Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro

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Primeiro



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APOSTOLADO PELO LIVRO E PELA LITURGIA
C.P.297-Quelimane-Tel.2227
1962




    
   
    



 
 Um Missionário Católico nunca é um estrangeiro
 nem nunca deve ser tido como um tolerado:
 onde é preciso implantar ou consolidar a Igreja,
 aí é sempre a sua pátria.
 
 
 
 A   esses Missionários
 
 
 
que   deixaram os seus países para
implantar a Igreja em Moçambique:
 
 
 
 
  Pequenino testemunho de amizade e reco-
nhecimento, e  também de reparação pelos
que  não  colaboram,  não  reconhecem  ou
até hostilizam.
 
 
 
  O autor
 







Com as devidas licenças.







Interesse Missionário do 2° Concílio do Vaticano



Grande parte dos leitores, certamente, já sentiu necessidade de preencher, pelo estudo da História Eclesiástica, ao menos parte daquele imenso vazio que medeia entre os Atos dos Apóstolos e o Apocalipse. E quem o fez, certamente, ao chegar a 18 de Julho de 1870, sente a dor de ver interrompido o 1º Concílio do Vaticano, 20º da Igreja Universal, e sente o desejo, nuns mais, noutros menos explícito, de ver de novo reunidos, na cidade Eterna, os Bispos do Orbe Católico. 1
 
Um concílio ecumênico, embora não seja essencial à marcha da Igreja, é uma demonstração de tal vitalidade que atrai todos os corações. O 2º Concílio do Vaticano, 21º da Igreja, veio ao encontro de uma ansiedade universal, em muitos quase apagada no subconsciente ou até no inconsciente (por deficiência de instrução religiosa), mas em todos existente, como se pode reconhecer se nos auto-analisarmos: o anúncio do próximo Concílio, publicado no L'Osservatore Romano de 26/27 de Janeiro de 1959, veio preencher um vácuo que existia no íntimo de cada católico, de cada cristão, parece que de cada homem. 2
 
Vem de longe, pode dizer-se que vem do próprio dia 21 de Setembro de 1870, em que as tropas piemontesas invadiram os Estados Pontifícios, esta saudade — misto de nostalgia e ansiedade — de reunir novamente os Padres Conciliares. Pio XI pensou continuar, e concluir o 1º Concílio do Vaticano. Pio XII tinha inscrita a reabertura desse Concílio no Seu caderno de notas. Mas aguardava-se qualquer indicação providencial que não deixasse a menor dúvida sobre o momento conveniente para retomar tal empreendimento. E foi preciso que subisse ao supremo pontificado aquele ancião, a Quem não só jornalistas mas até pessoas de responsabilidade chamaram Papa de transição, para a Providência indicar que era agora exatamente que chegara a hora. É um octogenário que Deus escolhe para imprimir à Igreja, pela vigésima primeira vez na sua história, aquele movimento supremo de vitalidade e de juventude, que é a preparação e realização de um concílio ecuménico. 3
 
Um acontecimento desta natureza é sempre um acontecimento grandioso, mas tudo se conjuga para tornar o Concílio anunciado em 25 de Janeiro de 1959 e convocado em 25 de Dezembro de 1961 para o corrente ano de 1962 (agora sabe-se que terá início em 11 de Outubro, festa litúrgica da Maternidade da Virgem), tudo se conjuga para o tornar em acontecimento ,sem precedentes — quer pelo número de Bispos que se espera estejam presentes, quer. pela pigmentação carregada de muitos deles, quer pela quantidade de respostas e sugestões chegadas a Roma de todo o mundo, quer pela vastidão dos problemas a tratar, quer ainda pela rapidez com que as suas deliberações irão atingir os últimos recantos da Terra. A técnica mais moderna em matéria de transportes, comunicações e publicidade vai ter ocasião de prestar inestimável serviço à Igreja Católica, num acontecimento que interessa a toda a Humanidade, lhe imprimirá novos rumos e ficará na sua História. 4
 
Mas tem-se falado e continua a falar-se tanto em concílio ecuménico que muitas vezes temos perguntado a nós próprios se se terá uma noção, senão distinta, ao menos clara do que isso seja; porque é exatamente daquilo que menos se percebe que mais se costuma falar, e daquilo que mais se fala que menos se procura aprofundar. 5
 
Embora os leitores não estejam neste caso, e embora não pretendamos imprimir caráter de lição a estas palavras, por um motivo de ordem lógica, não entraremos no tema deste trabalho sem, primeiro, definir os termos. 6
 
Uma boa parte do grande público não pode, certamente, deixar de conceber o próximo concílio como uma espécie de congresso ou de assembleia parlamentar: é o sinal dos tempos, é a generalização do que apenas convém a determinadas categorias, é o preconceito (mesmo sem a mínima má intenção) como sucedâneo do estudo. 7
 
Um concílio ecuménico não é um parlamento, porque é uma assembleia de tipo autocrático: os Bispos não vão deputados pelas suas dioceses para as representar e defender nos seus interesses, mas vão a chamado do Sucessor de Pedro e como sucessores dos Apóstolos; e não vão defender os nossos interesses espirituais e sobrenaturais, porque os seus diocesanos os tenham encarregado disso, mas porque Cristo lhes determinou: "Apascentai as minhas ovelhas". 8
 
Também não é um mero congresso de técnicos. De fato, Roma atraiu a si de todas as partes do Orbe as maiores competências teológicas. Roma aproveita todos os recursos humanos, todas as ciências, todas as técnicas, todas as culturas; mas, depois de todos esses esforços esgotados, os congressistas não podem contar com mais nada, e, se o saber humano falhar, falhará também o congresso. Não assim os concílios ecuménicos, onde os Bispos, em comunhão com o Papa, sabem que, para além dos mais profundos e cuidados estudos teológicos, há outro factor decisivo: a assistência do Espírito Santo. 9
 
Não se confunda com inspiração, como no caso da Bíblia, cujos escritores sagrados, embora mantendo a forma, o estilo próprio, no fundo, escreviam o que o Espírito Santo lhes ditava (não obstante muitas vezes sem consciência desse fenomeno que se estava a operar neles). A assistência é uma actuação apenas em sentido negativo, pois consiste, não em levar a resolver desta ou daquela maneira, mas simplesmente em levar os assistidos a não resolverem de um modo errôneo. Toda a ciência e todo o esforço humano têm ali lugar na sua plenitude e numa plenitude jamais observada em outras assembleias, porque assiste-lhes a garantia de não errarem nas suas decisões em matéria de fé e costumes. 10
 
Como se vê, os concílios ecuménicos não são essenciais à vida da Igreja, porque os Bispos, mesmo territorialmente dispersos, desde que em comunhão com a Santa Sé, gozam da infalibilidade; e o Papa, só por si, como todos sabem e acreditam, porque é de fé, é infalível em matéria de Dogma e Moral. Mas os concílios ecuménicos são de vantagem extraordinária para a vida da Igreja, porque são um esforço e aproveitamento simultâneos e intensivos de todos os valores em ordem à purificação e aperfeiçoamento do Corpo Místico, na Sua parte militante, para que a Sua juventude e beleza sejam perenes. 11
 
Mas, não sendo um concílio ecuménico nem um parlamento nem um congresso, como o definir então? Com o teólogo moderno Forget, poderemos dar a seguinte definição: "reunião solene dos bispos de todo o orbe terrestre, sob convocação, autoridade e direcção do Papa, a fim de, em comum, deliberar e legislar sobre assuntos universais da Igreja". 12
 
Acrescentaremos ainda que são participantes de direito (cânone 223): os bispos, mesmo não consagrados, e quer residentes quer titulares; os Vigários apostólicos (ao menos segundo algumas opiniões e segundo a prática do 1º Concílio do Vaticano); os cardeais, ainda que não sejam bispos; os gerais das Ordens Religiosas, e os abades com jurisdição quase episcopal. Daqui poderá resultar, na actualidade, uma assembleia de cerca de 2.850 conciliares. Mas não é essencial para a validade do concílio a comparência completa: basta uma parte notável, ainda mesmo que se desse a ausência dos bispos de certas regiões do globo. 13
 
Por último, é preciso não confundir concílio ecuménico com os concílios de nível provincial ou nacional, porque lhes falta o caracter universal, nem muito menos com os sínodos, que nem concílios são, porque neles o único legislador é o bispo e não os padres que se reúnem à sua volta. 14
 

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Com esta noção de concílio ecuménico, talvez já não fosse muito difícil de deduzir se um acontecimento deste género tem sempre (e forçosamente) ou não algum interesse missionário. Mas também aqui será conveniente saber-se o que se entende por "missionário".Todos usam esse termo, mas talvez nem todos o entendam; e daí muitas vezes uns falarem por um lado e outros por outro e ninguém se entender. 15
 
Etimologicamente, missionário significa "enviado". Genericamente, utiliza-se esse termo para designar o sacerdote, religioso ou leigo que vai com o encargo de levar, directa ou indirectamente, a palavra de Deus a um meio que necessita de ser cristianizado, recristianizado ou simplesmente afervorado. Todos conhecemos, por exemplo, aquelas benéficas missões (embora tão verberadas por Júlio Dinis) de Padres Redentoristas, Passionistas e muitos outros, que permanecem pelas nossas aldeias da Metrópole durante uma semana, e colhem das suas missões o que, em ambientes mais evoluídos, se colhe dos retiros. Também, sempre em sentido genérico, se designam por missionários muitos trabalhadores dos mais diversos campos de apostolado, e, de fato, todos eles, se submetidos à Hierarquia, são missionários, são enviados, à semelhança de Cristo, o primeiro grande Enviado. 16
 
Mas há um sentido específico reservado a esse termo: missionário é o sacerdote, religioso ou leigo que vai fundar ou contribuir para fundar a Igreja onde ela nunca existiu (como acontece na África ao sul do Saara) ou onde ela desapareceu (como no norte da África, que já foi viveiro de Virgens, Mártires, Doutores e anacoretas). Também aqui, e parece que ainda com, mais propriedade, os missionários por excelência são o Verbo fé o Espírito, Aquele enviado pelo Pai, Este, porque de Ambos, enviado por Ambos: e Ambos para fundar a Igreja na terra, onde não existia, e para glorificar o Pai, num retorno que é a culminação de toda a obra missionária. É neste sentido específico que nos propomos sondar se o próximo Concílio Ecuménico terá interesse missionário e, se possível, qual esse interesse. 17
 
Restringindo assim a matéria, já o problema se não apresenta com a mesma facilidade. No sentido genérico, até "a "priori" se concluiria e ninguém contestaria o interesse missionário do Concílio Vaticano II. Concede-se mesmo que, indirectamente, tem por. força de fazer sentir as suas repercussões em países de missão, por mais específico significado que se atribua a esse termo: basta reflectirmos uns momentos na Comunhão dos Santos, de preferência sob a já consagrada alegoria paulina do Corpo Místico, para não ficarmos com a menor dúvida. 18
 
Mas o assunto, para ter verdadeiro interesse para quem, em comunhão com a Santa Sé, vive mergulhado nos mais concretos pormenores dos problemas das Missões, tem de ser ainda restringido. Trata-se de saber se o próximo Concílio terá algum interesse directo para a actividade missionária no seu sentido específico. 19
 
Desculpar-nos-á o leitor a insistência, mas o problema tem de ser, primeiro que tudo, situado, se não queremos pairar no vácuo ou preencher o papel apenas com frases feitas. E antes de mais nada devemos afirmar que o problema se nos ia deparando insolúvel, dado o caracter reservado em que trabalham as treze comissões que preparam, desde 5 de Julho de 1960 (Festa de Pentecostes), os assuntos a serem tratados e submetidos às deliberações conciliares. 20
 
E basta dizer que, do material sobre que se trabalha nesta fase preparatória, que se deve a uma Comissão antepreparatória, e que é constituído por quinze tomos, com as dimensões de 22 por 31 cm, e com um total de nove mil quinhentas e vinte páginas, apenas as cento e sessenta e oito páginas do primeiro volume não estão "sub secreto": são os Atos do Sumo Pontífice; porque, das mil novecentas e quarenta e uma respostas episcopais, das cento e nove respostas dos Superiores Gerais, das quatrocentas e doze páginas das Sagradas Congregações da Cúria Romana e das mil oitocentas e setenta e oito páginas das respostas e propostas das quarenta e nove Universidades Católicas do Orbe, além de alusões muitíssimo genéricas, nada transpareceu. 21
 
E a questão consiste exactamente em saber, o que dizem as oito mil novecentas e setenta e duas proposições e sugestões resultantes da análise e sistematização de toda essa infinidade de correspondência e demais material, e sobretudo em saber qual a derradeira selecção que o Sumo Pontífice, presidente da Comissão Central preconciliar, fará, para depois se trabalhar sobre os definitivos temas que serão propostos aos Padres Conciliares. 22
 
Perante a complexidade do problema, teríamos de desistir do intento, confessando simplesmente ignorar, antes do Concílio se consumar, o interesse missionário que se possa esperar dele. Mas, daquele pouco que Roma deixou transparecer para edificar e estimular à oração, daquele pouco que se pode saber de cada comissão preconciliar, de certos pormenores e alusões dos documentos oficiais, e depois de nos precavermos contra as especulações jornalísticas, talvez possamos induzir certas constantes que projectem luz sobre o problema; e talvez, já a essa luz, deparemos até com assuntos que específica e directamente interessem às Missões e com toda a certeza venham a ser ventilados no próximo Concílio. 23
 

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Na primeira comissão preconciliar, os teólogos estudam as vantagens de se falar com mais insistência na possibilidade de salvação dos não católicos; e o problema da reunião das igrejas não pode deixar de os preocupar; os moralistas, por sua vez, analisam os inconvenientes de se apresentarem os princípios éticos não à luz de uma cultura universal, como parece deveria ser, mas à luz de uma cultura ocidental e estritamente europeia. 24
 
Na segunda comissão, dos Bispos e do Governo das Dioceses, tratam-se assuntos como o da assistência espiritual aos emigrantes, o da regulamentação da emigração de sacerdotes, o dos bispos idosos que continuam à frente das suas dioceses, o da insuficiência do clero numas dioceses e o da abundância noutras, o da distribuição do clero em plano interdiocesano, continental e internacional. 25
 
Na terceira, a Comissão para a Disciplina do Clero e do Povo cristão, estuda-se a possibilidade da reintrodução do diaconato profissional. 26
 
À quarta, a Comissão dos Religiosos, está presente o novo problema dos Institutos Seculares, que já vão prestando o seu bom contributo às terras de missão. 27
 
E em todas as restantes comissões (a quinta, da disciplina dos Sacramentos, a sexta, da Sagrada Liturgia, a sétima, dos Estudos e Seminários, a oitava, da Igreja Oriental, a décima, do Apostolado os Leigos, a undécima, chamada secretariado para os meios modernos de divulgação, e a duodécima, também chamada secretariado para a união dos cristãos), em todas essas restantes comissões, dizíamos, há pontos em estudo de interesse flagrante para as Missões. Foi de tal modo vasta a consulta na fase antepreparatória (o Cardeal Tardini, em 8 de Junho de 1959, expediu mais de duas mil e quinhentas cartas) que os interesses específicos e directos dos países de missão não podiam deixar de estar presentes num dos acontecimentos mais vitais para a marcha da Igreja. 28
 
Mas saltamos a nona comissão e deixamo-la propositadamente para o fim: é a Comissão das Missões. Preside-lhe o Cardeal Agagianian. Como Secretário, está o vigário castrense da Inglaterra, Mons. D. Mathew. Permitimo-nos passar a pena ao franciscano brasileiro Pé. Dr. Frei Boaventura Kloppenburg, Consultor da Comissão Teológica Preconciliar: 29
 
"Entre os membros, há vários bispos de cor e especialistas em questões da África, da Ásia e da Austrália. Há também historiadores, antropólogos e etnólogos. Com o fim, agora, da era colonial, a consequente independência das nações missionárias e as fortes correntes nacionalistas, surgiram novos e delicados problemas para os missionários estrangeiros. Mais que em outro sector qualquer, surge aqui o problema da adaptação da mensagem cristã às várias culturas das regiões missionárias, como da África, da China, do Japão, etc. Não se trata de levar a todos os povos a cultura romana, italiana ou europeia, mas de obedecer mais simplesmente à ordem de Cristo de levar a todas as nações "tudo quanto Eu vos mandei" (S. Mateus, 28,20). 30
 
"Nem sempre se fez esta necessária distinção entre cultura e religião. Hoje, em muitas regiões, .até mesmo no Brasil, os padres missionários ainda sofrem as consequências de uma excessiva europeização, italianização ou romanização. E a desromanização (tirar os elementos puramente culturais de "Roma") do mundo cristão será um dos trabalhos mais árduos do Concílio, que, talvez, apenas será iniciado. Foi nisso, certamente, que pensou o Papa João XXIII na alocução de 13 de Novembro de 1960, quando disse: "A obra do novo Concílio será na verdade toda ela dedicada a tornar a dar resplendor à face da Igreja de Jesus segundo as linhas mais simples e puras de suas origens, para apresentá-la tal como o Divino Fundador a fez: sine macula et sine ruga". E falando, no dia 1° de Abril de 1959, aos membros do II Congresso Mundial de Escritores e Artistas negros: "Onde quer que autênticos valores da arte e do pensamento são susceptíveis de enriquecer a família humana, a Igreja está pronta a favorecer este trabalho do espírito. Ela mesma, como o sabeis, não se identifica com nenhuma cultura, nem mesmo com a cultura ocidental, com a qual entretanto sua história está estreitamente entremeada. Porquanto a sua missão própria é de outra ordem: a da salvação religiosa do homem" (Até aqui a transcrição do opúsculo "Às portas do XXI Concílio Ecuménico", do Autor atrás citado). 31
 

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Parece que atingimos exactamente aqui o interesse fundamental do próximo Concílio para a actividade missionária. A pretendida e falada união das igrejas separadas deu lugar às mais pueris fantasias. Sem lavar a face da Igreja, é uma presunção pensar poder atrair em massa os nossos irmãos transviados. Nós não dizemos, porque nos parece faccioso, como certo titular eclesiástico, que andam os padres há vinte séculos a ver se conseguem destruir a Igreja, e jamais o conseguem. Mas dizemos, porque isso já nos parece inteiramente justo, que andamos nós, todos os católicos, desde há vinte séculos, empenhados nessa destruição eclesiástica e deicida. Porque, sempre que as nossas atitudes não são coerentes com a nossa fé, sempre que, nas fileiras de qualquer organismo de apostolado, faltamos aos compromissos livremente assumidos, sempre que nos servimos da religião em vez de a servir, sempre que consentimos sem reacção que os poderes temporais algemem os espirituais, sempre que desejamos ou simplesmente admitimos que os interesses da Igreja se subordinem a outros interesses, por mais nobres que sejam, ou que os destinos da Igreja se acorrentem à sorte de qualquer causa, por mais nobre que nos pareça ou mesmo que seja, sempre que acima de todos os valores não colocamos os sobrenaturais e acima de todos os interesses não defendemos os de Cristo e da Sua Igreja, estamos a conspurcar a face da Igreja, o corpo da Igreja. 32
 
É certo que nunca atingimos o almejado fim ôntico de todas essas — tantas vezes inconscientes — atitudes. Porque a alma da Igreja — o Espírito amoroso de Cristo e do Pai — nem ao de leve é atingida por esses nossos crimes, que, nem por serem inconscientes, deixam de ser crimes. Não será o nosso crime fundamental sermos e mantermo-nos católicos inconscientes, mesmo quando vemos os filhos das trevas velarem de dia e de noite? 33
 
Mas, embora não consigamos desfear nem muito menos tirar a alma, a vida à Igreja, a verdade é que esta é por meio do seu corpo, da sua face exterior que se apresenta ao mundo. E essa face é o que forem os católicos. E estes tornam-na muitas vezes irreconhecível, repetindo a proeza deicida do Gólgota. onde judeus e romanos de conluio tornaram irreconhecível a Face adorável do Filho de Deus. E, tornando irreconhecível a Igreja, como queremos que os pagãos ou mesmo os protestantes e cismáticos a reconheçam como a própria casa e a verdadeira mãe? 34
 
E, para cúmulo da confusão que a nossa incoerência de católicos estabelece, assistimos a este fenómeno à primeira vista contraditório, mas, apesar de tudo, admirável: paganismo no próprio seio da Igreja Católica, a desfeá-la e torná-la irreconhecível, e, simultaneamente, do lado de lá, uma "Igreja pagã" sem mácula, constituída por todos aqueles que, mesmo sem os auxílios dos sacramentos e sacramentais e do ensino do verdadeiro catecismo, estão de uma tal boa fé e são de uma tal coerência com as suas convicções que não podem deixar, de estar na graça de Deus; porque Cristo, ainda que eles o ignorem, também morreu por eles, porque o Espírito Santo, ainda que eles desconheçam as Suas operações, está a santificá-los e por que o Pai, ainda que eles Lhe não chamem por esse Nome, é o seu verdadeiro Pai. 35
 
O nosso orgulho de ocidentais impede-nos, muitas vezes, de reconhecer os grandes valores morais e até ascéticos do Oriente em contradição flagrante com o nosso hedonismo e pragmatismo: pense-se, por exemplo, no cinema, e logo ficaremos cientes de que lado está o moralizador e o pornográfico; compare-se, por exemplo, a vida de oração e de austeridade de certos monges da Ásia com a dissipação e comodismo da maior parte dos nossos católicos, e teremos motivos para nos humilharmos que não para nos orgulharmos. 36
 
O nosso orgulho de europeus impede-nos, muitas vezes, de ligar importância aos valores doutros povos, comprometendo assim a própria obra de civilização e evangelização a que nos propusemos e propomos, chegando mesmo a inutilizar os mais heróicos esforços. Um estudo, por exemplo, dos valores religiosos dos povos bantos não nos deixaria a menor dúvida sobre este erro. 37
 
O nosso orgulho nacional impede-nos, muitas vezes, de, já não dizemos colaborar, mas pelo menos fazer justiça àqueles missionários de sangue não lusíada que trabalham com uma competência até hoje não excedida e com uma dedicação a que ainda não conseguimos encontrar limites. Valores que se impõem por si, sem necessidade de comparações; mas, se quisermos estabelecer comparação com o que cada um de nós, apesar de estar na própria pátria, têm feito pela causa missionária, mais uma vez parece que não é preciso ter uma consciência muito delicada para só encontrar motivos de se humilhar e fazer propósitos de maior gratidão e sobretudo de ser mais diligente em colaborar. (Neste ponto seria interessante reflectirmos em como somos tão prontos em apelidar de ingratos aos outros povos, e nem repararmos na mesma falta em que caímos, com todas as agravantes advindas da nossa qualidade de civilizados e civilizadores). 38
 
E até o nosso orgulho de católicos (horrível contradição!) impede-nos muitas vezes de reconhecer o zelo e a abnegação de certos pastores e pastoras protestantes, que muitas vezes poderiam ser um exemplo a apontar ao nosso laicato. 39
 
Quantas surpresas no dia do Juízo, quando soubermos quem afinal verdadeiramente pertencia à Igreja Católica, quem pertencia à alma da Igreja e não era apenas um membro apodrecido! Ocidente, Europa, Pátria — são tudo valores que só sobreviverão se os despojarmos de toda a hipocrisia e vaidade, e se os subordinarmos à Igreja e não vice-versa. E quantas vezes se não desrespeita essa hierarquia, pretendendo acorrentar os valores superiores aos inferiores, e, por cima, sempre nesse processo de hipocrisia, ainda querendo passar pêlos mais fiéis e valorosos servidores de Cristo e da Sua Igreja. Mas já ninguém saberá fazer um exame de consciência? 40
 

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O próximo Concílio Ecuménico, mais do que definições particulares como nos restantes, parece que pretende alertar os católicos com estes problemas, reajustar as nossas vidas ao Evangelho na sua pureza, varrer, arrumar e embelezar a casa, para nos sentirmos bem nela e para os de fora sentirem a sua falta, e ansiarem pela união. 41
 
Mas, para conseguir nos irmãos separados uma humildade capaz de os fazer aceitar aqueles pontos dogmáticos em que não podemos condescender, sob pena de nós próprios cairmos na heresia do irenismo, temos de ser nós os primeiros a darmos-lhes o exemplo de humildade, reconhecendo os nossos graves desvios de conduta, mesmo em relação a eles. Não admira que os outros os tenham: o que admira é que nós, os detentores da Verdade, persistamos neles. 42
 
O próximo Concílio Ecuménico é um supremo esforço de universalismo e de adaptação. Fazer refulgir, em tudo a catolicidade e, simultaneamente, evidenciar como não há qualquer incompatibilidade com quaisquer que sejam as novas situações, as novas descobertas, os novos valores. E, mais do que a não existência dessa incompatibilidade, evidenciar como o Catolicismo, na sua pureza, traz a satisfação plena de todos os novos anseios de qualquer ordem que eles sejam. 43
 
E João XXIII foi o primeiro a dar o exemplo: tenhamos em vista, por, exemplo, a escolha que tem feito dos novos cardeais, e ainda a constituição das comissões preconciliares, "compostas — como Ele mesmo afirmou em 5 de Junho de 1960 — por Cardeais, Bispos e Eclesiásticos, insignes por virtude e doutrina, tanto do clero secular como do clero regular, escolhidos das diversas partes do mundo, para também nisto brilhar a catolicidade da Igreja". E, por outro lado, — sem adaptação espacial e temporal não seria possível essa catolicidade (porque é uma catolicidade concreta e não simplesmente abstraía que se pretende) — os rituais bilíngues e outras medidas desse género mostram bem que o nosso Papa não prega sem primeiro dar o exemplo. 44
 
É certo que nós, insaciáveis, ainda quereríamos mais (é mais fácil querer dos outros do que de nós mesmos), e talvez não sejam frustradas as nossas esperanças. Damos a palavra a Robert Rouquette, que publicou um artigo intitulado "O Concílio e a Cúria Romana" nas Revistas francesas "Etudes" (de Outubro de 1961) e "Messager du Coeur de Jesus" (de Fevereiro de 1961), parcialmente transcrito na "Brotéria" de Janeiro de 1962: 45
 
"Sente-se, um pouco por toda a parte, a necessidade duma internacionalização efectiva da administração central da Igreja e do que é preciso chamar o seu serviço diplomático. Houve um tempo em que os nacionalismos regalistas, que dominavam a Europa, tornavam preferível que a Igreja fosse administrada apenas por súditos dos pequenos Estados Pontifícios. Já não é a mesma coisa no mundo internacionalizado de hoje. O privilégio numérico dos italianos é um anacronismo, tanto mais difícil de justificar, quanto o pensamento teológico e a adaptação pastoral da Itália estão longe de ser um modelo. Não há razões para haver mais de 5 ou 6 cardeais italianos". 46
 
"Há, muitas vezes, entre Roma e as nossas cristandades da Europa Ocidental, uma visão diferente das realidades. Em Roma, os funcionários da Cúria, ligados, abnegadamente, a uma função necessária e particularmente ingrata, têm uma consciência viva do poder espiritual e humano, que representa ainda a Igreja. Na Itália, a Igreja conserva ainda uma considerável influência directa sobre toda a vida do país. Em Roma, o verdadeiro soberano é ainda o Papa. A multidão das representações diplomáticas junto do Vaticano, o interesse dos jovens Estados não cristãos em entrar em relações oficiais com a Roma Pontifícia dão a medida da irradiação internacional do papado. Em Roma a Igreja tem ainda a impressão de se encontrar de posse. Não é, por isso, de estranhar que seja difícil, para um prelado 100% romano, o compreender, tão angustiadamente como um francês ou um alemão, a descristianização e a irreligiosidade do mundo contemporâneo". 47
 
Ora nós sabemos que João XXIII é capaz de tudo quanto se diz neste artigo e de muito mais. 48
 
Mas não pensemos que este esforço de, por um lado, conservar o Evangelho em toda a sua pureza, e, por outro lado, adaptá-lo a todos os povos — manter a pureza evangélica para ser adaptável a todos os pontos do globo e adaptá-lo para que Ele chegue, de fato, a todos esses pontos — este esforço é uma constante da Igreja desde a Sua primeira hora. Se nos reportarmos ao Sínodo de Jerusalém, lá constataremos como foi necessário condenar a tendência de levar, aos gregos um Cristianismo judaizado. Ora, se Cristo se adaptou tão maravilhosamente ao povo de que nasceu e onde pregou, não foi para que os seus continuadores impusessem aos outros povos os costumes da Palestina, absolutamente extrínsecos ao Evangelho, mas para que se adaptassem também a cada um dos povos onde viessem a pregar. 49
 
Esta é que é a lição de Cristo, por muito que custe ao nacionalismo judaico ou por muito que custe aos patriotismos modernos. Vamos pregar a orientais? Desocidentalizemos a Religião, e preguemo-la em termos e ao sabor orientais. Vamos pregar a africanos? Deseuropeizemos a Religião, e preguemo-la em termos e ao sabor africanos. Não foi assim que fizeram connosco? Não é assim que nós gostamos que nos preguem? Façamos aos outros o que queremos que nos façam a nós. E, para isso, distingamos sempre os elementos essenciais da nossa Religião daqueles elementos existenciais, que terão de variar conforme as circunstâncias de tempo e de espaço. 50
 
São sempre os eternos princípios da universalização e da individualização a presidir a tudo quanto existe; e todos os fracassos se devem a não se estudarem em ordem aos métodos de acção. Quando Cristo ordenou: — "Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura" — conforme se lê em S. Marcos, cap. 16, versículo 15, não se dirigia a seres brutos, mas a seres racionais. E a fé não veio destruir a razão, mas sublimá-la: para ser missionário não basta a bondade (como parece que até há pouco tempo muitos Superiores e Superioras religiosas pensavam): é necessário outra qualidade — a competência. Enviar para estas terras pessoal sem a devida preparação ou com uma deficiente ou deturpada formação é erro bem grave que estamos a pagar caro em muitas partes da África. 51
 
Procuramos fazer viver nos leitores, por uma boa meia hora, os problemas missionários tais como supomos os vivem e vão viver os Padres Conciliares; procuramos pensar e sentir com Roma e fazer pensar e fazer sentir com Roma, pois nisso consiste toda a nossa glória. Os Padres Conciliares estão à altura da sua missão: é preciso agora que também nós o estejamos, rezando por eles e, depois, acatando, disciplinada e humildemente, as suas decisões. 52
 
Não queiramos ser um caso à parte nem nos vangloriemos como os melhores do mundo, quando afinal parece que não há povo tão anticlerical como o nosso (examine, cada um, por exemplo, o que pensa de vocações sacerdotais ou religiosas). Foram o orgulho e a política que levaram tantos povos ao cisma. A nossa glória, repetimos, não está em sermos um caso à parte, mas em integrarmo-nos sem reservas no seio da Igreja, pensando como ela pensa, sentindo como ela sente. 53
 





esquema









    
 

 
    


Segundo



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—  Se  as  brechas  entre  os  homens e  os  grupos são
graves,  maior gravidade têm as  brechas dentro do próprio
homem e entre o  homem e  Deus.  E sempre o problema da
unidade.
 
—  Deus  é  a  causa   primeira  da   missionação:   nós
apenas  somos  causas  eficientes  segundas:  a  medida  da
união  destas  com aquela é que haverá  eficiência.  Depois,
dentro  de  cada uma das  causas segundas,  tem  de  haver
unidade:  agir de um modo, sentir doutro,  pensar  doutro  e
rezar doutro  — é  um  caos em  nós mesmos:  como  é  que
um ser caótico pode ser veículo da ordem evangélica ou de
qualquer ordem para os outros seres?
 
—  O  nosso  agir  tem de ser    missionário   (senão não
seremos   missionários);        o   nosso   sentir   tem  de  ser
missionário  (sob igual pena); o  nosso  pensar,  igualmente;
e até — e sobretudo a nossa oração tem de ser  missionária.
Não se   reza da mesma   maneira  na  Europa  e  em  Africa:
até a composição de lugar dá outro  colorido e    outro  sabor
às nossas relações de amizade com  Deus.    A  fidelidade  a
nenhuma  Regra ou  constituições o impede:  pelo contrário,
o      aconselha,    iria    dizer,        o   impõe     (ao     menos
implicitamente).
 
—  Nem brechas entre nós e  Deus, nem brechas entre
o religioso e o missionário:  harmonia e unidade em tudo, e,
sobretudo, em nós mesmos.
 




    
 

 
    


Índice



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Primeira Parte



Noção de espiritualidade





    
 

 
    


CAPÍTULO PRIMEIRO



A - EM PLANO NATURAL

   
1) — Encontros — Ânsia de unidade 1
   
Os encontros andam na ordem do dia: nas mais variadas modalidades e com os mais variados nomes, eles realizam-se em todos os sectores, a todos os níveis e em todas as latitudes. Isto parece querer dizer que os homens, por um lado andam desencontrados, desagregados, e, por outro, pretendem reencontrar-se, regressar à unidade em que foram criados e para que foram destinados. 2
Na unidade está a verdade, a santidade, a beleza, a felicidade: eis o motivo desta corrida para os encontros: todos queremos ser felizes: implicitamente, todos queremos ser santos, mas, ao escolher o caminho, não sei por maldade se por estupidez, enganamo-nos a nós próprios e enganamos o próximo. 3
   
2) — Unidade na hierarquia ôntica 4
   
É que unidade não é univocidade: pelo contrário, supõe diversidade. Até em Deus, unidade suprema, que tanto fascinou Platão, Plotino e Agostinho, até em Deus há diversidade de processões, de relações e de pessoas. À semelhança desta ordem incriada (ordem é unidade na diversidade), foi criado o Universo: e lá encontramos uma hierarquia ontológica — campo infinito de investigações científicas, de especulações filosóficas, de contemplação estética, e também de contemplação mística de almas em graça e disponíveis, onde o Espírito Santo se compraz em dinamizar o dom da Ciência. 5
E nessa ordem de seres, de que Aristóteles e Tomás de Aquino nos deram a síntese mais perfeita, lá constatamos a unidade de conjunto e a unidade de cada ente; e, à medida que subimos nessa escala ôntica, vamos encontrando sempre mais unidade. A quem passou despercebido que os seres quanto mais perfeitos mais simples, mais unos? A quem passou despercebido que um anorgânico é mais desagregado, é menos uno do que um vivente? E este, do que um animal? E este, do que o homem? E este, do que o anjo? 6
À medida que se sobe, caem as limitações, os condicionamentos intrínsecos e extrínsecos, até chegarmos a Deus, Simplicidade pura, Ilimitação infinita, Unidade perfeita. Quando se busca a felicidade nos encontros humanos, busca-se simultaneamente Deus, mas, por infelicidade, muitas vezes sem consciência disso. Materialmente, no entanto, são sempre movimentos de espiritualidade, que tanto encantavam João XXIII. 7
   
3) — Espiritualidade — O grande encontro 8
   
E parece que, chegados aqui, estamos aptos a compreender o que seja espiritualidade: é o grande encontro de todo o Universo visível na Humanidade, de todos os homens entre si e com os anjos, e de toda a criação com o Criador. É a tendência para a unidade em cada ser e no seu conjunto. Espiritualidade supõe sempre uma ascética, e esta consiste exactamente na realização progressiva dessa unidade. Subida do Monte Alverne, subida do Carmelo, etc. — são tudo imagens desta árdua caminhada para o Uno. 9
Viemos do Criador e voltamos para o Criador; mas, deste sair a este voltar", deste nascer a este morrer, é quê não sei se por maldade se por estupidez, não permanecemos em Deus, afastamo-nos dele: por outras palavras, nesta volta da existência, não mantemos a unidade nem em nós, nem com o próximo, nem com Deus: desagregamo-nos. E espiritualidade seria mantermo-nos em Deus. Uma vez perdida essa unidade, lá vêm as exigências dolorosas da ascese: choque doloroso de limitações, abater doloroso de barreiras, aplanar doloroso de brechas e abismos, para, finalmente, ser possível o reencontro connosco próprios, com o próximo e com Deus. 10
   
4) O mistério do desencontro 11
   
As limitações, os condicionamentos eram exigências ônticas da variedade do Universo: eram para servir a unidade e não para desagregar. Mas aí está o mistério do mal seres inteligentes e livres utilizam esses elementos de unidade, beleza e felicidade, para minar, desagregar, reduzir-nos ao caos. 12
A sexualidade, por exemplo, era para homem e mulher se completarem e não para se prostituírem. A individualidade que distingue um homem doutro homem era para nos compreendermos e colaborarmos, e não para nos fecharmos, desentendermo-nos e irritarmo-nos. Todas as diferenças eram para a harmonia e não para a guerra, no entanto, pensamos duma maneira, falamos doutra, e agimos ainda doutra. Mentira e hipocrisia. Temos faculdades para nos abrirmos sobre e com o próximo, e fechamo-nos no egoísmo e no orgulho. Queremos ir para Deus, e ficamos apegados a ídolos1. É o pecado inventado por nós: o inferno fabricado por nós. 13
A coerência tem por termo próprio o Céu; a incoerência, o fogo eterno. Cuidado com o cultivo da inteligência: não basta a vontade, como muitos pensam. Também responderemos pelo rendimento dos talentos intelectuais.
 
14





1

Primeira Epístola de S. João V, 21








    
 

 
    


CAPÍTULO SEGUNDO



B — ESPIRITUALIDADE CRISTÃ

  
 1) — Encontro a nível sobrenatural 15
  
Este grande encontro entre nós e com Deus não existe a nível natural, uma vez que fomos elevados ao estado de graça, e a ele restituídos pela Redenção. Na espiritualidade cristã entram elementos novos. Já não é um simples encontro de criaturas entre si e com o Criador, mas de amigos e familiares dos mais íntimos que se possa imaginar. Deus deixa de se fazer conhecer e amar apenas na unidade de natureza e como Criador, e revela-se-nos na sua riqueza de processões e relações íntimas, na Sua trindade de pessoas: revela-se-nos como Redentor e Santificador. 16
Começa a vida missionária no sentido estrito da palavra, porque até aí todos os enviados eram antecipação ou prefiguração dos grandes Enviados do Novo Testamento. 17
   
2) — O Verbo — primeiro missionário 18
   
O Pai, Princípio de toda a vida missionária, o Pai que gera o Filho, envia-O à terra, para que, incarnando, fique autenticamente homem como nós, nosso irmão, e assim da humanidade possa elevar-se um sacrifício de valor divino, isto é, de valor proporcional à gravidade da culpa (que se mede sempre pela pessoa visada e não pelo delinquente). 19
O Verbo, o primeiro Missionário, cumpre o mandato do Pai até à última letra e até à última gota de sangue: faz-se igual, exactamente igual, ao povo que vai missionar. Só pela ausência do pecado poderia ser distinguido dos outros: no mais — usos, costumes, língua, etc. — seria impossível diferencia-lo. 20
   
Seria caso para perguntar que missionários e missionárias somos, que tantas barreiras acrescentamos entre nós e o povo a que somos enviados, parece que não contentes com aquelas que de todo em todo não podemos superar, como seja, por exemplo, a cor da pele. Seria caso para perguntar: mas somos, de facto, enviados de Cristo ou representamos uma farsa? 21
   
O primeiro Enviado do Pai ensinou com o exemplo e ensinou com a palavra; Ele que era a palavra de Deus e que numa só palavra sintetiza (?) e analisa (?) todo o pensamento divino, humilhou-se a usar das múltiplas palavras que os homens têm de empregar (e sabe Deus com que falta de propriedade!) para significarem os seus complexos pensamentos e sentimentos. E usou a língua do povo a que foi enviado, apesar de esse povo não ser independente, mas estar sob o Império Romano. Não usou a língua do povo culto, civilizado e civilizador, não usou a língua dos cidadãos romanos: usou o dialecto local dos indígenas. 22
   
Valerá a pena novo interrogatório à nossa consciência neste ponto? 23
   
Finalmente, o primeiro Enviado do Pai sofre na Sua alma e no Seu corpo as piores agonias, para exemplo dos futuros missionários, para nosso exemplo, que recuamos, às vezes, perante a mínima contrariedade. E, não contente, nem sequer se permite a glória — justa glória — de ver completada a obra. Regressa ao Pai, depois de uma vida aparentemente falhada. 24
   
3)— O Espírito — segundo missionário 25
   
E o Pai e Ele, em conjunto, o Pai e o Verbo donde procede o Espírito Santo, enviam este último, como segundo grande Missionário, para completar a obra do primeiro: colher os frutos que Ele semeara. 26
   
Qual de nós tem esta renúncia de trabalhar sem colher? Não podemos, não aguentamos, ainda que seja preciso amadurecer os frutos à força: pela menos queremos vê-los em estatísticas. Cristo pregou, pregou com o exemplo, a palavra e a morte, e deixou o baptismo para a hora do Espírito Santo, para a hora em que havia garantias de os primeiros neófitos serem bons esteios da Igreja nascente. Nós não somos capazes de pregar sem baptizar, ainda que em vez de cristãos saibamos ir fazer apóstatas, que em vez de edificar a Igreja vamos destruir o que existia de valor ao menos humano. Ou, então, se não podemos baptizar, desanimamos, desistimos, numa palavra, renegamos a ser missionários, imitadores de Cristo. 27
   
O Espírito Santo, o segundo grande Missionário, abre as inteligências, abrasa os corações. Cristo não conseguira fazer-se entender: até à última, apóstolos e discípulos, apesar de boas pessoas, revelam-se sempre grosseiros na compreensão e nos desejos. Fala-lhes do Reino de Deus, e eles logo misturam, confundem-no com a pátria-terrestre1, — que estava em perigo e que precisava de heróis para a fazer de novo triunfar: um Deus, um Messias, que restituísse à pátria a glória de antanho, era isso que eles entendiam. Reino de Deus? Igreja? Sim; em função da pátria. 28
   
Estou no século primeiro do Cristianismo, e afinal sinto-me em pleno século vinte, e sinto-me agonizar por ter de constatar que para muitos de nós o Espírito Santo ainda não esclareceu as palavras do Evangelho. Um valor humano que convertemos em ídolo: uma virtude que degenerou e nos prostituiu com esse ídolo. Muitos e muitas renunciam ao próprio Sacramento do Matrimónio para conseguirem uma maior disponibilidade para o apostolado, para o amor de Deus e do próximo: não se deixam prender a nenhuma criatura, para poderem servir a todos sem excepção, não se deixam prender a nenhuma família, nem mesmo à sua, para a todas poderem servir; e, afinal, depois de tão sublime consagração da virgindade ou castidade perfeita, deixam-se prostituir por ideais políticos! Depois de vinte séculos ainda não percebemos a natureza do reino que compete aos missionários edificar. Quando é que deixaremos o Espírito Santo pôr em actividade o dom do Entendimento, que nos conferiu no Baptismo, e, em plenitude, no Crisma? 29
   
4) — A Igreja missionária 30
   
Cumprida a missão dos dois Enviados divinos, estamos em plena História da Igreja. Até aqui, os dois primeiros grandes Missionários agem por Si próprios; agora vão agir por meio de nós. Estão lançadas as bases do grande encontro ou reencontro. Está mesmo consumado no sentido de estar merecido para todos os homens e realizado em um número restrito; mas agora é preciso que esse número restrito que já se reencontrou a si, reencontrou o próximo e se reencontrou com Deus, leve esse reencontro a todos os outros homens que ainda não sabem da grande Novidade ou que se lhe querem fechar. A Redenção está consumada: falta aplicá-la. 31
O drama do Calvário vai agora prolongar-se na Missa e nos sofrimentos da Igreja. O fiasco da pregação de Cristo vai repetir-se na pregação dos missionários, sempre que o Espírito Santo não intervenha para glorificar o Verbo de Deus e o Pai de Quem Ele é Verbo. 32





1

Actos dos Apóstolos, I 6
Evangelho segundo S. João, VI, 15
Id. S. Lucas, XXII, 21-30








    
 

 
    


CAPÍTULO TERCEIRO



C — EM TERRAS DE MISSÃO

   
1) — Espiritualidade missionária 33
   
O grande encontro, de facto, apresenta-se-nos agora a outro nível, ao nível do sobrenatural. Mas espiritualidade cristã, no início, antes da Igreja consolidada, é sempre espiritualidade missionária no sentido estrito da palavra. Como a sintetizaremos agora à luz da Revelação do Mistério íntimo de Deus? 34
O Verbo, incarnando, torna-nos de direito. Seus irmãos e filhos de Deus. O Espírito Santo, pela graça merecida por Jesus, torna-nos, de facto, amigos e familiares da Santíssima Trindade. É pelo dom da PIEDADE que Deus, quando Lhe não opomos obstáculos, nos leva a proceder coerentemente com esta inefável realidade. E nós sentimo-nos felizes por sermos filhos — de adopção, é certo, mas verdadeiros filhos — de Deus. E nós sentimo-nos felizes, mas isso já nos custa bastante, por causa das terríveis consequências de O termos de imitar, sentimo-nos felizes, apesar de tudo, por sermos irmãos de Cristo. 35
   
Para disfarçar, vamo-LO imitando apenas nas facetas que nos são mais agradáveis: mas, com coerência ou sem ela, é uma honra sermos, pela graça santificante Conferida no Baptismo ou recuperada pela Confissão, irmãos do Filho de Deus, como, pela natureza, todos o somos em Adão. 36
   
2) — Fraternidade sobrenatural 37
   
É neste «todos o somos» que está a grande dificuldade, o grande obstáculo, o grande escândalo. Sermos, individualmente, irmãos de Cristo, muito bem. Sermos todos, entre nós, irmãos uns dos outros, ter Cristo sobrenaturalizado, ainda por cima, esta fraternidade universal, isso até parece um insulto à nossa «dignidade... cristã». 38
Eu, irmão, pela natureza e ainda pela graça, deste «preto» imundo, mal cheiroso, maltrapilho, preguiçoso, ladrão, insolente, estúpido, que nem uma palavra percebe do que lhe digo? Eu, irmão desta mulher parva que só pelo medo é capaz de cultivar a machamba da companhia, que traz os filhos nus, que não tem nada na palhota que a assemelhe a um lar, que só gosta de falar, rir e fumar? Eu, irmão desta gente que só à força da cambala e da palmatória é capaz de fazer alguma coisa? 39
Sim, de todos e de cada um em particular, irmãos em Adão e em Cristo, quer queiramos quer não, apenas com uma diferença: se quisermos identificar-nos fraternalmente com eles, teremos parte com Cristo; se não quisermos, continuaremos irmãos (o carácter do Baptismo não se apaga nem a natureza se destrói) mas não teremos parte com Cristo. Ou aceitamos Cristo total ou renegamos totalmente a Cristo: não podemos ficar com a Cabeça e desprezar os membros: Cristo foi flagelado, mas não mutilado: «Nem um só osso Lhe quebrareis1. 40
   
Seremos nós a fazer-Lhe o que nem flageladores nem crucificadores se atreveram a fazer-Lhe? 41
   
E Cristo identificou-se com os criminosos, quer na Paixão quer quando disse: «Estava no cárcere e fostes visitar-Me»2. 42
   
Ou ousaremos pensar que só é obra de misericórdia visitar os injustamente presos? 43
   
Mas não é com esta arrogância «religiosa» (?), rácica, de classe ou de ridículo «pirismo» (perdoem-me o calão, mas não encontro outra palavra que o substitua), não é com orgulho (orgulho é sempre estupidez e mentira) que podemos aceitar esta fraternidade de modo a termos parte com Cristo na herança do Pai. 44
É na verdade e humildade, na unidade e simplicidade de todo o nosso ser: 45
   
Quem de nós é capaz de atirar a primeira pedra? Em circunstâncias semelhantes, como procederíamos? Conhecemos a nossa História? Aonde chegaríamos, se quiséssemos ser inteligentes e sinceros! Mas não vamos mais longe: se Cristo se dignasse descer de novo a este Continente, aparecer-nos aqui mesmo nesta sala, debruçar-se sobre um papel ou dirigir-se a este quadro preto, e nele escrevesse algumas poucas palavras, como outrora, na areia da Palestina e com o próprio dedo, aos pés da mulher adúltera, se Cristo voltasse a escrever aquelas poucas palavras3 que nunca soubemos quais fossem, mas que sem dúvida se relacionavam com as pedras que estavam nas mãos dos judeus e sobretudo com as consciências de quem as tencionava atirar, se Cristo viesse aqui e nos pusesse aqui mesmo à prova, com quantas pedras ficaríamos na mão, quantos de nós resistiriam à sua presença? 46
   
3) — Humildade — Exigência de justiça e verdade 47
   
Eu começo por mim: permiti um exame de consciência alto, que será como uma confissão pública. 48
   
PREGUIÇOSOS 49
   
Quando não descanso o suficiente e, portanto, não me recomponho, não me ponho em condições para um bom rendimento no trabalho seguinte, estarei a ser diligente ou estarei a cometer uma forma subtil de preguiça4, agravada ainda com a aparência de virtude, que não passa afinal de hipocrisia? 50
E quando não me dedico àquele trabalho que é mais necessário à implantação da Igreja e, portanto, ao bem das almas, mas me permito, às vezes até sob o pretexto da obediência (é sempre a hipocrisia e o farisaísmo), ocupar o tempo em outros trabalhos de rotina, também penosos, é certo, mas aos quais como que por fatalidade nos deixamos prender, estarei a ser diligente ou preguiçoso? 51
Quando, com um frenesi exaustivo, de manhã à noite, quero justificar o não cumprimento de outras obrigações muito mais importantes, que muitas vezes até se me impõem à consciência sob grave, que é que estou a ser? 52
Sei que, sem o estudo da língua local e sem o convívio fraternal dos africanos, nada posso realizar de útil no campo missionário que me foi confiado: que sou, quando faço tudo menos isto? 53
Diligência não é trabalhar de qualquer modo, mas trabalhar bem. (Diligência é virtude, e cada virtude, para ser perfeita, para ser de facto virtude, exige todas as outras). Preguiça não é só não fazer nada, mas é também fazer o que nos apetece ou não fazer o que a Igreja quer de nós, aquilo para que a Hierarquia nos enviou. 54
   
LADRÕES 55
   
O sétimo mandamento proíbe apenas aos que têm menos não prejudicar os que têm mais, ou também a estes não prejudicarem aqueles? 56
Pago a quem me serve o suficiente para se manter a ele e à família num nível humano ? 57
Sempre que me calo perante as injustiças sociais, sempre que não reajo perante os roubos cometidos pelos ricos ou poderosos contra os pobres, sempre que me acobardo, por comodismo ou medo (que hipocritamente cubro pela aparência da virtude da prudência), sempre que não quero sofrer pelos meus irmãos o que Cristo sofreu por nós, não estarei a ser solidário na responsabilidade desses crimes contra o mandamento do Senhor NÃO MATARÁS5? 58
Ou para mim o que tem importância são aquelas camisas, aquelas batatas ou aquelas salvas de prata que me tiraram, sei lá se para simples compensação de roubos muito piores de outros com quem me identifico pela cor, nacionalidade, religião ou até convívio? 59
   
MENTIROSOS 60
   
Quando eu ensino o catecismo ou o Evangelho e me limito a focar as obrigações dos pequenos e não os seus direitos, ou os direitos dos grandes e não os seus deveres, quando apenas ensino o que convém a um falso prestígio de certos grupos ou pessoas, quando obedeço a directrizes de governos ou a interesses capitalistas em vez de seguir as directrizes de Roma, quando apresento assim uma caricatura de Cristo e do Cristianismo, e obstáculo a uma adesão sincera, estarei a ser verdadeiro ou mentiroso? Novamente medo? Impossível! Estamos numa Igreja livre ou numa Igreja do silêncio? 61
   
INGRATOS 62
   
Senhor, deste-me a compreensão perfeita da vida matrimonial, religiosa e missionária, deste-me um Bispo que me associou ao trabalho da Sua Diocese, deste-me inteligência, saúde e o último lugar no quadro missionário (mas que eu não trocaria pela mais alta posição na sociedade); e apesar de tudo, basta olhar para a diferença entre o que sei e o que faço, entre o que digo e o que realizo, entre a inteligência adulta e a vontade infantil, basta olhar para esta contradição, este absurdo, esta desagregação, esta falta de unidade, de simplicidade, de espiritualidade, para logo perguntar: Quem é o ingrato? Eu «ou aqueles para com os quais nem sequer cumpri um mínimo de justiça social que, no Campo dos bens espirituais, me imporia transmitir-lhes um Cristianismo autêntico e não mutilado, e aos quais, mesmo assim, já quero exigir me sejam infinitamente gratos? 63
   
4) — Quem é o nosso próximo? 64
   
Se as pedras se voltassem contra o culpado, seria eu que cairia lapidado. E eles? Ainda que fossem tudo isso que nos permitimos pensar e dizer, todos seríamos irmãos em Cristo, porque a Redenção não excluiu ninguém, e, se nem todos os seus efeitos ainda se fizeram sentir, é por culpa nossa, que, pelo baptismo, pelo crisma e por mandato episcopal, somos os continuadores dos Actos dos Apóstolos. 65
Mas a justiça obriga-nos a reconhecer que muitos defeitos não passam de aparentes, e muitas outras virtudes nos passam desapercebidas, porque vivemos muito longe deles porque procedemos como se nos fossem estranhos e não irmãos. 66
E não só lhes ignoramos essas virtudes (religiosidade, submissão, solidariedade, hospitalidade, piedade, trabalho, modéstia, amor maternal, etc.), como até lhas destruímos, fazendo tábua raza de todos os seus valores, preconcebendo que tudo quanto têm é mau, como que querendo o absurdo da graça destruir a natureza ou actuar à margem dela. E, assim, nem o homem nem o cristão, mas em cada africano submetido a esta operação surge-nos uma caricatura, onde dificilmente se descobrem quaisquer dos traços que parece lhes pretendíamos desenhar. 67
(Pois repelente ou não repelente, pois queiramos ou não queiramos, é este o nosso próximo, com quem nos temos de identificar, para assim nos  encontrarmos com Deus. «Quem diz amar a Deus que não vê e não ama ao próximo que vê. é mentiroso»6. E não vamos, certamente, repetir a proeza farisaica de perguntar a Cristo: — Quem é o nosso próximo?7. Oh! Se Cristo as não poupou a doutores da Antiga Lei, como as iria poupar a nós, que nos orgulhamos de povo evangelizador, a nós que temos à disposição não apenas todo o Antigo e Novo Testamento, mas ainda vinte séculos de Igreja? 68
Naquele tempo, o sacerdote e o levita passaram ao largo, e só o samaritano, o estrangeiro, é que se debruçou sobre o seu próximo, despido, ferido, expoliado. Parábola da Palestina ou realidade africana? 69





1

Êxodo, XII, 46
Números, IX, 12
Evangelho segundo S, João, XIX, 36

2

Evangelho segundo S. Mateus, XXV, 36

3

Evangelho segundo S. João, VIU, l a 11

4

A. — D. Sertillanges, A VIDA INTELECTUAL, 3.' Edição corrigida, Arménio Amado, Editor, Sue., Coimbra, 1957, pág. 238

5

Êxodo, XX, 15

6

Primeira Epístola de S. João, IV, 20

7

Evangelho segundo S. Lucas, X, 23-37




















    
 

 
    


CAPÍTULO QUARTO



D — TENTATIVA DE SÍNTESE

   
1) — Oração missionária 70
   
Eis, numa palavra, a espiritualidade missionária: o Espírito, o Dom, o Amor, a unir-nos amorosamente uns aos outros e a Cristo — o Verbo divino que «ab aeterno» e «in aeternum» também é unido amorosamente ao Pai por esse mesmo Espírito. E isto traduzido, vivido, em terras onde a Igreja ainda não está fundada, tanto na oração como no trabalho, tanto na vida de casa como fora de casa, tanto na vida religiosa como na vida apostólica. 71
Se o amor fraternal não for para nós palavra vã, o dom da SABEDORIA não ficará passivo na nossa alma, mas, quando rezarmos ou pensarmos nestas realidades sobrenaturais, saborearemos de um modo inefável a grande maravilha da espiritualidade: o encontro fraternal com o próximo e com Cristo, pelo Espírito Santo, para, depois da morte vermos face a face o Pai. 72
O grande, o grandíssimo encontro será este com o Pai: as missões realizadas na terra pelo Verbo e pelo Espírito não são outra coisa senão a preparação deste encontro com o Pai. Os grandes encontros têm de ser bem preparados. 73
   
2) — Maria — a primeira missionária 74
   
Mas nós, apesar de toda esta sobrenaturalidade que nos é posta à disposição, porque somos e continuamos muito humanos, sentiríamos ainda a nostalgia de qualquer coisa. Uma Mulher, idealmente pura, uma Mãe a nível sobrenatural — se não é de necessidade absoluta, é pelo menos de irrefutável conveniência para a espiritualidade do homem. Deus fez-nos assim: não tem que levar a mal. E, de facto, o plano da Redenção não esqueceu Maria, como o plano da Criação não tinha esquecido Eva. 75
E o Pai deixa que seja Maria a entregar-nos Cristo, o primeiro Missionário, e que seja Maria a entregar-nos todas as graças e todos os dons do Espírito Santo, o segundo Missionário. Maria é a primeira Missionária, quer por isso, quer porque foi Quem mais se identificou aos dois divinos Missionários. 76
E, sendo Mãe de Cristo, é Mãe de todo o Corpo Místico (a Igreja), porque Cristo, já o temos dito, é sempre um Cristo total e não mutilado. 77
   
3) — Três notas de espiritualidade 78
   
Estas três características — trinitária, mariana e eclesial — são a garantia de uma autêntica espiritualidade. E, se forem referidas a terras onde a Igreja ainda não está fundada, teremos a garantia de uma autêntica espiritualidade missionária. 79
Todo o homem é nosso próximo, mas, mais próximo é o que está, de facto, mais próximo. Seria caso para de novo citar S. João, parafraseando-o: — Quem diz amar o próximo que não vê e não ama o próximo que vê... 80
É inevitável, mais uma vez nos chamaria mentirosos1. 81





1

Primeira Epístola de S. João, IV, 20






    
 

 
    


Segunda Parte



Como a conseguir





    
 

 
    


CAPÍTULO PRIMEIRO



A – A ORAÇÃO

  
1) — A escola da oração 82
  
Se nós rezássemos assim, não distinguindo o próximo de Cristo, e, assim identificados com esta gente, nos apresentássemos ao Pai, sob o fluxo do Espírito Santo e os olhares de Maria, se nós rezássemos assim confundidos na massa dos africanos a quem fomos enviados, aprenderíamos na oração tudo quanto é preciso para sermos autênticos missionários. Na própria oração aprenderíamos a conviver, como de irmão para irmão. Aprenderíamos a língua, porque o amigo tem necessidade de unir a sua voz à voz do amigo quando este louva a Deus, porque o amigo tem necessidade de ouvir o Divino amigo louvado em todos os idiomas da terra. 83
Aprenderíamos a colocar os interesses da Igreja acima de tudo, mesmo da congregação ou da pátria, porque a fraternidade universal supera todos esses valores. 84
Aprenderíamos a ser mortificados, porque, quando há amor não se aguenta ver o companheiro sofrer e não querer sofrer também. Todas as penitências físicas, desde que não prejudiquem o trabalho missionário, têm lugar insubstituível em terras de missão. 85
   
Quem pode ver Cristo flagelado no pretório, Cristo de novo flagelado nas prisões, nos lugares de contrato e nas machambas, Cristo flagelado em homens e até em mulheres, mesmo ao pé de nós, quem pode ver Cristo flagelado, ver os nossos irmãos e irmãs flageladas, e não se flagelar também, para completar nos seus membros o que falta à Paixão de Cristo1, para se identificar com o Corpo Místico, com a Igreja a que pertence e que se deseja implantar nesta África? Já pensaram nisto os religiosos e religiosas que têm a disciplina nas suas constituições? E já pensaram nisto os outros, mesmo os leigos? Ou pensamos que se trata de uma penitência anacrónica e ultrapassada? Ou pensamos que uns dez minutos de disciplina nos vão arruinar as forças para o trabalho? Enganamo-nos ou convém-nos fingir que nos enganamos: a penitência revigora: tudo está no critério da escolha. E também não basta só o espírito da penitência, como não basta a penitência sem espírito: é preciso uma coisa e outra, para nem cairmos no comodismo nem no farisaísmo.
 
86
   
Na oração aprenderíamos tudo que é preciso para uma eficiente missionação. Mas era preciso que orássemos bem. E por que será que não rezamos bem em pleno século XX de Cristianismo? 87
  
2) — Dificuldade de orar 88
  
A Redenção restitui-nos os dons sobrenaturais, mas não os preternaturais nem mesmo a ordem natural das nossas faculdades que o pecado original, embora só acidentalmente, transtornou: a nossa natureza, mesmo depois da Redenção, continua decaída. 89
Isto é evidente que afecta as nossas relações com o próximo e com Deus. O Espírito Santo vem em nosso auxílio com a graça, mas exige a nossa cooperação, o nosso esforço. Normalmente, até os dons (que não dependem da nossa acção) só são postos em plena actividade depois de termos dado muitas provas de fidelidade, colaborando no cultivo das virtudes. 90
Isto quer dizer, como já atrás afirmámos, que a espiritualidade exige, pressupõe uma ascese. Para permanecermos em Deus, temos de fazer violência a nós mesmos, isto é, temos de ordenar as nossas faculdades, restabelecer a unidade e simplicidade em nós mesmos, temos de nos preparar, pormo-nos em disponibilidade para o Espírito actuar livremente. Cristo, ao impor-nos os antigos mandamentos, agora mais aperfeiçoados, incluindo ainda mais exigências, por necessidade lógica da nova dignidade a que éramos elevados. Cristo não se esqueceu de nos dar os Seus conselhos para bem podermos cumprir os mandamentos. A Sua justiça e verdade não tolerariam que ao homem fosse imposto um fim e se lhe não indicassem os meios e condições mais eficientes. 91
Parece que às vezes há um equívoco ao falar-se de mandamentos e conselhos, identificando-se àqueles com a moral e estes com a ascética, ou pior ainda, remetendo os leigos para aqueles e reservando estes para os religiosos. 92
O mandamento do amor divino e fraternal, que já existia no Antigo Testamento, mas que o Novo Testamento elevou a um nível e a uma exigência que jamais poderíamos ter imaginado2, o mandamento do amor é imposto a todos. Mas Deus não nos ia impor um mandamento, um fim, sem proporcionar meios adequados; e esses meios foram e são-nos proporcionados pelos sacramentos, sacramentais e oração. Mas, embora os sacramentos operem por si mesmos, na verdade só aproveitam se houver preparação e correspondência: cooperação. O «ex opere operato» nunca nos pode fazer esquecer o «ex opere operantis».
 
93





1

Epístola de S. Paulo aos Colossenses, l, 24

2

Evangelho segundo S. Mateus, V, 3&48
Id. S. Lucas, VI, 27-36
Id. S. João, XIII, 34-35








    
 

 
    


CAPÍTULO SEGUNDO



B — CONSELHOS EVANGÉLICOS

  
1) — Remédio da desagregação (os votos) 94
  
E nós, com as faculdades em desordem, e nós, desencontrados de nós mesmos, desagregados, sem unidade, como poderíamos corresponder com esse mínimo de cooperação? É então que Cristo nos aconselha a colocarmo-nos em estado de disponibilidade1. Esses conselhos, que desde os primeiros séculos se concretizaram nos três ou cinco votos ou em outras formas de consagração, são para nos colocar em condições propícias à acção do Espírito Santo, para bem executarmos, realizarmos o mandamento da Caridade. 95
Todos os religiosos têm uma grande estima pelos votos, e têm razão para isso; mas, cuidado, colocai cada coisa no seu lugar: os votos nem são um sacramento nem muito menos um fim; os votos são a condição para bem aproveitarmos dos sacramentos, para bem rezarmos e para bem trabalharmos no apostolado, aqui, na edificação da Igreja; o Amor, que é Deus, é que é o fim para o qual nos devem encaminhar todos esses meios. 96
Isto quer dizer que nunca pode haver incompatibilidade entre missionação e vida religiosa; nunca os votos podem impedir o bem da Igreja, nunca as regras ou constituições (ao abrigo das quais se emitem) podem ser um obstáculo à Sua implantação. Se o fossem, teríamos de concluir que estavam erradas e que os votos, nesse ponto, deixavam de ter validade. No entanto, eu parece-me que poderia afirmar, sem medo de erro, que não há regras nem constituições que impeçam uma verdadeira missionação: o que a impede muitíssimas vezes é uma interpretação errada, farisaica, comodista. E o pior é que essas interpretações parece que passaram à rotina — rotina que é a morte da vida espiritual.
 
97
  
(2) — Fragmentos evangélicos (as Regras) 98
  
Todos sabemos como nasceram as grandes regras, os grandes legisladores, as grandes ordens, congregações e institutos. A personalidade de Cristo é tão rica, o Evangelho é tão cheio, que nós só o conseguimos imitar e seguir por partes e em certos aspectos. No dia em que o imitássemos integralmente, deixaríamos de ser criaturas. 99
Por outro lado, mas por isso mesmo, na Igreja visível às vezes descura-se um ou outro aspecto da Mensagem evangélica. É então que surge algum desses atletas do sobrenatural, apaixonado exactamente por aquela faceta de Cristo que parece estar a desaparecer da Igreja. Quem não está a pensar num S. Bento, num S. Bruno, num S. Francisco, num S. Domingos, num Santo Inácio, num Cardeal Lavigerie, num Carlos de Foucauld, num José Maria Escrivá ou até, embora, em parte, noutra linha, num Cardeal Mercier? Foram verdadeiramente sal da terra e luz do mundo2; mas já nem sempre o foram os seus continuadores.
 
100
   
3) — Farisaísmo e comodismo (letra e espírito) 101
   
Nós somos um complexo uno — e substancialmente uno — de espírito e matéria Não somos um binómio (pensamento e extensão: «penso, logo sou») como queria Descartes, mas somos uma unidade. 102
Também a lei — seja a grande Lei evangélica sejam as pequenas leis desses fundadores — é um complexo uno de letra e espírito, forma e fundo. Separar é destruir, como Descartes, embora sem intenção, destruiu o homem. «A letra mata, o espírito vivifica»3; mas até esta palavra de S. Paulo é muitas vezes mal interpretada. 103
A letra mata quando se separa do espírito; o espírito vivifica quando age sobre a letra. E, assim, quando uns se agarram só ao espírito, como se fossem anjos e não homens, fazem a besta — como diria Pascal. Desligam-se da letra para se espiritualizarem, e tudo se esvai como fumo: fica o animal, egoísta e comodista. Quando outros, pelo contrário, se agarram à letra, miudinhos, como se, apanhando bem a matéria, o espírito se não pudesse escapar, temos o farisaísmo: com tanta preocupação da letra, esqueceram o seu verdadeiro significado, o seu espírito.
 
104
   
Cristo veio condenar o farisaísmo; e, ao fim de tantos séculos, é difícil de saber se os fariseus diminuíram sobre a terra! 105
   
A rotina é o esquecimento, o afastamento do espírito: é a geradora do farisaísmo. 106
   
Quando religioso ou religiosa afirma que a sua regra não permite que façam isto ou aquilo que o bem da Igreja exige, infalivelmente que há farisaísmo. Até o respeito pelo fundador e pelos votos lhes devia impedir de pensar sequer na possibilidade de incompatibilidade entre a vida religiosa e os autênticos métodos missionários. 107
   
Gostaria de tratar em pormenor do problema da harmonia, da unidade admirável entre a vida de religião e a vida de missão, mas o tempo não o permite. Aliás, seria trabalho para referenciar a cada ordem ou congregação em particular; e isto tornar-se-ia excessivamente longo. Fica, no entanto, tocado o assunto, para cada um o aplicar a si e aos seus, sempre segundo este princípio: o espírito isolado da letra não é nada ou é pior do que nada, porque gera o comodismo: a letra separada do espírito e a rotina que esquece o espírito são farisaísmo; a unidade da letra e do espírito é a verdade, a simplicidade e a autenticidade cristãs: gera a santidade e a felicidade. 108
   
4) — Condição indispensável para ser missionário (conselhos evangélicos) 109
   
Ora o que se diz das regras, diz-se dos votos que lhes são geralmente referenciados. É que seria um absurdo: os votos são para nos colocar em estado de disponibilidade para a vida de santificação e de apostolado. Como poderiam ser um estorvo para a edificação da Igreja? 110
Não: não só não são estorvo como são até indispensáveis para a vida missionária.. Pode ser-se sacerdote sem votos, porque mesmo sem espírito ou mesmo em pecado, o sacerdote celebra o sacrifício da missa validamente, e nada tira à eficácia dos sacramentos. Mas isto é naquilo que só o sacerdote e mais ninguém pode fazer. Se esse mesmo sacerdote quiser, além dessas funções estritamente dependentes do carácter que lhes, imprimiu o Sacramento da Ordem, tornar-se verdadeiro apóstolo, tem de seguir os conselhos evangélicos: é um condicionalismo indispensável. 111
Bispo, sacerdote ou leigo, ninguém pode ser santo nem missionário sem votos ou, pela menos, sem tender para os votos. 112
   
5) — Amplitude dos votos 113
   
Explico-me, para não ser eu agora a cair simultaneamente num farisaísmo e num rigorismo de sabor jansenista. 114
Primeiro que tudo, ao falar-vos de votos, dou-lhes um sentido amplo, que inclui todas as modalidades revolucionárias (se lhes quiserem chamar assim) dos tempos modernos, e incluo neles, portanto, todas as formas de consagração equivalentes. 115
   
6) — Matrimónio e virgindade 116
   
Segundo: quando falo de castidade, considero-a sempre segundo o estado de cada um. O mesmo voto de castidade que impõe a continência aos celibatários, não só permite como até impõe muitas vezes o uso conjugal aos casados. 117
Salvo casos absolutamente extraordinários (por exemplo o Casal de Nazaré), o voto de castidade deve ser feito respeitando o estado de cada um. É evidente que seria absurdo colocar os casados no dilema de terem de renunciar ao que há de específico no Matrimónio ou de renunciar à santificação ou à vida missionária. Que sacramento seria esse então? Obstáculo em vez de ajuda? 118
Uns santificam-se na virgindade, outros na vida matrimonial. Isto não quer dizer, porém, que coloquemos no mesmo plano as virgens e os casados. Apesar da consagração daquelas não ter sido elevada a sacramento, a verdade é que dá uma disponibilidade tal para o amor e para a actividade apostólica, e é um sacrifício que denota uma tal Caridade que temos de colocar as virgens e mesmo todos os celibatários por amor de Deus muito acima dos casados. 119
Mas isto é uma coisa: outra seria excluí-los de um voto de castidade segundo o próprio estado, e muito menos excluí-los da possibilidade de pronunciarem os restantes votos, ou de se consagrarem à vida apostólica. 120
  
7) — Votos de desejo 121
  
Terceiro: à semelhança do que acontece com o baptismo — há o baptismo de água e o baptismo de desejo —, também cremos que há os votos efectivamente pronunciados e os votos de desejo. 122
Uma pessoa não plenamente instruída neste ponto (e tão poucos o são!) é evidente que se pode santificar mesmo sem pronunciar votos: mas o que eu afirmo é que essa pessoa que de facto se quer santificar, se conhecesse a possibilidade de pronunciar votos sem mudar de estado nem de profissão, pronunciá-los-ia. 123
A santidade é a coerência: quem quer ser santo quer os meios e quer colocar-se nas condições de eficácia desses meios. 124
Assim concebidos os votos, parece que não escandalizarei ninguém dizendo que sem votos não se chega a santo nem a autêntico missionário. 125
E não me venham dizer que o espírito dos votos é suficiente, porque parece já termos falado bastante sobre esses «espíritos» desencarnados da letra. Chegará, sim, para quem não estiver esclarecido, e então teremos aquilo a que chamei votos de desejo. Mas, para quem conhece o problema em toda a extensão, só lhe resta aceitar a unidade da letra e do espírito. (Também aquele que já estiver em graça pelo baptismo de desejo, se vier a conhecer a Igreja, é obrigado a submeter-se ao baptismo da água). 126
  
8) — Os 5 votos e os 3 estados de perfeição 127
  
Também aqui gostaria de descer a considerações sobre cada um dos cinco votos tradicionais: a obediência, que nos liberta de caprichos; a castidade, que, aos celibatários, liberta de encargos familiares, e, aos casados, reforça a unidade conjugal, libertando-os dos perigos de desunião; a pobreza, que nos liberta das preocupações económicas (preocupações, não ocupações, note-se); a estabilidade, que nos liberta da constante ansiedade de mudar, e que nos leva a fazer exactamente o que estamos a fazer e não outra coisa; a conversão de costumes, que nos liberta da rotina. 128
Gostaria ainda de tecer considerações acerca dos três estados canónicos de perfeição e dos estados de perfeição não canónicos ou ainda não canónicos. Constataríamos assim, com mais evidência, o valor missionário dos votos. Mas isso levaria longe, e não devo ultrapassar o tempo que me foi concedido. 129
Mesmo assim, parece que já se tornou bastante claro que está em crise a autêntica vivência dos votos, e que é isso que obstacula a unidade que tem de haver entre vida religiosa e vida missionária. 130
  
9) — Disponibilidade para a acção dos dons 131
  
Uma autêntica vivência dos votos coloca-nos num estado de disponibilidade tal que é impossível que o Espírito Santo não a aproveite para agir com os Seus dons: que o dom do CONSELHO não nos leve a estudar os verdadeiros métodos missionários e a observar o fenómeno africano como se está a processar; que o dom da FORTALEZA não nos leve a pôr em prática tudo quanto a Igreja precisa para se implantar e enraizar nestas terras; que o dom do TEMOR não nos leve a nada descurar no serviço missionário, não por medo a castigo, mas por medo a desgostar o Coração de Deus. E, assim, todos os outros dons a que já fomos aludindo durante este trabalho. 132
A vivência da unidade dos votos (unidade de letra e espírito, para nem cairmos no comodismo nem no farisaísmo) colocar-nos-ia em condições de uma verdadeira oração — aquela oração de unidade com o nosso próximo (sobretudo com os companheiros de trabalho e com aqueles a quem fomos enviados), oração de unidade - com Cristo que está em cada um deles (actual ou potencialmente), com o Pai, fonte e destino de toda a missionação, e com o Espírito Santo, que estabelece toda esta admirável unidade: em Deus, nos homens, e entre os homens e Deus. 133
Quando soubermos rezar como missionários, saberemos agir como missionários. 134
  
10) — Mais que compatibilidade: conveniência e até exigência 135
  
A nossa crise é uma crise de unidade. Quando acabamos o serviço ou as viagens apostólicas, não deixamos de ser missionários, para, em casa, passarmos a ser religiosos. Dentro de casa ou fora de casa, na igreja ou na escola ou no hospital, a falar com europeus ou com africanos, com os companheiros ou com gente estranha, somos sempre missionários e somos sempre religiosos ou casados (mantemos sempre o nosso estado de vida e o mandato apostólico): toda a nossa vida tem de levar este cunho de unidade e simplicidade e coerência. 136
E isto não é incompatível com nenhuma regra. Também aqui seria interessante, se o tempo o permitisse, fazer a prova de como o espírito missionário não prejudica a vivência religiosa nem a vivência matrimonial: pelo contrário, revitaliza-as. Eu diria mais: a informação da vida religiosa pelo espírito missionário é uma necessidade de todas as ordens congregações e institutos que trabalham aqui. Baixando o espírito missionário ou separando-se esse espírito do espírito religioso, este imediatamente decai. Poderíamos analisar isto mesmo em face das regras, constituições e directórios dos religiosos e religiosas que trabalham na Zambézia. 137
Sinto-me insatisfeito, porque disse muito, e afinal disse muito pouco de tudo quanto quereria dizer. Perdoai esta falta de concisão. 138
Perdoai também que um leigo — e demais a mais um leigo casado — fale com tanta franqueza e liberdade sobre estes assuntos. 139
Oxalá, pelo menos, tenha conseguido mostrar a importância de uma espiritualidade autenticamente missionária para conseguirmos aplicar ao apostolado métodos autênticamente missionários e, assim, ajudarmos o nosso Bispo a fundar, enraizar e consolidar a Igreja na Sua e nossa Diocese — a realizar o grande encontro dos homens entre si e com Deus, a nível sobrenatural. 140





1

Evangelho segundo S. Mateus, XIX, 17-21
Primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios. VII, : 5-49

2

Evangelho segundo S. Mateus, V, 13-16
Id. S. Lucas, XI, 33-36

3

Segunda Epístola de S. Paula aos Coríntios, III, 6
Epístola de S. Paulo aos Romanos, II, 29








    
 

 
    


Excursos



Em construção
 





    
 

 
    


Terceiro



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Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro


de colaboração com

P. Giovanni Battista Brentari, O. F. M. Cap.


A capa é da autoria de

Isabel Rocha

pintora e professora de educação visual.





    
 

 
    






Separata



Separata de Itinerarium, números 63, 64, 65 e 66





Este trabalho* não teria sido possível sem a colaboração do P. João Baptista, Capuchinho de Trento, que missiona na Zambézia desde 23/9/1950 e a quem cabe a responsabilidade de todos os dados etnográficos e linguísticos nele contidos. Mas a nossa admiração e reconhecimento estendem-se a todos quantos, de um modo mais próximo ou mais remoto, nos ajudaram — desde os nossos professores até os missionários e missionárias que nos receberam nas mais diversas partes da África oriental e central, desde os escritores que nos proporcionaram os seus livros sobre este Continente até os seus naturais com quem alguma vez conseguimos dialogar, e desde aqueles que nos admi­tiram no serviço missionário até aqueles que nos proporcionaram um clima de amizade propício ao trabalho. E, acima de todos, a MULUGU.




* Ocasionado pela acidental consulta de uma Mestra de noviças que se dirigia para uma magna reunião e a quem desejaríamos ter dado o nosso parecer de um modo bem claro e distinto, este trabalho veio a constituir o tema da III Semana de Estudos Missionários, da Diocese de Quelimane, de 3 a 9 de Setembro de 1967.




    
 

 
    


INDEX



INDEX À GUISA DE TÓPICOS



I — LOCALIZAÇÃO DO PROBLEMA
 
§   1 — Três Problemas
§   2 — Predisposição
§   3 — Adaptação
§   4 — Oportunidade
§   5 — Delimitação
§   6 — Problema mal posto?
§   7 — A lenga-lenga do costume
§   8 — Redução ao absurdo
§   9 — Fervor inicial
§ 10 — Harmonia
§ 11 — Outro problema já suposto
§ 12 — Aspiração universal
§ 13 — Aspiração de elites
§ 14 — Método existencial
 
II — IMOLAÇÃO PELO BEM COMUM
De vítima forçada a vítima livre e alegre
 
§ 15 — Princípio do mal: «Mukwiri»
§ 16 — Feiticeira
§ 17 — Teoria do desdobramento: «Olowa»
§ 18 — e do retorno
§ 19 — Investigação das causas
§ 20 — Adivinhação: «Makaga»
§ 21 — Comunhão universal
§ 22 — Na base de todo o mal
§ 23 — Vingança do mal: restabelecimento do equilíbrio
§ 24 — Vítima para combater a causa — Remédios para combater os efeitos
§ 25 — «Convém que morra um homem pelo povo» (Jõ. XI,50)
§ 26 — Pedagogia divina
§ 27 — Livres do pavor
§ 28 — Co-redentores
§ 29 — Pregação vocacional
§ 30 — Aumento de vocações
§ 31 — Predisposição vital
§ 32 — Continuidade
§ 33 — e descontinuidade
 
III — DISPONIBILIDADE PARA OS DONS DO ESPÍRITO
Da pobreza tribal à pobreza evangélica
 
§ 34 — Prosperidade radiante
§ 35 — «Usufrutuários»
§ 36 — No matrilocado
§ 37 — No patrilocado
§ 38 — Comunitarismo na liberdade
§ 39 — Nas aflições e nas alegrias
§ 40 — Noção de supérfluo: primitiva ou avançada?
§ 41 — Sem parasitismo nem comunismo
§ 42 — Nem problemas assistenciais: Mas, por vezes, germina o capitalismo
§ 43 — Pedagogia divina
§ 44 — Função universal do trabalho
§ 45 — Paradoxos evangélicos
§ 46 — Dois pormenores (?) em S. Marcos
§ 47 — Único necessário
§ 48 — Condição de peregrinos
§ 49 — Dois géneros de tesouros
§ 50 — Felicidade de adultos
§ 51 — À luz da Montanha
§ 52 — Na perspectiva africana
§ 53 — Valor da renúncia
§ 54 — A pior das aberrações
§ 55 — Só pobres vêem...
§ 56 — ...e dão felicidade
§ 57 — Seria ingratidão
 
IV —A FECUNDIDADE MAIS EMINENTE
Da continência periódica à virgindade perfeita
 
§ 58 — Fecundidade
§ 59 — Na base da poligamia
§ 60 — Sua preservação
§ 61 — Sua amplitude: Técnica
§ 62 — Valorização
§ 63 — Divisão do trabalho
§ 64 — Seu simbolismo
§ 65 — E equilíbrio
§ 66 — Estética
§ 67 — No corpo
§ 68 — Nas decorações
§ 69 — Na música e no canto
§ 70 — Na literatura oral
§ 71 — Ética
§ 72 — Verticalidade e horizontalidade da virtude
§ 73 — Para fortalecer a vida
§ 74 — E defendê-la
§ 75 — Prudência
§ 76 — Temperança
§ 77 — Paciência
§ 78 — Modéstia
§ 79 — Trabalho
§ 80 — Lugares comuns
§ 81 — Intelectual
§ 82 — Linguagem concreta
§ 83 — simbólica
§ 84 — abstracta
§ 85 — Literatura oral
§ 86 — Eloquência
§ 87 — Tacto psicológico
§ 88 — Filosofia do mundo e da história
§ 89 — Abertura à verdade
§ 90 — Problema do mensageiro da verdade
§ 91 — Quando, em consciência, se não aceita o Catolicismo...
§ 92 — Redução à evidência
§ 93 — Humildade ...e coerência
§ 94 — Pedagogia divina
§ 95 — Fecundidade da Virgem
§ 96 — Descontinuidade
§ 97 — Invenção evangélica
§ 98 — Continuidade
§ 99 — Sentido da continência
§ 100 — Restauração da ordem
§ 101 — Base para a pregação
§ 102 — Acto criador ...ou destruidor
§ 103 — Em ordem ao bem comum
§ 104 — Motivado no amor
§ 105 — Sublimação da fecundidade
§ 106 — Enriquecimento ...para os humildes
§ 107 — «Agora compreendi a castidade»
§ 108 — Fecundidade do exemplo ...dos superiores
§ 109 — Único Caminho
§ 110 — Nada de implantar caricaturas
§ 111 — Não há vocações?
§ 112 — Só daqui a séculos?
 
V — OBEDIÊNCIA EM ORDEM À LIBERDADE
Da comunidade tribal à comunidade religiosa
 
§ 113 — Célula base
§ 114 — Familiares
§ 115 — Parentes
§ 116 — Chefes
§ 117 — Coesão sanguínea
§ 118 — Clã
§ 119 — Subtribo
§ 120 — Teoria do Namuli
§ 121 — Da serra até o mar
§ 122 — E de novo se povoou a Zambézia
§ 123 — Tribo
§ 124 — Leis consuetudinárias e seu fundamento
§ 125 — Três causas dos desvios
§ 126 — Tabus
§ 127 — Fisiológicos
§ 128 — Sociais
§ 129 — Religiosos
§ 130 — Defesa da vida
§ 131 — ...e símbolo
§ 132 — Distinção de costumes, usos e hábitos
§ 133 — Costume é lei, é coesão
§ 134 — Suas espécies
§ 135 — Familiares
§ 136 — Sociais
§ 137 — Uso é rotina generalizada
§ 138 — Sua variedade
§ 139 — Hábitos são individuais
§ 140 — Finalidade: equilíbrio do bem geral e particular
§ 141 — Para uma pastoral da evolução
§ 142 — Obediência
§ 143 — Seu âmbito
§ 144 — Enquadramento moral
§ 145 — Enquadramento lógico
§ 146 — Axiomas da mentalidade banta
§ 147 — Se Junod fosse vivo...
§ 148 — Predisposição para o voto de obediência
§ 149 — Vida religiosa
§ 150 — Regra
§ 151 — Superiores
§ 152 — Vida comunitária
§ 153 — Vida eclesial
§ 154 — Para responder às profundas ansiedades da alma banta
§ 155 — O poder da humildade
§ 156 — Ainda derrotismo?
§ 157 — «Semelhante aos demais»
§ 158 — Antes o paganismo do que o tecnicismo
§ 159 — Pedagogia divina
§ 160 — O orgulho cega
§ 161 — Os pequeninos vêem...
 
VI — O DESTINO DA FARINHA
Da iniciação e do sacrifício pré-cristãos à profissão
perpétua e à estabilidade religiosa
 
§ 162 — Iniciação e sacrifício
§ 163 — Sombra
§ 164 — Iniciação «in genere»
§ 165 — Preparação
§ 166 — Periocidade
§ 167 — Local
§ 168 — Tabus
§ 169 — Significado
§ 170 — Circuncisão
§ 171 — Entrada
§ 172 — Simbolismo
§ 173 — A nossa pedagogia ou a de Deus?
§ 174 — Predisposição para a perpetuidade e estabilidade
§ 175 — A família nunca é renegada
§ 176 — Lição para egressos e para todos
§ 177 — Instrução
§ 178 — Higiene
§ 179 — Etiqueta
§ 180 — Sexualidade
§ 181 — Pedagogia
§ 182 —Trabalho
§ 183 —Tabus
§ 184 — Religião
§ 185 — Didáctica peculiar
§ 186 — Como substituí-la?
§ 187 — Noviciado
§ 188 — Segundo a índole de cada povo
§ 189 — Saída
§ 190 — Simbolismo: Crisma
§ 191 — Profissão
§ 192 — Votos
§ 193 — Anciãos
§ 194 — Para sempre
§ 195 — Afinação
§ 196 — Entrada
§ 197 — Imposição do nome
§ 198 — Acto purificador
§ 199 — Resgate
§ 200 — Saída
§ 201 — Pedagogia divina
§ 202 — Sacrifício
§ 203 — Preparação
§ 204 — Realização
§ 205 — Fim
§ 206 — Teoria do acto purificador
§ 207 — Banquete
§ 208 — Ceia, Cruz, Missa
§ 209 — Prolongamento da Paixão
§ 210 — Oferta intangível
§ 211 — Oferta sobrenaturalizada
§ 212 — Oferta improfanável
§ 213 — Pedagogia divina
§ 214 — Como tudo começou
§ 215 — Nada é profano... Mas para que foram consagrados?
§ 216 — Tudo são métodos... Mas quem é o Mestre?
§ 217 — O único necessário
§ 218 — Novo farisaísmo
§ 219 — O essencial e o acréscimo
§ 220 — Incarnação e pregação até à morte redentora
 
VII — SANTIDADE PAGÃ
Da ascese banta à ascese cristã
 
§ 221 — Exorcista
§ 222 — Vocação
§ 223 — Qualidades
§ 224 — Instrumentos
§ 225 — Trâmites do exorcismo
§ 226 — Conselho
§ 227 — Chamada
§ 228 — Preparativos
§ 229 — Notificação
§ 230 — Continência
§ 231 — Sacrifício
§ 232 — Dança
§ 233 — Matança
§ 234 — Visita periódica
§ 235 — Superstição ou realismo?
§ 236 — Ânsia de pureza
§ 237 — Mais que pessoal, fraternal
§ 238 — Confissão
§ 239 — Pecado, mal social
§ 240 — Via purgativa natural
§ 241 — Predisposição para o sobrenatural
§ 242 — Na via iluminativa
§ 243 — Aprender mais
§ 244 — Progredir
§ 245 — Crescer conjuntamente
§ 246 — 2.ª iniciação, consagração ao bem comum
§ 247 — Superioridade da força espiritual
§ 248 — Em direcção da via unitiva
§ 249 — Pontífices por natureza
§ 250 — Sabedoria dos velhos
§ 251 — Santidade pagã
§ 252 — Em ordem ao sobrenatural
§ 253 — Busca da Verdade
§ 254 — Profetas no paganismo?
§ 255 — E os «estrangeiros» chegaram
§ 256 — No limiar dos 2 Testamentos
§ 257 — O Espírito sopra onde quer
§ 258 — E desconcerta... o nosso orgulho
§ 259 — E não esqueceu a África
§ 260 — Da ascese banta à ascese cristã
 
VIII — CONTEMPLAÇÃO
Dos dons naturais ao Espírito septiforme
 
§ 261 — Noção clara de Deus
§ 262 — E distinta
§ 263 — Fim último
§ 264 — Obstáculos
§ 265 — Fortaleza
§ 266 — Iniciação
§ 267 — Sacrifício
§ 268 — Adivinhação e exorcismo
§ 269 — Terapêutica
§ 270 — Serões literários
§ 271 — Noção de virtude
§ 272 — Organização social
§ 273 — Conselho
§ 274 — Literatura oral e aplicada
§ 275 — Milandos
§ 276 — Temor
§ 277 — Sensibilidade
§ 278 — Respeito
§ 279 — Desnaturados
§ 280 — Piedade
§ 281 — Respeito humano
§ 282 — Evolução e sublimação
§ 283 — Continuidade
§ 284 — E descontinuidade
§ 285 — Ciência
§ 286 — Complexo de forças
§ 287 — Interinfluência
§ 288 — Axiomas
§ 289 — Demónio
§ 290 — Salvação
§ 291 — Na luta
§ 292 — Comunhão cósmica
§ 293 — Contemplação da natureza
§ 294 — Cântico ao Irmão Sol
§ 295 — Absurdo
§ 296 — Inteligência ou entendimento
§ 297 — O verbo dos antigos
§ 298 — E o Verbo de Deus
§ 299 — Verbo esclarecedor
§ 300 — Verbo tranquilizador
§ 301 — A contemplação do Verbo
§ 302 — Afinal sempre o mesmo
§ 303 — Sabedoria ou Sapiência
§ 304 — Substância invisível e acidentes visíveis
§ 305 — Concepção da morte
§ 306 — E do enfeitiçamento
§ 307 — Dois mistérios
§ 308 — O da morte
§ 309 — E o da feiticeira
§ 310 — Mas só um válido
§ 311 — Filosofia banta ou tomista?
§ 312 — Predisposição para a Teologia Sacramental
§ 313 — E Mística
§ 314 — Diálogo com o invisível
§ 315 — Abertura
§ 316 — Veladas de contemplação
§ 317 — Colóquios íntimos
§ 318 — À vontade nos milandos
§ 319 — Colóquios fúnebres
§ 320 — Oração comunitária
§ 321 — Deixam tudo...
§ 322 — Contemplação activa
§ 323 — E passiva
§ 324 — Receptibilidade
§ 325 — Silêncio, quando os grandes falam
§ 326 — Junto dos doentes
§ 327 — No namoro
§ 328 — E na circuncisão
§ 329 — Sonhos
§ 330 — Impressionabilidade
§ 331 — Contemplação do Pai
§ 332 — Ultrapassando e não apenas satisfazendo
§ 333 — Esclarecidos os dois aspectos do problema
 
IX — DIFICULDADES DA VIDA RELIGIOSA EM ÁFRICA
Das grandes tentações à vitória do Espírito de
Inteligência e Ciência
 
§ 334 — Dificuldades
§ 335 — Acção do Mukwiri
§ 336 — Investida contra o homem...
§ 337 — Mas surge-lhe o Homem-Deus
§ 338 — 1.º Tentação: Não sofrer como os outros nem pêlos outros
§ 339 — 2.ª Tentação: Não se fazer semelhante...
§ 340 — 3.ª Tentação: Distinção social: ser semelhante aos poderosos... não aos pobres
§ 341 — A tentação mais forte
§ 342 — Não incarnar...
§ 343 — Para tornar ineficaz a pregação...
§ 344 — E impossibilitar a Redenção...
§ 345 — Abrir brechas entre o Missionário e os missionandos
§ 346 — Indisponibilizar o Missionário: quantos pretextos contra a pobreza!
§ 347 — Apelo ao Espírito de Inteligência e Ciência
§ 348 — A condição: humildade, pobreza, disponibilidade
§ 349 — A multidão de obstáculos
§ 350 — Da parte dos nativos
§ 351 — Da parte dos enviados
§ 352 — A experiência de Sangmélima
 
PARA REFLECTIR EM GRUPO

CONCLUSÕES, VOTOS E RESOLUÇÕES

FRAGMENTOS DE LITERATURA ORAL
 
Sobre o Cap. II — Sacrifício:
— Em elomwe
— Em etakwane
— Em ecuwabo
— Em chichope
Sobre o Cap. III — Pobreza:
— Em elomwe
— Em etakwane
— Em chichangane
— Em chichope
Sobre o Cap. IV — Castidade:
— Em elomwe
— Em etakwane
— Em ecuwabo
Sobre o Cap. V — Obediência e Vida Comunitária:
— Em elomwe
— Em etakwane
— Em ecuwabo
— Em chisena
— Em chinhungwe
— Em chichangane
— Em chichope
— Em chizulo
Sobre o Cap. VI — Estabilidade e Perpetuidade:
— Em elomwe
— Em etakwane
— Em chichangane
Sobre o Cap. VII — Ascese:
— Em elomwe
— Em etakwane
— Em chisena
— Em chichangane
— Em chichope
Sobre o Cap. VIII —Contemplação:
— Em elomwe
— Em etakwane
— Em chichangane
Adivinhas:
— Em etakwane
— Em ecuwabo





«Completem-se esses vários tipos de formação nos países aos quais os missionários são enviados. Deste modo melhor conhecerão a história, as estruturas ociais, os costumes dos povos. Claramente perceberão a ordem moral, os preceitos religiosos e as convicções que eles se formaram de acordo com suas tradições sagradas sobre Deus, o mundo e o homem. Aprendam tão bem as línguas, que pronta e correctamente as possam usar. Assim terão mais fácil acesso à intimidade dos homens. Ademais sejam devidamente introduzidos nas necessidades pastorais peculiares».
 
(Ad Gentes, 26, § 6.°)
 
«Os Institutos que no mesmo território se dedicam à actividade missionária devem procurar caminhos e meios de coordenar os trabalhos. Para isso são de suma utilidade as Conferências de religiosos e as Uniões de religiosas, das quais participem os Institutos do mesmo país ou região. Essas Conferências indaguem o que poderia ser realizado num esforço comum, e se unam Intimamente às Conferências Episcopais.
 
(Ad Gentes, 33, § 1.°)
 
«Assim como em extrema necessidade os bens se tornam comuns, em extrema gravidade de situação, as responsabilidades se tornam comuns».
 
(Câmara, D. Hélder — O que o Concílio não
pôde dizer. «O Tempo e o Modo», Lisboa, 45,
Janeiro 1967, p. 49, linhas 5-7).
 




    
 

 
    


I



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Quando se pensa em implantar na África ao sul do Sara uma Ordem ou Congregação Religiosa preexistente ou simplesmente fazer entrar em alguma delas qualquer banto, parece que três problemas fundamentais se devem pôr:
1
3 Problemas:
1) Saber como e em que medida a vida religiosa (é no sentido estrito de vida das Ordens e Congregações que se emprega sempre o termo neste trabalho), saber como e em que medida a vida religiosa corresponde ou responde aos anseios mais íntimos da alma africana, às aspirações ancestrais deste povo que soube manter intacto o seu monoteísmo (ao contrário de tantos outros povos — até os mais evoluídos como o romano e o grego — que caíram no politeísmo).
2
Predisposição
2) Se a Congregação ou Ordem Religiosa em causa, em sua índole peculiar, e também na maneira como os respectivos religiosos ou religiosas a concretizam, participa suficientemente do universalismo da Igreja de modo a poder receber entre os seus membros pessoas de todas as cores, nacionalidades ou continentes — sentindo-se cada um como em sua casa, plenamente realizado.
3
Adaptação
3) Se é o momento providencial, na evolução da cristandade, para se estabelecer a vida religiosa ou determinada forma da vida religiosa, ou, do indivíduo, para entrar em determinada religião1. 4
Oportunidade
Limitamo-nos, neste trabalho, a procurar trazer um pequeno contributo para a resposta ao primeiro problema — o mais universal dos três propostos.
5
Delimitação
E surge logo a sensação ou desconfiança, para não dizer opinião ou até convicção, em muitas pessoas ao menos, de que o problema está mal equacionado: o «como» e o «em que medida» subentendem já uma resposta afirmativa ao problema da existência dessa predisposição dos povos bantos para a vida religiosa.
6
Problema mal posto?
Como se vai estudar a maneira e a medida de uma coisa que não se sabe se existe e até que, está mesmo a ver-se, não existe? Quem pode, com um mínimo de bom senso, ao menos se conhece as exigências e a sublimidade da vida religiosa, por um lado, e, por outro, a incultura e depravação desta pobre gente, quem pode acreditar que exista nela qualquer predisposição, por mais leve ou remota que seja, para a vida religiosa? É preciso construir tudo desde o início: nem alicerces há; e isto vai levar séculos, como séculos demorou a cristandade europeia para chegar ao ponto a que chegou. 7
A lenga-lenga do costume
Quem assim pensa (e são tantos!) deveria logicamente, e sob pena de tentar a Deus, renunciar a descobrir vocações entre os povos bantos, porque a graça é sobre a natureza que age: completa-a, aperfeiçoa-a, sobrenaturaliza-a, não a substitui. Deveria, portanto, admitir que em certos povos a natureza humana ficou totalmente corrompida pelo pecado original. Seria a conclusão lógica de todos aqueles que só vêem defeitos nesta gente: as poucas excepções só confirmariam a regra. 8
Redução ao absurdo
Quem assim pensa esquece também que os primeiros cristãos como os primeiros religiosos de qualquer Ordem ou Congregação foram sempre os mais fervorosos, e que seriam precisos séculos (nem uma eternidade chegaria), para reconstruir desde os alicerces, mas que em poucos anos se realizarão maravilhas como os primeiros Apóstolos e os grandes Fundadores realizaram, se soubermos aproveitar os alicerces humanos existentes, se soubermos construir sobre os valores bantos.
9
Fervor inicial
Para exaltarmos as maravilhas da Graça não precisamos de rebaixar as maravilhas da Natureza (que só acidental e parcialmente foi viciada); para exaltar a Redenção não precisamos de rebaixar a Criação: uma e outra se devem ao mesmo e único Deus, uma e outra se integram no mesmo plano da Providência.
10
Harmonia
Além disso, este estudo supõe um outro ainda mais universal: o de saber se o Cristianismo corresponde ou responde aos anseios mais íntimos da alma africana, acumulados desde os mais longínquos antepassados.
11
Outro problema já suposto
Também aqui teríamos de dizer: se o pecado não viciou até a essência a natureza, mas só acidentalmente e, mesmo aqui, só em parte, se o pecado não destruiu, portanto, a natureza humana, e se a Redenção é universal, com certeza que todos os descendentes de Adão e Eva esperam o Novo Testamento, têm predisposição para o receber.
12
Aspiração universal
Esta dedução projecta luz sobre o nosso problema: se a vida religiosa não é mais do que a vivência em plenitude do Evangelho, a graça e o carácter do Baptismo e da Confirmação levados até as últimas consequências teóricas e práticas, e se todos os povos anseiam, ainda que inconscientemente, por esse Evangelho e essa Graça, não podemos deixar de concluir com toda a evidência que também os bantos têm predisposição (depois veremos como e em que medida) para a consagração religiosa.
13
Aspiração de elites
Mas, embora por este caminho já atinjamos a certeza, não é «a priori», por dedução de princípios, mas «a posteriori», por indução de factos, que queremos constatar esta grande verdade. Mesmo porque, por aquele caminho ou método, chegamos à conclusão da existência dessa predisposição, mas só por este outro poderemos apreender a maneira e a medida das suas manifestações. 14
Método existencial





1

Para um relancear de olhos sobre a vida religiosa em África, podem consultar-se os números especializados das seguintes revistas:
Vivante Afrique n.° 237 — Mars-Avril 1965
Soeurs Blanches — Janv.-Fév. 1966
Missões n.° 3 — Maio-Junho 1966 E, sobre a vida monástica em especial:
Granas Lacs n.° 183 —Janvier 1956
Lumière du Monde — 3e Trimestre — Août 1960
Lumière du Monde — 2e Trimestre — Mai 1961
Missions d'Afrique des pères blancs — Juillet-Août 1965.

 

Mas a notícia mais interessante que encontrámos foi a de que o Mosteiro Beneditino de BOUAKÉ na Costa do Marfim, integrado o mais possível no quadro habitual da vida africana, «empresta» monges à África Negra para formar comunidades autóctones, retirando-se em seguida» (Boletim de Informação Pastoral 22 — Março de 1963, pág. 65-25).




    
 

 
    


II



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Na mentalidade banta, o mal tem sempre como causa última o demónio, com os mais diversos nomes conforme a língua ou dialecto, e que age sobretudo por meio de uma pessoa humana (que o possui), mais frequentemente do sexo feminino. 15
Princípio do mal: «Mukwiri»
É a feiticeira, a que faz feitiço, a que possui o demónio e o contagia, o transmite a outrem, provocando qualquer género de mal (doença, desgraça, morte, etc.). 16
Feiticeira
Levada pelo demónio, princípio do mal, a substância da mulher, normalmente de noite, deixando os seus acidentes em casa, onde aparentemente permanece, talvez a dormir, e, portanto, onde todos a podem ver, vai, mesmo com as portas fechadas (a matéria não é metafísicamente penetrável?), sai de um modo invisível (já alguém viu uma substância sem acidentes?), e entra, também mesmo com as portas fechadas, na casa onde vive a sua vítima, a pessoa a enfeitiçar, a pessoa a quem vai diminuir parte da sua força vital ou até, quando se trata de falecimento, como que comer1 toda aquela vida, deixando ficar, nesse caso, apenas as aparências — as aparências de um corpo humano, o cadáver que, de facto, de humano já só possuirá a aparência dos acidentes (e, mesmo esta, a desaparecer de instante a instante). 17
Teoria do desdobramento: «Olowa»
Depois de feito o mal, a mulher (ou o homem), sempre invisível, porque sem acidentes, e com a agilidade talvez própria dos corpos gloriosos, regressa a casa, retoma a sua normalidade, a sua visibilidade autêntica: os acidentes corporais já não encobrem a fuga transitória da substância, mas exteriorizam-na, manifestam-na, visibilizam-na, como física e naturalmente lhes compete2. 18
e do retorno
A família, assim atingida por essa diminuição de ser, de força, de vida, sente necessidade de refortalecimento, revitalização, e, por força da lógica, quer investigar as causas do sucedido. É pelas causas que melhor se combatem os efeitos. (Não é assim também que procuram fazer médicos e psiquiatras, sociólogos e cientistas?) Como a origem do mal se processa sempre naquele mundo invisível simultaneamente natural e preternatural que acabamos de ver, será também por comunicação com esse mundo que se descobrirá o malfeitor ou malfeitora, o causador do mal sucedido. Recorre-se, então, ao chefe, mas este, impotente nesse campo, manda consultar o adivinho. 19
Investigação causas
Surge-nos, aqui, em toda a sua importância, este personagem da vida tribal, que, em complicado ritual, põe-se em comunicação com o mundo invisível, recorre à sabedoria dos antepassados e às forças da natureza, interpela os assistentes, que, subjugados pelo seu prestígio, muitas vezes chegam a confessar se também algum deles transgrediu algum tabu, tornando-se assim culpado do mal. 20
Adivinhação: «Makaga»
Com esta força que lhe advém do sacrifício oferecido directamente aos antepassados e indirectamente (de modo explícito ou pelo menos implícito) a Deus, da aplicação dos axiomas, provérbios e sentenças transmitidos oralmente desde os tempos mais remotos, da utilização dos elementos criados, sobretudo, fogo, água e sal, e do conhecimento das acusações e até confissões dos interpelados e ainda do ambiente social, com esta força advinda de semelhante comunhão com o mundo visível e invisível, presente e passado, o adivinho descobre a causa do mal que lhe é apresentado: tal ou tal pessoa que, tendo transgredido a lei tribal, ficou possuída directamente pelo demónio ou por um antepassado mau (isto é, também por sua vez possuído pelo demónio). 21
Comunhão universal
No fundo, é sempre o demónio e o pecado (transgressão do tabu) que está na base do mal. Mesmo quando é um animal que morde ou come uma pessoa, é porque ele estava possuído pelo espírito mau ou antepassado mau, ou porque algum vivo também mau (e mau é ter o demónio por ter pecado) o influenciou a isso talvez por meio de imprecações e pragas. (E axioma da mentalidade banta que um desejo exprimido com ênfase se torna realidade)3. 22
Na base de todo o mal
Conhecida a pessoa causadora ou com-causadora do mal, terá de ser castigada com severidade directamente proporcional ao efeito provocado, podendo, portanto, ir desde a flagelação ou qualquer outro género de tortura até a morte, porque só assim, vingando-se do mal, por determinação do adivinho e consentimento do chefe (nunca por arbítrio particular), os familiares se libertam do contágio do mal, se purificam radicalmente, por outras palavras, se libertam do demónio, diminuidor e destruidor da força vital, e podem restabelecer o equilíbrio, a harmonia, refortalecer-se segundo o plano criador de Deus. 23
Vingança do mal: restabelecimento do equilíbrio
Uma vítima em quem concretizam toda a culpa é indispensável para eliminar o mal pela raiz, para destruir a causa. As abluções e os remédios são para combater os efeitos: embora importantes, são já secundários. 24
Vítima para combater a causa — Remédios para combater os efeitos

*
*       *

 
E chegamos ao ponto culminante: a necessidade e a justiça da imolação de uma vítima para salvação, libertação de muitos, um indivíduo que se sacrifica pela família ou até pelo povo, uma vítima que pode não ter consciência do mal de que a acusam (aquela peregrinação nocturna, invisível, porque fora das suas notas individuantes, pode ter-se realizado sem o seu conhecimento), mas que aceita normal e fatalisticamente o castigo, porque, afinal, e além de tudo, quem pode sentir-se isento de toda a culpa, isto é, de nunca ter transgredido nenhum dos imensos tabus da vida tribal? 25
«Convém que morra um homem pelo povo» (Jo. XI, 50)
Aqui já tudo se nos torna mais claro, já não é difícil verificar como a Providência, por tão estranhos caminhos (não foram estranhos os caminhos do Velho Testamento?) preparou a alma africana para uma outra espécie de imolação, agora já não imposta pêlos outros, à força, numa fatalidade trágica, mas buscada com alegria 4 e amor, agora já não num desrespeito pela dignidade humana, mas numa plena realização da própria personalidade, agora já não para libertação, salvação da família ou mesmo da tribo, mas de toda a humanidade, presente, passada e futura, agora já não por estar possuída do demónio, mas por estar enxertada em Cristo — a Vítima que, livremente e por amor, «tomou sobre Si as nossas fraquezas e carregou com as nossas dores» (Is., LIII, 4), «ferido por causa das nossas iniquidades, despedaçado por causa dos nossos crimes» (Is., LIII, 5). 26
Pedagogia Divina
Imolação ainda com outra diferença: a da eficácia, nem sempre visível, mas sempre real: «fomos sarados com as suas pisaduras» (Is., LIII, 6), «estarás livre da opressão e não a temerás, e do pavor, o qual não chegará a ti» (Is., LIV, 14), vós saíreis com alegria e sereis conduzidos em paz, os montes e os outeiros cantarão diante de vós cânticos de louvor, e todas as árvores do país baterão palmas» (Is., LV, 12). 27
Livres do pavor
Não é isto a vida religiosa? Uma associação muito mais estreita do que a dos outros fiéis ao trabalho, ao sacrifício redentor de Cristo? 28
Co-redentores
E não está aqui um filão inexplorado, mas profundíssimo e extensíssimo para se descobrirem e confirmarem vocações por uma pregação acessível, adequada, que manifeste na verdadeira luz o valor da vida religiosa não só no plano sobrenatural como na sua base humana, natural, africana, e não apenas como uma exigência do Cristianismo plenamente vivido, mas como uma resposta a ancestrais aspirações (mal definidas porque sem a luz do Novo Testamento) ? 29
Pregação vocacional
Que surto não se produzirá na África naquele momento em que os seus filhos virem no religioso ou na religiosa não um benfeitor, apesar de tudo mais ou menos identificado com um povo estranho, superior e talvez escravizador, mas um do próprio povo, que o vem libertar do terror do demónio, redimir das culpas, reconfortar, restabelecer a ordem no homem e na própria natureza? 30
Aumento de vocações
Os africanos que tanto amam a vida têm uma vincada predisposição para aquele estado que consiste exactamente em vivê-la em plenitude: apenas não tinham atingido, porque só pelo Evangelho poderiam atingir, que é pela morte, pelo sacrifício da própria vida (e não das dos outros), que esta se reencontra e, então, com uma força, abundância incomensurável. 31
Predisposição vital
E isso só em imagem, só na penumbra, se poderia vislumbrar antes da Mensagem cristã; e nenhuma inteligência a descobriria nessas figuras sombreadas — tão desconcertante, tão escandalosa ela é. 32
Continuidade
Quem atingiria que «quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por Mim e pelo Evangelho, salvá-la-á» (Mc., VII, 35)? Quem descobriria a loucura da cruz? No entanto, é por estes aparentes absurdos que Cristo pode afirmar: «Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância» (Jo., X, 10)5. 33
e descontinuidade





1

Repare-se bem que isto é muito diferente de antropofagia — essa lenda de europeus a respeito de africanos e destes a respeito daqueles. Tudo isto se passa no plano invisível dos espíritos maus (demónios) e das substâncias libertas de acidentes, de notas individuantes (homens).

2

É interessante notar como todo este processo se desenrola não no puro campo da fantasia, de arquitectamento de entes de razão, de actos para os quais os respectivos seres não estão em potência nem sequer obediencial, numa palavra, de absurdos metafísicos, mas, pelo contrário, toda a fantasia se subordina a uma lógica cerrada que não a deixa sair dos limites das possibilidades metafísicas. Mas é evidente que as regiões limítrofes tornam-se perigosas, torturantes, e nada admira que dificilmente, depois, se distinga a linha divisória. Mas não deixa de ser notável o facto de só com dificuldade os podermos acusar de absurdo de ordem metafísica nas suas concepções. O pensamento primitivo é lógico, mais do que o de muitos que se dizem instruídos. É claro que já não apresentam a mesma consistência na ordem física, na qual não resistem, talvez na maior parte das vezes, ao menor exame. Vejamos, por exemplo, a origem do mal. Se consideramos a causa última, temos de lhes dar inteira razão: o demónio está na origem (Bíblia e Teologia o confirmam). Se se trata de causas próximas, científicas, é evidente que as ignoram. Aqui está como catequese e escola se completam na formação a dar ao homem. Mas não va­mos, como tantas vezes acontece, para lhes dar uma verdade científica (sem dúvida importante), tirar-lhes uma verdade religiosa (sem dúvida mais importante ainda), nem, para lhes dar noções de ordem física, fazê-los esquecer ou renegar o mundo metafísico.

3

Estes axiomas da mentalidade banta são expostos no Capítulo V — OBEDIÊNCIA EM ORDEM À LIBERDADE — Da comunidade tribal à comunidade religiosa, e de novo, pela sua importância, no Capítulo VIII — CONTEMPLAÇÃO — Dos dons naturais ao Espírito septiforme.

4

Na reunião realizada em Manresa (Kinshasa) de 25 a 27 de Fevereiro de 1966, depois de se chamar a atenção para a necessidade de apresentar aos africa­nos a vida religiosa de um modo concreto e vivo (união fraternal em Cristo), e de se vincar também o seu carácter comunitário, acrescenta-se: «Enfim, na apresentação deste ideal, parece-nos igualmente importante insistir, antes de tudo, sobre uma visão positiva da vida religiosa. Esta deve conseguir o pleno desenvolvimento da personalidade. O sacrifício que ela implica não deve ser apresentado como uma mutilação do nosso ser, como uma renúncia que é preciso suportar no constrangi­mento e na angústia, mas como uma condição que deve garantir essa plena expansão da personalidade. Com efeito o sacrifício supõe o dom de si e este dom é necessa­riamente fonte de alegria e de paz. A verdadeira alegria está antes de tudo na doa­ção: «Há maior alegria em dar do que em receber» — segundo a palavra do Senhor». (VIE RELIGIEUSE ET RÉALITÉS AFRICAINES, publicado na REVUE DU CLERGÉ AFRICAIN de Janeiro de 1967, págs. 74/91).

5

Vid. provérbios II - Sacrifício.