Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro

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Arquivo Histórico de Moçambique

   1997


    
   
 
    



Índice


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Primeira Parte



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CAPÍTULO PRIMEIRO



 

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Preâmbulo

 

«Uma língua é sempre expressão de uma cultura,
de uma concepção de mundo e de homem»
 
  Brazão Mazula2  
 
  «A par das forças mercenárias de agressão,
a ofensiva do imperialismo caracteriza-se pelo divisionismo
e pela ofensiva cultural que se caracteriza na reactivação
da francofonia e da anglofonia e na
tentativa em curso de criar uma lusofonia»
  Samora Machel, 16/8/19783
 
 
# A Sebastião Soares de Rezende e Francisco Nunes Teixeira,
que impuseram4 aos seus missionários falar correctamente a língua banta em que fossem evangelizar.
 
# Aos Padres Brancos e a todos os Missionários e Missionárias, que assumiram com alegria este dever,
mesmo nos casos em que foi preciso optar5 pela fé em detrimento do império.
 
# Ao NELIMO (Núcleo de Estudo de Línguas Moçambicanas)
da Universidade Eduardo Mondlane (Faculdade de Letras),
que um dia me quis associar nesta luta6
 
# Aos Professores e Alunos universitários, aos Escritores, Jornalistas e Locutores7
que não desistem de aprofundar, cultivar e enriquecer o património linguístico banto8
– a parte mais valiosa da cultura moçambicana.
 
# Às Camponesas, Camponeses e a todo o Povo
que nunca se deixou assimilar,
que tem resistido durante séculos,
que pode deixar espoliar-se de bens materiais,
mas sempre preservou a própria alma, a própria língua, a própria filosofia:
 
 
Progresso a favor de todos, sim,assimilação9, nunca!
 
Se não há libertação do NZU10, o MUTHU11 continua oprimido.
 
A minha gratidão.
 
Maputo, 1 de Agosto de 1996.
 
JÚLIO


Moçambique é um país bantófono: nem a escravatura nem o colonialismo alteraram grande coisa esta realidade. À data da independência, tínhamos noventa e cinco por cento de analfabetismo12. Nos esforços dos primeiros anos do pós-independência, conseguimos reduzi-lo talvez para os oitenta por cento13. Não tivemos a coragem de alfabetizar nas línguas nacionais, como se o princípio pedagógico de partir do mais conhecido para o menos conhecido se pudesse ignorar impunemente. Muito menos a tivemos para uma mobilização geral que levasse à erradicação em poucos anos do analfabetismo e, então, um arranque concertado. 1
Dois medos fatais
O que parecia quase impossível – vencer em dado momento o colonialismo pelas armas – foi, afinal, mais fácil do que exterminar do próprio cérebro a mentalidade do colonizador; muito embora tanto se tenha falado em luta interior... Criticar a assimilação – tão ridícula ela era – foi mais fácil. Vencer tão poderosa arma – cujas balas penetram tão docemente – já é bem mais difícil. A França já não a tinha utilizado com tal mestria que desembocou na francofonia? E Roma não latinizou de tal modo a Ibéria que hoje, na língua portuguesa, não restam senão umas escassas dezenas de palavras dos celtas? 2
Luta ganha
luta perdida
Já no tempo colonial se falava muito de língua portuguesa. Então isto não era Portugal? E os monárquicos não queriam levar a integração ao ponto da capital do império ser rotativa: Lisboa, Luanda, Lourenço Marques, etc.? (Estão a ver que a mentalidade não mudou muito? Língua, língua não era só a dos europeus? Os outros – coitados – não têm senão meros e múltiplos dialectos: uma Babel... se não foram os portugueses trazer-lhes uma língua. (Curiosamente, tragicamente, digo, ainda ontem ouvi, a uma religiosa não há muito chegada de Portugal, um ninguém se entende num sentido muito semelhante aos tempos coloniais.) Mas o que eles nunca disseram era de que língua ou de que línguas esses infinitos e paupérrimos dialectos eram variantes. Também nunca ninguém lhes perguntou... (Embora eles bem o soubessem, como adiante se verá.) E, assim, quase seríamos levados a concluir que, não havendo línguas, esses dialectos só o poderiam ser da língua pátria, a de Camões... 3
Camões "vence" a Babel
Era um escândalo ouvir goeses rezar em concaním (ainda que fosse só na festa litúrgica de Francisco Xavier, a 3 de Dezembro de cada ano), ou os africanos nas suas próprias línguas (estes, quotidianamente). Apesar das aberrações que escrevi sobre lusitanização, substituição de línguas, etc. (onde estaria hoje se, nessa altura, as não tivesse escrito?), só porque, em 1953, no Diário de Moçambique14, defendi a tese de que, para bem ensinar o português, era necessário, primeiro, ensinar a língua materna (aliás, como há muito faziam ingleses e franceses, e parece que até portugueses em Timor Leste), logo fui avisado por jesuíta muito prudente de que tocava em matéria muito perigosa... 4
Tema perigoso
E, quando, na segunda metade de 1956, utilizei um panfleto em chuabo15, para anunciar a operários, contínuos e serviçais domésticos a criação da primeira escola nocturna de Quelimane, no quadro do serviço missionário, logo fui abordado pela Pureza da Língua, por não ter previamente submetido à censura daquela entidade o referido texto. 5
mesmo que seja a favor de Camões
Contraditoriamente (ou por uma lógica que escapava à nossa ingenuidade?), quando, muito contente, ainda antes dos anos sessenta, comunicava ao Governador da Zambézia que essa mesma escola passava a leccionar o ciclo preparatório, logo ele se alarmou e, deixando as mãos do volante (ia a arrancar depois de sair da livraria onde eu trabalhava), exclamou: –Veja lá o que me vai arranjar! Ao que, prontamente, retorqui: –Não se preocupe, Sr. Governador, são rapazes de confiança. (A lição ficou-me: estaria eu à espera de agradecimentos e elogios? Não me tinha já recordado o Inspector escolar – o tal da Pureza da Língua –, como que a tirar-me qualquer veleidade, que essa escola para adultos não passava de insignificante gota de água no oceano?) 6
Gota subversiva
Ensinar, sim, mas não muito – era estratégia tácita (e não só). Não me dizia com tanta simpatia o chefe das oficinas do Diário de Moçambique, na segunda metade de 1958, que esta gente era muito boazinha e aprendia muito bem, mas só até certo ponto, e que daí para cima já não dava mais? E, em Nauela, dois anos antes, ao ver, estupefacto, a Maria Ester a dar aula de ginástica no internato das Religiosas do Amor de Deus, não me dizia um português ali radicado, num misto de chacota e ameaça, «do que estas pretas precisam sei eu»? 7
Mediocridade aconselhável
   
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Com a independência, não podiam restar dúvidas: previamente e simultaneamente ao português, os currículos iriam incluir a todos os níveis (desde o rudimentar até o universitário) uma ou mais línguas bantas, consoante as circunstâncias o aconselhassem, à semelhança doutros países da África negra que já nos haviam precedido na libertação do colonialismo. 8
Certeza ingénua
Já nos últimos anos da ocupação portuguesa, funcionárias superiores do Ensino – não sei se por um misto de ironia e mestria, se por uma só delas – nos perguntavam como é que nos contentaríamos com o ensino das línguas maternas16 só a nível primário, continuando o português a nível secundário, médio e superior. Boa pergunta, de facto, mas na verdade nem esse pouco que ingenuamente pedíamos nos foi concedido. E era a bem da língua de Camões. 9
Disparidade absurda
De qualquer maneira, o bilinguismo17 parecia uma aquisição do ensino em Moçambique. Estudar uma língua estranha antes da materna, uma língua estrangeira antes de uma língua nacional – parecia-nos e parece-nos condenar gerações sobre gerações a um retorcimento interior, a um recalcamento muito difícil de superar. Que o digam os primeiros intelectuais que foram para as universidade do hemisfério norte: quanto lhes custou o reencontro consigo próprios? E a frustração dos outros: dos que nunca conseguiram ser eles próprios, mas sempre à semelhança... assimilados? 10
Drama interior
A língua própria, o maior valor da própria cultura e o único meio eficaz de a exprimir; a língua, alma do povo e da pátria, todos sabemos o que ela significa para os povos do primeiro mundo. Pois é exactamente o que significa para os do terceiro mundo. E muito mais, porque aqueles ainda têm poder e dinheiro, e estes, sem dinheiro nem poder, se ainda lhes tiram a alma, que alternativa terão? 11
A palavra é a própria pessoa
É claro que, neste momento, ninguém vai admitir que se pretenda a negação18 dos valores culturais bantos: pelo contrário, até dirão que são muito interessantes (muito folclóricos, não é?... e mui lucrativos para as empresas turísticas!); e até dirão que se devem preservar (como espécies raras e exóticas). E até serão objecto de muitos estudos antropológicos (licenciaturas, mestrados, doutoramentos) e de muitos estudos de Psicologia social (tão úteis para manipulações eleitorais...). Marginalizando ou integrando, ajudando ou cooperando (tácticas pontuais e nada mais), o que é preciso é subalternizar (idêntica estratégia do esclavagismo, do colonialismo, do neocolonialismo, que culmina nesta nova "ordem" mundial estabelecida pelo neocolonialismo). 12
Subalternização táctica
Mas fôssemos dizer a um francês: – A tua cultura é fantástica. Onde se poderia encontrar outra como ela? Mas, de futuro, haveis de exprimi-la , não na língua de Victor Hugo, mas na de Cervantes, de Dante ou de Camões. E se fosse na de Goethe ou de Shakespeare? Ou talvez na de Confúcio? A nossa sorte seria bem pior do que a dos colaboracionistas... 13
E se o feitiço se virasse contra o feiticeiro?
Somos periféricos, sem dinheiro e sem poder. Sois do centro (afinal o norte é o centro da terra?), tendes dinheiro e poder (assim tivésseis autoridade...). Não vos bastam as matérias primas e ainda nos quereis comer a alma19, como o mukwiri20? Povos bantos é, antes de tudo, em línguas bantas que têm de exteriorizar-se, comunicar-se e que têm de expressar a própria cultura. Não há libertação da pessoa nem do povo sem libertação da língua (e esta só o será com o seu estudo até o nível superior). 14Mangeurs d' âmes
Estagnaram, é certo, as línguas moçambicanas, quer por causa do esclavagismo, quer do colonialismo, quer da assimilação (que não se conteve, sequer, com o marco da independência). Mas nem tudo está perdido: diversos institutos missionários e diversas igrejas – que iam distinguindo fé e império e enfrentando hostilidades – aproveitaram alguma coisa do que a legislação lhes permitia e cultivaram essas línguas, ao menos no campo religioso. É notável (embora insuficiente) o número de gramáticas, dicionários, bíblias, catecismos e outras obras impressas21 ao longo desses anos. 15
Um serviço inesquecível
Além fronteiras – essas fronteiras que arbitrariamente nos foram impostas (à semelhança desta "democracia" pluripartidária de agora, também contrária à vontade do povo) – além fronteiras, no entanto, é que se conseguiu romper com mais eficiência a estagnação (relativa) das línguas: foi a sorte daquelas que são faladas de ambos os lados das fronteiras22, quer a norte quer a ocidente, quer a sul. (Foi também numa dessas além fronteiras que, nos anos cinquenta, pela primeira vez vi, ao ser aberta a porta da sala de jantar, pretos e brancos em cordial convívio...) 16
Arbitrariedade providencial?
   
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Longe de nós (e o que fica atrás torna-o bem claro), longe de nós, repito, que só queiramos para Moçambique línguas bantas. Se a estas cabe a primazia para a realização e expansão plena da sua personalidade, línguas estrangeiras são indispensáveis para nos debruçarmos sobre o resto do mundo, para nos comunicarmos com ele, para nos tornarmos adultos: e só se é adulto quando se consegue pensar não apenas com a própria cabeça, mas também pela cabeça do próximo (falar uma língua estrangeira é pensar nessa língua). 17
Nem por ser necessária deixa de ser estrangeira
Português, francês e inglês continuaram nos programas, e se o francês logo desapareceu dos liceus, foi por falta de professores, e ser mais importante investir no inglês. A França parece querer agora recuperar o perdido: por que não terá, no momento próprio, enviado professores bem preparados pedagogicamente e de ideologia aceitável nessa altura? 18
As três fonias rivais
O português, nas cinco antigas colónias africanas, por motivos pontuais (mas não afectivos, podeis ter a certeza), foi promovido a língua oficial. Lúcio Lara, no I Encontro Nacional de Angola, dá o facto como necessário, não definitivo: «até que, com o andar dos tempos, com o aprofundar do estudo e da sistematização das línguas angolanas, talvez uma delas possa efectivamente impor-se e passar a ser o veículo nacional que servirá o povo.»23 19
Nem sombra de saudade
Em Moçambique, desastradamente (o medo é mau conselheiro – como diria Alexandre Herculano), começa a falar-se do português como língua da unidade nacional; e o mais interessante (?) é como, tendo-se posto de lado e até vilipendiado o rico património dos primeiros anos da independência, só esta aberração é acarinhada. Mas já nessa altura, de 1974 a 1978, não perdia curso político ou de cultura moçambicana que me fosse confiado, ou círculo de alfabetização ou quaisquer outras reuniões em que fosse chamado a intervir24, para esclarecer que era inconcebível termos de ir buscar uma língua a dez mil quilómetros de distância e, demais a mais, apenas falada por uma ínfima percentagem de moçambicanos, para os congregarmos na unidade nacional. E nunca nenhum comandante ou comissário político me contestou estar na linha correcta. 20
Unidade
vinda de fora?
Ao que nos pode levar o medo de variantes (no fundo enriquecedoras) de línguas e costumes. Sem olharmos à identidade cultural e, sobretudo, esquecendo o seu dinamismo intrínseco, de que nos fala Eduardo Mondlane no seu trabalho de 1967 intitulado TRIBOS OU GRUPOS ÉTNICOS MOÇAMBICANOS (Seu significado na Luta de Libertação Nacional): 21
A unidade
vem de dentro
  ...«As relações económicas entre os grupos étnicos moçambicanos que se mantiveram através das gerações facilitaram um intercâmbio cultural que continua até hoje. O convívio entre indivíduos de tribos diferentes, e a incorporação forçada de grupos étnicos conquistado durante guerras intertribais, resultaram numa mescla e interposição de usos e costumes das várias populações de Moçambique. Não nos parece forçado afirmar que, se o colonialismo não tivesse imposto uma separação geográfica forçada, o processo natural de assimilação social e cultural que se operava em toda a África Austral teria determinado que, depois de alguns séculos, as diferentes etnias se tivessem fundido numa só gente.» (...)25  
E o governo colonial sabia muito bem que nem Moçambique era uma Babel nem o português era a língua veicular. Basta abrirmos a primeira série do Boletim Oficial de Moçambique de 1968, a páginas 157, para, na primeira coluna, linhas catorze e quinze, vermos como o Governo Geral sabia muito bem quantas e quais as línguas veiculares de Moçambique: apenas três26 para este vasto território, enquanto, na pequenina Suiça, são quatro, sem que isso afecte a sua unidade. 22
Até Portugal a reconhecia
   
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Em 1975, quem iria contestar que o português tinha de ser escolhido como língua oficial? Embora estrangeira, não tínhamos outra alternativa, por muitos motivos e até porque todo o direito positivo27 estava nessa língua, e ele continuaria em vigor em tudo quanto não fosse contra a Constituição, contra o processo revolucionário ou expressamente revogado. 23
Necessidade simplesmente pontual
Já se poderia perguntar por que motivo, simultaneamente, não teria sido escolhida também outra28, de raiz banta, afinal à semelhança de outros países da O. U. A. (Organização da Unidade Africana). E, naquele momento de euforia – e também de reflexão profunda (recordem-se os círculos29 de alfabetizandos) –, teria sido relativamente fácil, sem susceptibilidades tribais e tendo em vista fortificar os laços bantófonos. Porque o que estava e está em causa é, sobretudo, salvaguardar a estrutura gramatical e consequente estrutura mental – parte constitutiva, integrante, essencial da cultura do povo moçambicano, agora (parecia) liberto de qualquer forma de colonialismo. 24
Momento perdido do bilinguismo
E, mais que chocante, é aberrante30 a desproporção entre o dinheiro que se gasta com o estudo das línguas nacionais e o das estrangeiras, sobretudo se se tem em conta que nem sequer é com aquela ou aquelas que maior benefício económico nos poderiam trazer. (Que língua, hoje em dia, estudam, por exemplo, os portugueses quando querem aumentar os seus proventos?) Porque é isso que está também em causa: acabar com a miséria provocada não pela nossa incompetência31 nem muito menos pelo marxismo, mas pela reconquista32 e pelo saque – sem, com isto, longe de mim, querer ignorar a nossa parte, e não pequena, de responsabilidade. 25
Ao serviço do ter para não deixar de ser
Ou ainda estaremos com aquele ilustre prelado33 que, em Quelimane, a 9 de Setembro de 1967, felizmente logo desmentido pelo Papa34 em 29 de Outubro do mesmo ano, nos lançava um balde de água fria, durante a homilia, que não durante as mesas redondas realizadas ao longo de toda a semana anterior, afirmando que os valores bantos eram transitórios e, como tais, apenas como método os deveríamos utilizar? 26
O refúgio do púlpito: transitório ou definitivo?
Ou com aquele secretário provincial de Educação, no Liceu de Quelimane, logo nos inícios dos anos setenta, que, depois de insistir para os professores exporem os seus problemas, logo se indignava e exaltava, porque, ao contrário do que pensava (talvez alguns benefícios de ordem individual), se atreveram a expor problemas pedagógicos verdadeiramente impertinentes? 27
"Falsos" problemas
Então não é que uma mocinha lhe diz que ensinava História de Portugal e a História do Mundo, mas lhe parecia, como bom método e para bom rendimento escolar, deveria começar pela própria História, a de Moçambique e a de África! 28
História de África?
E outro, logo a seguir, também jovem, em idade de serviço militar, português chegado a Moçambique nos inícios de 1971, não se atreve, também este, a dizer que ensina a sua especialidade, a filosofia europeia, mas estava convencido de que, antes dessa, deveria ensinar a filosofia banta! 29
Filosofia banta?
Teve de interromper. Ao pedir que um segundo professor falasse era para reduzir ao ridículo a primeira intervenção, e afinal vem dizer que não tem uma resposta, mas apenas uma achega (pior a emenda do que o soneto!). 30
Duas "aberrações" interrompidas
Teve, evidentemente, de interromper: quem sabe se não teria medo de que um professor de português chegasse ao absurdo de pedir para ensinar a língua materna35 antes (ou simultaneamente que fosse) da língua de Camões. Ou outro que quisesse subverter a geografia: os rios ou os caminhos de ferro de Moçambique? Ou as constelações do hemisfério sul? O que interessava eram as linhas férreas, os rios, as serras, as cidades da Mãe Pátria; a Estrela polar e como se identificava a partir das Ursas (maior e menor) e não o Cruzeiro do Sul... 31
...para outras
não ouvir...
Teve de interromper: –Que ouço eu? História de Moçambique, Filosofia banta? Portugal é que deu a Moçambique uma história, uma língua, uma cultura... Era evidente. Os mais velhos (e mais velhas) não queriam que o Sr. Secretário provincial se consumisse, se agastasse... com aqueles dois jovens transviados. 32
de jovens transviados
Ou ainda estaremos com aquele missionário italiano que, muito contente por me receber e me ir mostrar a praia das Chocas, logo levanta as mãos do volante, entristecido por eu, falando de inculturação, ousar unir dois termos evidentemente irreconciliáveis: cultura banta. «–Sagrada palavra cultura: o que estais a fazer dela?» Para ele (e para tantos outros) só existia cultura greco-romana. (Serão história do passado?) 33
"Profanação"
Ou ainda estaremos (embora com muitas camuflações) no tempo em que irritava extraordinariamente o governo português falar-se de cultura e língua, quando, todos sabem, o que os povos primitivos têm são usos e costumes e dialectos. Até a mesma ciência, se trata deles, é antropologia, se trata de povos evoluídos, é sociologia... Ai de quem, nesse tempo, falasse de cultura moçambicana! Só muito tardiamente se toleraria o plural – culturas – (talvez menos perigoso), mas nunca no singular. Não nos parece retornar a esses tempos quando, hoje, ouvimos certos políticos? 34
Plural dissolvente
Será por isso que foi preciso inventar a C. P. L. P.: para informar, dar unidade a essas culturazinhas? E não será também melhor voltar a chamar às línguas nacionais línguas de Portugal36, para conseguir o respeito por elas, o seu estudo e a sua expansão, como em 1971 aconteceu (e bem contentes ficamos na altura) em notável editorial do Boletim da Sociedade de Língua Portuguesa? E talvez até o conseguíssemos! O importante não é subalternizar? 35
Subalternos?
Tudo bem
   
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Se ficássemos pelos PALOPs, tudo era muito razoável: é um facto que cinco países africanos e soberanos têm a mesma língua oficial sem qualquer referência a culturas ou à quantidade de falantes dessa língua. E ai de quem descaísse em troca de termos (expressão em vez de língua, por exemplo) ou na eliminação do "oficial": logo alguém lhe chamaria à atenção do melindre da maneira incorrecta de falar, de como isso magoaria os sentimentos dos moçambicanos. 36
Respeito inseparável da verdade?
Mas a lavagem ao cérebro foi-se tornando realidade, ora por meios subtis e dulcificantes ora por meios violentos e atrozes. E ninguém terá o desplante de dizer que os termos não têm importância. De língua passou a dizer-se, indiferentemente, expressão: países de expressão37 oficial portuguesa; como se a mesma língua não pudesse ter, em Moçambique, uma expressão moçambicana, ou, no Brasil, uma expressão brasileira, o que vai muito para além do sotaque. E logo a seguir se omitiu a palavra oficial e ficou-se apenas em países de língua portuguesa. Uma falsidade38, e impensável no tempo de Samora. 37
Ou palavras para camuflar a verdade?
Admitida uma falsidade, tudo o resto se torna simples: erro na soma dos falantes, com o sempre fácil recurso aos potenciais falantes (e a que somas astronómicas isso levaria!). E da forja da falsidade e do erro, estamos caídos na mentira. 38
A liberdade desagua nas mistificações?
Ainda há dias, a propósito da CPLP, me diziam de uma agência noticiosa de Lisboa: –Isso já todos sabem. –Pois se sabem, muito mais grave. (É o cúmulo do descaramento e da arrogância ...sob a mistificação da fraternidade, da comunidade, e até da rotatividade!) 39
Cúmulo do descaramento
E o grande entusiasta da lusofonia, para se vangloriar da sua unidade linguística, quantos milhões39 de índios teve de exterminar durante estes "famosos" quinhentos anos40 de "encontro"? E que projectos41 tem acerca dos sobreviventes? E os cem milhões42 de marginalizados só num dos membros da CPLP não é uma contradição até com o próprio termo comunidade? Falsidade (ausência de verdade ôntica), por erro (ausência de verdade lógica) ou resultante de mentira (ausência de verdade ética)? 40
E temos de institucionalizar mistificações e descaramentos?
E o Brasil, para considerar a língua portuguesa como a sua pátria espiritual, o que tem feito, o que faz e projecta fazer do riquíssimo património cultural43 daqueles que, há quinhentos e quatro anos, foram não DEScobertos, mas ENcobertos44? Querem também ENCOBRIR o nosso património banto, ou SUBALTERNIZAR que seja? 41
Encobrir para subalternizar
Tinha há pouco mudado o meu domicílio e local de trabalho de Quelimane para o Maputo, quando abriu, na Fortaleza da nossa Capital, a exposição Ngungunhane, que, em Junho de 1993, se havia realizado em Lisboa, enquadrada nas actividades das festas daquela Cidade. Estávamos na segunda metade de 1994: a duas décadas do derrube do colonial-fascismo e a poucos anos do progressivo enfeudamento ao neocolonialismo. Admirável respeito tanto de portugueses como de moçambicanos por aquele personagem histórico! – ia pensando eu. Por quê tantos prejuizos acerca do que chega de Lisboa, ainda que de colaboração com o Maputo? Dois extractos de Dispersos, de Agostinho da Silva, mesmo à saída, tiraram-me, porém, todas as veleidades: 42
Pezinhos de lã
  (...) «Além de tudo, para que Portugal seja verdadeiramente irmão dos outros Povos de Língua, tem de morrer como metrópole e de renascer como comunidade livre, já que dominar os outros é a pior forma de prisão que ter se pode.» (...)
(...) «Seguindo ou alargando Pessoa, poderíamos dizer que é a língua o que nos constitui Pátria. Sendo assim e supondo, como parece seguro, que todos os antigos territórios ultramarinos vão adoptar o Português como língua de comunicação, sem pôr de parte o uso e estudo das línguas nativas, Portugal, ao contrário do que tantos dizem, não diminuiu, antes se multiplicou.» (...)
   
Só que não foi preciso inventar a memória electrónica para nos não esquecermos do verdadeiro e idêntico conteúdo de palavras aparentemente tão diferentes como além-mar, colónias, províncias, estados, comunidade. Ou escravos, servos, empregados. Ou, ainda, indígenas, nativos, autóctones, vizinhos de regedoria (versão aparecida já depois da abolição do indigenato em 1961). Renascimento sem prévia morte... 43
Mudanças de forma permanência de fundo
Assim como não estamos desprevenidos perante a mestria com que se utilizam os parónimos lusoFONIA, lusoFILIA, lusoTOPIA, lusUTOPIA – estes com maquiavélica progressão de conteúdo. 44
Teimosia inventiva
Se quereis ser irmãos – não forçados como os de sangue –, mas livres como os gerados pela amizade – reciprocamente eleitos –, não impunheis a vossa língua, nem muito menos manipuleis ou retorçais a verdade, fazendo-nos dizer que somos nós a querê-la. 45
Pede o guloso ...para o desejoso
Não queirais imitar certos padres que, aterrorizados com o dinamismo evangélico dos cristãos de base, ditos leigos, logo mudam apressadamente o nome de paróquia em comunidade, e mentalizam de tal modo os sem palavra (percebeis o que é palavra?), durante prolongadas liturgias, que estes "mui livre e conscientemente" vão repetir, nas reuniões de ditos agentes de pastoral ou dinamizadores ou ministros não ordenados o que a hierarquia (pelo menos a maior parte e mais elevada dela) quer ouvir... ainda que sejam as maiores barbaridade anti-evangélicas. 46
Paradigma clerical
Se quereis ser irmãos, fazei por simpatia45 o que os missionários fizeram por amor e os comerciantes por dinheiro: estudai, antes de tudo, a língua46 desses que dizeis amar como irmãos. Ensinai nos vossos liceus, pelo menos uma língua banta – o swahili47, por exemplo, com mais de cinquenta milhões de falantes, e que, embora minoritário em Moçambique, ajudou na sua independência, é largamente difundido e cultivado na África oriental e austral, é reconhecido como língua internacional pela UNESCO, língua oficial também do MOVIMENTO AFRO-AMERICANO – e, então, descobrireis os tesouros da África ao sul do Sáara e que, também neste campo, temos uma palavra a pronunciar, e algo a ensinar. Então sereis adultos e não opressorzinhos de país semiperiférico, que até no próprio seio se dá ao luxo de criar quartos mundos... que não novos mundos. 47
Ao contrário do que Salazar pensava
A rotatividade tem de passar pelas línguas: a de cidades capitais já não convence. Doutro modo, nem sequer reciprocidade haverá. Ou ainda pensais que há línguas inferiores e inadaptadas ao desenvolvimento moderno ou que o moçambicano é refém48 da língua portuguesa? Ou que se afligiria muito com o seu desaparecimento? Há problemas que o preocupam muito mais e se se verga ora em Roma ora em Lisboa, ignorando o vosso antes quebrar do que torcer, é para evitar outro milhão de mortos. Sabemos muito bem quanto custou a luta vitoriosa contra o colonialismo e a fracassada (para já: não esqueçais o nosso ovilelela) contra o neocolonialismo; e sabemos muito bem como a desconsideração49 das língua africanas faz parte da ideologia colonial. 48
A verdadeira rotatividade
   
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Depreende-se de tudo quanto digo que sou contra a lusofonia? Só quem não tivesse compreendido nada do que disse, e sobretudo do fiz durante a segunda metade deste século, poderia concluir isso. O que condeno é baseá-la em falsidades, erros e mentiras, e sobretudo manipulá-la politicamente – embora com todas as boas intenções que sempre os paternalismos e maternalismos invocaram. 49
A verdadeira lusofonia
Quarenta e quatro anos na difusão do livro português em Moçambique – seis com os chamados Padres Brancos, na Manga (Diocese da Beira), vinte com a então recém criada Diocese de Quelimane, dezoito por conta própria, mas sempre no rumo traçado por Cesare Bertulli e depois confirmado pelos dois primeiros Bispos de Quelimane, com o activo de exposições e feiras nos mais variados pontos da Zambézia e de Moçambique e até no estrangeiro, e postos de venda no mais recôndito interior – parece darem-me direito não a qualquer reconhecimento, mas a poder falar com liberdade, conhecimento de causa e imparcialidade. 50
O livro português nas palhotas
Se sou contra lusitanidades, hispanidades ou francidades50, nada tenho contra lusofonias, francofonias ou anglofonias. O que é preciso é dizer não a qualquer mistificação. 51
Nem imperialismo linguístico
Lusofonia é o conjunto dos falantes – fluentemente falantes – da língua portuguesa. E Camões51 nada tem a ver com a escolha que fizemos dela para língua oficial. E essa escolha também não significa, por si, nem que seja nacional nem veicular. Já vimos atrás como o próprio governo colonial, tendo como língua oficial o português, considerava como veiculares três línguas bantas. E o mesmo se diga da francofonia e da anglofonia, para só falar destes três concorrentes. 52
Nem a língua como tentáculo
E bem contentes ficamos com o ensino destas três línguas de opção, e que as respectivas metrópoles invistam seriamente (e não a fingir): que se estimulem numa sã emulação, mas sem competitividade política ou chantagem económica, ou ameaças bélicas.. que afinal nem são de temer, porque nestas paragens é costume passar-se logo a vias de facto, dizendo-se mui cinicamente que são as tribos a guerrear-se. (Guerras de agressão externa, com mercenários e tudo, classificam-se como guerras civis52...) 53
Línguas
como opção
Moçambique, para se não trair nem destruir, é nas línguas bantas que tem de investir. É até a única alternativa ao beco sem saída em que o neoliberalismo nos quer meter ou já nos meteu. 54
Língua como salvação
Os outros que invistam nas suas próprias línguas, que, se não tentarem subalternizar as nacionais, serão todas elas bem-vindas. 55
Os interessados que invistam
Mas, ao avaliarem os efectivos, somem os falantes: não a população inteira dos países onde há falantes ou que se viram forçados a promover a oficial a língua do colonizador. E colonizador (sabeis?) é sempre opressor (se paternalista, pior ainda) – até que renuncie a actos (pontuais que sejam) que o identifiquem como tal e sobretudo até que renuncie a institucionalizar a dominação, por mais escondida que procure ser em requintadas, subtis e atraentes camuflagens. 56
Pelo menos saibam somar
A nova "ordem" mundial pode esmagar-nos, mas não penseis que o ignoramos. Não o ignoramos e até encontraremos, em nós próprios e nos que sofrem como nós, a solução. 57
Lavagem ao cérebro desconseguida
Ontem, com a unificação dos movimentos de libertação liderada por Mondlane, os moçambicanos venceram um membro do Pacto Atlântico, o que pareceria impossível. Hoje estamos na mó de baixo. Amanhã, unindo-se os terceiro e quarto mundos, a minoria opressora terá de ceder. 58
O unum predicamentalizado
Ainda estamos muito próximos da animalidade, ainda aproveitámos muito pouco da racionalidade: talvez apenas uns dez por cento. Resta, então, larga margem para a esperança. Assim saibamos aproveitar a era electrónica, e tirar da cultura banta o contributo que pode dar. Porque não é só de tecnologia53 que precisamos (esta até pode empobrecer-nos cada vez mais para enriquecer uns tantos, à nossa custa, como está agora mesmo54 a acontecer). Precisamos simultaneamente de uma filosofia que a oriente para bem de todo o ser humano e de todos os seus aspectos. 59
Noventa por cento de margem para a esperança
A tal filosofia que o Egídio queria ensinar, irritando o então secretário provincial de Educação. 60
Filosofia irritante
Segredo e riqueza da palavra muthu: não a deixaremos esquecer nem subalternizar. A palavra é a imagem da própria pessoa; e, sem aquela, esta ficaria mortalmente ferida na sua integridade. A palavra, quando convictamente expressa, realiza o que significa55. É um axioma banto, que, bem compreendido, nada tem de idealismo filosófico. Por isso, tanto luta cada povo pela sua língua. É um direito também da BANTOFONIA. 61
NZU criador/criadora
 
Maputo, Coop, Radical Splash, 8 de Agosto de 1996.
   





Em construção

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CAPÍTULO SEGUNDO



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Gianbattista Brentari, sempre que passa pelo Maputo, reserva-me algumas horas; mas desta vez deslocou-se expressamente da Zambézia para, durante cerca de uma semana e meia, reflectir comigo, aqui no Arquivo Histórico de Moçambique. 62
Última reflexão
Gianbattista nasceu em Itália, no município de Coredo, província de Trento, no dia 5 de Maio de 1922, e veio para a Zambézia como missionário capuchinho em 1950 – no mesmo em que também eu cheguei a Moçambique. Mas só vim a conhecê-lo em Milange, a 14 de Setembro de 1956, uma Sexta-feira, quase no meio de uma viagem de três mil quinhentos e cinquenta quilómetros, a primeira de inserção na Diocese de Quelimane: vinte e sete dias inesquecíveis, de 3 a 29 desse mesmo mês e ano, num contacto que procurei fosse profundo com comerciantes, administrativos, professores, catequistas e sobretudo missionários católicos, protestantes e adventistas. 63
Primeiro encontro
Gianbattista é um missionário clássico, com fortes tendências para missionário Lebbe (que seria, de facto, se não esbarrasse com clássicas estruturas...): antípoda, portanto, do missionário fidei donum. Os seus caminhos missionários talvez se possam referenciar em cinco etapas, que foram sendo intensamente vividas em oito missões da Média Zambézia (uma vez que a Baixa Zambézia estava a cargo dos Capuchinhos de Bari, e a Alta Zambézia, dos Dehonianos): 64
O ideal de Lebbe
  
  1. Primeira, inserção no apostolado: Mugeba (1950). Inhassunge (1951), Milange (1952-1956).
  2. Segunda, comunidade inculturada: novamente Mugeba (1957-1961), Coalane 1962-1975), onde também eu vivi de 1959 a 1967, Macuse (1976).
  3. Terceira, arranjos de paz: Quelimane (1977-1978), onde também trabalhei de 2 de Julho de 1956 a 28 de Junho de 1994.
  4. Quarta, tempo reaccionário/fim dos catequistas: de novo Inhassunge (1979-1980), Lugela (1981-1985), Mocuba (1986-1994).
  5. Quinta, catequese inculturada: outra vez Milange (1995), e pela terceira vez Inhassunge (1996).

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Caminhos de missionário
Não era minha intenção dissertar hoje sobre o conteúdo de cada uma dessas etapas, cujos títulos até podem não ser os mais apropriados, e as datas, não rigorosamente históricas: apenas queria sugerir um cenário para falar do grande acontecimento que marcou toda a vida e todo o trabalho de evangelização de Gianbattista: a aprendizagem da língua dos evangelhizandos. 66
A chave certa
Parece que foi numa visita pastoral de Sebastião Soares de Resende, primeiro bispo da Beira (a cuja diocese pertencia na altura a Zambézia). Ele gostava de contactar com todos, em público e em particular. Uma vez encontramo-nos na Murraça (tinha eu ido lá passar uns dias com Charles Pollet, como costumava fazer quando tinha algum assunto importante a resolver); e tive a sorte de prosseguir a viagem na sua companhia, em visita pastoral a várias missões da margem direita do Zambeze. Pois deve ter sido numa dessas visitas pastorais, uns anos antes deste meu encontro e, é claro, quando ainda tinha jurisdição na margem esquerda do Zambeze, que Sebastião Soares de Resende (ou o Espírito Santo por meio dele ou os dois de colaboração) motivou Gianbattista de tal modo que nunca mais desistiu de falar fluentemente a língua do povo que estava a evangelizar. 67
A motivação que arrebatou
Mesmo sem chegar ao absurdo dos europeus que diziam que este povo, se não foram eles, não tinham qualquer língua, mas apenas dialectos..., as pessoas (des)interessadas esbarram sempre ou, melhor, querem esbarrar sempre na pergunta: – Mas que língua? – querendo com isso significar ou sugerir que a África não passa de uma Babel de cujo labirinto não há salvação possível se não se refugia em qualquer eurofonia. 68
Desmotivação tendenciosa
Gianbattista (e felizmente há mais Gianbattistas: peguei neste caso, porque o conheço de perto e tenho trabalhado em comum), não obstante tudo quanto tem feito pelo ensino oficial tanto antes como depois da independência, não esbarrou nem quis esbarrar nessa pergunta. Não ficou à superfície: ele é de intuições, mas também de profundidades. 69
A instituição nas profundidades
Na Zambézia, como originária, existe uma língua e perto de duas dezenas de variantes. A língua é o emakuwa-lomwe, que nos une à província de Nampula (e não só). As variantes das quais tenho até hoje encontrado referências são, só na parte zambeziana, dezoito (faltaria inventariar as de Nampula): 70
Dispersão com ambiguidades
  
  1. Emaranje – Milange.
  2. Emikawane – Milange.
  3. Ekokola – Derre, Morrumbala, Milange.
  4. Etakwane – Takwane.
  5. Emahoni – Takwane.
  6. Enharini – subdialecto do elolo (referido no n.º 13):
               entre Takwane e Derre, no mwene Kwagiya.
  7. Emanhawa – Munhamade.
  8. Enampamela – Mualama e Mubeba.
  9. Emarovone – Pebane e Naburi.
  10. Emoniga – Pebane.
  11. Enharinga – Maganja da Costa.
  12. Ekomwe – Maganja da Costa.
  13. Elolo – Nicoadala (vid. n.º 6).
  14. Emakuse subdialecto do etxuwabo: no Macuse.
  15. Etxuwabo – Quelimane. (Não é por ser falado na capital da província ou da diocese que se lhe atribuiria o estatuto de língua, para maior confusão da já dita Babel e gáudio dos eurofalantes.)
  16. Ekarungu – Inhassunge.
  17. Elinga – Inhassunge.
  18. Emayindo – Chinde.
 
Por sua vez, a língua makuwa-lomwe ou, simplesmente, o emakuwa, sem falar da parte de Nampula, mantém-se com relativa pureza sobretudo na Alta Zambézia (Gurue, Alto Molócue, Gilé, Namarroi, Ile) e ainda nos grupos espalhados por toda a Zambézia, ou mesmo fora dela, ocasionados por recentes migrações. 71
Fidelidade ao Namuli
Qualquer inexactidão no elenco das variantes apresentadas, seja na parte ortográfica seja na parte geográfica seja em qualquer outro aspecto, penso que em nada muda a questão de fundo. Por um lado, o mapa linguístico está constantemente a alterar-se com a circulação de pessoas e aglomerados; por outro lado, deficiência ou insuficiência de informação torna difícil atingir com rigor o pormenor. Mas o panorama apresentado já nos permite avançar para as causas dessas múltiplas variantes (sejam elas uma vintena ou uma simples dezena): 72
Permanência de fundo
Orcilações de superfície
  
  1. Migrações, devidas a fomes, abusos do poder, desejo de subir na vida.
  2. Contactos com outra gentes, outros factos, outros elementos, outras condições geográficas.
  3. Novas dificuldades e necessidades.
  4. Obstáculos na comunicação com a origem.
  5. Vontade de diferenciação e afastamento dos irmãos que não emigraram.
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Motivações de avanço
E avançar também para as consequências dessas variantes (cinco bastante positivas, três bastante negativas): 74
Resultados de vida e de morte
  1. Assimilação de palavras alheias.
  2. Aumento de sinónimos.
  3. Contracções que simplificam a língua.
  4. Abrandamentos gramaticais que tornam a língua mais sonora e bela.
  5. Enfim, um enriquecimento que torna a língua mais exacta.
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Evolução libertadora
  1. Mas também perda de muitas palavras, quer por esquecimento, quer por terem sido substituídas por outras, alheias e nem sempre mais expressivas.
  2. Perda da inteligência em favor da imitação.
  3. Vaidade em diferenciarem-se dos antepassados e dos irmãos, para se autonomizarem, o que até poderia ser positivo, mas na realidade para se associarem a outros, considerados mais elevados, de quem, afinal, passam a ficar dependentes (e de que maneira!).
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Assimilação redutora
A relativa pobreza desta língua e destas variantes provocada por falta de uma evolução normal – tornada impossível pelo isolamento a que os povos bantos foram condenados, primeiro pela escravatura, depois pelo colonialismo, e agora pelo neocolonialismo – faz com que cada uma destas variantes sozinhas, ou até mesmo a própria língua sem esse enriquecimento que aquelas lhe oferecem, seja incapaz de servir para transmissora das verdades quer científicas quer reveladas. 77
Empobrecidos irremediavelmente?
Mas, abatidas as barreiras erguidas entre o mesmo povo, portanto, dentro da mesma língua, aproveitando assim tudo quanto cada uma das variantes linguísticas conseguiu trazer de válido, então a língua makuwa, com todas as suas diversificações dialectais, conseguirá, se continuar a cultivar-se, exprimir todos os conceitos técnicos, científicos, matemáticos, filosóficos e teológicos. E tanto o desenvolvimento como a evangelização tornam-se, desse modo, muito mais fáceis, seguros, eficientes e autênticos. 78
Subsidiariedade de linguística
De facto, é um contra-senso baptizar o homem sem baptizar a língua e a cultura. E igual contra-senso que esta língua divida em vez de unir. 79
Absurdo intrínseco
É intolerável que o orgulho dialectal nos force a apoucar e deformar a incarnação da fé na cultura, sujeitando-nos não só a esse empobrecimento teológico e ao ridículo perante as outras línguas, quando a verdade é que o emakuwa, além de falada por cerca de um terço da população de Moçambique, tem todas as possibilidades de exprimir os mais profundos conceitos teológicos. Basta que a estudemos e não a esfacelemos. 80
Orgulho suicida
É interessante como, ao abordar o problema das línguas nacionais e do bilinguismo, o 1.º Seminário Nacional sobre o ensino da língua portuguesa, iniciado em Novembro de 1978 e cuja fase final se realizou no Maputo de 8 a 13 de Outubro de 1979, não deixou de, por um lado, enaltecer as nossas línguas bantas, e, por outro, alertar-nos para o perigo da dispersão dialectal. 81
Estímulo de estrutura temporal
«A acção para o desenvolvimento e expansão das línguas bantas de Moçambique não é movida por sentimentos humanitários (essas línguas que resistem a quinhentos anos de humilhações, alimentadas pela força da cultura popular de que elas são parte integrante, não necessitam das sugestões de um Seminário para se manterem vivas). Urge, sim, estimulá-las para as desenvolver fornecendo-lhes a normalização científica que evite a sua dispersão dialectal crescente e lhes permita uma adaptação mais rápida, regulamentada e minimamente programada a novas fases do desenvolvimento económico.» 82
Sem sombras de maternalismo
Coincidência perfeita! Gianbattista poderia sofrer contradições no tempo colonial, e só por equívoco elas poderiam não ter surgido. Mas também só por equívoco elas podem surgir no pós-independência. 83
Equívocos contra a lógica
Gianbattista procura identificar-se com o Povo; pela língua, renasce no meio dele; pela evangelização converte-se com ele. Estruturas clássicas por um lado, infiltrados por outro – podem obstaculizar o seu trabalho. Mas Gianbattista é lutador e nunca o vi esmorecer. 84
Renascimento pelo idioma
Temos trabalhos comuns, ainda hoje válidos, penso eu. Temos muitas afinidades e também muitas discrepâncias – muitas vezes difíceis de superar. 85
Encontros bem aproveitados
Mas só a distância e a falta de tempo nos impede de conseguirmos plataformas que permitam arrancar para novos trabalhos, consensos que permitam subscrever os mesmos textos, como outrora1. Porque as intuições superficiais podem divergir, mas, se elas descem às profundidades ou sobem aos cumes, quaisquer que sejam os métodos da escalada, o Uno – que não o unívoco – é atingido. 86
Rampas de lançamento
E Gianbattista, se por nascimento é homem das montanhas trentinas, por vocação, homem do Alverne, por renascimento é do Namuli. 87
Três montanhas
E se as primeiras escaladas na terra natal poderiam ter sido apenas com as forças físicas e poéticas, as segundas – as do franciscanismo –, pela ascese, as terceiras – as da cultura banta – foram pelas forças da língua makuwa. 88
NZU
palavra geradora
Quantos alpinistas, montanhistas deste calibre teremos em Moçambique? 89
Moçambicanos
por opção
   
Maputo, 10 de Novembro de 1996.  
   





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CAPÍTULO TERCEIRO



nzup01c03
Os Capuchinhos de Trento, que celebram o cinquentenário da sua chegada a Moçambique em 21 de Agosto de 1997, bem depressa ultrapassaram a fase da simples e enganosa adaptação para se convencerem a trilhar os caminhos da inculturação. Falar da aprendizagem da língua, das traduções da Bíblia e textos litúrgicos, da participação em semanas de estudo e de tantas outras das suas actividade – é apenas focar alguns aspectos do seu esforço de inculturação, porque o que estava e está em causa é a transformação de toda uma vida: incarnar, renascer. 90
Renascer...
Com as Semanas Missionárias que decorreram, em Quelimane, na de 1963 a 1972, pretendia-se, por um lado, integrar na plena responsabilidade missionária irmãs, irmãos e os ditos leigos, até aí discriminados inclusivamente pelo Estatuto Missionário, como facilmente se constatará olhando, por exemplo, a quem participava nas reuniões de missionários, a classe a que se tinha (ou não tinha) direito nos navios, etc.; e, por outro lado, destrinçar evangelização de portugalização ou mesmo europeização, fazendo surgir uma nova imagem eclesiológica e da cultura banta. 91
Contra o clericalismo missionário e o etnocentrismo cultural europeu
Os Capuchinhos da Província de Trento1 colaboraram nestas Semanas desde a primeira hora, não apenas com a sua participação nos grupos e nos plenários, mas ainda nas equipas dos conferencistas e dos organizadores. 92
Com
Francisco de Assis do nosso lado
A primeira decorreu de 4 a 11 de Agosto de 1963, no Colégio Nun'Álvares (onde todas elas se viriam a efectuar, graças à hospitalidade das Religiosas do Sagrado Coração de Maria), e versou sobre o tema geral da MISSIONAÇÃO NOS SEUS MÚLTIPLOS ASPECTOS2. 93
Para implantar a Igreja
Gabriel Casoto falou sobre os DEFEITOS E VIRTUDES DO AFRICANO; Vito Valler apresentou a tese MISSIONAR NÃO É EUROPEIZAR, e ainda dissertou sobre os VALORES AFRICANOS; Gianbattista Brentari falou sobre AS LÍNGUAS COMO MEIO DE CONVIVÊNCIA E INFLUÊNCIA; Joseph Simonini falou sobre as OBRAS SOCIAIS. 94
(Quatro dos dezassete:
Esta primeira Semana contou com a presença de dezassete presbíteros, catorze irmãos, cinquenta e uma irmãs e dez leigos de ambos os sexos. Dentre os participantes, dezassete foram conferencistas e já tomaram parte elementos de outra dioceses, o que viria a aumentar constantemente. 95
na roda dos noventa e sete)
A segunda Semana realizou-se de 3 a 8 de Agosto de 1964, tinha como tema o CATECUMENATO, esteve a cargo de duas Irmãs Brancas (do Cardeal Lavigerie) vindas do Malawi3, e teve a participação de cinco presbíteros, um subdiácono (capuchinho), dois irmãos, trinta irmãs, doze leigos e treze leigas. Ao todo, sessenta e três participantes. Dos Capunhinhos de Trento, estavam Vicente Bassoli, Ludovico Festi e Benjamim Manuel Pedro. 96
pelo Catecumenato
A terceira Semana foi de 3 a 9 de Setembro de 1967, teve por tema a VIDA RELIGIOSA, no sentido estrito, que desejávamos não alienante, mas incarnada na realidade africana, foi dedicada de modo especial a mestres e mestras de noviços e noviças, teve uma ampla participação de quase todo Moçambique, e dela resultou o livro DA VIDA AFRICANA À VIDA RELIGIOSA4, escrito por mim, de colaboração com João Baptista Brentari, responsável pela parte antropológica e de linguística banta, e traduzido para o inglês5 pela americana Mary Veronica Farrell, Religiosa do Sagrado Coração de Maria, e que reproduz as conferências6 dessa terceira Semana Missionária, e, em notas de rodapé, muitos enriquecimentos aportados pelas reuniões de grupo e plenários. 97
pelos Conselhos Evangélicos
Houve três sessões preparatórias nos meses anteriores, uma das quais orientada por Benjamim Manuel Pedro, primeiro moçambicano a pronunciar votos na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. 98
(com um capuchinho na preparação,
Nessa terceira Semana participaram ao todo oitenta e dois elementos: três presbíteros diocesanos, sete capuchinhos de Trento, um de Bari, um jesuíta, dez dehonianos, um da Consolata, duas Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, nove Vitorianas, oito Religiosas do Amor de Deus, seis do Sagrado Coração de Maria, uma Dominicana do Santíssimo Rosário, duas Agostinianas, três Franciscanas Missionárias de Maria, duas Irmãs de São José de Cluny, duas Mercedárias, uma da Apresentação de Maria, uma do Precioso Sangue, dois Irmãos Maristas, um irmão da Consolata, seis noviças do Sagrado Coração de Maria, e doze leigos de ambos os sexos, sendo oito mestres de noviços ou noviças e três professores de seminário 99
oito participantes
E de tudo ficou bem patente a PREDISPOSIÇÃO DA ALMA BANTA PARA OS CONSELHOS EVANGÉLICOS. 100
e um final entusiasmante)
A quarta Semana realizou-se de 1 a 8 de Setembro de 1968 e abordou o tema do MATRIMÓNIO, tendo-se começado por reflectir sobre a ESSÊNCIA DA FEMINILIDADE e da MASCULINIDADE, para depois estudar o MATRIMÓNIO NA BÍBLIA, o MATRIMÓNIO NO ISLÃO, a CONCEPÇÃO BANTA do mesmo, COMO OS ASENA O PREPARAM E REALIZAM, o mesmo entre o ALOMWE, a VALORIZAÇÃO HIGIÉNICA E MORAL DOS COSTUMES, USOS E HÁBITOS TRADICIONAIS, as CAUSAS DA INFIDELIDADE, e, finalmente, a ESPIRITUALIDADE CONJUGAL AFRICANA7. 101
pela vida a dois...
Participaram sete dioceses, sendo dois bispos, vinte e sete presbíteros, dois irmãos, quarenta e três religiosas e dezassete leigos de ambos os sexos. Os capuchinhos de Trento eram em número de cinco e Rufino Miori foi encarregado de estudar o tema CONCEPÇÃO BANTA DO MATRIMÓNIO, já acima referido. 102
(Cinco capuchinhos entre noventa e um participantes)
Para a quinta Semana convidou-se o escritor e missionário do Rwanda – Dominique Nothomb8, Padre Branco (do Cardeal Lavigerie). Realizou-se de 19 a 26 de Agosto de 1969, já integrada no plano de actividades da Comissão Episcopal Sócio-Pastoral e de Apostolado dos Leigos, e patrocinada pela Revista MISSÃO E VIDA, de Lourenço Marques. Teve por tema o SACRIFÍCIO BANTO. Dos noventa e sete participantes, cerca de 10% eram Capuchinhos de Trento, e alguns destacaram-se na preparação dos temas em que se subdividiu o tema geral. 103
e pelo Sacrifício
A sexta foi de 20 a 27 de Janeiro de 1971, sobre a MENTALIDADE BANTA ATRAVÉS DA SUA VIDA TRADICIONAL. Dos noventa e sete participantes, onze são de Trento, um dos quais actuou como conferencista9Gianbattista Brentari. De notar a crescente participação do clero moçambicano, que tomou a seu cargo seis das oito conferências. 104
libertando a Cultura
A sétima e última, de 17 a 24 de Agosto de 1972, focalizou a FEMINILIDADE EM PERSPECTIVA BANTA. Missão e Vida dedicou-lhe um número duplo10, e atingiu cento e sessenta e sete participantes, dos quais onze de Trento. Daniel Celestino Stanchina teve a seu cargo duas conferências: TRANSFORMAÇÃO CULTURAL e DESFASAMENTO CULTURAL DA MULHER BANTA11. 105
e a Mulher
Logo em seguida começou a preparação da oitava Semana sobre DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO, queríamos dizer, mas não podíamos na altura: LIBERTAÇÃO COMUNITÁRIA. ALFABETIZAÇÃO, COOPERATIVISMO, NÃO VIOLÊNCIA ACTIVA – foram temas de cursos e experiências e estudos a que os Capuchinhos de Trento12 deram grande apoio aqui em Moçambique e em Itália. O imenso material está preparado e aferido pelo desenrolar dos acontecimentos nestes vinte anos. Mas a Igreja, como todos nós e todas as coisas, tem avanços e recuos. E voltámos a 1963: só os presbíteros podem ser missionários de pleno direito? Não: já se fez uma caminhada: as religiosas foram integradas, pelo menos parcialmente. E os leigos? Entre eles – qualquer que seja a sua tendência ou a sua cor – pode haver missionários de pleno direito e a tempo pleno? Donde vem a vocação missionária? Do sacerdócio ministerial ou do sacerdócio comum? 106
na certeza de uma terra mais habitável apesar de certos recuos
até da Igreja.
 
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Quelimane, Livraria Ovetekula, 13 de Janeiro de 198713.







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- Marie Jacques-Denis, W. S. – Sisters of Our Lady of África – P. O. 121 – Lilongwe – Malawi, transferida posteriormente para o Canadá, seu país de origem: 3860, Ave. Laval – Montereal 18.
- Maria Zachée, holandesa, já conhecida por alguns dos nossos missionários por um livro que escrevera: Bembeke – Detza – Malawi.

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Texto melhorado em Março de 1995, já, portanto, no Maputo




    
 

 
    


CAPÍTULO QUARTO



nzup01c04
Foi na manhã de 14 de Setembro de 1956 que, pela primeira vez, conheci Vito Valler, na sua cela da Missão de Nossa Senhora das Dores, de Milange, preocupado com a qualidade artística de tudo quanto fosse ter às mãos do povo. Acabava eu de chegar da Missão de Santa Cruz, do Molumbo, essa confiado aos dehonianos, e fiquei agradavelmente surpreendido com a sensibilidade e profundidade que logo adivinhei naquele capuchinho, vindo há pouco de Trento. Nesse dia, naquelas altitudes que nos ligam ao vizinho Malawi (na altura, Nyassaland1, começou uma confiança, um entendimento, suponho que uma amizade. 107
Encontro
Apesar de termos vivido durante estas décadas, a maior parte das vezes a centenas de quilómetros, e agora a milhares, tivemos contactos muito profundos e suponho que bastante úteis para a causa missionária. 108
que perdurou
Quando, uns seis anos depois, surpreendido (?), alvoroçado (?), cheio de alegria, sou incumbido pelo bispo de organizar a primeira Semana Missionária de Quelimane, Vito é dos nomes que me saltam para constituir a vasta e diversificada equipa de conferencistas, e os temas a ele confiados era, na altura, dos mais escaldantes (polémicos, diriam outros): às 16.00 de segunda-feira, 5 de Agosto de 1963, disserta sobre MISSIONAR NÃO É EUROPEIZAR, e no dia seguinte, às 8.30, sobre VALORES AFRICANOS, sempre seguido de debate em grupos heterogéneos, e, depois, colóquio conjunto. 109
e frutificou
Seis anos mais tarde, na V Semana, aquela em que conseguimos trazer até nós Dominique Nothomb, autor do livro Un humanisme africain / Valeurs et pierres d'attente, de novo Vito aceita falar-nos, em três dissertações, sobre o diálogo com o MONOTEÍSMO BANTO. (Quando cheguei à Zambézia, falava-se em feiticismo, quando muito em animismo...) 110
na inculturação
Depois deste convívio de 19 a 26 de Agosto de 1969, vamo-nos encontrar na Beira, durante alguns dias bem perigosos, já em 1973, mas desta vez como alunos, os dois, da NÃO VIOLÊNCIA ACTIVA. Maus alunos, tardios alunos, a avaliar pelo desenrolar dos acontecimentos políticos e eclesiásticos deste último quarto de século, com as nossas vidas ainda bem poupadas... Mas nunca mais fomos iguais ao que éramos, nunca mais falámos como falávamos, pelo menos nunca mais deixamos de repetir o que aprendemos. 111
Alunos inquietos
E agora é ele, em 1974, inícios (o 25 de Abril havia de surpreender-me a dizer as coisas mais perigosas), agora é ele a confiar-me um curso de política (não partidário, tranquilizai-vos) para casais de catequistas vindos de toda a diocese. 112
No limiar do fascismo
Muitas outras vezes trabalhámos e rezámos juntos, mas a memória evoca-me estes encontros talvez como dos mais significativos. Porque, para ser um pouco menos incompleto, como poderia esquecer os trabalhos realizados por ele com Ludovico Festi: literatura oral, traduções de e para línguas nacionais, Dicionário etxuwabo-português e tantos outros da máxima importância para a missionação e a cultura moçambicana? Por pouco que eu pudesse dar, muitas vezes era solicitado, e não só eu como também a Maria Ester, e essa, sim, deu valioso contributo na classificação literária e temática (e nas intermináveis revisões) de cerca de quatro mil e quinhentos dizeres comuns. 113
e na alma da pátria
Mas nunca nos correspondemos tanto e com tanta profundidade como agora, a uns dez mil quilómetros de distância. Ele, no Convento de Ala, para as bandas dos Alpes, a preparar textos de utilidade para Moçambique. Eu, solicitado, com pouca cortesia (para não restituir na mesma moeda), a desocupar o espaço que há décadas se destinava à expansão do livro, da cultura e de tantas actividades de interesse para o povo, e que, até no auge da revolução marxista, garantiu a venda da Bíblia (agora em grande escala, que o povo já tinha dinheiro para a comprar, e continuou a ter até a viragem para a economia de mercado). E, por ironia (?) ou lógica profunda (?), não foram os marxistas a afastar-me desse trabalho, e até só concordaram com a minha vinda para o Maputo – para o Arquivo Histórico de Moçambique – quando inteirados de que seria acolhido por esta instituição da Universidade Eduardo Mondlane, e do trabalho que aí poderia ainda realizar. 114
Livraria incómoda?
Penso que esta troca de correspondência entre Ala e Quelimane (e, depois, Maputo) pode ser fonte de muita reflexão histórica dos cinquenta anos da vida dos capuchinhos em Moçambique e que dela se podem concluir, se houver competência e honestidade, os melhores métodos missionários para o presente e o futuro (exactamente o que fazíamos antes, durante e logo após o Vaticano II). Lembrei-me, por isso, de reler e dar a ler a parte sobre alguns aspectos da actual situação política de uma das minhas últimas cartas: 115
Monumentos
ou fontes?
   
separadores
   
Caímos, por força das armas, de infiltrações e uma diplomacia (na qual a vaticana teve lugar proeminente), caímos, dizia, naquilo que tanto desejávamos evitar: o neocolonialismo. A todos os níveis: 116
Legalizar o roubo
é paz?
1. Um desenvolvimento que beneficia uma minoria e prejudica, aumenta e marginaliza cada vez mais os chamados excedentários. 117
Leque mortífero
2. Uma democracia imposta contra a vontade do povo (máximo do cinismo!) que não dá grandes alternativas, porque haverá direita e centro, mas não esquerda, e porque as decisões serão sempre tomadas proximamente pelo F. M. I. e Banco Mundial e, a distância, por outros grupos bem mais poderosos, ficando uma pequeníssima margem de manobra. 118
Macacos e Robertos
3. Um bombardeamento constante de lusofonias, lusofilias, lusotopias, até o descaramento de se falar em lusutopia... 119
Quem rouba a cultura?
4. Uma hierarquia preta por fora, luso-romana por dentro! Olha como estão apegados ao tratamento de "Dom" aqueles que dizem defender uma igreja ministerial (e também o "Senhor Padre", o "Senhor Irmão", a "Senhora Irmã"), num total desprezo por Mateus, 23, 8-10. 120
Quem deforma a inculturação?
Mas é claro que há alternativas, assim o queiramos nós, na actualidade, como o quisemos no tempo colonial. Também nesse tempo os missionários não portugueses eram apelidados de estrangeiros, como se na Igreja de Jesus pudesse haver estrangeiros... E nós lutámos: lembras-te? A fidelidade não se nos impõe, antes de tudo, ao Evangelho e ao Espírito? O profetismo escolhe cores ou cargos ou sexos ou estados de perfeição? Abdicaremos, agora, sob o cómodo pretexto de diferenças culturais? Mas não é por serem autenticamente africanos, bantos, moçambicanos que nos insurgimos: é exactamente por não o serem, ou, melhor, por aquilo em que o não são. E acima do critério cultural não estará o evangélico? Só continuidade ou também descontinuidade, salto, mais do que qualitativo, específico, novidade? 121
dupla infidelidade: à cultura e ao Evangelho
Em 1995, um professor universitário de Coimbra proferiu uma série de conferências no anfiteatro da nossa Faculdade de Medicina, nas quais nos alertou para o facto de Portugal ser um país semiperiférico (e qual o país periférico – pergunto eu – a ter de suportar novamente uma metrópole, quereria que ela também o fosse, embora com o prefixo «semi»?); e para a necessidade de não nos acomodarmos, não desistirmos, não desanimarmos, porque há alternativas, que cada um tem de buscar nos seus próprios valores. O mesmo se passa em muitas outras partes do mundo: até no meio, no seio da própria União Europeia, da América do Norte ou do Japão, há periferias. Honestamente não quis entrar nas soluções, porque isso compete a nós. 122
A História não acabou
E eu pensava, Vito, se nós não poderíamos unir-nos, de novo, na luta contra o neocolonialismo, como outrora nos unimos na luta contra o colonialismo. As circunstâncias são outras, os perigos são outros, mas o Evangelho não deixa de germinar, nem o Espírito de soprar. 123
Ajudamos a escrever a de ontem: por que não a de hoje e a de amanhã?
Antigamente, quando falávamos de cultura banta, missionários havia que exclamavam: –Sagrada palavra cultura: o que estais a fazer dela? – como se cultura fosse só a greco-romana. Hoje, eu perguntaria: –Que estamos a fazer da palavra inculturação? E da Igreja ministerial? (duas vitórias que pareciam consolidadas...). 124
Afinal que Igreja queremos: inculturada ou assimilada?
Se é das próprias forças, dos próprios valores que temos de partir para uma alternativa, repito, não valeria a pena festejarmos o cinquentenário da chegada dos Capuchinhos de Trento a Moçambique, voltando a unir-nos, sem discriminações clericais e à revelia seja de quem for, para estudarmos e lutarmos com as armas que nos forem sugeridas pelo quinto Evangelho, pela bantofonia e pela cultura (naquilo que tem de essencial e não no que tem de transitório e caduco, como agora se pretende)? 125
A Revolução
não discriminou:
e a Hierarquia?
Tendo um mínimo de auto-estima por nós e pelo que é nosso e pela solidariedade que ultrapassa todas as verticalidades que o egoísmo tenha inventado, não te parece que venceremos o neocolonialismo como outrora vencemos o colonialismo? 126
Na base da esperança: fraternidade banta
Francisco de Assis não será um paradigma? E todos os erros nos métodos missionários não terão sido, exactamente, quando nos afastámos dele? 127
fraternidade cristã
E a chave da cultura banta não estará no aforismo ONRELA YEKA MUKWIRI, que, pelo menos no norte de Moçambique, é autêntico axioma? Enriquecer sozinho é a desagregação individualizada: nem sequer se pode dizer personificada, porque quem enriquece sozinho já não é pessoa – muthu: é demónio – mukwiri. Mas pode também encontrar-se essa mesma chave expressa numa formulação positiva: crescer conjunta e harmoniosamente – MUNUWIHANE. 128
Palavra capaz de transformar a realidade
 
Maputo, Arquivo Histórico de Moçambique, 14 de Fevereiro de 1997.
   





1

A independência deu-se em 6 de Julho de 1964.




    
 

 
    


Excursos



Excursos





Nota do Autor do sítio

Quando escrevi FUNDAMENTOS METAFÍSICOS DA ESTÉTICA, ainda não me tinha libertado da ideologia do papado, e nem sequer sonhava que existisse a FILOSOFIA BANTA. Esta surge-me, no meu mundo do pensamento e da prática, durante um retiro no Zóbue, já nos inícios da segunda metade do século XX.






31 de Maio de 1952
Beira - Moçambique





 
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Índice do EXCURSO



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Pedaços de crítica





PEDAÇOS DE CRÍTICA ACERCA DAS OUTRAS OBRAS DE
J Ú L I O  M E N E S E S   R O D R I G U E S  R I B E I R O

 
 

«ALGUNS ASPECTOS DA ESCOLA NOVA — Visão Inconsciente
e da Fecundidade de um Princípio».   (Ensaio de Pedagogia)

 
 
« E recomendável primeiramente pelas acertadas observações práticas que faz, e não menos recomendável também pela preocupação de fundamentar em sólidos princípios filosóficos as directrizes que aponta.
Interessará naturalmente mais aos leitores cultos e de tendências especulativas. As aplicações concretas, essas, são acessíveis a todos e dignas de sincero aplauso, tanto pelo sentido prático que revelam, bem fundado na experiência e na vida, como pelo critério genuinamente ortodoxo, que as inspira »..
 
P. Durão Alves, REVISTA PORTUGUESA DE FILOSOFIA;
4.° Trimestre de 1949
 
Propõe-se-nos « com insistência marcada, a necessidade de que o educador se esforce por conciliar, no seu trabalho, os clássicos princípios gerais da universalidade com um conhecimento profundo e valoramento sistemático dos factores concretos de individuação e personalidade ».
 
A. Martins, BROTÉRIA, Fevereiro de 1949
 
« Vê-se ser pessoa de profunda cultura filosófica e pedagógica ».
 
ÁTOMO, 20 de Outubro de 1948
 
É « escritor culto e estudioso ».
 
O COMÉRCIO DO PORTO, 4 de Dezembro de 1948
 
« Revela-se um verdadeiro pedagogo — sem falsas ideias ».
 
B. Raposo, ESTUDOS, Novembro de 1948
 
« Revela-se não só um pedagogo, mas um pensador profundo ».
 
P. B., ACÇÃO MÉDICA, 2.º Semestre de 1948
 
« Revela conhecimentos da especialidade, conceitos e críticas: utilíssimas ».
 
Emebê, ORDEM NOVA, 31 de Outubro de 1948
 
« Aprecia com muito critério a questão dos castigos» e « desce a outros pormenores que, parecendo de somenos importância, são contudo factores indispensáveis de uma boa educação ».
 
P. A. D., LUMEN, Junho de 1949
 
« O estilo é sóbrio, simples, fluente».
 
CORREIO DO MINHO, 9 de Outubro de 1948
 
« É um livro de valor e de grande utilidade ».
 
RADIO RENASCENÇA do Porto           
nas duas emissões de 8 de Janeiro de 1949
 
« Este estudo é dos mais valiosos ».
 
JORNAL DE NOTÍCIAS, 18 de Julho de 1949
 
« É uma obra sincera e bem intencionada ».
 
O PRIMEIRO DE JANEIRO, 4 de Abril de 1949
 
 

 
 

«RESSURREIÇÃO DE ALCOBAÇA:

 
 
« A nosso ver, o mérito de RESSURREIÇÃO DE ALCOBAÇA está em, de modo tão simples, sincero e sentido, nos fazer compreender — aos nossos espíritos grosseiros e apegados às aparências materiais — a necessidade imperiosa da vida contemplativa.
« O A. deu um carácter agradável e sugestivo à sua exposição, tornando atraente a um grande publico assunto tão elevado e espiritual.»
 
G., MENSAGEIRO DE S. BENTO, 2.º Semestre de 1948
 
« Não é apenas a fé profunda e emocionante, que move a pena de Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro, o autor da RESSURREIÇÃO DE ALCOBAÇA, mas, tanto como isso, um sopro de ardente e espiritual beleza, o que obrigou Dom Bueenaventura Ramos, Abade de Santo Isidro, a escrever: « Na sua prosa alada palpita o hálito da mais sublime poesia... e a poesia costuma acompanhar o génio.-»
«O problema de que se ocupa Rodrigues Ribeiro, com sinceridade impressionante e rara fidalguia de espirito, não é apenas um problema religioso que pode ou não suscitar simpatias e aplausos. É um problema que assenta raízes na História — que em muito contribuiu não apenas para a nossa glória, mas para a dilatação da Fé e do Império. Visto por este prisma, toma um alto significado. Não interessa somente aos crentes — mas a todos os portugueses. Rodrigues Ribeiro fez obra nacionalista.»
 
JORNAL DE NOTÍCIAS, 21 de Abril de 1949
 
« Com o entusiasmo e a força convincente que uma fé verdadeira sabe dar, o Autor defende, neste livro bem escrito e de leitura singularmente agradável, a volta dos monges de Cister ao mosteiro de Alcobaça.
« Quanto às rasões que o Autor apresenta para fortalecer o seu justíssimo e nobre anseio são lógicas e poderosas, mesmo no plano puramente natural do problema. Vê-se que o Autor viveu aquilo que escreveu, de tal modo ardentes e sinceras e sentidas são as suas palavras.
« Notável elemento de interesse é a descrição feita com bastante clareza e simplicidade, nas suas linhas gerais, do espírito, da vida e do Ideal da Ordem de S. Bernardo ».
 
B. Roposo, ESTUDOS, Novembro de 1948
 
É a « apologia do regresso à vida monástica. »
 
ÁTOMO, 20 de Outubro de 1948.
 
« É uma obra de exaltação religiosa e, ao mesmo tempo, um apelo profundo e convicto para que se restaure em Portugal a Ordem de Cister. »
 
O COMÉRCIO DO PORTO, 14 de Maio de 1948
 
« Todas as rasões que aduz são convincentes. »
 
Costa Lima, BROTÊRIA, Novembro de 1948
 
« Estamos todos de acordo com a sua doutrina.»
 
MENSAGEM, 24 de Maio de I948
 
« É uma cousa que faz pena, ver os nossos mosteiros restaurados materialmente, mas sem vida, sem os seus habitantes próprios. »
 
P. B., ACÇÃO MÉDICA, 2.º Semestre de 1948
 
« A restauração de monumentos que se está fazendo, felizmente, em Portugal não pode considerar-se definitiva e completa só com repor na sua traça primitiva aquilo que a lima do tempo roeu e destroçou. »
« Seria necessário restituir a certos monumentos restaurados, mosteiros ou abadias, a vida que neles outrora se viveu, para que voltassem a ser o que então eram: escola de trabalho, mansão de estudo e fonte de irradiação de cultura geral e de espirito cristão, numa actividade complexa, a que nem sempre se prestou justiça.»
 
P. D. A. LUMEN., Julho de 1948
 
« Num passo deste livro escreve-se : «...a restauração artística dos nossos mosteiros não basta. Impõe-se restituir-lhes a vida própria. » E a seguir: « E não podemos deixar de confessar o nosso veemente desejo e a nossa esperança de que a Ordem de Cister se restabeleça em Portugal nesta hora de restauração tradicionalista.»
« Nestas duas frases se condensa o objectivo do livro. »
 
O PRIMEIRO DE JANEIRO, 28 de Fevereiro de 1949
 
« É necessário restaurar Cister em Portugal: pedem-no a justiça e o patriotismo. Tal é a tese do recente livro de Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro, um novo cheio de fogo, que se apaixonou pelo ressurgimento de um autêntico valor nacional que o liberalismo maçónico destruiu: a ORDEM CISTERCIENSE.
« Cincoenta mosteiros, masculinos e femininos, escolas de sábios e viveiros de santos, com 250 escritores, teólogos, filósofos, poetas e músicos, eis a soma dos benéficos frutos da observância de S. Bernardo no nosso Pais. Incalculáveis são os serviços prestados pelo monaquismo em Portugal, como noutras nações, na colonização interna, na defesa da cultura e na fundação da nacionalidade.
« A vida nacional, durante séculos, medrou à sombra dos mosteiros.
« Até que um dia, um tufão iconoclasta reduziu a ruínas ainda hoje visíveis por essas provindas além, mosteiros e conventos. Algumas Ordens e Congregações já emergiram das cinzas, como a Fénix.
« Cister, porém, não pôde ainda levantar-se do túmulo em que a encerraram no nosso Pais, embora nas nações mais prósperas continui a prestar óptimos serviços à causa da Igreja e da Civilização.
« Eis porque Júlio Menezes, de parceria com alguns espíritos compreensivos, se voltou à nobre campanha de criar ambiente favorável à restauração da Ordem.
« Alcobaça, a grande Alcobaça, é um símbolo : representa a ressurreição do monaquismo de Cister, que oxalá seja em breve um facto.
« No presente volume, o Autor faz perpassar diante do leitor os motivos que militam em favor desse ressurgimento, que tantos préstimos podia ainda hoje trazer à tarefa do engrandecimento da Pátria. Através dos seus capítulos, fica-se também a par do espirito que caracteriza a vida interna e externa dos Mosteiros de Cister.
« Outrossim se demonstra que a usurpação dos bens eclesiásticos, levada a efeito numa hora de desvaira colectivo, em nada contribuiu para a felicidade dos povos e para a riqueza nacional.
« A RESSURREIÇÃO DE ALCOBAÇA representa um valioso contributo para a refutação de tantos erros que um século de liberalismo acumulou em Portugal. »
 
RÁDIO RENASCENÇA                   
nas duas emissões de 9 de Janeiro de 1949
 
 

 
 

«S. ROBERTO — Fundador de Cister — Às Crianças de Portugal

 
 
« Especialmente destinado «às crianças de Portugal» este opusculozinho onde, em pouco mais de 40 páginas se historia a fundação da Ordem de Cister. Na sua missão educativa dá ainda alguns pormenores sobre a instituição entre nós e esclarecimentos acerca da significação de algumas palavras menos compreensíveis aos pequeninos.
« É o relato da vida edificante de S. Roberto, o nobre fundador da Ordem que também floresceu em Portugal desde o alvorecer da Monarquia.
« Foi especialmente Alcobaça o solar dos cistercienses no nosso Pais, mas outros conventos tivemos e, em nota, vêm descriminados.
« Não só aos pequeninos este livro interessa: muitos grandes ai têm que aprender e para todos é leitura agradável e benéfica.»
 
Pimentel de Vabo, BAZAR DAS LETRAS DAS CIÊNCIAS E DAS ARTES
Suplemento literário de A VOZ, 17 de Março de 1945.          
 
« O livro destina-se às crianças de Portugal; necessitam deste livrinho para saberem as benemerências dos cistercienses, em particular, na nossa Pátria. Todos sabemos como esta Ordem, com a entrada de S. Bernardo, se propagou pela Europa. Em Portugal, bastava o nome de Alcobaça, que, por si só, fala de sobra do muito que lhe devemos: depois, a Abadia de S. João de Tarouca, a Abadia de S. Cristóvão de Lafões, o Mosteiro de S. Pedro das Águias, e Salzedas, Masseiradão, Lorvão, Arouca, Fiães, Bouro, Odivelas, e Celas. Hoje, a Ordem não tem uma só casa em Portugal. Não seria já tempo de a restabelecer nesta terra, que tanto ficou devendo aos cistercienses ?
 
J. R., BROTÉRIA, Dezembro de 1949
 
 
 
| Pedaços de Crítica |
 




"Viram os Magos"



Viram os Magos a Estrela e seguiram-na. E a Estrela levou-os a Cristo, e eles, prostrando-se, O adoraram. A quem adoram os Magos? Que estrela os guiou? Adoraram Aquele que une em Si, de um modo transcendente, a Beleza Incriada e a Beleza Criada. Cristo é a Síntese maravilhosa do Belo divina e do Belo humano. N'Ele e por Ele o Belo-Criador une a Si o Belo-Criatura, sobrenaturalizando-o, divinizando-o. Os Magos adoram o Belo—Cristo Senhor Nosso. O seu guia foi a Estrela do Belo.
E aquela Estrela, que afinal brilhou desde sempre, embora agora com um fulgor transcendente, aquela Estrela é o guia de toda a criatura. Todos dão glória ao Belo, embora nem todos conscientemente. A mais desprezível das pedras dá glória objectiva ao Belo — reproduz em si alguns dos Seus traços. E se isto se diz de uma pedra: o que se não dirá do Universo ? e do homem ?
O homem é todo ordenado para o Belo; a Estrela para ele brilha com um brilho particular. A sua sensibilidade é ordenada para o Belo das formas, a inteligência para o Belo da Verdade, a vontade para o Belo da Perfeição. Que haverá no homem que não seja um cântico de louvor à Beleza ?
No entanto, quantos não pretendem extinguir a Estrela Sublime? Todos os que não buscam a Perfeição, todos os que não buscam a Verdade, todos os que não buscam o Belo. Pretendem assassinar a tendência mais nobre do homem — a tendência para o Eterno Sublime.
A par destes estão os que, adorando o Belo, só querem adorar o Belo criado. Não sabem que Cristo ligou inseparavelmente a Beleza criada à Incriada. Estes mutilam o Belo: querem tirar-lhe o que nele há de Divino.
Mas, a todos esses, contrapõe-se a multidão inumerável dos verdadeiros adoradores do Belo — de Cristo Senhor Nosso. São os que seguem docilmente a Estrela sublime. São os santos que imolam a sua vida no culto da Perfeição. São os sábios que se imolam pela Verdade. São os artistas que se extasiam perante o Sublime e que criam novas belezas a acrescentar às belezas naturais. Estes são os verdadeiros magos, que viram a Estrela e a seguiram; viram a Cristo e Lhe apresentaram as suas ofertas: ouro — porque amam o Belo — , mirra — porque se imolam pelo Belo —, incenso — porque adoram o Belo.
 
FESTA LITÚRGICA DA
EPIFANIA DO SENHOR.
 
| "Viram os Magos" |
 




PONTO DE PARTIDA E VISÃO GERAL



Para o estudo sério desta ciência filosófica — a Estética racional — partimos de um facto empírico1, indiscutível e comum a todo o ser inteligente: ver e sentir a beleza. Todos nós, consoante as aptidões individuais, as disposições de momento e as notas e circunstâncias objectivas, vemos e sentimos, mais ou menos, a beleza. 1
Deste dado inicial partem dois caminhos para os investigadores, que assim poderão elaborar duas ciências distintas, embora com o mesmo objecto material2 — o belo: o primeiro caminho é o da dedução, da análise, que nos leva aos fundamentos remotos — à Estética especulativa; o segundo é o da indução3, da síntese4, que nos leva às causas próximas, às manifestações empíricas, às vivências — numa palavra à Estética experimental. A primeira ciência é filosófica, a segunda é positiva. À primeira dedicaram-se grandes filósofos5 através dos tempos. À segunda têm-se dedicado grandes investigadores6, sobretudo alemães, nos últimos cem anos. 2
Mas esta não deve tirar a vez àquela7. As ciências, as verdadeiras ciências, não se degladiam — pelo contrário elucidam-se mutuamente. A Estética racional atinge o que o belo tem de mais profundo sob o ponto de vista ontológico e psicológico. A Estética positiva estuda também dois pontos capitais — o objectivo e o subjectivo —, não filosófica, mas experimentalmente. Assim estuda: 3
1) Duplo aspecto objectivo: a) As causas próximas objectivas e comuns a todo o ser belo, isto é, as manifestações universais. É ciência positiva no sentido estrito: dos factos induz leis certas: atinge o cume — a síntese, b) As causas próximas objectivas, mas não comuns a todo o ser belo, isto é, as manifestações individuais. É ciência apenas no sentido lato: só formula leis prováveis, de valor estatístico: não atinge a síntese, fica no empírico. 4
2) As causas próximas subjectivas, as vivências, que em parte são comuns a todos e em parte variam com o Indivíduo e as circunstâncias. É o aspecto psicológico da Estética positiva, que caminha a par da Psicologia experimental. Também aqui temos a considerar uma parte científica no sentido estrito — porque trata de universais8 — e outra parte no sentido lato — porque só trata do colectivo ou de singulares9. (É o aspecto puramente empírico). 5
Estes problemas de ordem experimental não só nos dão um campo imenso de estudo, como são um contributo magnífico para a Estética filosófica. Mas é preciso não ficar no experimental — é preciso avançar para o filosófico e metafísico e (porque não?) para o Sobrenatural. Se, singularmente, é legítimo (e aconselhável) aos cientistas especializados em Estética positiva dedicarem-se apenas a ela, não é legítimo, universalmente, a Ciência desinteressar-se por qualquer ramo que seja e muito menos pela Estética filosófica. 6
Por isso o pensamento do século XX trairia a sua missão se os intelectuais também se não dedicassem ao estudo de parte tão importante da Filosofia. 7
Lógicos com este pensamento, iniciamos o estudo da Estética metafísica. 8
separador
No estudo da Estética filosófica, racional ou especulativa podemos encarar dois aspectos capitais (como ficou dito) — o ontológico, e encontrar-nos-emos na Metafísica, na Cosmologia e em parte da Psicologia Racional e o subjectivo10, e encontrar-nos-emos na Crítica em parte da Psicologia racional. 9
O nosso estudo incide sobre os fundamentos metafísicos do belo, mas é claro que estaremos a tocar, a cada passo, com problemas variadíssimos. Vamos tentar, não pêlos métodos experimentais, mas por dedução dos princípios eternos da Filosofia perene11, uma penetração séria através do que a Metafísica do belo tem de mais acessível até o que tem de mais íntimo. E, se tanto nos for permitido, ultrapassaremos as barreiras da razão natural e, à luz da Infalibilidade Pontifícia12, penetraremos no Belo sobrenatural.13 10
Se nem sempre nos mantemos, durante este estudo, no terceiro grau de abstracção, porque vamos encarar a objectividade estética integralmente14, o nosso fim principal, todavia, é atingi-lo para de lá contemplar o infinito. Depois só restará penetrar na Trindade sublime. 11
O caminho da onticidade é árduo: não se escala a mais elevada montanha sem grande esforço e sacrifício. E assim como se não chega ao cume sem galgar a encosta, assim não podemos penetrar no esse sem passar pelo agere15. O estudo do aspecto dinâmico do belo vai ser o nosso primeiro trabalho. E deste modo teremos a certeza de não errar, porque o agere é a manifestação do esse16. 12
Dinamismo metafísico do belo. O belo difunde-se. Todo o ser é belo. Mas nem todo o ser é do mesmo modo belo: há aspectos variadíssimos de beleza. Há beleza natural e sobrenatural. Dentro da natural há, segundo um critério, a quimérica e a real, e, segundo outro, a predicamental e a metafísica. E dentro da predicamental há a técnica, artística, científica, matemática, filosófico-natural, espiritual e moral. 13
Mas não são só espécies de beleza que temos a considerar: temos de considerar ainda graus de beleza. Graus positivos — o venusto, o belo, o sublime. E haverá ainda graus negativos? 14
O belo dinâmico difunde-se... mas se se difunde através de toda a onticidade é porque há uma ingente causalidade metafísica. E eis-nos no estudo do dinamismo causal do belo. Causas extrínsecas — eficiente, final, exemplar. Causas intrínsecas — formal, material. É sempre o mesmo critério: do menos íntimo para o mais íntimo. 15
E sempre nesta penetração lenta, metódica, séria, uma vez chegados à causalidade intrínseca, avançamos para a consideração estática do belo. O belo perante os atributos transcendentais — unum, verum, bonum. 16
Mas atingimos o mais íntimo da essência da beleza, atingimos o ser no mais íntimo da sua transcendentalidade. Conhecemos, além disso, a posição do belo perante os outros atributos ônticos. Estamos, portanto, vitoriosa e conscientemente, no mais alto cume da Metafísica. A lógica e o entusiasmo levam-nos necessariamente para a contemplação. Estamos no centro da Metafísica, donde tudo parte, estamos no mais elevado da Metafísica, donde tudo se vê, e estamos no mais profundo17 da Metafísica, onde tudo se compreende. É o ponto mais propício para a contemplação filosófica. Feliz do que atingiu tal observatório! Dele se contemplarão todos os seres segundo a hierarquia estética. A beleza sobrenatural fulge mais, infinitamente mais, do que a natural. A beleza real mais do que a quimérica. A metafísica mais do que a predicamental. E nos predicamentos também há uma hierarquia estética; em ordem decrescente, teremos: beleza moral, espiritual, filosófico-natural, matemática, científica propriamente dita, artística, técnica, científica impropriamente dita18. 17
O panorama é infinito e infinitamente belo. Miserável da nossa inteligência que não o pode abarcar senão por aspectos mais ou menos limitados. Mas deste observatório não se pode contemplar nenhum aspecto da paisagem, por mais limitado que seja, que não sejam os conduzidos, imediatamente, ao Infinito. Todos os componentes da paisagem são vias directas do Infinito. E o Infinito esmaga-nos a inteligência. E a luz cega-nos. Conscientes da nossa pequenez, temos de moderar mais e mais as aspirações de conhecer a beleza integral. O abrir dos olhos, a contemplação estética, agora mais do que nunca, tem de ser com a máxima lentidão sob pena de cegueira fatal. 18
E, dada a limitação das nossas faculdades, para onde concentrar, acima de tudo, as suas forças? Certamente que o metafísico, depois de conseguir contemplar toda a escada hierárquica da beleza, se concentra­rá na beleza transcendental abstracta para, depois, atingir a concreta e, se possível, a sobrenatural. Daqui, mais do que do cume metafísico, se contemplará toda a transcendentalidade — pela Fé (de um modo confuso), pela Glória (de um modo distinto)19. 19
Eis a longa ascenção, a perspicaz «venatio», a que nos propomos e que se nos impõe se queremos gozar das delícias de tal Éden. O metafísico, mais do que qualquer cientista ou artista, é um asceta. E quantas vezes as suas austeridades atraem o carinho da Virgem e os favores da Trindade! Quantas vezes esse asceta chega a místico! O metafísico, crente e austero, tendo atingido o esse (estático), já para além do agere (dinâmico), isto é, tendo atingido o ponto de repouso20 para melhor se dar à contemplação estética, é arrebatado em êxtase, já nãoapenas meta­físico e, poético, mas sobrenatural. 20
É a recompensa da ascese estética. Mas se não seremos, nem devemos querer ser, arrebatados a esse êxtase nesta vida, temos a certeza — aquela certeza infalível que o Dogma nos dá — de que seremos arrebatados em êxtase eterno, quando, purificados de toda a mácula, atingirmos o máximo possível da nossa perfeição e beleza. 21





1

«Nihil est in intellectu quin prius fuerit in sensu».

2

O objecto formal da Estética filosófica são os fundamentos últimos do belo. O objecto formal da Estética experimental são os fundamentos próximos e as manifestações empíricas. Uma e outra nos levam à essência do belo, mas por caminhos diversos—uma pelo dedutivo, outra pelo indutivo.

3

O facto de numa ciência o principal método ser o dedutivo e noutra o indutivo, não significa que sejam métodos exclusivos. Na mesma ciência aplicam-se os dois, que mutuamente se auxiliam.

4

Há quem chame método analítico ao que parte dos singulares para a universal, e sintético ao oposto. Parece-nos, porém, mais correcto chamar analítico ao que parte do universal para o particular, e sintético ao que vai deste para aquele, porque pelo fim, pelo objectivo, é que se devem definir as ciências.

5

Alguns nomes:
I) Padres gregos: S. Basilio Magno, Bispo, Confessor e Doutor (331-379), S. Gregório Nazianzeno, Bispo, Confessor e Doutor (330-390), S. Máximo, con­fessor (580-662).
II) Platão (428/7 a. C.-347/6 a. C.), Plotino (205-270), S. Agostinho (354-430), S. Boaventura (1221-1275), Escola Franciscana e Axiologia alemã (católica não neo-escolástica).
III) Aristóteles ( 384 a. C.- 322 a. C.), S. Alberto Magno ( * - 1280), S. Tomás de Aquino (1225-1274), Banez, O. P. (1528-1604), e os neo-escolásticos: Taparelli, S. J. (* -1862), Mercier (1851-1926>, Maurício De Wulf, Jacques Maritain, Henri­que Krug, Boier, S. J.
IV) Kant (1724-1804): 1) Fichte (1762-1814),Schelling (1775-1854), Hegel (1770--1831), Benedetto Croce (1866), Giovanni Gentile (1875-1944). 2) Schopenhauer (1788-1860), 3) Axiologia alemã.
V) Victor Cousin (1792-1867;, Augusto Comte (1822-1905), Nicolao Tommaseo.

6

Vid. bibliografia in E. Meumann, INTRODUCCIÓN A LA ESTÉTICA ACTUAL, Buenos Aires, Espasa-Calpe, S. A., 1946, 165 págs- (Coleccion Austral).

7

«Se para além de este campo, que pode ser melhor ou pior desbravado, conforme o desbravador, há quem suponha poder encontrar, metafisicamente, em neblina de pseudo-transcendência, a chave de algum mistério de fantasia, talvez eu não saiba acompanhá-lo; mas também nunca o desejaria, convicto, até prova em contrário (que logicamente já deveria ter-se feito, se fosse possível fazê-la), de que tal caminho é errado, fútil, repetição insulsa de velho erro». (Vieira de Almeida, FILOSOFIA DA ARTE, Coimbra, Arménio Amado, 1942, pág. 16 e 17). Só uma lamentável ignorância do Tomismo pode ditar estas palavras. A demonstração do sistema está feita e tem sido ensinada através dos tempos. Neste trabalho não a fazemos, porque não é esse o nosso objectivo. Esboçamos os fundamentos metafísicos da Estética, aplicando-lhe o pensamento tomista. Partimos do princípio que o Tomismo está demonstrado (e está: quem o duvidar estude pêlos bons compêndios, por exemplo pêlos editados pela Universidade Gregoriana; e o que pretendemos é evidenciar como a doutrina que vamos expor não é mais do que o Tomismo aplicado á Filosofia do Belo. Esta não tira a vez à Estética experimental, mas, infelizmente, há homens de responsabilidade que negam a legiti­midade daquelas ciências que desconhecem, por não serem da sua especialidade ou, muitas vezes, por unilateralismo e até por sectarismo.
António Horta Osório, i n PSYCHOLOGIE DE L'ART (Peinture, Sculpture, Architecture, Arts Decoratif), Lisbonne, 1946, in 8.°, 608 págs. 201 figs., mostra, também, a págs. XIX, ignorar o sentido tomista de metafísico. O leitor, com a» distinções claras que vamos estudando nestas notas, não terá dificuldade em delimitar os campos das diversas ciências e dos diversos métodos. O mal ape­nas tem vindo ou de uma viciosa utilização desses métodos ou de se aplicarem em seara alheia.

8

Mas, tanto aqui como já atrás, não afirmamos que já se tenham alcançado leis certas: afirmamos a possibilidade, e por isso já lhe chamamos ciência propriamente dita.

9

Nas ciências propriamente ditas dá-se o primeiro grau de abstracção, excepto lia Matemática, em que se dá o segundo, e na Metafísica, em que se dá o terceiro. Nas ciências impropriamente ditas só se lida com o concreto — não se atinge nenhum dos graus de abstracção formal.

10

Subjectivo significa relativo ao sujeito e não, necessariamente, mutável com o sujeito.

11

Filosofia aristotélico-tomista.

12

Não é uma atitude humilhante, incompatível com o cientista ou filósofo, ajoelhar aos pés da Cadeira de Pedro. Pelo contrário, é sublimar o conhecimento natural, é penetrar num Santuário da Verdade fechado ao intelectual descrente. Aquele pode avançar no conhecimento natural e sobrenatural, este só pode avançar no natural (e mesmo aqui com risco de se perder,).

13

Esta obra não, é de erudição: não se busquem aqui textos, citações nem enciclopedismo. É obra de cultura. Não é também de pura Filosofia: nela encontrará o leitor linguagem, por vezes, poética (chamemos-lhe assim) e alusões frequentes à Teologia. Se fosse obra estritamente filosófica, abstrair-nos-íamos de tudo isso: mas, porque é obra de pensamento, expandi­mo-lo integralmente.

14

«Integralmente» dentro do campo definido no começo. O problema subjectivo ou o empírico estão postos de parte por não pertencerem a este ramo que nos propomos estudar.

15

Pelo agere conheceremos o esse, pêlos frutos a árvore, pelas acções as pessoas.

16

«Operari sequitur esse».

17

Em pensamento, o mais elevado, o mais profundo e o centro confundem-se: tudo são imagens para esclarecer a mesma realidade.

18

Já na consideração dinâmica se focaram as várias espécies de beleza, mas de um modo diverso. Ali avançava-se do menos íntimo para o mais íntimo, isto é, realizava-se a penetração no âmago na essência estética. Aqui ultrapassou-se a parte dinâmica e considera-se estaticamente o belo, já na sua mais íntima onticidade. Passou-se do operori estético ao esse estético. A contemplação é feita ao contrário e já do centro. É a rectificação, confirmação e sublimação do que se viu.

19

A inteligência humana consegue sintetizar todo o seu pensamento num só principio metafísico; mas toda a síntese humana é confusa: para tornar clara terá de analizá-la, mas» logo que se realize o trabalho de sintetizar toda essa análise num só verbo, esse verbo humano tornar-se-á novamente confuso. A síntese é por si universal, e por isso o nosso conhecimento não a abarca senão por aspectos ou distinções, O Verbo divino, porém, é uma Síntese distinta — inteiramente distinta para as três Pessoas, parcialmente distinta para os anjos e homens, sobrenaturalizados na Glória.

20

Não sabe a orientalismo o que afirmo. A transcendentalidade dinâmica leva-nos à estática, e esta é que é o centro de toda a Metafísica. Em transcendentalidade estática, porém, há a considerar a abstracta (abstraída dos seres) e a concreta (o próprio Ser). Ora neste Transcendental estático concreto sintetizam-se, numa Essência infinitamente simples, a Imutabilidade com o Dinamismo e a Vida. É o Mistério do Acto puro. Quando chegamos ao Estático, ao Imutável, encontramos Vida infinitamente mais exuberante do que a vida das criaturas mais perfeitas. A doutrina que exponho não nos conduz à inércia oriental nem aos frenesi» do Novo Continente, mas à actividade ordenada e integral do nosso ser — no que consiste a nossa felicidade terrena e o que nos conduz à eterna.




 
| Ponto de Partida e Visão Geral |
 




I - CONSIDERAÇÃO DINÂMICA


   
   

 
   
   

A — DIFUSÃO

 
   
   

 
   
   
l — ASPECTOS  
   
Em todos os sectores do ser e da vida topamos, a cada passo, com a beleza. O nefelibata deleita-se no remoer das suas quimeras cheias de poesia; o técnico, ao menos quando integralmente formado, intui beleza através das máquinas e dos artefactos; o artista em tudo encontra motivo de inspiração; o cientista não tem, muitas vezes, perante as energias da Natureza e da Cultura, menor emoção estética do que o artista; o matemático deleita-se nas suas abstrações espaciais de beleza etérea; os puros espíritos certamente que sé extasiam a contemplar a simplicidade das suas substâncias; todos nós (e eles também) admiramos a beleza das boas acções e dos actos heróicos; o filósofo — qual ser do mundo platónico — vê, radiantes de beleza, as ideias e concepções que vai topando no caminho; os místicos contemplam uma beleza estranha que «nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem» (S. Paulo, 1." Epist. aos Coríntios, II, 9). 22
Perante este facto indiscutível — a beleza tão larga e profundamente difundida — cumpre-nos descobrir os vários agrupamentos últimos e específicos da beleza. Mas o Universo — a própria palavra o diz — é uno, embora não unívoco. Por isso, ainda que haja distinções específicas, não há lugar para separação: quer dizer, as divisões estéticas relacionam-se todas intimamente e é-nos sumamente difícil marcar os limites (sobretudo nos casos concretos). No entanto, do mesmo modo como tudo é ordenado no Universo, também a beleza não se difundiu1 caoticamente: há diferenças essenciais no belo como as há nos seres, porque (Veremos depois) ente e beleza confundem-se em último análise, 23
A esquematização lógica que vou apresentar não é produto da fantasia, mas baseia-se com objectividade. Ser lógico não é querer convencer-se e convencer os outros de que as cousas se adaptam às exigências do nosso pensamento. Ser lógico é adequar o pensamento às cousas, é exprimir o ontológico. O esquema será lógico se for uma tradução fiel do ontológico, e tanto mais lógico será quanto mais fiel. Dispensámo-nos de provas, porque o nosso trabalho não é mais do que a aplicação à beleza do que o Tomismo nos ensina do ente; e o Tomisto está provado em inumeráveis obras. 24
Dentro deste critério começarei por distinguir dois aspectos de beleza: Primeiro, aquela beleza que existe ou pode existir nas criaturas e que as criaturas actuais e possíveis podem, pelas luzes da natureza (e não por Graça) conhecer e imaginar. É a beleza natural. Abrange todos os seres e até o Ser na medida em que pode ser conhecido naturalmente por aquelas. Segundo, a beleza sobrenatural que é a que ultrapassa as possibilidades naturais ou preternaturais de todas as ordens criadas. Se a existência da unidade da Substância divina pode ser atingida pelas luzes naturais da criatura, a existência e a vida da Trindade só por Graça lhes é dado conhecer e gozar2. 25
Dentro da beleza natural3 temos de considerar a quimérica e a real. Quimérica é a que só existe e só pode existir nas faculdades cognoscitivas4 das criaturas. Real é toda a beleza que tem actualidade ou é possível. 26
Mas se olharmos a beleza natural5 não tanto pelo modo de exis­tência, mas sobretudo pelo modo como a conhecemos, então teremos a beleza predicamental e a metafísica ou transcendental. A beleza predicamental abrange, de um modo distinto, todos os seres criados, e é atingida quer só concretamente, quer pelo primeiro grau de abstracção formal, quer pelo segundo, quer por abstracção total, quer por analogia. Subdivide-se em vários grupos a que chamo predicamentos estéticos e que arrumam, portanto, todos os seres criados actuais e possíveis. Assim teremos: beleza técnica, artística, científica, matemática, filosófico-natural, espiritual e moral. 27
A beleza técnica é, talvez, a mais ignorada e menos apreciada. Ela merece, todavia, a nossa atenção, o nosso estudo e o nosso amor. Assim se aliviará e espiritualizará a penosa vida dos operários e servos, levar-se-ão os patrões a apreciá-los melhor e os técnicos a não parar um momento na marcha das descobertas. 28
Beleza artística é toda aquela que nós criamos6. 29
Se o fim primário — explícito ou tácito — é a própria beleza, temos arte propriamente dita. Se tal não é o fim primário, temos a arte impropriamente dita. 30
Na primeira divisão temos as Belas Artes. Tem sido o aspecto estético mais estudado7, embora ainda não haja um trabalho satisfatório de coordenação. Poderemos subdividir as Belas Artes em plásticas, fonéticas ou rítmicas e mistas. As plásticas do mundo das três dimensões espaciais são a Arquitectura e a Escultura; e as do mundo das duas dimensões (em que se substitui a terceira pelo perspectiva) são o Desenho e a Pintura. As fonéticas ou rítmicas são a Música, o Canto, a Eloquência, a Poesia e a Prosa. As mistas são a Dança e o Teatro8. 31
Na segunda divisão temos toda a actividade (não estritamente artística) de todos os seres9, que cria, de facto, beleza, embora não com esse objectivo10. Efectivamente, em todo o movimento nós podemos apreender certos aspectos artísticos. Quanta beleza criada por nós e pêlos outros seres e que nos passa desapercebida! E quanta beleza que nós poderíamos criar com as nossas atitudes e não criamos pôr indiferença, desleixo ou, talvez, maldade! A Etiqueta,11 por exemplo, se fosse uma exteriorização do íntimo e se fosse integralmente observada, que beleza e felicidade não daria às relações sociais! Neste sentido, todos devemos ser artistas — para criar beleza com as nossas mais insignificantes acções e para contemplar a beleza de tudo que nos rodeia. A elegância daquele cumprimento, a graciosidade daquele sorriso, o perfil daquele cachorro, a disposição daquela flor, a suspensão daquela estalactite ou daquele penedo — todo o movimento substancial ou acidental (qualitativo, quantitativo ou local), todo o movimento12 racional, sensitivo, vivente, cristalográfico ou amorfo, tudo merece a nossa atenção de artista. 32
A beleza científica tem um duplo sentido — pode ser beleza científica no sentido estrito e no sentido lato, consoante se trata de universais ou de singulares e colectivos. À primeira pertencem as Ciências que procuram descobrir as leis certas13 que regem os anorgânicos14 e os orgânicos15. É a beleza do primeiro grau de abstracção16. À segunda pertencem as Ciências que procuram descobrir as leis prováveis por meio de descrições e estatísticas. Não atingem os universais, não atingem sequer o primeiro grau de abstracção formal — ficam no concreto, versam sobre as notas individuantes17 e os factos contingentes18, são as Ciências empíricas. 33
Beleza matemática é a daquele acidente ou, melhor, propriedade que se segue imediatamente à substância — a quantidade — e a daquela Ciência que a estuda por tantos e tantos aspectos — a Matemática. Se se considera a quantidade contínua, temos a beleza espacial ou geométrica. Se se considera a quantidade discreta, temos a beleza numérica ou aritmética. E se representam as quantidades por letras temos a beleza algébrica. E se se fazem vaguear as letras e os números através dos espaços, temos a beleza trigonométrica, Beleza matemática é a do segundo grau de abstracção formal. 34
Beleza filosófico-natural é a das essências das substâncias anorgânicas (Cosmologia) e orgânicas (Psicologia Racional). Nestas últimas há ainda três graus: beleza vegetal, animal e racional; e talvez ainda espiritual, se quisermos incluir aqui as formas separadas completas. A Filosofia Natural, de facto, não se confunde com as Ciências experimentais, pois estas estudam as propriedades da substância, e a Filosofia estuda a própria substância na sua essência. 35
Beleza espiritual é a das substâncias simples — Deus, Anjos e almas humanas — e a das Ciências respectivas: Teodiceia e Psicologia Racional, Como, porém, Deus ultrapassa toda a predicamentação19 e o seu estudo pertence, portanto, à Teodiceia (parte central e fundamental da Metafísica) e como a alma humana unida ao corpo não deve ser estudada em separado e, portanto, pertence à Psicologia Racional, na beleza espiritual apenas incluímos os puros espíritos finitos e o aspecto subsistente da alma humana20. Quantos, aferrados à matéria, que esquecem a beleza do espírito! Esses não são verdadeiros estetas. 36
Finalmente, como último e, sem dúvida, mais importante predicamento estético, temos a beleza moral, a beleza da Ética e de todas as acções que a ela se conformam. A beleza da ordem moral é. a que mais se aproxima da própria beleza metafísica21. A lei natural brota do mais íntimo da onticidade. E eis-nos nos confins da beleza predicamental, no ponto ou, melhor, na ponte de passagem para a beleza metafísica. 37
Na beleza natural considerámos, por um prisma, o belo quimérico e o real, e, por outro, os predicamentos estéticos e o belo metafísico (onde acabamos de chegar). Aqui temos de considerar: primeiro, o belo metafísico dinâmico (causalidade) e o estático (atributos transcendentalidade) — é a Metafísica propriamente dita, é o estudo da transcendentais abstracta; segundo, o Belo transcendental concreto, o Acto paro de beleza — é a Teodiceia, fundamento, cume e centro da Metafísica. Eis-nos no campo com o menor número possível de limites, eis-nos no centro de todo o ente e donde parte o maior número possível de caminhos em direcção ao Infinito. Parece mesmo que aqui já tudo é infinito; e assim é dentro do natural, e assim seria se o natural não limitasse esse campo já infinito, de facto, em tantas e tantas direcções. 38
Para cima, porém, do natural, para lá da Filosofia, está o Sobrenatural, que só a Teologia estuda sob a direcção infalível (em tal matéria) do Santo Padre e dos Bispos em comunhão com Ele. Aqui é que não há limitações, aqui é que, de facto, tudo é infinito. Mas tudo é infinito para o próprio Sobrenatural, para a Trindade Indivisível; não, porém, para os anjos e para nós, que só limitadamente (e tão limitadamente quão limitados somos) participamos da Vida da Graça22. Belo sobrenatural é o belo de tudo que existe, vive ou age, sob o influxo da Graça, é sobretudo a Caridade Infinita do Espírito, a Omnisciência do Verbo, a Fonte Eterna de todo o Incriado e criado, de todo o Infinito e finito — o Pai. 39
   
   

 
   
   
2 - GRAUS  
   
Há diferenças qualitativas, essenciais e específicas na beleza — e já as considerámos nos seus agrupamentos básicos; e há também diferenças acidentais (subjectivamente qualitativas, e objectiva e subjecti­vamente quantitativas) dentro de cada urna das espécies estéticas — e passamos a considerá-las. Há, de facto, graus estéticos em cada espécie — e esses graus diferem quantitativamente e, sob o aspecto subjectivo, também qualitativamente. É vulgar o facto de considerar e dizer que uma cousa é mais ou menos bela do que outra. E, se uma cousa bela tem a qualidade de nos agradar, também é verdade que o sublime — o verdadeiramente sublime — tem a qualidade de nos deixar em grande abatimento psicológico (ao menos no primeiro ímpeto). 40
São em número indefinido os graus de cada espécie estética. Seria estudo interessante estabelecer essa escala calimétrica e aferir por ela todos os seres belos. Não é o impossível, pois, por mais imaterial que a beleza seja, tem sempre o seu condicionalismo material ou potencial ou algum limite, excepto na manifestação absoluta do Infinito. Isto seria viável estabelecendo escalas adequadas a cada espécie de beleza. E, se de facto a beleza tem objectividade, como se prova em Critica Estética, este estudo tem razão de ser, deve fazer-se23. 41
Ora, se essas escalas são indefinidas, há, porém, nas da ordem acidental, três zonas convencionadas (ao menos em parte) para melhor compreensão e comunicação do pensamento. Pelo contrário, nas das ordens universal e incriada, só encontramos a última dessas zonas. São elas a zona do venusto, do belo propriamente dito e do sublime. A primeira tem por limites o zero e a zona do belo. A segunda, a zona do venusto e do sublime. E a terceira, a zona do belo e o indefinido, o Infinito24. 42
Uma cousa é venusto, quando as condições materiais (aqui acidentais) de beleza apenas permitem uma pequena manifestação do esplendor estético; é bela quando essas condições permitem uma grande manifestação de esplendor; e é sublime quando essas mesmas condições (ou a sua ausência) permitem uma manifestação indefinida, universal ou infinita (quase sempre secundum quid, isto é, infinita não sob todos os aspectos) de esplendor. 43
O sublime, porque é a zona mais excelsa na ordem acidental e porque é mesmo exclusiva nas ordens universal e incriada, merece algumas considerações mais, embora não deva alargar-me para não prejudicar a visão de conjunto que pretendo dar nesta obra. 44
Sublime, para aproveitar ou completar e esclarecer a expressão kantiana, é a «expressão sensível» ou inteligível «do infinito». Para Kant o dia é belo e a noite sublime; o engenho belo e a inteligência sublime. Assim vemos que, se o sublime na noite é uma expressão sensível do infinito, na inteligência é uma expressão inteligível. O sensível é sempre inteligível em última análise; mas o inteligível pode não ser sensível. O modo como se atinge inicialmente o inteligível é que é sempre pelo sensível25 — própria ou analògicamente. 45
Outro aspecto da questão: Além de sensível e inteligível, o sublime pode ser uma expressão do indefinido, do universal ou do Infinito. É manifestação do indefinido quando se trata da ordem acidental. É manifestação do universal quando se trata das ordens condicionalmente necessária (propriedades) ou absolutamente necessária (essências, preceitos fundamentais éticos e verdades matemáticas). É manifestação do infinito quando se trata do incriado.26 Aqui ainda se pode estabelecer uma escala, já não com o mesmo valor quantitativo como na ordem existencial (acidentes e próprios), mas com um valor analógico ainda mais longínquo do que aquele que já se verifica na ordem essencial. Não obstante, mesmo aqui encontramos uma verdadeira escala do sublime, porque Deus manifesta-Se, dá-Se sempre dum modo mais ou menos limitado. Só quando Se manifesta a Si próprio no Mistério da Trindade encontramos o infinito simpliciter. Aqui já não há apenas infinito em algumas direcções: aqui, de facto, tudo é infinito. Esta manifestação absoluta do incriado fica fora de toda a escala. 46
Deste modo se vê que não é só a consideração das diversas espécies de beleza que nos conduz através do menos íntimo até o mais íntimo da Metafísica e até da Teologia: também a consideração dos graus de beleza nos conduz, através dos graus inferiores do venusto e do belo, até o sublime, sensível e espiritual, do indefinido, do universal e, finalmente, do incriado, que pode ser contemplado pelas luzes naturais e, se tal nos for dado, pelas sobrenaturais. 47
Entre estes graus — os graus de cada uma destas escalas específicas — há a considerar uma diferenciação objectiva e outra subjectiva. Objectivamente encontramos apenas uma diferença quantitativa — na ordem existencial (acidental), no sentido próprio do termo, nas ordens universal e incriada, de um modo cada vez menos unívoco emais analógico. A simples consideração da escala calimétrica, independentemente do sujeito contemplador, mostra-nos claramente isso. Se considerarmos, porém, a reacção que os graus estéticos provocam no sujeito, encontramos não apenas diferenças quantitativas, mas ainda qualitativas. É o que sucederá ao menos com os graus inferiores (mas ainda compatíveis) do venusto e superiores (também ainda compatíveis) do sublime. pois a falta de proporção não provoca no sujeito apenas conhecimento e emoções maiores ou menores, mas ainda de diversa espécie (como, por exemplo, a indiferença, tratando-se do venusto, e, tratando-se do sublime, o choque com o infinito, o abatimento e o arrebatamento, etc.). 48
Ora, exactamente, essa desproporção leva-nos a concluir que, a partir de certo ponto variável com o sujeito e as circunstâncias, os graus inferiores do venusto e superiores do sublime são incompatíveis com as nossas faculdades estéticas. Os primeiros por defeito, porque não atin­gem as condições mínimas para se dar o conhecimento humano. E os segundos por excesso, porque excedem as possibilidades do nosso conhecimento. 49
Visto agora o problema pelo lado oposto — da compatibilidade — diremos: Primeiro, que o venusto (a partir de certo grau variável com o sujeito e as circunstâncias) tem as condições mais ou menos indispensáveis ou mínimas de compatibilidade — não atinge a plena proporção, mas nele já há certa possibilidade de contemplação estética27. Segundo, que o belo tem as condições máximas (numa enorme amplitude de graus) de compatibilidade — atinge a plena proporção, nele há a máxima possibilidade de contemplação estética. Terceiro, que o sublime ultrapassa as condições de plena compatibilidade — nele há desproporção, mas, até certo grau, ainda há compatibilidade, e, portanto, é possível a contemplação estética. 50
Mas isto é já invadir o campo da Psicologia racional, embora sob o aspecto estético. Justifica-me, no entanto, a conveniência de escla­recer este assunto objectivo com noções subjectivas28. 51
Assim terminamos a consideração da beleza espalhada no Universo, com as suas diferenças específicas e quantitativas, que dão nova beleza ao conjunto das cousas belas. 52
Resta o problema de saber se a escala calimétrica se prolonga negativamente, isto é, se haverá beleza negativa — o feio. Só com o estudo que mais adiante se faz à essência do belo é que o problema se aclarará. Diremos, todavia, o nosso pensamento já aqui, por ser o lugar próprio. 53
Quanto à beleza ôntica, transcendental, metafísica, e mesmo quanto à beleza concreta, predicamental, física (no que tem de substancial, essencial, absoluto, necessário) — parece não haver dificuldade em se admitir que não possa, jamais, ser negativa ou nula. Todo o ser é verdadeiro ontològicamente, corresponde ao Pensamento divino, e o Pensamento divino é, por necessidade absoluta, belo. Beleza confunde-se com o próprio ser. A beleza é transcendental, isto é, todo o ser enquanto ser, todo o ser como ser, é sempre belo e tanto mais belo quanto maior entidade tiver. Mas o ser tomado não na sua transcendentalidade abstracta, mas predicamental, fisicamente, no seu modo específico de existir, também é verdadeiro ônticamente, também corresponde à Mente criadora. Substâncias feias, essências feias, seres atingidos de fealdade não num ou noutro acidente (por qualquer motivo contingente), mas na sua própria substância, na sua própria essência, no mais íntimo da sua onticidade, seria a destruição das próprias substâncias, das próprias essências, do próprio ser: seria o mesmo que admitir Divindade feia e, portanto, a destruição da própria Divindade. Feio metafísico e feio físico es­sencial é o impossível absoluto, é um absurdo essencial29. 54
Nas escalas calimétricas dos acidentes predicamentais30, o problema muda de figura. Infalivelmente que Deus, a criar, criava cousas belas. Mas nada nos repugna que, por qualquer facto contingente, os seres apareçam acidentalmente feios ou com uma beleza acidental não perfeitamente correspondente à beleza essencial — numa palavra, sem a devida beleza acidental. É o resultado dos seres serem limitados necessariamente (porque ilimitado só Deus). De facto, a harmonia essencial, se transparece necessariamente (necessidade condicionada) nas propriedades (quantidade e qualidades), não transparece, com essa necessidade, nas notas individuantes e nos factos contingentes. É da própria essência31 do acidental ser contingente e não necessário, e é da própria essência dos seres limitados só poderem existir e operar contingentemente e, portanto, por meio de acidentes. Nada repugna a existência de graus negativos de beleza acidental, A inteligência diz-nos que são possíveis e a experiência talvez nos diga que existem de facto32. 55
É o que acontece quando não há verdade predicamental33, já que transcendentalmente há sempre verdade. De facto, quando não há harmonia entre o livre arbítrio e a lei moral, isto é, quando não há verdade moral no mais amplo sentido, não pode haver beleza moral. O sujeito que pecou, substancialmente mantém a mesma beleza, os seus actos, mesmo pecaminosos, enquanto actos, isto é, no que têm de ôntico, são dotados de beleza metafísica, e só assim se compreende o concurso natural de Deus34; mas o aspecto moral do sujeito e do acto pecaminoso" é que é negativamente belo35. Quando não há adequação do pensamento à realidade (falta de Verdade lógica), também não há beleza sob o aspecto intelectual ou cientifico no seu mais amplo significado36. Quando não há harmonia, por pequena que seja, entre um acidente e a sua substância (falta de verdade ôntica acidental, como, por exemplo, cegueira total e não apenas deficiência de vista), também não há, nesse ponto, beleza acidental. Quando um artefacto não corresponde ao pensamento do concebidor (falta de verdade ôntica dos artefactos) também não há beleza artística ou técnica, senão per accidens37. Finalmente, não haverá beleza nas concepções e fantasias se aquelas não forem realizáveis e se estas não tiverem um mínimo de harmonia — o que afinal são mais dois aspectos da verdade lógica latamente considerada. Por aqui se vê que o pecado, o erro e a doença são, sem dúvida, os acidentes que mais desfeiam o homem. 56
Em resumo e esclarecendo: Feio absoluto é absurdo. Feio relativo pode existir e existe, de facto, sempre que os acidentes não possuem um mínimo de harmonia com a substância que permita o esplendor manifestar-se. Quer dizer: perante o absoluto, o feio acidental (e se é acidental é relativo) é simples limitação; perante o que é devido a cada natureza é que pertence à escala negativa de beleza. Esta relatividade refere-se ao objecto e não às faculdades do sujeito. Não se trata dos graus que estas não alcançam. Trata-se dos graus que ficam abaixo do que é devido a cada natureza. Onticamente é limitação, mas relativamente a essa natureza é negatividade. 57
O acidente, portanto, que não deixa transparecer nada de beleza essencial é feio, isto é, fica abaixo de zero; porque o zero, o nulo ou neutro não se conceberia: o acidente ou deixa transparecer o esplendor e é de beleza positiva (e de grau tão mais elevado quão mais deixar transparecer esse esplendor) ou não deixa transparecer e é de beleza negativa (e tão mais negativa quão mais se afastar desse mínimo de harmonia com a forma substancial que a permita manifestar-se na forma acidental). O neutro não se concebe: o acidente ou é belo ou feio : dentro de cada uma destas partes da escala é que a gradação é indefinida: para baixo, porque é sempre possível uma fealdade mais intensa; para cima, porque é sempre possível a forma acidental ser mais esplendorosa sem nunca identificar-se, porém, à beleza essencial. É caso se­melhante ao que havemos de verificar adiante: as essências criadas não deixam a beleza transcendental manifestar-se plenamente; aqui, por sua Vez, a existência, com os seus próprios e acidentes, não deixa a beleza substancial manifestar-se na totalidade. 58
Tocamos num dos mais difíceis problemas. Foi mais um avanço para o infinito desconhecido através do finito conhecido. Fieis sempre a este método — do mais acessível até o menos acessível — continuemos a nossa viagem metafísica. Assim vamos focar novos problemas do belo, enveredando, agora, pelo caminho da causalidade — causalidade extrínseca, para, finalmente, penetrar na causalidade intrínseca, na essência do belo. 59
   
   

 
   
   

B - CAUSALIDADE

 
   
   

 
   
   
1 - CAUSAS EXTRÍNSECAS  
   
   

 
   
   
a — Causa Eficiente  
   
A beleza tão largamente difundida e tão profundamente radicada — radicada no mais íntimo metafísico e sobrenatural, — a beleza que penetra totalmente o ser e o aureola de fulgor e brilho, a beleza que encontramos com tão grande número de aspectos e graus, a beleza que nos surge com tanta ordem intrínseca e extrínseca38, a beleza não podia aparecer por acaso — a beleza tem causas. A Estética experimental cumpre estudar as suas causas próximas. À filosófica cumpre estudar as causas remotas (Filosofia Natural e Metafísica). 60
Se por um lado deveríamos começar pela causa material, subir à formal e, depois, à final e à eficiente, por outro lado, cumpre-nos seguir o caminho inverso. É que do primeiro modo parecerá que se vai do menos importante ao mais importante, da potência ao acto, do acto impuro ao Acto Puro. Mas não é bem assim, como veremos. E, mesmo que fos­se, nós não podemos preestabelecer o plano em abstracto, sem o condicionar ao caso concreto. O nosso estudo consiste numa penetração constante no mais íntimo através do menos íntimo, no mais importante através do menos importante. Mas mais íntimo e mais importante de quê? Do belo. Ora o mais importante e íntimo do belo é o que ele tem de intrínseco. Por isso, o caminho que devemos seguir e o inverso ao acima proposto, primeiramente. Assim iremos das causas extrínsecas — eficiente e final — às intrínsecas — formal e material. 61
Será isto, porém, considerar o Artista Supremo como menos im­portante do que as Suas obras? Coincidiu sempre o ponto mais importante da beleza com o próprio Deus, e agora já não sucederá o mesmo, agora que atingimos a causalidade última da beleza? Todas estas dúvidas se desvanecerão reflectindo em que Deus não é só o Artista Supremo, mas também a própria Beleza Suprema. Este estudo versa sobre a beleza integralmente considerada, versa sobre todos os seus aspectos. Por isso, se no belo criado o que tem de mais íntimo não é o Artista Supre­mo, no Belo incriado é Ele próprio, porque no Infinito todas as causas se confundem. Deus é a Beleza incausada. 62
A continuação coerente do nosso caminho é, pois, começar pela causa eficiente. 63
Causa é a exploração a priori, o porquê, a origem das cousas. Causa eficiente é aquela força que origina alguma cousa dando-lhe o ser, actualizando uma concepção; causa eficiente de beleza é aquela que cria a beleza. 64
Mas a causalidade eficiente cria de dois modos a beleza: cria-a por virtude própria, e eis a causa eficiente principal, e cria-a por virtude participada, e eis a causa instrumental. E ternos, ainda, de considerar duas espécies de causas na causalidade principal — Causa primeira e causa ou causas segundas. 65
Temos, agora, que aplicar esta causalidade à Natureza e aos artefactos. Assim, pergunta-se: 1) Qual a causa eficiente instrumental da beleza: a) natural, b) e dos artefactos? 2) Qual a causa eficiente principal segunda: a) dos seres naturais, b) e dos artificiais? 3) Qual a causa eficiente principal primeira de toda a beleza? 66
A isto responde-se: 1) É a causa que, por virtude da causa principal, colabora (material, mas não formalmente) na elaboração das causas belas: a) na Natureza são os próprios elementos39; b) nas obras de arte ou nos outros artefactos são os instrumentos de que o artista ou o técnico usa (consoante o ramo a que se dedicar). 2) É a causa que, já causada por uma última Causa incausada, origina, por sua vez, beleza: a) nas cousas naturalmente belas, são os próprios elementos regidos pelas leis da Natureza ; b) nas cousas artificialmente belas, é o artista ou o técnico. 3) É a última Causa da série de causalidade eficiente principal da cousa causada não pode deixar de ser Deus, Causa última de tudo. 67
As duas primeiras alíneas pertencem mais à Estética experimental, mas não ficam aqui deslocadas, porque nós vemo-las à luz e por deduão dos primeiros princípios. E, assim, mais uma vez penetramos na Beleza Incriada e Incausada através da causalidade. Dentro desta ciência dedutiva, o caminho oposto parecerá o mais lógico, e é, de facto. Mas, para o nosso pensamento se habituar às grandes altitudes e às recônditas profundidades, é preferível, dentro do campo filosófico, seguir este processo de ascenção e penetração. E, depois de atingirmos o centro, voltaremos a contemplar o que fica à volta — já não para galgar o caminho, mas apenas para contemplar, isto é, já não para uma consideração dinâmica, mas estática40. Assim deve fazer o leitor estudioso no fim de cada etapa de penetração metafísica, isto é, de cada capítulo, e, portanto, mesmo antes de se atingir o verdadeiro âmago de todo o problema estético. 68
   
   

 
   
   
b — Causa Final  
   
Causa final é o motivo que leva a causa eficiente a agir e, portanto, o intuito que ela visa ao agir. E que, de facto, o fim é o que se pretende alcançar e, por conseguinte, é o que move à acção. O intuito é o motivo da acção eficiente. 69
Existe uma causa eficiente já a estudámos, mas, para bem a compreender, é preciso saber a intenção que a move a agir. É mais um passo na penetração metafísica do belo. 70
Em primeiro lugar — para continuar sempre a mesma orientação no avanço de fora para dentro, do menos para o mais — em primeiro lugar pergunta-se: Que fim move o artista à criação de beleza? 71
Temos a considerar o fim próximo — subdividido em transeunte e imanente — e o fim último — subdividido em secundário e primário. 72
O fim transeunte do artista é, exactamente, criar beleza41, comunicar beleza. E uma consequência de ter as faculdades cognoscitivas a transbordar de concepções estéticas e de amar essa beleza. Mas esse amor não é puro, porque coexiste um fim imanente (consciente ou não) — o de desenvolver as faculdades estéticas, criando e vivendo mais e mais o belo. 73
O fim último secundário expressa ou tacitamente é a suprema felicidade. Mas essa felicidade só se encontra na Suma Beleza e não nas belezas criadas. Por isso, o fim último primário é a própria Beleza Incriada. Para Ela tende todo o artista, embora às vezes, de modo inconsciente. Psicologicamente, busca-se, em última análise, a felicidade perfeita; mas, ontològicamente, aquilo para que se tende, também em última análise, é Deus, porque n'Ele é que está essa felicidade. 74
O fim próximo consiste sempre numa glorificação material à Beleza Infinita, mas bom seria que essa glorificação também fosse formal, pois o artista tudo deve ao Artista divino: Este, por meio da Natureza, é que lhe deu a capacidade estética e a inspiração. O fim último é a própria Beleza Incriada, que o artista deveria glorificar não apenas objectiva, mas livremente 75
Em segundo lugar, pergunta-se: Que fim moveu a Beleza Incriada à criação da beleza? 76
Se fora d'Ela nada mais havia antes da criação, necessariamente que o Seu fim foi Ela própria — a Beleza Incriada. Mas que podia acrescentar-se à Infinita Beleza? De intrínsico, nada. De extrínseco, os louvores imanentes das criaturas brutas e formais das inteligentes. Além da Glória intrínseca que as três Pessoas se proporcionam mutuamente, de um modo infinito e eterno, a Trindade vai ainda receber glória extrínseca — dos inteligentes glória formal e objectiva (ou material), dos brutos apenas glória objectiva e ministerial.42 77
Esta glória extrínseca, porém, nada acrescenta à Felicidade e Glória infinitas que a Trindade possui ab aeterno em Seu Seio. Parece que não podia, portanto, ser a consideração da glória que levasse Deus a criar. Onde encontrar, então, a razão de ser do sublime Universo? Encontrá-la-emos no Verbo, se bem considerarmos a Sua personalidade divina, O Verbo é o Pensamento de Deus e, portanto, a Compreensão .perfeita da Essência divina com os Seus infinitos atributos. Entre estes está a Omnipotência criadora. Ora, considerando o Padre, no Seu Verbo, a beleza de tantos seres possíveis43, amou-os pelo Espírito Santo, porque pertenciam44) ao Seu Filho, à própria Essência divina. Este amor que o Padre tem ao Filho e n'Ele, às criaturas possíveis, é que levou Deus a torná-las (algumas delas) actuais. O Espírito que «pairava sobre as águas> (Génesis, 1,2), o Espírito que une amorosamente a Trindade, e a Criação à Trindade, esse Espírito levou Deus a escolher um universo resplandecente entre a infinidade de universos que Lhe eram possíveis e que existem no Verbo — nesse Verbo que faz consistir as Suas «delícias em estar com os filhos dos homens» (Provérbios, VIU, 31), nesse Verbo que une intelectualmente45 a Trindade, e a Criação à Trindade. 78
Deus, ao criar, não podia ter em vista aumentar a própria Felicidade ou Beleza, porque estas já eram infinitas; Necessariamente o Seu fim foi tornar felizes as criaturas que eternamente conheceu no Seu Verbo e amou no Seu Espírito. Foi, portanto, por amor puro (ao contrário dos artistas humanos) que criou, e é por amor puro que continua a criar, porque o manter os seres na existência é uma criação permanente. Reti­rar a Força criadora seria a destruição. 79
Deus nada podia receber de intrínseco, mas apenas podia dar: não resta dúvida de que foi por amor puro a nós que nos criou e criou belos. 80
Nós, quando operamos, nunca é com amor tão puro, porque, ao fazer bem ao próximo, também o fazemos a nós: ao enriquecer outrém, enriquecemo-nos a nós; e isto é sempre verdade, por mais pura que pretenda ser a nossa intenção, porque somos finitos e precisamos de receber sempre mais e mais. O Infinito só pode ter a intenção de comunicar, porque não pode receber; n'Ele não pode coexistir a ânsia de expansão com a ânsia de perfeição ou beleza. Quanto mais perfeita é a beleza, mais tende a manifestar-se; por isso, a Beleza Infinita quis manifestar-se para além da Trindade num Universo penetrado e aureolado de beleza. 81
Isto não contradiz o que se afirmou no princípio: que o fim da Criação não podia ser ela própria, porque ainda não existia; mas apenas podia ser o próprio Criador, porque era a única Existência. É que o Universo, como pensamento, é um aspecto da Essência divina e, portanto, como pensamento, já existia; e amar esse Universo era amar o Verbo, porque n'Ele é que Deus o via e amava. Amar as criaturas é, portanto, amar o Verbo e é dar glória à Trindade. 82
O Artista Supremo, ao criar a beleza, teve por fim manifestar46 alguns traços da Sua Beleza e, assim, tornar-nos felizes. O Universo é uma obra de arte propriamente dita, exactamente porque o fim do Artista foi a Beleza Infinita da Sua Essência e das Suas Pessoas, e, n'Ela e por meio d'Ela, a beleza47 das criaturas48. 83
   
   

 
   
   
c — Causa Exemplar  
   
É o modelo ou concepção bela que o artista procura reproduzir. Não uma causalidade especificamente nova, mas apenas um novo aspecto de algumas das outras causas últimas. 84
Materialmente, isto é, no seu aspecto passivo, a causa exemplar pertence à causalidade eficiente e final, porque é a condição para o artista ope­rar e ter um alvo. A concepção bela é que, de facto, permite a realização da obra de arte e é ela que torna ainda possível ao artista ter a própria beleza como fim do seu operar. 85
Formalmente, isto é, no seu aspecto dinâmico, a causa exemplar pertence à causalidade formal extrínseca, pois é ela que, embora extrinsecamente, faz com que, a obra de arte seja, de facto, bela, artística, e especifica-a, faz com que seja deste modo bela e não daquele, desta forma (essencial) e não daquela. Efectivamente, o esplendor49 da concepção do artista e da obra de arte é o mesmo: apenas ali é extrínseco à própria obra de arte e é individuado, limitado pelas condições subjectivas do artista; aqui, porém, é intrínseco à obra de arte, é individuado, limitado pelas condições objectivas. 86
Foi o artista que infundiu, então, esse esplendor na obra de arte? Não: o artista apenas procurou criar as condições materiais necessárias para que o mesmo esplendor que anima a sua mente se manifeste também na obra de arte. A beleza vem da própria onticidade e não é uma cousa extrínseca ao ser que se lhe possa infundir à vontade do artista. Este o que pode é criar melhores ou piores condições para a beleza se manifestar mais ou menos. É este o sentido da criação artística no homem. Ao Artista Supremo, porém, como a Causa última de tudo, se devem não só as condições materiais de beleza, mas ainda o próprio esplendor que ele infundiu na mais íntima onticidade de todas as cousas. 87
   
   

 
   
   
2 - CAUSAS INTRÍNSECAS  
   
   

 
   
   
a — Causa Formal  
   
Causa formal intrínseca é aquilo que dá actualidade à potência da beleza. Uma cousa pode ter as condições para ser bela, mas só a forma é que a torna, de facto, bela. A causa eficiente já explica extrìnsecamente a existência da beleza. Mas há-de haver alguma cousa50, na própria essência, que explique intrinsecamente a beleza. Essa cousa íntima que dá beleza às cousas é chamada, vulgarmente, esplendor51. 88
O esplendor especifica a beleza, faz com que seja desta espécie e não daquela; assim como a matéria (veremos depois) a individua essencialmente, a torna esta e não aquela, e a diferencia ainda acidentalmente por meio das condições contingentes da existência. 89
Mas em que consiste esse esplendor que torna belas, e de beleza tão variada, todas as cousas? Sob o ponto de vista psicológico, diríamos ser a inteligibilidade. Sob o ponto de vista objectivo, diremos ser a transcendentalidade52 ôntica53. Não se contradizem ambas as definições, porque todo o ser é cognoscível: pelo contrário, completam-se e dão-nos assim uma compreensão mais perfeita do esplendor. A onticidade é que torna belas as cousas, mas a inteligibilidade é que torna possível o conhecimento de tal beleza. Não haveria cognoscibilidade sem onticidade, porque, para conhecer alguma cousa, é preciso que essa cousa exista54. Mas os seres não existiriam, se uma inteligência os não concebesse. Portanto, o elemento psicológico está antes enquanto a beleza é concebida antes de ser criada; e está depois enquanto a beleza só pode ser contemplada depois de existir (de algum modo). Resumindo: para o artista a cognoscibilidade está antes; para o que contempla está depois. Aprofundando, porém, a questão, vemos que, mesmo no caso da concepção artística, é preciso haver o elemento ôntico — primeiro, para ele próprio existir; segundo, para poder abstrair fragmentos dê beleza com que crie uma nova beleza. Para nós, portanto, a base de tudo é a onticidade e só dada esta existe a inteligibilidade, que é, afinal, o próprio ser enquanto pode ser conhecido. Se levarmos a questão até à Causa Suprema, então, tudo é mais simples, pois onticidade e inteligibilidade55 confundem-se no Infinito. 90
Localizado o problema objectivo perante o subjectivo, ponhamos de parte este para considerar aquele, pois só aquele está no plano do nosso estudo. 91
Esplendor confunde-se com ser, porque todo o ser, enquanto ser, é belo. Beleza é uma propriedade ou, melhor, um atributo essencial do ente, semelhantemente à unidade, verdade e bondade56. Beleza confunde-se, portanto, com ente57. 92
Por outras palavras diremos que o esplendor — essa manifestação da transcendentalidade ôntica — consiste: 1) Numa penetração total em profun­didade e extensão de todos os seres criados — lógicos e reais, possíveis e actuais. 2) No indefinido avanço da onticidade criada, isto é, na possibilidade indefinida de novos seres — formação de novos seres pelas criaturas e cria­ção de novos seres ex nihilo. 3) No Infinito do Ser. 93
O transcendente é o que há de mais vasto e mais profundo: inclui tudo, absolutamente tudo58. Esse transcendente é o esplendor da beleza. Mas o ente não é unívoco — é analógico59 Não se chamam todas as cousas entes com o mesmo significado essencial. Ontològicamente, não há confusão de seres: nós é que confundimos todos os seres numa só ideia transcendental abstraída do que todos têm de comum. Só se chamam seres, todavia, a to­das as cousas de um modo analógico: ninguém iria atribuir o mesmo valor a ente, quando nos referimos a Deus e às criaturas, aos orgânicos e aos anorgânicos, etc.60. 94
Esta diferença entre os seres é específica e também individual, e esta última pode ser essencial e acidental: de facto, dois seres absolutamente iguais seria a fusão num só ser, isto é, seria o impossível. O que os especi­fica é o acto e o que os limita e individua é a potência. Esse mesmo acto que especifica61 o ser, especifica a beleza, e a mesma potência que condi­ciona62 o ser, condiciona também a beleza. É a consequência necessária de beleza ser um atributo transcendental de ser. 95
Em resumo: transcendentalmente, esplendor confunde-se com ente; predicamentalmente, confunde-se com o acto que especifica o ente. E daí se segue que a potência que limita o ente é também a que limita o esplendor. 96
E ainda aqui o ôntico e o inteligível se correspondem, pois é pelo acto que se conhecem as cousas, e, portanto, se esplendor se confunde com ente, se é a forma da beleza e se é por ela que conhecemos a beleza, evidentemente que esplendor se há-de confundir também com o acto ôntico. 97
O acto que faz surgir e especifica os seres, esse mesmo acto faz surgir e especifica a beleza. Encarado como fonte estética, esse acto chama-se esplendor. Se, para além das espécies ônticas, encaramos o ente como ente (independentemente de ser este ou aquele, deste modo ou daquele), esse mesmo ente é o esplendor — o acta, a forma da beleza. Acto é perfeição, entidade, beleza. Potência é condicionalismo, limite; mas esta pertence à causalidade material que passamos a estudar. 98
   
   

 
   
   
b — Causa Material  
   
Causa material é aquilo de que se fazem ou que condiciona, individua ou limita, intrinsecamente,63 as cousas e, aqui, a beleza. 99
Como beleza se confunde com ser, também o que limita o ser é o que limita a beleza. 100
Causa material de beleza é a potencialidade, a capacidade de beleza. Ora essa capacidade estética consiste em ter condições íntegras e proporcio­nadas de beleza. Evidentemente: se não houver aquelas condições mínimas de beleza e se essas condições não forem adequadas ao esplendor — não há capacidade estética. 101
A onticidade, a actualidade, é que dá a beleza, mas, para esse esplendor se manifestar, é preciso haver possibilidade de tal; e quanto mais vasta for essa possibilidade mais se manifesta o esplendor, maior é a beleza. 102
Está claro que, remotamente, toda a potência é devidamente íntegra e proporcionada a qualquer espécie de esplendor. Mas, proximamente, é que pode ser ou não, e pode ser mais ou menos. 103
No transcendental, o acto, a entidade, quase não tem limite; — o esplendor manifesta-se plena ou quase plenamente. É a suma beleza. Se se encara o transcendental abstracto, temos o acto quase puro (abstracto),64 a plena beleza abstracta. Se se encara o Transcendental concreto, temos o Acto puro (concreto), a Beleza Infinita concreta. O transcendente, como tal, só se pode concretizar em Deus. Nas criaturas apenas se pode concretizar predicamentalmente. Na beleza transcendental não há, portanto, lugar para a causali­dade material. 104
Assim, vemos que a beleza se pode definir como esplendor ôntico con­dicionado pela integridade e proporção ou como claridade do ente íntegro e proporcionado ou ainda como esplendor da verdade e da ordem. Beleza transcendental é a manifestação plena da onticidade. Beleza predicamental é uma manifestação restrita dessa transcendentalidade. 105
Após termos atingido o mais profundo da beleza, cumpre-nos considerar os seus limites. Só então, galgando toda a montanha e percorridos todos os seus limites, poderemos passar à consideração estática (ao dinamismo imóvel) que nos arroubará em êxtase metafísico, poético e, talvez, místico. Galgámos a montanha até o mais alto cume - o esplendor estético. Agora contornemos os limites, para logo nos abismarmos na tal contemplação. 106
Em que consiste a integridade e proporção requerida para a beleza predicamental65? Subdivide-se em três partes a resposta — uma referente à beleza específica e essencial, outra à beleza necessária (condicionalmente necessária, isto é, dos próprios) e outra à beleza contingente (dos acidentes). 107
Para a beleza específica e essencial requer-se a matéria prima (tratando-se de substâncias compostas) e a contingência da existência (tratando-se de substâncias simples). O que condiciona a forma substancial, a beleza das substâncias compostas, é a matéria prima.66 Esta é, por força, integral e proporcionadamente adequada à forma, pois não se concebe essência mal feita. Essência sem harmonia de notas é a sua destruição — o impossível, o absurdo. O que condiciona a substância espiritual é a contingência da existência67 que não é essencial como em Deus. Se não houvesse este limite, todo o puro espírito se confundiria com Deus. Também este limite potencial é íntegra e proporcionadamente adequado ao esplendor das formas substanciais completas68, pois, por mais perfeitas que sejam, têm de ter um limite69. 109
Mas a capacidade de beleza específica não é igual em todas as espécies espirituais ou compostas. Nas primeiras, como não há a matéria que as individue, temos um só anjo em cada espécie. Havendo vários anjos ou, o que é o mesmo, várias espécies, haverá vários graus de beleza70. Nas segundas temos também uma gradação de beleza específica. Quanto mais imaterial, mais simples, mais rica de notas essenciais e, portanto, mais, capacidade estética. Isto é evidente se reflectirmos bem no assunto: quanto mais longínquo o limite potencial, quanto menos apertado o condicionamento material, mais o esplendor se pode manifestar. Assim, temos, em ordem decrescente de materialidade: substância composta (corpo anorgânico), substância composta vivente (planta), substância composta vivente sensitiva (anima!), substância composta vivente sensitiva racional71. Ao contrário do que se dá com as substâncias simples, as compostas têm muitos inferiores em cada espécie. Estes também hão-de ter uma diferença essencial resultante da sua individuação (radicada na matéria prima em ordem à quantidade). Mas como esta72 nos é desconhecida, também desconhecemos as diferenças que provêm dela. Portanto, da beleza essencial só conhecemos o que há de específico73 e não o que há de individual74. 110
Agora, antes de passar à causalidade material das propriedades e dos acidentes, resta o problema da aparição de novas formas substanciais e, portanto, de novos esplendores essenciais que tornam belos os novos indivíduos75. Esta aparição de novas belezas essenciais coincide, de facto, com a aparição de novos actos entitativos in se. Por isso, diremos: As formas subsistentes completas (anjos) ou incompletas (almas humanas) devem-se, exclusivamente, ao Poder criador. As formas incompletas não subsistentes são eduzidas da potência da matéria, que não suporta determinada beleza ou requer outra maior, consoante as suas disposições, para que nunca haja desproporção essencial entre matéria e forma — o que seria o impossível, o absurdo. Encontramos a fonte da beleza no mais recôndito da matéria, porque o Criador a criou assim. Atingimos aqui o mais íntimo que a beleza material tem. Grande é o Artista de tais maravilhas ! 111
Passemos a estudar as condições materiais para haver beleza necessária, isto é, das propriedades76. Se se compreendeu bem a posição tomista perante o ser e a beleza, não oferece o menor obstáculo a solução deste novo problema Se próprio é o que se segue necessariamente à substância, é porque há, necessariamente, proporção integral77 entre o próprio e a substância. Para haver beleza própria ou necessária requer-se, primeiro, haver beleza essencial. Ora, como há necessidade absoluta na beleza essencial, segue-se que também há sempre beleza nas propriedades. A condição para a beleza própria dá-se sempre, sob pena de destruição ôntica e absurdo; a beleza própria, portanto, existe sempre por necessidade condicional. A beleza essencial é absoluta, porque não depende intrinsecamente doutra. A beleza necessária é condicional, porque depende da substancial. 112
Para o estudo da beleza acidental, já a força lógica é bem diversa. Acidentes são, proximamente, o modo como os próprios se manifestam e, remo­tamente, são o modo como a substância se manifesta78. Mas, enquanto os próprios se seguem necessariamente, os acidentes só se seguem contingentemente. Quer dizer: pode haver ou não proporção entre os acidentes e os próprios. É da própria essência do acidente essa contingência. Donde se conclui que, se houver proporção e integridade da parte dos acidentes, há beleza acidental. Se não existirem essas condições, não há beleza acidental. E ainda: quanto maior for essa proporção maior será a beleza, e quanto maior for a desproporção maior será a fealdade. Há um mínimo de propor­ção devida às propriedades, para baixo do qual já não há beleza relativamente, é claro, ao que é requerido pela natureza das respectivas propriedades. Em absoluto, há sempre proporção (há sempre beleza metafísica), porque, no momento em que não houvesse um mínimo de compatibilidade entre o acidente e o próprio ou, portanto, entre o acidente e a substância, esta, se fosse composta, transformar-se-ia noutra, e, se fosse simples, destruir-se-ia. 113
O primeiro caso — o das transformações substanciais quando as disposições da matéria não são compatíveis com certa forma — está constantemente a dar-se, como a experiência o atesta. O segundo caso não se dá nunca por uma razão extrínseca e outra intrínseca: 1) Parece repugnar que o Criador permitisse a destruição ôntica. 2) Nos espíritos, a essência é pura79 só fora dela é que há limites potenciais, e, por isso, o contingente nunca atinge a própria substância. Nos corpos a própria essência é composta dematéria e forma (segundo o Hilemorfismo) e, portanto, quando houver desproporção próxima80, há transformação substancial. Nos espíritos os acidentes são sempre compatíveis (proporção absoluta, ôntica, mas nem sempre relativa à dignidade espiritual, como se dá com os aspectos ético e sobrenatural dos demos); porque nunca os acidentes afectam a simplicidade da essência. Afectá-la era deixai de ser simples, era a destruição. 114
Viria aqui recordar o que se diz acerca dos graus negativos de beleza. Para essa parte desse capítulo remeto o leitor estudioso e consciente81. 115





1

A palavra «difundir» é expressiva, mas está longe de ser rigorosa: beleza não é qualquer cousa que se espalhou, pelo Universo: beleza brota do íntimo do ser, ou melhor, confunde-se com o ser.

2

Isto tanto se diz do homem como do puro espírito. Um e outro são criaturas, e por isso não lhes é devido o sobrenatural. Pela Graça ficam no mesmo plano aqueles que por natureza pertencem a ordens tão diversas.

3

Só esta pertence à Filosofia. A outra é da Teologia.

4

De facto os entes lógicos também têm beleza.

5

Não confundir o significado com que neste ponto empregamos a palavra «natural», isto é, tudo o que é devido a determinada ordem criada (em oposição, portanto, a preternatural, isto é, tudo o que só é devido a ordem criada superior, e em oposição também a sobrenatural, isto é, tudo o que não é devido a ordem nenhuma criada), não confundir, portanto, este significado com aquele outro contido neste, mas mais restrito, a saber: tudo o que é produzido pelas energias da Natureza (em oposição ao que é produzido pelo homem, isto é, cousa arteficial, artefacto).

6

Não confundir criação artística com criação ex nihilo — poder exclusivo de Deus.

7

Tenham-se em vista os depoimentos inapreciáveis dos próprios artistas. Vid, por exemplo: Fernando Pessoa, PAGINAS DE DOUTRINA ESTÉTICA, Selecção, Prefácio e Notas de Jorge de Sena, Lisboa, Editorial Inquérito Limitada, 1946, in 8.», 365 págs.(E útil ver a critica da BROTERIA, no vol, XLVIII. fase. 2, Fevereiro 1949, pág. 255).

8

Com esta classificação em artes plásticas, fonéticas e mistas, e esta arrumação das diversas artes, não se pretende ser completo nem perfeito. Mas, de facto, nelas há pelo menos uma certa lógica.

9

Em Deus a actividade confunde-se com a estritamente artística, pois Ele próprio — a Beleza Incriada — é o fim primário.

10

Por analogia com a actividade dos seres inteligentes, também às atitudes estéticas dos animais, e até de todos os outros seres, poderemos chamar artísticas impropriamente ditas.

11

Salvo erro, Kant escreveu: «quem gosta do belo prefere viver com pessoas delicadas». Tive um professor que admirava, acima de tudo, a inteligência e a coragem. A mim, talvez nada de natural me alegre tanto como encontrar uma pessoa delicada e inteligente.

22

Não é só o movimento natural que tem arte. Também o movimento sobrenatural a tem; mas este, por um lado, pertence à beleza sobrenatural (e nós aqui tratamos da natural) e, por outro lado, pertence à arte propriamente dita, porque viza primariamente a própria Beleza Incriada (e nós aqui tratamos da arte impropriamente dita).Lépicier in O MUNDO INVISÍVEL, Porto, Tavares Martins, 1940, págs. 60 e 61, depois de nos dar uma relação das várias espécies de movimento natural, dá-nos também uma relação do movimento sobrenatural. Assim teremos em ordem crescente de importância:
1) Movimentos formais de duas espécies: a) Aquele que se realiza graças à potencialidade obediencial do paciente, mas que se poderia realizar pela potencialidade natural remota. É o caso da mudança de água em vinho, por virtude divina, que também se poderia realizar por um processo científico de vegetação, b) Aquele movimento que se realiza mesmo só existindo potencialidade obediencial da parte do paciente. Por exemplo: fazer um homem com um pedaço de barro.
2) Transubstanciação, em que se atinge a própria essência da matéria: muda-se a substância e permanecem os acidentes.
3) Criação, em que se dá existência a uma essência, sem qualquer causa material existente, isto é, ex nihilo, e em que se mantém na existência essas essências.
4) Graça, que torna as criaturas participantes da vida intima da SS. Trindade.
5) Incarnação, pela qual a Pessoa do Verbo se fez humana continuando a ser divina.
Os três divinos Artistas—Pai, Verbo e Espírito — superam infinitamente todos os mais geniais artistas.

13

Vid. Excurso LEIS NATURAIS no fim do capitulo, a pág. 25.

14

Por dedução (beleza filosófica): Cosmologia (parte da Filosofia Natural). Por indução (beleza cientifica): Físico-químicas e Ciências derivadas. A parte mais vasta de cada uma destas Ciências mantém-se, porém, na probabilidade.

15

Por dedução (beleza filosofia): Psicologia Racional (parte da Filosofia Natural). Por indução (beleza cientifica): Biológicas (Botânica, Zoologia e Antropologia) e Psicologia Experimental; e as Ciências derivadas. A maior parte de cada uma destas Ciências limita-se também a simples investigação, descrições e estatísticas.

16

Abstracção consiste em considerar um ou mais aspectos de uma cousa e deixar os outros aspectos. Se se despoja uma cousa da sua existência com as propriedades e as notas individuantes e se considera apenas a essência — temos a abstracção total. Se apenas consideramos um aspecto, uma formalidade, de uma cousa — temos a abstracção formal que tem três graus. O primeiro grau consiste em despojar uma cousa das notas individuantes e considerar as propriedades qualitativas — a matéria sensível. É o caso das Ciências naturais. O segundo grau consiste em deixar, não só as notas individuantes, mas ainda a matéria sensível, e tomar apenas a quantidade (propriedade quantitativa) — a matéria inteligível. É o caso da Matemática. O terceiro grau consiste em deixar notas individuantes, matéria sensível e inteligível, e apenas tomar a pura onticidade, considerar apenas o ser como ser, independentemente de ser orgânico ou anorgânico, substancial ou acidental, etc. É o caso da Metafísica.

17

Geográfico-históricas, Psicologia experimental (em parte) e todas as Ciências que não atingem ou ainda não atingiram o universal. São investigação científica e não Ciências propriamente ditas. Por isso são a fonte de todas as verdadeiras Ciências, e por isso mesmo as Ciências propriamente ditas têm sempre uma parte que ainda pertence a esta classe de Ciências impropriamente ditas ou de Ciências de singulares.

18

Forma, figura, lugar, tempo, estirpe (origem), pátria, nome.

19

Deus é a Fonte de todos os predicamentos.

20

Aqui apenas se trata, está claro, do aspecto natural dos espíritos e das almas. A sua elevação ao estado de Graça pertence à beleza sobrenatural e, portanto, à Teologia.

21

Todos e cada um dos aspectos do belo predicamental se confundem, mais ou menos remotamente, no belo metafísico.

22

O Belo sobrenatural é, por natureza (ou, melhor, por Sobrenatureza), infinito; mas só se comunica às criaturas limitada e acidentalmente. As criaturas possuem a beleza sobrenatural por graça e não por natureza, de graça
e não de direito.

23

Oxalá estas palavras, como outras que ficam para trás a abrir novos rumos ao pensamento português, encontrem boas vontades aliadas a inteligências capazes.

24

É bom não confundir o indefinido ou infinito matemático (infinitamente pequeno ou infinitamente grande) com o Infinito ontológico, real. Já Descartes, salvo erro, empregava apenas o termo «indefinido», porque reservava o termo «infinito» unicamente para Deus.
Assim se vê que, na zona do sublime indefinido, a escala pode ter duas direcções, pois tão sublime é o infinitamente grande como o infinitamente pequeno.
Isto, pondo de parte Deus, que é o Infinito real e que fica fora de toda a escala (excepto quando se manifesta de um modo finito,).

25

«Nihll est in intellectu quod non prius fuerit in sensu».

26

Em última análise, é claro que, não só o sublime infinito, mas o sublime indefinido e universal e até o belo e o venusto, são manifestações, mais ou menos remotas, do Incriado. O criado é uma expressão do Incriado.

27

Há, portanto, uma certa proporcionalidade.

28

Subjectivo, já se disse, não significa, necessariamente, mutável com o sujeito, mas apenas relação com o sujeito. Tratar subjectivamente um problema não quer dizer, necessariamente, tratá-lo arbitrariamente, mas tratá-lo nas suas relações com o sujeito.

29

O nada também se não pode dizer que seja feio, pois o nada não é nada, não se pode, portanto, afirmar nada dele, mas apenas negar e negar tudo. Quer dizer que a escala calimétrica metafísica e física essencial) nem tem zero, a não ser como mero limite, nem tem graus negativos.

30

As categorias ou predicamentos escolásticos do ser são : Substantia ou quid (substância), quantitas ou quantum (quantidade), qualitas ou quale (qualidade), relatio (relação), actio (acção), passio (paixão), ubi (localização), quando (quandocação), situs (estado), habitus (hábito).
Aplicação exemplificativa: Pedro é alto, virtuoso, primo de Paulo, empurrou Paulo, é empurrado por Pedro, está no quintal, hoje, sentado, com uma bata.

31

Essência é o que uma cousa é — tomada em si mesma, em absoluto, e independentemente do modo como as condições existenciais a apresentam. Por isso, tudo tem essência, infalivelmente; não são só as substâncias que têm essência, mas também os acidentes. A essência de acidente é só poder existir «in alio» — sem qualquer relação absoluta com o ente suporte, isto é", a substância, pois desse modo confundir-se-ia com ela.

32

É preciso não confundir os graus negativos com os graus positivos que não são por nós conhecidos por lhes faltar aquele mínimo de compatibilidade com as faculdades estéticas. Quantas cousas, de facto, que seriam consideradas belas, se nós as víssemos menos ou mais! Não se trata aqui de negatividade em relação ao sujeito cognoscente, mas em relação ao objecto.

33

Verdade é o elemento material de beleza predicamental: transcendentalmente verdade e beleza confundem-se.
A verdade pode ser transcendental e predicamental. A primeira é a ontológica dos seres naturais : «omne ens, inquantum est ens, est verum». A segunda pode ser objectiva e subjectiva : objectiva é a verdade ontológica dos seres naturais (fisicamente considerados), que pode ser essencial e acidental, e a verdade ontológica dos artefactos ; subjectiva é a verdade lógica e a moral.
Podemos ver isto em direcção oposta e, então, teremos : verdade ôntica, lógica e moral, podendo ser a primeira metafísica ou física, e podendo a física ser ainda natural (essencial ou acidental) e artificial. A lógica e a moral são sempre físicas (ou predicamentais).

34

Porque não temos a existência por essência, mas apenas por participação, e porque todo o movimento (passagem de potência a acto) produz uma nova existência (um novo ser), necessitamos de um concurso natural (natural, note-se, exigência da nossa natureza, e não sobrenatural) de Deus, não só prévio e mediato, mas ainda simultâneo e imediato, para as nossas faculdades operativas serem determinadas e aplicadas à acção. Esta premoção física não nos converte em meras ocasiões de Deus operar, como queria Malebranche com o seu Ocasionalismo, que, evidentemente, contradiz a própria noção de natureza — princípio de acção e não apenas sujeito a paixão, uma cousa, de facto, é só podermos operar com o concurso natural de Deus e outra é sermos totalmente passivos, sem possibilidade de operar mesmo com esse influxo divino. Assim também não se contradiz o livre arbítrio nem se diminui a responsabilidade dos seres livres nos actos pecaminosos : nestes só temos a atribuir a Deus o que têm de material e não o que têm de formal, a existência e não a natureza. Deus ó a causa eficiente principal de todo o ser; mas o pecado não precisa de causa eficiente nem a pode ter, porque é apenas uma deficiência, uma privação, uma resistência e tentativa de frustração do plano divino: os seres dotados de livre arbítrio são as causas deficientes, principais e únicas, do pecado.

35

Johannes Hessen, axiólogo católico alemão, (vid. FILOSOFIA DOS VALORES, Trad. Cabral Moncada, Coimbra, Arménio Amado, 1944, pág. 71) pensa levar-nos ao absurdo concluindo que, se o bom se confunde com o ente, então as dores quanto mais intensas mais valiosas e o demónio quanto mais perfeito Ônticamente mais valioso também. Ora nada nos repugna em afirmar que a dor, enquanto ente, tem tanta mais beleza metafísica quanto mais intensa for, e que o demónio tem tanta maior beleza substancial e metafísica quanto mais rico ônticamenta for. Não se confunda beleza transcendental e predicamental, essencial e acidental — e todas as dificuldades desaparecerão,

36

Ciência, latamente considerada, é todo o conhecimento. Mas, estritamente considerada, é o conhecimento por causas. E, escolasticamente considerada, é o conhecimento por causas certas (remotas ou próximas) e não apenas prováveis.

37

Incidentalmente é claro que o técnico ou o artista pode fazer unia obra ainda mais perfeita quando não é fiel à causa exemplar, mas isso não é per se, não é uma consequência necessária da sua infidelidade.

38

Ordem intrínseca, porque a ordem é parte essencial da beleza. Ordem extrínseca, porque as cousas já de si, individualmente, belas, distribuem-se metafísica e fisicamente com arte. Dai nascem novas belezas — belezas de conjunto. Para estas últimas passa a ser intrínseca a ordem extrínseca das primeiras.

39

Trata-se aqui da evolução natural das cousas, porque, no momento inicial da criação, Deus não se serviu de nenhuma causa instrumental.

40

Este «estático» não tem o significado de passivo como fica dito na segunda nota da página 18, mas apenas de princípio imutável de movimento.

41

O artista cria o venusto se tem gosto, cria o belo se tem talento, cria o sublime se é um génio. De modo semelhante, saberá contemplar condignamente o venusto se tiver gosto, o belo se for talentoso, o sublime se for genial.
E de que modo cria o artista beleza? Como concebe a cousa exemplar? Eliminando as imperfeições acidentais que as causas belas naturais possam ter, adicionando-lhes a beleza que lhes competiria (mas que contingentemente não possuem,) e, finalmente, dando-lhes aquela expressão artística, transcendente, e tanto mais transcendente quanto mais talentoso ou genial for o artista.
A obra de arte não é, de facto, simples imitação da Natureza (como quereriam os naturalistas,) nem simples expressão pessoal do artista (como quereriam os idealistas) — obra de arte ê uma cousa e outra.
A arte também não está só na forma (como quereriam os materialistas,) nem só no fundo (como quereriam os espiritualistas) — a arte está na forma e no fundo. Se só houver beleza no fundo ou só na forma, não se poderá dizer que há arte simpliciter, mas apenas secundum quid. Arte não é ainda simplesmente individual ou social. Ela é uma cousa e outra. É individual — porque é o produto do que há de pessoal no artista e tem efeitos diferentes em cada contemplador. É social — porque tanto o artista como os contempladores não podem estar absolutamente ilesos da influência do pensamento político, social, religioso, etc., da época e da colectividade.

42

Glória é a manifestação da Perfeição do Criador por meio da perfeição criada. Se essa manifestação se faz com conhecimento e vontade chama-se glória formal. Se se faz sem se saber ou sem vontade, chama-se objectiva ou material. É o caso dos brutos e dos ímpios. A glória que as criaturas dão a Deus servindo o homem, chama-se glória ministerial.

43

Os seres possíveis são infinitos. Mas Deus, por mais seres que crie, cria sempre um número finito de seres. Os seres possíveis são infinitos, mas os seres actuais são sempre finitos.Repugnaria a existência de uma infini­dade de criaturas.
Isto não vai contra a Omnipotência, pois esta é o atributo divino pelo qual Deus pode tudo quanto é coerente com a Sua Perfeição infinita. O que não é coerente com a Sua Essência constitui uma impossibilidade metafísica e, portanto, uma impossibilidade para Deus. Deus é a Perfeição e Beleza infinitas; por isso, tudo que faz ou pode fazer são manifestações perfeitas e belas (embora de perfeição e beleza limitadas, porque ilimitado só Ele próprio,). Pecar, querer fazer outro Deus, querer deixar de ser Deus e cousas semelhantes — seriam absurdos, seriam a destruição da Essência divina, Beleza infinita. Ora repugna que essa Beleza infinita, de algum modo, quisesse destruir-Se. A Inteligência e o Amor não permitiriam tal ao Pai.
São repugnâncias metafísicas que só podem passar pela cabeça daqueles ímpios que insensatamente desafiam o seu Criador, dizendo que só. O adorariam se Ele fosse capaz de criar unia pedra com a qual não pudesse... E os insensatos pensam destruir o seu Deus com um absurdo destes.
A existência actual de criaturas em número infinito seria um desses absurdos. As criaturas podem aumentar sempre mais e mais, mas nunca atingirão o infinito, porque a soma de finitos nunca dá o infinito: o número é sempre finito ; tende para o infinito matemático ou, melhor, para o indefinido, mas não se confunda o infinito matemático com o ôntico, nem a tendência para uma cousa com a consumação do alvo dessa tendência (isto é, a tendência para o infinito com o próprio infinito).

44

A Essência de Deus é a Simplicidade infinita. Nós, porque temos uma compreensão limitada, é que temos de A encarar por um número indefinido de aspectos, e, porque é infinita, nunca chegamos ao conhecimento pleno.

45

Isto é, pelo conhecimento

46

Recordar que glória consiste nessa manifestação.

47

E consequente felicidade.

48

Chamei aqui conhecimentos teológicos, mas eles auxiliam-nos imenso na compreensão destes assuntos da mais recôndita Metafísica.

49

Esplendor é o elemento formal intrínseco da beleza.

50

Cousa e causa não só se confundem etimologicamente como até no seu mais profundo significado metafísico.

51

Outros nomes do esplendor: fulgor, brilho, claridade, luz, colorido, grandeza, sumptuosidade.

52

Transcendência aqui não tem o significado kantista de condição de possibilidade científica; ou o sentido epistemológico de ultrapassar as possibilidades do conhecimento finito ; ou ainda o sentido ôntico de estar fora e acima de nós, isto é, no sentido oposto a imanência. O seu significado aqui é o de abranger todos inferiores, isto é, tudo e até o Infinito. É, portanto, neste sentido ontológico e lógico que empregamos aqui transcendência.

53

Podemos definir beleza como uma manifestação da transcendentalidade ôntica que deleita a vista. Assim, sintetizar-se-ão ambos os aspectos — objectivo e subjectivo — numa só definição. Essa cognoscibilidade pode ser natural e sobrenatural; e a primeira pode ser sensível (olhos, ouvidos, e fantasia ou imaginação) e intelectual, É a todos esses aspectos do conhecimento que a claridade pode deleitar.

54

Nada e incognoscível são absurdos, porque não existem nem podem existir. Note-se ainda que empregamos aqui existência num sentido lato e não apenas como actualização in re de uma essência.

55

Em Deus a inteligibilidade passa a conhecimento infinito.

56

Beleza não é um atributo a mais, pois está contido nos outros.

57

Se neste ponto empregamos indiferentemente a palavra beleza e esplendor é porque pelo acto é que se conhecem e definem as cousas e ainda porque a beleza transcendental só tem forma e não matéria (como adeante se verá).

58

Nós, como mentes limitadas, só podemos ter um conhecimento confuso do transcendente, ao passo que dos predicamentos podemos ter um conhecimento mais distinto.

59

Analogia é o quid de contacto entre cousas essencialmente diversas. Univocidade é a identidade entre cousas apenas acidentalmente diversas. Equivocidade é a diferença total entre cousas que não têm o menor quid de semelhança. Analogia existe entre os seres essencialmente diversos. Univocidade existe entre os seres essencialmente idênticos e acidentalmente diversos. Equivocidade não se pode conceber com os seres nem com as ideias, portanto. Pode dizer-se, porém, que um termo é equívoco, quando se aplica a mais do que uma cousa com significados totalmente diversos.
A analogia pode ser de atribuição (se esse quid de semelhança for intrínseco a um e extrínseco a outro, como por exemplo, saudável atribuído a homem e a cor), e de proporcionalidade (se o quid é intrínseco a todos). Chama-se assim, porque tem uma proporção lógica na base ; e pode dividir-se ainda em analogia de proporcionalidade própria e imprópria ou metafórica. A própria é a que existe entre os seres (por exemplo : Ens a Se está para ens ab alio assim como Deus está para as criaturas ; ou ens in se está para ens in alio como substância está para acidente) e a imprópria é a que se emprega em metáforas (como, por exemplo, o Papa está para a Igreja como o pastor para o rebanho).

60

Para os monistas e panteístas é que o ente é unívoco.

61

Nos corpos esse acto é a forma substancial limitada pela matéria, e nos espíritos também, mas sem limite material.

62

Nos corpos essa potência é a matéria prima, nos espíritos é a contingência da sua existência. Estes não têm nada de material, mas ainda não são acto puro, porque a sua essência não é existir. Diz a sétima tese tomista: "A criatura espiritual é absolutamente simples na sua essência; todavia, há nela uma dupla composição : uma, de essência e de existência; outra, de substância e de acidentes." (Alfredo Pimenta, Estudos Filosóficos e Críticos, Coimbra, 1930, pág. 104).

63

Intrinsecamente, porque, se fosse extrinsecamente, seria condição e não causa. A diferença entre causas e condições consiste em que aquelas influenciam activamente no efeito e estas só passivamente, excepto a causa material que é a única passiva ; esta, porém, diferencia-se das condições por ser intrínseca.

64

Ainda não é acto puro, exactamente porque é abstracto: Esta nota (abstracto) é um limite, o último limite, e por isso chamo acto quase puro. Desaparecido o limite abstracto fica o Acto puro concreto, o Acto puro simpliciter.

65

A beleza metafísica já se viu que não tinha causa material, pois é a manifestação plena da causa formal — do esplendor.

66

A matéria prima será bela ? Relativamente à bondade, P. Dezza, in Metaphysica Generalis, Romae, Apud Aedes Universitatis Gregorianae, 1945, pág. 93, diz que a matéria prima é boa enquanto tem razão de entidade. Ela não tem, por si, qualquer actualidade na ordem da existência ou da essência. Não é, também, mero ente lógico. É, com a forma, a última explicação intrínseca da matéria segunda. Não é ens quod, mas é ens quo. É a única pura potência. Podemos tomar, portanto, posição semelhante à exposta, dizendo que a matéria prima é bela enquanto tem razão de ser. A questão, porém, talvez merecesse desenvolvimento.

67

Existência é o que actualiza as essências, que são apenas potência na ordem existencial, embora sejam acto na ordem essencial. É nesta que estamos agora e só se considera a existência enquanto fora da essência e, por isso, seu limite.

68

As formas podem ser substanciais (ordem essencial) e acidentais (ordem existencial). As formas substanciais podem ser não subsistentes (as materiais) e subsistentes (as espirituais) e, segundo outro prisma, incompletas (todas as que, sejam ou não subsistentes, são individuadas pela matéria) e completas (os puros espíritos).

69

Têm um limite, porque são finitas.

70

Pela Filosofia apenas concluímos que pode haver anjos. Pela Teologia é que sabemos existirem de facto. S. Bernardo, in OS CINCO LIVROS DA CONSIDERAÇÃO, Porto, 1927, págs.109 a 119, apresenta-nos uma hipótese muito interessante e provável de nove categorias de espécies angélicas. Mas, dentro de cada uma dessas categorias, quantas espécies, quantos anjos e, portanto, quantos graus de beleza? Começando pêlos menos belos até os mais belos, e inspirando-nos no Autor citado, teremos a seguinte hierarquia:
1) Anjos — que guardam os homens.
2) Arcanjos — que Deus envia aos homens com mensagens extraordinárias.
3) Virtudes — com poderes deslumbrantes sobre a Natureza.
4) Potestades — com semelhantes poderes sobre os espíritos malignos.
5) Principados — que superintendem no exercício da autoridade governativa entre os homens.
6) Dominações — a quem todas as categorias anteriores prestam vassalagem.
7) Tronos — plenitude de paz, em que Deus repousa.
8) Querubins — plenitude da sabedoria do Verbo.
9) Serafins — plenitude do amor do Espírito.

71

Estes graus específicos são tirados da chamada árvore porfiriana que passamos a reproduzir e explicar :
árvore porfiriana
Cada um destes adjectivos constitui uma diferença específica que, junta ao género anterior, constitui a definição específica. Assim, substância é o género supremo, substância composta é primeira espécie e. ao mesmo tempo, género próximo para vivente e remoto para os outros inferiores e ainda género subalterno em relação ao supremo. E assim sucessivamente. Por aqui verificamos que as espécies inferiores estão contidas nos géneros superiores e estes participam daquelas. Donde se conclui que, quantas mais notas específicas, menos inferiores: substância diz-se de todos os inferiores, corpo diz-se de menos inferiores, vivente ainda de menos, etc.

72

De facto, pela forma é que nós conhecemos as cousas. O nosso pensamento abstrai dos sensíveis imediatamente o universal e só reflexamente pode pensar nos singulares. Os sentidos é que só atingem o indivíduo e o colectivo, mas apenas no que têm de acidental.

73

Pode ficar a seguinte dúvida que é bom esclarecer. Se toda a potência é integral e proporcionadamente adequada ao acto, como é que há várias espécies de acto e, portanto, de beleza específica ? Ê que essa disposição para todo o acto é apenas remota. Proximamente, os limites potenciais ou materiais só permitem uma certa manifestação de esplendor, consoante são mais largos ou mais apertados (como vimos.) É o caso da matéria prima: está em potência remota para toda a forma; mas, proximamente, só admite a forma com que as suas disposições sejam compatíveis. Assim se dão as transformações substanciais dos corpos e, portanto, também da beleza específica (seres que nascem, seres que morrem, seres que evoluem).

74

Só conhecemos as diferenças individuais acidentais, isto é, as notas individuantes.

75

Isto é avançar no campo da Cosmologia. Por aqui se vê que a Estética também precisa duma Cosmologia; precisa, afinal, de todas as ciências que estudam o ser, porque ser e beleza confundem-se metafisicamente.

76

Próprio ou propriedade é o que se predica necessária, mas não essencialmente, das substâncias: são suas partes integantes.

77

A integridade está contida na proporção, pois, para haver plena proporção é requerida a integridade. Esta é um aspecto daquela. A causa material estética é una

78

Próprios são os modos como as substâncias se manifestam proximamente

79

O espírito só é composto na ordem existencial. Vid. nota 3.'

80

Remotamente há sempre proporção entre matéria e forma.

81

Vid. pág.31 a 34.)




 
| I - Consideração Dinâmica |
 




II - CONSIDERAÇÃO ESTÁTICA


   
   

 
   
   
A — PERANTE OS OUTROS ATRIBUTOS ÔNTICOS  
   
   

 
   
   
1 — UNO  
   
Estamos no tal cume da Ontologia1. O belo confunde-se com o ser. transcendentalidade ôntica é a própria causa formal da beleza. São regiões demasiado elevadas para o autor deste estudo nelas se poder demorar muito. Unamo-nos, porém, à oração dos extasiados do Tabor — "Mestre, é bom para nós estar aqui; façamos três tendas". (S. Lucas, IX, 33) — e vejamos se apraz ao Senhor atender-nos melhor do que a Pedro. 116
O transcendental é só um. Aquilo que abrange tudo, e até o Infinito, não podia ser mais do que um. De contrário deixaria de ser transcendental. Ente, de facto, são todas as cousas (res), é tudo que não2 é nada3 (aliquid)4. Pensar o ser como ser é atingir o terceiro e último grau de abstracção, mas abstracção muito "sui generis", porque, enquanto nas outras se toma uma parte de ser e se deixa outra, aqui toma-se tudo, todo o ser, e só se deixa o modo de ser5. Como se faz a abstracção da onticidade total de cousas com diferenças essenciais, segue-se que só se alcança uma síntese confusa (semelhantemente a todas as nossas sínteses, como ficou dito na nota l .a da pág. 18), e, além disso, com simples valor analógico. De facto, o ente é transcendental6, porque é uma noção que abrange tudo; mas é analógico, porque abrange a pluralidade mais variada. É a noção mais pobre, porque é a mais confusa7, porque nós só na análise atingimos um conhecimento distinto. E, porém, a noção mais rica — se não a tomarmos em relação às nossas faculdades, mas em absoluto, — porque o seu conteúdo irão podia ser mais rico. Ente não é só o quid proporcionado à inteligência pela analogia : ente é tudo e cada cousa na sua totalidade. O modo de ser penetra todo o ser, mas o ser também penetra todo o modo de ser8. No ente como ente nós só atingimos esse quid, mas esse quid é ponto de partida para os mais amplos e profundos estudos e para as mais amplas e pormenorizadas aplicações práticas. Nesse quid ainda há um infinito a descobrir, porque nunca o chegamos a pensar e viver totalmente e porque dele parte um infinito de vias e de vias infinitas. 117
O ser é analógico: daí a grande dificuldade, mas também a grande beleza. Por ser dificuldade, não cometamos a incoerência de tantos filósofos em o considerar unívoco. As construções metafísicas não se fazem com o espírito do homo faber. Não se trata de inventar uma engenhoca de conceitos: trata-se de apreender a realidade, de inventar sim, mas no sentido etimológico de encontrar. Só o homo sapiens consegue, não numa comunhão panteística9, mas numa comunhão intencional10, apreender o real, pensá-lo, vivê-lo, e amá-lo. Considerar o ente unívoco seria admitir o caos, a morte, adestruição, o nada ou a fealdade absoluta. O transcendental tem de ser, sob pena de absurdo, análogo. E só pode ser unívoco, quando se concretiza como transcendental no Infinito ou predicamentalmente no finito. Em Deus ou dentro de cada categoria o ser é unívoco. Aí Já o conhecimento, embora (no segundo caso) com um objecto mais pobre, pode ser mais distinto. 118
Desta aliança da univocidade (no Transcendental concreto e dentro de cada predicamento) e da analogia (no transcendental abstracto) vem a beleza ôntica. Multiplicidade, variedade, pluralidade, analogia — por um prisma. Ordem, harmonia, unidade, univocidade — por outro. Eis o mais íntimo segredo da beleza. Eis a concepção transcendental e analógica do ser — a única coerente com as conclusões mais profundas do pensamento e mais práticas da experiência: a única fecunda para o espírito e para a vida. 119
   
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Esta coerência do ser consigo mesmo, de que resulta a beleza, há-de ter a explicação mais proíunda em alguma propriedade "latu sensu" ou, me­lhor, em algum atributo que se confunda com o próprio ser, isto é, que seja transcendental. De facto, se considerarmos o transcendental em absoluto (em si mesmo), vemos que é uno. 120
Em que consiste esta unidade ôntica? Não é uma propriedade11 ou qualquer outra cousa que se lhe acrescente: é um aspecto do próprio ente, é o próprio ente, tomado em si mesmo. A unidade atribui-se ao ente como uma negação, não absoluta está claro, mas como uma privação de divisão. Uno é o ser indiviso, é o indiviso ou é o ser (tão somente). Não há distinção no transcendental; apenas as nossas faculdades têm de o encarar por vários prismas tal é a riqueza do ente como ente. Não é real a distinção, mas é fundada no real. Este fundamento não se deve a que o uno seja uma parte do transcendental: uno é o próprio transcendental (na totalidade); apenas aqui é visto per um prisma e pode ser visto também por outros prismas, que atingem igualmente o transcendental na totalidade12. 121
Aclaremos o uno: é privação do diviso, mas não da pluralidade nem da composição. Uno não é o mesmo que único nem que simples. Todo o ser é uno, mas nem todo é simples, pois há seres compostos; nem tão pouco é único, pois é múltiplo sob pena de se cair na univocidade absoluta, no panteísmo, no absurdo.   Também não se confunde indivisão com indivisibilidade — o que seria cair numa concepção estática da matéria13. 122
O que se afirma de todo o ente é a indivisão, a unidade. No momento em que um ente deixasse de ser uno, deixaria de ser ente. Nós não conce­bemos o que fosse o não uno, o diviso, porque não concebemos o nada e porque tudo isso não passa de impossível, de absurdo, de nada. Concepção sensível ou intelectual que perca a unidade, perde a entidade; pedra, flor, animal ou homem que deixem de ser unos deixam de existir; anjo que, por absurdo, se dividisse, destruir-se-ia. 123
Uno transcendental e analógico — consequência absoluta do ente e razão profunda da beleza; uno, ente e beleza — um só transcendental; uno — causa formal da beleza, a própria essência da beleza; uno é afinal o esplendor estético que todos vêem e sentem, mas só poucos compreendem. Só à luz do Tomismo se pode compreender (tanto quanto cabe à razão) o uno e o belo. 124
Com esta compreensão íntima da realidade, ninguém se admirará da forte atracção que o Uno exerceu sobre Plotino14. Tudo, de facto, é uma participação da Unidade Transcendental Concreta. Com ela se confunde a Suprema Beleza. Mas esta participação não é intrínseca, não há emanação, como pensava Plotino. Aqui está o primeiro grande erro da sua filosofia. Mas há outro não menos importante e com efeitos mais perduráveis e amplos, talvez. É o da sua concepção um tanto grosseira da matéria, que só o Hilemorfismo15 desfez. A Matéria seria o caos, que a Alma (a hipóstase imediatamente superior) organizava com as suas virtualidades e que só acidentalmente participava da beleza16. 125
Estas grosserias do pensamento são purificadas pela tese da criação e pela tese da matéria prima (de Aristóteles e S. Tomás) - não ens quod, mas ens quo - explicação última da matéria segunda, exigência da razão e, se o lógico é a expressão do ontológico, se há harmonia entre pensamento e realidade17, a própria verdade. Ora nem a beleza espiritual e participação intrínseca, mas apenas extrínseca da Divindade, nem a beleza da matéria só participa acidentalmente da beleza do espírito, mas é bela na própria essência. 126
Esta exaltação excessiva do espírito à custa do rebaixamento indevido da matéria tem o seu reflexo na Filosofia dos Valores. Também aqui se pretende que a matéria só é bela porque nela reside, a modo de participação acidental, a beleza do espírito. Ente e valor não se contradizem, mas contrapõem-se, segundo os axiólogos. O ser raciocina-se, o valor intui-se. É ainda uma reminiscência da intuição mística das hipóstases inferiores que se voltam para as superiores. É, mais proximamente,o arracionalismo, irracionalismo ou para-racionalismo, que se filia em Kant e cuja aplicação axiológica Lotze iniciou. 127
Nós, os tomistas, passamos por não ter aquela subtileza necessária para distinguir ser é valor - o que é e o que vale18. Mas os axiólogos, além de ignorarem o maior de todos os valores -  o valor ôntico - , parece não distinguirem o que se passa no mundo sobrenatural do que se passa no natural. O que eles dizem da matéria - que só acidentalmente participa dos valores cuja pátria é o espírito - dá-se com os valores sobrenaturais de que nós só podemos participar acidentalmente. E o que eles dizem do conhecimento intuitivo dá-se na Visão beatífica. 128
Mas este estudo não é de apologética: A simples compreensão do sistema tomista dar-nos-á todos os argumentos contra o erro. Os valores espirituais impõem-se por si e não é preciso negar os valores materiais para exaltar aqueles; respeite-se a hierarquia dos valores; demos mais valor aos superiores, mas não desprezemos os inferiores. Para nós, que temos a vida espiritual condicionada extrìnsecamente pela matéria e que temos a matéria na própria essência19 (porque não somos só racionalidade, mas também animalidade), estes são escadas indispensáveis para atingir aqueles. Fascinados pela beleza do Uno Transcendental Concreto, não neguemos a concretização predicamental do uno transcendental abstracto. 129
Purificados das grosserias que o pensamento comete quando ainda não atingiu a maturidade e se deixa dominar pela fantasia, unamo-nos a Plotino na contemplação e no amor do Uno. Uno é tudo, todos os seres e o Ser; sem unidade transcendental20 nada existiria; uno é a beleza. É aqui, no estudo do uno, que podemos encontrar a razão mais profunda do belo. À medida que se conhecer esse uno, conhecer-se-á o belo, porque o belo é o resultado do uno. Beleza não é um atributo a mais do transcendental, porque é o próprio uno. Mas beleza não é, por outro lado, o mesmo que uno, porque é ainda um resultado dos outros atributos ônticos. 130
   
   

 
   
   
2 — VERDADE E BONDADE  
   
Beleza não é só o próprio uno, mas é ainda a verdade. O ente transcendental, o ente como ente, tem um atributo absoluto que se confunde com ele próprio — o uno. Mas se, em vez de se considerar o transcendental em si mesmo, se considera em relação à faculdade cognoscitiva, então encontra­mos outro atributo — a verdade. Todo o ser como ser (prescinde-se aqui de ser tal ou tal, isto é, o modo de ser) corresponde à Causa Exemplar do Criador. O contrário repugnaria.21 131
Ora, se há essa coerência ôntica, segue-se que todo o ser é adequado ao conhecimento. Eis porque a beleza também resulta da verdade. Toda a beleza é cognoscível, e toda a faculdade de conhecimento tende natural e elicitamente para ela. Naturalmente — porque, se na inteligência há uma inclinação natural para a verdade, também a há, por meio desta, para a beleza. Verdade e beleza confundem-se no transcendental. Elicitamente — porque, uma vez vislumbrada que seja a beleza, a inteligência corre mais e mais para um conhecimento dela sempre mais e mais perfeito. É a ascese do esteta até o uno transcendental abstracto e, finalmente, concreto e sobrenatural. 132
Se, transcendentalmente, toda a verdade é bela, nas concretizações predicamentais há verdades não belas. É evidente que verdade como verdade é sempre bela, mas tal ou tal verdade22 é que pode não ser bela. Não é, portanto, uma negação do princípio, mas uma distinção elementar para evitar conclusões precipitadas. Também todo o ser como ser é verdadeiro, mas tal ou tal ser pode não o ser. Mas, o que se não pode converter predicamentalmente, converte-se transcendentalmente: toda a verdade é bela e toda a beleza é verdadeira. 133
Tomada em si mesma, a beleza é una; tomada em relação à inteligência, a beleza é verdadeira. Não há unidade e verdade, porque há beleza, mas há beleza, porque há unidade e verdade. Unidade e verdade (e portanto também beleza) existem, todavia, porque o ser existe. Quer dizer: embora o transcendental seja só um e. nele tudo se confunda, nós, como só pensamos por aspectos, podemos estabelecer certas prioridades lógicas com fundamento na realidade (como vimos atrás). Assim teremos: ser é uno e verdadeiro e, por isso, é belo. Há beleza, porque há unidade e verdade, e há unidade e verdade, porque há ser. 134
Agora vê-se melhor que, de facto, beleza não é um novo atributo, mas apenas o resultado dos outros atributos com os quais se confunde. Beleza é (como facilmente se concluirá dentro de momentos) o conjunto dos três atributos ônticos. 135
Mas, como ainda não vimos a beleza nessa totalidade, passemos a um novo aspecto do ente e da beleza. A par da unidade e da verdade, faltou colocar um terceiro atributo que vamos considerar. 136
   
separadores
   
A harmonia que se encontra entre o ser e a inteligência, também se encontra entre o ser e a vontade. Todo o ser, enquanto ser, é apetecível, é bom. De facto, se considerarmos que o ser é analógico e que repugna a equivocidade, vemos facilmente o motivo dessa bondade. A semelhança é causa de amor e é na medida dessa semelhança que o ser é amável. Esta tendência natural23 para a posse do bem — isto é, para a felicidade — con­verte-se em tendência ilícita que aumenta na medida do conhecimento. Pode, porém, não ser consumada, porque a vontade é livre. Mas avançar neste ponto seria invadir a Ética e a Psicologia. 137
De três modos o ente é apetecível — como fim, como meio e como possuído. Ama-se um bem que se pretende alcançar — é o bem honesto. Ama-se um bem que nos leva a esse que se pretende alcançar — é o bem útil. Ama-se um bem que se possui — é o bem deleitável. É neste último que está a felicidade.24 138
Também o belo é apetecível e resulta, portanto, da bondade ôntica, É um bem estético e como esse bem é transcendental, segue-se que não só re­sulta da bondade como se confunde com ela. Todo o ser é bom e belo e, por isso, todo o belo é bom e todo o bem é belo — no mundo da transcendência. Não é bom, porque é belo, mas é belo, porque é bom (embora não seja só por causa disso). Bondade é, de facto, o atributo que resulta por necessidade absoluta imediatamente do ente. Belo, porém, é o atributo que resulta também por necessidade absoluta do ente e, por isso, se confunde com ele, mas não resulta imediatamente, senão mediante os outros atributos. Mas apenas há distinção de razão racionada menor. De facto, belo é a transcendentalidade ôntica, una, verdadeira e boa. 139
Mas então tudo quanto é desejável é belo? Então o útil e o prazer são sempre belos? Predicamentalmente é claro que nem sempre são. Mas todo o bem, como bem, é sempre belo e belo na medida em que é bem. Se a bondade acompanha a entidade e se a beleza acompanha esta, segue-se que também acompanha aquela.25 140
Daqui se partiria para uma ascese estética até o Uno e mais urna vez, purificados de todos os erros, nos uniríamos a Plotino na contemplação e amor dessa Suprema Hipóstase donde brota toda a beleza. 141
Não é levianamente que pretendemos que todos amem o belo: fundamentamo-nos no mais profundo da nossa natureza e da nossa onticidade. São elas que requerem a posse do ente uno e belo, porque só aí está a felicidade. E na posse, pelo conhecimento e amor, do Belo Transcendental Concreto e Sobrenatural está a suprema felicidade. 142
Só neste momento concebemos a beleza na integridade objectiva e sub­jectiva. Beleza é o uno transcendental, porque é objectiva, e é a verdade e a bondade transcendentais, porque é subjectiva, isto é, proporcionadas às facul­dades cognoscitivas e apetitivas. A transcendência ôntica na sua totalidade — ser e atributos (unum, verum e bonum)— eis a beleza. Desta compreensão metafísica do belo podemos partir para as várias partes da Filosofia do Belo, porque no mais profundo da onticidade, como vimos, se confundem, se sintetizam todas as noções — objectivas ou absolutas (unum) e subjectivas ou relativas (verum e bonum). 143
Do unum ir-se-ia imediatamente para a Filosofia Natural (Cosmologia e Psicologia)26 e, mediante o verum, para a Lógica e Crítica e, mediante o bonum, para a Ética. 144
Poderá estranhar-se que fale de Ética estética. Então o belo não é amoral? Ainda que o belo fosse, de facto, amoral, nada há integralmente belo que seja imoral, e, ainda, tudo que é belo, embora só parcialmente belo, sob o aspecto em que é belo, nunca é imoral. Mas, aprofundando um pouco mais, veremos que, se o belo nunca é imoral, não se segue que seja amoral. Pelo contrário, parece que temos de concluir que, se o belo é sempre bom (já o vimos), é porque também é sempre moral. Os actos humanos, se são bons, têm beleza ao menos ética. E toda a restante beleza também é moral enquanto diz conveniência com a natureza humana (e toda a beleza diz essa conveniência). Se o bem se deve praticar, porque é conveniente ao nosso ser e se o mal se deve evitar, porque é inconveniente, também o belo se deve procurar e a fealdade se deve afastar. Quer dizer: poderíamos fundar uma ética sobre o princípio de que tudo que é belo é moral e na medida em que é belo assim é moral e que tudo que é feio é imoral e imoral na medida em que é feio. Aristóteles, ao converter as ideias estáticas de Platão em formas substanciais dinâmicas, não olhou só ao seu aspecto ôntico, como pretende Hessen27, mas também olhou ao seu aspecto axiológico. A essência da natureza humana (é esta que aqui interessa) não é só ser, mas ainda dever-ser. Na adequação da existência com a essência ou com o dever-ser (que se confunde realmente com a essência e que só se distingue dela por uma dis­tinção de razão racionada menor) consiste a perfeição ética. Ente e valor não encontram só no Espírito Supremo pátria comum, mas encontram-na no transcendental abstracto. Se compreendemos bem o estudo dos atributos transcendentais, nada custará a concluir que o valor ôntico ou metafísico é o maior de todos os valores, porque é a síntese análoga de todo o mundo objectivo e axiológico. 145
Em resumo: só a beleza é conveniente à nossa natureza. Tudo está, agora, em saber considerar integralmente a beleza. Também na ética fundada na bondade se cai nas piores abominações se não consideramos, os bens se­gundo a hierarquia dos valores, 146
Depois de estudados Os fundamentos metafísicos da Estética e de aber­tos novos rumos para as ciências filosóficas e experimentais28 do belo, passamos a estudar essa hierarquia de valores estéticos que nos aclarará qualquer ponto obscuro. 147
   
   

 
   
   
B — AXIOLOGIA ESTÉTICA  
   
   

 
   
   
l — CRITÉRIO  
   
O primeiro passo para estabelecer ou, melhor, descobrir uma hierarquia é estabelecer o critério. Foi o que fizemos na primeira parte deste estudo (Consideração Dinâmica). Aqui é conveniente resumir.29 148
   
a) Critério Geral: 149
   
A potência limita o acto;  
Ora integridade e proporção são a potência da beleza e o esplendor é o acto :  
Logo integridade e proporção limitam o esplendor.  
   
E ainda:  
   
O que limita uma cousa é a sua medida;  
Ora integridade e proporção limitam o esplendor:  
Logo são a sua medida.  
   
b) Critério Especial: 150
   
I) Beleza essencial: A beleza essencial é tanto maior quanto menos limites potenciais tiver, isto é, quanto mais rica de notas essenciais, quanto mais simples for a essência. 151
II) Beleza necessária: A capacidade de beleza própria segue necessariamente a essencial. 152
III) Beleza acidental: A capacidade de beleza acidental segue a própria, mas depende de factores contingentes. Donde: 153
A) Nos seres de igual .capacidade30 de beleza essencial, o de maior capa­cidade de beleza acidenta! é o que tiver os acidentes mais íntegra e propor­cionadamente adequados às propriedades. 154
B) Nos seres de diversa capacidade de beleza essencial, o de maior ca­pacidade de beleza acidental é : 155
1) Per se31 — o mais rico ônticamente é também o de maior beleza acidental. 156
2) Per accidens — o mais rico ônticamente pode ter menos integridade e proporção acidentais (e, portanto, ser menos capaz de beleza acidental). Mas, ainda aqui é preciso distinguir: 157
a) Simpliciter32 — Q ser mais capaz de beleza acidental é aquele cuja soma de acidentes íntegros e proporcionados for mais rica. 158
b) Secundam quid — o ser mais capaz de beleza acidental é o mais rico ônticamente, se algum acidente revelar essa beleza essencial ou própria. 159
É evidente que o mais provável é que a capacidade próxima de beleza acidental acompanhe a capacidade remota (que é a proporcionada pela natureza do ente). Mas, como onde há acidentes há contigência33, pode acontecer v. g. que uma flor seja acidentalmente mais bela do que uma criança. Se, porém, globalmente, essa flor tem mais beleza acidental do que a criança, também é muito provável que um acidente ou outro da criança seja mais belo do que os da flor. Aquilo que pela essência é muito mais belo, embora aci­dentalmente seja horrível, talvez tenha alguma particularidade (o olhar ou o falar v. g.) que esteja de harmonia com a dignidade estética da substância. 160
   
   

 
   
   
2 — HIERARQUIA  
   
Resta a aplicação do critério exposto aos vários aspectos de beleza (também já estudados) para assim estabelecer uma hierarquia estética. 161
   
Prova-se: 162
   
a) Supremacia: 163
   
I) Do sobrenatural sobre o natural: 164
   
O que ultrapassa a cognoscibilidade natural é superior ao que não ultrapassa; 165
Ora o Belo sobrenatural ultrapassa e o natural não:  
Logo o Belo sobrenatural é superior ao natural.  
   
II) Do real sobre o quimérico: 166
   
O que existe realmente é superior ao que só existe na fantasia; 167
Ora o belo real existe realmente e o quimérico só existe na fantasia:  
Logo o belo real é superior ao quimérico.  
   
III) Do metafísico sobre o predicamental: 168
   
O que abrange todos os seres e o Ser é superior ao que só abrange uma parte dos seres; 169
Ora o belo metafísico abrange todos os seres e o Ser, e o predicamental só uma parte dos seres: 170
Logo o belo metafísico é superior ao predicamental. 171
   
b) A seguinte ordem nos predicamentos estéticos: 172
   
I) Moral: 173
   
O que resulta da conformação livre com a ordem natural é superior ao que resulta da conformação necessária; 174
Ora o belo moral resulta da conformação livre e o belo dos outros predica­mentos resulta da conformação necessária: 175
Logo o belo moral é superior ao dos outros predicamentos. 176
   
II) Espiritual: 177
   
O que é mais rico ônticamente tem mais beleza essencial; 178
Ora as substâncias simples são mais ricas ônticamente do que as compostas: 179
Logo os espíritos são essencialmente mais belos do que os corpos. 180
   
III) Filosófico-natural: 181
   
O que é mais rico ônticamente tem mais beleza essencial; 182
Ora as substâncias compostas são mais ricas ônticamente do que as suas propriedades:  
Logo as substâncias compostas são essencialmente mais belas do que as suas propriedades. 183
   
IV) Matemático34: 184
   
O que é mais rico ônticamente tem mais beleza essencial ; 185
Ora a quantidade é mais rica ônticamente do que as qualidades; 186
Logo a quantidade é essencialmente35 mais bela do que as qualidades36

.
187
   
V) Científico: 188
   
A beleza é proporcional à riqueza ôntica; 189
Ora as qualidades dos corpos são mais ricas ônticamente do que os seus acidentes -. 190
Logo as qualidades corpóreas são essencialmente mais belas do que os acidentes corpóreos. 191
   
VI) Artístico; 192
   
A) Argumento negativo: 193
   
A beleza é proporcional à riqueza ôntica; 194
Ora os artefactos (no que têm de artificial) têm menor riqueza ôntica do que os seres naturais:  
Logo têm menor beleza essencial37

.
195
   
B) Argumento positivo; 196
   
É mais belo o que possui só beleza e beleza exaltada do que o que pode ou não possuir beleza e a possui muitas vezes misturada com fealdade; 197
Ora as notas individuantes e os factos contingentes ora têm beleza acidental ora não, ora têm-na misturada com fealdade, e as obras de arte (no que têm de artístico) possuem essa beleza exaltada e sem fealdade: 198
Logo as obras de arte são mais belas do que as notas individuantes e os factos contingentes38

 
   
VII) Técnico: 199
   
Os artefactos em que a beleza não é exaltada são menos belos do que aqueles em que a beleza é exaltada; 200
Ora os artefactos técnicos não têm a beleza exaltada e os artísticos têm: 201
Logo os técnicos são menos belos39.

 
   
VIII) Científico latamente considerado: 202
   
Tem mais beleza40 o que obedece a leis certas do que o que é contingente;

203
Ora a técnica obedece a leis certas41 e as ciências impropriamente ditas não:

 
Logo a técnica tem mais beleza do que as ciências impropriamente ditas42.

 
   
Com esta contemplação dedutiva terminamos o nosso estudo — primeiro árduo (consideração dinâmica), agora fluente (consideração estática). É uma iniciação para o estudo da Estética tomista em Portugal. A cultura desta ciência traria soma bem grande de felicidade, porque muitos são infeli­zes por não saberem contemplar o belo que, afinal, se encontra em toda a parte. Teremos realizado não só uma grande obra de especulação, mas ainda de utilidade e caridade, quando desenvolvermos a cultura estética em Portugal. 204
É que as ciências — não me cansarei de repetir43 — quanto mais especulativas maior aplicação prática têm. É evidente: quanto mais se especula mais se aprofunda e se universaliza ou até se transcendentaliza. Por isso, a repercussão prática é tanto mais ampla e pormenorizada quanto mais especulativa for a ciência. É o caso da Metafísica e da Estética. 205





1

A Metafísica pode dividir-se em Crítica e Ontologia.

2

As duas negativas aqui não estão a reforçar-se, como se usa em português, mas estão a anular-se.

3

O transcendental predica-se imediatamente de cinco modos. Assim: ens considerado em si e afirmativamente é rés; negativamente é unum. Considerado em relação a outro é aliquid; em relação à inteligência é verum; e em relação à vontade é bonum.

4

Vid. F. — X. Maquart, Elementa Philosophiae,Tomus III-Metaphysica, II-Metaostensiva: ontologia; theologia naturalis; Parisiis, Andreas Blot, 1938; pág. 106.

5

Esta é a abstracção mais difícil. Talvez se lhe chamasse melhor total (porque abstrai toda a onticidade) e 3,° grau à que abstrai a quidditas (essência).

6

Universal é o que se predica de muitos unívoca e divisamente, isto é, no mesmo sentido e tanto do todo como de cada parte. Transcendental é o que se predica de todos analógica e divisamente. Colectivo é o que se predica só do todo (indivisamente). São exemplos, respectivamente, homem, ente e exército.

7

Confusa — não porque se ignore o que seja, mas porque se não distinguem os seus inferiores cheios de diferenças essenciais. Ente é urna noção clara, mas con­fusa. Claro opõe-se a obscuro, e confuso, a distinto; pode haver uma cousa clara e confusa, mas não obscura e distinta.

8

O ente divide-se em aseidade ou ente por si (aseitas ou ens a se) — Deus — e abaliedade ou ente por outro (abalietas ou ens ab alio) — criatura —; este, em inseidade ou ente em si (inseitas ou ens in se) — substância - e inaliedade ou ente noutro (inalietas ou ens in alio) - acidente —; este, nos nove predicamentos abaixo da substância (vid. nota 2.ª da pág. 31), e aquele, em imaterial (espírito), e material (corpo); este, em animado (vivente) ou inanimado (mineral); aquele, em sensitivo (animal) e insensitivo (vegetal); aquele, em racional (homem) e irracional (bruto). Para baixo fica a ecceitas — a diferença individual essencial que se radica na matéria prima ordenada à quantidade. Estes são os modos de ser que citamos resumidamente para se ficar com uma visão de conjunto. Cf. o esquema da pág.26 in Paulus Dezza, S. L., Metaphysica Generalis, Romae, Apud Aedes Pont. Universitatis Gregorianae, 1945, 360 págs.

9

Cf. intuição do élan vital de Bergson.

10

Intencional, isto é, em que sujeito e objecto se identificam pelo conhecimento e amor, continuando, porém, distintos ônticamente

11

Só em sentido lato se chama tal; por isso nós preferimos chamar-lhe atributo. Propriedade é o que se predica de muitos necessariamente (não essencialmente); é o que se segue necessariamente à substância, são as suas partes integrantes. Ora não é este o caso.

12

A distinção pode ser real e de razão. A primeira é a que pode existir in re, é a daquelas cousas que, embora estejam unidas contingentemente, podem estar separadas. A segunda é a que existe no pensamento. Esta pode ser de razão racionada maior e menor e ainda de razão racionante. Na distinção real (v. g. homem e cavalo) há duas palavras, dois conceitos e duas realidades. Na distinção de razão racionada maior (v. g. homem e animal, isto é, parte animal do homem) há duas palavras, dois conceitos e uma realidade. Na distinção de razão racionada menor (v. g. animal racional e homem) há duas palavras e dois conceitos — um distinto e outro confuso — e uma realidade. Na distinção de razão racionante (v. g. «vir e mann, isto é, homem em latim e homem em alemão) há duas palavras, um conceito e uma realidade. Entre os atributos transcendentais e o ente e entre aqueles há distinção de razão racionada menor.

13

Essa indivisibilidade só é compatível com o simples.

14

Plotino tem uma interessante concepção estratificada e panteísta do ser. A primeira hipóstase é o UNO — perfeita unidade, simplicidade absoluta, acto puro. A segunda é a INTELIGÊNCIA, cuja essência são as ideias; tem unidade, porque as ideias não são independentes, mas tem composição, porque é constituída por ideias. A terceira é a ALMA, formada de forças que organizam a matéria; é composta, mas mantém alguma unidade, porque as forças não são absolutamente separadas. A quarta é a MATÉRIA — negação de ser, de uno e de perfeito.
O Uno — plenitude de perfeição — tende a manifestar-se, e dele emana a Inteligência, menos una, menos perfeita, que se volta para a hipóstase superior, a contempla e procura reproduzir mais e mais. E consegue tal unidade, embora nunca atinja-a mesma unidade da hipóstase de que emanou, que sente necessidade de se manifestar e, assim, dela emana a Alma. Esta contempla a unidade da Inteligência e procura aumentar mais e mais a própria unidade. E, por sua vez. procura fazer a Matéria participante da sua unidade ou perfeição. Mas esta só acidentalmente se torna una e não dá origem a outras hipóstases, porque a sua unidade é insuficiente, por mais que contemple a Alma e a procure reproduzir.
Em resumo: a unidade de uma hipóstase deve-se à superior e, quando de uma emana outra, a primeira não perde a própria unidade. O Uno é infinito: comunica mais e mais unidade e jamais perde essa unidade. As outras hipóstases participam desta fecundidade do Uno.

15

No mundo nota-se uma constante mudança das qualidades essênciais dos corpos (fenómenos químicos) e uma permanência constante da quantidade da matéria. Ou, pelo menos, notam-se mudanças profundas até de reino para reino (na morte, por exemplo). Daqui ou se conclui com Heráclito que tudo está a passar de ser a não ser e de não ser a ser e, portanto, é impossível pensar; ou acreditamos no testemunho do pensamento que é de conceitos estáveis e negamos o dos sentidos como Parménides. Ou se conclui, então, com um destes e cai-se no cepticismo e absurdo ou tem de se concluir que a essência dos corpos e constituída por um elemento - princípio da mudança - e outro - princípio da permanência. O primeiro é a forma substancial que diferencia as espécies, que diferencia a matéria real qualitativamente. O segundo é a matéria prima que diferencia os indivíduos, que diferencia a matéria segunda ou real quantitativamente. Estes dois princípios (entes quo) só existem unidos: da sua união resultam as essências dos corpos, da matéria segunda. Dentro de cada espécie há muitos indivíduos: logo há-de haver um elemento que fundamente a universalidade específica e outro a individuação. Matéria prima é a capacidade de ser alguma essência corpórea. Forma substancial é aquilo que faz com que a essência corpórea seja esta e não aquela, v. g. o que faz com que isto seja cão e não pinheiro. A matéria é o princípio passivo, que limita a forma. Forma é o princípio dinâmico que actualiza a matéria. Forma é a perfeição. Matéria é o que a limita. Forma é aquilo pelo que se conhece a essência. Matéria é o que limita esse conhecimento, é desconhecida. Forma é acto. Matéria é potência.
Não se confunda forma substancial e forma acidental, que actualiza posteriormente a substância. Aquela é da essência, esta é da ordem existencial. Esta distinção real de essência e existência torna-se evidente pela consideração das mudanças constantes dos indivíduos e da permanência das espécies. Isto, de facto, denota a contingência, o carácter temporal da existência, dos indivíduos, do concreto; e a necessidade, a eternidade das essências, das espécies, dos universais, do abstracto. A maneira de se saltar do concreto para o intemporal é a abstracção. É claro que nas cousas criadas a essência e a existência são inseparáveis. Uma cousa é distinção real e outra, separação. Distinguir é ordenar, e separar é destruir. Eis mais uma aplicação do acto e da potência. Essência é potência; existência é acto.

16

Vid. in Plotino, Le Enneadi, volume primo, Milano, Instituto Editoriale Italiano, 1947, L 285 págs. (texto grego e italiano), o capítulo Il bello -perì toû kaloû, pág. 206 a 235.

17

É o célebre problema dos universais da Idade Média e, afinal, de todos os tempos, porque é sempre actual e cada vez mais actual. Os Nominalistas dizem que não há conceitos universais, mas simples imagens colectivas. Ex: Heráclito, Epicuro e todos os materialistas, Roscelin. Os Conceptualistas dizem que há, mas que não têm correspondência na realidade. Donde dois caminhos: o do idealismo e o da experiência. Os primeiros raciocinam assim: - Se as ideias não correspondem à realidade, abandonemo-las e demo-nos às ciências experimentais. Ex: Guilherme Occam. Os segundos, pelo contrário, raciocinam: - Se se não atinge a realidade, demo-nos todos ao pensamento e deixemos aquela. Ex: Kant. Os Ultra-realistas afirmam, porém, que assim como se pensa assim existe a realidade. Ex: Platão, Parménides, Guilherme Champeaux, Hegel, Scoto. Nós, os realistas mitigados, afirmamos com aquele bom senso e verdade que caracterizam o Tomismo: - Há conceitos universais que correspondem à realidade quanta à essência, mas não quanta à existência. A essência é a mesma; a maneira como existe no pensamento e no real é que é diferente. Uma reflexão séria mostrará como esta é a verdadeira solução.

18

É interessante notar que já Plotino não considerava o Uno como ser, pois tratava-se da Suma Perfeição. Hoje também se pretende que os valores não sejam mas valham (em oposição a ser que é, mas não vale). Para nós, porém, o valor ou é ou não é. Se é, tem ser. Se não é, não passa de nada. O fundamento da questão está em que nós concebemos como ser tudo que não é nada. Plotino, porém, concebia o ser à maneira platónica: essência realizada. (Por isso é que Plotino também não concebia como ser a 4ª hipóstase).

19

O princípio da vida espiritual e das vidas inferiores no homem é um só - a forma substancial (a alma espiritual).  Mas, se nas suas funções superiores só é condicionada extrìnsecamente pela matéria, nas funções inferiores é condicionada intrinsecamente.  À medida que se sobe na escada dos graus metafísicos, a dependência da matéria é menor. Entre esses graus metafísicos - ente, substância, corpo, vivente, animal, homem - não há distinção real, porque não são separáveis, mas apenas distinção de razão racionada (maior entre os cinco últimos, e menor entre o primeiro e os outros, porque a onticidade penetra tudo). É certo que a forma substancial do homem é separável, porque subsiste após a morte do homem; mas isto não invalida o que dissemos, pois a substância humana nesse indivíduo desapareceu; a alma separada já não constitui o homem, pois falta-lhe outro elemento essencial — a matéria.

20

Não confundir o uno transcendental com o predicamental, que resulta da quantidade (primeira propriedade dos corpos).

21

Não confundir verdade transcendental com predicamental.  Recordar a nota da pág. 32.

22

Isto dá-se ou pode dar-se no que têm de acidental os seres naturais e no que têm de artificial os artefactos.

23

Tendência natural é a tendência cega. A constituição da faculdade orienta-a para certo objecto, mesmo antes de qualquer conhecimento. Tendência elícita é a que se segue ao conhecimento.

24

Felicidade é a posse do bem desejado. Felicidade suprema é a posse de todos os bens. Só em Deus se encontra o compêndio de todos os bens em grau infinito.

25

É interessante notar como o que acontece no 3.° grau de abstracção formal também acontece (de modo semelhante) no conhecimento mais rudimentar: a criança ou o inculto confunde beleza, prazer e utilidade.  Apenas aqui a confusão é lógica e indevida. Ali é real e devida.

26

Note-se que em Psicologia, para o estudo das faculdades cognoscitivas, requerer-se-ia a mediação do verum e para o estudo das faculdades apetitivas a do bonum.

27

Prof. Johannes Hessen, Filosofia dos valores, Trad. Cabral Moncada, Coimbra, Arménio Amado, 1944, pág. 69.

28

As ciências filosóficas (que atrás disse fundarem-se na Metafísica) tocam-se com as ciências experimentais. Assim: A Cosmologia e as Físico-Químicas e derivadas. A Psicologia Racional e a Psicologia Experimental, as Biológicas (Botânica, Zoologia e Antropologia) e as derivadas. Mas estas mútuas relações ainda vão mais longe: abrangem as próprias ciências de singulares como História e Geografia em todos os seus ramos. In E. Meumann, INTRODUCCIÓN A LA ESTÉTICA ACTUAL, Buenos Aires, Espasa-Calpe, S. A., 1946, 165 págs. (Colección Austral), evidenciam-se os serviços prestados à Estética Empírica pelos estudos de Etnologia, Pré-história, Antropologia, Geografia, Meteorologia, História da Cultura, da Técnica, etc.
É evidente que toda a ciência interessa à Estética, porque beleza e ser confundem-se.

29

Daqui até o fim são uma série de deduções do que já estudámos. Por isso apresento tudo em silogismos que é a forma mais eficaz de nos levar à evidência. Quase se dispensam explicações de tal modo isto é um resultado do que fica dito. É esta a tal contemplação — contemplação dedutiva — que prometemos a quem atingisse o cume da Metafísica — o Uno.
A análise destes silogismos será a melhor refutação daqueles que afirmam que esta forma de argumentação nenhum progresso permite. A conclusão (é só analisar bem) não está simplesmente implícita nas premissas : está em potência. Donde: na conclusão á um acto novo, um conhecimento novo, e portanto progresso. O silogismo, quando observadas as regras lógicas, nunca nos deixa enganar, pois, levando-se a argumentação até os primeiros princípios, atinge-se a primeira evidência.

30

Trata-se da capacidade próxima porque remotamente é claro que essa capacidade acompanha a substância.

31

Per se, aqui, não significa necessariamente, mas significa mais logicamente mais provavelmente.

32

Simpliciter aqui, não significa em absoluto mas na maior parte, na quase totalidade

33

Acidentes são os entes que não existem em si, mas noutro. São eles as propriedades e os acidentes propriamente ditos. Os primeiros seguem-se necessariamente à substância e os segundos seguem-se contingentemente às propriedades. É destes, portanto, que se fala.

34

A Matemática é dedutiva e do 2.° grau de abstracção e, todavia, ninguém nega a sua utilidade. Meditem nisso os pragmatistas e pugnadores contra a Metafísica.

35

As propriedades e acidentes também têm essência, e não só as substâncias, embora muitas vezes se confundam estes dois termos — essência e substância. Assim, por exemplo, a essência da substância é ser em si e a dos acidentes é ser em outro, ens in se e ens in alio.

36

Vid. Excurso VALORES QUALITATIVOS E QUANTITATIVOS no fim do presente capítulo, a pág. 67.

37

Simpliciter a Natureza é mais bela do que a Arte e a Técnica.

38

Secundum quid a Arte e a Técnica podem ser mais belas.

39

Per se assim é, mas nada nos diz que per accidens se não possa dar o inverso.

40

Tem mais beleza porque, de facto, o que obedece a leis certas tem mais integridade e proporção (causa material da beleza).

41

A técnica é a aplicação das leis científicas.

42

Per accidens pode dar-se o inverso. É sempre per se que falamos.

43

Vid. Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro, ALGUNS ASPECTOS DA ESCOLA NOVA, Porto, Manuel Barreira, 1948, pág. 9.




 
| II - Consideração Estática |
 






EXCURSO - I Aspectos



LEIS   NATURAIS  
   
As leis naturais podem ser absolutas, condicionalmente necessárias ou certas, e prováveis ou estatísticas. As primeiras são as que regem intrinsecamente as próprias essências das substâncias e até da propriedade quantitativa, são as filosóficas e matemáticas. As segundas são as que regem as propriedades (manifestações extrínsecas, mas necessárias da essência das substâncias), são as científicas propriamente ditas. As terceiras são as que regem os acidentes e factos contingentes (manifestações extrínsecas, remotas e mutáveis da essência das substâncias), são as científicas no sentido lato. As primeiras não podem mudar nem nada se pode realizar fora delas, pois seria o absurdo, a negação dos seres e do próprio Ser. As segundas podem ser alteradas pela intervenção directa da Causa Primeira (como acontece nos milagres). As terceiras variam por intervenção das próprias causas segundas. 206
Exemplos das primeiras: 1) O homem é um animal racional. Se não tiver alguma destas notas, deixa de ser homem; por isso É absurdo dizer-se, por exemplo, que um homem pode não ter corpo ou não ter alma, ou que o homem subsiste depois da morte, em vez de se dizer que a alma humana subsiste depois da morte e que o homem só voltará a existir depois da Ressurreição. Pois, se se chama homem ao composto dessas duas notas essenciais — animalidade e racionalidade,— como se compreende que se chame homem àquilo que não possui alguma delas? É o impossível, o absurdo, pois não se trata de meros nomes (que são convencionais), mas das realidades que, com tais nomes, exprimimos. Outro exemplo: Não há efeito sem causa (e os outros primeiros princípios). 2) 2 + 2 = 4, se encararmos a realidade que tais números expressam na base 10. 3) Faz o bem, evita o mal. Quer dizer: As leis absolutas podem ser filosóficas, matemáticas e éticas, ou simplesmente filosóficas e matemáticas (pois Ética é uma Ciência prática da Filosofia). Exemplo das segundas: Atracção da matéria. Exemplos das terceiras: Todas as que não podem alcançar a certeza, como: parte das leis psíquicas e as históricas (dependentes do livre arbítrio); pormenores de Anatomia; e as leis que ainda não conseguiram alcançar o universal, por se estar apenas na fase de investigação (por ex., leis atómicas ou, pelo menos, parte delas). 207
Há grande dificuldade em destrinçar estas três séries e sobretudo as duas últimas. Nas Ciências, uns querem ver determinismo absoluto e outros mero probabilismo. Ora a verdade é que Ciência nem é uma cousa nem outra. Ela atinge a substância, mas não na sua constituição essencial: atinge as propriedades, que se lhe seguem necessária, mas não essencialmente. Por um lado, porque são uma consequência necessária da essência, segue-se que não há mero probabilismo, mas necessidade; e, portanto, o cientista pode chegar à certeza, quando consegue chegar às condições de laboratório (em que, isoladas todas as restantes causas, se vê que determinado efeito só pode ser derivado de determinada causa). Por outro lado, porque estas leis regem as propriedades da substância, mas não a sua essência, isto é, são necessárias, mas não absolutas, ou, melhor ainda, porque são apenas condicionalmente absolutas ou necessárias, segue-se que não há determinismo, mas a intervenção directa da Causa Primeira pode provocar a sua suspensão ou operar fora dessas leis. Assim, vemos que as leis científicas (trata-se das propriamente ditas) nem são apenas prováveis nem absolutas, mas condicionalmente necessárias. Querer considerá-las absolutas é querer fazer da Ciência a própria Filosofia ou até a Religião — é o Cientismo. Querer considerá-las apenas estatísticas é rebaixar a Ciência e negar a ordem do Universo. Que a Ciência não tenha atingido, ainda, quase nenhumas leis certas (sobretudo qualitativas, pois quantitativas há muitas nas Físico-químicas) e que esteja quase só na fase de investigações, descrições e estatísticas — é uma Verdade. Mas que não possa atingir leis certas ou que não as haja — é «desculpa de mau pagador» ou repetir o desabafo tão pouco humilde da fábula: — «Estão verdes, não prestam.» Pior, todavia, é considerar como certo (ou até absoluto) tudo aquilo que não passa de hipótese, e sobretudo quando, com isso, se querem derrubar princípios metafísicos e religiosos. É que, de facto, a única maneira de atacar a Filosofia perene e a Religião Católica é alegando, como conclusões certas da Ciência, cousas que, às vezes, nem existem nem se comportam como os cientistas querem ou dizem. 208
Dado o atrazo da Ciência, também há grande dificuldade em saber quando um facto invulgar se dá por virtude directa da Causa Primeira (milagre operado imediatamente por Deus ou mediante os Anjos ou Santos) ou se dá por leis científicas ainda ignoradas. Atribuir tais factos invulgares a leis naturais não é impiedade, desde que se reconheça a Deus como Causa Última de tudo. Uma cura, por exemplo, operada por meio de sugestão ao rezar não é menor graça de Deus do que uma cura operada por milagre. Nestes casos só a autoridade do Sumo Pontífice, sobretudo se fala «ex cathedra», é satisfatória. Os milagres que o Santo Padre declara como autênticos (como os escolhidos para as canonizações) e os da Bíblia merecem crédito, devemos crer neles em absoluto. Nos outros devemos manter uma atitude de expectativa metódica. O contrário não só não é científico como não é cristão, pois só a verdade é cristã, e atitude contrária pode levar ao descrédito dos milagres autênticos. 209
O católico está obrigado, sob pecado mortal, a acreditar em toda a Revelação definida e, portanto, também em tudo que determinar a Infalibilidade Pontifícia. Mas não está obrigado, nem deve acreditar, em todas as revelações particulares nem em todos os supostos milagres sem uma crítica séria ou sem o pronuncio da autoridade eclesiástica. 210
Por aqui se vê como, se há distinção entre a Filosofia e as Ciências (e também entre estas como veríamos se aprofundássemos o assunto), também há uma consequente unidade a que chegaríamos se tivéssemos uma ciência (conhecimento) sintética como Deus ou mesmo já como os Anjos (em parte) têm. Não podem, pois, contradizer-se as Ciências, a Filosofia e a Teologia (revelada). E, de facto, nunca a verdadeira Ciência contradisse a Razão ou a Fé, isto é, nunca a realidade dos factos observados nos laboratórios as contradisseram: os cientistas é que, muitas vezes, concluem, precipitada ou facciosamente, o que cientificamente não podem concluir. 211
Sobre as relações das Biológicas com a Psicologia Racional vid. Vittorio Marcozzi, S. J., LA VITA E L' UOMO, Casa Editrice Ambrosiana, 1946, 404 pág.as, 104 figuras, 60 pág.as com fotografias, e larga bibliografia. 212
Sobre as relações das Físico-Químicas com a Cosmologia vid. o magnífico compêndio do meu ex-Professor da Universidade de Roma — Petrus Hoenen, S. J., COSMOLOGIA, Romae, Apud Aedes Pont. Universitatis Gregorianae, 1945,556 pág.as. E ainda: NOS CONFINS DA FÍSICA E LIMIARES DA FILOSOFIA, I Tomo: O ÁTOMO, pelo P. Jaime Maria Barrio, S. J., Trad.de P. Avelino Branco, Braga, «Pax», 1946. XXXVI + 295 pág.as e 103fig.as. (Este último livro, num ou noutro ponto, parece já não estar actualizado na parte científica, é claro, e não na filosófica). 213
   
   

 
   
   

EXCURSO - 2 Hierarquia



VALORES QUANTITATIVOS E QUALITATIVOS  
   
Esta superioridade da Matemática sobre as ciências mostra-nos o forte condicionalismo material das substâncias compostas, sendo assim enormemente limitado o esplendor da forma. De facto, a quantidade fundamenta-se mais na matéria prima e as qualidades na forma substancial. "Quantum" diz relação à matéria e "quale" à forma. Donde pareceria concluir-se exactamente a superioridade das Ciências sobre a Matemática — se nós não soubéssemos que a quantidade é o primeiro acidente que se segue à substância material, que a Matemática atinge o segundo grau de abstracção e leis de necessidade absoluta (ao contrário das Ciências que são do primeiro grau de abstracção e apenas têm leis de necessidade condicionada, como vimos no Ex­curso "Leis Naturais" a pág. 25). 214
Pareceria, de facto, que as qualidades (que dizem relação à forma) é que informariam a quantidade (que diz relação à matéria) exactamente como se dá nos elementos a que dizem respeito. Mas o paralelismo não vai tão longe, pois, embora a quantidade se funde na matéria, o facto é que resulta já da união substancial da forma e da matéria. Quantidade é já uma propriedade e não é a própria substância. O mesmo se não dá com a individuação essencial, pois esta não é uma propriedade, mas uma diferença de essência dentro da mesma espécie. O fundamento do indivíduo na matéria é mais estreito, mais próximo, do que o fundamento da quantidade na mesma ma­téria. Indivíduo é a própria substância; quantidade é uma das suas manifestações (necessária sim, mas não essencial). 215
Mas o aparente conflito que se dá entre uns argumentos que nos levam a concluir pela superioridade do quantitativo e outros pelo qualitativo tem ainda uma outra explicação que projecta nova luz sobre o problema. 216
A Matemática pode ser considerada sob dois aspectos — o abstracto e o concreto. Matemática abstracta é a que estuda a quantidade na sua essência (que consiste em possuir partes integrantes. Matemática concreta ou aplicada é a que estuda a quantidade na sua manifestação existencial, isto é, no seu acidente chamado extensão. 217
Assim parece poder concluir-se que a Matemática abstracta (quantidade contínua ou discreta) informa as Ciências semelhantemente à Filosofia que informa a Matemática e as Ciências. (Evidentemente a substância informa as propriedades e os acidentes, e os primeiros princípios informam e legitimam as conclusões matemáticas e científicas). E ainda parece concluir-se que, pelo contrário, a Matemática concreta (extensão contínua ou discreta) limita as Ciências, condiciona-as, mas não as informa, pois estas é que informam aquela. (As propriedades informam os acidentes da mesma substância). 218
Por isso, na Ciência, o aspecto principal é o qualitativo, pois deste interessa-lhe a própria essência, e do quantitativo só lhe interessam as manifestações acidentais. E ainda mais: na medida da perfeição do ser, dá-se a libertação da Matemática concreta, isto é, na medida em que o ser-se liberta da matéria, a propriedade quantitativa cede lugar às qualitativas. É o que se dá em Biologia por mais que custe à rotina e comodidade das inteligências. Será também o que se vai dar, em certa medida, na Microfísica e até nas outras Ciências? Mas, embora as Ciências sejam matematizadas, têm sempre o seu aspecto especificamente diverso da Matemática — o aspecto qualitativa. Na medida em que são matematizadas, possuem beleza matemática. Na medida em que são qualitativas, têm beleza científica. 219
   
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Que responder, então, à pergunta: — É mais importante (e por conseguinte mais belo) "simpliciter" o aspecto quantitativo ou qualitativo das cousas? 220
"Secundum quid" já vimos que o aspecto qualitativo pode ser mais importante. É o caso das Ciências, sobretudo biológicas, pois o seu objecto formal são as qualidades. É evidente que, para cada Ciência, o mais importante é o seu objecto formal, embora os objectos formais das outras Ciências o superem em dignidade ôntica e estética. 221
"Simpliciter", isto é, em absoluto, o problema, portanto, é diferente; e teremos, assim, de responder que a quantidade supera as qualidades em beleza. Quantidade, embora diga relação à matéria, está mais próxima da substância e, portanto, também da forma (que é o esplendor). 222
Mas se por "quantitativo" entendermos não a essência da quantidade (que consiste em haver partes integrantes), mas a sua manifestação acidental, isto é, a extensão, então responderemos que o qualitativo é superior ao quantitativo. De facto, a essência das qualidades supera a extensão: o necessário supera o contingente. É verdade que, quando se muda de uma ordem substancial para outra, os acidentes da ordem superior, apesar de acidentes, talvez tenham maior valor ôntico e estético do que as substâncias de ordem inferior. Mas aqui estamos na mesma ordem substancial, apenas em planos ônticos acidentais (no sentido amplo de não substanciais) diferentes. Por isso o contingente quantitativo (extensão) vale menos do que o necessário qualitativo. 223
Este é um dos pontos mais profundos do erro democrático — fazer depender do contingente (número de votos do sufrágio universal) o necessário (qualidade das resoluções). A verdade não depende do número. Pretendê-lo é um absurdo cuja consequência é a anarquia, o caos. Mas não é só a análise filosófica a mostrar tal erro. A História tem eloquência muito semelhante. Mas este não é o único erro democrático: Além de querer subjugar o necessário pelo contingente, quer ainda que este subjugue o substancial, e que a matéria subjugue o espírito, e o indivíduo a pessoa, e o humano o divino. É o ponto culminante da inversão dos valores, pois atinge a heresia. 224
E se considerarmos agora o quantitativo e o qualitativo, ambos no plano contingente, isto é, nenhum na sua própria essência, no plano necessário, mas nas suas manifestações acidentais ? 225
"Per se" os acidentes seguem as propriedades respectivas, e, portanto, os acidentes quantitativos superam os qualitativos. Mas "per accidens" pode dar-se o contrário; e, como no campo acidental tudo é contingente, só se poderão resolver os problemas em concreto. 226
   
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Mas fica ainda por esclarecer uma outra aparente contradição, que talvez já tenha surgido ao ler este Excurso e até já no outro Excurso, LEIS NATURAIS, a pág. 25. 227
A quantidade é uma propriedade e, portanto, não é de necessidade absoluta, mas condicionada: Como se compreende que a Matemática, que a estuda, tenha leis de necessidade absoluta ? (o objecto especifica a ciência). 228
Quando se diz que a quantidade é uma propriedade e, portanto, apenas condicionalmente necessária, significamos que a substância, metafisicamente, pode existir sem a quantidade, pois esta não lhe é essencial, mas apenas necessária. Metafisicamente pode conceber-se tal, à Causa Primeira isso é possível; fisicamente é que temos de conceber sempre o todo. Mas, quando dizemos que a Matemática tem verdades absolutas (que nem metafisicamente se pode conceber doutra forma, pois incluiria um absurdo, uma contradição, e, mais do que em qualquer outro ser, em Deus não podemos conceber absurdos), quando dizemos que a Matemática tem verdades metafisicamente absolutas, significamos que as leis que regem a essência da quantidade são de necessidade absoluta; e de modo nenhum significamos que a existência da quantidade seja de necessidade absoluta, que ela tenha de seguir-se infalivelmente à substância. É afinal o mesmo que se dá com a própria substância. Homem não pode deixar de ser animal racional, porque esta é a sua essência; mas isto não nos diz que tal essência tenha de existir. Só o Acto Puro existe por essência. 229
É interessante notar que na essência das qualidades já não encontramos essa necessidade absoluta, mas apenas uma necessidade condicionada. O motivo deve ser a quantidade estar mais proximamente radicada na substância. E por isso é que as qualidade se apresentam já informadas pela quantidade, quantificadas, digamos assim. E, de facto, nas Ciências nós encontramos não apenas leis qualitativas, mas ainda quantitativas; e, por infelicidade, por comodidade mental e desvio científico, o conhecimento destas é imensamente mais numeroso do que daquelas. No entanto, o qualitativo é o que há de mais específico nas Ciências, e só por leis qualitativas poderemos penetrar no conhecimento dos seres superiores. O motivo, já vimos, é a qualidade dizer relação à forma e a quantidade à matéria. Já nas Ciências de anorgânicos as leis quantitativas não nos dão a verdade integral; mas, nas Biológicas, nem se fala. E que diremos, então, se se trata da Psicologia experimental ? 230
Assim parece ficar bem definida a atitude mais coerente com o Tomismo, mais verdadeira, perante o problema dos aspectos quantitativo e qualitativos dos seres. 231
 
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