Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro

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MUTHIYANA

muthiyana






17 a 24 de Agosto de 1972



    
   
 
    


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Apresentação do Tema



Integrada no plano de atividades da Comissão Episcopal de Coordenação Pastoral e Apostolado dos Leigos e patrocinada pela Revista «Missão e Vida», realizou-se em Quelimane, de 17 a 24 de Agosto de 1972, a VII Semana Missionária dedicada ao tema a «Mulher Banta». Os estudos neste número de «Missão e Vida» são constituídos por comunicações apresentadas nessa altura. Debruçam-se sobre a MULHER BANTA, no seu condicionalismo histórico, etnográfico, jurídico, sociológico, cultural, e, através e para além de tudo isso, na essência da sua feminilidade, — de tal modo que, permanecendo sempre ela, sempre autenticamente mulher africana, se projete no futuro numa evolução que só tenha por limites os profundos anseios do coração banto: vida forte, fecundidade integral, união fraterna1.  
Essa vida, que toda a sabedoria banta, por uma conquista de cada momento, quer levar a ser vivida na fecundidade e na harmonia, essa vida, que em dado momento, depois de milhões de anos de pré-vida, e com o concurso evolutivo de Muluku, surge sobre o nosso planeta, essa vida manifesta-se em novos movimentos de reprodução, multiplicação, renovação, conjugação, associação, ortogénese2. MOVIMENTOS DA VIDA
Interessa-nos surpreender a vida no momento em que surge a conjugação, porque aí temos os primeiros seres sexuados, e daí podemos partir para aqueles outros seres em que a sexualidade atingiu a perfeição máxima até hoje conhecida: o homem e a mulher. Que diferenças há entre a masculinidade e a feminilidade3? No plano biológico (sexo genético, genital, hormonal)4? No plano psicológico (sensibilidade e afetividade, liberdade, inteligência)5? As diferenças devem-se só ao contexto cultural ou radicam-se na profundidade ôntica? CONJUGAÇÃO
Dos movimentos de conjugação, interessa passar aos de associação. A mulher banta, como toda a mulher, vive em grupos6: familiares7, educativos, económicos, políticos, religiosos, recreativos. A mulher banta é sujeito de direito e de deveres. Há hábitos que são livres, há usos que talvez se possam transgredir, mas os costumes, esses fazem lei, têm de ser respeitados a todo o custo. É o direito consuetudinário, herdado dos antepassados, aperfeiçoado por gerações consecutivas8. ASSOCIAÇÃO
Emissários de outros povos, porém, introduzem um outro direito, escrito e ambos coexistiam — umas vezes sem grandes implicações, outras, em flagrante conflito, e raríssimas vezes se integram. É o Islão que não aproveita todos os valores culturais da mulher banta. São as Igrejas que nem sempre se limitam a transmitir a mensagem evangélica na sua pureza dinamizante (salvar, aperfeiçoar e não destruir), mas, tantas vezes, preferem impor conceções religiosas e até cívicas de outros continentes. É a administração nem sempre coerente com a ética do estado soberano. É a civilização de consumo, com os seus postos avançados (vulgarmente denominados cantinas), que, além do mais, cria necessidades exteriores, muitas vezes supérfluas, em detrimento do essencial, invertendo valores, dando uma falsa noção de mulher civilizada (envernizada por fora, não formada por dentro)9. DESFASAMENTO
Deste desfasamento, desta tensão entre duas culturas, estagnar-se-á na confusão e nas consequências alienantes e escravizantes? Nos diversos continentes, países e grupos sociais, a mulher organiza-se10 e movimenta-se para a libertação11 e para o desenvolvimento integral, para o encontro consigo mesma e do lugar que lhe compete ao lado (nem abaixo nem acima) do homem12. E a mulher banta? Estará à altura dos seus antepassados13, que, pelo regime uxorilocal, pelo sistema matrilinear e por toda uma sabedoria traduzida na literatura oral, nos ritos, nos costumes, tanto procuraram protegê-la contra abusos masculinos e dignificá-la na sociedade? A mulher banta estará à altura do momento presente, que lhe pede uma atualização, um progresso rápido e consciente, que a torne construtora da nova África? ORTOGÉNESE
Que há de essencial na feminilidade banta, que valores devem permanecer para a mulher se não desnaturar, se não alienar, manter-se sempre na sua autenticidade, e que valores transitórios devem dar lugar a novos valores que reatualizem essa feminilidade? Que síntese resultará da tensão provocada pelo encontro de culturas tão diversas? Uma mulher frustrada ou uma mulher mais realizada, mais livre? Qual o ideal da mulher banta no futuro? SÍNTESE
A vida evolui num sentido, embora nem sempre evidente, dados os recuos, ora aparentes ora reais, e dada, sobretudo, a complexidade dos seus movimentos. Não se caminha para a destruição, mas para um aperfeiçoamento progressivo. De todos os choques, de todos os recuos, de todas as confusões, uma coisa será certa: surgirá uma banta renovada, mais autêntica, mais realizada, mais livre. (Embora o joio, evidentemente, nunca desista de ir nascendo entre o trigo...) IDEAL
O casamento não será uma fatalidade, mas, além de uma maior facilidade de escolha do companheiro, poderá mesmo optar pela vida celibatária14. ESTADO
A profissão agrícola também jamais será outra fatalidade, mas todas as profissões lhe serão franqueadas, com exclusão, é evidente, daquelas que devam ser substituídas pela máquina e que, portanto, também não sejam próprias do homem. Essas profissões, que até há pouco apenas conheciam a DIMENSÃO MASCULINA, passam a ser enriquecidas por uma nova dimensão15 — a DIMENSÃO FEMININA, uma maneira diferente de as encarar e realizar. PROFISSÃO
O círculo normal da atuação direta e imediata da mulher deixará de ser apenas o lar, a machamba, os grupos femininos — como o do homem também deixará de ser a profissão e a sociedade, porque no lar também terá funções normais a desempenhar16 a lado da mulher. O círculo normal de atuação direta e imediata da mulher passará a alargar-se para ocupar sempre e em todas as profissões dignas desse nome o lugar ao lado do homem17. A casa deixará de ser governada só pela mulher, e a sociedade deixará de ser governada só pelo homem18. A África e o mundo passarão a ser construídos pelo par humano19: homem e mulher, a par, sem mais lutas de supremacia sexual de um lado ou do outro, — o que, afinal, é mais coerente com a sabedoria dos antepassados, e, sobretudo, mais conforme aos ensinamentos bíblicos20. SOCIEDADE
Então e só então, o povo banto conseguirá aquelas oito harmonias por que tanto luta e que Nothomb21 com tanta objetividade nos descreve: harmonia do coração, harmonia da fecundidade, harmonia da vida, harmonia do além, harmonia de Muluku, harmonia da natureza, harmonia do tempo, harmonia da solidariedade22. AS OITO HARMONIAS





BIBLIOGRAFIA RELATIVA AO TEMA

1

TEMPELS, R. P. Placide — La Philosophie Bantoue, Paris (25 bis, rue des Écoles), Présence Africaine, 3.a ed., 128 p.
Id. — Notre Rencontre, Kinshasa B.P. 724 — Limete), Centre d'Études Pastorales, 208 p.
Id. — Catéchèse Bantoue. Bruges, Abbaye de Saint-André.

2

CHARDIN, Pierre Teilhard de — O Fenómeno Humano, Porto, Livraria Tavares Martins, 1970, 360 p. (Vid. p. 95 e sg.).

3

BUYTENDIJK, F. J. J. — La Femme, Bruges, Desclée de Brouwer.

4

JEANNIÉRÈ, Abel — Antropologia Sexual, Lisboa, Livraria Morais, 240 p.

5

MEAD, Margaret — O Homem e a Mulher, Lisboa 2 (R. Misericórdia, 67), Editora Meridiano, 1970, 480 p.
SPINDELDREIER, Frei Ademar — Feminilidade. «Grande Sinal», Petrópolis (C. P. 23),24 (2), Março 1970, p. 83-92.
Id. — Homem e Mulher: um sob o Olhar do Outro. «Grande Sinal», Petrópolis, 24 (5), Junho 1970, p. 323-332.
EMERY, P. - Y. — A Feminilidade da Igreja e na Igreja. «Grande Sinal», Petrópolis, 24 (6), Julho-Agosto 1970, p 442-447.

6

FICHTER, Joseph H.—Sociologia, São Paulo, Editora Herder, 1969, 520 p (Vid p.143 e sg.).

7

ANSHEN, Ruth Nanda — A Família: Sua Função e Destino, Lisboa, Editora Meridiano 576 p.(Vid. p. 211 e sg.).
LUFULUABO, Fr. François-Marie — Mariage Coutumier et Mariage Chrétien Indissoluble.Kinshasa (B. P. 8505), Les Éditions St. Paul Afrique, 1969, 114 p.
MPONGO, Laurent — Pour une Anthropologie Chrétienne du Mari age au Congo, Kinshasa. Centre d'Études Pastorales, 1968, 202 p.

8

VANDERLINDEN, Jacques — Coutumier, Manuel et Jurisprudence du Droit Zande, Bruxelles, Éditions de l'Institut de Sociologie.

9

CONNOR, Martinho J. O' (e outros) — Instrução Pastoral «Communio et Progressio» sobre os meios de Comunicação Social, Petrópolis, Editora Vozes, 1971, 64 p. (Vid.n.º 61 a p. 25).

10

FRIEDAN, Betty — Mística Feminina, Petrópolis, Editora Vozes, 1971, 328 p.
LAMAS, Maria — A Mulher no Mundo, Rio de Janeiro — Lisboa, Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1952, vol. II, 658 p. (Vid. p. 559 e sg.).
Declaração da O. N. U. sobre a Eliminação da Discriminação Relativa às Mulheres (*).
«Vida Mundial», Lisboa 2 (Rua de «O Século», 63), XXXIII (1684). 17/9/1971, p. 36-38.
Convenção (n.°100) relativa à igualdade de remuneração entre a mão-de-obra masculina e a mão-de-obra em trabalho de igual valor. (6/6/1951). Decreto-Lei n.° 47302, de 4/11/1966. «Boletim Oficial de Moçambique», Lourenço Marques, I Série, n.° 49, Sábado, 3/12/1966, p.1764-1767.

11

MURARO, Rose Marie — Libertação Sexual da Mulher, Petrópolis, Editora Vozes, 1970, 168 p.
NÓBREGA, Isabel da (e outros) — Sobre a Condição da Mulher Portuguesa, Lisboa, Editorial Estampa, 1968, 100 p.
SORIANO, Elena — Dom-Joanismo Feminino, Braga, Secretariado Nacional do Apostolado da Oração, 1971, 64 p.
STUDARD, Heloneida — A Mulher, Brinquedo do Homem? Petrópolis, Editora Vozes, 1969, 128 p.
TRAVERS, Julienne — Dez Mulheres Anticonformistas, Lisboa, Moraes Editores, 1970, 320 p.

12

JOÃO XXIII — Pacem in Terris, Lisboa, União Gráfica, 1963, 64 p. (Vid. final da p.10, início da 11, e final da 18).
PAULO VI — Carta Apostólica (ao Cardeal Maurice Roy) por ocasião do 80.º aniversário da encíclica «Rerum Novarum», Edição autorizada pelo Presidente da Conferência Episcopal de Moçambique, 1971, 34 p. (Vid. n.º 13, p. 7 e 8).

13

«Sementes do Verbo», Beira, Centro de Investigação Pastoral de Moçambique, 1971, 46 p. (Copiografado).
BRENTARI, P.e Giovanni Battista — Deus na Sociedade Africana, Quelimane, Apostolado pelo Livro e pela Liturgia, 1971, 226 p.(Copiografado). (Vid. p. 91-131).

14

SELEMANI, D. Aloni — O Apreço da Virgindade entre os jovens africanos. «Mensageiro», Braga (Largo das Teresinhas, 5), Março de 1968, p. 26-31.
RIBEIRO, Júlio Meneses Rodrigues (de colaboração com P.e Giovanni Battista Brentari) — Da vida africana à vida Religiosa, Quelimane, Apostolado pelo Livro e pela Liturgia, 1971, 160 p.(Vid. p. 33-46).

15

TORELÓ, J. B. — A Missão da Mulher no Mundo. «Rumo», Lisboa-1 (Largo D. Estefânia, 8-1.º Esq.), X (109), Março de 1966, p. 168-180.
REIS, M. A. da Encarnação — Mulher, Cristianismo e Sociedade. «Estudos», Coimbra (Couraça de Lisboa, 30), XLIII (IX-X, 441-442), Novembro-Dezembro 1965, p. 542-550.
Id. — XLIV (III-IV, 445-446), Março-Abril 1966, p. 168-185.
Id. — XLV (II,454), Fevereiro 1967, p. 99-117.
MARINS, P.e José — A Mulher, S. Paulo (Av. Higienépolis, 901), Movimento por um Mundo Melhor, 40 p.
GIBSON, Elsie — Femmes et Ministères dans l'Eglise, Paris, Casterman, 1971, 256 p.
L'Homme au féminin. «Fêtes et Saisons», Paris, 208, Octobre 1966, p. 14-15.
Diaconisas para breve? «Sponsa Christi», Petrópolis, XX (1), Janeiro 1966, p. 58 (Vid. ainda p. 16/21 sobre a mãe de Daniélou).
SKODA — É preciso haver mulheres cardeais. «Vozes», 60 (6), Junho 1966, p. 446-449.
Maria Montessori. «La Vie Catholique», Paris 17.º (163, boulevard Malesherbes), 1274, du 7 ou 13 Janvier 1970, p. 8-11. (Centenário do seu nascimento: 13/8/1870).
KLOPPENBURG, P.e Frei Boaventura — Concílio Vaticano II, vol. III. Segunda Sessão (Set.- Dez. 1963), Petrópolis, Editora Vozes, 1964, 560 p. (Vid. 268.ªintervenção, p. 188-189, Jorge HAKIM, Bispo melquita de Akka, Israel,sobre a desclericalização e desmasculinização da Igreja).

16

DUMAS, Francine — A Dialética Homem-Mulher no Mundo Atual, Petrópolis, Editora Vozes, 1968, 160 p. (Vid. p. 124 e seg.).

17

GRÉGOIRE, Ménie — Ofício de Mulher, Lisboa, Livraria Morais, 1966, 304 p.
AGRIA, Fernanda — A Mulher e o Trabalho. «Estudos Sociais e Corporativos», Lisboa (Rua Gomes Freire, 5-3.° Dt.°), Junta da Acção Social, VIII (31), Julho a Setembro 1969, p. 95-114.
Femmes etMissions. «Spiritus», Paris 16 (40, rue La Fontaine), 28, Agosto-Setembro 1966.(N.° especializado).
Id. —29, Dezembro 1966 (N.° especializado).
BONT, W. de — La Femme du Pasteur. «Supplément» de «La Vie Spirituelle», Paris, Éditions du Cerf, 83, Novembro 1967, p. 666-673.
HOLSTEIN, Henri — La Religieuse. Suppléante ou Remplaçante du Prête? «Supplément» de «La Vie Spirituelle», Paris, Éditions du Cerf, 91, Novembro 1969, p. 561-572.
TURCAN, M. — Saint Jerome et les Femmes. «Esprit et Vie», Langres (B. P. 4), L'Ami du Clregé, 79 (2), 9 Janeiro 1969, p. 28-29.
SACRÉ-COUER, Soeur Marie-André du — Promotion Féminine et Familiale (Quelque donnés sur l'évolution de la femme africaine).«Revue du Clergé Africain», Mayidi B. P. 6, Inkisi), Zaire, XXI (6), Novembro 1966, p. 562-570.
HARING, Padre Bernhard — Paternalismo nos Mosteiros (femininos). «Grande Sinal», Petrópolis, 24 (10), Dezembro 1970, p. 792-793.

18

CARMONA, Feliciano Blasquez — A Mulher... será pessoa? Braga, Secretariado Nacional do Apostolado da Oração, 1971, 80 p. (Vid. p.31).
MIGUEL, Dr.a Ângela (**) — A Mulher na Sociedade Contemporânea, Lisboa, Prelo Editora, 1969, 232 p.

19

MURARO, Rose Marie — A Mulher na Construção do Mundo Futuro, Petrópolis, Edi­tora Vozes, 1969, 208 p.
VALBRÈGUE, Catherine — A Condição Masculina e a Emancipação da Mulher, Lisboa, Moraes Editores, 1971, 216 p.
Encontro Pan-Africano dos Leigos em Acra. «Missão e Vida», Quelimane (C. P. 292), III (17-18), Set.- Dez. 1971, p.299-430. (Vid. em especial: KUNAMBI, B. N. — A Contribuição das Mulheres para o Desenvolvimento Africano, p. 360-363).
MURARO, Rose Marie — A Automação e o Futuro do Homem, Petropólis, Editora Vozes, 1968, 160 p.

20

HARMSEN, Hildegard — A Mulher de Hoje, Lisboa, Moraes Editores,1968, 112 p. (Vid. p. 22 e segs.).
LAURENTINI, René — Maria y la Antropologia cristiana de la Mujer. «Seleccioines de Teologia», Bilbao (Apartado 73), 7 (28), Out.- Dez.1968, p. 331-336.
MAERTENS, Thierry — La Promotion de la Femme dans da Bible
, Paris, Casterman, 1967, 232 p.
Visages Bibliques de La Femme, Paris, Desclée de Broiuwer, 1965, 184 p.SCHERER, Alice — Qualques Femmes de La Bible, Mulhouse, Éditions Salvator, 1968, 132 p.
THÉRESE, Soeur Marie — La Femme et l'Evangile. Paris (12, avenue Soeur-Rosalie), 1967, 128 p.

21

NOTHOMB, Dominique — Un Humanisme Africain, Bruxelles 5 (186, rue Washington), 1969, 280 p

22

Outros artigos e livros de interesse para a VII Semana de Estudos Missionários:
SEIXAS, Ana — Uma certa Família para umas certas Mulheres... «Seara Nova», Lisboa (Rua Bernardo Lima, 23-1.° Esq.°), "1508, Junho 1971, p. 9-12
DUFOYER, Pierre — Que sont-elles? Paris, Casterman, 1964, 144 p.
RUANO, Nazario — Quê es una mujer, Madrid (Bailén, 19).Ediciones Studium, 1962, 96 p.
ANGELLE— Femme, Paris (12, av. Soeur-Rosalie), Lês Éditions Ouvrières,1961, 4.e édition, 176 p.
ÁLVAREZ, Lili — Feminismo y Espiritualidad, Madri, 1 (Cláudio Coello, 69-B), Taurus Ediciones, 1964, 232 p.
GIHOUL, Luc-Henr — Femme vocation de l' homme, Bruxelles (154, rue dês Palais), Vromant. 1965, 236 p.
DANNIEL, F. et B.Olivier — La Gloire de l'homme c'cet la femme, Lyon 5e (36, rue de Trion), 1964, 192 p.
Id. — La Mujer, gloria del Hombre, Barcelona (Provenza, 388), Editorial Herder, 1967, 228 p.
AUMONT, Michele — Femmes en usine. Paris, Éditions Spes, 1955, 160 p.
PIERRE, André — Lês Femmes en Union Soviétique, Paris (79, rue de Gentilly), Éditions Spes, 1960, 320 p.
SALES, Saint François de — Les Femmes Mariées, Paris (29, boulevard Latour-Maubourg), Les Éditions du Cerf, 1967, 184 p.
ASSAGIOLI,Dr. (e outros) —Le Célibat Laic féminin, Paris, Les Éditions Ouvrières. 1962, 308 p.
DEVAUX, André-A. — Teilhard e a Vocação da Mulher, Petropólis, Editora Vozes, 1967, 64 p.
ROCHA, Adelaide Magalhães — ...O Diálogo continua, S. Paulo, Editora Herder, 1967, 104 p.
La Donna nella famiglia e nel lavoro (atti del X congresso nazionale, Roma, domus pacis, 6-10/12/1960). Roma (Via Boezio, 21), Centro Ittaliano Femminile, 1961, 228 p.
«Complementaridade dos sexos». «SEDOC», Petropólis, Ediotra Vozes, 2 (11), Maio 1970. colunas 1400-1401.
EULALIA, Mary G. Santa — Actividades Conciliares de las Mujeres. "Vida Nueva», Madrid 16 (apdo. 19 049), PPC (Propaganda Popular Catolica), 792, 24/7/1971, p. 14 (1062)-15 (1063).
La Mujer / tema candente? «Vida Nueva», 803, 23/10/71, p. 5 (1433).
Las Religiosas y la Mujer Sacerdote. «Vida Nueva», 808,27/11/1971, p. 15 (1611).
Profesiones Increibles
, «Vida Nuevan.
(*) Adoptada pela Assembleia Geral, em 7/11/1967.
(**) (e outros).




    
 

 
    


Tema



QUAL  O  IDEAL

DA  MULHER  BANTA

NO  FUTURO ?







INTRODUÇÃO SÓCIO-ETNOLÓCICA E LITERATURA ORAL
SOBRE A MULHER BANTA






Os subtítulos são da co-autoria da Rosália,
num café panorâmico da praia do Xai-Xai,
enquanto o marido,
Fernando Marques Simões,
acarinhava,
ao colo,
o então pequenino Nuno.








    
 

 
    


ESCRITOR



Se é sempre com dificuldade que entro num assunto, se é sempre com emoção que inicio um escrito, se um estudo sofre sempre uma demorada elaboração de factos, ideias e sentimentos, que direi das hesitações, dos escrúpulos, de tudo quanto pensei e senti ao pegar na máquina para abordar que fosse o tema convergente de toda esta semana: o ideal da mulher banta no futuro? 1
Gestação
Porque, ao escrever sobre ela, logo estava, de novo (e tantas vezes o tem sido), a convertê-la em objeto, e, afinal, não teria percebido nada desta Semana, se nem sequer tivesse atingido que é como sujeito que deve ser tratada. 2
Objetivar a mulher
Mas eu já tinha passado pela crise de querer a mulher a jeito — arbitrário — do homem; e, com essa purificação, talvez me tenha tornado apto a ser veículo do pensamento e das ansiedades da mulher. 3
A mulher a jeito
O escritor, por mais rico que seja em inteligência, sensibilidade, estilo, é sempre aquele pobre que, como tal, não só põe em comum os seus poucos ou muitos bens, como ainda, e por isso mesmo, está sempre disponível para ser ora o eco ora o amplificador do que está escondido no coração humano, e que às vezes até se tem medo de consciencializar, do que se pretenderia exprimir, se não fora a mudez a que tantos foram reduzidos por tantas prisões ou pelo medo a elas, do que mereceria chegar até os confins do mundo, e não chega pelo isolamento a que se teima continuar a condenar o homem com tantos muros, tantas fronteiras. 4
Eco e amplificador
Aquela mulher poderia estar aqui a falar neste momento, mas há o medo de que a sua pouca instrução literária a torne menos percebida; aqueloutra os teria muitas qualidades para o fazer, mas há o medo de que a sua moralidade, concebida diferentemente, a torne menos aceite; ainda outra, sabe o que teria a dizer, mas não consegue superar uma pseudoeducação que a habituou a calar; ah! e também aquela, já desistiu, diz que não vale a pena! E isto para não falar da multidão de europeias que preferem não dizer o que pensam, não lutar em campo aberto, para, à socapa, irem levando a água ao seu moinho: — Deixai os homens na ilusão da sua superioridade, que nós saberemos refugiar-nos no nosso mundo, e manejar o deles, pelo calcanhar de Aquiles ou pelos cabelos de Sansão. 5
Medos




    
 

 
    


PESSOA E MULHER



Há, sem dúvida, uma diferenciação sexual, que, genitalmente, se manifesta pela complementaridade dos órgãos da reprodução, hormonalmente, se manifesta por fenómenos secundários, que os poetas tanto descantaram, e, geneticamente, nos atinge até o íntimo de cada célula, num mistério que ainda exigirá longa caminhada de investigações científicas e reflexão filosófica. E, sem dúvida, essa diferenciação biológica condiciona uma outra — a psicológica. 6
Três sexos
Todas essas diferenciações, no entanto, são superados por uma identidade igualmente flagrante: a do ser humano. É como pessoa humana que, antes de tudo, mesmo do sexo, temos de ser considerados. 7
Identidade específica
Homem do sexo masculino, homem do sexo feminino, mas, antes do masculino e do feminino, homem e sempre homem. Esta palavra é equívoca na nossa língua e tem-no sido através dos tempos: «fulano e um verdadeiro homem» todos percebemos, mas, se se diz: fulana é um verdadeiro homem», queremos significar que se comporta como uma verdadeira pessoa humana ou que se masculinizou, repudiando o próprio sexo? Ainda há pouco fui chocado por esta expressão: «aquela médica é como um homem»; e, afinal, não se queria significar que ela não tenha sabido levar a dimensão feminina à profissão médica, mas simplesmente que ela, apesar de ser mulher, soube desempenhar com perfeição um trabalho que se estava habituado a ver só nos homens. 8
Equivocidade linguística
Preconceito da superioridade masculina para que, talvez, em círculo vicioso, a própria língua contribua. Homem tanto serve para significar ser humano como sexo masculino. Mulher, lembrando mais o sexo, deixa na penumbra o ser humano, e chega-se a considerá-la um homem inacabado, eficiente, que, como norma, só deve seguir certas profissões. E para a calar e manter reduzida a essa circunscrição local e profissional, à falta de autênticas razões científicas, filosóficas e religiosas, que, por fim, sempre caíram, desmascaradas, teima-se mantê-la naquela auréola de endeusamento elaborada pela mística feminina, cujos autores, porém, são masculinos. 9
Homem inacabado... mas deusa
O homem é duas vezes homem: pela natureza humana e pelo sexo; a mulher, pelo sexo, não se pode chamar homem, e, pela natureza, pode-se, mas homem torna-se equívoca. Se a palavra exprime o pensamento do povo que a inventou, usa e imprimiu a evolução semântica, e se, por sua vez, a utilização de certos termos vai condicionando o nosso pensamento, parece que temos de rever, com cuidado, a nossa terminologia e a nossa mentalidade nestes assuntos. 10
Duas vezes homem
Neste ponto é mais feliz a palavra MUTTHU utilizada com pequenas variantes pelos povos bantos1 e que significa a pessoa humana2 quer seja do sexo masculino quer do feminino, desde que, como pessoa, esteja inserida na vida comunitária, numa liberdade que só tem por limites o bem do próximo e numa solidariedade que leva ao trabalho pelo progresso não de um só, mas de todos. 11
Estrutura linguística mais feliz
Mulher ou homem só deixa de ser mutthu, se o egoísmo o levar ao ponto de se isolar, fechar, de só procurar o próprio bem ou do seu pequeno grupo, procurando a salvação ou o progresso sozinho ou até chegando a repudiar formalmente a comunidade donde provém. Adulto que deixa de saber integrar-se no conjunto e integrar nele o fruto de todas as suas capacidades, que deixa de ser aberto ao próximo e dedicar-se ao seu bem, deixa de ser adulto e nem criança pode voltar a ser chamado. Se o fora, ainda mereceria ser chamado «mutthu», como a criança o é. Mas esse indivíduo, que já nem o nome de pessoa merece, não é por falta de idade que não procede como adulto: a sua regressão ao egoísmo infantil é por culpa própria: deixou entrar nele o espírito capitalista, de rendimento sem trabalho ou de rendimento só para si (ou para o seu pequeno grupo), conforme os casos, deixou vencer nele o espírito do egoísmo, do isolamento, da morte: será «mukhwiri, «mfiti», «muloyi», ou «mukhunya», «mesungalho», ou qualquer outra coisa, não «mutthu». 12
Pessoa e indivíduo
Mulher ou homem, desde que se mantenha livre, na união fraterna, forte, na fecundidade dessa união, isto é, desde que se mantenha verdadeiramente vivo e não sucumba ao espírito do mal, venha donde vier, é sempre e antes de tudo «mutthu». A designação de «muhiyana» ou de «mulobwana» só vem depois. Isto mostra bem como este povo soube superar, pela base, a nossa antinomia homem - mulher. Ligam grande importância ao sexo, mas com serenidade, e nem o mistificam nem estão obcecados por ele. Sobretudo, mais do que ao sexo, ligam importância ao ser humano. 13
Superação da antinomia sexual
Nesta perspetiva, tão positiva, torna-se muito mais simples retificar os desvios, que também os há como em toda a parte, conceber a mulher do futuro, superando também a não menos falsa dicotomia idealismo — realismo. 14
Perspetiva do futuro





1

O próprio termo banto, etimologicamente, quer dizer homens, pessoas humanas.

2

É interessante como, no fundo, a distinção de pessoa e indivíduo também existe neste povo.








    
 

 
    


AUTENTICIDADE



No ano passado, dominava este salão de reuniões plenárias uma frase que nos chamava a atenção para o igual perigo em que nos colocavam integristas e revolucionários, uns querendo confinar-nos às raízes, outros, querendo prescindir delas, como se a vida, a evolução fosse possível em tais condições1. 15
Integristas e revolucionários
Isto faz-nos pensar muito em dois sectores da juventude: o daqueles que só sabem pensar pela cabeça dos pais e o daqueles que repudiam tudo quanto lhes lembre sequer os progenitores2. E se aqueles nunca chegarão a adultos, parece que presos sempre a um saudosismo de repouso placentário, estes também estão longe de ter a personalidade que pensam ou dizem possuir, firmando-se nesse repúdio de tudo quanto receberam, como se de tal pudesse resultar a menor sombra de segurança ou de carácter ou até de progresso. 16
Repouso e repúdio
O repúdio dos pais é a negação de sim mesmo, é a despersonalização pura e simples, é a falta de carácter mais esvaziante e repelente. Porque, assim como «a personalidade do pai é o dom do filho»3, assim «a personalidade do filho é o acolhimento do pai»3. Os pais não seriam pais se não gerassem o filho: este, por sua vez, nem sequer existiria se não tivesse recebido o ser dos progenitores, e o ser, nos humanos, não se reduz ao plano biológico. 17
Essência da paternidade e da filiação
Quanto mais e melhor os pais comunicarem, não tanto no sentido quantitativo como no qualitativo, mais vincada personalidade têm. E quanto mais e melhor os filhos souberem acolher essa comunicação mais carácter e personalidade revelam. Isto está longe de se confundir com aqueles que só sabem pensar pelos pais, porque o ser que os pais nos transmitiram inclui um espírito crítico que progressivamente se vai desenvolvendo, sendo muito diferente a maneira de receber no ventre materno, na infância, na adolescência, etc. O dom da vida fraco acolhimento teria da parte do filho, se este quisesse continuar a repousar sobre a placenta ou alimentar-se pelo cordão umbilical. 18
Personalidade de pais e filhos
A vida que recebemos da fecundidade dos nossos pais é para ser acolhida,desenvolvida e transmitida, nunca em regressão, mas sempre em evolução. Não se trata de repetir «ipsis verbis» o que os antigos («makholo») diziam: uma das grandes riquezas das literaturas orais é a eloquência, que nunca se repete, que é sempre viva, progressiva. A mesma verdade, sempre idêntica na sua essência, e sempre apresentada com novos tons, novos coloridos, novos ritmos, nova composição de lugar. E, simultaneamente, novas peças literárias a enriquecerem o património antigo. Não se trata também de fazer exatamente o que os «makolo» faziam: mas de aproveitar as grandes linhas de orientação, numa constante adaptação às novas circunstâncias, numa constante reflexão e num aberto diálogo, do qual ninguém é excluído. Todos sabem, por exemplo, que o grande pai (o «bibi») nada resolve sem ouvir, primeiro, na intimidade, a grande mulher (a primeira mulher). 19
Evolução
É na evolução que se enriquece a vida que nos foi transmitida, e essa evolução é projetada num constante espírito crítico, que se incute desde tenra idade. É eloquente e cheia de sabor esta passagem dos ensinamentos das anciãs às jovens iniciadas, que vão ser submetidas à fanação: «Mulago? Omwalana, mayi, nimwalana, ddimaga itchegwa dhaga, ddimulodde mamunaga wogeleye». Conselhos? (De separar-me?) Separei-me, mãe, separei-me de vós, arrumei as minhas coisas, vou para onde foi o meu marido. Onde está a subserviência, o espírito de escravidão? Pelo contrário, esta é uma amostra da dignidade que os «makolo» querem incutir às mulheres, da estatura a que as querem ver elevadas, do fortalecimento progressivo daquela vida que vem de «Muluku» e de que eles são os transmissores. 20
Espírito Critico
O «mutthu» deseja elevar-se, mas sabe que a seiva vem das raízes, deseja projetar-se para o futuro, mas, para isso, não perde de vista o protótipo do passado4 . 21
Seiva
É o realismo banto, que nada tem de terra-a-terra, mas que se identifica com um grande idealismo: uma vida mais forte, mais fecunda, mais comunitária. 22
Realismo no idealismo
Mas, ao falar de raízes, passado, protótipo, não queria deixar de assinalar um perigo: o de mitos mal expressos. Não se trata de destruí-los. Por mais evoluído que seja, parece que o homem nunca há de poder viver sem eles. E não parece que o facto de reatualizar, ritualmente que seja, um acontecimento primordial vá entravar a evolução. Reatualizar, longe de conservadorismo, é um adaptar constante, um renovar que não tolera cerimónias e fórmulas estereotipadas, mas exige simbolismos não ultrapassados e palavras espontâneas. O mito não é contra a vida, mas na sua própria noção está o gérmen da vida. Esta só se fortalece, só evolui, se, constantemente, a reatualizarmos, a renovarmos. O problema está em que o facto primordial que queremos não repetir servilmente, mas reatualizar, seja verdadeiro no essencial e interpretado criticamente na sua apresentação, que pode não ser histórica, mas mais ou menos fantasista, talvez com certo sabor pitoresco. 23
Reatualização do mito





1

Os desenraizados ou os confinados às raízes — «revolucionários» ou «integristas» — põem igualmente em risco o futuro.

2

Felizmente há um outro sector, não o mais numeroso, mas o mais válido, que, para lutar com mais segurança e velocidade pelo progresso, nada despreza do património legado pelos antepassados.

3

«I.P. — Investigação e Informação Pastoral», 1/L — 1.ºtema, edição do Centro de Investigação Pastoral de Moçambique, Beira (C.P.544), pág. 2, linhas 27-28.

4

«O mito (...) narra como alguma coisa veio à existência ou como um comportamento, uma instituição, uma maneira de trabalhar foram fundados; é esta a razão por que os mitos constituem os paradigmas de todo o ato humano significativo.» MLAUZI, Ezequiel Pedro Gwembe — Munthu/A imagem do homem negro-africano, trabalho apresentado para a licença em filosofia, sob a direção do Prof. José Maria Cabral, Faculdade de Filosofia de Braga, Maio de 1970, págs. 3-4.




    
 

 
    


MULHER E FUTURO



Assente que «muyana» (mulher) é, antes de tudo, «muthu» (pessoa humana), assente que a evolução se tem de fazer a partir das raízes, parece que já podemos caminhar com um pouco de segurança para a mulher banta do futuro. 24
MULHER E FUTURO
Não vamos prender-nos com a imagem folclórica da mulher a pilar o arroz, talvez com uma criança às costas, nem com a divisão de trabalho que certas condições determinaram, nem com costumes resultantes de uma técnica menos eficiente. Não vamos também mudar tudo isso só por mudar ou com medo do rótulo de primitivismo. Mas vamos tentar estudar o sentido profundo das palavras e dos costumes herdados dos «makolo», distinguindo o essencial do acidental, o permanente do transitório, e, então, será possível, através de toda esta acidentalidade que nos salta à vista e aos ouvidos, aproximarmo-nos da essência da feminilidade numa perspetiva banta. Assim tentaremos encontrar o sentido da evolução, que, para ser rápida e segura, e sob pena de autodestruição, terá de respeitar a todo o custo o que for essencial à personalidade da mulher banta. Tudo o resto será em referência a esse ideal: o que o ajudar a realizar será mantido ou adotado, venha donde vier, o que o prejudicar será banido ou repelido, também venha donde vier. 25
Para além do folclore: o essencial
É claro que isto será muito diferente do que tantas vezes se tem feito, apresentando a «namukobwe» (a mulher do branco) como modelo a copiar. Além da alienação a que temos estado a condenar as novas gerações, sem benefício para ninguém, e além de estarmos a falsear o ideal cristão quando tal iniciativa parte de irmãs ou padres ou catequistas, certamente que nem sonhamos que ideal, ao menos na sua compreensão, estamos a propor. «Namukobwe», palavra com que designam a mulher branca, quer dizer aquela que está sentada sem fazer nada no meio de muitas coisas. A palavra, entre os bantos, é quase sempre um monumento histórico: o estudo etimológico e da evolução semântica são para nós autênticas revelações. 26
A palavra como monumento histórico
Mas tudo que Ocidente ou Oriente traga de válido para uma mais plena realização da mulher banta, evidentemente que há-de ser aproveitado. Nem vamos deixar destruir o humanismo africano com um entusiasmo indiscriminado pela civilização técnica, nem vamos deixar de aproveitá-la com um medo maniqueísta ou uma prudência de sabor neo-maltusiano. O que é necessário é uma constante hierarquização e integração de valores. 27
Humanismo e técnica
É claro que isto também é muito diferente do que tantas vezes acontece, fazendo acreditar que a promoção da mulher se pode iniciar por aulas de corte ou por qualquer das outras disciplinas a que também erradamente se chama formação feminina em vez de se lhes chamar formação doméstica. 28
A deformação feminina
Esquece-se muitas vezes o que Aristóteles já 322 anos antes de Cristo dizia: «O aprendizado mais necessário e não desaprendermos o que já aprendemos»1. Este seria o primeiro passo para uma autêntica promoção da mulher: fazer com que ela não desaprenda o que os «makholo» (os antepassados) lhe ensinaram por meio das «namugu» (isto é, das madrinhas). E, portanto, longe de nós fazer exatamente o contrário: ignorar esses ensinamentos, afastá-las deles ou, pior ainda, ridicularizá-los. Por isso, para a promoção da mulher, não é tanto de quem queira ensinar que precisamos, mas de quem queira aprender, de quem seja capaz de compreender e realizar aquela frase de Lavelle, que, daquele palco, desde o início da Semana, domina esta sala: «O maior bem que possamos prestar a outrem não é comunicar-lhe a nossa riqueza, mas revelar-lhe a sua»2. Depois disto, sim, mas só depois, poderemos e deveremos levar-lhes o que de válido tivermos para lhes retribuir, talvez reconhecendo a sua superioridade nuns pontos, talvez propondo-lhes o aperfeiçoamento noutros, talvez sugerindo a substituição ainda noutros. Havendo respeito, admiração, reciprocidade, oxalá que mesmo amizade, tudo é possível, tudo se torna fácil. 29
A não desaprendizagem
Mas aqui todo o cuidado será pouco em não lhes irmos impingir o que, além de contrário à sua índole, ainda por cima já está ultrapassado na própria Europa e América, por carência de bases científicas, jurídicas ou pedagógicas, obsoleto como, por exemplo: a confinação da mulher aos trabalhos domésticos, ou do homem aos trabalhos fora do lar; ou do sobrecarregar aquela com uns e outros e reservar ao homem só estes; a aceitação da desigualdade de direitos com base no sexo; o introduzir nas nubentes a moda do nosso véu branco, que simboliza a submissão da mulher ao homem, e cuja brancura para nós é símbolo de pureza e virgindade, mas, para eles, é de morte3; o desencorajar (até já se proibiu) o uso da capulana, quando até em Paris se vê como traje de luxo; e tantas outras incongruências que qualquer de nós poderia inventariar numa simples revisão de vida. 30
Aprendizagem do obsoleto
Aquelas aulas de formação doméstica (culinária, corte, costura, economia doméstica, puericultura, etc.) estariam muito bem se respeitassem estas três condições: 31
Condições da formação doméstica
1) Ocuparem o lugar que lhes compete numa verdadeira hierarquia de valores. Ensinar-lhes coisas novas e secundárias, quando o principal seria reacordar nelas as virtudes e virtualidades ancestrais; ou ensinar bordados, quando carecem de roupas; ou ocupar-lhes o tempo com certos requintes, quando têm de resolver prementes necessidades de subsistência ou de dignidade4 — será tudo menos promover: é tratá-las como crianças, e só não é revoltante porque é ridículo. 32
Começar pelo vital
2) Partirem sempre dos dados da própria cultura no referente à matéria a tratar, refletirem sobre esses dados, deixando a elas próprias o trabalho da autocrítica, e levá-las a não perderem nada do que tenham de válido. A essas bases positivas levar então o que também de válido lhes possamos acrescentar, sempre numa integração de valores: não numa sobreposição sincretista ou eclética. 33
Com base na cultura própria
3) Serem frequentadas por ambos os sexos. O contrário seria fazer acreditar que são trabalhos só próprios do sexo feminino. Ora isso contradiz tanto os usos e costumes africanos como as recentes conquistas da mulher americana e europeia de se libertar de parte do peso5 desses serviços, que até há pouco recaíam exclusivamente sobre ela. 34
Presença masculina
De facto, está na índole banta que ambos, homem e mulher, trabalhem no lar, e ambos, também, trabalhem fora do lar. Evitaram assim os erros da nossa civilização, que, nisso, era pouco humana. Dados certos condicionalismos técnicos e económicos, não chegaram à perfeição de todos os serviços serem técnicos e económicos, não chegaram à perfeição de todos os serviços serem pessoais de cada um, e de modo a não faltar em ponto nenhum nem a dimensão masculina nem a feminina, nem mesmo chegaram à coeducação. Mas a tendência profunda e geral é de, em tudo (até nos ritos), estarem sempre presentes ambos os sexos. E a coeducação (recente conquista da pedagogia moderna, que tão longa caminhada e tantas lutas custou entre nós) é aceite com a maior das facilidades, porque, embora ainda não tivesse entrado nos costumes, está na linha do pensamento banto no que tem de mais profundo. 35
Conjugação
Nos serviços domésticos: presente a mulher a varrer, buscar água, pilar, cozinhar, cuidar dos filhos; e também presente o homem a costurar, a lavar a própria roupa, a trazer a carne e o peixe, e até a cozinhar nos casos de necessidade. 36
No lar
Fora do lar: na machamba, presente a mulher como obreira principal, e presente o homem na escolha do local, na derruba, nas tardes (depois da caça, da pesca ou do emprego), e sempre que o serviço aperta ou a saúde da mulher o exige; na caça, presente o homem, exercendo uma das suas funções sociais, mas também presente a mulher, e não só espiritualmente6, porque, utilizando-se a rede, ela vai pegar nela, enquanto o marido, de azagaia em punho, persegue a rês; na construção da palhota, presente o homem para as estruturas e a cobertura, e presente a mulher no reboco, tudo com grande eficiência e rapidez, graças à entreajuda comunitária, comendo e bebendo todos juntos a convite do interessado, mas onde o salário seria inconcebível; e até na guerra, infelizmente, presente o homem, como em função própria, e presente a mulher e não só pelo ânimo que incute o «ttchungulu»7 como em tantas missões que continuam a encher de atos heroicos, de epopeias épicas, esta triste História dos primeiros milhares de anos do «homo sapiens»8. 37
Fora do lar
No que diz respeito a diferenciações de ordem jurídica, vejamos esta relação de direitos da mulher, colhida durante uma conversa recente com uma lomwe:
  1. De mandar na alimentação.
  2. De mandar na machamba.
  3. De mandar na criação de galinhas.
  4. De mandar nos filhos até o casamento.
  5. De receber vestuário.
  6. De guardar o dinheiro do marido9.
  7. De sair de dia (depois do serviço feito).
  8. De manifestar desejo sexual.
  9. De ter relações sexuais (embora a escolha do momento e quantidade de vezes caiba, como regra, a ele).
  10. A que o marido lave as mãos depois dessas relações.
  11. De aceitar o cargo de madrinha, conselheira, mestra, dançarina, cantora.
  12. De exercer a profissão de curandeira, adivinha, exorcista10.
  13. De recorrer ao «nwene» (régulo), através da família dela, se o marido lhe bater sem razão.
38
Alguns direitos
da mulher
Se soubermos ultrapassar as aparências e penetrar nos lares europeus de há bem pouco e, infelizmente, de muitos de ainda hoje e de aqui mesmo, temos de reconhecer mais uma vez que a grande necessidade do povo banto é não desaprender, em contacto connosco, o que havia aprendido dos «makholo»:essa base de evolução será muito mais segura do que qualquer outra que lhes possamos propor. Isto não quer dizer que já tenham atingido a perfeição: quer dizer exatamente o contrário: que necessitam de continuar a evoluir, cada vez com mais rapidez e cada vez mais presos às raízes, para a árvore não desabar pelo peso dos ramos ou pela violência dos ventos. 39
Base da Evolução
O exemplo da poligamia é flagrante: tinham muitas razões para ela e dificilmente teriam encontrado outra solução, mas, na base, qualquer coisa de contraditório os fez sempre reconhecer a deficiência, e precaridade de tal remedeio: «marido, não tomes duas mulheres: desposar duas é matar a primeira»11. Mas a prostituição ainda seria pior, e uma mulher sozinha seria uma mulher frustrada. Os casos raríssimos de virgens para certos atos de culto não passam de exceções e, por isso, pouco ou nada provariam. Hoje, porém, sabemos pela Psicologia que tanto homens como mulheres, possuindo uma grande normalidade (que nada tem a ver com vulgaridade), e tendo, portanto, atingido uma elevada maturidade afetiva, podem realizar-se plenamente, prescindindo de relações genitais. As relações com o outro sexo, realizadas a outros níveis, garantem-lhes suficientemente a evolução pessoal e integração na comunidade. Assim se conseguiu mais uma liberdade: a de casar ou não casar. E a igualdade de direitos foi restabelecida: de facto, o homem tinha direito de ter duas ou mais mulheres, mas a mulher só tinha direito a um marido. E é interessante como este argumento foi suficiente para na Costa do Marfim, logo após a independência, se abolir a poligamia, ao mesmo tempo que toda e qualquer outra discriminação sexual12. 40
Poligamia
Com isto não queremos dizer que se faça agora da monogamia o cavalo de batalha para a promoção da mulher. Poderia até ser a regressão, e seria em muitos casos flagrante injustiça contra ela própria13. O que queremos dizer é que as ideias, os princípios, lançados no coração humano ou despertados nele, produzirão, a seu tempo, o respetivo fruto. Por isso todo o cuidado é pouco em não abafar, não deixar morrer, uma cultura, uma filosofia, um humanismo de raízes tão profundas. 41
Monogamia





1

Calendário da Editora Vozes, Petrópolis, 2." feira, 24/7/1972.

2

Idem, 2ª feira, 29/5/1972.

3

É interessante esta página de simbologia das cores encontrada em MVENG, E. — L'Art d'Afrique Noire, Tours, Mame, 1964, p. 32: «O branco é a cor dos mortos. A sua significação ritual vai mais longe ainda: cor dos mortos, ele serve para afastar a morte. Os semelhantes repelem-se: ele é, portanto, a morte da morte! Atribui-se-lhe um poder curativo imenso. (...) O vermelho, pelo contrário, é cor de sangue, cor da vida. (...) O preto, cor da noite, da prova, do sofrimento, do mistério. Ele pode ser o abrigo do Adversário nas emboscadas. (...) O ocre amarelo cor de terra reaparece muitas vezes nas zonas de floresta e de savana. (...) É a cor neutra, a cor intermediária, aquela que serve para guarnecer os fundos, porque ela é cor de terra e cor de folhas mortas. ...) O azul e o verde são raros, ao menos no passado.»

 

Cf. PALLETE, Manuel — El mistério de las mascaras. «Tercer Mundo», Madrid 2 (Fray Juan Gil, 5), 14, Junio 1971, pág. 11-16.

 

Agora parece tornar-se mais claro por que motivo o branco se usa na primeira parte do «mwali» (iniciação das raparigas), mas não na segunda; e por que talvez seja melhor, no batismo, em vez de se falar de «veste branca», falar-se de «veste nova».

4

Nunca se viu, por exemplo, os homens serem vítimas de rusgas permitidas ou mandadas fazer pelos maridos daquelas mesmas que procuravam entreter as mulheres com sessões de costura, ditas de promoção?

5

Os eletrodomésticos são um fator de libertação, mas resta sempre em todos os lares algo de trabalho quantitativo; sendo inconcebível, numa sociedade evoluída, a profissão de criados, mesmo que lhes chamemos empregados domésticos, não é menos inconcebível que um resto de trabalho rotineiro fique a exclusivo cargo da mulher: ele deverá ser dividido, fraternalmente, entre os dois sexos.

6

O homem, quando vai para a caça ou para a pesca, tem de deixar a mulher contente. Doutro modo estraga as balas.

7

«Tchungulu» é uma aleluia, uma expressão de entusiasmo, alegria, provocado pela língua em vibração entre o palato e os dentes.

8

Este «homo sapiens», apesar de o ser, ainda não conseguiu libertar-se da herança selvática, informando completamente, por uma racionalidade consciente e livre, a animalidade do nosso ser. E, se há alguma coisa que vá contra o ideal devida, fecundidade, união fraterna, é exatamente a guerra. Ela nada resolve, porque a violência gera a violência, os oprimidos de hoje são os opressores de amanhã, e salta-se sempre de um extremismo a outro extremismo. A guerra só atua à superfície; por isso nunca chega a mudar a face da terra. Para o conseguir é preciso ir mais fundo, ir à raiz dos problemas, ser mais radical: é pelo pensamento a germinar no íntimo das pessoas e dos povos que a face da terra se transformará. Demora mais tempo, mas, lançadas as raízes, a permanência na evolução estará garantida. Oxalá que nem este nem nenhum outro povo se veja mais na tentação do ilusório recurso da guerra, e que, mesmo naqueles casos desesperados, em que parece que a violência seria o último recurso, ainda tenha a força suficiente para não pegar em armas e a sabedoria de encontrar outros meios mais radicais.

9

Se o marido quer guardar o dinheiro em casa do pai, entrega-o por meio da mulher.

10

Será bom recordar que só recentemente a legislação portuguesa reconhece à mulher o direito de exercer funções públicas sem autorização do marido,

11

Instrução durante a fanação.

12

SACRÉ-COEUR, Soeur Marie André du — Promotion Féminine et Familiale. «Revue du Clergé Africain», Mayidi (B. P. 6, Inkisi), Zaire, XXI, 6, Novembre 1966, p.562-570.

13

HILLMAN, Eugéne — Uma Revisão da Poliginia. «Concilium», Lisboa, 3 (Pastoral), Março 1968, p.149-167.




    
 

 
    


EVOLUÇÃO LIVRE



Eis a mulher banta do futuro — futuro que deve começar nesta hora precisa: resultante (como homem) daquele momento em que, depois de tão longa caminhada dos movimentos sucessivamente surgidos de reprodução, multiplicação e renovação, e depois de tantas tentativas sem sucesso, se inventa o sexo e, com ele, triunfa o movimento de conjugação, a mulher — «recapitulação da energia vital do cosmos»1 — aceita-se em toda a sua feminilidade biológica (genética, hormonal e genital) e psicológica (sensibilidade e afetividade, liberdade, inteligência); aceita-se sexuada, serenamente, em face do homem, e, com ele, cresce, numa complementaridade e sobretudo numa reciprocidade que a tornam na medida da beleza e da fecundidade e na restauradora dos desequilíbrios provocados pelo homem no cosmos2. 42
Padrão de beleza e fecundidade
Para realizar esse seu múnus de salvadora, insere-se no movimento de associação, surgido muito depois do de conjugação, mas muito antes do «homo sapiens». E ei-la: a lado do marido e dos parentes, nos grupos familiares; a lado dos companheiros, nos grupos educativos, económicos, políticos, religiosos e recreativos. A todos leva a sua dimensão feminina, que, com a masculina, garantirá uma harmónica evolução do mundo. 43
Associação
Caída no desfasamento entre o direito consuetudinário e escrito, provocado pelo Islão, pelas Igrejas, pelo Estado, pela civilização de consumo, conseguirá, com a ajuda masculina, superar esta tensão numa síntese que integre na sua os valores positivos das outras culturas, e contribuirá, com o que tiver e mais genuíno, para a civilização universal para que caminhamos3. 44
Superação do desfasamento
O seu exemplo ajudará as mulheres dos outros povos a libertarem-se, ocupando o lugar que lhes compete na vida social e profissional, e conseguindo que o homem ocupe também o lugar que lhe compete na vida familiar. 45
Libertação
A mulher banta do futuro (futuro que começa hoje), bem esclarecida consciente dos próprios valores e dos valores alheios, do lugar que lhe compete na evolução da noosfera, tornar-se-á cada vez mais livre, porque só na liberdade será possível o desempenho da sua missão de amor. 46
Noosfera
Será livre não só em aceitar ou não o pretendente, como antigamente acontecia, mas será livre em ela própria procurar marido; e será livre ainda em casar ou não casar. Até a sua feminilidade, ao menos no que tem de psicológico, será aceite e construída livremente, porque não existe o fatalismo4 nem a opressão, mas cada um é construtor ou co construtor consciente e livre do futuro. Depois da barisfera, da litosfera, da biosfera, eis a grande novidade da noosfera, que já se tinha esboçado desde o início e progressivamente se foi avolumando, mas só agora se deu o salto último: o início do pensamento e da liberdade, cujas possibilidades até agora parece não terem sido aproveitadas senão nuns escassos dez por cento. 47
Liberdade de ser mulher
À mulher banta do futuro, todas as profissões estarão franqueadas, sem mais discriminação de sexo. As profissões que até agora só conheciam a dimensão masculina passarão a enriquecer-se com a dimensão feminina; e as que até agora só conheciam a dimensão feminina passarão a enriquecer-se com a dimensão masculina. Certamente que uma exceção haverá: para as mulheres, vedar-se-á o acesso a profissões que nem do homem sejam próprias; e aos homens vedar-se-á o acesso às profissões que nem das mulheres sejam próprias. É o caso de tantos serviços que competem a máquinas e não a seres humanos. Mas, enquanto isso se não der, dividam por ambos, o mais equitativamente possível, esses trabalhos quantitativos, assim como dividiram os qualitativos. Nada, porém, de resignações, porque isso só entravaria a evolução do mundo: a humanidade é para ser vivida plenamente e não a meias, nem, muito menos, numa mísera décima parte como agora acontece, e nos casos mais felizes sem falar da multidão de infra-homens. 48
Liberdade de profissão





1

MVENG, E. — L'Art d’ Afrique Noire, Tours, Mame, 1964, p.85.

2

Idem, p.79.

3

Cf. NOTHOMB, Dominique — L'Homme Africain entre hier et demain.

4

Cf. SPINDELDREIER, Frei Ademar — Feminilidade. «Grande Sinal», Petrópolis (C.P. 23), 24 (2), Março 1970, p.83-92.










    
 

 
    


A ÁFRICA E A IGREJA



Só neste clima de liberdade e igualdade de direitos, a mulher(e o mesmo se diga do homem) poderá realizar-se plenamente quer como ser humano quer como mulher. Os países deste Continente que aproveitaram a independência para logo concederem igualdade de direitos à mulher, além de nos darem um exemplo de fidelidade aos «makholo» e de abertura à evolução, realizaram um gesto profético que oxalá tenha projeção nos restantes países africanos e nos restantes continentes1. 49
Gesto profético
Espera-se também que as Igrejas não se deixem ficar atrás, porque compete-lhes ir à frente. Se de todos os códigos se vão eliminando progressivamente discriminações deste género, não se justifica que no mundo religioso ainda existam tutelas do masculino sobre o feminino2 ou portas fechadas à mulher3. 50
Tutela eclesiástica
Quanto à Igreja Católica, temos esperanças no novo Código de Direito Canónico. Quanto às outras Igrejas, outrora tão avançadas e agora, por vezes, tão reacionárias, esperemos que revejam o problema e se abram ao ecumenismo. Cristo não nos mandou secundar nem muito menos resistir, mas ir à frente4. 51
Ir à frente
Ou pensaremos que na Ordem e na Jurisdição não é necessária a dimensão feminina? Ou iremos tentar o Espírito Santo obrigando-O a inventar essa dimensão só com homens? Sempre aprendi que o sobrenatural vinha aperfeiçoar e não substituir o natural. O princípio não terá aplicação no diaconado, no sacerdócio e no episcopado? 52
Dimensão feminina no sacerdócio
Esperamos no bom senso dos homens, na competência dos redatores do novo Código de Direito Canónico e, acima de tudo, na Omnipotência do Espírito, que, mesmo respeitando a liberdade dos humanos, um dia vencerá a resistência daqueles que tanto protestam ser-Lhe submissos. 53
Pseudossubmissos





1

SACRÉ-COEUR, Soeur Marie André du — Promotion Féminine et Familiale. «Revue du Clergé Africain», Mayidi (B.P. 6, Inkisi), Zaire, XXI, 6, Novembre 1966, p.562-570.

2

Vid. HARING, Padre Bernhard — Paternalismo nos Mosteiros (femininos). «Grande Sinal», Petrópolis, 34 (10), Dezembro 1970, p.792-793.

3

Vid. GIBSON, Elsie — Femmes et Ministères dans l'Église, Paris, Casterman, 1971,p.256.

4

Jo., X, 27.




    
 

 
    


E A ESSÊNCIA DA FEMINILIDADE?



Chegados ao fim, parece que já se vai vislumbrando a mulher banta do futuro. Mas não estará ainda muito esbatida a noção de feminilidade? Ou não a teremos até diluído, ao pretendê-la presente em toda a parte, o mesmo tendo acontecido com a masculinidade? Em que consiste afinal essa dimensão feminina e masculina, já que, certamente, serão noções correlativas? Conhecemos as diferenças biológicas entre o homem e a mulher. Estas condicionam, necessariamente, o psíquico. Que diferenças psicológicas nos surgem então, não resultantes da pessoa ou do indivíduo, mas do sexo? 54
E A ESSÊNCIA DA FEMINILIDADE?
O problema já foi abordado no início da IV Semana1, mas penso que ainda não é desta vez que ficará plenamente esclarecido. Aliás é preferível deixa-lo amadurecer, continuarmos a investigar, a refletir, do que precipitarmo-nos em conclusões prematuras. Mas certamente não nos levarão à conta de leveza, se esboçarmos uma tentativa de aproximação da essência da feminilidade e correlativa masculinidade. 55
Nova tentativa
Todos sabem mais ou menos como se processa a iniciação dos rapazes e das raparigas. Se as semelhanças são muitas, as diferenças também são flagrantes. Duas destas prendem-me de modo especial a atenção: a parte pedagógica, nos rapazes, é posterior à parte essencial (a circuncisão propriamente dita), que se processa logo no início, enquanto que, nas raparigas, a fanação propriamente dita só tem lugar para o fim, já depois de muitas instruções; depois, verifica-se ainda que é muito menos raro os rapazes sucumbirem às austeridades desse tempo de prova do que as raparigas. 56
As duas iniciações
Trata-se apenas de diferenças circunstanciais ou serão determinadas ou pelo menos fortemente influenciadas pela natureza do sexo, tanto mais que num campo só existe o masculino e no outro o feminino? 57
Circunstâncias ou natureza?
Parece que a tendência do homem é de visar logo o fim, a eficiência, a síntese. E Mveng diz: «Paternidade, riqueza, força, poder e comando recapitulam a sua função»2. 58
A eficiência
Mas também acrescenta logo a seguir, explicando um mito do Kasai, que o homem é a causa dos fracassos. Esta tendência de querer logo ir ao essencial, de querer logo dar, esta capacidade de não perder de vista o conjunto, integrando nele as partes, numa preocupação constante de eficiência, dá-lhes uma grande facilidade para se tornar chefe, poeta, criador. Mas parece que não é tudo para a humanidade; e os fracassos hão-de suceder-se, se outra dimensão se não tornar presente: será uma dimensão redentora, segundo esse mesmo mito. 59
E o fracasso no homem
A mulher, por sua vez, parece que, antes de dar, é mais reservada, mais interiorizada, mais acolhedora, mais atenta ao pormenor, mais cuidadosa, estimando mais os valores em si mesmos e por si mesmos do que pela sua utilização. Por isso, parece ficarem-lhe bem as expressões (algumas já citados) de Mveng: «Criadora da vida. (...) Prancha de salvação do cosmos. (...). Norma de beleza, e, portanto, norma dos valores espirituais e sociais. (...). Recapitulação da energia vital do cosmos»3. Percebe-se assim que ela seja a salvação do homem e da sua obra, que ela seja a garantia da «liberdade individual que só pode realizar-se em comunhão e expandir-se em Amor e Sociedade»4. 60
O acolhimento e o cuidado
É claro que se onde só está presente a dimensão masculina o fracasso é inevitável, o mesmo se terá de dizer do caso contrário. E agora já se torna mais claro o motivo de tantos fracassos que só costumávamos atribuir à fragilidade humana. Tínhamos razão, mas só em parte, porque essa fragilidade pode ser grandemente atenuada se se conjugarem em tudo e sempre as duas dimensões de que estamos a tratar: a feminina e a masculina, uma com o acento na recetividade, no cuidado5 até o pormenor, no amor ao concreto, a outra, com acento na doação entusiástica, na eficiência, na integração, no amor ao ideal. 61
Motivo do fracasso:
separação dos sexos
Não admira que, na iniciação, os homens olhem mais ao bem comum, as mulheres, às pessoas em si mesmas. Aqueles olham mais às sínteses; estas prendem-se mais na análise. É um caso típico e extremo, quer porque, depois do sacrifício, é o ato religioso-social mais importante da sociedade banta, quer porque nele a separação de sexos é rigorosíssima. Podem assim ver-se com mais facilidade as características de uma atuação só de homens ou só de mulheres, e a falta que reciprocamente se fazem. E constatando quea ausência de mulheres na circuncisão é muito mais absoluta do que a ausência de homens na fanação, onde estes ainda atuam de certo modo, perceberemos ainda melhor o fenómeno apontado. 62
Bem comum e pessoa
Resumindo, não sei se poderemos dizer que a dimensão feminina leva o ser humano a, num primeiro momento, acolher, e, só num segundo momento, a dar; enquanto que a dimensão masculina leva o ser humano a, num primeiro momento, dar, e só num segundo momento, acolher. A mulher é mais pronta a acolher, o homem, a dar. 63
Acolhimento e doação
É o que se conclui até pela hierogamia primordial céu-terra6: um dando, outra acolhendo, para, em seguida, se inverterem os papéis, sempre primordial numa reciprocidade impressionante. A fecundidade resulta da conjugação destas duas dimensões. Isto não é só verdade a nível de fecundidade biológica, mas a todos os níveis e em todos os sectores. Evidentemente que os fracassos diminuirão quando essa conjugação for uma realidade em todos esses níveis e em todos esses sectores. Eis o vasto campo de consciencialização que se nos depara, se queremos, de facto, construir uma África e um mundo onde reine o amor. 64
Hierogamia primordial


Comunicação final de Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro, missionário leigo, à VII Semana de Estudos Missionários, realizada na Residência do Coração de Maria, em Quelimane, de 17 a 24 de Agosto de 1972, sobre a Feminilidade em perspectiva banta, e com 167 participantes de 7 dioceses de Moçambique.
 
 





1

IV Semana de Estudos Missionários, realizada em Quelimane de 1 a 8 de Setembro de 1968 sobre o Matrimónio Banto

2

MVENG, E. — L'Art d'Afrique Noire,Tours, Mame, 1964, p.79.

3

Idem, p.85.

4

Idem, p.82.

5

É interessante recordar aqui este ensinamento ministrado durante a fanação: «Mataba harama, amuriyenre logo, etcha hondweliha, avukunle mataba, ahiyaka orwa mahiw». O caril de folhas não é caro, deve tomar como caril a pimenta, o viajar não se pode conhecer (não se sabe quando volta), guardarei caril de folhas, porque o meu marido pode vir de noite. Quer dizer: a mulher esperta guarda sempre caril para o marido.

6

Vid. MLAUZI, Ezequiel Pedro Gwembe — Munthu/a imagem do homem negro-africano, Braga, Faculdade de  Filosofia, 1970, p. 12 (trabalho dactilografado). Cf. CISCATO, Pe. Elia — Cultura e Missão. «Missão e Vida», L. Marques (C.P. 286), II (11), Set.-Out. 1970, p.389-394.




    
 

 
    


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