - não utilizando armas letais, nem como último recurso (nisso abraçam-se marxistas-leninistas e teólogos clássicos), mas armas muito mais eficazes (embora não pareçam) da não-violência activa. 289
com um único vínculo
Mas, evidentemente, é a lógica de tudo quanto fica dito, a opção é de cada um ou de cada uma: infelizmente não falta quem prefira a escravidão à liberdade, regredir em direcção à bestialidade a evoluir a uma humanidade plenamente realizada. 290
Livre arbítrio... desde que não lixe os outros
Pouco aproveitamos, por isso, das nossas possibilidades. E, do Evangelho, preferimos, também por isso, as passagens menos incómodas, e as outras, ou as silenciamos ou as interpretamos de modo a não fazerem ondas - a não mexerem com situações adquiridas (ou a adquirir), sabe Deus como. 291
como nos têm lixado até agora
E, assim, nem ao fim de dois milénios e com uma preparação de três anos para o jubileu, parecemos muito dispostos a dar o salto do velho para o novo Testamento - salto que custou a própria vida de Cristo e de tantos outros mártires, também, como Ele, de poderes políticos e religiosos. 292
Jubileu libertador ou palavra degenerada?
Ao dar-nos um novo e único mandamento (Jo,15,12-15), até Cristo nos propõe inaugurar um relacionamento horizontal... com Ele próprio. 293
Geometria evangélica
Que mais dúvidas teremos sobre horizontalidade na mais vasta pluralidade de personalidades como único processo de sermos felizes? E de lutar por ela como Cristo lutou? E de que é nessa direcção que devemos procurar que os nossos filhos se conscientizem? 294
Conscientização: não mentalização
separadores  
Queria terminar desmistificando a figura do pai e da mãe como paradigmas para os filhos, ou dos adultos para as crianças e adolescentes. Seria grande erro apresentarmo-nos como exemplo a seguir ou darmos lições para fixar, ou esforçarmo-nos por serem nossos continuadores. 295
Como teremos invertido os papeis?
Que geneticamente os condicionamos e talvez de modo irremediável - é possível... ao menos enquanto a engenharia genética não enveredar para horizontes mais positivos. Mas, sobre essa herança (que se possa ou não alterar), cada um vai construir a própria personalidade. E, se alguém vai na vanguarda, são os mais novos, que vivem já em tempos mais avançados, e não os mais idosos, que carregam com muitas velharias, de que já dificilmente se libertarão. 296
Novamente: cuidado com as heranças
Deixando de lado a parte psico-somática da herança ancestral, são os pais que devem sair aos filhos, e não os filhos aos pais. E é se queremos que o mundo avance, e não o queremos algemar ao passado. 297
Supondo os filhos novos... e não mais velhos do que os pais ...ou os avós
As raízes são para que os troncos e os ramos com folhas, flores e frutos se projectem para cima, e não para confinar tudo ao chão térreo. 298
Raízes para vitalizar: não para algemar
Termino com as palavras de Khalil Gibrar que encontrei num cartaz da Fundazione J. A. Comenius (Via Morozzo della Rocca, 9, IT - 20123 MILANO), que me atrevo a traduzir: 299
Sem medo: as coisas no seu lugar

Os teus filhos não são filhos teus
São os filhos e as filhas da própria vida.
Tu puseste-los no mundo,
Mas não são criação tua.
São teus próximos, mas não coisa tua.
Podes dar-lhes todo o teu amor,
Mas não as tuas ideias.
Porque eles têm as suas próprias ideias.
Tu podes dar morada ao seu físico,
Mas não ao seu espírito.
Porque o espírito deles habita
Na casa do futuro,
Onde não te é dado entrar
Nem sequer em sonhos.
Podes procurar assemelhar-te a eles,
Mas não querer que eles se assemelhem a ti.
Porque a vida não volta para trás,
E não se encerra no ontem.
Tu és o arco que lança os filhos
Para o amanhã


 
Mas não foi Khalil Gibrar que me levou a dissertar sobre esta geometria evangélica. Só deparei com este texto na porta da capela dos capuchinhos de Bari, em Quelimane, quando Moçambique estava em plena revolução (cessada que tinha sido a luta armada). Se hoje sou autor deste artigo, devo-o a uma cena por mim presenciada ainda em pleno fascismo, num dos últimos anos quentes do império colonial português. Foi à noitinha, numa das capitais mais populosas desse império ultramarino. Um jovem universitário dirige-se ao seu progenitor, que há muito não via. Este acabava de trabalhar no meio universitário e de ser rondado pela PIDE/DGS. Trocadas algumas palavras sobre a situação política, aquele propõe serenamente: -Aceitaria que o  começasse a tratar por tu?  -Sem dúvida.   -E que nunca mais te chamasse pai? -Certamente. Mas esta resposta pareceu-me que já demorou uns instantes mais a ser dada. E a conversa continuou: -Tenho de me ausentar para fora da cidade com um grupo de amigos. -Está bem. Esta expressão, todavia, pareceu-me cheia de tristeza: era tão raro encontrarem-se  e logo nesse dia tinha de se ausentar? Imediatamente, porém, surge nova proposição: -Quando  acabares o teu trabalho, e antes de regressares a casa, podes ir passar uns dias connosco: serás  bem recebido. 300
Momentos decisivos
Algum tempo depois, contava-me e reflectia comigo o mais velho destes dois interlocutores: -Aceitei o convite e fui ao encontro deles numa linda praia do Índico: havia casados, solteiras e solteiros e até um bébé. Foi uma das melhores experiências que tive de camaradagem, sororidade, fraternidade, que teria perdido se, nos momentos decisivos de uns dias antes, não tivesse aceitado morrer para um passado que já não existia (o passado existiu: não existe), e não recomeçasse, sempre, a viver num presente projectado para o futuro. O grupo, também de universitários, com o qual trabalhara naqueles dias anteriores, embora rotulando-se de católico de esquerda (e como tal vigiado e mal visto pela PIDE/DGS), tratou-me com toda a cortesia, mas quase sempre a distância, em nome dos sagrados valores do respeito pelos mais velhos. Só que subjaziam também os sagrados valores dos mais graduados academicamente. E lá ficaria para trás o respeito (que não precisa de ser sagrado) da pessoa enquanto pessoa... Talvez o convite de duas moças (uma oriental e outra ocidental) no meio de um dia de trabalho comum tivesse atenuado a frieza "respeitosa" de todos os outros. Bem diferente foi o acolhimento e tratamento do outro grupo não católico, mas de verdadeira esquerda: este soube harmonizar estudo, trabalho, lazer, descanso, confidência - tudo num clima de entusiasmo, amizade, liberdade, comparticipação e indiscriminação. E até as tensões eram maravilhosamente resolvidas. 301
Duas esquerdas?
Apeteceu-me perguntar-lhe se, porventura, teriam concluído pela liberdade como única lei e o amor como único vínculo. Mas preferi calar e esforçar-me por aprender a lição. Devo ter anotado, no entanto, uma frase, um dia mal interpretada por paizinhos zelosos pela pureza das filhas, que seria mais ou menos a seguinte: -Como são tolos os mais velhos quando pensam que os mais novos nada lhes podem ensinar! 302
A grande lição
Sem o exemplo e incitamento desses e outros jovens de ambos os sexos, e também de algumas e alguns já em vida montante, nunca teria sido gerado para os novos tempos em que procuro viver e proponho aos outros como única saída para a felicidade. Sem essas e esses que entraram na minha vida (não importa se muitos regrediram) ainda hoje estaria no deus, pátria e família do meu primeiro artigo no jornal IDEA de 1 DE Abril de 1938, ou em qualquer euforia lusa da minha primeira colaboração no DIÁRIO DE MOÇAMBIQUE, fundado três meses depois da minha chegada ao hemisfério sul. 303
Também a amizade tem a sua fecundidade
Obrigado a todas e a todos que me permitiram ser autor deste artigo que intitulei GEOMETRIA EVANGÉLICA. Mesmo àqueles que deixaram a luta ou enveredaram por outros caminhos: desde que se siga a própria consciência, nunca há infidelidade ou traição. Mas é sempre tempo de deixar o velho e tomar o novo, passar da tristeza à alegria, da morte à vida. 304
A História não acabou
   
Shiluvari, 28 de Novembro de 1997.  
    
 

 
    


CAPÍTULO TERCEIRO



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Nunca senti grande dificuldade em me inserir na revolução, como convinha a um leigo, mesmo segundo as mais genuínas doutrinas sociais da Igreja. 305
Filosofia perene
A minha formação filosófica, que devo a António Ferreira Gomes, sempre me levou a prestar muita atenção aos acidentes, e, destes, às propriedade qualitativas e quantitativas, mas para logo, com muita prudência, penetrar no essencial. 306
O acidental e o essencial
Isto, além de aplicações práticas as mais diversas, que me preservaram de muitos males e me fizeram vencer na vida (quem pode afirmá-lo, tantos os insucessos?), isso, dizia eu, salvou-me até hoje a fé e o compromisso político. 307
Nada de mais prático do que uma boa teoria
Se não olhasse sempre à essência do Cristianismo, como resistiria a todos os desvios, mesmo na mais alta hierarquia e através de tantos séculos? 308
O positivo supera sempre o negativo
Quando fazia a sua primeira e gloriosa viagem do Rovuma ao Maputo, Samora não poupava, muitas vezes, nos seus discursos, a hierarquia eclesiástica portuguesa. 309
Choque inevitável
Os cristãos e os catecúmenos moçambicanos foram apanhados desprevenidos: nunca os missionários lhes tinham dito nada dos terríveis desvios das altas hierarquias: cruzadas, inquisições, estados pontifícios, cúria e diplomacia vaticanas, etc. 310
Virgens imprudentes
Ainda não há muito, um missionário me dizia que não tinha tempo para isso, e, daí, não me quis dar ocasião de, ao menos eu, o fazer. Não quero, hoje, entrar nas consequências dessa pecaminosa omissão. Até porque os sociólogos o farão com rigor científico. 311
Incorrigíveis
Só queria recordar a conversa que nesses dias tive com o Comandante Gulamo, no último andar do Governo da Zambézia, onde tinha ido, salvo erro, mostrar a minha indignação por qualquer desvio da cúpula política. Tempos de liberdade esses em que, mesmo de calção e mesmo quando discordava (e não era lá muito pouco frequente), tinha acesso às mais altas estruturas da Província da Zambézia e das Forças Populares de Libertação Nacional! 312
Tempos de liberdade
Perguntava-me o referido Comandante, com um sorriso malicioso e com aquele à vontade de quem se tornara amigo, tantas eram as tarefas realizadas em comum e tantos os ideais comuns: perguntava-me e voltava a perguntar como me sentia eu. E eu respondia:-Maravilhosamente, Camarada. 313
Amizade de camaradas
E como me havia eu de sentir desde aquele abraço de 17 de Setembro de 1974 entre os grupos de esquerda de Quelimane e as guerrilheiras e os guerrilheiros das Forças Populares de Libertação Nacional com quem logo começamos a trabalhar junto do povo e já sem medo dos portugueses? 314
O primeiro abraço
Mas Gulamo não se referia a isso (isso sabia ele muito bem, tal era a confiança que tinha em mim, talvez apesar da minha posição dentro da Igreja). Referia-se, sim, ao meu possível abalo pelos discursos de Samora, que vinha do norte, se aproximava do centro e se dirigia à Capital, no sul. Só lhe respondi: -Olha, Camarada, se fosse eu, diria muito mais, porque estou bem dentro do assunto, e nada disso é novidade para mim. 315
A sorte de não me ter sido ocultada a verdade
Infelizmente, outros não podiam falar assim, e o resultado está à vista: debanda de muitos quando a revolução caminhava, retorno quando a revolução fracassou. Arrependidos? Ou porque é sempre mais cómodo estar com os do poleiro? 316
Ignorância ou instinto de camaleão?
Ora se eu, felizmente, não vacilei na fé, mesmo consciente de todas as falhas históricas que persistem, e mais perversamente ainda, porque mais subtilmente, como iria fracassar no compromisso político perante os desvios (e tantos foram e são) dos nossos dirigentes?  317
Instinto de coerência
Perguntavam-me companheiras e companheiros do trabalho missionário: -E, então, perante isto que têm feito, ainda continuas com eles? 318
A força dos factos
E não queriam compreender que isso era mais um incentivo para continuar. Se não o fizesse, e se fosse usar do mesmo critério na actividade apostólica, também teria de abandonar a Igreja. 319
Duas medidas
E que cristão seria eu se deixasse de lutar por um sistema que mobilizava todo o povo, fazendo-o participante nas opções, no pensamento, no trabalho, na distribuição, e não marginalizava nenhuma parcela, muito menos multidões, como muito bem sabíamos iria acontecer se tivéssemos de ceder, como tivemos (ao menos por enquanto) à chamada economia de mercado? 320
A força das convicções
separadores
 
Por outro lado, o modelo de Igreja pelo qual lutava dentro da mesma e tão bem acompanhado me parecia estar (afinal a falta de convicções e o oportunismo não foi apanágio do campo político...) sempre me permitiu um grande à vontade nos diversos grupos e uma dupla fidelidade sem a menor incoerência (a não ser a das fraquezas íntimas).  321
Dupla fidelidade
Durante o dia, cada um no sector da sua especialidade - alfabetização, educação, saúde, economia, cultura - trabalhava colectivamente. À tardinha, na hora de vésperas, ao pôr do sol, quando os outros recolhiam a suas casas, um pequeno grupo de cristãos celebrava a Eucaristia no convento dos capuchinhos de Bari: vínhamos de diversos trabalhos (talvez sobretudo da alfabetização ), e o que havíamos realizado e reflectido durante o dia à luz da técnica, da ciência e dos princípios políticos, confrontávamos agora com a Palavra bíblica, convencidos de que, não nos dando soluções (pois não foi escrita para isso), nos proporcionava pistas, nos iluminava e nos animava. Palavra partilhada, palavra crítica, palavra geradora de novas opções e novos entusiasmos. 322
A realidade sob dois prismas
Na segunda parte - a eucarística - partilhávamos o Pão e o Vinho, numa comunhão fraterna e sororal muito íntima e num compromisso de não desistir de que todo o povo moçambicano (agora independente ou dentro em pouco independente) participasse equitativamente de toda a riqueza do país. O entusiasmo era grande: -Agora trabalhamos para nós! - dizia o povo, e não se poupava. (Nem se sonhava que a inteligência do mesmo exército agora aparentemente derrotado, em breve, lhe saberia dar a volta...) 323
Partilha sacrílega... se inconsequente
Todos sabiam que parte do nosso tempo livre era dedicado à oração, à reflexão, à partilha bíblica e eucarística. Ninguém se preocupava com isso, porque sabiam também que nada íamos maquinar contra o povo e que, pelo contrário, a nossa intenção era sempre aumentar esclarecimento e força para levar a bom termo as nossas tarefas. 324
O trabalho une
O que lhes interessava era o que fazíamos pela revolução e não se tínhamos ou não fé. 325
e a fé não divide
Um dia, um outro camarada - comandante de inteligência e discurso brilhantes - segredava-me: -Camarada Júlio, temo pela nossa amizade no futuro.  -Por quê? Por nos reunirmos a celebrar a Palavra e a Eucaristia?  -Não, longe disso; mas por causa da estrutura hierárquica de que dependeis. 326
Receios infundados?
Logo o tranquilizei, porque também nós, dentro da Igreja, fazíamos tudo por eliminar o que não fosse evangélico, e o Evangelho nunca seria contra o projecto político e económico pelo qual lutávamos. E ficámos de acordo, continuámos amigos e, sobretudo, continuámos a lutar. 327
Coerência salva a amizade...
Era assim o nosso estilo de ser igreja. Tudo fazíamos em comum, porque tudo interessava a todos. Para os actos específicos dos cristãos - estudo da Bíblia, oração, celebração da Palavra e da Eucaristia, e outros sacramentos, é claro que nos reuníamos à parte, porque é assunto apenas de quem tenha fé e sinta necessidade de a cultivar, exprimir, viver recolhidamente. 328
e a especificidade
Nada, portanto, de estruturas paralelas: escola para católicos, hospitais da missão, machamba da capela, cooperativa de cristãos, desportos na paróquia, eu sei lá bem o quê. 329
...mas não tolera paralelismos
Se continuássemos nessa linha, poderíamos, é certo, fortificar as estruturas eclesiásticas, cativar a simpatia de muita gente, conseguir muitas adesões, tanto mais que, num país empobrecido como o nosso, fácil é ao poder económico de certas instituições eclesiásticas brilhar em qualquer desses campos. 330
divisionistas
Mas estaríamos a manter uma igreja-poder dito espiritual (bem recheado, porém, de dinheiro) perante outro poder dito temporal (bem carente, no nosso caso, de recursos financeiros). 331
A nossa opção eclesiológica
Estaríamos longe da igreja-serviço, fermento, sal, luz, o que só seremos reduzindo as nossas estruturas ao indispensável para nos fortificarmos na fé, na esperança e no amor. 332
só pode ser evangélica
A nossa presença em todos os domínios, para ser como o fermento evangélico, não pode ser uma presença ostensiva (menos ainda arrogante), mas humilde, exemplar, amiga. O crescimento, o aperfeiçoamento será muito mais lento, terá muitos recuos (que pena tantas infra-estruturas degradadas, tantos empreendimentos falidos!), mas aí é que deve estar a nossa presença perseverante, que nunca desiste, que nunca desanima, que nunca perde a fé no homem (o Verbo incarnou ou não na nossa frágil natureza?), que nunca se irrita, mas sempre tenta recomeçar, não à parte, sob pretexto de mais eficiência (na verdade, inconfessável paternalismo de padres e irmãos e maternalismo de freiras), pelo contrário, sempre em conjunto, dentro das estruturas específicas de cada sector ou área.  333
na estratégia como na táctica
Repisemos: se não acreditamos, se não temos confiança no homem que vemos ao nosso lado, que fé temos na incarnação do Verbo? 334
Onde está a nossa fé?
Já antes da independência (muitos nem sequer sonhavam com ela), era exactamente uma igreja assim que queríamos construir. Os capuchinhos de Bari até começaram a socializar os bens de produção das suas missões. Eu próprio fui por eles escolhido para integrar essa comissão, e participei em cursos, reuniões e até capítulos da Ordem. 335
E não era por oportunismo
Depois do 25 de Abril, parece que de uma maneira geral se preconizava a tal Igreja serva e pobre. E, quando o Estado soberano de Moçambique quis assumir o comando das escolas e hospitais, parece que éramos mais ou menos unânimes (ao menos se nos referimos aos missionários que não abalaram) em dizer: 336
...mas por convicção
-Agora sim, podemos dar-nos em cheio à evangelização, aos catecumenatos, ao que nos é específico. E, no tempo que restar, colaboraremos nas escolas, hospitais e cooperativas, como quaisquer outros professores, enfermeiros ou médicos, trabalhadores qualificados ou não. 337
traduzida em actos
E muitos o fizeram - não só presbíteros como irmãs, irmãos e leigos - e com um entusiasmo e competência tais que os governantes tiveram de reconhecer que a fé cristã, longe de ser um estorvo à revolução, era uma força suplementar que não encontravam noutros. 338
Força para servir: não para dominar
Hoje, pergunto-me: com a reviravolta política sob as bênçãos de Santo Egídio e do Vaticano (bênçãos e não só!), onde estão essas convicções da Igreja serva, pobre, fermento, sal, luz? 339
Afinal...
O desprendimento era sincero ou simplesmente repetiam o estão verdes da fábula? 340
se não era hipocrisia...
Se é agora que estamos livres, e antes não, então é exactamente agora que nos podemos realizar nos moldes eclesiais que dizíamos serem os mais evangélicos. No entanto... 341
por que viramos 180 graus?
O que os historiadores não dirão um dia (convencidos ou não de que só a verdade nos salva) para traduzir estas reticências? 342
A História o dirá
Euforismo do poder... espiritual evidentemente, nada de confusões: todos continuam individualmente muito pobres (é tudo para bem do povo). E, quanto ao temporal - político, económico, etc. - , isso é com os leigos. Só que não se nota muito. Uns são sempre os mestres, e os leigos... precisam sempre de tutela, mesmo nas áreas que dizem ser-lhes específicas. 343
Os eternos mestres e os eternos leigos
Estruturas paralelas estão na ordem do dia, no âmbito das alternativas e das privatizações salvadoras... 344
Ídolos salvadores?
E nós, que estávamos tão felizes com a abertura da Frelimo, que recuava nas limitações impostas no início e agora nos deixava trabalhar à vontade! Afinal a liberdade não foi aproveitada para pôr em prática o tipo de Igreja que dizíamos querer por convicção e não por condicionalismo político: serviu, sim, para restaurar o constantinianismo, em novos moldes no acidental, mas nos mesmos no essencial. 345
Novo constantinianismo
Uns dois anos depois de ter deixado a Zambézia e me ter fixado no Maputo, dirigi-me ao autor da IGREJA MINISTERIAL EM MOÇAMBIQUE / caminhos de hoje e de amanhã, e atrevi-me a perguntar: -Afinal tudo isto não saberá a hipocrisia, tal a discrepância entre o que se preconiza nesta tese de licenciatura e a pastoral praticada? Reagiu prontamente, dizendo que hipocrisia não, e refugiou-se no vai-se fazendo o que se pode. 346
com desculpas de mau pagador
separadores
 
Tudo isto vinha a propósito do tipo de relações entre a comunidade cristã e a sociedade que, em 1981, propúnhamos aos pais desejosos de ver os seus filhos menores baptizados (como em tempos de cristandade, felizmente já idos, mas com sequelas, por exemplo, como esta!). 347
Inserção na sociedade civil
Só que... já lá vão perto de duas décadas, e não sou capaz de prescindir disso, incluindo elementos do que fui adquirindo durante elas. Mas talvez tudo ganhe em compreensão. 348
Na perspectiva do tempo
Tudo isto vinha a propósito (embora possa não parecer) das reuniões que, em fins de 1980, inícios de 1981, numa dessas paróquias crismadas de comunidade (para ver se convencia...), se efectuavam com os pais, tutores e padrinhos que a todo o custo queriam manter o costume de baptizar crianças. 349
Baptizar crianças/preparar adultos
Já se havia reflectido sobre o relacionamento dentro do casal que pedia o baptismo para filhos ainda pequenos; depois, o mesmo se tinha feito sobre o relacionamento entre geradores e gerados, e, finalmente, agora, ia reflectir-se sobre o relacionamento da comunidade cristã e dos seus membros com a sociedade. 350
Três alteridades
E parece que a proposta já ficou bem clara, mas talvez não deixasse de ter interesse centrarmo-nos nas duas vertentes que na altura se consideravam (e eu ainda considero) fundamentais: o local de trabalho e o local de residência. 351
Residência e trabalho
Afinal o que pretendia de nós, mas de todos nós, quaisquer que fossem as nossas ideologias, a Frente de Libertação de Moçambique e, depois, o Partido? 352
Duas exigências
Que no trabalho déssemos o melhor de nós mesmos, que não o realizássemos mecanicamente, que compreendêssemos o processo de produção em todas as suas fases, que não nos sentíssemos nem fôssemos meras peças de uma máquina, mas produtores conscientes, que não realizássemos as tarefas sem interesse e como uma fatalidade ou um castigo (as referências ao Génesis e ao tempo colonial até poderiam ser sugeridas), mas que, pelo contrário, nos sentíssemos libertos e felizes ao transformar, para melhor, a matéria e a sociedade. 353
Trabalho criador
Se as referências a clássicos revolucionários era explícita, no fundo sentia-se a cada passo a influência de Paulo Freire. Na alfabetização o seu método era utilizado, mas, não sei se por ser cristão se por ser estrangeiro (aliás os outros também o eram), muitos não gostavam de nomeá-lo: o método a utilizar há-de ser  nosso, bem adequado à nossa realidade. 354
Alfabetização política
Isso também diziam sempre que falávamos da revolução de qualquer outro país: -Não queremos revoluções a papel químico: se não há socialismo moçambicano ou africano (referência ao reformismo), há revolução moçambicana, isto é, inserida na nossa realidade. 355
Repúdio do papel químico
E também que fôssemos vigilantes: evitar sabotagens (e tantas foram nessa época de desespero do acordar do sonho colonial!), evitar desperdícios e desvios de bens, inclusive de tempo (a pontualidade é um aspecto particular da disciplina), evitar confusionismo e animosidades (ideias claras e distintas e amizade são básicas para a produção e para a produtividade). 356
Amizade na base da eficácia
Vigilância popular e revolucionária é, porém, muito diferente da pidesca ou reaccionária. E é muito interessante como mulheres que poderíamos apelidar de iletradas, mas, afinal, não de analfabetas, distinguiam muito bem essas duas espécies. 357
As duas vigilâncias
Foi no bairro Nanhubwe, periferia da cidade de Quelimane, Sexta-feira, 1 de Agosto de 1975. Além da expansão do livro, à qual a Armanda se associara, da luta no local de residência, integrando uma comissão de moradores, da formação de quadros de alfabetização por meio de cursos dinamizados por estudantes liceais, estava ainda encarregado de visitar perto de duas dezenas de centros diurnos de alfabetização, dentro e fora da cidade. Naquela tarde fui à referida povoação de Nanhubwa sentar-me no círculo formado por vinte e uma alfabetizandas e dois alfabetizadores (a Vitorina e o Francisco). Não era preciso invocar Paulo Freire para que todas se sentassem, quase instintivamente, em círculo, animadores e visitas incluídas. É o modo tradicional de conversar ou sobretudo de resolver graves questões. O provérbio diz: ekothi-kothi, emarala (pescoço-pescoço, sinal de estranheza); e, se nos alinhamos em filas, só vemos a cara dos que presidem (patrões?) e o pescoço dos companheiros... 358
Sentados à roda,
 se busca a verdade
Naquele dia, a palavra geradora em debate era vigilância, e logo, cada uma à vez, sem precisarem de pedir a palavra e sem se atropelarem, ia descobrindo as vertentes antipáticas e simpáticas dessa palavra tantas vezes repetida em comícios e em reuniões: era uma das palavras de ordem. 359
duma palavra de ordem
-No tempo colonial, incidia sempre e só sobre os outros. Agora, começa por nós: o inimigo, tantas vezes, está em nós mesmos (custa descolonizarmo-nos mentalmente) 360
Exame de consciência?
-Nos tempos, vigilância gerava desconfiança, inimizade, medo. Nestes dias, gera confiança, amizade, liberdade. (Este clima, vivemos, de facto, naqueles tempos com os camponeses.) 361
Entre amigos, quem
pode simular?
E outra: -A PIDE protegia os privilegiados; a vigilância revolucionária  protege o povo. 362
ou ter privilégios?
-Aquela era paga; esta é voluntária - acrescenta outra. (A gratuitidade, talvez a não soubéssemos definir, mas vivemo-la!) 363
ou esquivar-se à gratuitidade?
-E era falsa, mas agora sabemos que só a verdade liberta.(E o amor político dinamizava-nos.) 364
ou ser velhaco?
-Aquela era para fazer o mal; esta, para fazer o bem. (Oxalá isto continuasse a ser verdade durante muitos anos...) 365
ou fazer mal a alguém?
-Aquela era exercida por agentes próprios; esta é exercida pelo povo todo. Só alguns a exerciam: agora somos todos. 366
ou limitar a solidariedade?
Com esta palavra chave tanto para o local de trabalho como para o de residência, passemos para este último. Que pretendia de nós a Revolução no local de residência? 367
O bem estar
Antes de tudo, que nos conhecêssemos uns aos outros, e que nos organizássemos em quarteirões (o meu tinha cinquenta famílias), e estes em grupos de dez famílias cada. 368
Repúdio da estranheza
Depois, que nos reuníssemos periodicamente para colocar em comum os problemas (limpeza, iluminação, deterioração das habitações, cooperativas de consumo, jardins, bibliotecas, possíveis desavenças, analfabetismo, parasitagem), uma infinidade de coisinhas, grandes ou pequenas, que podem tornar a zona em que vivemos agradável ou desagradável, propícia ao descanso para uma mais feliz produção ou, pelo contrário, geradora de mal estar, contagiando, assim, também o local de trabalho. 369
Preocupações partilhadas
E não só para pôr em comum os problemas, mas também para buscar pistas de solução. E, finalmente, criar possíveis laços de amizade - também indispensáveis no local de residência. 370
E também inteligência e afecto
Quando se conseguia esse relacionamento, nem era preciso falar de vigilância ou ajuda mútua, porque isso surgia espontaneamente. 371
Naturalidade das soluções
E era no local de residência que melhor conhecíamos o verdadeiro revolucionário, porque no local de trabalho o interesse económico e o desejo de promoção, passando da emulação à competição, levou aos piores oportunismos. 372
Transparência em e entre dois locais
No local de residência é mais difícil simular: o comportamento com a vizinhança e dentro de casa (com o ou a cônjuge, com os filhos ou os pais, com os criados que infelizmente continuaram e aumentaram, e com que força...) e sobretudo o comportamento na intimidade da esteira ou da cama logo revela o revolucionário e/ou o reaccionário que existe em cada um de nós. 373
Esteira da intimidade/esteira da revelação
Também isso se notava na participação nas reuniões ou nos trabalhos ditos voluntários. Quem não era o primeiro, no local de trabalho, estando perto algum chefe? Já no local de residência... era fácil alegar outras tarefas (prioritárias, é claro...) tanto para o atraso como para a ausência. 374
Teste de coerência
Concluirmos de tudo isto que a verdadeira comunidade do cristão é, antes de tudo, o local de residência e o local de trabalho, e que a ecclesia (assembleia) é para buscar aquele suplemento de vida que tornará a presença de cada um de nós indispensável ou, pelo menos, proveitosa, não pelo rótulo da fé, mas pela actuação amiga, ao modo de fermento novo, de sal puro, de luz indirecta (que não fere) - parece-me ser bem coerente e evangélico. 375
A nossa comunidade num mundo pluralista
Que mais poderíamos propor aos pais, mães, tutores, tutoras, padrinhos, madrinhas? Foi muito? Foi pouco? 376
Propostas
Com a limitação de tempo e de número de reuniões que desejávamos não fossem de mentalização, mas de conscientização, foi tudo quanto nos pareceu conveniente, evitando a prudência humana e arriscando-nos à evangélica. 377
para gerar opções: não para impor
Para finalizar estes dois aspectos da inculturação - vivência dos cristãos (misturados na massa) no local de trabalho e no local de residência - parece-me ser coerente concluir: Igreja-poder e Igreja inculturada se excluem por absurdo, a menos que a incarnação do Verbo não seja paradigma de toda a inculturação e da Teologia Pastoral. 378
Paradigma da inculturação



Shiluvari, 29-30/11 a 1/12/1997
 
    
   
    


Excursos



Interview par Eric Morier-Genoud



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A Retirada dos Andaimes




E a nova Aurora surgiu...
                         e os andaimes foram recolocados,
                                                               mais a Sul



Livros

Graças
a Inês Nogueira
e António Sopa
e, mais tarde, a Joel Tembe,sem esquecer as companheiras
 e companheiros de trabalho.



grupo AHM

    
   
    
A retirada dos andaimes - 1 de 9

Quelimane, 21/06/1994
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Quase duas décadas
APOSTOLADO PELO LIVRO E PELA LITURGIA
Outras quase duas
LIVRARIA OVETEKULA

Sem esquecer a meia década na
BIBLIOTECA DA MISSÃO DE S. BENEDITO
da Manga (Beira)


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...  MAS SEMPRE O MESMO IDEAL
 
 
 

  


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Rumo ao Maputo
à Universidade Eduardo Mondlane
Ao Arquivo Histórico de Moçambique
 

 no seu 60º aniversário


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Testemunha do fogo que nos animava:
Caixas da BÍBLIA
 
 

  


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O que para uns é entulho
para outros é tesouro!
 
 

  


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Estantes do que foi livraria católica
(durante o colonialismo e durante a Revolução)
Mesas que serviram exposições e feiras do livro
 

 Por que motivo não quiseram continuar?...


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Capulana que recorda
o incitamento revolucionário
e o reconhecimento dos líderes
 

  


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Ainda hoje recomeçaria,
como em 1950 com Cesare Bertulli
ou em 1956 com Francisco Nunes Teixeira
 

  


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Obrigado, Senhor, por tudo...
Também pela nova aurora
no Maputo.      
 

  

Aproveitados até os últimos acabamentos e os mais pequeninos retoques,
o que nos acontecerá quando não precisarem de nós?

António da Silva Alves Cabral

Operários no andaime

Daniel Filipe Santos Rocha

Operários no andaime
   
Operários no andaime
   
Operários no andaime
   
   

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E a nova aurora surgiu...
e os andaimes foram recolocados, mais ao sul
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espaçoVisita animadora de Walliser-Dolivo Yann, PSR
espaçoobjector de consciência na Suíça,
espaçonão violento activo
espaçolutador solidário com o terceiro e quarto Mundo.



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E a nova aurora surgiu...
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Quatro anos depois desta visita, este já vem Jacques Wallires-Dolivo, será eleito por sufrágio directo para o Conselho Legislativo do Município de Biènne. Durante este mandato de 2000/2004, está a revelar-se como um dos políticos mais lúcidos e persistentes da esquerda desse cantão suíço.



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espaçoJúlio em reflexão



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Sempre no meio de livros, publicações periódicas e arquivos, acumulados durante durante meio século.



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E a nova aurora surgiu...
e os andaimes foram recolocados, mais ao sul
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Sorriso amargo?
Talvez não.
Mas... até quando...
não serei outra vez retirado como
entulho?
E apetecer-me-á recolocar
na porta de saída
(agora já outra, e mais ao sul)
o recado de Helder da Câmara
sobre os andaimes? ...



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Sorriso
Graças
a Inês Nogueira
e António Sopa
e, mais tarde, a Joel Tembe,sem esquecer as companheiras
 e companheiros de trabalho.
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espaçoANTÓNIO SOPA
 
 
 

  


António Sopa
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Grupo
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Graças
a Inês Nogueira
e António Sopa
e, mais tarde, a Joel Tembe,sem esquecer as companheiras
 e companheiros de trabalho.
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espaçoCOMPANHEIRAS E COMPANHEIROS DE TRABALHO
 
 
 

  


António Sopa
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Alterações realizadas:
Data
Ajuda nas ligações dentro do EKUMI 8
08/02/2014
Excursos - A retirada dos andaimes 7
26/12/2010
Novo layout do EKUMI 6
18/01/2010
Imagem do Júlio Ribeiro - Nos Palmares, nos Arrozais, e também nas Montanhas da Zambézia 5
25/12/2007
Rectificação dos "bugs" existentes no EKUMI 4
26/11/2006
Excursos 3
12/04/2006
Retoques na formatação da Segunda Parte para se tornar operacional a sua consulta. 2
22/05/2005
Nova formatação das páginas da Primeira Parte. 1
21/05/2005