Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro

Utility Link
Índice | Estrela Do Belo | Sororidade em Três Frentes | Epílogo ou recomeço? | Excursos | Actualizações
Índice | Interesse Missionário do 2° Concílio do Vaticano | Para uma espiritualidade missionária | Da vida africana à vida religiosa | Actualizações
Índice | Apresentação do Tema | Qual o Ideal da Mulher Banta no Futuro? | Excursos | Actualizações
Índice | A Bantafonia e a eficácia da palavra | Excursos | Actualizações
Índice | Agradecimentos | Preâmbulo | Base de Dados | Cultura | Excursos | Actualizações
Índice | Sociedade Vegetariana de Portugal | Livraria Moderna | Excursos | Actualizações
Revolução desconseguida? | Índice | Mochila rasgada | No limiar dos quinhentos anos | Epílogo recusado ou pistas para um recomeço? | Excursos | Actualizações
Índice | A incompatibilidade entre a ordem e matrimónio | A prova dos nove e a prova real | Excursos | Actualizações
Índice | Introdução | As nove ratoeiras | Intervenções | Diário | Epístolas postais | Epístolas eletronicas | Livros | Peças de teatro | Filmes | Telenovelas | Programas | Viagens | Excursos | Actualizações
Actualizações | Links úteis
Índice | Posfácio | Excursos | Actualizações

OTHELANA

othelana





othelana01



Arquivo Histórico de Moçambique

2001
    
   
 
    


Índice




indice

    
 

 
    


Primeira Parte



othelanap01






    
 

 
    


CAPÍTULO PRIMEIRO



othelanap01c01
Surpreendi-o sentado naquele recanto do sopé de abruptos rochedos – emoldurando um casal de austrolopitheci africani esculturado – no Dinossaurus Park, a sessenta metros de Sudwala Caves e mesmo defronte de Pierre’s Mountain Inn. 1
Camuflado em austrolopithecus africanus?
Era o último dia do ano 2000 e do século XX. Sidney já entrara (desde as quinze horas da África do Sul) no século XXI. 2
Marco milenar
 A vegetação é tal que, em certos recantos, os raios do sol mal penetram. A tarde estava belíssima. De manhã ecoaram alguns trovões, realçando ainda mais a majestade das montanhas. Sempre que uma nuvem encobre o sol, todas as cores se alteram. Um acinzentado, cheio de fascínio, até parece modificar as formas. Mas uma brisa, suave,  passa, e os coloridos ressurgem – sempre diferentes e sempre belos – e nos estremecem de encanto e alegria. 3
A cor altera a forma?
Surpreendi-o ali, naquele banco verde a dar com o musgo e a restante vegetação, sempre contemplativo, profundo e sociável. 4
Dominado ou dominante?
Estava a olhar para o século XXI, já uma realidade em certas longitudes, a partir do meridiano cento e oitenta (East ou West, neste caso, é indiferente), lá para as bandas das ilhas Fidji, e, dentro de algumas horas, também aqui, no meridiano trinta e um leste. 5
Onde oriente e ocidente se abraçam
Estava a pensar em como aproveitar a vida em todos os seus aspectos belos, nos primeiros anos do terceiro milénio, não num optimismo bacoco e insultante perante o sofrimento da grande maioria dos seres humanos, mas baseado nos três quartos de século já vividos com todos os fracassos que é preciso evitar no futuro e também em todas as descobertas das novas gerações, que é preciso não continuem a beneficiar, como até aqui, apenas uma minoria de privilegiados. 6
Esperança cibernética
Era o João, ele mesmo! Já o havia surpreendido com a Madalena (e uma irmã mais nova desta) extasiados perante os últimos raios do sol a penetrarem os vitrais e a transfigurarem as naves da igreja da Graça, em Santarém, naquele inesquecível Ribatejo, lá pelos anos quarenta e quatro, do século passado1. 7
Do gótico do norte à natureza do sul
Ela estudava medicina, ou, pelo menos, tencionava entrar nessa faculdade, em Lisboa, a irmã  estava no ensino secundário, ambas educadas em colégio de freiras, embora a família, se bem me recordo, não alinhasse muito em misticismos. Ele estudara Filosofia perene em Vilar e, agora, prosseguia nos Grilos, de cuja cela se contemplava o Douro, já não muito longe da sua Foz. 8
Dois percursos
Ele – ia para Lisboa, de comboio, mas, ao parar na estação de Santarém, teve um súbito desejo de conhecer mais essa cidade. Ela – era mesmo ribatejana e vivia naquela pequena cidade, capital da província. E foi assim que os dois, que jamais se tinham visto, se encontraram, extasiados perante as formas e as cores de um pôr do sol filtrado pela rosácea e outros vitrais e a transfigurar um gótico já de si arrebatante. 9
Pausa inesperada
Amizade à primeira vista, nascida do Belo, e a contemplar o Belo (não a olharem-se um ao outro), irmanados/sororiados pelos mesmos (ou muito semelhantes) pensamentos, sentimentos, emoções... 10
Sintonia
Escreveram-se algumas vezes, sempre voltados para a Beleza imanente e sobretudo transcendente, numa pureza nada angélica (quem quer fazer o anjo faz a besta... – diria Pascal), mas numa pureza humana bem real. 11
Nem anjos
nem bestas
A amizade tem sempre uma plataforma de interesse, entendimento e admiração mútua e, sem excluir género e sexo com todas as suas implicações enriquecedoras, prescinde da atracção genital (que já levaria a outra2 espécie de amor):  Madalena e João movimentavam-se no mundo da mística estética, sem nunca esquecerem que de uma amizade entre mulher e homem se tratava. 12
O Belo como plataforma
Celibatárias e celibatários plenamente realizados – aceito que possam haver, e felizmente, por muitos motivos: pela desproporção numérica entre os sexos, pelo enriquecimento da diversidade de estados de vida, pelo contributo que podem dar aos casados, vendo o matrimónio de fora, sob outros pontos de vista, desinteressadamente, e até pela antecipação do que seremos após a passagem para a outra margem3. 13
Sinal da outra margem
Ser feliz (mulher ou homem) sem um certo número de amizades – é o absurdo, o impossível, além de aberração. Perpassa-me pela cabeça o que vi e soube de noviciados, conventos e seminários, que quiseram fazer surgir de mulheres e homens os tais anjos, e afinal fizeram aparecer ou, pior ainda, esconderam, sob hábitos e sotainas, as tais bestas, e das piores. 14
Hábitos, disfarces, máscaras?
Se é impossível a autenticidade da vida celibatária sem amizades, não o é menos a da vida conjugal. Podem ter os seus riscos, com desvios e degenerações, mas não se conquista a felicidade sem arriscar. Sem temeridades nem cobardias, há que ter a coragem da abertura: só a nível genital é aceitável (e penso que necessária) a exclusividade. 15
A grande aventura
Perdoem-me os meus compatriotas polígamos, que até entram em contradição constitucional ao, afinal, só serem polígamos a meias, porque querem a poliginia e não toleram a poliandria... 16
A grande contradição
Também seria de desconfiar de amizades só com homens ou só com mulheres, quer da parte destas quer daqueles. Como de desconfiar seriam amizades só entre casais: coincidências demasiadas, a saberem a conveniências e hipocrisia. A amizade (como qualquer outra forma de amor) é por essência livre, e a liberdade é imprevisível. É o tal grande risco, mas essencial à felicidade. 17
As coincidências manipuladas
separadores  
 
João, aos vinte anos, quando ainda vivia na tal cela n.º 36 donde contemplava o Rio Douro através de uma diminuta janela de guilhotina, escrevera com destino à secção Rumo ao Lar da Revista FLAMA: 18
naïvely
Era belo o Éden... e Adão sentiu um vácuo na sua vida... Algo (hoje diria, tenho a certeza, alguém) faltava para a plenitude da beleza e graça paradisíacas. 19
Vácuo psíquico
Espaços infinitos. Montanhas sublimes. Vegetação graciosa. O homem sofregamente contempla, comunga na criação... e sente a alma vazia. Tudo isso, porventura, não é o reflexo da Verbo eterno? Não foi Ele que criou, não foram as Virtudes que harmonizaram? A alma humana, porventura, não é capaz de apreender a sublimidade do universo? 20
...e espacial
Sim: mas o universo é grande de mais e pequeno demais, ao mesmo tempo, para poder, por si só, satisfazer as ânsias terrenas do homem. Grande demais: o homem, ao contemplar a Criação, vai de elemento em elemento, de beleza em beleza, e anseia comungar simultaneamente em todo o universo – anseia o impossível. Pequeno demais: o homem é maior do que todo o universo – este, mesmo para ideal terrestre, não lhe basta. 21
A falha de sentido
E não faria Deus uma criatura que sintetizasse as maravilhas de todo o universo e que fosse tão grande como o homem? 22
Onde encontrá-lo?
Sim: Artista sublime, deu-nos a mulher – síntese da beleza e graça universais. A mulher trouxe a plenitude à Criação. Quer dizer: esta não teria sentido sem aquela. 23
Solução personificada
E agora o homem já tem toda a beleza da ciência ou arte a que se dedica, toda a graça das paisagens que ama, sintetizadas, concretizadas naquela – talvez desconhecida ainda – que Deus lhe destinou para ser a sua felicidade na terra, para o conduzir à outra margem (diria ele agora). 24
...e concretizada
Jovem: Compreendeste quanto amor deves dedicar às moças? Compreendeste a gravidade de uma indelicadeza para com aquelas que nos trouxeram a felicidade terrestre? 25
Ingenuidade
da idade
e/ou do ambiente?
Trata-as com simplicidade e prudência. Nem haja promiscuidade (caos) nem separação (morte), mas equilíbrio máximo; pois, se há perigos nas relações lícitas, também os há – e não menores – nos falsos pudores, nos olhares furtivos, nos escrúpulos... diante dos outros, no retraimento, na perturbação de certos encontros, na fuga de tais encontros. 26
Convivência com naturalidade
Jovem: Ama e respeita as moças, e lembra-te de que és criminoso repugnante se tentares o menor abuso contra o que há de mais belo, gracioso e santo no universo – a mulher. [30 de Abril de 1945 27
Profanar o que há de mais belo?
Contemplemos o globo. Selva: vegetação exuberante, fauna vastíssima, calor insuportável, chuvas abundantes. Deserto: gelo, gelo e só gelo, brancura virginal, temperatura a sessenta graus negativos, tempestades de neve, fauna singular. 28
Na selva
ou no deserto
As paisagens terrestres são de uma beleza jamais apreendida totalmente. Mas, faltando-lhes a mulher, não atingem a plenitude, nem enchem todo o vácuo da alma ansiosa do artista. 29
sem a mulher
Não é, porventura, a beleza sedutora e já lendária das mouras que culmina a poesia do monótono deserto? A esbelta pele vermelha que culmina o encanto da selva das regiões interiores da América? E a graciosa chinesa que culmina a beleza do Extremo Oriente? Ou não é, porventura, a negra que nos sacia os ardores africanos e nos arrebata até os píncaros da beleza mais pura? 30
nada tem sentido nem solução
E o que dá vida às planícies do Alentejo, às montanhas da Beira, às regiões minhotas? São as ceifeiras, as pastoras, as moças do campo. 31
O mesmo
 nas planícies
ou nas montanhas
Mas vamos às cidades, às escolas, aos lares. Se não encontrarmos a mulher, não encontramos a beleza, a graça – ficamos insatisfeitos, tristes. 32
ou nas cidades
Deus, conhecendo bem a psicologia do coração do homem, não podia ter subalternizado a figura feminina no cenário bíblico: pelo contrário surge como essencial em toda a caminhada vétero e neotestamentária, culminando em Maria de Nazaré. 33
Elemento essencial
De facto, a mulher não é só um elemento de adorno para satisfazer as exigências do artista; mas é indispensável para a vida, para a educação, para a cultura, para o progresso, para a felicidade terrestre e para nos conduzir à que não perece. 34
imprescindível
Sendo assim, que dizer daquela pseudopsicologia que parece querer enclausurar cada sexo no seu convento? E os erros desta educação fechada, desumana, mesquinha levam à reacção igualmente desumana e mesquinha: à libertinagem, à promiscuidade caótica, e à hipocrisia. 35
O absurdo
dos absurdos
Jovem, pai de amanhã: é preciso conseguir aquele meio termo em que consiste a perfeição. A educação tem de ordenar-se às relações com o sexo diferente, que hão-de ser, acima de tudo, impregnadas de respeito e cordialidade. 36
Naturalidade
 no convívio
Não se trata de fomentar ocasiões perigosas, situações equívocas, armadilhas, temeridades. Trata-se, isso sim, de criar um ambiente aberto e amplo, onde não se fala de uma rapariga senão com palavras e sorrisos maliciosos, onde se não olhe para uma rapariga senão com intenções torpes, onde se não converse com uma rapariga senão com perturbação... porque os outros estão a ver ou porque se não está habituado, onde a aparição de uma mulher não seja causa de estranheza ou de sofrimento psíquico4; mas, pelo contrário, onde se fale, se olhe, se pense, se conviva com o sexo diferente com aquela naturalidade, simplicidade e pureza com que Jesus de Nazaré nos ensinou nos colóquios íntimos que manteve com a adúltera, a samaritana e, sobretudo com Maria Madalena. [1 de Maio de 1945 37
Paradigma
de há dois mil anos
E, depois de sobrevalorizar, como na época se fazia, a castidade, teve o bom senso, pelo menos, de vincar: o que é exigido às mulheres tem de o ser também aos homens. Nisto, já muito longe do pensamento comum da altura, e, infelizmente, ainda de agora, não em todo o globo, mas ainda em vastas áreas da sociedade humana. 38
Pelo menos,
não discriminar
E, com a mesma candura, perguntava, num quinto artigo, como deveria ser a escolha. E respondia: 39
A eleita!
...E o eleito?
1 – Há-de ter atingido já a aptidão, sob todos os aspectos, para o matrimónio. 40
Maturidade
2 – Há-de ser de meio social e cultural compatíveis. Não basta ser boa educadora e dona de casa, e muito virtuosa. É preciso que esteja à altura de compreender e auxiliar o cônjuge. De outro modo, de um lado haverá um sentimento de incompreensão e, do outro, de inferioridade. Não é que se exija cultura idêntica, mas certa proporção. 41
Compatibilidade
3 – Há-de completar psicológica e moralmente as deficiências do parceiro. Para um temperamento nervoso, convirá alguém que domine os próprios nervos e os dos outros. Para um irreflectido, convirá alguém que ponderado. Para um temperamento fleumático, alguém com inclinação à actividade. E, assim sucessivamente. 42
Complementa-
ridade
Mas os feitios só devem ser diferentes na medida necessária para se não aborrecerem, se não chocarem e se completarem, pois é indispensável que sejam também semelhantes na medida necessária para se compreenderem e se não chocarem. Só assim se completam verdadeiramente, se aperfeiçoam, só assim há aquele equilíbrio – perfeição máxima. 43
Proporcionalidade
Duas pessoas excessivamente faladoras chocam-se. Duas excessivamente caladas aborrecem-se. Uma excessivamente faladora e outra excessivamente calada não se compreendem.  Uma bastante faladora mas também um pouco calada, e outra bastante calada, mas também um pouco faladora – têm    condições magníficas, sob este aspecto, de se darem bem. 44
Diferenciação
Devem ainda completar-se moralmente. Aos defeitos de um. devem opor-se as virtudes do outro. Assim se aperfeiçoarão mutuamente, o que seria mais difícil se ambos tivessem os mesmos defeitos 45
Reciprocidade
4 – Há-de haver atracção natural e mútua. Esta principia, umas vezes, pelas qualidades fisiológicas, outras, pelas sociais, outras, pelas morais, etc., mas é indispensável que, depois, se estenda a todo o ser, segundo a hierarquia dos valores. Sem este atractivo integral, como viria a ser também sinceramente integral a doação no matrimónio e na vida? [3 de Maio de 1945 46
Atracção
E João terminava estes cinco artigos, que não sei se alguma vez foram publicados na FLAMA, com uma referência àquela dimensão específica do amor conjugal entre cristãos: sinal imanente e eficaz de um outro amor, este transcendente e inefável. 47
Sacramento
separadores  
 
É neste contexto (mas talvez uns dois anos antes de escrever estes artigos) que João descobre, quase em cumes de montanhas do Douro Litoral, e nas proximidades de minas de volfrâmio exploradas por alemães, a Marta, aquela mulher que, mais tarde, lhe pareceu ser, entre as amigas, aquela que preenchia as quatro condições acima referidas. 48
Num enquadramento geográfico
Era na II Guerra Mundial. Historicamente aliado à Inglaterra, ideologicamente ligado à Alemanha, diplomaticamente neutral5, Portugal, de bom grado, ia dando ao Eixo Roma-Berlim-Tóquio a sua ajudazinha, com volfrâmio e não só. Os novos ricos proliferaram e originaram todas aquelas anedóticas atitudes, muito semelhantes às da burguesia do pós Revolução Francesa e, mais tarde, às das emergentes burguesias de assimilados do pós independências africanas. 49
histórico
Mas o volfrâmio, a par de gerar dessas comédias cómicas, também gerou trabalho a muito honrado cidadão a braços com o desemprego. E foi num desses lares, onde se fiava linho e todas as noites se rezava o terço, que João encontrou a Marta, nesses dias, ali de férias. 50
familiar
A casa era de madeira, na encosta da montanha, apoiada em paus que davam para o ribeiro, cujas águas toda a noite se ouviam. Ali todos eram calorosamente acolhidos, e João foi um deles. 51
arquitectónico
Marta era aberta, activa, sem preconceitos: não se deixava ir na onda, não se acomodava a este mundo, mas tinha ideias claras, expunha-as e lutava. Hospitaleira, prestável, delicada, eloquente, trabalhadora, prática. 52
surge a eleita
Gostaria de ir para a Universidade, mas a família não tinha posses e irmãos havia que também o queriam. Muito simples: empregou-se e ganhou dinheiro. Nem o sexo nem a pouca idade a inibiram de fazer o que entendia: viajar, andar de noite, ter alunos mais velhos do que ela. O importante era ser competente, cumprir o seu dever, atingir os seus fins. 53
Pragmática,
Ser prática não significava que não sonhasse. Pelo contrário, o seu pragmatismo exigia mesmo ter grandes ideais. Que valia discordar se não tivesse alternativas? 54
mas com ideais bem concretos
Poderia concordar com separação de sexos, por exemplo, em asilos, colégios ou fosse lá onde fosse? Ou uniformes? Ou longas filas? Ou educação em série? Ou preconceitos de género? Poderia concordar com órfãos, que além da separação forçada dos pais, ainda tivessem de separar-se dos irmãos, só porque uns eram de um sexo e outros de outro? 55
Inteligentes,
esclarecida
E poderia ficar inactiva perante todas essas aberrações? Poderia deixar de planear, procurar companheiras e companheiros, angariar meios? Sem revolta (o que seria apenas negativo), mas decidida, manifesta-se com sinceridade e entusiasmo, cativa, insinua-se (o que é, sem dúvida positivo e parece que eficaz). 56
Sedutora
João apaixona-se pela mulher com tais qualidades e tais ideais, não logo à primeira vista, mas depois de muitas vivências e muita reflexão. A amizade não tardou a surgir, mas o amor foi amadurecido. 57
E seduzido
Este foi o João que eu conheci outrora e em outras latitudes, e agora reencontrava no limiar do terceiro milénio. 58
Meio século depois





1

Este texto foi continuado no Arquivo Histórico de Moçambique, Quinta-feira, 26 de Julho de 2001.

2

Cfr. RIBEIRO, Júlio – A única lei e o único vínculo / Liberdade omitida e equívocos do amor. “jornal fraternizar” n.º 112, PT – 4510-460 S. PEDRO DA COVA Rua 25 de Abril, 10), Associação P. Maximino, Abril 1998, págs. 3-5.

3

Sobre a opção do celibato como sinal da outra margem, vid RIBEIRO, Júlio Meneses Rodrigues / de colaboração com Giovanni Battista Brentari, O. F. M. Cap. – Da vida africana à vida religiosa, Quelimane, 1971, 160 págs. [Separata dos n.ºs 63 a 66 de “Itinerarium”

4

Referência ao ambiente que se vivia em liceus e sobretudo em colégios,  seminários e conventos.

5

Os cidadãos, esses, dividiam-se entre anglófilos e germanófilos: verdadeiramente neutrais, não sei se existiam, embora eu próprio, ingenuamente, tenha discursado nesse sentido no anfiteatro do Liceu Alexandre Herculano, se não me engano, pouco depois da Rússia ter invadido a Finlândia.




    
 

 
    


CAPÍTULO SEGUNDO



othelanap01c02
Giovanni Papini, na HISTÓRIA DE CRISTO – obra que tão pouco temos  utilizado e que tão maravilhosamente se presta a levar a figura e a doutrina do Salvador aos meios não piedosos e até os meios descrentes ou hostis – Giovanni Papini, querendo, em certa passagem, aliás deliciosa, sobre o matrimónio e a virgindade, exaltar a vantagem, a necessidade mesmo, do celibato para quem se dedica a certas missões mais graves (pág. 168), parece conduzir longe demais um antagonismo que, se bem analisarmos, não é absoluto, mas relativo. 59
Antagonismo equívoco
De facto, não é pela própria natureza do matrimónio, mas pelas condições em que ele se efectua após a queda original3, que o celibato se torna de suma vantagem, necessário, diria mesmo, para certas profissões. Por natureza, quer nos reportemos à concepção filosófica de pura natureza, quer nos reportemos ao estado de sobrenatureza dos nossos primeiros pais, teríamos até de admitir, direi melhor, concluir, que o estado matrimonial seria, nesses dois casos, mais perfeito4 do que o de virgindade. A maior perfeição deste último surge-nos posteriormente à queda original, como por radical necessidade de compensação de desvios e desvarios da natureza. 60
A quantas subtilezas nos força?
É nesta humanidade decaída e restaurada que surgem antagonismos que nunca teriam existido se a ordem se tivesse mantido, se o inicial plano divino não tivesse sido frustrado pelo abuso do livre arbítrio. 61
Queda ou limitações?
Este panorama de ideias já nos leva a perceber que, se é erro certas missões sobrenaturais não serem , por norma, reservadas a quem renuncie ao matrimónio, não é menor erro afastar da colaboração nessas missões todos os restantes, como que lançando-lhes uma espécie de excomunhão ou como imprimindo-lhes um carácter extra sacramental de inutilidade para o bem comum. 62
Sacramento excludente?
separadores  
 
Se, da dedução destes princípios, passássemos a um simples relançar de olhos pelo que se passa em certas igrejas cristãs não romanas, imediatamente constataríamos o zelo de muitos pastores e pastoras na difusão do Evangelho, e seríamos tentados logo a perguntar: 63
Luz que vem de chamados hereges
 – Como  se compreende que os outros, mesmo casados, tanto possam trabalhar no apostolado, e entre nós – detentores da verdade plena – só porque se preferiu o sacramento do matrimónio ao da ordem, ou se preferiu o estado de casado ao de celibatário, já se está impossibilitado ou até proibido de um trabalho directo na seara do Senhor? Se os outros podem, por que não nós? 64
Incompatibilidades inventadas pela cegueira do orgulho ou pela hipocrisia de interesses?
Não estamos, com isto, a estabelecer sacrílego5 paralelo entre o padre católico e o pastor protestante. Ainda que muitos e muitos imperativos não influíssem na disciplina do celibato sacerdotal, bastaria o facto de um celebrar a verdadeira Ceia do Senhor, o outro, apenas uma recordação, um a sacrificar o próprio Corpo do Senhor, o outro, apenas um símbolo desse Corpo, um ministrar sacramentos, o outro não. (Estamos a falar de um modo geral, sem entrar no pormenor de saber se nesta ou naquela Igreja há sacramentos válidos.) 65
Respeitinho pelo Direito Canónico!
Longe de nós, portanto, qualquer paralelo entre o padre católico ou mesmo o religioso e o pastor protestante, ou entre a religiosa e a pastora. O paralelo que metodologicamente poderíamos estabelecer era entre o leigo católico e o pastor protestante. Se  este, apesar de casado, pode, sem deixar de cuidar da família, dar-se, também, e às vezes com tanto zelo, à evangelização, porque motivo o leigo católico não poderá fazer outro tanto ou ainda mais, uma vez que não possui verdades a meias, mas a verdade total, e uma vez que se não guia a si próprio, mas tem a Hierarquia para o orientar?  66
Elogiar para desafiar...
Se, por natureza, o matrimónio não acarreta semelhante anátema, mas até traz certas vantagens (embora nunca comparáveis com as do celibato), só restaria saber se a disciplina eclesiástica lançou por via positiva semelhante anátema. 67
Nem a natureza da vida conjugal
Ora todos sabemos que a Hierarquia Romana, longe de nos excluir das lides do apostolado, impôs-nos um como que oitavo mandamento: o de colaborar na acção católica. É a natureza das coisas, é toda a doutrina católica, é uma tradição sem quebra, é uma ordem terminante, é tudo a dizer-nos que, se o matrimónio nos exclui6 do estado sacerdotal e religioso, longe de nos excluir de colaborar no apostolado, impõe-nos que, a par do bem da família, promovamos também o bem comum. 68
Nem o Direito Canónico
Perante isto, não seria um escritor, mesmo católico, e mesmo em livro tão recomendável, que nos iria induzir por outros caminhos ou sugerir-no-los. 69
Papini mais papista do que o Papa?
separadores  
 
Se não há antagonismo absoluto, há, porém, um considerável acréscimo de limitações, e é, com base nestas, e é exagerando estas, que tantas vezes se apregoam incompatibilidades que não existem , mas que parece quereríamos existissem, para abafarmos o remorso de nada fazermos pelo bem comum. 70
Limitações não são incompatibilidades
É evidente que é na medida da renúncia que conseguimos disponibilidade para o trabalho em prol do nosso próximo. Uns levam essa renúncia até o grau máximo de heroicidade, e conseguem também um máximo de disponibilidade: são os que, não contentes com a renúncia ao matrimónio, ainda renunciam à posse de bens terrenos, e até – o que é muito mais – a fazer a própria vontade, ainda que por um momento. É evidente que os votos religiosos dão ao homem o máximo de disponibilidade que se pode imaginar em favor do bem corpo Místico. 71
Renúncia gera disponibilidade: votos
Outros, não sendo chamados a essa perfeição, renunciam, porém, e também heroicamente, ao matrimónio, renunciam a profissões rendosas, limitam-se a guardar o que já possuem e a ganhar o que o Altar lhes der, renunciam a parte da vontade própria, obedecendo ao bispo em tudo quanto se refira ao serviço sacerdotal. A renúncia é menor, a disponibilidade também será menor; mas ainda é muito grande essa renúncia; por isso, muito grande será também a sua disponibilidade. 72
celibato
Outros não são chamados a seguir à letra os conselhos evangélicos, mas, fortificados pelo Sacramento do Matrimónio (no Matrimónio não se deve ver apenas uma limitação, como que um empecilho, mas, sobretudo, uma força sobrenatural), querem aproveitar-se ao menos do espírito dos votos7, sem o qual, no fim de contas, jamais encontraríamos nem vestígios de perfeição, e também nem a mais pequenina disponibilidade. 73
casados
Indiscutivelmente que estamos num grau bastante abaixo, mas isso não significa que deixe de ser ainda muito alto. A vida matrimonial, que traz condicionalismos de todos conhecidos, mas que, por outro lado, também traz inegáveis vantagens para certas missões, um à vontade em certos meios, a vida matrimonial, quando aliada (em tem de o ser, sob risco de se destruir a si própria) ao espírito dos votos, deixa ainda boa margem de disponibilidade para o trabalho em prol do próximo. 74
Vantagens de ser casado
separadores  
 
Se em todos os meios a família tem grandes missões a desempenhar em prol do bem comum, parece que o seu trabalho se torna de uma urgência flagrante – trágica, é o termo – em países subdesenvolvidos. 75
A família no mundo periférico
Para fazer face a esta necessidade, têm surgido no estrangeiro diversas associações que preparam famílias inteiras para o trabalho de colaboração missionária. Todos temos ouvido falar nesses missionários leigos que deixam a Europa com o fim de trabalhar na América, na África ou na Ásia sob a direcção das Missões Católicas. 76
Devidamente organizada
Para nós o problema parece deveria ser muito mais simples, porque já cá estamos. Para eles é preciso enfrentar imensas dificuldades, arriscarem-se a imensos perigos: para nós, que já cá estamos, que vivemos aqui como em nossa terra, que já o desconhecido nos não aterroriza, porque ele já não existe, para nós trabalharmos em prol das Missões já não é preciso heroicidade: basta um mínimo de boa vontade, de compreensão pelas nossas responsabilidades, de brio pela nossa Religião8, quase era tentada a dizer, de um certo amor próprio: se famílias protestantes trabalham com tanta abnegação para espalhar o Evangelho (infelizmente deturpado9), por que a minha família, a minha família que é católica, não há-de trabalhar também, metódica e disciplinadamente, pela difusão do Evangelho – não deturpado, mas do autêntico Evangelho? 77
Nem por brio trabalharemos na evangelização?
Esta colaboração com as Missões Católicas para implantar a Igreja com raízes bem fundas nestas terras não se pode traduzir simplesmente (embora isso também seja imprescindível) no testemunho vivo do seja em concreto o Catecismo: este está cheio de noções abstractas, de difícil percepção se não forem esclarecidas com exemplos vivos; a vida do padre e da religiosa não pode ser essa concretização, porque só o é de uma pequena elite que tenha o mesmo ideal: a família cristã, essa é que é a concretização do catecismo para as grandes massas. 78
Num esforço de coerência
Esta colaboração também se não pode resumir (embora seja igualmente imprescindível) em orações e esmolas. 79
Escape tranquilizante
A colaboração tem de ir muito mais longe: tem de traduzir-se também em trabalho efectivo sob a autoridade missionária. E neste momento todos estão a pensar naquela desculpa tão batida: na falta de tempo. Podemo-nos enganar a nós próprios, podemos talvez enganar o próximo, ao menos o mais ingénuo: nunca enganaremos a Deus. 80
Desculpas de mau pagador
O tempo? Todos o conseguiremos se quisermos. Como? Vivendo o espírito dos votos. Nessa medida, conseguiremos a indispensável disponibilidade. 81
Sinceridade
1 – Fidelidade a toda a prova do marido à esposa e desta àquele. Mas fidelidade não é só não cometer adultério, nem é só renunciar a amizades perigosas; é também evitar leituras que desviem os desejos libidinosos para outros, embora personagens fictícios; é também evitar, e pelo mesmo motivo, cinemas não recomendáveis; é renunciar a tudo que possa dar início a qualquer desvio dos cônjuges, e buscar sempre tudo que possa contribuir para uma sempre maior união. Já todos estão a ver quanto tempo se perde, não será sempre em pecados, mas em coisas prejudiciais à castidade e à união matrimonial. Esse tampo, que magnífica aplicação se lhe poderia dar, e no fim de contas até com vantagem para a família! 82
Seleccionar ocupações
2 – Espírito de pobreza. Uma coisa é ganhar o pão nosso de cada dia e até mesmo uma previdente acumulação de riqueza que seja um seguro para o dia de amanhã. Outra é o exagero a que assistimos nestas terras, em que se consome a vida na ganância de mais e mais, como se no excremento do diabo de que fala Papini estivesse o segredo da felicidade. Se a uns é preciso condenar pela preguiça e imprevidência e esbanjamento, com outros não podemos deixar de ser igualmente severos, por reduzirem toda a sua vida à actividade lucrativa. Não têm tempo para nada que não lhes possa, directa ou indirectamente, trazer qualquer benefício material. Que disponibilidade resultaria para estas pessoas, se reduzissem a justos limites essa ganância! 83
Excremento do diabo
3 – Há os que querem fazer bem ao próximo, mas a seu modo, por sua cabeça, sem disciplina, sem subordinação à autoridade. Parecendo altruístas ou querendo sê-lo, são refinados individualistas. É inutilizar esforços. O trabalho missionário só sob um plano superior pode resultar eficaz. A construção da Igreja não é obra de esforços isolados nem muito menos de caprichos (ainda que vestidos de benemerência). O que falta a estes? O espírito da obediência. 84
Comunidade
4 – Também a estabilidade é uma virtude muito própria da família. Andando-se sempre fora de casa, sempre em passeios, sempre em divertimentos, por um lado, o espírito de família vai desaparecendo e, por outro lado, é evidente que não pode restar tempo para qualquer trabalho sério. Sabiamente S. Bento incluiu o voto de estabilidade na sua Regra: também para nós o seu espírito se torna indispensável. 85
Perseverança
5 – Por fim, a conversão de costumes: é evidente que, se não há esforço constante e sério da santificação, nem seremos fieis aos compromissos de família nem também conseguiremos aquela disponibilidade para os trabalhos em prol do bem comum. 86
Luta interior
Muito resumidamente, aqui está como poderemos ter tempo para trabalhar no campo missionário sem prejudicar, mas até beneficiando, a família. E aqui está como não há incompatibilidade, mas harmonia maravilhosa entre Família e Missionação. Não queiramos modificar, torcer a realidade para nosso comodismo. Missionários leigos não são uma utopia a mais do século XX: são uma realidade: assim queiramos nós que também o sejam na nossa Diocese. 87
Família – a primeira beneficiada
M. E. G. A. M. R.10  





1

RIBEIRO, M.ª Ester Alves Machado – FAMÍLIA E MISSIONAÇÃO. “Aleluia” n.º 142-143,  Lisboa, LICF, Julho/Agosto 1964, págs. 12, 13, 32 e 43.

2

Subtítulos do capítulo,  títulos dos parágrafos (na margem direita) e notas de fim não pertencem ao texto original de 1964,  mas foram elaborados em 2001 para uma melhor compreensão e inserção no contexto de OTHELANA.

3

O mito da queda original, mal interpretado e ideologicamente manipulado, afastou-nos muito da linha evangélica e conduziu-nos a muitos erros e aberrações.

4

Para um leigo, e demais a mais casado, conseguir inserir-se na fileira dos missionários, tinha de ir, no começo, com pezinhos de lã, não descuidando a linguagem teológica da altura e bem estribado (neste caso era Dom Columba Marmion, o célebre escritor beneditino, que me protegia...).

5

O problema de ministérios ordenados e não ordenados, ainda hoje, pode levantar questões melindrosas, mas o da validade das ordenações remonta aos primórdios do protestantismo. Por isso, todo o cuidado é pouco, se não queremos perder a credibilidade perante a hierarquia católica romana, e começarmos a sentir a plataforma do diálogo a submergir...

6

A partir de quando? Por que motivos? Como seria bom recordar criticamente a História da Igreja...

7

Cfr. RIBEIRO, Júlio Meneses Rodrigues – para uma espiritualidade missionária, Quelimane (C. P. 297), Apostolado pelo Livro e pela Liturgia, 16 págs. [Comunicação à I Semana Missionária, realizada no Colégio Nun’Álvares (das Religiosas do Sagrado Coração de Maria), de Quelimane, de 4 a 11 de Agosto de 1963.

8

Nessa data ainda não distinguia bem religião e cristianismo.

9

É evidente que esta afirmação não se pode generalizar, e seria preciso acrescentar que também nós o deturpamos não raras vezes.

10

Embora a prosa seja da minha autoria, como facilmente se pode detectar comparando-a com outros textos, pelo menos dessa altura, como a Revista ALELUIA, era de mulheres, pareceu que havia conveniência em que o artigo fosse subscrito por uma mulher sem referência a qualquer co-autoria




    
 

 
    


CAPÍTULO TERCEIRO



othelanap01c03
Foi na véspera da Ascensão de 1957, pelas quinze horas, a oitocentos metros de altitude, numa das mais belas regiões africanas. Devidamente autorizado, e depois de uns momentos diante do Sacrário, deixei a Missão Católica e dirigi-me à Missão Evangélica, a cerca de meia légua de distância. Dentro de minutos, o motorista muçulmano parava diante da residência do Pastor. Não estava. Mas a esposa, rodeada pelos seus pequeninos filhos, mandou-me sentar na varanda, e, sem mais perda de tempo, entramos no assunto. 88
Nas montanhas de Nauela
 – Católico  militante, não vim para discutir os pontos que nos separam: vim para trocar algumas impressões sobre os pontos que nos são comuns: a glória de Deus, a missionação e sobretudo os seus métodos. 89
Plataformas...
Pontes...
E começámos pela divulgação de livros e folhetos: foram-me imediatamente facultadas e oferecidas  algumas das obras utilizadas para a cristianização dos indígenas1. Enquanto, de bicicleta e prontamente, a Pastora foi a outro edifício da Missão buscar livros, rodeado por duas encantadoras inglesinhas (uma já africana) e por um não menos esbelto inglesinho de pouco mais de um ano, fui tomando notas bibliográficas. 90
Expansão do livro
– Os livros – explicou-me mal voltou – são geralmente vendidos por um preço baixo e não oferecidos, porque constatamos que os africanos estimam mais o que compram do que o que recebam gratuitamente. 91
Método
– Também concluiu isso? – respondi – Os Padres Brancos sempre mo afirmaram e eu próprio já o pude verificar.   92
Coincidência
E fui logo para o problema da língua: 93
Língua
– Pondo de lado os motivos políticos ou de qualquer outra ordem que a possam levar a evitar a língua regional2, parece-lhe que em português se pode missionar devidamente? 94
europeia
– Sobretudo as mulheres é quase impossível. Eu ando a estudar a língua regional, mas é muito difícil. No entanto é indispensável. 95
africana
– Tem razão: o Cristianismo, se não for pregado na língua materna , local, ficará sempre à superfície: não penetrará a alma, e isto para as mulheres, mas também para os homens que já falam a língua nacional3. 96
Veículo de interiorização
E pensei: que tacanhez de espírito e de patriotismo isto que leva a ver com maus olhos o emprego e a conservação das línguas regionais simultaneamente com a divulgação e enraizamento da língua nacional! Se os territórios e as gentes são património de Portugal, também o não serão os seus idiomas? E, afinal, até para a assimilação do português o estudo prévio por parte dos africanos de sua língua é de vantagem incontestável. Mas não podia perder tempo, e saltei para os costumes: 97
Patriotismo tacanho
– Tem estudos etnográficos, mesmo manuscritos ou dactilografados, sobre os habitantes desta região? 98
Cultura
– Infelizmente não, e é pouquíssimo o que se sabe. Às vezes, na reunião mensal dos anciãos (os africanos mais avançados no Cristianismo), procuramos saber certos costumes, mas esquivam-se sempre. No entanto, também este conhecimento é indispensável para uma eficiente missionação. 99
indispensável
– Admitem aos cristãos algum género de batuques? 100
Música
– Nenhuma dança é permitida aos cristãos. 101
Dança
– Mas – retorqui – as danças com a sua música e os seus cantos, banido o que tenham de imoral pela invocação dos espíritos ou pela excitação e satisfação dos instintos sexuais, são uma riqueza folclórica que, até mesmo por motivos pedagógicos e artísticos, se não pode desprezar sem prejuízo para a formação integral do africano. 102
Reducionismo: Por quê?
– Com um caso pessoal, viu explicar-lhe melhor o motivo da nossa atitude. Quando era mais nova e estava ainda em Inglaterra, gostava muito de ir a espectáculos. Uma rapariga amiga admirou-se e arguiu-me: «Então uma senhora assim religiosa frequenta o teatro?» Eu defendi-me, mas confesso que muito mal, porque ela tinha razão. Depois ainda voltei ao teatro, e essa rapariga, por causa da conversa, não voltou. E eu reflecti: sinto que estes espectáculos não prejudicam a vida espiritual no meu caso particular, mas sei que prejudicam os outros. E também eu não voltei. Pois bem: poder-se-iam admitir aos cristãos certas danças regionais depois de muito bem conhecidas e seleccionadas; mas os gentios não perceberiam essa selecção e não se estabeleceria uma linha diferenciadora entre uns e outros. É esse o mesmo motivo porque proibimos as bebidas e o fumo. Mas não pense que o nosso ensino é negativista, insistindo em proibições: pelo contrário. Quer ver? Por exemplo, na festa do casamento, não se vêem danças nem batuques, mas ouvem-se cânticos e hinos e a mensagem proferida pelos anciãos. 103
Rigorismo baptista
– Então – retorqui imediatamente – como compreende que, estando esta Missão a trabalhar desde 1913, ainda existam tantos batuques nestas redondezas? 104
Sem eficácia?
– O motivo deve ser o seguinte: até 1942, os pastores, embora condenassem os batuques, parece que os não combateram com a nossa intensidade. Só desde essa data, em que esta Missão foi entregue a uma federação que engloba missionários de várias Igrejas, é que se começou verdadeiramente a combater as danças. 105
Ou por divergências metodológicas?
O assunto estava esclarecido, e fui logo a outro ponto que me interessava imenso. Não podia perder aquela maravilhosa oportunidade de estar só com a mulher do Pastor: 106
Oportunidade única
– É maravilhoso ver um casal (e com filhos) com tanto zelo missionário. É frequente encontra algum dos cônjuges dedicado a obras de apostolado. Mas verificar nos dois o mesmo ideal e o mesmo entusiasmo pela conversão dos africanos é verdadeiramente raro. Consegue, de facto, unir-se e colaborar intensamente no trabalho missionário do seu marido? 107
Casal missionário?
– Sim, senhor – respondeu-me com prontidão e quase protestando contra a possibilidade da menor dúvida da minha parte. 108
De verdade!
– Apesar dos filhos? 109
Lar  missionário?
– Os filhos em nada diminuem o espírito missionário. Evidentemente que tenho de trabalhar um pouco menos do que a esposa do nosso colega, que mora ali na outra residência e que não tem filhos. 110
Sem problema!
– Mas como consegue visitar as palhotas, por exemplo, com os filhos tão pequeninos? Também visita as palhotas, não é verdade? 111
E sem restrições?
– Sim, visito-as. Tenho uma criada de confiança a quem confio, durante algumas horas diárias, os meus filhos. Nessa altura, dedico-me ao trabalho missionário. 112
Com ajuda, evidentemente!
– Serei indiscreto se perguntar quanto ganham? Veja lá, se não quer responder, passamos a outro assunto. 113
E a base económica?
– De  modo algum. Ganhamos cerca de quarenta libras, isto é, três mil e duzentos escudos mensais. Quando a prole aumentar, teremos mais alguma coisa, e também nos ajudarão nos seus estudos; não pagamos casa, mas o automóvel é nosso. 114
Transparente.
Fiquei admirado: 3 200$00 em África é um vencimento pequeníssimo: só um grande ideal pode levar a aceitá-lo, no mato, em troca de uma vida bastante mais cómoda em Inglaterra. 115
Edificante.
– E para as construções e missionação, obtêm o dinheiro de que precisam? 116
Dotações
– Não: lutamos com bastantes dificuldades. 117
O mal de todos
– E, no seu lar, quais as conversas predominantes, quais, portanto, as grandes preocupações: pedagógicas, metodológicas, da glória de Deus? 118
Ambiente ideológico
– Sem descurar os corpos dos nossos filhos, pode crer que a salvação das almas e a missionação, para além da glória de Deus, são a nota característica dos nossos pensamentos e das nossas conversas, Cristo domina-nos, pomos Cristo acima de tudo. 119
Zelo apostólico
– E os outros casais de pastores também conseguem essa identidade de ideal e trabalho em favor da cristianização? 120
Ambiente geral
– Sim, estou certa. 121
Entusiasmo
Gostaria de me demorar neste ponto, mas outra perguntas tinha ainda para fazer, e o tempo passava velozmente. 122
Tempo ...sempre irrecuperável
– Os protestantes também admitem que os pastores se mantenham celibatários por ideal de maior perfeição, consoante a palavra de S. Paulo? 123
Aceitação do celibato
– Não gosto da palavra protestante – advertiu-me delicadamente, e logo a emendou para baptista, nome da sua Igreja. Depois, respondeu: – Conheço, por exemplo, um pastor que está em regiões ainda por desbravar e que adiou o seu casamento com a noiva para a furtar aos riscos daquela fase de missionação. Nestes casos, admitimos o celibato. 124
Celibato temporário, por opção
Poderia aproveitar as palavras de S. Paulo sobre a virgindade para atingir as nossas divergências, mas seria faltar à promessa inicial. Por isso, mudei de assunto: 125
Prescindindo das divergências
– Como explica ou como consegue que os vossos adeptos sejam animados de um entusiasmo na defesa da Religião muito superior ao dos católicos? 126
Melhores resultados
Se sempre sorria, com um sorriso franco, sem duplicidade, afectação ou, muito menos, manha, com um sorriso que transparecia uma alma zelosa da conversão das almas e da glória de Deus, e feliz por falar da sua Religião – se sempre sorria, agora riu a bom rir, e, com a mesma franqueza: 127
Coincidência que transparece no sorriso
– É muito engraçado que me faça essa pergunta. Eu também costumo perguntar aos meus rapazes: «Por que será que os católicos têm muito mais entusiasmo do que vocês na defesa da sua Religião?» 128
Competição ou emulação?
Ainda que estivesse de pé atrás, naquele momento ficava com a certeza de que havia inteira sinceridade e de que, portanto, a conversa poderia ser útil. Doutro modo, nunca me teria sido feita semelhante confissão a favor dos católicos. No entanto, admitindo que também houvesse razão da minha parte, o zelo da Pastora não deixou perder a oportunidade: 129
Emulação
– Mas sabe? Os católicos usam muito de cousas materiais; nós, em vez de imagens e velas – pode verificá-lo no nosso templo aqui em frente, onde se encontram legendas bíblicas –, vamos directamente à Palavra de Deus. Daí resulta que temos menos cristãos, mas, os que temos, são firmes e zelosos. 130
Convicção
Logo aludi ao tema da Legião de Maria: «ou tudo ou nada». Depois, ia para objectar – A Religião não é só para elites, mas para as massas, e estas necessitam das exterioridades rituais que, bem compreendidas com as respectivas fórmulas, longe de nos afastarem do essencial, nos conduzem ao culto mais perfeito que é possível a nós homens (não anjos, mas complexos de espírito e matéria) prestar a Deus. Mas há que aproveitar duas lições do que acabava de ouvir: 1.º Desviar os cristãos daquela multiplicidade de devoçõezinhas particulares – impregnados de individualismo e de sentimentalismo – e encaminhá-los para uma piedade profundamente alicerçada no Dogma e na Liturgia. 2.º Banir do culto as aberrações artísticas e só permitir à veneração dos fiéis estátuas e estampas que refuljam autêntica beleza ou, pelo menos, bom gosto. O que for indigno da Arte com maioria de razão o será do Culto e da Religião. Para Deus, só o que há de melhor. No entanto, prometera não ir estabelecer polémica e, por isso, limitei-me a observar: 131
Lições
– Mas sabe que o nosso esplendor cerimonial não é um fim, mas um meio de atingir a Deus? 132
Meio... que até parece fim
Ela concedeu sem dificuldade, mas continuou com entusiasmo: 133
Entusiasmo crescente
– Eu lembro-me ainda do meu baptismo: para nós é verdadeiramente um renascimento, segundo a palavra do Senhor a Nicodemos, uma transformação de costumes, um revestimento de Cristo: tornamo-nos templos do Espírito Santo. 134
Renascimento
– Sabe que na Igreja Católica, embora se baptizem em pequeninos os filhos dos cristãos, temos, depois, quer a renovação das promessas do Baptismo quer a Confirmação, que realizam já com pleno conhecimento? 135
Desculpas de mau pagador
A Pastora de modo nenhum quis reivindicar só para a sua Igreja a eficácia do renascimento: 136
Plataforma comum
– Antigamente eu era terrível para com os católicos e as outras Igrejas. Agora perece-me melhor ser tolerante. Há os que não pertencem à nossa Igreja, mas têm o seu espírito. Muitas vezes tenho dito que no Céu havemos de encontrar muitos católicos e cristãos de outras Igrejas. 137
Proselitismo superado
– Nisto a doutrina equivale à nossa: também nós dizemos que ao corpo da Igreja só pertencem os baptizados, mas à alma pertencem todos quantos estão na graça de Deus, isto é, todos quantos têm o Espírito Santo na alma. E estou convencido, por exemplo, que a senhora com quem falo está na boa fé e tem a graça de Deus e que, portanto, pertence à alma da Igreja. 138
Ecumenismo ainda insípido
A Pastora baptista passou logo, e espontaneamente, a sua vocação: vinha ainda para confirmar o que me dissera sobre  a sua união de ideal missionário com o marido: 139
Vocação
– Ao ouvir a prática de um pastor, senti que o Espírito Santo me chamava para as missões. Disse-o ao meu noivo (agora meu marido), mas ele combateu-me muito. Mais tarde, já casados, ouvimos outra prática sobre a palavra  do Senhor: «Ide, e baptizai todos os povos». De novo senti no meu coração que era chamada, e disse ao meus marido que não podia continuar a resistir. Então, ele próprio confessou que também se sentia chamado, mas não queria: agora, porém, estava decidido. Durante dois anos estudamos numa escola baptista e, assim preparados, partimos para África. 140
...e amor conjugal
– Quer dizer que a senhora ainda é mais entusiasta do que o seu marido? 141
Quem ultrapassa em zelo?
Com a mesma prontidão e franqueza com que não tinha admitido que fosse tida por menos zelosa do que o marido, também agora intervém: 142
Humildade igual a verdade
– Não, senhor: agora temos igual entusiasmo. – E concluiu: – Por mim, confesso que gostaria mais de ficar em Inglaterra; mas Cristo está acima de tudo. 143
Zelo comum
Não insisti, e perguntei: 144
Pedido de críticas
– O que é que mais lhe choca nos católicos autóctones? 145
Em que erramos?
– Exactamente a falta daquela linha de diferenciação entre os costumes cristãos e cafreais. 146
Num certo irenismo
– Mas – objectei logo – não nota então diferença entre a vida dos católicos e dos gentios? 147
Flagrante?
– Sim: mas não tão nitidamente como se dá com os nossos, conforme já expliquei ao falar das danças e bebidas. 148
Equívoco, pelo menos
– Quais as maiores dificuldades que encontra na missionação? 149
Obstáculos?
– A falta de gratidão da parte dos africanos, a noção de que o roubo só é pecaminoso se forem apanhados em flagrante, e a convicção de que também nós uma iniciação sexual como eles. Já expliquei às mulheres que, de facto, na idade própria, ensinamos aos nossos filhos os problemas da vida, mas que não fazemos nenhuma das porcarias que eles fazem. No entanto, é difícil de convencê-las a deixarem tais práticas. 150
Ingratidão e incompreensão
– E, quanto ao ensino religioso, encaminham-no mais no sentido objectivo ou no apologético? 151
Orientação
– Ensinamos a Religião sem grandes preocupações de combate. Reconhecemos nos catequistas católicos uma grande superioridade nesse ponto. Mais, reconhecemos mesmo, como há pouco dizia, um maior entusiasmo no ensino da catequese e na luta em prol da Doutrina Católica, e até mesmo uma melhor preparação intelectual. Mas, no zelo de salvar almas, nesse trabalho pessoal de ensinar a bem viver, orar e glorificar a Deus – nisso os nossos evangelistas revelam-se acima dos catequistas católicos. 152
Objectividade
Não pude deixar de aproveitar a ocasião para mostrar como é coerente que os protestantes desprezem a Apologética, e os católicos a cultivem cuidadosamente: 153
Tentação apologética
– Admite o livre exame, não é verdade? 154
Livre exame
– Os católicos já o admitem? – perguntou-me a Pastora alvoroçadamente.
 
155
Espanto
– Não: nos pontos definidos dogmaticamente, não. Só se admite controvérsia nos pontos ainda por definir. Mas a senhora admite o livre exame, não é verdade? 156
Os pontos nos is
– Sim. 157
Um sim arrancado
– Então os protestantes, que admitem o livre exame, não têm o direito de atacar a Doutrina Católica, mas têm o direito de nos deixar pensar livremente; no entanto, nós, os católicos, que repudiamos o livre exame, temos, coerentemente, todo o direito para atacar os protestantes. 158
Tentação dos direitos
Duvidando se o meu português teria sido percebido pela minha interlocutora inglesa, insisti: 159
A vontade de ficar por cima
– Percebeu o argumento? 160
e de confirmação
Rindo com a mesma jovialidade, mas de uma maneira que não deixava a menor dúvida de ter percebido perfeitamente a situação em que ficara, respondeu: 161
A superioridade de quem não se ofende
– Percebi, percebi muito bem. 162
e sorri sempre
Delicadamente deixei o assunto, mas fiquei com pena de que aquela zelosa Pastora não tivesse ainda reflectido nos perigos (já provados historicamente) do livre exame. Entregar a Bíblia a todos os ingleses sem preocupações de interpretação, deixando ao Espírito Santo o trabalho de iluminar as almas, poderá ser muito cómodo, mas nem é humano nem teológico. Se não for soberba, pelo menos é preguiça e é tentar a Deus. O livre exame é sempre ocasião próxima de erro e divisão: o individualismo, o liberalismo, o ateísmo e o comunismo são a condenação a posteriori do protestantismo. Mas não era preciso ver os resultados: é evidente que das premissas não podia resultar outra coisa. E em África não dará melhores resultados o livre exame: deixar a interpretação da palavra divida aos indígenas é evidente que os tornará individualistas, extravagantes, soberbos e insubordinados. É sintomática a sua atitude em certas catequeses protestantes. Um lê, por exemplo, um salmo. Todos escutam com os olhos baixos, as cabeças apoiadas nas mãos, em silêncio impressionante. (Todos sabem como, por vezes, é difícil a interpretação dos salmos de David.) Fala-se, por exemplo, de justiça. E o evangelista põe-se a imitar certos patrões ou patroas europeias, e pergunta: «É isto justiça? Lembra-se aquele branco que aquele preto a quem está a dar ordens também é uma pessoa?» De silêncio profundo passa-se às gargalhadas e ao barulho. Ora nada melhor do que o africano tomar consciência do seu valor humano, dos seus deveres e direitos; mas nunca será o livre exame que o conduzirá a essa perfeita e integral formação humana e cristã. Só4 o catolicismo o converterá em homem pessoalmente valorizado e socialmente útil. Também nós, católicos, temos grande fé no Espírito Santo, mas invocamo-lO para nos ajudar no estudo e na luta e para nos suprir naquilo em que as forças humanas são impotentes, e jamais para, em Seu nome, descuidarmos os meios naturais de atingir e salvaguardar a Verdade. A entrevista ia longa. O mais pequenito dos inglesinhos reclamava a papa. Eram horas. Ironicamente disse: 163
Complexo de superioridade ainda não superado
– Vê? O zelo missionário levá-la-ia a continuar a evangelizar-me, mas os deveres de mãe levam-na para casa. 164
já a inquietar-me
Tinha, porém, um último assunto que não queria deixar de tratar: 165
e com insistência
– Concordaria em dividir a África em zonas para as diversas Igrejas missionarem exclusivamente? 166
Divisão?
– Não – respondeu –, porque os católicos julgam-se na verdade e não tolerariam barreiras, e nós igualmente. 167
Nunca
– Penso da mesma forma. Mas não lhe parece prejudicial estarmos aqui a ensinar duas religiões cristãs? 168
Competição?
– Sim: isso desorienta os africanos, mas não vejo solução. 169
Parece inevitável
– Então não lhe parecia melhor que os superiores de ambas as missões (católica e evangélica) se juntassem a estudar e a rezar5, e depois ensinassem a mesma cousa? 170
Ecumenismo?
– Teoricamente, concordo, mas, praticamente, não. 171
Prematuro
– Acredita que a inteligência humana pode atingir a verdade? 172
Realismo ou idealismo?
– Sim. 173
Realismo
– Ora, se acredita que a inteligência pode atingir a verdade e  que Deus, sobretudo se rezamos em conjunto, atende sempre os nossos pedidos, terá de convir em que, havendo sinceridade, a união dos superiores destas duas missões no estudo e na oração os levaria à verdade, que é só uma, e, portanto, a uma acção conjunta, evitando assim a desorientação dos africanos e assegurando a sua salvação. 174
Eficácia
Terminei com este apelo à unidade. Que o Espírito Santo lhe tenha falado na alma e a conduza à verdadeira Igreja, para que o seu trabalho missionário seja plenamente útil a estes pobres6 africanos. Mas como conseguir? Atrás daquele casal está uma tradição de séculos. Nas mesmas circunstâncias, no mesmo ambiente, com a mesma formação, que seríamos nós? Estou convencido de que só à força da oração e da penitência se conseguirá a sua conversão. Fundar uma Trapa nestas redondezas seria o meio mais eficaz para conseguir do Espírito Santo o milagre da união das duas missões num trabalho comum em prol da cristianização dos africanos. 175
Como atingir a unidade?





1

Algum tempo depois, deixei de utilizar o termo indígena, por ter percebido que era sentido como humilhante, e passei a empregar o termo africano, muito bem aceite, ao menos nas áreas de Moçambique onde trabalhei. Assim, não discriminava juridicamente indígena e assimilado, nem racicamente preto, asiático, branco ou misto. Mas era evidente a relatividade de tudo isto: o termo negro, por exemplo, tão ofensivo para moçambicanos, era preferido e assumido com brio pelo angolanos, como pude constatar quando, em meados de 1958, tive a sorte de conviver durante uma semana com Joaquim Andrade e diversas angolanas, no então Liceu Salazar, de Lourenço Marques.

2

Falar em língua nacional, referindo-nos ao lomwe, não era viável nessa altura.

3

Aqui bem poderia ter dito língua portuguesa em vez de língua nacional, mas ainda estava muito cru... como se constata no parágrafo seguinte e não só. Nem sempre era só táctica: a verdade é que ainda tinha de amadurecer muito.

4

É evidente que, algum tempo depois, o autor destas linhas passou a ter uma mentalidade mais ecuménica...

5

Os evangélicos gostariam mais que eu dissesse orar e eu não desconcordo.

6

Relendo estes textos dezenas de anos depois, tropeço sempre com certas expressões reveladoras da minha mentalidade ainda eivada de paternalismo dessa época (oxalá hoje já me tenha libertado dela).




    
 

 
    


CAPÍTULO QUARTO



othelanap01c04
A sombra é para o africano força, vida, alegria, felicidade. A frescura das palhotas, bem construídas, por verdadeiros homens, no interior, que não estas, nos arredores das cidades, onde a sombra é conspurcada pela chuva e consequente imundice, a frescura das palhotas continua a desafiar a nossa arquitectura, que, ao menos até aqui, não nos tem sabido proteger contra o calor tropical. 176
À sombra da palhota
A sombra é um grande valor para o africano, exactamente porque, numa terra escaldante, é força e vida. A sombra da bananeira, a sombra do cajueiro, a sombra da mangueira, não é sem motivo (embora muitas vezes o deturpemos) que já se tornaram tradicionais. O terreiro à volta das habitações é geralmente protegido pela sombra solar das árvores fruteiras, árvores da vida. E, no além-túmulo, os homens, se cumpridores das leis ancestrais, gozam à sombra; se transgressores dos tabus, padecem ao sol. 177
e da bananeira
O próprio homem1 que é senão um complexo de sombras ou uma sombra manifestada de diversos modos? 178
O homem
A sombra solar que o nosso corpo projecta no chão já é qualquer coisa do próprio homem, como uma emanação. Ao menos em certas regiões, é grave ofensa pisar , durante a dança ou noutra altura, a sombra do nosso próximo. 179
sombra solar
E os nossos contornos, o nosso talhe, a nossa figura, os nossos acidentes externos, não são uma sombra, uma projecção, uma manifestação de qualquer realidade mais íntima? Mais do que a sombra solar, a sombra da figura é vida, é força. Manifesta mais intimamente e muitíssimo melhor o homem do que a sombra solar; mas ainda é uma sombra transitória, que desaparecerá com a morte. 180
sombra da figura
Onde está, então, o próprio homem, o homem em si mesmo, no que tem de substancial e essencial, onde está esse homem que permanece além-túmulo, não obstante a metamorfose da perda da sombra da figura? Na força vital, o dinamismo do ser humano no que tem de mais íntimo, a força suprema da criação, acima da qual apenas está o mukwiri2Mulugu3, a força vital que acima de tudo se manifesta no sopro vivificante, no sangue que vitaliza, na voz e na palavra que opera por virtude própria4. 181
e sombra vital
Os acuwabo5 dizem: Mutchu okhalawe kanamona na mentoO próprio ser do homem não se vê com os olhos. 182
O homem por dentro
Mas cada uma destas forças vitais não são independentes e isoladas; pelo contrário, integram-se no conjunto das outras forças semelhantes e de todo o universo visível e invisível. E o homem é até a força que mais participa de todas elas e que por excelência se enquadra na comunhão cósmica. 183
Em comunhão cósmica
À semelhança da papaieira ou da simples mandioca, o homem alimenta-se, cresce, multiplica-se. E à semelhança de qualquer antílope ou animal feroz, vê, ouve, cheira, saboreia, sente, consciencializa as imagens, tem uma imaginação, um instinto e uma memória. Mas, acima dessas forças inferiores da natureza, tem a voz, a palavra, o verbo, e uma vontade que o tornam operante. As palavras pelas quais se exprime, com ênfase, um desejo, produzem o resultado desejado6. 184
Participa de todas as forças
Este dinamismo espiritual da sombra vital não é uma sobreposição, mas uma penetração transformante e integradora, de tal modo que, embora se mantenha uma analogia, a vida vegetativa e psíquica dos outros elementos da natureza está longe de poder identificar-se com a do homem. A porção de um conjunto age sobre o todo7. 185
Não em sobreposições, mas de um modo integrador
É este homem, assim concebido, integrado no Cosmos, mas não absorvido ou sequer dominado por ele (como erradamente alguns pensam), que se surpreende sexuado não apenas sexualmente, mas em toda a sua força vital8. 186
Perante o fenómeno sexual
Como encara o problema? Com toda a sua inteligência e com uma serenidade – notava-nos há dias Elia Ciscato, s. c. j. – digna da nossa admiração e, sobretudo, imitação. Nyongole ofwaseye, oteliwe – dizem  os  acuwabo: Sossega-te se queres casar. 187
Com inteligência e serenidade
O problema da subsistência é resolvido por uma divisão do trabalho racional, humana e simbólica, embora, evidentemente, tudo tenha de evoluir, não segundo um figurino europeu ou asiático, mas na linha da sua própria filosofia dinamista, enriquecida pelo encontro com as outras filosofias, culturas e civilizações. E também aqui não esqueçamos o exemplo dado por nações africanas não islamizadas e recém-independentes, concedendo direitos iguais ao homem e à mulher – meta  a que na Europa se vai chegando muito lentamente, com muito atraso, nações havendo ainda, como a nossa, muito longe dela9. Se isto se deve à abertura dos intelectuais africanos a todos os valores encontrados fora do seu continente, também se deve à sua fidelidade à sabedoria dos antepassados. 188
resolve o problema de subsistência
Mas dizíamos que a divisão do trabalho, além de eminentemente prática (o homem, os serviços mais pesados, a mulher, os menos; o homem, senhor na vida pública, a mulher, rainha na vida doméstica), era também simbólica, como quase todas as coisas neste mundo banto. Se todo o homem vive integrado no Cosmos, a mulher vibra mais intimamente com ele. O ciclo menstrual acompanha a translação da Lua, e pelas luas conta-se o período gravidez. A semente que a mulher lança à machamba, encontrando-se com o humos, a água e o sol, germina. E do sémen que o homem deposita no útero, encontrando-se com o óvulo, resulta um novo ser humano, ao menos em devir. 189
Com uma divisão do trabalho racional e simbólica em que a mulher é valorizada
Por isso, o homem apenas intervém na machamba na medida em que a mulher precisa de ajuda10, como apenas intervém na evolução do embrião e do feto na medida em que estão ou estavam convencidos de que a fecundação não é obra de um momento, mas um processo contínuo até um ou dois meses antes do parto. E, se sob o aspecto biológico, sabemos que estavam errados, não esqueçamos que, sob o aspecto psicológico, formulavam uma flagrante verdade. 190
e o homem é complemento
A unidade mãe-filho com a exclusão ou quase exclusão do marido poderá ser um desvio resultante do egoísmo humano, ou será mesmo um fenómeno genuíno, ma em outros povos primitivos; não nos parece, porém, que essa categoria tenha aplicação no povo que estamos a estudar, ao menos na medida em que ele seja fiel à sabedoria acumulada pelas gerações. 191
formando os dois um todo irredutível
Os acuwabo dizem: Mutchu kankhala yeka, ankhala ali: o homem não está sózinho – são dois. Mwamunaga oli mu nningoni mwaga: o meu marido está no meu corpo. Dchihunuwana: cresci conjuntamente (o amor dos esposos não é obra de um momento, mas um processo ao longo da vida, como nos frisava Elia Ciscato há dias)11. 192
na linha da sabedoria ancestral
Esta assistência do marido à mulher durante a gravidez é muito importante, porque mwana onojá ojá wa abali awe: o filho come a comida dos pais (antes e depois do parto). E se a infidelidade é sempre um crime: oraruwa wiya – como dizem os alomwe: cometer adultério é roubar; durante a gravidez da mulher é um crime ainda maior, porque é homicídio: oraruwa opa – como dizem ainda os alomwe: cometer adultério é matar 8o filho que, assim, não há-de crescer). 193Donde resulta a prole
Quando, entre nós, só há pouco, com o movimento da espiritualidade conjugal lançado em França por Caffarel, se começou a valorizar o papel do pai, na sua actuação afectiva sobre a esposa grávida, não é admirável encontrar estas maravilhosas sementes do Verbo num povo do qual tanto nos custa aprender lições? E já pensámos no que significava, nesta mentalidade, seis meses de trabalho compelido fora do lar, sobretudo quando coincidia com os primeiros meses de gravidez da mulher? 194
Numa colaboração sempre a dois
Dizem os acuwabo: Onikhalawo olikanne nokwaa ausência é como a morte. E mais: Watcha mekha wishiphaandar sózinho é suicidar-se (o que, se tem um significado na defesa física no mato, contra animais ferozes, por exemplo, não deixa também de Ter outro significado de ordem superior). E ainda: Wetcha apili orera é bom andar a dois. E este dizer comum em etakwane, muito pitoresco: Onkhala mwibiyani kannone wolapa, onkala mwiteloni onowonawo quem vive numa panela não vê ao longe, mas quem vive num cesto vê ao longe. Querendo com isto significar-se que só quem convive, e não quem se isola, consegue ter horizontes. 195
E sempre em coerência com os velhos ditados


E aqui está como, até a partir da divisão do trabalho imposto pela necessidade de subsistência, atingimos o segundo problema a resolver em face da diferenciação Sexual: a complementaridade afectiva. Estamos sempre a tocar esta filosofia da integralidade das sociedades homogéneas. 196
Complementaridade afectiva
O problema, dizíamos há dias12, está numa certa prioridade, num certo acento tónico. Visa-se, primeiro, a comunidade económica (no sentido banto, note-se, não no sentido de capitalismo moderno) ou a comunidade de amor? Não se exclui nenhuma destas duas facetas do problema, mas onde está o acento? 197
O acento
No paraíso terreal, onde não se punham problemas de subsistência, evidentemente que a complementaridade afectiva não podia deixar de ser o grande alvo. Num meio burguês, onde nada falta, também esse devia ser o móbil, embora, infelizmente, tenhamos de constatar que muitas vezes interesses inconfessáveis tudo manejem: dote da noiva (na Europa, em vez de ser o genro a dá-lo ao sogro, era este que o dava à noiva), conveniências económicas as mais variadas. Assim como no mundo da aristocracia não era inédito o caso de mais ou menos se forçarem as filhas a casar com fidalgos (às vezes até desconhecidos) só por conveniências diplomáticas, políticas ou de orgulho de estirpe13. 198
No paraíso
Numa  sociedade  que  tem  de  lutar  com  os  elementos   da natureza, os mais hostis por vezes, é natural e é legítimo (parece-nos) que o acento tónico estejá na comunidade económica, protectora e garante da sobrevivência. Não excluindo, Elia Ciscato14 frisou-o bem, e não se percebe como tantas vezes se repetiu aqui o contrário15, a comunhão de amor. 199
na África
Passar da subsistência individual à perpetuidade da tribo, do enlace amoroso à prole – é como passar da semente ao fruto, da causa ao efeito. E nem se estranhe que se fale em tribo e não em espécie, porque também nós falamos mais em engrandecer a pátria do que a humanidade, e há nações mais pequenas do que certas tribos, como há nacionalismos e partidarismos que continuam a provocar tantas ou até muito mais mortes do que os tribalismos. E até por um certo pudor não devemos acentuar mais do que o necessários males da divisão de tribos, porque sabemos muito bem que em vez de terem sido ajudadas a abrir-se entre si, têm sido exploradas as suas rivalidades para fins diplomáticos e sobretudo militares. 200
Perpetuar a tribo
Que no casamento se visa a comunidade de amor, até se pode constatar pela expressão elomwe: Otela murima casar (é do) coração. E que a sociedade não prepara os noivos só para a fecundidade biológica, mas também para a de ordem superior (afectiva e espiritual), podemos muito bem certificarmo-nos considerando toda a série de instruções vivas a que se submetem os adolescentes, e a que tão largamente nos referimos durante a III Semana de Estudos Missionários, realizada no ano transacto. 201
Comunidade de amor
Note-se agora apenas isto: se há insistência em remédios e cerimónias que garantem a fecundidade, não há menos insistência nas instruções que garantam aos cônjuges uma comunicação plena de vidas, uma alegria conjugal que não deixe  fendas – sempre de consequências desastrosas. 202
preparada
O próprio acto específico do matrimónio ou, melhor, sobretudo este acto não é deixado em tudo ao arbítrio individual. E isto não apenas pela sua função procriadora, mas também e não menos pela sua função afectiva e espiritual. Os africanos, com serem homens do concreto, não o deixam de ser menos do essencial. E eles sabem o que há de essencial no casamento. 203
Até no acto específico
E assim, pode haver hábitos conjugais diferentes de casal para casal; pode haver usos, faltando aos quais as coisas não andarão muito certas, porque não é assim que todos fazem, os africanos não gostam de singularidades, mas, enfim, as consequências não serão das mais graves; mas aos costumes (ou seja, às leis consuetudinárias), ai daquele que se atreva a faltar: os males não tardarão a manifestar-se na família ou até na sociedade («a porção do conjunto age sobre o todo»16, como para nós o pecado afecta todo o Corpo Místico); e o transgressor não terá remédio, mais dia menos dia, senão confessar a sua culpa. 204
Hábitos e usos continuam
Deixa-se assim uma margem para a liberdade e espontaneidade pessoal, mas não se podia deixar de regulamentar, nas linhas mais importantes, o acto que, na ordem da natureza, mais nos assemelha ao Criador. 205
Liberdade na ordem
Homem e mulher, duas forças ou dois complexos unos de forças, participando de todas as forças do universo e ultrapassando-as pela palavra e pela vontade, integrados na sociedade e na natureza, fundem, sobre a esteira, à luz mortiça da palhota, as suas sombras solares, unem as suas sombras de talhe, comunicam-se, activamente tanto de um lado como do outro, as suas sombras vitais. 206
Fusão de sombras
Sombra, sim, mesmo a vital, porque outra força superior, criadora de todas as forças, lá está, não só para além das nuvens, mas ali presente, sobretudo neste momento, o mais importante da vida conjugal. Mwanaga abewu ya Mulugu – dizem no Cuwabo: o meu filho é semente de Deus. 207
Na presença activa de Deus
Na mentalidade banta, Deus está ali presente: é o monoteísmo – um Deus único, transcendente, sim, mas também providente; Senhor, mas também Pai. 208
monoteísmo
O elo entre o passado e o futuro está assegurado, a herança dos antepassados passará aos vindouros; os homens no além-túmulo estão contentes. É o aspecto animista da mentalidade banta, que também existe, mas não é exclusivo nem mesmo principal. 209
animismo
A natureza entra toda em vibração17; o semelhante age sobre o semelhante18; o ser humano pode reforçar directamente outro ser humano; e força vital do homem pode influenciar directamente no ser das forças inferiores19. É o dinamismo banto – outro aspecto importante da sua mentalidade. 210
dinamismo
Sendo de tão grande importância este acto, não admira que os maiores tenham todo o cuidado em o preparar na vida dos filhos. E só temos a lamentar que na Europa tantas gerações, século após século, tenham ido para o matrimónio tão impreparadamente, e com as consequências mais desastrosas. 211
O desastre da impreparação
Oxalá esta mensagem da sabedoria banta chegue a todos os continentes. Porque, não tenhamos ilusões, todos os milandos começam em casa, como dizem os africanos daqui. Podem apresentar-se imensos motivos de desarmonia: ainda hoje de manhã se analisaram muitíssimos20. Se bem os aprofundarmos, se os próprios bem se auto-analisarem, tudo começa sempre no que há de mais específico no matrimónio: a aceitação e a doação mútuas. 212
A causa mais profunda das desavenças
Ignorância da sua técnica, ignorância do seu valor, falta de maturidade afectiva: afinal, por outras palavras, falta de amor, egoísmo. Porque, quando se ama, procura-se a felicidade do próximo e não a nossa, embora esta resulte daquela. E procuram-se todos os meios para a conseguir. 213
imaturidade afectiva
Quando se atinge essa plenitude conjugal, tudo se suporta, até às maiores pressões dos familiares se resiste. Só quando há fendas, quando o ensinamento dos padrinhos não é seguido, então sim, o elo dos consanguíneos é maior do que o elo conjugal. 214
plenitude conjugal
É, então, importante ensinar os noivos a bem realizarem esse acto de modo que entre em vibração todo esse complexo de forças e ambos encontrem o máximo de alegria conjugal? É importante que se não vá para o matrimónio sem estas noções bem claras? E que se constante bem se os noivos já são adultos não só biológica, mas também psicologicamente? Sem dúvida. Se para o casamento natural os bantos tantos cuidados tinham e ainda têm, como se compreende que nós não tenhamos ao menos igual cuidado com o sacramento? Se a graça é para aperfeiçoar a natureza e não para a substituir, como se compreende que se fale de tudo menos do que há de específico21? Que se ensine tudo menos aquilo que põe em vibração, na sua mentalidade, não apenas o casal, mas todo o cosmos, aquilo que mais se põe em comunhão com os antepassados, aquilo que mais nos assemelha a Deus na ordem natural? 215
responsabilidade do missionário


A esta luz, compreende-se a preocupação dominante pela vida sexual: não se trata de edonismo (prazer a nível animal) nem de utilitarismo ao serviço da multiplicação humana. Trata-se de uma convicção, ao menos tácita, de que só no amor há fecundidade. Do amor conjugal resultará um reforço de vida do casal no seu conjunto e de cada um pessoalmente. Deste reforço de vida resultará um reforço para a família, para a parentela, para o clã e para a tribo, pelo surgimento do fruto desse amor: a prole. 216
Causa de toda a fecundidade
Erra quem pense que se juntam como animais ou com fins animalescos. É tão elevado o conceito deste acto que o regularam, ritualmente, convertendo-o num acto litúrgico22. E religiosamente se submetem. 217
Actolitúrgico
Ele, qual esposo do Cântico dos Cânticos, lava-se antes de se dirigir para a esteira, o leito nupcial. E assim o marido poderia dizer: Toda és formosa, amiga minha, e em ti não há mácula23. Da falta de limpeza resultam os mais graves milandos, e as mais graves consequências para os esposos e para a prole e para a sociedade. Ali, na esteira, não há estagnação: ou se progride na união ou na desunião, no amor ou no rancor. E, quando não há amor, nem o marido é gerado pela mulher para uma vida mais plena, nem a mulher é gerada pelo homem, nem os filhos se fortalecem normalmente nem a sociedade é fortalecida por estes seus componentes: há uma diminuição de forças em vez de um aumento. 218
limpeza na base da formosura
Depois de bem lavada, a esposa enfeita-se com colares de missangas à cinta, realçando a sua cor negra e as suas tatuagens. E, ao dirigir-se para a esteira, ao encontro do esposo, certamente Salomão também lhe teria posto nos lábios aquelas palavras inspiradas: Sou negra, mas formosa24. Estes dois pontos – o da limpeza e o do embelezamento – são tão importantes que têm provocado na Europa os maiores desequilíbrios. A mulher que se arranja para si própria e que se arranja para a sociedade25; a mulher que se apresenta fresca e formosa fora de casa. Mas que se abandalha portas a dentro, que entrega ao marido um corpo fatigado26, sem vigor, sem frescura, do qual o marido só se aproximará ou por concupiscência animalesca (se a mulher é frígida) ou por compaixão (se a mulher, apesar de tudo, alguma coisa arde); mas amor conjugal nem é uma coisa nem outra. 219
embelezamento
E este assunto é tão importante (não o esqueçam sacerdotes ou religiosas que tenham internatos para noivas) que Monsenhor Escriva, fundador do Opus Dei, ainda não há muito, em entrevista concedida a Pilar Salcedo, directora de uma das revistas femininas mais lidas em Espanha, o quinzenário «Telva», afirmava «– Outro pormenor: o arranjo pessoal. Se outro sacerdote vos dissesse o contrário, penso que seria um mau conselheiro. À medida que uma pessoa, que deve viver no mundo, vai avançando em idade, mais necessário se torna melhorar não só a vida interior como – precisamente por isso – procurar estar apresentável.» E mais adiante: «Por isso atrevo-me a afirmar que as mulheres têm oitenta por cento de culpa nas infidelidades dos maridos, porque não sabem conquistá-los em cada dia27.» Por que serão as amantes a fazer o que competia às legítimas esposas? 220
a esposa
e a amante
E assim, liberta de qualquer roupa (a roupa irrita o homem, embora por vezes gostem de ser eles a desnudá-las), bem lavada, e graciosamente adornada, com a vagina apertada e o clítoris saliente (pela operação otuna28, que vem realizando quotidianamente, como ontem Elio29 explicou), a esposa dirige-se para a esteira, ao encontro do esposo, e, evitando virar-lhe as costas, aguarda que este reajá. A iniciativa, como norma, cabe ao marido. Os alomwe dizem: Muhiyana kansusela a mulher não se aproxime. Mas, se não deve tomar a iniciativa, deve estar sempre pronta, salvo em casos de tabu, doença ou outro motivo forte. 221
transparência e disponibilidade
Mas o marido, por sua vez, é instruído no sentido de dar à mulher o que lhe é devido (até parece estarmos a ouvir Paulo de Tarso na I Carta aos Coríntios30). E se algum desvio encontramos, pelo menos em algumas regiões, foi uma frequência de actos (às vezes três e mais por noite), fora absolutamente de toda a higiene física e mental. Felizmente, os frequentes períodos de continência de algum modo contrabalançam este exagero. Mesmo assim, parece-me urgente um esclarecimento neste ponto. Não pensemos , no entanto, que isto acontece por concupiscência desordenada por parte do homem, porque, pelo contrário, é um forte peso. Pensamos, embora com reserva, que, nuns locais ou nuns casos, será pelo preconceito de que só assim se garante a fecundidade; noutros, e talvez seja a explicação mais plausível, ao menos da parte de quem dita estas normas, talvez seja para não deixar qualquer vontade, tanto a um como a outro, de infidelidade conjugal31. 222
correspondência do varão
Parece-me urgente explicar com muita clareza quais são os períodos fecundos e estéreis da mulher, como um só acto pode garantir a fecundidade e como o abuso pode não só provocar a degenerescência dos povos como até a esterilidade. Assim poderão os velhos aperfeiçoar as normas estabelecidas pelos antepassados, continuando a espaçar os filhos uns dois anos (medida óptima) sem obrigar a uma continência insuportável ou sem conduzir à poligamia; e usando deste direito e dever conjugal só na medida necessária para o casal crescer no amor. 223
Esclarecimentos biológicos
Pode, porém, o marido, por qualquer motivo, ser mais continente do que deve, e então a mulher poderia dizer ainda com a esposa do Cântico dos Cânticos: Eu durmo, mas o meu coração vela32. Durante a noite no meu leito busquei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o e não o achei33. Chamei-o e não me respondeu34. Então, insinua-se, provoca-o mesmo, e, como norma, o encontro dá-se, fortificam-se as vidas. É um alimento espiritual que gera para o amor. Os alomwe, para significarem as relações conjugais, dizem: Ojá mba, o que, à letra, seria comer em casa35. A esposa é uma mãe para com o marido, porque lhe comunica uma força maior, porque o gera para uma vida mais plena. O marido, igualmente, em relação à mulher: é um pai. O sentido banto de patérnidade e matérnidade é muito mais profundo e amplo do que os observadores superficiais pensam. Esta mentalidade parece-nos maravilhosamente exposta em Notre Rencontre, de TEMPELS, que nenhum missionário deveria deixar de meditar 224
patérnidade e matérnidade recíprocas
Se uma mãe é sempre activa para com os filhos, já estamos a perceber que, na mentalidade banta, não pode a esposa ser passiva perante o esposo, sobretudo no momento em que mais profundamente o gera para uma vida mais forte (A ÚNICA FORÇA É AMAR). A mulher é ensinada a comportar-se de um modo activo, com movimentos abdominais36 apropriados, de modo a atingirem os dois a plenitude da alegria conjugal. A passividade da mulher e a actividade do homem é uma anomalia, parece que bastante espalhada entre europeias, por falta de mães e madrinhas que as preparem para o matrimónio: os resultados, tanto entre nós como entre os destribalizados, estão à vista. A expressão que já ouvimos, de que o homem é para amar e a mulher para ser amada é contra a natureza. De um modo ou de outro, consoante as culturas e os temperamentos, os dois têm de ser activos até a perfeição de sintonizarem o orgasmo. A mulher é mais lenta, mais difusa, o homem, mais rápido, mais concentrado num certo ponto. O homem de se dominar, de se conter; a mulher tem de se activar, de se doar sem reservas. (Salvo os momentos iniciais em que esta se pode fazer rogada, para provocar a conquista; mas isto já são actos ou hábitos individuais, e não usos ou costumes, de âmbito geral.) 225
Actividade e reactividade recíprocas
Por fim, a mulher banta limpa o marido com ternura, numas terras, com a mão, noutras, já com pano. Mais uma lavagem e terminou o rito. Os dois repousam tranquilamente. 226
Repouso
Há uma oração pagã desta África Negra que nos parece que até cristãos deveriam pronunciar ao deitar ou no fim do acto conjugal: Senhor Deus, permite que nesta palhota durmamos tranquilamente e que ao romper do dia nos voltemos a encontrar na paz37. Enquanto os cristãos (sacerdotes, religiosas e leigos) se enclausuravam na Europa com uma cintura de exércitos protectores e, quantas vezes, agressores, o Espírito já trabalhava, e muito, nesta África. E nós tão pouco temos sido agradecidos para com este trabalho. 227
Oração conjugal
Mas a sabedoria dos velhos foi mais longe. Escolheu a noite para as grandes confidências ou reconciliações conjugais. Os atritos vão-se acumulando, periga a comunicação da vida entre os cônjuges. A mulher toma a iniciativa. Prepara melhor refeição, é mais carinhosa, e, de noite, com ternura, acorda o marido. Dá-se, então, aquele grande encontro, aquele grande diálogo, aquela grande comunicação, a que, na gíria das Equipes de Casais de Nossa Senhora se chama dever de se sentar: uma conversa conjugal profundamente íntima, em que se comunicam os desgostos e os prazeres, e se aplaina o caminho para uma vida sempre mais plena. Diria Lucas, fixando na escrita as palavras vivas de Cristo: «Qual de vós, querendo edificar uma torre, não faz primeiro, sentado, a conta dos gastos que são necessários, para ver se tem com que acabar? Para que, depois de ter assentado o fundamento e não a puder terminar, todos os que virem não comecem a fazer zombaria dele, dizendo: – Este homem começou a edificar e não pôde terminar38 228
diálogo na intimidade
E esta comunhão espiritual entre os cônjuges, ao contrário do que por vezes se diz ou se insinua, não fica no recôndito da intimidade sobre a esteira. Ela passa para a vida quotidiana. A sensibilidade africana é de um requinte que nos passa desapercebido, porque os nossos olhos e ouvidos ainda estão fechados. 229
Com projecção na vida quotidiana
Quando a mulher está grávida, já não prende o vestido aos rins, mas ao peito, e os seios fazem de cintura que segura o vestido. Segurar a cinta aos rins, seria impedir o livre desenvolvimento do feto, senão sufocá-lo definitivamente39. O marido, por sua vez, numa solidariedade afectiva que mostra bem como sente em uníssono não apenas as alegrias mas as dores, não deve apertar na barriga os calções, mas vestir de preferência a tanga, para assegurar assim a vida do feto no ventre da mãe40. 230
Simbolismo no vestuário
Depois do parto, quando chega o momento próprio do ritual, o pai é chamado. Queda-se, então, «na soleira da porta e espera que o recém-nascido lhe seja apresentado pela mãe. Ao vê-lo, ajoelha-se diante da mulher, e agradece-lhe. O colóquio entre os dois esposos torna-se comovente e interessante, e mostra como entre os africanos existe uma delicadeza de afectos, uma riqueza de expressões carinhosas, uma profundidade de sentimentos de amor e de intimidade, que parece um exagero aos olhos de quem viu no africano apenas um ser retrógrado e bárbaro. Olha para o filho várias vezes, sorri-lhe, olha para a mulher e, quase chorando, diz: – Sofreste muito, mas agora temos um filho e educá-lo-emos bem. Obrigado , Meu filho, eu sou teu pai, não, não chores; eu, com a tua mãe, demos-te a vida, cresce forte e bom como os teus antepassados. 231
agradecimento à mulher
«A esposa responderá ao marido, agradecendo o auxílio prestado   durante  o  tempo  de  gravidez   e  do  parto,   dizendo: – Marido meu, não te preocupes, Deus salvou-me e nós continuaremos a cumprir bem para que o nosso filho tenha saúde41 232
resposta ao marido
Um outro exemplo, bem conhecido de todos quantos vivemos nesta região arrozeira. Às plantadoras, não obstante trabalharem por conta própria, era negado o direito de colher para casa qualquer arroz, antes de entregarem à fábrica concessionária a quantidade de sacos estabelecida. Apesar de se sujeitarem aos piores vexames, elas sempre queriam, do primeiro arroz que amadurecia, preparar para os maridos aqueles manjares tão apreciados nesta terra. (como, por exemplo, o matagu). Os maridos apreciavam , sem dúvida, esta delicadeza, mas sabiam o preço daquele arroz, e pediam às mulheres que o deixassem  ...para os brancos. 233
arroz amargo
Esta mesma sensibilidade se nota na maneira como se aprecia a fidelidade dos noivos, que é a primeira garantia da fidelidade futura, e consequente plenitude de vida. Oromana – dizem os acuwabo: começaram juntos (isto é, não houve relações com outrem). 234
Fidelidade
pré-conjugal
Mas o acto conjugal não é apenas regulado positivamente: é-o também negativamente. As abstenções são numerosas e todos pasmamos, ao menos perante algumas delas. Se tivermos, porém, percebido a sua filosofia dinamista e vitalista, que no início tentámos explicar na sua aplicação ao acto conjugal, já tudo se torna claro. 235
continência periódica
Sempre que há uma diminuição de vida, o homem (e a mulher) deve abster-se do acto vital por excelência: 236
diminuição de vida
-    Durante o luto.  
-    Nas doenças graves.  
-    Nas desgraças.  
-    Quando se vai ver um desastre.  
-    Quando se vai ajudar a um enterro ou a construir a campa.  
-    Durante a guerra (quer se vá a ela, quer se fique na aldeia).  
Sempre que se deseje alguma coisa de importante da natureza, dos antepassados ou de Deus, também não se deve pôr em vibração o cosmos: 237
Excitação da vida
-    Não seria um absurdo querer caçar ou pescar e pôr os elementos em excitação, em vez de os procurar manter na calmia?  
-    E nesta linha não estará a continência durante a construção da almadia e da rede grande (muridchi)?  
-    E quando se cavam as colmeias (moma)?  
-    E na altura da colheita do arroz42?  
-    E naquela comunhão tão íntima entre a mulher e a natureza, não se torna tão claro que deva haver continência no tempo da menstruação, do parto e do puerpério, prescindindo mesmo de razões de ordem higiénica e afectiva (que, no entanto, também estão presentes)?  
-    E por aquela solidariedade e responsabilidade que une pais e filhos, não é bem lógico um mês de continência desde a primeira à segunda menstruação da filha?  
-    Também no dia em que tenham de ser submetidos, para efeitos de adivinhação, à prova do veneno (omwiha epedcho).  
-    Igualmente no dia em que deitem fermento na cervejá (opopela kacaso) – essa bebida que, além de tudo, é matéria do sacrifício.  
-    E quando se cava o musite (tambor grande), instrumento de capital importância na vida africana (religiosa e profana, que, como se tem explicado durante esta Semana43, se identificam, em sociedades homogéneas, em filosofias de integralidade cósmica).  
-    Finalmente a continência é prescrita em todas as grandes cerimónias, altura em que grandes coisas se esperam sobretudo do mundo invisível.  
Não nos parece que estes tabus só sirvam para complicar a vida. Será verdade, se tomados só na letra e não no espírito. Porque todos concordaremos em que a continência periódica é uma das grandes sábias leis do povo banto. A nós compete valorizá-las de maneira a que cada vez melhor possam servir a vida plena do casal e da sociedade. 238
Sublimação dos tabus


Eis-nos aqui perante alguns aspectos da espiritualidade conjugal africana. Até nós duvidámos se ela existiria quando, pela primeira vez, escrevemos esta palavra: encontro do que há de mais íntimo e espiritual no homem e na mulher através do que têm, igualmente, de mais material e carnal – encontro entre si, integrados horizontalmente no Cosmos e verticalmente na linha ascendência-descendência, e encontro simultâneo com Mulugu. 239
Essência da espiritualidade conjugal africana
Grande mensagem esta a da África negra ao mundo, sobretudo ocidental, tão sensualista e pornográfico. Mensagem sobretudo aos pais e educadores, que tanto se têm esquecido de preparar os que crescem sob a sua responsabilidade para uma maturidade afectiva – única e grande condição para ser legítimo avançar para o casamento (e até para a vida religiosa e sacerdotal). Por que, a par de cursos pré-matrimoniais, não aconselharemos com insistência a consulta também pré-matrimonial em estabelecimentos onde tenha lugar o médico, o psicólogo, o jurista, a assistente social e o sacerdote? 240
Mensagem negra
O casamento é para adultos. Podemos ter cinquenta anos solares ou mesmo biológicos e sermos uma criança sob o aspecto psicológico44. Adulto é o que procura a força vital para o outro e não para si ou, pelo menos, muito mais do que para si. 241
Noção de adulto
Quando saltarmos deste antigo testamento para o Novo, diremos que adulto é aquele que se casa não para aumentar a sua graça santificante, mas para santificar a sua mulher, para lhe comunicar uma força vital que, além de enriquecida por tudo quanto há no Cosmos, está penetrada , transfigurada pela força vital suprema: o Pai gerando o Filho e o Espírito Santo procedendo dos dois. 242
No Novo Testamento
Então, quando sobre a esteira, quais esposos do Cântico dos Cânticos, recapitularem a essência do matrimónio (consentimento e entrega mútua), concretizarão o mistério da intimidade entre Cristo e Sua Igreja, do diálogo no seio da Santíssima Trindade. 243
espiritualidade conjugal cristã
E já não será apenas a sociedade e o Cosmos a entrarem em vibração e a serem fortalecidos, mas todo o Corpo Místico de Cristo (incluindo, portanto, os Anjos) a vibrar de alegria num aumento de santidade. 244
Alegria sobrenatural





1

Homem, aqui, é no sentido de ser humano, sendo preciso fazer um esforço para prescindir de qualquer conotação sexista ou de género. As línguas bantas não têm estas ambiguidades.

2

Demónio.

3

Deus.

4

Cf. CEUTERICK, Père Pascal – Vers une essai de Patorale Africaine. «Jeunes Églises», Bruges, n.º 30, jánvier 1967, p. 1-13.

5

“C seguido de A, E, I, O, U  tem o valor de CI italiano.” (Síntese da Gramática, Coalane, 30 de Abril de 1963, copiografado.)

6

JUNOD, Henri A. – Usos e Costumes dos Bantos, Tomo II, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1947, p. 348

7

Id.

8

Cf.  TEPE,  Frei Valfredo  –  Psicologia, “Ciência do Diabo”?  «Sponsa Christi»,  Petrópolis,  Dezembro  1966,      p. 592-597.

9

Vid. entrevista concedida à «Flama» pela advogada e feminista Dr.ª Elisa Guimarães, de Lisboa, e ainda o artigo de Soeur Marie-André du Sacré-Coeur – Promotion Féminine et Familiale.  «Revue du Clergé Africain», Mayidi, n.º 6, Novembre 1966, p. 562-570, cujá tradução foi difundida por todos os aderentes à IV Semana de Estudos Missionários da Diocese de Quelimane

10

Este aspecto da espiritualidade conjugal africana que acabamos de tocar, e que sem dúvida é cheio de beleza, talvez não tivesse sido possível sem a colaboração amiga do Dr. José Manuel Bertão Carvalho da Cunha, um grande apaixonado pelos valores africanos, a quem sempre encontramos disponível para nos ajudar a reflectir nas sendas evangélicas da missionação – tantas vezes ignoradas ou deixadas por outros caminhos... que parecem mais fáceis! (E, todavia, numa preocupação de coerência, afirma-se não católico).

11

Ref. À comunicação de Elia Ciscato, scj, à IV Semana de Estudos Missionários, subordinada ao tema: Concepção banta do matrimónio

12

Ref. aos debates sobre a comunicação citada na nota anterior.

13

Referindo este aspecto negativo, longe de nós ignorar os muitos méritos da nobreza, sobretudo enquanto se manteve classe aberta à ascensão de novos valores e à saída dos decadentes.

14

Vid. nota 32, § 193.

15

Vid. nota 33, § 198.

16

Vid. nota 27, § 185.

17

Cf. JUNOD, Henri A. – Usos e Costumes dos Bantos, Tomo I, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, p. 189-218.

18

Vid. nota 27, § 185.

19

Vid. TEMPELS, Placide  - La Philosophie Bantoue, Paris, Présence Africaine, 3.ª ed., p. 46.

20

Ref. À comunicação de Cesare Bertulli, Superior Regional dos Padres Brancos em Moçambique, subordinado ao tema Causas de Infelicidade Matrimonial.

21

É bem certo que, a rigor, há muitos assuntos acerca do matrimónio que não competiria ao sacerdote nem à religiosa tratar, mas ao médico e sobretudo ao psicólogo. No entanto, até que isso seja possível, não há outro remédio senão aplicar o princípio da subsidiariedade. 

22

A expressão é de Ezequiel Pedro Gwembe Mlauzi, S. J., estudante de Filosofia na Universidade Católica de Braga, em carta de 12 de Fevereiro de 1968.

23

Cant, 4, 7.

24

Cant, 1, 4.

25

A africana não se atavia quando o marido está ausente.

26

Cf. HÉRRIÉ, Flore – A Mulher belga e as suas actividades familiares e profissionais. «Mundo Rural», Lisboa, n.º 65, Julho de 1968, p. 14-15: «– excesso de fadiga, que não favorece nada o bom entendimento entre o casal, nem dá disposição para atender devidamente os filhos.»

27

ESCRIVÁDE BALAGUER, Monsenhor Josémaria – A Mulher no Mundo e na Igreja. «Rumo», Lisboa, n.º 134, Abril 1968, p. 207-234.

28

Com isto não pretendemos valorizar nem moral nem higienicamente esta prática: constatamos, simplesmente, o facto.

29

Ref. À comunicação de Elio Greselin, scj, subordinada ao tema: Preparação para o matrimónio entre os alomwe.

30

I Cor, 7, 3.

31

Numa região da margem direita do Zambeze, alguns velhos atribuíam as suas próprias doenças ao facto de não terem sido fiéis a esta assiduidade, que eles consideram uma obrigação. Isto mostra como os homens levavam a rigor esse uso. As mulheres parece que se sentiam felizes com ele.

32

Cant, 5, 2.

33

Cant, 3, 1.

34

Cant, 5, 6.

35

Ojá significa comer; ojá vatakuru, por exemplo, significa comer na varanda ou no quintal.

36

Em certa região do interior, as mulheres queixavam-se, em confidências entre si, dos maridos se aproximarem delas animalescamente, não as deixando mexer-se como convinha. Um dia, nessa mesma região, fomos convidados a falar a grande número de casais sobre espiritualidade conjugal, e tocámos, também, este ponto. A admiração por conhecermos e nos preocupar-nos com os problemas mais íntimos da vida africana e por os tratarmos com tanta clareza e simultaneamente  com tanta delicadeza pareceu-nos que foi geral, tanto da parte dos homens como das mulheres. O africano aceita sem reservas tudo quanto se lhe indica para o bem (mesmo as correcções mais ásperas), desde que seja na linha da sabedoria ancestral.

37

PÉLICHY, A Gillés de / Américo Ferreira, C. S. (Trad.-Adpt.) – Orações pagãs da África Negra. «Portugal em África», Lisboa, n.ºs 96 e 97, Novembro-Dezembro de 1959 e Jáneiro-Fevereiro de 1960, p. 331-342 e p. 17-29.

38

Lc, 14, 28-30.

39

Esta citação é tirada de um trabalho inédito de Giovanni Battista Brentari, ofm cap., que também nos forneceu os dados linguísticos utilizados nesta exposição. Este trabalho a que nos referimos e que merece, sem dúvida, uma urgente publicação, tem por título DEUS NA SOCIEDADE AFRICANA, e, por subtítulo, Conceitos, Crenças e Costumes dos Bantos. Damos, a seguir, para se avaliar melhor do seu interesse, a sua divisão em três partes, e subdivisão em capítulos.

 

1.ª PARTE – A VIDA RELIGIOSA DO AFRICANO: CONCEITOS, CRENÇAS E PRÁTICAS RELIGIOSAS.
                Capítulo I – Conceito e Culto de Deus e dos Espíritos.
                Capítulo II – Os Sacrifícios
                Capítulo III – Mukwiri, o Demónio.

 

2.ª PARTE – A SOCIEDADE AFRICANA.
                Capítulo I – O Chefe.
                Capítulo II – Exorcistas, Adivinhos, Curandeiros e Mestres.
                Capítulo III – A Mulher na Sociedade Africana.

 

3.ª PARTE – OS QUATRO GRANDES MOMENTOS DA VIDA DO AFRICANO.
                Capítulo I – O Nascimento.
                Capítulo II – A Iniciação: A – Circuncisão. B – Fanação. C – Complemento.
                Capítulo III – O Casamento.
                Capítulo IV – A Morte.

 

A citação que fizemos é do Cap. O NASCIMENTO, pág. 178 do original dactilografado.

40

Idem, pág. 180 do original dactilografado.

41

Idem, pág. 184-185 do original dactilografado.

42

Aqui no Cuwabo, durante a colheita do arroz, só aos sábados podem ter relações sexuais, porque no Domingo não trabalham. Se acontece terem-nas em outro dia, abstêm-se de colher arroz no dia seguinte.

43

IV Semana de Estudos Missionários da Diocese de Quelimane, de 1 a 8 de Setembro de 1968, com noventa e um participantes de sete Dioceses de Moçambique, sendo dois bispos, vinte e sete sacerdotes, dois irmãos, quarenta e três religiosas e dezassete leigos.

44

Cf. HALPERN, Dr. Manuel Júdice – A Castidade. «Acção Médica», Lisboa, n.º 2, Ano XXVIII, Outubro a Dezembro de 1963, p. 84, 1.º § e respectiva nota.




    
 

 
    


CAPÍTULO QUINTO



othelanap01c05


I – VALORES POSITIVOS:
A – PERMANENTES:
11.º - Monoteísmo.
12.º - Carácter sagrado e social do casamento.
13.º - Participação do homem e da mulher no sacrifício.
14.º - Oração em comum do homem e da mulher.
15.º - Aceitação da sexualidade com serenidade.
16.º - Maternidade consciente.  
17.º - Influência da mulher, directa na família e indirecta2 na sociedade.
18.º - Estima pela fecundidade (paternidade e maternidade) e pela transmissão para o futuro da herança cultural dos antepassados.
19.º - Fidelidade conjugal.
10.º - Continência periódica.
11.º - Recato na menstruação.
12.º - Espaçar os filhos.
13.º - Preparação pre-matrimonial dos noivos.
14.º - Formação sexual e social.
15.º - Guarda da virgindade tanto para o rapaz como para a rapariga.
16.º - Esponsais.
17.º - Harmonia conjugal como ambiente para a educação.
18.º - Amor conjugal.
19.º - Indissolubilidade do matrimónio natural (como propriedade do casamento e não como essência).
20.º - Ajuda mútua no campo económico.
21.º - Conversa conjugal durante a noite.
22.º - Assistência do marido durante a gravidez.
23.º - Solidariedade.
24.º - Respeito pelos velhos.
25.º - Estima pela tradição.
26.º - Piedade filial e fraternal.
27.º - Amor maternal e paternal.
28.º - Dedicação e respeito recíprocos dos padrinhos e madrinhas dos iniciados
29.º - Educação dos filhos.
30.º - Hospitalidade.
31.º - Importância da integração no grupo sem prejuízo da liberdade pessoal.
32.º - Casamento como união de famílias e não apenas de indivíduos.
33.º - Abertura aos valores matrimoniais estranhos.
B – TRANSITÓRIOS:
11.º - Predisposição para receber a mensagem cristã à semelhança da que existia no povo eleito.
12.º - Desejo de promoção da mulher islâmica.
13.º - Sacrifício aos antepassados na ocasião do casamento.
14.º - Circuncisão e fanação, que dá direito ao casamento banto.
15.º - Dote.
16.º - Consentimento das famílias.
17.º - Brilhantismo social na celebração do casamento.
18.º - Influência benéfica da família no ambiente conjugal.
19.º - Verificação da virgindade.
10.º - Certos tabus.
II – VALORES NEGATIVOS:
A – GENUÍNOS:
11.º - Poligamia.
12.º - Mentalidade mágica.
13.º - Sentido supersticioso dos tabus.
14.º - Condição de certa inferioridade da mulher perante o homem.
15.º - Limitação da actividade feminina no âmbito do lar.
16.º - Separação dos sexos.
17.º - Deformação do órgão sexual externo da mulher.
18.º - sobrestima da maternidade biológica.
B – ACIDENTAIS        
(próprios e/ou importados)
11.º - Idade precoce do casamento, sob pressão psicológica.
12.º - Casamento de experiência.
13.º - Experiência sexual.
14.º - Os medicamentos para acelerar a maturidade fisiológica.
15.º - Diferença de idade entre os cônjuges.
16.º - Falta de conhecimento dos noivos antes do casamento.
17.º - Falta de preparação da rapariga no internato, que não teve em conta o ambiente em que devia viver.
18.º - Falta de formação religiosa.
19.º - Prostituição.
10.º - Homossexualismo nos acampamentos.
11.º - Matrimónio apressado por gravidez não desejada.
12.º - Divórcio.
13.º - Infidelidade.
14.º - Utilização de esterilizantes.
15.º - Diminuição da atracção feminina mesmo física.
16.º - Impertinência e desleixo da mulher.
17.º - Separação dos cônjuges provocada por emigração, serviço militar e contrato de trabalho.
18.º - Aborto voluntário e involuntário.
19.º - Dureza do marido.
20.º - Desnível cultural.
21.º - Complexo de inferioridade.
22.º - Perda dos próprios valores.
23.º - Mimetismo.
24.º - Proselitismo entre os islamizados.
25.º - Inferiorização da mulher por influência islâmica.
26.º - Pseudo-evolução.
27.º - Falta de habitação.
28.º - Separação do meio tradicional.
29.º - Alcoolismo.
30.º - Comportamento escandaloso dos europeus.
31.º - Desvios do dote.
32.º - Uma maior união com a família de sangue do que com o marido.
33.º - Falta de consentimento voluntário das famílias.
34.º - Influência das famílias.
35.º - Falta de dote.
36.º - Esterilidade.
37.º - Impotência.
38.º - Morte dos filhos.
39.º - Doenças.
40.º - Acidente.





1

Das CONCLUSÕES  da IV Semana de Estudos Missionários realizada em Quelimane de 1 a 8 de Setembro de 1968.

2

É claro que o facto da sua influência na sociedade ser sobretudo através do homem e não directa tem de ser ultrapassado. E é surpreendente a facilidade com que se tem conseguido que nas reuniões ambos os sexos se pronunciem com um à vontade que tão dificilmente se conseguiu nos meios europeus.




    
 

 
    


Segunda Parte



othelanap02
    
 

 
    


CAPÍTULO PRIMEIRO



othelanap02c01
Foi na década dos quarenta do século passado. O meu entusiasmo foi total. Era exaltante encontrar quem se preocupasse com os órfãos e com a maneira como eram tratados nas instituições religiosas – muito “caridosas” e muito pouco humanas... 245
Momento de graça
Eu próprio, da janela da minha cela em Vilar, via aquelas filas de uniformezinhos movendo-se ao toque de sinetas, sob a vigilância de outros uniformes, bem maiores e apelidados de hábitos. Era um asilo mesmo fronteiriço. 246
Recordação agridoce
Eu próprio visitara, uma vez, duas priminhas em instituição semelhante: eram apenas órfãos de pai..., mas a mãe, a minha prima Laura, não tinha recursos para as sustentar. 247
Saudade
Tudo sabia a frio, mas doentia religiosidade amornava – pior ainda – essa frieza. 248
O morno – pior
do  que o frio
Agora surgia-me quem analisava com clareza essa situação e apresentava alternativas – sustentáveis, diríamos hoje – com uma convicção e um entusiasmo que não podia deixar dúvidas, mesmo aos mais agnósticos (e eu, de certeza, não o era). 249
Clarividência
Uma vez, em Vila Real de Trás-os-Montes, onde tantas férias passei e onde tive o primeiro emprego e o primeiro namoro e noivado, visitei uma dessas instituições, em que talvez umas cinco freiras protegiam não sei se uma cinquentena de órfãos. Como de costume, vi tudo com muita atenção, ouvi, perguntei, ouvi, e lancei uma última pergunta: 250
Ilustração paradigmática
– Minha irmã: se, em vez das cinco freiras cuidarem das cinquenta crianças em conjunto, cada uma tomasse conta de dez, à maneira de mães adoptivas, não as ficariam a conhecer mais por dentro e não as educariam mais adequadamente, evitando os inconvenientes de uma educação em série? 251
Atrevimento
A resposta não se fez esperar, peremptória, legalista, quase transparecendo certa irritação, não, de certeza, hodegética, nem, muito menos, profética, mas toda sacerdotal, religiosa: 252
Mentalidade à flor da pele
– Não! Temos a nossa vocação, os votos, a Regra, as constituições. 253
Dogmatismo...
mesmo sem dogma
E despedimo-nos. Já não dava para falar nem do verdadeiro sentido dos votos, nem dos fundadores, nem da actualização dos métodos, nem de Psicologia, Pedagogia ou muito menos de uma escola nova. Saberia ela que no chamado mundo  em oposição a convento – uma Maria Montessori fizera mais pela felicidade das crianças do que tantas freiras de espírito inquisitorial, e de um modo muito mais evangélico do que aquelas que se consideravam constituídas em estado de perfeição? 254
Luz no mundo:
escuridão nos conventos.
Também para mim, porém, tudo isto era uma novidade – um novo aspecto da Boa Nova: estava a ser evangelizado – dentro do seminário, é certo, mas talvez ainda mais fora dele. 255
O Espírito sopra onde quer
Seria justo, por exemplo, que duas crianças que ficavam órfãos de pai e mãe, além da separação forçada dos progenitores, ainda tivessem de separar-se uma da outra, só porque não eram do mesmo sexo? E isto em nome de uma moral sacrilegamente apelidada de cristã? 256
Moral dita cristã
Seria humano que, a crianças privadas dos pais, se não proporcionasse um ambiente familiar o mais próximo possível daquele em que cresceriam se tal fatalidade não tivesse acontecido? 257
Onde está a tão propagandeada família?
Na falta de casais que se prontificassem a isso, não surgiriam jovens com vocação de mães adoptivas que acolhessem um certo número de crianças de ambos os sexos e de diversa idade, tal como uma família natural? 258
Utopia?
E por que não um ou outro idoso, também de ambos os sexos, que se encontrasse sem amparo, e aceitasse ser a presença de uma geração no meio de outras gerações mais novas? 259
Convivência íntima de gerações
Para isso bastaria uma instituição financiadora, formadora, estruturante. 260
Para uma família sucedânea
Quem assim pensava não era um espírito lunático, mas alguém eminentemente lúcido e prático, sem deixar de ser, como é óbvio, sensível: uma mulher que descobri quase no cume de uma montanha, lá para os lados de Arouca, numa casa de madeira, assente em penedos que davam para um riacho – com águas noite e dia cantantes...–, uma mulher acolhedora, como toda a família em que fora criada e vivia, inteligente, delicada, cativadora, insinuante e rapidamente prática. 261
Viria a ser fiel
 ao sonho da juventude?
Ainda hoje todos os colégios, liceus e escolas onde trabalho o confirmam, desde os superiores aos colegas e alunas ou alunos, e até os pais e encarregados de educação, ou mesmo outras pessoas que a conheceram ou ouviram falar dela. 262
Tudo levava a crer que sim
Acerca dessa mulher não podia haver ilusões nem restarem dúvidas. Ela não sonhava: vivia. 263
Impossível duvidar
E os tempos já estavam maduros, como se prova pelos "ninhos" surgidos em França, salvo erro nos fins dos anos quarenta ou inícios dos cinquenta do século vinte, onde cada mãe adoptiva acolhia algumas crianças e lhes proporcionava um ambiente o mais familiar possível1. 264
Ninhos
E como se prova, com uma amplitude e evidência muito maiores, pela iniciativa do Dr. Hermann Gmeiner ao conceber a SOS-KINDERDORF (Aldeia de Crianças SOS) e ao inaugurar a primeira, em 1949, «numa colina acima da cidadezinha de Imst, no Tirol»2, hoje multiplicada por mais de três centenas de vezes, em quatro continentes, atingindo mais de uma centena de países. 265
Aldeias SOS
Algum tempo depois, procurei essa mulher nas íngremes marge2ns do Tâmega, mas desconsegui: só estavam duas tias, idosas, simpáticas na conversa, mas sem abrir as portas ao caminheiro que se lhes apresentava pela frente. Diferença entre trasmontanos e minhotos? Eu vinha de Vila Real, a pé... 266
Íngremes margens
Nos dois dias anteriores, andara, pelas montanhas que ligam Trás-os-Montes ao Minho, uns bons sessenta quilómetros, agora, mais trinta para encontrar aquela que se me insinuara como a mulher forte e lúcida. E depois, no dia seguinte, ainda haveria de andar mais uns sete quilómetros: apenas sete... porque os meus dois companheiros3 desaguentaram e quiseram regressar a Vila Real de comboio, e já nem sequer me haviam acompanhado de Mondim de Basto a Rebordelo – alvo recôndito da minha viagem, a maior de toda a minha vida de pedestrianista. 267
Pedestrianismo
E, mais tarde, fui procurá-la no seu ambiente habitual, na Rua de Miraflor, 30 (ou 32?), em Campanhã, e aí ela me continuou a evangelizar, fazendo-me sentir os ventos da história, perceber os sinais dos tempos – muito antes do imprevisível João XXIII – sem nada de teórico ou sequer utópico, mas apenas com o seu exemplo de jovem que não temeu sair de casa para suprir o insuficiente rendimento familiar, não hesitou em renunciar à universidade (como ela desejava ser médica!) para permitir aos irmãos formarem-se,  enfrentou lugares e horas até aí vedadas a mulheres ditas honestas, assumindo assim responsabilidades nada frequentes naquela idade, despindo-se dos habituais preconceitos nos campos sexual e social, defendendo ideias pouco comuns, tudo com uma naturalidade desconcertante e insinuante. 268
Desconcerto e insinuação
(em simultâneo!)
E isto não era fruto da minha imaginação – quem sabe se já de um apaixonado e não de um simples admirador! –, porque isso mesmo me foi e tem sido testemunhado ao longo dos anos e pelo menos já em três continentes. Não era impecável, é obvio, mas não era vulgar: era fora de série. 269
Uma pérola em Miraflor
Foi então que, unida a uma amiga – a Maris4 – muito diferente dela, mas com o mesmo ideal, começou a recolher tudo quanto lhe davam para os futuros lares de órfãos, que todos queríamos o deixassem de ser. Gesto insípido, talvez simplesmente simbólico, único possível, porém, naquele momento. Mas como conseguir espaço para esses trastes, se no pequeno rés-do-chão onde viviam mal chegava para três irmãs, dois irmãos e os pais? 270
Pré-concretização
O eterno problema do espaço:  era preciso alargar as tendas... 271
Novos horizontes





1

Vid.

2

LANGEWIESCHE, Wolfgang  –  Kinderdorf–a Aldeia das Crianças. Selecções do READER'S DIGEST, Rio de Janeiro (Rua Teodoro da Silva, 907 - Grajáú), Março 1967, págs. 96-97-99-100-101.

3

Um deles era o Eduardo Taveira da Mota, filho e sobrinho dos dois patrões que tive em Vila Real, quando trabalhava como escriturário no armazém de mercearia da Rua Direita. O outro, se não me engano, chamava-se Manuel, mas dificilmente o identificaria agora.

4

Maris Stela Pinto Basto da Costa Rebelo.




    
 

 
    


CAPÍTULO SEGUNDO



othelanap02c02


Júlio a trabalhar


A altitudes um tanto semelhantes, a longitudes bem diferentes, a latitudes quase opostas, e cada qual com panorâmicas características, a verdade é que, naqueles primeiros dias do ano capicua do século vinte e um, as montanhas de Mankele, a mil metros acima do nível do mar, e, aproximadamente, a uma Longitude Este de 30º 45' 00" e Latitude Sul de 25º 45' 00", fizeram-me recordar o romance dos meus vinte anos com uma trasmontana dos seus quinze, mas já bem mulher. 272
Trasmontana,
 meu amor
Desde a mais tenra idade, passava, nas quintas de Vila Real, longas férias, e não só, porque, até iniciar o liceu, as minhas sucessivas professoras (com excepção da de piano) viviam em nossa casa: era o ensino doméstico, de meninos ricos, para serem protegidos dos perigos do mundo, quer dizer, das classes menos favorecidas ou das classes em degenerescência... 273
Domesticação
Também, por vezes, mas por períodos muito mais reduzidos, íamos para Santiago de Lobão, e aí ganhei o gosto pelos pinhais e pela vida de aldeia; mas o convívio com feitores e caseiros não ganhou as proporções – nem de longe – das que se foram estabelecendo em Folhadela, e que duraram até a minha vinda para África. 274
Fascínio silvestre
  Um feitor e caseiro – se bem me recordo: feitor na parte vinícola e florestal, caseiro na parte agrícola –, adivinhando (e não era nada difícil) as minhas tendências poéticas e místicas, construiu-me, com uns troncos, no recôndito do pinhal maior e mais elevado da Quinta de Vilalva1, um oratório aberto. Eram apenas uns quatro paus debaixo de dois pinheiros: um para apoiar os joelhos, outro para apoiar os braços  e dois para lembrar a cruz. A luz era coada pela popa dos pinheiros, a música era executada pela aragem a atravessar a imensidade de agulhas verdes dos seus ramos, e por um ou outro pássaro, e o chão era atapetado pela caruma seca de um castanho inigualável. 275
Mata vira catédral
Como eu gostava de passear naquele pinhal, subir a rampa das acácias que dava para a casa do cuco2, sair por um pequeno portão que dava para o santuário incompleto da Senhora de Lurdes, ajoelhar aos pés dela, contemplar lá ao longe a cidade – símbolo de Civilização – e voltar a embrenhar-me na mata – símbolo da Natureza  – e por lá vaguear, sentar-me a ler, talvez a escrever, saboreando as variantes das cores em constante mutação, e da música nunca repetitiva e sempre e simultaneamente calmante e excitante! 276
A casa do cuco
Também o olival me atraía, e os lameiros, na margem esquerda do ribeiro (de nome Tourinhas), e a corte do gado, sobretudo na hora de tirar o espumoso leite, que eu bebia ali mesmo, ainda morno, e reconfortante. 277
As vacas leiteiras
As vindimas e o lagar, onde até eu (pequeno e devido a atraso no andar) parece que pisei as uvas com os jornaleiros, abraçados, e a tocar concertina e a cantar – eram momentos altos na vida campestre, juntamente com as esfolhadas e a alegria de encontrar o milho rei – a espiga vermelha – que dava direito a abraçar todas as mulheres da roda e cumprimentar os homens. 278
Vindimas e esfolhadas
A quinta, porém, era limitada, na parte baixa, pelo ribeiro, e ,dos outros lados, por altos muros. Mas os portões, embora fechados à chave, se proporcionavam entradas, também convidavam a saídas, alargar tendas... 279
Os muros
 e os portões
Na parte alta do olival, havia um sobretudo convidativo para chegar na Quinta de Cima – assim lhe chamavam. Tínhamos lá dois quartos de reserva, mas o senhorio, meu pai, cedera-os aos caseiros e aos filhos. 280
A Quinta de Cima
Na sala, ao almoço, lá pelo meio da manhã, sentar-me com eles à volta da mesa, com o prato das batatas cozidas e um outro com azeite e vinagre, no meio, equidistante de cada um de nós, e empunhando o garfo, estendendo-o para apanhar, à vez, um pedaço de batata e demolhando-o  e logo em seguida saboreando-o... ou sentarmo-nos à volta da lareira, cada um com a sua tigela de sopa bem quente e suavemente mastigada – se não era o cúmulo da felicidade, muito se aproximava disso. 281
A sopa
à volta da lareira
Todos – mulheres e homens, adultos e crianças – conversando alegremente e partilhando o mesmo alimento à volta de uma mesa ou de uma lareira – tudo fruto do trabalho de todos – era mesmo, além de enorme prazer, um ideal de vida a acenar-me. 282
Realidade e sinal
Talvez só o tenha percebido na luta pela união de camponeses e operários com que iniciamos a independência de Moçambique, e nas celebrações eucarísticas, às tardes,  depois dos trabalhos revolucionários, no convento dos Capuchinhos de Bari, em Quelimane, ou em qualquer outro recanto do país ou do estrangeiro, onde nos encontrássemos. 283
Na luta
se abrem os olhos
A maior parte daqueles camponeses não conhecia o mar, e meu pai, quando no verão nos levava para a praia, convidava os filhos desses caseiros, e era eu que, espontaneamente, me encarregava deles. Em Espinho era notório, como mais tarde me apercebi, este jovenzinho que eu era, entretido com um grupo crescente de crianças (aos pequenos camponeses que viviam na casa alugada para a época de praia, juntavam-se filhos de um ou outro vizinho). 284
A partilha
...na praia
Os meus passeios em Vila Real, porém, não se limitavam às duas quintas (nas duas havia matas para alimentar os vinhedos). Toda a freguesia de Folhadela, desde Vila Nova de Baixo até  Vila Nova de Cima – com a sua ermida de Santa Luzia e a respectiva romaria em 13 de Dezembro – era percorrida por mim, e gostava de falar com os aldeãos e brincar com as crianças. Aquele introvertido nos meios formalísticos da burguesia, onde me sentia dentro de uma camisa de forças, surgia como um extrovertido nos ambientes campesinos (mais tarde também nos operários), onde me podia expandir sem constrangimentos. 285
Folhadela
 E não tardou a formar-se um grupo de crianças que me seguia nas passeatas por toda a freguesia de Folhadela com o beneplácito,  simpatia e até a gratidão dos adultos. 286
Ensaio profético ou frustrado?
Isto deve ter despertado a curiosidade de uma jovem liceal que vivia, em abastada casa de Vila Nova de Baixo, com uma irmã mais nova, a Anita, uma tia e a avó (o pai havia-se separado ou divorciado da mãe e vivia na cidade de Vila Real com outra companheira). 287
Encontro providencial
De momento, ia-me constrangendo: elemento burguês no grupo, parecia-me uma infiltração nada agradável. Mas eu não podia ser homem de prejuízos: como iria, na prática, trair os meus princípios filosóficos? Julgar a priori uma dádiva destas? 288
Fidelidade...
à sofia
...E a posteriori fui vendo que era a companheira que me faltava não só em Folhadela e nas férias, mas para todas as andanças da minha vida e em qualquer parte do mundo. 289
...bem compensada
 A solidão já não existia ao contemplar as ondulações montanhosas, os planaltos, os vales, os rios e os ribeiros, as noites de luar. Encontrara a quem eu poderia fazer feliz sem renunciar a ser eu mesmo. 290
com o sumisso da solidão
Já não era aquela menininha, filha de ricaço brasileiro, com quem precocemente primos meus mais velhos me quereriam entusiasmar. Também não era a priminha rica, minhota, que talvez também fosse um bom partido. Tudo isso me desagradava por falta de autenticidade e por intromissão nos meus sentimentos profundos, que não dava para exteriorizar em ambientes mornos. 291
Brincadeiras intencionais
Agora era uma mulher que surgia, vinha ao meu encontro, começou por me admirar, passou a sentir ternura por mim, a verter, às escondidas, lágrimas de saudade, quando eu regressava ao Porto, e começou a amar, talvez a primeira vez, mas já com bastante maturidade. 292
Atração séria
Não era a simples amiga por partilhar os mesmos ideais, ou os mesmos sentimentos artísticos, sociais ou políticos, ou os mesmos estudos, ou o mesmo trabalho, ou a mesma casa, ou as mesmas férias ou as mesmas brincadeiras. 293
conjugal,
além de amizade
Era a mulher que integrava a paisagem – não apenas geográfica ou transitória, mas a paisagem global, cósmica, qualquer que ela fosse e sob que prisma fosse – de um modo total e definitivo. 294
sem a qual nenhuma paisagem seria completa
 Eu queria evangelizar, sim, mas por que me haveriam de impor o celibato para o fazer? Em termos teológicos, por que se haveria de estabelecer uma incompatibilidade jurídica no Ocidente entre os sacramentos do Matrimónio e da Ordem? Se, por natureza, nenhuma incompatibilidade existe, se algures, no Oriente, até Roma aceita, por que exigir entre nós a coincidência, na mesma pessoa, da vocação resbiterial e celibatária?  295
O grande pecado:
Tentar dessa forma a Deus, impedir a autenticidade e felicidade a tantas pessoas, fomentar tanto escândalo e tanta hipocrisia, e, por cima, ainda proclamar a falta de vocações e a necessidade de pedir a Deus que faça surgir mais! Cinismo revoltante. Segundas intenções criminosas. 296
tentar a Deus
Eu não concordaria com Papini, se nessa altura já o conhecesse. Mas já conhecia Herculano, e concordava com ele. Eu não quereria ser um Eurico, sempre triste. Outros e outras há que, por vocação, e, portanto, com alegria, abraçam o celibato. Esses, porém, não têm o exclusivo da vocação presbiterial, assim como também não são só os homens. As mulheres – casadas ou não – nunca foram discriminadas por Cristo, nem naquela época, quanto mais agora. 297
Hierarquia discriminatória


Que peninha perder-se, na crise da juventude uma vocação que se revelara promissora na crise da adolescência! Aos quinze, abalara a opinião familiar a entrada num seminário frio e austero de quem vivia num ambiente morno e abastado de um grande casarão. Aos vinte, volta a abalar a mesma opinião familiar com a saída do célebre Seminário dos Grilos – aparentemente causada pela paixão por uma mocinha de aldeia perdida em Trás-os-Montes! 298
Infidelidade ou opção?
Mas não tinha ainda vinte e um anos (lembrou-se o zeloso Reitor, já depois de me ter exigido a passagem pelo quarto do Director Espiritual), e foi preciso autorização paterna para deixar o Porto e seguir para Coimbra a fim de me candidatar a aluno da Faculdade de  Histórico-Filosóficas. 299
Ai dos menores!
A autorização não se fez esperar... mas apenas para regressar à casa paterna, e assim tive de regressar a Vila Real3 e não pude seguir para Coimbra como era minha intenção. 300
Mais uma derrota
Os meus devaneios eram muitos. Primeiro, queria ir para Cucujães, a fim de ser missionário em África. Depois, aceitei um meio termo, fingindo que me preparava para padre diocesano, quando, na verdade, a ideia de África não me saía. Logo a seguir, no meio de prémios de bom comportamento, mas com notas horríveis em latim, quero me fazer contemplativo em Espanha, em alguma Cartuxa ou Trapa. Relaciono-me com Ir. M.ª Buenaventura Ramos, O.C.S.O., Abade de S. Isidro, apesar do «zelo seminarístico» de um contínuo – o Sr. Armando, salvo erro – me interceptar uma carta, para agradar ao «zelo maternal» de irmãzinha mais velha, que me quereria proteger das garras de frades castelhanos4. E agora, em vez de África, ou de Espanha, ou mesmo de Vila Real, onde vivia a apaixonada, quero ir para a Universidade de Coimbra! 301
Os meus devaneios
De facto, era preciso, aos vinte anos, ir para o pé do paizinho, para este me encaminhar, me proteger5 dos maus caminhos e más companhias, não fosse eu ainda me lembrar de pegar num saco e me fazer mendicante, na esteia de Francisco de Assis6... 302
O perigo do franciscanismo...
De facto, a preocupação do dote que ao menos certas ordens  ordens religiosas exigiam dos seus candidatos bem como dos golpes de baú não deviam ser-lhe estranhos, embora não fossem as únicas. 303
Golpes de baú
Um dia ainda havia tentado, sem o menor resultado, a emancipação. Tive de começar a contar os anos, os meses, os dias, ao contrário. Até que chegou o dia zero – a desejada maior idade – para começar a aventura da vida sob a minha total responsabilidade. Consultei um advogado e coloquei-me sob a sua defesa, para o caso de qualquer acção policial numa última tentativa de prolongamento da tutela paternal (o que, felizmente, não aconteceu: meu pai respeitava muito a legalidade). 304
Precauções judiciais
No dia seguinte, 9 de Janeiro de 1946, dirigi-me, logo de manhã, para a estação de S. Bento, e tomei o comboio para Vila Real (linha do Douro até a Régua, e a panorâmica linha do Corgo, depois). Ao meio dia, uma amiga minha entregava em casa de meu pai uma carta, delicada e talvez patética, que eu previamente escrevera. Não queria ferir, mas não podia renunciar à responsabilidade de traçar a minha vida. E nesse mesmo dia encontrava-me com a minha noiva. 305
A desejada
 maior idade
Compreendeu (todos compreenderam) a quanto renunciara por causa dela, e amorosamente me acolheu, e o romance continuou, não em sonho, mas na realidade quotidiana. 306
O preço do romance
Uns tios, que viviam em casa contígua (até havia uma janela de comunicação) hospedaram-me com a mesma afabilidade de sempre. E eu gostava das suas três pequeninas filhas, como se minhas fossem. Era uma ternura espontânea. 307
Hospitalidade em momentos difíceis
A avó admirava-me muito e favoreceu o noivado, apenas com os habituais cuidados da moral tradicional. A Tia Zélia, embora muito nossa amiga (bem como o marido, Rogério), era tão escrupulosa que até nos repreendeu, uma vez, quando estudávamos filosofia juntos, por, em vez de nos sentarmos à mesa um de cada lado, nos termos sentado do mesmo lado, talvez tocando levemente os braços... – aliás bem agasalhados, porque o frio de Janeiro não é brincadeira naquele clima continental. 308
O rigor da moral
O Tio Rogério aceitou que fosse trabalhar para o seu Armazém de Mercearia, na Rua Direita. Descontava cama, mesa e roupa lavada, e assim estava assegurada a minha subsistência e independência. Com o que restava, mais tarde, aluguei casa (no recém - construído Bairro de Nossa Senhora dos Prazeres, na Estrada do Circuito) e mobilei-a, e esperava os dezasseis anos da minha noiva para nos casarmos. 309
Um emprego
 a calhar
José, o pai, sócio capitalista e irmão do Rogério, gostava muito de mim: também a actual mulher dele. A Anita, a irmã mais nova, muito linda, talvez fosse um pequeno senão, porque gostava muito de nos espionar e não devia ser nada discreta. Pelo contrário, o irmão mais velho, Eduardo, foi sempre camaradão, tanto no serviço (como não era muito dado aos estudos, também trabalhava no armazém de mercearia) como fora do serviço. (Ainda lá pelos anos oitenta ou pouco antes, me emprestou um apartamento em Lausane para eu esperar pelo avião que me faria regressar a África de uma viagem ao hemisfério norte.) 310
Beldade perigosa (ou zelosa?)
Todos sabiam da oposição da minha família, mas todos respeitavam a opção bem livre e consciente de nós dois nos unirmos conjugalmente na idade legal da parte mais nova. Ela estudava, eu trabalhava, e, nas  horas vagas – que não eram muitas – íamos vivendo o presente e projectando o futuro. 311
Do outro lado: irmã maternalista,
essa, sim, perigosa
Este relacionamento era bem diferente das amizades que cada um de nós  mantinha. Não fora, também, um amor à primeira vista: era um amor conjugal que ia amadurecendo à medida que nos revelávamos e conhecíamos. 312
Discernimento do amor
A avó era uma pessoa maravilhosa quando do nosso lado, mas temível se contra nós: o próprio filho a temia e nada fazia contra ela. Eu estava radiante porque até por escrito me testemunhara o seu apreço e a sua alegria por me ir casar com a neta. 313
Filho adulto,
mas dominado
No armazém de mercearia eu também dera provas de competência e dedicação, muito embora, evidentemente, não pudesse estar de acordo com certos procedimentos da entidade patronal, tanto no relacionamento com o pessoal como, talvez sobretudo, com os clientes, os merceeiros a retalho das diversas aldeolas de serras e vales circunvizinhos. Um ou outro choque logo era ultrapassado pela nossa mútua admiração e reconhecimento. 314
O mito do
bom patrão
Meu pai, por outro lado, rendera-se, dolorosamente, estou certo, à evidência dos factos, aos direitos que me assistiam, sem no entanto, deixar de me considerar um filho pródigo, como, muito mais tarde, já eu estava em África e ele me voltara a admirar, comprovou com um recorte de jornal em que uma mini-banda desenhada ilustrava a célebre parábola  evangélica. 315Filho pródigo
Além disso, logo se apressou  a entregar-me a administração do pequeno espólio que meu avô materno, Ernesto Abílio Rodrigues, e meu tio paterno, Fernando Caetano Ribeiro, me haviam deixado. Era um certo alívio nas minhas finanças, permitindo-me, assim, enveredar pelo matrimónio com uma jovem liceal sem alterar o nosso bem estar diário. E eu, esporadicamente,  quando ele estava na Quinta de Vilalva, visitava-o. 316
Justiça
nas finanças
Um dia, porém,  o vulcão que parecia inactivo na avó entra em convulsão: alguém, quase certo da aldeia, a espicaçara, o seu orgulho ferve, e coloca-se ferozmente contra o nosso noivado. O pai, desgostoso, interce, mas desconsegue. Se a minha família está contra o casamento da sua neta comigo, então também ela vai opor-se terminantemente. 317
O resultado do maternalismo mesmo de quem não é mãe
O pai redobrou a amizade comigo, os tios colocam-se a meu lado, a adoração mútua entre nós crescia, mas era um inferno em casa dela, e nova táctica tinha de ser tomada. Já não podia ir, evidentemente, a casa dela, e às vezes até eram impedidos os encontros em casa dos tios, onde continuava a viver e me davam todo o apoio nesta nova e desesperante situação. Em casa do pai, no entanto, à hora do almoço, na cidade, continuávamos a encontrar-nos livremente. 318
O preço da resistência
Entretanto, como parecia lógico, uma vez que já alugara casa no recente Bairro de Nossa Senhora dos Prazeres, na estrada do circuito, no troço que dava para a Casa de Mateus, dos Condes de Vila Real e agora do Conde de Mangualde, e como já a tinha mobilada para o grande dia do casamento, eu deveria deixar a casa dos tios e passar a residir na nossa casa. Ela temia que essa mudança agravasse a situação, no sentido de nos vermos menos vezes e de se descartarem mais facilmente de mim. Por outro lado, porém, ganhava outra independência e passaria a ganhar o vencimento por inteiro. Foram tempos difíceis, e não há dúvida de que o isolamento foi terrível. 319
O preço da liberdade
Perante a irredutibilidade da avó e a fraqueza do pai, que nunca levaria a cabo uma acção legal contra o parecer dela– melhor, contra a vontade omnipotente dela–, tínhamos de cortar o mal pela raiz. 320
A ilusão de vencer
Foi então que concebemos um plano ao abrigo da Concordata. Quando os dezasseis anos fossem atingidos, apresentar-nos-íamos, os dois, ao bispo diocesano e, sob a invocação de perigo moral, pediríamos que ele nos testemunhasse o casamento canónico, que, nessas circunstâncias, teria imediatos efeitos civis. 321
O Direito
 a nosso favor
E assim íamos vivendo, nesta esperança de que tudo correria conforme planejado. Era dura a espera, mas um grande amor tudo faria suportar. Mais uma vez tive de contar o tempo a decrescer. 322
Nova contagem decrescente do tempo
Só que, ao aproximar-se a data, ela vacila – com medo da avó – e descombina o combinado. Seria preciso esperar mais cinco anos... e eu não tinha o arcaboiço de um santo… 323
A minha grande fraqueza
Sempre percebi e percebo que ela não tivesse a heroicidade de enfrentar a fera que era a avó quando ferida no seu orgulho, nunca lhe tive raiva, foi uma falta à palavra bem compreensível, mas eu ainda era e sou mais fraco, e desfaleci. 324
O meu desfalecimento
E procurei novos rumos... 325
E agora?
O pai procurou-me para recomeçar, mas eu já não tinha esperança, já não acreditava, e como seria o amor sem confiança e sem fé? 326
Sem esperança e fé, pode haver amor?
Lembro-me bem de uma dessas conversas, um pouco depois da passagem de nível e antes de entrar no patamar superior da célebre ponte metálica sobre o Rio Corgo – obra do mesmo  construtor da Torre Eiffel. 327
Ponte sobre o  Corgo
Mas todos continuámos amigos e, evidentemente, o ocorrido em nada afectou o meu trabalho no armazém de mercearia: só o deixei quando resolvi continuar Filosofia na Universidade Gregoriana. 328
A vida continua
Embora com um final fracassado, este foi dos mais belos romances que vivi. Desaguentei uma falta de palavra bem compreensível, e, afinal, acabei por suportar – sabe Deus com que raiva – tantas outras faltas de palavra de quem menos poderia esperar, e sempre sem a mínima justificação ou sequer posterior reconhecimento... como se tudo fosse muito normal e muito correcto, e até nem pudesse ser de outro modo. 329
Alergia
à falta de palavra
Este romance, porém, mais uma vez me indignou contra os pais e  tutores  que  se  opõem  à  vocação dos filhos,  e  levou-me a efectuar uma intervenção escrita no I CONGRESO INTERIBEROAMERICANO DE EDUCATION, realizado em Madrid, de 16 a 25 de Outubro de 1949, no sentido de se exigir das autoridades estaduais a protecção dos menores desrespeitados nos seus direitos de opção quer no campo profissional quer no campo matrimonial. 330
Os outros, ao menos, não sofram o que eu sofri


Esta foi a segunda mulher que, depois de adulto, me evangelizou, não só pela ternura, intimidade e amor com que vivemos um noivado, cuja interrupção se deve mais à minha fraqueza do que à dela, não só pelo apoio que me deu a lidar com o grupo de crianças de Folhadela, mas ainda por me ter libertado de uma visão legalista do relacionamento humano, influenciado que eu ainda vinha por certas normas do Direito Canónico referentes aos casos ditos de mancebia. 331
Valeu a pena,
Não é muito melhor que um homem separado da mulher (apelidada de legítima) viva estavelmente com outra, em vez de se perder com esta, aquela e aqueloutra? 332
porque aprendi,
Hoje até é ridículo ser preciso dizer isto, mas, naquele tempo, não era o único católico a ter assomos de escrúpulo por frequentar casas dos ditos amantizados (para minha vergonha, que já me considerava razoavelmente despreconcebido e evoluído...). 333
porque cresci,
Hoje, que penso já ter aprofundado mais a essência do matrimónio – que não pode existir (ver válido, muito menos legítimo) apenas com um amor universal ou com uma amizade (sólida que seja), mas exige também, e cumulativamente, um autêntico amor conjugal –, hoje penso já não ser tão leviano como outrora ao tentar discernir os falsos dos verdadeiros casamentos. 334
porque redobrei a luta,
Cada vez mais nos damos conta de que a sua autenticidade e legitimidade pouco tem a ver com os registos civis ou religiosos, ou  mesmo com os rituais, quaisquer que eles sejam, tantos são, de facto, os casos de invalidade, que  ninguém ou quase ninguém se dá ao trabalho de esclarecer. 335
porque me senti amado
Tanto se condenam divórcios, separações, uniões de facto, adultérios (que muitas vezes nem o são, porque nunca o casamento existiu senão no papel ou nos rituais) e quase não se fala dos casamentos viciados de nulidade por ausência de qualquer elemento essencial, nem se promovem estatísticas, que sem dúvida seriam não só surpreendentemente reveladoras como sobretudo sadiamente desmascaradoras! 336
O fim da hipocrisia
Será que a sociedade, ao descrer dos formalismos legais, está assim tão corrupta que já não liga aos valores do matrimónio e da família, ou será que desesperadamente (ou lucidamente?) procura repor a verdade onde afinal só existe falsidade, erro e/ou mentira? 337
Devassos ou lúcidos?
 Em vez de temermos divórcios, não será de temermos que matrimónios nulos continuem a infernizar pais e filhos? Em vez de temermos a desagregação da actual instituição familiar, não será muito mais sadio reestruturar a família em moldes libertadores? O que há a temer, isso sim, não será que a família continue, das formas mais refinadas (desde as selváticas às subtis e mistificadoras), a frustrar, às vezes irremediavelmente, o futuro de cada um dos seus membros? 338
O amor prende ou liberta?
O que é preciso salvar a todo o custo? O matrimónio, a família, as instituições? Ou a felicidade de cada um? 339
Erro ou falsidade e mentira?
E para nós, cristãos, o que é evangelizar? Pôr o ser humano ao serviço das instituições, por mais respeitáveis ou até sagradas que sejam, ou estas ao serviço do ser humano? Proclamar uma notícia atemorizante ou uma notícia jubilosa? 340
Terror ou alegria?
Quando é que o sermão da montanha e o cântico de Maria da Nazaré serão incorporados na doutrina oficial das igrejas e não apenas nas suas leituras rituais (e tantas vezes apenas como enfeite)? 341
Proclamação da felicidade
Quando ajudaremos as hierarquias a libertarem-se e a libertar-nos de sucedâneos dos Estados Pontifícios e do Direito Romano, e conquistaremos o direito de viver plenamente o Evangelho? 342
Vaticano e Direito  Canônico
Obrigado por me teres evangelizado, libertando-me de prejuízos tão desumanos e ensinando-me a amar. Não ouso pronunciar ou escrever o teu nome, mas o vocativo está-me sempre presente. 343
Vocativo





1

Na margem de um ribeiro chamado Tourinhas, suponho que afluente do Rio Corgo.

2

Casebre vazio onde às vezes um ou outro viandante pernoitava mesmo sem licença do senhorio, meu pai.

3

Meu pai e minhas duas irmãs, mais o pessoal doméstico (duas ou três criadas), passavam parte do tempo no Porto, parte em Vila Real e outra parte em S. Tiago de Lobão (Vila da Feira). Isto deve ter-se passado no Outono de 1945, talvez após as vindimas.

4

Essa carta do Dom Abade, que mais tarde haveria de conhecer pessoalmente e que me prefaciou o livro  RESSURREIÇÃO DE ALCOBAÇA, nunca me chegou às mãos e, por isso, nunca cheguei a ler. Soube da sua existência por um professor, se não me engano, o de Matemática (P. Morais?), autor da capa do meu opúsculo S. ROBERTO. O próprio Reitor do Seminário, Doutor António Ferreira Gomes (mais tarde o célebre Bispo do Porto que enfrentou outro Doutor, também António, mas de Oliveira Salazar), embora na certeza de muitos incómodos e poucos ou nenhuns resultados, prontificou-se a entregar o caso à Polícia de Investigação Criminal. Acobardei-me, senti o peso de faltarem uns cinco anos para atingir a maior idade, que, na altura, e ainda durante décadas, continuaria a ser os vinte e um anos. Ai dos menores!

5

Não tinha sido exactamente para me proteger que, após o exame de admissão ao liceu, eu deveria ter continuado os estudos no ensino particular e não no oficial? Isso não aconteceu, graças à intervenção de um primo meu, médico, Delfim Lecour de Meneses, Director do  Instituto de Medicina Legal do Porto. Ele tinha, já há três anos, um pupilo, filho de um caseiro das propriedades de Paredes, a freqüentar o Liceu de Alexandre Herculano; e assim me salvei, naquele momento, do sempre bem intencionado patérnalismo. Ainda escrevo, de longe a longe, a esse amigo de infância, José de Sousa Ribeiro, engenheiro electrotécnico, hoje reformado da Companhia Carris do Porto.

6

Esta do saco de S. Francisco não foi da minha imaginação, mas sugerido por palavras que nessa época  lhe ouvi, sentado na escrivaninha do escritório da casa de Vilalva, entre o zangado e o irónico.




    
 

 
    


CAPÍTULO TERCEIRO



othelanap02c03
Chegara à Beira em 3 de Outubro de 1950, graças ao convite de um amigo, licenciado em Filosofia pela Gregoriana. Era solteiro, já estivera a trabalhar em Angola, e agora chefiava a secretaria comum de quatro sindicatos nacionais, onde também eu haveria de chefiar as respectivas contabilidades durante cerca de seis anos, isto é, até a minha ida para Quelimane como missionário leigo, para colaborar na recente diocese desmembrada da Beira. 344
Irmão que ajuda a irmão...
Nas primeiras semanas ficara no apartamento dele – semanas difíceis, em que o meu lugar nos sindicatos já não estava seguro, porque outro pretendente, e logo sobrinho do presidente de um dos sindicatos, o dos ferroviários, aparecera em cena. 345
Concorrência no trabalho
O bispo protegia-me, o governador geral insinuou que me estimava, o outro concorrente conseguiu ainda melhor emprego junto do tio, e eu iniciei com entusiasmo a minha aventura em terras de Manica e Sofala. 346
A cunha
Quando minha mulher e os dois filhos conimbricenses chegaram, já tinha alugado uma casa geminada – denominada Vila Lamartine, ao lado da garagem dos machibombos – no troço entre o Alto da Manga e a passagem de nível da estrada Beira-Dondo. 347
Desejado reencontro
O meu chefe também ficara a viver connosco, para ajudar a pagar a renda e sentir-se em família. Como tinha carro e eu ainda não, facilitou-nos imenso a vida e proporcionou-nos muitos passeios. 348
Ambiente familiar apreciado
Algum tempo depois, os Padres Brancos propõem-me construir casa na Missão de S. Benedito, a algumas centenas de metros da passagem de nível, antes dela e à direita de quem vai da Manga para o Dondo, no meio do matagal e a entrar na extensa savana... 349
Ambiente missionário
includente
Nascido na Foz do Douro, freguesia de Nevogilde, numa rua perpendicular à marginal (Avenida Brasil), ali mesmo defronte do molhe, que eu tanto gostava de percorrer até o fim, para me sentir em pleno mar e receber salpicos pouco meigos das ondas encapeladas, habituado a longas caminhadas a molhar os pés, em Matosinhos, em Leça e desta até a histórica praia de Mindelo, onde Pedro IV desembarcou para nos impor o seu liberalismo (afinal pouco liberal) e a percorrer os enormes molhes que cercavam o Porto de Leixões, e até a ir lanchar a sumptuosos paquetes do Loyde’s Brasileiro que ali ancoravam, familiarizado com os pinhais de Lobão, e montes e montanhas de Vila Real e vilas e aldeias próximas, tantas vezes percorridas a pé, de carro de bois e, depois, de bicicleta, treinado na vida de cidade, porque pouco depois de nascer logo fui viver para o ponto mais alto do Porto, porque aí fiz os meus estudos, e porque não descansei sem conhecer todas as cidade de Portugal continental, predisposto para a planície pelos encantos de um Alentejo, que ainda hoje gosto de revisitar e não me sai da memória, eis-me agora em plena savana africana, a perder de vista do lado de trás da nossa casa.
350
Fascínio da savana
À frente dela, mas a uma boa distância, ficavam as construções da Missão: a pequena maternidade, ali mais perto e de lado, e, mais ao longe, a casa das irmãs, o internato de moças, a escola, e, mais tarde, o campo de futebol e o primeiro bairro económico para africanos, ficando, do lado oposto, isto é, à esquerda de quem vem da cidade, a casa dos padres, e, mais tarde, a igreja, e, ainda depois, o cinema, que exibia películas com actores africanos (vindas das missões do Congo belga).  351
Infraestruturas
Aí, na savana, vivia a maior parte do meu tempo, porque o período de trabalho nos sindicatos, de manhã mais longo, de tarde  mais curto, dava para chegar a casa bastante cedo. 352
Horário de trabalho propício
Filhos a multiplicarem-se e a crescer e a começar a vida escolar, círculo de amigos proporcionando-me um ambiente social agradável, iniciativas apostólicas em constante fervilhar, tudo numa atmosfera de missão que tanto havia ansiado. 353
ao voluntariado
Era a Biblioteca, com um sector de empréstimos e outro, posterior, de vendas, envolvendo, mais tarde, casas comerciais revendedoras consignatárias desde a Beira até Machipanda; era o cinema com filmes de fundo completamente inédito em Moçambique; era o campo de jogos; era o bairro habitacional de casinhas em alvenaria, finalmente destinadas aos africanos. 354
e às iniciativas
A Biblioteca da Missão de S. Benedito da Manga, com as suas iniciativas, as suas reuniões, os seus estudos, os seus fins de semana, os seus retiros, as suas festas, atraía pessoas da cidade (a 15 km de distância), atraía colaboradores, convertia-se num laboratório de ideias, projectos, calor apostólico. 355
Laboratório de idéias e calor
Passamos a ter carro (o tradicional VW) e a Maria Ester até tirou carta de pesados para uma eventual aventura florestal ou agro-pecuária (eu é que desconsegui). Ela própria pegava no jipe da Missão (eu nunca gostei de conduzir jipe) e ia, descontraída, angariar fundos e materiais para as construções. 356
A mulher forte
Queríamos estudar chisena, mas as aulas eram de noite e o sono sempre foi e ainda é o nosso forte. Por outras palavras: desconseguimos, com grande pena e com grande prejuízo para o nosso trabalho e para nós próprios. 357
Primeira derrota
Visitei todas as missões dos Padres Brancos em Moçambique, e penso que me inteirei dos problemas de evangelização, e aprofundei os seus métodos – o que, mais tarde, tanto me facilitou o trabalho na Diocese de Quelimane. 358
«Noviciado»
Os laços de amizade criados com esses missionários foram tais que, depois de dezenas de anos de separação, ainda há pouco, em vários pontos da Europa, senti continuarem bem forte (e eu que tantas vezes me inibi de aparecer, receoso de tudo se ter apagado...). 359
de bons resultados
Turisticamente, era a Rodésia que  faria os meus encantos, como, depois, na Zambézia, era o Malawi, e agora, no Maputo, é a África do Sul. Não há dúvida de que os ingleses, em cada recanto rústico ou panorâmico, sabiam proporcionar um conforto e uma beleza que perdura na memória de quem, alguma vez, tenha experimentado o seu acolhimento: Leopard Rock, Vumba, e tantos outros recantos. 360
Também turismo
Do lado de cá da fronteira, paisagens nada inferiores. Mas que diferença no tratamento, no bom gosto, na limpeza! 361
Português/inglês: que diferença!
Uma excepção, porém, surpreendeu-me como um sonho de fadas ou de mil maravilhas, quando, certa noite, já cansado e com o carro empoeirado (a estrada Beira-Umtali ainda não estava asfaltada), depois de Vila Pery e em direcção à Vila de Manica, onde as únicas luzes eram as dos meus faróis, me sinto banhado por uma crescente e maravilhosa iluminação: era uma pousada (melhor diria, um parador, porque pousadas, no antigamente, eram para os cavalos, e paradores é que eram para os cavaleiros). Iniciativa do chefe da estação de Garuzo, ali próxima, da linha férrea que ligava a Rodésia ao porto da Beira, passou a ser ponto de paragem  ou até de destino, imprescindível... até que o encanto se quebrou com as incursões de Smits & companhias.   362
Parador de sonho
Mas não foi só o Volkswagen a contribuir para que a vida se  tornasse encantadora: a bicicleta, que eu não sosseguei enquanto as irmãs também não começaram a gozar da sua utilidade, a bicicleta, que eu começara a usar na Figueira da Foz e, depois, por largos anos, em Vila Real, a bicicleta era outro dos meus encantos, embora isso ainda fosse mais notório em Coalane, quando os filhos já eram mais crescidinhos, e podia levá-los, um de cada vez, no quadro,  e conversar tranquilamente com cada um deles através dos campos, transmitir-lhes o que sentia e ouvir o que eles quisessem dizer... 363
Bicicletas também para as manas
Eu dava-me todo àquilo que estava a fazer, integrava tudo (muito diferente de somar tudo), nunca me dividia nem nunca me sentia dividido. O conflito entre profissão e família ou é uma desculpa ou um equívoco. Não se pode ser bom chefe de família se não se for bom  profissional, porque é a profissão que dá o sustento. Também dificilmente se será um bom profissional, se os problemas de família atrapalham. Por isso digo integrar, não somar. Pai ou mãe que, por exemplo, com a doença de um filho, põe de lado a profissão ou na prateleira o amor conjugal, pensando que está a ser exemplar no amor paternal ou maternal (pelo dito amor cometem-se tantos crimes!), está, na realidade, a fazer perigar a saúde integral de todos. Mais tarde ou mais cedo, as consequências far-se-ão sentir. 364
O perigo da obsessão
Assim, procurei ser o mais competente e dedicado dos funcionários sindicais, assumi provisoriamente com toda a consciência a chefia da secretaria, estava apto a responder a todas as consultas sobre legislação sindical, às vezes até efectuadas por magistrados. 365
Levar a sério o trabalho profissional
No trabalho missionário, não sosseguei enquanto não fui capaz de propor novos métodos de evangelização (posteriormente confirmados pelo Vaticano II) aos padres e irmãs mais apegados a métodos clássicos, pouco consentâneos, porém, com o Novo Testamento e até com certas normas quer de alguns papas quer da Propaganda Fidei (em cuja influência o governo português nem podia ouvir falar). 366
e o trabalho missionário
Antes de vir para África, escrevera um livro sobre pedagogia, já inspirado na escola nova de Maria Montessori e na nova visão que a Maria Ester me havia sugerido sobre o relacionamento entre sexos, excluindo a sua separação como das mais nocivas para o ser humano, livro com princípios que ainda hoje subscrevo sem dificuldade, mas com certas aplicações concretas já muito e muito ultrapassadas ou até erradas. 367
e o trabalho familiar
 E se gostava tanto de crianças – quem me conheceu em Folhadela, em Espinho ou nas ilhas da cidade do Porto (que são uma réplica dos bairros da lata de Lisboa ou dos bidons ville de Paris) sabe-o bem – é fácil de calcular o carinho pelos meus próprios filhos. A cada um me dava inteiramente. O mesmo com todas as crianças e cada uma que me surgisse. Nunca, penso eu, me dividi, porque penso que sempre temi a desintegração como a morte. Ligar os grandes princípios da Filosofia e da Política ao concreto mais concreto até o ínfimo pormenor talvez sugira ao menos um prisma da integração. 368
Com coerência
E, assim, a Maria Ester, que me gerara para uma nova visão do mundo e me propusera um ideal de vida com os órfãos, que em nada colidia com a vida conjugal (mesmo sacralizado com o tal matrimónio, excludente na concepção de clero e clericalistas), que alinhava nos entusiasmos esclarecidos de um Cesare Bertulli, que sabia desdobrar-se para em tudo ser perfeita, a Maria Ester não podia deixar de ser a fonte de toda a minha força e o alvo de toda a minha ardência. 369
Beneficiando do que aprendera em Arouca e em Miraflor


Foi neste contexto que surgiu a Maria Benedita, recém-nascida numa aldeia denominada Chamba, situada entre a já referida passagem de nível da Manga e a Inhamízua, filha de pai branco, português, septuagenário, e de mãe negra, de doze anos, que veio a falecer no parto ou logo após o parto. 370
A concretização do ideal
Os missionários já deviam saber da nossa cumplicidade num ideal que nos levou ao casamento e que, portanto, nos uniu muito para além de um simples amor universal ou de uma simples amizade. 371
que nos uniu
O amor universal engloba, necessariamente, toda a criatura, e pode existir mesmo sem reciprocidade. A amizade, embora sempre aberta a qualquer uma ou qualquer um, só pode englobar limitado número de pessoas, e não pode existir sem reciprocidade. O amor conjugal, supondo sempre, necessariamente, o amor universal e a amizade, não pode englobar mais de duas pessoas1. 372
no abraço amoroso
É certo que dificilmente os cônjuges se podem realizar plenamente se trabalharem no mesmo local, mas pode muito bem trabalhar-se no mesmo empreendimento em sectores diferentes e sem qualquer subordinação recíproca. E há casos até, embora raros, em que o amor conjugal em nada é afectado e até se fortalece num trabalho em comum, sobretudo se o mesmo ideal os une, como aconteceu com os esposos Curie. 373
e no trabalho
A Maris, uma amiga também aliada a esse ideal (já muito antes da minha adesão), não acreditou que, a braços com filhos próprios, isso se pudesse concretizar2. Talvez nunca tivesse ouvido falar dos numerosos casais de missionários de outras Igrejas (não romanas). Talvez, ao menos no subconsciente, também considerasse excludente o sacramento do matrimónio – remedeio providencial para o comum dos pobres seres humanos sem ideais mais altos. Talvez estivesse despeitada por a amiga a não ter convidado para o casamento, como esperava, porque em tempos se haviam prometido que o  fariam, quando alguma delas casasse... Mas nós dois reagimos, desafiamo-la, testemunhando a nossa convicção e resolução inabalável. Longe de ser um estorvo, o nosso casamento era uma força a mais. Mas ela e uma outra colega sorriam... 374
O sorriso dos descrentes
Também um médico, nosso amigo, professor catedrático da Universidade de Coimbra, conhecedor desse ideal já antes do casamento, advertira-me de que eu, como celibatário, poderia muito melhor servir essa obra, porque trataria todas as mães adoptivas por igual. Respeitei a opinião; mas fiquei a matutar: se um cristão triste é um triste cristão – como sempre ouvi dizer quando era impelido a fechar-me em mim mesmo por desaguentar aqueles ambientes hostis onde durante tanto tempo fui obrigado a viver –, muito mais um padre triste seria um triste padre, e eu, se aceitasse o celibato, seria um desses tristes padres, porque não tinha vocação para tal. 375
O aviso dos prudentes
Havia, além disso, a considerar que, para mim, o matrimónio, não quando apenas no papel, mas quando válido por respeitar os componentes essenciais, nunca é um laço estrangulador, mas uma progressiva libertação.  376
Nó de gravata? Jámais
E, no serviço ou na vida social, nunca admiti que o facto de serem cônjuges – ainda que a trabalharem juntos ou  a divertirem-se juntos – desse lugar a discriminações ou a sentimentos de ciúme. Seria batota, e duvido muito que, com batota, pudessem perdurar amizades e, menos ainda, o próprio amor conjugal. 377
Batota nos grupos
Para mim, falta de pudor, por exemplo, pode até não incluir nudez, desinibição ou um à vontade de gente que se estima. Para mim, falta de pudor é, isso sim, diante de terceiros, ter atitudes que só o  amor conjugal – e nunca a simples amizade ou o amor universal – permite, legitima, torna saudável, transforma em prazer, alegria, felicidade. 378
Nudez pode não ser despudor,
O exibicionismo de actos só aceites entre casais seria um desafio aos elementos do grupo ou aos circunstantes, uma provocação que só pode gerar mal estar, constrangimento, senão mesmo o ridículo e, quem sabe se, em certos casos, frustração. 379
mas há atitudes que tem podem ser
Havendo respeito por cada pessoa e pelo grupo, e eliminando manifestações de amor conjugal, penso que tudo é permitido, e um grupo de adultos de ambos os sexos pode funcionar maravilhosamente ainda que se dê o caso de não saberem do estado civil de cada um. 380
 Discriminação de estado civil?
É interessante que, mais tarde, Hermann Gmeiner, na estruturação das aldeias S. O. S., prevê a presença masculina: pelo menos a de um homem casado e com filhos, na figura do chefe de cada aldeia. 381
Presença masculina em meio feminino
Parece que estávamos no bom caminho, e sem receios de que o tal sacramento fosse excludente. 382
Excluídos por sermos casados?
Quanto às amigas da Maria Ester, nunca me esquece como nos olhavam com um sorriso, irónico talvez, mas também de admiração e alegria. Elas conheciam-na bem e de longa data, e exclamavam: – Sois uns pontos! 383
Uns pontos!


Pois esses dois pontos estavam, enfim, no momento da prova real de que nem o sacramento dito excludente nem os filhos eram estorvo para a realização de projectos altruísticos e missionários, os mais arrojados que fossem. 384
Postos à prova
A prova dos nove já tinha sido tirada e estava certa: nada de incompatibilidades intrínsecas ou de natureza. 385
A dos nove
... deu certo
E por que haveria de haver contradições essenciais (per se), se todos temos de ter uma vida profissional a par de um estado de vida? Absurdo é estabelecer conflitos entre profissão e família. 386
Per se
Mas é claro que per accidens tudo é possível acontecer, por melhor que se tenha projectado qualquer actividade seja dentro do lar, seja no convento, seja no local de residência, seja no de trabalho, seja na vida social, política ou mesmo religiosa. 387
Per accidens
A prova real é sempre necessária. A teoria – por muito  bem elaborada que seja – pode ter sido omissa em algum ponto: a prática é que vai dizer a última palavra, ao menos enquanto a teoria não for remodelada ou aperfeiçoada. 388
A prova real
Naquele ansiado dia – afinal talvez só por mim, sempre na boa fé daqueles consensos pré-matrimoniais – ia começar o prova real. 389
Fé ou ingenuidade?
A Maria Benedita – nome que evocava a Missão que, por meio de nós, a acolhia – era mais uma das nossas filhas. 390
Maria Benedita
E logo pensei nos aspectos legais desta nova (mas há muito  desejada) aventura, e escrevi ao administrador do concelho (a Beira, pela sua catégoria de cidade, tinha o estatuto de concelho e não de administração) a perguntar como poderia adoptar a criança cujá identidade indicava. 391
A mania da legalidade
Só que, em vez de resposta, fui intimado a depor em tribunal  como testemunha de acusação (ou como queixoso?) num processo crime que o Ministério Público – baseado na minha carta com intuitos bem diversos – instaurara contra o pai da criança. 392
custou-me cara:
Compareci na audiência de balalaica, por acaso até de mangas compridas, e de calças também compridas (ai se não fossem!), pensando que, num clima tropical, até me apresentava de um modo muito decente e respeitoso. 393
passei por faltoso
Não entendeu assim o meritíssimo, que de imediato me obriga a levantar, perguntando se eu, ao sair de casa, não sabia para onde ia, para me apresentar assim tão à vontade... Comecei logo a fazer a figura de réu, porque, afinal, até o fim da audiência, fui o único agredido. 394
e o faltoso foi absolvido!
A defesa – na pessoa, não me lembro bem se do Dr. Palhinha, se  do Dr. Ermitão – depois de ouvir várias testemunhas apresentadas pelo acusado, e que confirmavam a virilidade do réu (nunca percebi bem que vantagem haveria em mais esta indicação de que, de facto, se tratava do pai da criança), discursou eloquentemente sobe os familiares da falecida e precoce mãe, que ignoravam e se perguntavam o motivo de terem de estar ali num tribunal. Afinal o sucedido não estava nos parâmetros dos seus usos e costumes, que todos devemos respeitar? 395
Manipulação da cultura banta
Perguntado se me queria ouvir (aliás como fizera o Delegado do Procurador da República), simplesmente respondeu que não. 396
Depoimento dispensado
E o meritíssimo, embora condenando o procedimento do réu, lamentou que a legislação não lhe permitisse condená-lo, e, assim, o absolveu. 397
Legislação omissa:
será mesmo?
Em artigo de jornal, publicado no Diário de Moçambique, mostrei toda a minha indignação por um tribunal aceitar o retorcimento da lei consuetudinária (aliás muito respeitável) e a degenerescência de usos e costumes (também muito respeitáveis) para defesa – e eficaz! – de um crime bem óbvio em qualquer código penal de qualquer parte do mundo dito primitivo ou dito civilizado. 398
Recurso à imprensa diária
Pouco depois, perante a minha insistência em saber como legalizar a situação da criança acolhida em minha casa, o administrador (um desses todo-poderosos da época) telefonou-me a dizer que não estava obrigado a responder a cartas de particulares, e nem sei se me chegou a indicar a repartição a que me deveria dirigir. 399
De novo a minha ingenuidade
O caso, porém, encerra-se de outro modo: a criança adoece e tem de ser entregue aos cuidados hospitalares. Felizmente a enfermeira era uma religiosa nossa amiga e tenho a certeza de que fez por ela tudo quanto faria por um dos nossos filhos de sangue. 400
Epílogo mesmo?
Quando voltei ao hospital central da Beira, já a encontrei sem vida, mas soube que, nos derradeiros momentos, havia sido baptizada com o nome de Maria Benedita. 401
Já na margem do lado de la
No dia seguinte acompanhei-a a enterrar no cemitério de santa Isabel, no Maquinino, na margem direita do Chiveve. Avisei o pai, mas ele não compareceu3. 402
Depois do
Pedro Manuel, a Maria Benedita
Como foi a prova real? Não das mais felizes: não pelo seu desaparecimento físico – isso já me tinha acontecido ao meu primeiro filho nascido em Roma e sepultado, dois dias depois, no cemitério de S. Lourenço fora-dos-muros, e havia de voltar a acontecer, dentro de um ano, após os acontecimentos atrás narrados, ao sexto filho (de sangue), gémeo do sétimo, também ali, no hospital e no cemitério da Beira –, mas porque ficou evidente que a mãe adoptiva, embora a tratasse com toda a caridade, embora suportasse as insinuações de estranhos de que essa criança seria fruto de meus devaneios com alguma negrita, a verdade é que não tinha a mesma paciência e de  modo nenhum a mesma alegria que sempre tinha para com os filhos de sangue. Esses, sim, tivessem ou não sido esperados ou desejados, sempre foram recebidos com imensa ternura e alegria, sem nunca ter saído da sua boca qualquer palavra de revolta ou sequer de impaciência, como acontecia com a Maria Benedita4.
403
A prova real não coincidiu com a dos nove
Quando hoje, na Aldeia S. O. S. de Laulane, na periferia do Maputo, vejo mães adoptivas que têm os seus filhos de sangue em casa (às quais só vão nos fins de semana) pergunto-me se isso estará nos parâmetros traçados pelo Dr. Hermann Gmeiner. 404
Filhos adoptivos e filhos do próprio ventre
E também a figura da «tia», que fica a substituir a «mãe» nessas folgas. Parece-me estarmos a retorcer tanto a cultura banta como o espírito que deve animar as Aldeias S. O. S. 405
Tias adoptivas?
E também me pergunto se essas mães darão aos filhos adoptivos o mesmo amor que dão aos filhos do próprio ventre. Falo de amor maternal: não de instinto maternal. 406
Instinto e amor
Há casos, é certo, de adopção da parte de casais já com filhos que, se umas vezes não resulta, muitas outras dão os melhores resultados. Como me lembro daquela grande mulher que foi a Adélia, casada com o Roque, nossos vizinhos em Coalane e  também do nosso grupo de casais! E de muitos outros casos motivados pela guerra ou outros acontecimentos. Ainda não há muito a televisão, não me recordo de que país, nos fazia reflectir no caso de um soldado que salvara uma criança e, não tendo a quem  a entregar, a levara para casa, esbarrando de imediato com dolorosa oposição. Por fim, o bom senso e o amor triunfam: a criança é colhida no meio dos outros filhos e todos crescem e se formam e se lançam na vida, felizes. Não vou dizer que a instituição familiar se salvou  à custa do sacrifício de algum ou alguns dos seus membros ou de alguma pessoa estranha. Vou dizer, sim, que a felicidade de todos e de cada um foi possível, porque souberam optar pelo amor universal, pela amizade, e, assim, também o amor conjugal perdurou. Este é que, no fundo, tornou feliz toda a família. Ai dos filhos que não são gerados e educados  no amor conjugal! E ai dos pais também! E de nada vale (porque no fundo até piora tudo) querer camuflar a falta de amor conjugal com uma amizade ou um querer bem insípidos... para salvar aparências,  estatuto social, os filhos (que engano!), a instituição familiar (que hipocrisia!).
407
Uma realidade e não uma ilusão
Voltando às Aldeias S. O. S., penso que a única mulher casada e com filhos próprios pequenos será a do chefe de aldeia – a tal presença masculina prevista por Hermann Gmeiner. 408
Aldeias S. O. S.
Fracassado embora, este foi mais um episódio da minha passagem pela Manga, no início da imensa savana, onde vivi cerca de seis anos. 409
Tentativa fracassada
Aliada a essa savana sem fim, de horizontes diferentes de todos os outros horizontes, com nuances em cada instante do dia ou da noite, complementada pelas variações do céu e suplementada pela nossa sempre variável maneira de a contemplar, aliada a essa savana de beleza ímpar, porque mesmo na sucessão há sempre o ímpar, aliada a essa savana, fica-me sempre presente a Maria Benedita – mais do que filha de paternidade tardia e maternidade precoce – filha, isso sim, do grande ideal que me aproximou da Maria Ester e nos levou, por fim, ao amplexo conjugal.
410
Filha de um grande ideal





1

A poligamia islâmica é um equívoco, porque é permitida na condição do homem dar o mesmo amor a cada uma das mulheres, o que os próprios muçulmanos reconhecem ser impossível. E a poligamia banta não passava de um mal menor, numa sociedade onde há mais mulheres do que homens e onde, dado o isolamento provocado sucessivamente pela escravatura, pelo colonialismo, pelo neocolonialismo e agora pela dita globalização, os progressos científicos demoram a chegar ou não chegam mesmo.

2

Conversa em Aveiro, quando a visitámos no regresso da viagem de núpcias à serra da Estrela, no intuito de lhe testemunharmos o nosso propósito de avançar no projecto em conjunto com ela e todas e todos que se aliassem a nós.

3

TEXTO DA CARTA

4

Só Deus sabe quanto sofri ao ouvir (e quanto ainda hoje sofro ao recordar) as palavras mais que ásperas, de impaciência e revolta, ao limpa-la ou mudar as fraldas durante a noite, palavras nunca ouvidas até aí, nem nunca mais pronunciadas após o seu desaparecimento. Quanto desejava que elas não ficassem gravadas no subconsciente ou no inconsciente da Maria Benedita! Mas ficaram, evidentemente. E eu, ingenuamente, pensava: – Não foi este o ideal que nos uniu até o ponto de nos casarmos? (O pior da minha ingenuidade é que, ainda hoje, acreditaria e me deixaria seduzir.)




    
 

 
    


CAPÍTULO QUARTO



othelanap02c04
José Maria
O fim da segunda guerra mundial apanhou-me no último ano de Filosofia no Seminário dos Grilos, no alto da margem direita do rio Douro. Felizmente que em Vilar tinha tido outro professor, e assim, com essas bases, suponho ter suprido (ao menos em parte) as deficiências do ensino da Metafísica, que o actual professor1 quase ignorou ou reduziu talvez a uma simples gramática de termos – obsoletos, talvez... Indignei-me, mas dei graças a Deus pelo meu primeiro mestre – António Ferreira Gomes. 411
Situado no espaço e no tempo
Naquele dia, os meus colegas estavam irrequietos e eufóricos, e escreveram no quadro preto (aliás, verde, se não me engano) a palavra Vitória. Mais me enfureci: é claro que eu folgava pelo fim da guerra, pela paz (se tal passasse a existir), mas nunca concordei com rendições incondicionais – como se todos os bons estivessem de um lado e todos os maus do outro. E recusei-me a assistir à aula enquanto a palavra vitória não fosse apagada. 412
Cessar fogo
Felizmente o professor – o tal da Metafísica, que, se quis aprofundar, tive de o fazer por mim, – concordou, ou condescendeu, mandando apagar a palavra Vitória a quem a tinha escrito (salvo erro, o Ângelo). E a aula iniciou-se sem mais incidentes. 413
Concordância ou condescendência?
É claro que eu era suspeito, porque fora germanófilo, enquanto não soube toda a verdade sobre o nacional-socialismo, mas já tinha dado provas da minha isenção no Liceu Alexandre Herculano, quando exortei toda a camada juvenil a manter-se firme, nem de um lado nem do outro, mas a favor do nosso povo e sempre pela justiça2. 414
Um rótulo atraente
Talvez uns dois anos depois, já casado, quando surgiu a febre de acolher crianças austríacas enquanto os pais não aparecessem ou não tivessem condições de tomar de novo conta delas, a Maria Ester e eu, então residentes em Vila Real, não nos fizemos rogados, e prontificamo-nos, bem dentro do ideal que nos havia unido, a tomar conta de alguma delas. 415
Crianças austríacas
E recordo o sorriso snobe (mesclado de condescendência) com que nos (des)acolheram... evidenciando que aquilo era só para elites, e  nós, de certeza e felizmente, não pertencíamos a elas. Não chegara a nossa hora! 416
Reconduzidos à insignificância


Mais tarde, já em África, rebentara a luta de libertação em Angola. Enquanto outros faziam as malas, mesmo em Moçambique, nós mandávamos vir da então metrópole, o resto do nosso espólio mobiliário, e, assim, quisemos afirmar o nosso propósito de permanecer com o povo moçambicano, ao qual, pelo menos os nossos filhos, pertenciam. 417
Opção reconfirmada
Quatro anos depois, rebenta a revolta no norte de Moçambique. Não nos colhe de surpresa (surpresa foi a sua demora!), porque há muito sabíamos ser justa e inevitável, embora talvez não exactamente como aconteceu. 418
Abre a primeira frente
Pela minha parte, de acordo com o meu bispo, continuei com reuniões, mato fora, procurando que os moçambicanos se consciencializassem dos momentos que se aproximavam e da necessidade de manterem os próprios valores (não os desvalores), e acolherem os valores alheios (não os desvalores, que sempre nos quiseram impingir), mas salvaguardando a própria identidade e liberdade. 419
Na rectaguarda: trabalho de conscientização
Infelizmente – por culpa minha – só o podia fazer junto de catequistas e professores que falavam o português. 420
Mea  culpa
O meu disfarce era a expansão do livro católico e a evangelização (falo em disfarce, porque a noção que os portugueses sempre tiveram de evangelização era, e não sei se ainda hoje é, muito diferente da que Cristo, não os papas, nos urgia realizar). Mas sei muito bem que isso nem sempre pegou...  em Nauela, por exemplo, o chefe de posto que me mandou vigiar recebeu a seguinte mensagem dos cipais: – Júlio / muitos filhos / muitos livros / IN. (In=inimigo, na codificação administrativa.) 421
Mal disfarçado


Foi neste contexto que íamos sabendo de massacres colectivos e crimes individuais – ora cometidos pelo exército português, ora pelos administrativos, ora pela PIDE/DGS. Foram tempos terríveis, porque, além de tudo, sofríamos empaticamente (sabeis quanto isso custa?) e nos sentíamos impotentes na defesa da justiça e dos direitos humanos. Qualquer acção planeada tinha de ser habilmente executada, sob pena de deitarmos tudo a perder, sem nenhum resultado positivo ou até piorando a situação. 422
Agudização do confronto
Uma das minhas maiores amigas, uma comunista que conhecera em Lourenço Marques, dizia-me: – Temo muito por ti, Júlio, és cristão e podes ser tentado a ser mártir. Não é disso que precisamos. Luta, sim, mas de modo a nunca tocares as malhas. Só assim serás um verdadeiro revolucionário, só assim  serás útil ao povo. 423
Rosália
O marido, ainda hoje vivo e também meu amigo (como me sentia bem com este género de ateus!) confirmava-a. Foi dos casais que mais me ajudou, apesar de viver tão longe. 424
Fernando
Um dia, uma outra amiga – essa vivia em Quelimane e ajudava directamente na expansão do livro, na visita às palhotas e em todas as actividades em que nos metêssemos – um dia, chega à livraria ainda mais preocupada do que de costume. 425
Constança
Um capitão miliciano do exército português termina uma operação de limpeza no planalto de Mueda. Os seus soldados, pelo sim pelo não, verificam se todos e cada um dos mortos estão, de facto, mortos. Limpeza é limpeza, e basta escapar um para tal limpeza ficar mal feita. 426
Operação de limpeza
E não é que, debaixo do cadáver de um maconde, estava um filho, escondido, talvez dos seus cinco anos? O soldado agarra-o e prepara-se para lhe dar a sorte de todos os outros (por que não?). No planalto, porém, ecoa um grito – uma ordem – do comandante: – Esse não!!! O soldado, estupefacto (ou talvez contente: quem sabe?), baixa a arma. E o pequenino maconde é salvo. 427
Esse não!!!
De regresso ao quartel, não sei se o coronel ou qualquer outro superior hierárquico, pergunta:  – Se matastes os outros, por que não esse? 428
Por que não esse?
Matar, no entanto, em campanha, era – para eles – uma coisa (muito legal pelos vistos), mas matar dentro do quartel, assim, sem motivo, e logo uma criança, era outra. Extraordinária moral esta! E o pequeno José Maria – assim lhe passam a chamar – vira mascote dos oficiais, come com eles na messe, todos o estimam. 429
Meia moral
Um dia, a mulher do capitão vem visitá-lo, trata o seu pupilo muito bem, mas vai-o avisando de que não o quer em Lisboa, na casa deles. 430
Sensibilidade feminina
Assim são as mulheres! Ou certas mulheres? Eu não quero ser sexista, machista, ou seja lá o que for: eu acredito, continuo a acreditar que são só certas mulheres, até porque também certos homens não lhes ficam atrás. 431
ou insensibilidade (des)humana?
E o pobre capitão fica a sofrer, ele que tão contente estava por ao menos ter podido salvar uma vida no meio do massacre que o obrigaram a fazer. Ele que até dera o próprio apelido àquele macondezinho. Ele que, certamente, já o estimava como filho. 432
Sensibilidade
dos fracos
ou dos fortes?
Então, dirige-se às missões católicas, onde sempre existiam internatos com crianças daquela idade. Mas todos objectam:  – Como colher uma criança habituada ao nível de uma messe de oficiais e obrigá-la a viver no nível pobre dos internatos? Seria impensável uma crueldade dessas. 433
As portas que se fecham
E o pobre capitão não sabe que fazer. Eu sei bem como pode ser desesperante uma situação dessas. Contrariar a esposa, poderia comprometer para sempre uma relação, e o filho adoptivo seria sempre a maior vítima. Abandonar esse filho seria despedaçar o próprio coração, além de injusto, também. 434
Que felicidade conjugal!
Nesta altura do relato da Constança, passei eu a preocupar-me:  – É preciso evitar que este acontecimento resulte em jamais qualquer oficial português se atrever a salvar a vida seja de quem for. Se as ordens forem de matar, é matar mesmo. E nada de complicações. 435
A fuga de sarilhos
Agora já não é um projecto de vida: agora é uma emergência de guerra. Quem não compreenderá! E que diferença para uma casa como a nossa, com três ou quatro empregados domésticos3 (como sempre tive até as proximidades da independência), mais uma criança no meio da nossa numerosa prole? Falo em casa no caso, com o meu habitual entusiasmo e certamente emoção, convicto de ser compreendido desde os mais velhos até os mais novos. E, baseado na sentença quem cala consente, faço saber a esse oficial do exército português, por meio da própria Constança, muito relacionada com as pessoas bem da Zambézia, que a minha casa estava disponível para acolher o pequeno maconde, se outra solução preferível não fosse encontrada. 436
Porta que se abre
E um dia – estava a Maria Ester em missão de serviço na Alta Zambézia, mais exactamente, no Gurúè, por acaso com  os filhos que, assim, aproveitavam uma mudança de ares – surge-me o referido capitão com o pequeno José Maria. 437
e o José Maria entra
Era a alegria de um novo filho. Num caso destes, todo aquele ideal que me unira à Maria Ester ou, melhor, todo aquele ideal que a Maria Ester me insuflara não podia ser desmentido. A prova real não podia falhar. Como eu pensava que conhecia o coração de uma mulher! Pelo menos, o da minha mulher! 438
e a prova real ia dar certo

 
...Só que nem sempre os que habitavam sob o mesmo tecto viam a guerra colonial do mesmo modo, nem sempre os que partilham a mesma cama vibram em uníssono... 439
Ondas diferentes...
Aquilo de que quis livrar o jovem oficial acabava de cair sobre mim, dentro e fora de casa. Até os criados queriam levar o macondezinho para a palhota... para que não ficasse na casa de alvenaria junto dos meninos brancos. 440
...ruído irritante
A minha firmeza só conseguiu evitar o pior, mas o mal estar subsistia e, por vezes, vinha à tona, e a hostilidade social era notória. Os portugueses e portuguesas da rectaguarda não eram melhores do que os da frente batalha. 441
Surdina para remediar
Excepção de uma ou outra amiga: quem sabe se, na verdade, só a Maria da Glória – antiga enfermeira psiquiátrica e actual dona de uma pensão – foi, de facto, nesses tempos de aflição, o meu grande amparo! E também alguns missionários, sempre a meu  lado e eu a lado deles, mas esses eram italianos e os portugueses, mesmo os ditos católicos, apostólicos romanos, não se cansavam de os apelidar de estrangeiros que não podiam compreender o patriotismo lusíada. 442
Maria da Glória
Como durante a semana não podia estar muito tempo com o José Maria, à saída da missa, em Coalane, acarinhava-o, mas logo os outros rodeavam a mãe para – só mais tarde o soube – demonstrarem que eu seria o pai do africaninho, mas eles eram os filhos da mãe. (A que soam, como soam e que significam estas palavras?...) 443
Provocação que nem percebi
Às vezes o castiguei em particular para levá-lo a evitar conflitos com os que eu pensava poderem considerá-lo irmão. Mas eu sabia claramente a justeza da sua aparente altivez: no fundo,  apenas dignidade. Nunca condenei os meus filhos, porque não sabiam o que faziam (e até suspeito que alguns o estimavam), mas os adultos sabiam bem o que faziam e diziam. 444
Expediente
nada justo
Tive pena de não ter gozado por mais tempo da sua companhia, mas guardo uma cena bem significativa. Íamos todos a passear pelos palmares de Coalane e, a certo momento, passa um soldado fardado. Alguém se refere a ele – soldado – em termos elogiosos. José Maria não pára de brincar, mas exclamou, para quem o quis ouvir:  – É bom matar? 445
É bom matar?
Mais tarde, já em Portugal, soube que as recordações de guerra o terão voltado a atormentar, ao ouvir os morteiros do fogo de artifício. 446
Disco duro
não deletado
José Maria: tenho pena não ter feito mais por ti, mas a solução que me pareceu melhor foi conseguir que fosses acolhido pela aldeia S. O. S. de Bicesse, há pouco construída. Custou-me muito ter de recorrer a uma metrópole que desencadeou a guerra que matou o teu pai, e parece que para sempre te separou da tua mãe, fugida ou morta talvez quando transportasse armas para os guerrilheiros da Libertação Nacional. Ao teu pai e à tua mãe (e a tantos outros que inumeráveis órfãos deixaram) devemos, também, a independência de Moçambique e o início da libertação do seu povo. 447
Filho de heróis da libertação nacional


Ainda trocámos algumas cartas, que se encontram sob a guarda do AHM. O mesmo com a directora da instituição que o acolheu. Visitei-o em 1974 e falei-lhe da nova situação em Moçambique. Percebi que alguém o preconcebeu contra o dito comunismo. De passagem por Lisboa, anos depois, quis voltar a visitá-lo, mas o chefe da aldeia não me autorizou, dado o adiantado da hora (apesar de, salvo erro, ter sido antes do anoitecer). Que flexibilidade será esta de uma instituição que deve assemelhar-se o mais possível à família natural? – pensei eu. Ou será que o zeloso chefe da aldeia o quereria proteger contra o tal comunismo? 448
A família sucedânea
Mais tarde foi visitado pela Maria da Glória (atrás referida) e depois pelo Pe. Elias, também maconde, para o conhecer e saber se gostaria de reencontrar a família e, eventualmente, vir ajudar na construção do Moçambique independente. Aliás parece que era essa a intenção da referida directora das Aldeias S. O. S. em Portugal, quando o acolheu. Mas todo o ambiente em que ele viveu após o 25 de Abril de 1974, suponho ter sido hostil a isso – possivelmente pelo rumo pelo qual optamos enveredar a partir da independência. 449
Desinformação?
Também me prontifiquei a encetar averiguações sobre o paradeiro da família – o que talvez se viesse a conseguir com a ajuda das ONGs mais disponíveis nesse campo. Vendo que o desinteresse era total, apenas pedi, mais recentemente, que me dessem notícias do seu paradeiro, do curso que concluíra, da actividade que desempenha, do seu estado civil, enfim, do rumo que dera à sua vida. 450
Opção de
não voltar?
Não me sinto credor de nada, porque ainda que tivesse feito algo a mais do que o meu estrito dever (o que não aconteceu), teria sido por pura gratuitidade. 451
Gratuitidade
Mas o encontro que, em determinada circunstância, tivemos poderia até ocasionar um futuro relacionamento social ou até de amizade. 452
Amizade futurível!
Para com as Aldeias S. O. S., sinto-me, porém, devedor de  tudo quanto fizeram por mim (embora por ele e não por mim o tivessem feito) em momentos tão difíceis como aqueles em que, desesperadamente, tomava consciência de que, mais uma vez, o resultado da prova real não coincidia com o da prova dos nove. 453
Ajuda no momento exacto
 E que dizer da minha ingenuidade de menino acabado de sair de um seminário diocesano? 454
Ingenuidade
 sem perdão
É que, ainda hoje, nesta plenitude de setenta e sete anos – sete mais sete – se voltasse a ouvir da boca de uma mulher proposta de ideais tão belos para serem vividos, ainda hoje me teria deixado outra vez seduzir. 455
e incorrigível
Acredito que, missionários ou não, há pessoas que devem manter-se celibatárias, porque a sua vocação de estado de vida será essa mesma. 456
Celibato opcional
Mas acredito também que, apesar de muitos possíveis falhanços (e os celibatários também os têm), o matrimónio não é um empecilho, mas uma ajuda para ser um bom missionário ou uma boa missionária. 457
Casamento
opcional
A questão seria saber em que consiste o matrimónio e em que casos ele, de facto, existe – tantos são os casos em que não passam de rituais cumpridos e/ou papeis assinados em cartórios civis, ou canónicos que sejam. 458
Estatísticas inoportunas e importunas





1

O Pe. Dr. Pombo queria entusiasmar-nos mais pela Psicologia Racional (a experimental, pelo menos nesse ano, ainda não estava nos nossos programas). Penso, porém, que o poderia ter feito sem menosprezo por aquela disciplina que suponho não errar considerando-a fundamental na Filosofia.

2

Vid. O VILAREALENSE  n.º .............

3

Às vezes talvez até mais, pois não raro eram: cozinheiro, mainato, moleque, jardineiro, criada de meninos e alfaiate.




    
 

 
    


CAPÍTULO QUINTO



othelanap02c05
João é um amigo de tempos imemoráveis, da minha idade, passou pelos mesmos lugares e muitas vezes por vicissitudes semelhantes, e, ainda por cima, é tão parecido comigo que, se tivéssemos de viver juntos, em breve nos aborreceríamos. 459
De novo, o João
Não dá para viver por muito tempo com almas gémeas, sejam ou não do mesmo sexo, mas, se não dá para se completarem nem, portanto, para encherem-se de duradoira alegria e felicidade, têm, pelo menos, a vantagem de se compreenderem de imediato. 460
A diferença enriquece
Gosto de falar com ele, e, de tempos a tempos, temos a sorte de nos encontrar – não fôssemos nós amadores dos mesmos recantos... 461
A igualdade facilita
Nas primeiras horas do século XXI, fora no Dinosaur Park, a vinte metros de Sudwala Caves, e mesmo em frente de Pierre’s Mountain Inn. Hoje, 8 de Janeiro de 2002, surpreendo-o a contemplar a piscina dessa acolhedora e rústica estalagem, toda em madeira, num dos declives das montanhas Mankele. 462
Piscina motivadora
Essa piscina, de recente construção, aliás a própria estalagem não deve ter mais de uns oito anos, é pequena, mas com qualquer coisa de pitoresco, quer por estar encravada nesse forte declive, quer por estar rodeada de rochedos, quer pelas deslumbrantes vistas para o vale e as montanhas lá para o poente. 463
e ambientadora
João, umas vezes, é de poucas falas, outras, exuberante, eufórico. Umas vezes está abatido, como que sem ânimo. Mas uma chávena de café, ou uma requintada bebida, ou uma música (sobretudo se clássica), ou uma obra de arte, ou uma paisagem, ou, acima de tudo, uma boa conversa, sobretudo se com uma mulher inteligente e terna, e logo recobra o ânimo e segue, feliz, a aventura da vida. 464
de reflexões
Quando, naquela tarde, o surpreendi – e como fiquei contente! –, não estava propriamente a olhar para a piscina ou tanto para a piscina como para um casal que, com três filhitos, se banhava tranquila e animadamente. E quase lhe via saltarem as lágrimas aos olhos. Nova crise romântica! – pensei eu, com certa crueldade, como se eu próprio também não sofresse delas, e com que frequência. 465
O casal a banhar-se
Mas isto terá outro sabor se eu conseguir, com fidelidade e sem comentários, transcrever a sua prosa, que tantas vezes me soava a poesia: 466
Na primeira pessoa
– Estava encantado a ver este casal, descontraído e feliz, com os seus já três filhos, ora a banharem-se, ora ao sol, ora a brincar, ora a tomar qualquer refresco. Acreditas que sempre sonhei com momentos destes e sempre desconsegui? 467
Momentos felizes
...dos outros!
– Queres dizer que nunca gozaste, antes ou depois de casado, praias, rios, lagos ou piscinas? 468
Praias
– Piscinas, quase nunca. Praias, na infância, na adolescência e já na juventude, frequentei-as bastante. Gostava muito de longas caminhadas a molhar os pés com meu pai: chegamos a ir de Leça das Palmeiras até o monumento da praia do Mindelo, mas nunca soube se meu pai estava do lado dos miguelistas ou dos liberais. 469
Foz, Matosinhos, Leça, Mindelo
Miramar foi teatro dos meus primeiros devaneios românticos, num processo de introversão de exteriores bem determinados e concretos, talvez os primeiros amores platónicos nunca revelados, mas ainda bem claros. Tinha como companheiro, e protector, porque era um pouco mais velho, o único amigo de infância, que meu pai convidava na época de praia, para que também ele a pudesse gozar. 470
Miramar
Depois foi Espinho, onde tomava conta dos filhitos dos nossos caseiros da aldeia. E, depois de casado, aqui voltei, uma vez já com filhos e crianças pobres da cidade de Vila Real, outra, também com filhos e crianças das ilhas do Porto, e, não raro, ainda com amigas e amigos. Minha mulher gostava de receber e eu sentia-me feliz. Em Espinho chegámos a ter o nosso domicílio antes de virmos para África. 471
Espinho
Mas ainda antes de casado, guardo boas recordações da Figueira da Foz, onde, sózinho, dei longos passeios de bicicleta, e também de Vila do Conde, onde, convidado por uns primos, aprendi a andar de bicicleta, e, anos depois, convidado por uns amigos, convivi longamente com a que havia de ser a minha primeira noiva. 472
Figueira da Foz e Vila do Conde
Já em África, gozei as praias das Palmeiras (onde me ia afogando logo nos primeiros tempos de Beira e fiquei a dever a vida ao Sousa, da Livraria Nacional), do Macuti, para onde íamos todos os fins de semana com o Tavares Guimarães, e, já em Quelimane, Zalala, onde acampámos por alguns dias e diversas vezes, e onde gostava de chegar antes do amanhecer. No Maputo, lá para os lados da Costa do Sol, com uma amiga. Em férias, na Ilha de Porto Santo, com umas religiosas portuguesas que vinham da Alemanha e não tinham qualquer receio de envergar fato de banho como quaisquer outras pessoas. Também Ilha de Moçambique e Durban, Xai-Xai e Algarve (que não é África, mas é virada para África). Xai-Xai mereceria uma referência especial, não só pela qualidade da companhia – a única amiga do grupo que desejou levantar-se ainda de noite para chegar comigo à praia antes do primeiro alvor – como pela qualidade do nascer do sol que, naquele dia, tivemos a sorte de ser mais do que espectacular. 473
Praias do Índico
e não só
É claro que não perco tempo ou procuro não o perder, e vivi intensamente certos momentos – ora com as crianças que estivessem comigo, ora com amigos em profundas conversas1, ou, sobretudo, com aquelas amigas mais ligadas a mim por ideias, sentimentos e planos. 474
Saborear o momento presente
É delicioso – na praia, nas dunas ou até nos rochedos, mas talvez sobretudo a molhar os pés – passear com amigas que partilham dos mesmos trabalhos intelectuais, políticos ou de evangelização, ou com eventuais amigas que surgem em viagens ou encontros, mas que deixam rastos no nosso ser. 475
e a sintonia
De tudo isso já tive a sorte de gozar e, se acontecesse no futuro não ter outras oportunidades, já não me sentiria frustrado. Aquelas alvoradas de Zalala e do Xai-Xai, aqueles entardeceres na praia, depois do arriscado trabalho político, aquele desconstrangimento de Porto Santo, aquele banho ao pé da Costa do Sol – eu sei lá, quantos momentos de beleza e compreensão! – ainda hoje me dão força para continuar a viver o presente e construir o futuro. 476
após trabalho árduo e perigoso
Mas tu sabes: tudo isto é muito bom para a felicidade na vida profissional e social, tudo isto nos torna intensa e sadiamente fecundos no trabalho produtivo. O ser humano, porém, não é só profissão e vida social: não se esgota na transformação da natureza e da sociedade, na amizade, no amor universal, na solidariedade, cósmica que consiga ser. 477
Fecundidade da amizade
Há uma intimidade em certo sentido muito mais profunda, cuja fecundidade não consiste necessariamente no contributo para a perpetuação da espécie, mas antes de tudo consiste na transformação jubilosa do nosso ser desde o íntimo mais profundo de cada um de nós. Em seres humanos, ao menos, a própria prole só terá chance de crescer sadia, não apenas para aumentar a quantidade de indivíduos, mas sobretudo para aperfeiçoar a espécie, se for o fruto dessa intimidade jubilosamente transfigurante. E essa intimidade não se vive no celibato, na amizade, no amor que devemos a todos. Só se vive no amor conjugal. 478
Intimidade transfigurante
E, eu que me recusei a ser celibatário, estaria condenado a só como tal poder gozar praias, mar, areia, dunas, rochedos? Que poderá impedir de também gozar tanta beleza com a própria mulher? Que obstáculos surgem que frustram sempre os momentos que pareceriam mais propícios? 479
Fatalidade?
A inadequação ou despudor dos fatos de banho parecia ser um dos motivos (ou pretexto, afinal?), não só em lugares muito frequentados, como até em praias e piscinas desertas. Então, não me furtei a esforços para encontrar o fato de banho decente, fabricado de propósito por determinadas fábricas da especialidade, e segundo as normas éticas mais rigorosas de uma Acção Católica do mais refinado nível social. Sim, porque na Liga Independente Católica Feminina (LICF) já se notava a infiltração de certas senhoras, que, a pretexto dos cargos dos maridos, se infiltravam... quando, na verdade, só teriam nível para uma Liga Operária Católica Feminina (LOCF). Essas, pertenceriam à LICF, mas não à LICF-LICF, o que é muito diferente... – como pude ouvir de uma conversa, em Quelimane, durante a visita de um alto elemento da mais requintada elite feminina da então capital do império, que vinha ensinar como, nesta colônia, se deveria exercer o apostolado... 480
Despudor?
Pois foi a esse meio independente/independente, que é muito diferente de ser simplesmente independente, foi a essa LICF-LICF, que é muito diferente da simples LICF, que tive de recorrer para conseguir o bendito fato de banho suficientemente decente. E numa dessas buscas, em Lisboa, senti o ridículo ao ser atendido à porta da casa de uma dessas snobes senhoras donas (que é muito diferente de ser só senhora ou só dona). Mas não desisti, porque, muito mais do que o ridículo, sentia a necessidade de vencer essa batalha – a de poder gozar (em conjunto com a minha mulher) a piscina, a praia, o mar, as areias, as dunas, os rochedos. 481
Dois ridículos, pelo menos
E sentia que isso tão importante seria para mim como para ela, porque era problema do casal: vencer complexos e impedimentos. Tantos casais se banham juntos, tanto em público como em privado, e só nós não o conseguiríamos? 482
Problema meu ou do casal?
Mas olha: esse ou esses fatos de banho, finalmente conseguidos, raramente foram usados e sempre a contragosto, e tive de iniciar novas buscas: o ambiente propício a ser utilizado, poucas vezes que fossem, uma única vez que fosse, mas com gosto. 483
O contragosto
Praias cheias de gente, mas onde éramos absolutamente desconhecidos, como Vigo, Biarritz e St. Jean de Luz (no oriente do Atlantico), Barcelona (no Mediterrâneo), Providence (no Ocidente do Atlântico), San Diego (no Pacífico), Reunião, Maurícias, Inhaca (três belíssimas ilhas do Índico). Praias desertas, como certos pontos da costa algarvia ou moçambicana. Piscinas em horas de frequência e em horas de solidão, em quatro continentes. E, umas vezes, já mesmo sem ser eu a perguntar, ouvia-a dizer, triste: – Estava para trazer o fato de banho, mas esqueci-me! E, outras, contente: – Desta vez trouxe na mala o fato de banho!... Mas os resultados foram sempre: ou recusa ou contragosto. 484
Busca frustrada
de lugares e horas propícias
Só que, para mim, o fato de banho no armário, na mala ou em conversa pouco adianta, e até aumenta a frustração. E me pergunto que parte de responsabilidade tenho em tudo isto. 485
A outra parte da responsabilidade
– É por isso, então, que te comoveu aquele casal ali tão feliz, ora deitados, ora a banharem-se? 486
Casal em foco
– Exactamente: desde há décadas que desejo protagonizar cena semelhante, com crianças ou sem crianças, mas com a própria mulher. E tu sabes: a um desejo nunca realizado é muito mais difícil de renunciar. Eu desconsigo. 487
Desejo nunca realizado...
– Mas ainda não tentaste as praias de um quinto continente. Quem sabe se, finalmente, não realizarás o teu sonho? 488
Praias da Austrália
– Estás a brincar, mas... até pode acontecer! Por hoje, porém, parece que chega de reflexões. 489
Última esperança?
– Não: já que estás em maré de narrar frustrações, gostava de conhecer as outras, que esta parece mesmo estar numa sequência, longa ou curta é que não sei. Pela amostra, cada uma delas daria um romance ou um capítulo de um romance. 490
Capítulo de um romance?
– Hoje já é tarde, e amanhã continuo viagem: ficará para a próxima vez, se me encontrares nos meus dias de falar. 491
sine die
Pedi-lhe, então, que me escrevesse, o que talvez ainda fosse melhor para os meus estudos sobre a vivência do casamento. E consegui, passado muito tempo, é certo, mas consegui, como se pode verificar pela continuação, embora tardia, desde capítulo. 492
Mas o dia chegou!


Olá, Júlio! Tantos meses decorreram desde o nosso último encontro na panorâmica piscina do Pierre’s Mountain Inn que certamente já pensaste ter-me esquecido do teu pedido. De facto, não me esqueci, mas duvidei muito se valeria a pena aceder. Afinal, o que pode haver de positivo em frustações? 493
O positivo das frustrações
Tu, porém, sempre soubeste extrair ensinamentos até dos fracassos. Eu sei como te dedicaste à pastoral dos casais, umas vezes com a Maria Ester, outras (a maior parte) sozinho ou, mais exactamente, integrado no quadro missionário. Eu sei que foi Sebastião Soares de Resende que te incitou a divulgar o espírito e os métodos da maternidade/paternidade consciente, numa época em que tudo isso era novidade, e pouco conhecido. E depois, com Francisco Nunes Teixeira, era para ti, e para ele, um dos campos prioritários. Eu sei que tu, embora, oficialmente, já não sejas missionário, continuas a lutar com os direitos (e deveres) auferidos pela Confirmação. 494
Mandato e carisma
E, se estás interessado nessa luta pela felicidade específica dos casais – sacramento e infelicidade não conjugam –, não me pareceu correcto manter o meu silêncio por mais tempo. Aliás, sei que um amigo teu proporcionou-te um site2 e, assim, os teus escritos podem ser saboreados (é o termo, porque conheço a qualidade da tua prosa) em qualquer recanto onde chegue a internet. 495
O absurdo de conjuges infelizes
E então, desta ilha paradisíaca3 onde de momento me encontro, resolvi enviar-te este e-mail para continuar o assunto iniciado já lá vão uns dez meses. Falávamos, na altura, de mares, praias, piscinas, ora no meio da multidão anónima ora no isolameno que pareceria convidativo para qualquer casal mais recatado. E, se aí nunca levei a melhor, será que a levei num ambiente ainda mais íntimo e caloroso, por exemplo4, de um quarto de banho requintado de tonalidades convidativas e raios de luz a incidir nos corpos de maneira transfigurante? 496
O erótico na natureza
Se o encanto da escuridão da noite ou o lusco-fusco no fim de um pôr-do-sol ou o luar nas suas diversas fases – seja na praia, seja na savana, seja na floresta – pode, de facto, ser repentinamente quebrado por qualquer género de intromissão indiscreta, o sucedânio artístico de uma arquitectura de interiores e de uma decoração apropriadas não será a alternativa ideal para casais com menos espirito aventuroso, mas, nem por isso, com menos ardência? 497
O erótico na arte
E até no lar, sobretudo naquelas noites ou naqueles dias em que não há terceiros de qualquer espécie que seja, o casal não poderá viver esses momentos fortes e específicos, que a Igreja até exaltou ao nivel de sacramento, isto é, reconheceu como sinal do amor entre Cristo e a humanidade, e até do Amor personificado, que procede das outras duas Pessoas divinas? Sacramento cujos ministros são exclusivamnete os dois que se comunicam a vida plena em todos os seus aspectos, desde o anatómico ao biológico, ao psíquico, ao espiritual nas suas vertentes volitivas e intelectivas, e até o sobrenatural, se ainda quisermos usar esse termo na falta de outro talvez mais feliz! Vida plena: de intimidade, de verdade (ôntica, lógica e ética), de liberdade (dirigida pelos desejos, pelo prazer, pela alegria da respectiva parceira e do respectivo parceiro). Momentos fortes só possíveis no amor conjugal, porque são a sua essência. 498
Ou mesmo na simplicidade do lar
Sem menosprezar os encantos do amor no meio da natureza, agreste ou amena, em praias, planícies, vales, declives, picos, planaltos, sobre areias, folhagem ou penedos, em desertos, oásis ou florestas, sem menosprezar também o amor em recantos arquitectónicos como, por exemplo, os proporcionados pelos paradores ou outras mansões, infelizmente pouco acessíveis economicamente, o próprio lar, pela sua simplicidade, pela sua intimidade, pelos antecedentes de ter sido construído pelo esforço e pelo gosto dos dois, pode até ser o ambiente ideal para esses momentos fortes. Uma bebida, o banho a dois, e até a pera que casais franceses mais requintados usam, um vestuário mais excitante de fácil e recíproco e progressivo desnudamento, o espírito criativo nos mais pequeninos pormenores dos gestos, das expansões, com palavras ou sem palavras, consoante for melhor, segundo os casos, para manter o encanto, tudo isso até pode ser mais fácil no próprio lar. É que, sem amor conjugal, haverá tudo, menos lar. 499
A essência do lar
De facto, pode haver lar sem filhos: nunca sem amor conjugal. E filhos sem amor conjugal (digo conjugal!) é uma aberração, maior ou menor, segundo as circunstâncias, mas sempre uma aberração, porque contra a natureza. Digo conjugal: não falo de registos, cerimónias sociais ou religiosas, muito menos de contratos. Sem amor conjugal, todo o lar é falso. Será também um erro, se os ditos (mas apenas ditos) cônjuges estão inconscientes. Será uma mentira, se estiverem conscientes. Uma farsa! 500
A farsa quotidiana
E até o conforto e a hospitalidade, que são das propriedades mais encantadoras do lar, sabem a oco, se o amor conjugal (que não se vê, mas se sente) não existir. Todos, a começar pelos filhos, serão vítimas da falta de amor conjugal, ainda que, a pés juntos, se afirme o contrário. Conforto e hospitalidade, não sendo notas essenciais do lar, são, porém, constituintes necessários. Se o casal se não rodeia de um equilibrado conforto e se não se abre a um saudável convívio, em breve o amor conjugal começará a esmorecer, até se esvair por completo, começando a tal farsa, se os dois teimarem persistir na fachada. 501
Conforto e hospitalidade
Pois, se não levei a melhor fora de casa, por mais sublime que fosse o ambiente paisagístico, ou por mais requintada que fosse a estância hoteleira, também não levei a melhor dentro de casa, sem perigo de intromissões (com excepção de campainhadas...), por mais que me esmerasse em música de fundo, ambiente luminoso, preparação do banho, até com tecnologia relativamente avançada e adquirida por ela própria e segundo o seu próprio gosto. 502
Fracasso,
mesmo em casa
Para ela, banho tinha uma função higiénica; psíquica, de manhã, para começar a labuta, bem disposta; e social, quando se preparava para sair ou talvez receber visitas. O resto seria sensualidade, com conotação talvez pouco ética. Integrar higiene e boa disposição, beleza natural ou artística e técnicas sadias, num ambiente erótico propício à expansão plena do amor específico do casal – era qualquer coisa estranha aos seus esquemas mentais, bem diferentes daqueles que, um dia, entre montanhas e águas cantantes, me seduziram, a ponto de mudar a minha mentalidade e de, tempos depois, cair nos seus braços. 503
Dualismo maniqueísta ou rigorismo jansenista?
Para Marta, existia, isso sim, o dever. E nisso foi sempre fiel ao célebre S do cinto da farda da Mocidade Portuguesa Feminina, que eu pensava significar SALAZAR, mas para ela era SERVIR. Filiada, graduada e, por fim, alta dirigente dessa organização da OBRA DAS MÃES, filha querida das mentes de Maria Guardiola e António de Oliveira Salazar, tudo fazia por obrigação, e, talvez por isso mesmo, nunca tenha gozado verdadeiramente a vida, contentando-se com paliativos, já bem gostosos para ela. Tu sabes como essas organizações marcam as pessoas, porque também tu, Júlio, pertenceste à M.P., embora não tenhas passado de chefe de quina, e a Maria Ester se deu de alma e coração à M.P.F., tendo sido um dos seus melhores quadros, tanto na Europa como em África. 504
Marcas do salazarismo?
Nesse contexto, o débito conjugal dos escritos paulistas e as promessas do contrato nupcial de um Direito Canónico seriam indiscutíveis. Só que o amor não se deixa confinar a esquemas por mais sagrados que sejam, porque só pode existir e desenvolver-se na verdade e na liberdade. Para nós, cristãos, a liberdade dos filhos de Deus, e jamais submissão a critérios e rotinas obsoletas ou a cânones inventados por hierarquias machistas. 505
Débito conjugal ou amor conjugal?


Das águas deliciosas, vamos passar à terra firme nada menos deliciosa? E não pareceria delicioso para qualquer casal dançar num casino, num dancing, num salão de baile, ou até na própria casa ou em qualquer local que seja, abrigado ou desabrigado, no meio de outros pares ou no isolamento, consoante as circunstâncias e disposição do momento? 506
O fascínio da dança
  
Na adolescência, aprendera as quatro danças mais frequentes no meio burguês do Porto: one-step, fox-trok, tango e valsa. E eu não desgostava. Fiz cenas tristes com a Eduarda, uma jovem professora do ensino secundário, que meu pai contratara e vinha ou até vivia na nossa própria casa. Eu frequentava o liceu, mas as minhas irmãs mantinham-se, se bem me recordo, no ensino doméstico, embora mais tarde também tivessem sido matriculadas, como externas, no Colégio luso-britanico, na Praça do Marquês de Pombal. Nas tardes, talvez no intervalo das aulas delas, a Eduarda (a D. Eduarda ou Sra. D. Eduarda, é evidente) ensinava-me dança, por ordem do meu pai, ou talvez a meu pedido ou até por iniciativa dela (já não me recordo). O problema é que, tanta atenção eu prestava aos pés, aos passos (pensando estar aí o essencial da dança) que deixava descair a mão direita... A mão direita dela enlaçava-se com a minha esquerda, e a esquerda dela apoiava-se no meu ombro... talvez por isso não descaía. Ela era pequenina, eu, com uns catorze anos, devia ser bastante mais alto. Apesar disso, tanto era a atenção aos pés que, inconscientemente e sem malícia (garanto), deixava a mão direita escorregar... e ela ficava fula, e eu logo saltava a mão para o meio das costas dela. E a cena repetia-se, ela zangava e eu ficava tímido. Não é que eu, como liceal que era, não fosse já relativamente sabido, mas naquele caso era sem malícia (garanto, de novo). Mas ela estava comprometida com um jovem ex-membro da Sociedade Missionária de Cucujães, era extremamente púdica e fiel, e não sei se acreditaria na minha ingenuidade... naquela circunstância, é claro! 507
Cenas de uma aprendizagem
Com estes antecedentes, embora depois tivesse estado alguns anos sem dançar, parece nada mais natural do que quisesse actualizar-me e gozar dos prazeres da dança, como expressão sadia e artística dos corpos e como convívio com o outro sexo, mesmo prescindindo dos aspectos eróticos, ainda que não fossem de excluir sobretudo quando o par fosse a própria mulher. 508
Recomeço abortado
É claro que os filhos podem e devem saber que a igualdade dos progenitores é apenas no campo jurídico e que em tudo o resto têm imensas diferenças e não menos semelhanças, sem que isso afecte a harmonia. Essa diversidade física, psíquica e de opinião, em qualquer campo que seja, até pode constituir uma das condições para se fortalecer o amor conjugal. 509
Alteridade fecunda
Na planificação familiar e pedagógica, porém, se não chegam a consenso, ao menos em princípios básicos, assumindo cada um a responsabilidade plena, de modo solidário e não proporcional ou conjunto que seja, começam as brechas, os partidos, o desencanto do lar, a sua íntima corroíção, ainda que exteriormente consigam (será possível?) manter a fachada. E isso começa muitas vezes com um simples e inocente vão falar com a mãe ou vão falar com o pai, quantas vezes escondendo as mais diversas manipulações nos bastidores. 510
havendo unanimidade de base
Diagnosticando melhor, não estará aqui, ao menos muitas vezes, um dos efeitos do vírus da mística feminina, que pinta o pai com as cores do rigor e a mãe com as cores da bondade, como se nisso consistisse a diferença de género? 511
Mística feminina: sempre!
E eis como – evocando o nosso comum professor de filosofia, António Ferreira Gomes – de um pequenino desvio de princípios no início da caminhada, resultam, no futuro, os maiores e piores desvios, à semelhança do que acontece com as agulhas do caminho de ferro: dois comboios partem da mesma linha, mas, para um deles, o ferroviário desvia quase imperceptivelmente a agulha, e eis que, no fim da viagem, os referidos comboios encontram-se a longitudes e/ou latitudes e talvez até a altitudes completamente diferentes. 512
As agulhas da linha férrea
Neste momento, se estivêssemos em webchat, estou mesmo a ver-te, a ouvir-te, ou ler-te: – Ao fim e ao cabo, João, depois de casado, nunca mais dançaste? E a resposta seria e é esta (nunca me faço rogado, não é, Júlio?): – Evidentemente que dancei, mas muito poucas vezes, e sempre fora de casa, longe das vistas de familiares, e tu sabes como é diferente (como o sabor é diferente) dançar com amigas, por mais íntimas que sejam, e dançar com a mulher que se ama ou se quer amar (amor conjugal só existe de verdade se for recíproco). E sobre o assunto, ponto final. Ou talvez não: para ser sincero, não deixo de perguntar-me se ainda estarei a tempo de recomeçar... É que, derrotado, sim! Desistente, talvez nunca! 513
Sabores diversos... também na dança!


Em problemas conjugais, há sempre responsabilidade de ambos os lados, embora em proporções diversas. E, pelas consultas que fiz e pela literatura de que me rodeei, penso que tive sempre consciência disso. A diferença de sexo e género, nas suas vertentes ambientais e essenciais, a diversidade de ritmos e a necessidade de uma aproximação progressiva, até atingir, se possível (e tudo é possível!) a coincidência, a função do orgasmo, e tudo que se refere à sexologia, tanto na sua vasta gama de normalidade até os desvios mais vulgares, sem esquecer os mais recentes movimentos de espiritualidade conjugal – tudo eram temas que me ocupavam e preocupavam, em pé de igualdade com a política, a filosofia ou a evangelização. 514
Responsabilidade
a dois
Para a progressiva solução desses problemas, é indispensável assumi-los com realismo e querer resolvê-los. A resignação, sobretudo se mistificada em paciência, é dos mais frequentes e piores males para cada um dos parceiros. Pior ainda quando pensam estar a sacrificar-se pelo parceiro ou pela parceira: estão, isso sim, a sacrificar-se um ao outro, e aos filhos, se existirem, e a todos aqueles com quem se relacionarem. O mau relacionamento conjugal – ainda que incubado numa co-existência pacífica – tem uma força virulenta. 515
O virus da resignação
O outro impedimento para uma terapia eficiente é a obsessão do pecado e da culpa, de que Cristo nos quer libertar, mas que as tais hierarquias machistas nos continuam a impingir. A boa nova, porém, exactamente porque é boa, é bem diferente: o reino de Deus anuncia-se dando testemunho da verdade, e a verdade é que esse Pai/Mãe nada mais quer do que conquistemos, consciente e livremente, a vida plena, a felicidade, a alegria, o prazer. Nisto penso que consiste a grande diferença entre a religião (qualquer que ela seja) e a fé, que a evangelização deve despertar, desenvolver e expandir. Mais do que na igreja, por isso mesmo, devemos pôr o acento no reino. 516
Pecado ou prazer?
“Ao eliminar o pecado, o que Jesus pretende é eliminar o sofrimento” – alerta-nos o jesuita ibérico José María Castillo5. O pior erro, parece-me, é condenar; o melhor caminho é curar. A Bíblia rasga-nos horizontes sempre novos: não dá respostas, nem soluções6. À ciência, a essa sim, compete ir solucionando os nossos problemas. À medicina compete, parece-me, diagnosticar e propor a terapia adequada. A última palavra, porém, cabe sempre ao paciente. 517
Pistas de liberdade
Eu lera, num escrito7 teu, a opinião de certo teólogo8 de que, no matrimónio, até para evitar tensões nocivas, se deveria colocar o acento mais na comunicação do que na união. Com todo o cuidado para não irritar nem saturar, levei a rigor este princípio, que até me parecia uma questão de fidelidade: colocar em comum o que ia estudando, o que me iam ensinando, as conclusões do que ia conhecendo. 518
Comunhão de bens adquiridos
Havia questões que me pareciam fulcrais: a aberração de identificar masculinidade com actividade e feminidade com passividade, o perigo de prolongar a função maternal/paternal para além do início da idade adulta dos filhos, o espírito crítico perante a alternativa medicina alopática/medicina naturopática (nas suas diversas ramificações). 519
Problemas fulcrais
E outras de ordem prática: cama ortopedicamente aceitável, alimentação o mais científica possível, exercícios físicos de manutenção e compensação (sobretudo após os partos), recurso aos especialistas do foro da sexologia e até da psiquiatria com a mesma naturalidade e à vontade com que se vai ao estomalogista, ginecologista ou a qualquer outro. 520
e práticos
Sobre este assunto, fiquei deveras chocado com algumas afirmações de certas médicas e certos médicos. A uma, em conversa mais íntima, perguntei-lhe: – Por que motivo, quando tendes ou pensais ter de receitar remédios cujos efeitos colaterais já sabeis ser qualquer ou determinada disfunção sexual, não encaminhais o vosso cliente para o sexologista, como fazeis quando se trata de qualquer outro foro? Resposta imediata: – Não podemos pensar em tudo! (Sem comentários.) 521
Desvergonha?
Essa mesma, noutra ocasião, algum tempo depois de ter recomendado, vivamente e com os colegas, determinada intervenção cirúrgica, dirigindo-se ao marido da paciente, que até havia sempre desaconselhado tal intervenção, baseado em muitas outras consultas: – Como é que tu, tão viajado, relacionado e conhecedor, não sabias que se poderia ter evitado a operação da tua mulher? (Estarrecido.) 522
Cinismo?
E Marta, mais tarde, havia de se lamentar de a terem amputado internamente, sem ter sido esclarecida sobre os efeitos secundários, como seria correcto, e é normal em outras latitudes. E sofreu – e eu com ela – de sequelas implacáveis. 523
Efeitos secundários silenciados
Um dia – é difícil evitar que me saltem lágrimas de dor ao recordá-lo – ela reconhecia que, na verdade, alguém a teria alertado muito a tempo, mas era a pessoa a quem menos atenção se prestava… E é essa pessoa de quem, ainda por cima, e em conversa íntima, se troça: – Tão sabido e não sabias que se poderia muito bem ter evitado…? 524
O menos ouvido e o mais gozado
Como se não bastasse, um dia, entra-me pelo gabinete dentro sem o menor respeito pelos seguranças e normas da instituição universitária onde passo os meus dias e até fins de semana. Não me dei por achado, e recebi-a cortesmente. E ela explodiu: – Não tens dinheiro para pagar a uma enfermeira da minha confiança? Vais incomodar uma colega minha que, a seu tempo, me vai cobrar outros favores? 525
Descaramento?
– Marta preferiu – retorqui eu – pedir a essa vizinha o controle que tu prescreveste. E não seria eu a contrariá-la. 526
Liberdade contestada
– Famílias grandes são um problema, e depois ainda nos vão culpar e pedir responsabilidades. 527
Famílias grandes
… perigosas
– Podes crer que – retorqui de imediato e agora já com veemência – nunca processaria um médico por qualquer engano (nós todos nos podemos enganar). Em dois casos, porém, – disso podes ter a certeza – processarei o médico ou a médica: primeiro, se faltarem ao sigilo profissional, segundo, se não respeitarem a liberdade da Marta. O doente pode dizer a quem entender o seu estado de saúde, e ninguém tem nada com isso, mas vocês, os clínicos, nada podeis dizer senão ao próprio doente. E sabes muito bem que é isso que aprendeste em deontologia médica, e ensinas ao teus alunos. E relatei muitos casos de inconfidência passíveis de processo criminal. 528
Crimes médicos: inconfidências
e abusos de autoridade
– É prática usual recorrer a intermediários, sobretudo familiares.
       – E é ético? E, ainda que fosse, não seria eu e só eu?
       – Mas ela gosta que os filhos saibam de tudo.
       – E, nesse caso, é o médico ou ela e só ela que tem o direito de comunicar-lhes?
529
Práticas clínicas ilegais e ilegítimas
A mesma porta que a viu entrar a viu sair. Marta manteve-se firme nas suas opções, e mais tarde disse-me que havia deixado a medicina alopática e que começara a frequentar o consultório de uma médica homeopática, formada em universidade da Índia e com intensiva e longa prática num hospital do mesmo país. Eu conhecia e defendi sempre a medicina naturopática, mas confesso que pouco ou nada sabia desse seu ramo homeopático. Por isso, nem sequer pode dizer-se que sentisse qualquer simpatia, a não ser na medida em que também era uma alternativa natural. 530
Terapias alternativas
É assim que Marta, mais uma vez, me lança num mundo desconhecido, me abre os olhos para novos horizontes, como outrora quando me seduziu com ideais que em muito me ultrapassavam. E eu delirei de felicidade, vi a esperança renascer. Ao menos na velhice, vamos deixar cair aquela máscara do faz-de-conta, de uma coexistência pacífica (sempre oportunística) passaremos a uma convivência conjugal. Deixei tudo e fiz tudo ao meu alcance para que o sonho se tornasse realidade. 531
Sedução feminina /salvação do homem?
Júlio: já me desviei das frustrações para as realizações. É melhor, pelo menos, suspender sine die. Assim o romance terminaria bem. Ou queres mesmo que continue numa das minhas próximas e possíveis viagens? Um abraço. João 532
Os finais serão sempre positivos?


É claro que eu queria que ele continuasse. A análise das suas ditas frustrações interessava-me muito a mim e a todos aqueles que põem em comum comigo os seus problemas, ou lêm os meus escritos ou me visitam no meu site. Era preciso, porém, esperar: Marta desistia de viver e João iria pelo mesmo caminho, se amigas e amigos de várias latitudes o não tivessem ajudado a libertar-se das influências daquelas e daqueles que teimavam em querer vê-lo apegado a formalismos e obscurantismos de pessoas bem. Das Seichelles regressa à Suíça, onde contacta, em ambiente de amizade, escritores, políticos, missionários, conhecidas e conhecidos de longa ou de recente data, frequenta à noite pubs e sente o calor de gente simples (desde intelectuais a mulheres e homens da rua). Passa à Catalunha e é acolhido por casal amoroso. Em Madrid revê amigos de há cinco décadas. No quarto mundo do norte de Portugal, ex-mendigos... salvam-no, num movimento de pequenos nadas. As noites, passou-as numa aldeiazinha onde ainda se sentem os estigmas deixados no povo por empresários... sem dúvida muito ilustres, e onde um amigo, jornalista e escritor, o acolhe como companheiro de luta. No regresso, um cafezinho de bairro, que ele frequentava, mimoseia-o com um pequeno nada. De regresso à Suíça, a barwomen acarinha-o e nem lhe deixa pagar a bebida preferida (nada barata por sinal). João recobra o gosto de viver. E ei-lo, de novo, nas MANKELE MOUNTAINS, na província de Mpumalanga da República da África do Sul, a enviar-me o esperado e-mail. 533
Pequenos nadas que salvam
Olá, Júlio! Cá estou eu, cheio de vida, e com uma capacidade de trabalho que me espanta (pela positiva), naquele ambiente que tu conheces melhor do que eu, e que o Pierre sempre nos sabe proporcionar, mesmo quando as condições são desfavoráveis, como, por exemplo, nos inoportunos cortes de energia eléctrica (afinal não é só em Moçambique...). 534
De novo o João
a escrever
Não me lembro bem há quantos, talvez três ou quatro, a RTPI ou a RTPA mimoseou-nos com uma mesa redonda (ou coisa semelhante) sobre a andropausa, coisa rara, porque só se costuma falar de menopausa. Nisso somos nós, e não as mulheres, os discriminados. Afinal, mesmo quando o alvo é discriminá-las, nós é que somos sempre os mais atingidos, porque, assim, jamais nos libertamos de tantos prejuízos que nos oprimem, e nos impedem de experimentarmos a felicidade da sororidade/fraternidade entre todos os seres humanos. 535
Andropausa
E surge o telefonema de uma mulher, em tom airoso e desafiador, mais ou menos nestes termos: – Meu marido era diabético e hipertenso e era tratado por uma médica que lhe receitava remédios que iam acabando com o nosso casamento. Um dia, enchi-me de coragem e enfrentei-a. Ela foi preentória: se eu não quisesse ficar viúva, tinha de me resignar a que ele tomasse aqueles remédios. Mas eu não duvidei: nem uma coisa nem outra. Meu marido mudou de médico, mudou de terapia, e salvou simultaneamente a vida e o casamento! Os risos e aplausos da componente médica ecoaram: ainda há ou já há mulheres deste calibre, que não se deixam levar nem por dogmatismos nem por moralismos. 536
Mulher de verdade
Não encontro esta gravação em vídeo (penso que a emprestei a uma amiga, casada, que já passou para a outra margem, e bem nova!), mas duas impressões me ficaram gravadas de tudo quanto vi e ouvi: assim como o homem pode e deve ser a salvação da mulher para ultrapassar a crise da menopausa e tirar dela todo o proveito, assim a mulher pode e deve ser a salvação do homem, para que este, mesmo com o andar da idade, consiga fazê-la feliz e sentir-se, ele próprio, realizado e não frustrado. 537
Maturidade
Penso que o amor conjugal se pode prolongar até o fim da vida. (Falo de amor conjugal e não do amor universal ou da amizade, que são pressupostos, mas não o específico do casal.) Mas só se formos capazes de preservar a saúde, desde a física à mental, porque em nós não há compartimentos estanques como quereriam os dualistas de todas as épocas, desde um Platão a um Descartes ou qualquer outro neo-idealista ou materialista mecanicista. E isto só se consegue se nos libertarmos de terapias erradas e optarmos por terapias activas, mas não violentas, e que, portanto, não nos fraccionem, salvando uma parte e condenando-nos noutra. 538
Não violência activa na medicina
Aqui está o grande problema: aceita-se um médico que nos trate de órgãos corporais, só em casos dramáticos se consegue que uma pessoa consulte o psiquiatra ou o psicólogo que seja. E, no entanto, é impossível uma verdadeira terapia que não nos trate no nosso todo, que jamais se poderá reduzir ao físico ou mesmo ao biológico: nós somos muito mais do que um minério, um reagente químico ou uma planta. Nem mesmo somos simples animais, e estes já têm o seu aspecto sensitivo e afectivo. E as doenças cronificam-se com este fraccionamento, estas fobias, estes preconceitos. E até se mistificam desvios bem patológicos rotulando-os de amor paternal/filial e maternal/filial. 539
A fobia da psicanálise
e não só
Eu conheci duas sogras: uma era tida, em determinado meio, como a má sogra, a outra, a boa sogra. Eu punha-me sempre a questão: haverá sogras boas? O mesmo que penso dos patrões: haverá patrões bons? Se houvesse, deixariam de sê-lo. Ou considerar-se-ão imprescindíveis? Um dia ouvi essa dita má sogra indignada com a filha, por a não compreender, não lhe dar o mesmo afecto que o filho lhe dava: esse sim, era para ela o máximo, era como um verdadeiro marido! (Pobre da mulher do filho, da tal nora, pensei eu!) Passados tempos, ouvi outro desabafo, agora da dita boa sogra, esta, casada, e não separada ou abandonada, como a primeira. 540
A má sogra
e a boa sogra
Foi no Old Joe, lodge de alto requinte inglês: o marido sabia que ela adorava esses ambientes, e fez-lhe essa surpresa. A primeira noite foi só para reparar uma viagem acidentada. No dia seguinte já deu não apenas para apreciar o requinte do acolhimento, como também para saborear toda a beleza de interiores e exteriores e da natureza envolvente. A segunda noite já pareceria convidativa para qualquer casal que de facto se amasse. O marido ou aquele que ainda se considerava como tal prepara um lusco-fusco em que os contornos dos corpos se tornassem irresistíveis, mas a sua sensibilidade erótica logo é ferida por um: «na minha luz não mexas!». Era claro o desconvite, a desatracção, a só cedência por dever, ou por pena... Triste, mas não revoltado, acantonou-se, e deixou-a dormir a gosto. Se não há amor conjugal – tão repetidas eram cenas destas, sempre diferentes, mas sempre semelhantes – que ao menos se salve a caridade. Já não podia haver mais dúvidas sobre o diagnóstico clínico, e ela própria, no dia seguinte, em circunstâncias surpreendentes e chocantes, deixa o seu inconsciente aflorar, em confissão bem explícita, mas de certeza sem ter consciência disso. 541
A segunda noite
Acompanhava o casal um economista, tembém fotógrafo de certo nível, e propôs à amiga uma pose junto à silhueta do fundador do lodge – o old Joe – que, salvo erro em madeira ou noutro qualquer material, figurava à entrada daquela encantadora estância hoteleira. Ele não tinha qualquer intenção maliciosa, mas apenas ser delicado, proporcionando aquela recordação. Aliás era bem conhecedor de como ela gostava de ser fotografada. Ela era sempre calma e gostava muito do seu amigo, dos bons momentos que ele lhe proporcionava ora em passeios de carro, ora em restaurantes, ora na casa dele, onde partilhava com o casal os bons petiscos que sabia fazer. 542
No dia seguinte
Naquele momento, porém, surge, em inesperada resposta, uma incontida explosão de honestidade ferida; e, ofendida, recusa agressivamente; depois, já calma, explica: – Não preciso de homem... porque tenho sete! (Apeteceu-me acrescentar: – E três mulheres! Mas o marido, muito enfiado, estava presente, e pareceu-lhe que devia manter-se como simples espectador). Momentos depois de pronunciar o sete, olha enternecida para o marido... pretende, talvez, consolá-lo (ou remendar a prosa?) e acrescenta: – E mais um! 543
Sete + um
Marido reduzido a mais um... Consciente. porém, de que nem o incesto deixa de o ser pelo facto de se manter a um nível platónico, nem o lesbicismo, igualmente, o deixa de ser só por também se manter a esse nível. E consciente também de como cordão umbilical, mesmo psicológico, não cortado a tempo e horas, traz sempre complicações por vezes irremediáveis. Proteccionismo a mais, na infância, – explicava-lhe a médica – pode ser uma das muitas causas. 544
Complicações edipianas
E eis como afinal a má sogra se contentava com um mais uma, e a boa sogra precisava de sete mais três e ainda tolerava mais outro, coitado dele! Comédia, tragédia ou alta comédia? Para rir ou para chorar ou para ambas as coisas? Simplesmente a realidade... para enfrentar e transformar, custe o que custar, mesmo que para isso seja preciso desmistificar dias das mães e dias dos pais (os coitados, também precisam!). 545
Os coitados!
Não é legal citar nomes, mas penso que tu, Júlio, também conheces o caso e sabes como tudo acabou, se é que acabou. Sete cônjuges foram suficientemente hábeis e amorosas/amoroso para salvar da armadilha edipiana os respectivos companheiros ou companheira. Um foi suficientemente adulto. Mas duas – uma, talvez, romântica, outra, talvez, maternalista, – parece que nem esforços fizeram, quase certo por se terem recusado a uma tomada de consciência. Para mal delas, e de quem caia na sua morbidez. Segundo o parecer clínico, era mais forte o elo na parte patológica que ligava as filhas à mãe do que o desta a elas. A terapia pela qual a mãe optou conseguiu ir eliminando todos os obstáculos a uma verdadeira vida conjugal, mas esbarrou nestas duas. Sucedâneos do cordão umbilical há tantos! Até pode ser um telefone ou uns correios...9 546
Cordões umbilicais sucedâneos
Por mim, João, ficaria por aqui, mas sei que tu, Júlio, não te contentas com este desvio, e queres retornar à Marta. Óptimo! Vou continuar. 547
Pausa, não stop
construção permanente 548
Viagens
  549
Cumplicidade
  550
Passividade
  563
 
  564
 
  565
 
  566
 
  567
 
  568
 
  569
 
  570
 
  571
 
  572
 
  573
 
  574
 
  575
 
  576
 
  577
 
  578
 
  579
 
  580
 
  581
 
  582
 
  583
 
  584
 
  585
 
  586
 
  587
 
  588
 
  589
 
  590
 
  591
 
  592
 
  593
 
  594
 
  595
 
  596
 
  597
 
  598
 
  599
 
  600
 



Piscina da acolhedora e rústica estalagem
Pierre’s Mountain Inn







1

Estou a lembrar-me, por exemplo, daquela manhã na praia do Macuse (já mencionada acima), onde estive um fim de semana, a convite de David Aloni Selemani, autor dos livros............................

2

http://www.julio-mrr.net/

3

Mahe,  que  integra o arquipélago das Seicheles, no  oceano Indico, cuja capital e a cidade de Vitoria.

4

Luxuoso bangalot de Katinga Lodge, na província de Mpumalanga, na Africa do Sul, em    de              de      .

5

CASTILLO (José Maria), Pecado ou Sofrimento?. “jornal / fraternizar” n.º 151, PT – 4510-460 S. Pedro da Cova (Rua 25 de Abril,10), Outubro/Dezembro 2003, pág. 9-10.

6

Cf. MARINS, ........

7

EKUMI: http://www.julio-mrr.net/

8

Cadernos da Revista “O Tempo e o Modo”...........

9

Cfr. Manual para nos defendermos das mães.




    
 

 
    


Notas



    
 

 
    


Excursos






Capa do livro Alguns Aspectos da Escola Nova








ALGUNS ASPECTOS
DA ESCOLA NOVA



VISÃO INCONSCIENTE DA FECUNDIDADE
DE UM PRINCÍPIO





Nota do Autor do sítio

Quando, na primeira metade do século XX, escrevi ALGUNS ASPETOS DA ESCOLA NOVA, ainda não me tinha apercebido do antagonismo do binómio FÉ E IMPÉRIO, nem da trilogia DEUS - PÁTRIA - FAMÍLIA como suporte da sociedade injusta, nem sequer como o texto "quem poupa a vara o filho odeia" só no Antigo Testamento é compreensível. Mateus tenta abrir-nos pistas para a não violência ativa, que tem de começar em nós, no lar e na escola. Qualquer castigo físico, por muito doseado que pareça ser, é sempre um passo para a espiral da violência.












ÍNDICE






 
 
 
I - FECUNDIDADE DE UM PRINCÍPIO1 a 4
- Como comecei a tomar consciência dela5 a 9
- Como a vi inconscientemente10 a 14
 
II - AMPLITUDE DE UM CRIME15 a 26
 
III - PRINCÍPIOS GENERALÍSSIMOS27 e 28
1 - Ao essencial pelo acidental29 a 44
2 - Universalidade na individuação45 a 49
- Adaptação de métodos50 a 53
- Respeito pela personalidade54 a 61
- Abaixo o gregarismo62 a 67
- Orientar as tendências68 a 74
- Ajudar a descobrir virtualidades ocultas75 a 88
- Respeito pela vocação89 a 110
3 - Família e Comunismo111 a 134
A - Beijar...135 e 136
- Acção directa e aberta137 a 152
- Carinho153 a 158
- Compreender159 a 182
- Captivar a intimidade183 a 189
- Confissão das faltas190 a 193
B - ...e Disciplinar194 a 196
a - Crime condescender197 a 207
b - Técnica 
- Domínio próprio208 a 210
- Proporção objectiva e subjectiva211 a 216
- Função negativa e positiva217 a 221
- Repreensão particular222 a 224
- Repreensão aos nervosos225 a 227
c - Castigo corporal228 a 240
d - Duas particularidades 
- Infantilidades241 e 242
- Acusadores243 a 246
e - Esperar...247 a 259
 
IV - ALGUNS PONTOS CAPITAIS260 a 266
1 - Atenção ao educador267
- Observar sem ser observado268 a 274
- Imparcialidade275 a 280
- Lógica281 a 291
- Explicações compatíveis292 a 299
- Prever a reacção300 a 303
- Acompanhar os tempos304 a 307
2 - Acção sobre o educando308 a 310
A - Higiene311 a 321
B - Verdade e Beleza322 a 326
C - Vida moral e social327 a 330
a - Submissão331 a 338
b - Hábitos e convicções339 a 343
c - Gratidão344 a 347
d - Sexualidade348 e 349
- Problemas vitais350 a 353
- Recato354 a 358
- Diferença de sexos359 a 364
e - Relações365 a 367
- Civilidade368 a 371
- Pontualidade372 a 378
- Preparação379 a 383
- Amizades suspeitas384 a 388
- Patriotismo e Universalismo389 a 399
D - «Deuses» por participação
- Alicerçar a piedade no Dogma400 a 405
- Perfeição nas grandes e pequenas cousas406 a 410
- Renovação constante411 a 417
- Director e confessor418 a 420
- Maravilhoso irreal421 a 423
- Cristo em tudo424 a 431
 
V - APARENTES PORMENORES432 a 434
- Pequeninos sacrifícios435 a 438
- Contacto com a miséria439 a 443
- Trabalhos servis444 a 453
- Reflexos morais454 a 457
- Amuos458 a 460
- Trejeitos461 e 462
- Brincadeiras de namoros463 a 466
- Plebeísmos467
- Diminutivos468
- Comentários indiscretos469 e 470
- Brincadeiras deformadoras471
 
VI - EPÍLOGO472
 
 









I

 
 

FECUNDIDADE DE UM PRINCÍPIO

   
 
  . 
O século XX, nos frenesis de pragmatismo e dinamismo dos seus primeiros anos, errou ao excluir da sua filosofia a Metafísica, como a ciência sem utilidade prática e portanto ilegítima na mentalidade contemporânea. 1
As ciências, quanto mais profundamente especulativas, mais vasta repercussão têm na vida prática. Esta verdade só pode ser negada por quem ignorar as ciências especulativas e a Metafísica - a mais especulativa de todas. Por isso creio que foi inconsciente a contradição flagrante dos inícios do nosso século. Mas se foi inconsciente nesse desastroso efeito, não foi inculpável na sua fundamental causa - não ter estudado, ao menos com a indispensável aplicação, filosofia e sobretudo a sua parte principal — a Metafísica. 2
Mas o homem é naturalmente lógico, e só por má vontade ou outras desordens das suas faculdades cai no erro. A contradição no homem é, por natureza, insustentável. E de facto o século XX retornou à Metafísica — lógico agora com as suas aspirações utilitárias. E pena é que não retorne integralmente à Filosofia perene — única capaz de satisfazer as suas ânsias de novidade, vertigem e beleza. 3
Ao publicar este estudo sobre algumas repercussões nas ciências práticas de um dos muitos e fertilíssimos princípios metafísicos, parece-me não só exteriorizar a minha consciência individual de pensador, mas a consciência do pensamento do meu século em ressurgimento — a despeito de tantas ruínas e graças às ocultas, mas ingentes energias da Humanidade. 4
  
  

COMO COMECEI A TOMAR CONSCIÊNCIA DELA

 
  
D. António Ferreira Gomes — meu primeiro Mestre de Filosofia — nas suas lições magistrais — quer pela penetração deslumbrante nos problemas, quer pelo processo inegavelmente pedagógico como no-los expunha e nos ajudava a avançar na sua solução; D. Antóni0 Ferreira Gomes — inteligência filosófica que bem poderei chamar uma das primeiras do nosso País, e da falta de cujas lições só encontrei compensação nos lentes da Universidade de Roma; D. António Ferreira Gomes foi o primeiro agente do despontar da minha consciencialização da fecundidade imensa do princípio essencial radical intrínseco de individuação. 5
Todo o pensamento filosófico tem de ser lógico com a posição que tomarmos neste problema. Mas a verdade completa ainda não está aqui: É que todo o pensamento, integralmente considerado, e não só o filosófico, está logicamente ligado à atitude tomada na radicação intrínseca do indivíduo. 6
Todo o ser está penetrado, até o que tem de mais íntimo, pela especificação e pela individuação. A realidade nem está numa nem noutra. Uma sem outra é inconcebível. Conhecer bem uma é conhecer a outra. Portanto conhecer a individuação é conhecer o ser em toda a sua onticidade. Ser lógico com este conhecimento em todas as questões científicas é nunca errar. 7
O meu Mestre foi o primeiro agente que me fez despontar a consciência de tão flagrante verdade. Depois coube à meditação, às vivências, ao esforço de todo o ser, tomar sempre mais ampla consciência dela. O bom mestre é apenas um auxiliar e de modo nenhum pode substituir o esforço do discípulo. Acorda-o do sono, dá-lhe a mão, não o deixa cair, mas à medida que se torna apto a caminhar sume-se e só intervém para evitar desvios. Também isto é uma consequência da individuação. 8
Princípio tão fértil, via-o a cada passo nas suas manifestações, mas inconscientemente, isto é, não via o nexo dessas manifestações com o princípio de individuação. Agora, acordado e já em pleno avanço no mundo de tais verdades, animado assim por mais uma prova a favor das páginas que se seguem, publico-as sem receio e jubiloso por também ir acordar outras consciências e incorporar-me na marcha dos pensadores do meu século. 9
  
  

COMO A VI INCONSCIENTEMENTE 1

 
  
Àquele que não é apático, duas atitudes se impõem perante o espectáculo do mundo — admirar a beleza, indignar-se com a fealdade. E, se fosse lógico, praticar o bem e evitar o mal. No Universo, se penetrarmos até o seu íntimo, não há cousas neutras — ou há bondade e beleza ou torpeza e fealdade. Na obra de Deus só há beleza com variadíssimas limitações. Na obra dos homens há beleza e fealdade. 10
E assim, no longo espectáculo que me ofereceu a formação da minha infância, mocidade e entrada na juventude, muito tive que admirar e também que me indignar. A vontade submissa aos participantes da Autoridade Suprema, a inteligência submissa aos legítimos intérpretes do Dogma e da Moral, ainda fica longo campo — campo quase infinito — de liberdade para a inteligência a nada se curvar senão perante a evidência, senão directamente à verdade. 11
Durante aquela primeira educação que vai até o indivíduo se lançar na vida, procurei ser submisso, mas guardei com zelo o direito natural de observar, criticar mentalmente, ler, estudar e apontar. 12
Daí dezenas de fichas com observações de didáctica aplicadas à vida prática. Talvez sejam úteis aos educadores. Pensei na sua publicação. Por isso ordenei-as e coordenei-as. É uma obra pensada, sentida e vivida ora na mais profunda dor ora num prazer arroubante. Por isso é original, embora muitas opiniões coincidam com as de muitos outros. Não é completa, e compreende-se pelo que acabo de dizer: É uma reflexão sobre alguns pontos. 13
Que a crítica me faça ver melhor os problemas de pedagogia e me ajude a exercer uma acção mais benéfica no meu campo de actividade — por isso só terei de ficar reconhecido. 14





1

Ver inconscientemente não é contraditório como poderá parecer antes de se reflectir no significado que tem aqui. O A. viu os métodos pedagógicos mais eficientes; o que não viu logo de início foi o nexo que tinham com a radicação do indivíduo na matéria. Viu a verdade pedagógica sem saber que era uma manifestação da fecundidade do princípio metafísico da individuação; viu as águas sem ver a fonte, a luz sem ver o sol.














II

 
 

AMPLITUDE DE UM CRIME

   
 
  . 
É dever grave de todo o pedagogo estudar Pedagogia e suas ciências auxiliares — Psicologia, Medicina rudimentar, Higiene, Psiquiatria, Psicometria, etc. Este estudo não deve limitar-se aos bons autores, mas tem de ser sobretudo pessoal — pela observação, meditação e experiência. 15
Como se compreende que um prefeito de uma casa de educação ou os pais se não dêem a este estudo sobre a matéria que constitui o seu principal dever de estado? Pensarão que já não precisam; e daí tantos crimes pedagógicos. O pedagogo — e afinal em tudo é assim — tem de passar a vida a estudar e a aperfeiçoar-se. Pedagogia é a ciência e a arte por excelência, e por isso mesmo é a mais difícil — aperfeiçoar a natureza decaída. Os prefeitos não estão nesse lugar para outra cousa. Se todos se dedicassem verdadeiramente à sua missão, não estariam os lares e as casas de educação em tão deplorável estado e não se assassinaria o futuro da juventude como tantas vezes se assassina. 16
E se os estragos não são maiores é porque o Pedagogo Supremo vela com a Sua Graça e conduz as almas por caminhos bem desconhecidos da ciência humana. Mas isto não minora a responsabilidade do crime a que me refiro. Seria tentar a Deus não empregar os melhores métodos pedagógicos para deixar todo o trabalho à Graça divina. A missão geral desta é fazer aquilo a que o homem não pode chegar — é completar e sublimar. Se às vezes faz autênticos milagres, não é lícito cruzar os braços ou até empregar métodos antipedagógicos à espera deles. 17
Isto é, a meu ver, dos maiores crimes que se cometem na terra. É crime odiento, que me indigna, o daqueles pais, médicos e parteiras, que privam multidões de crianças da vida e da Visão beatífica. Esses seres povoam o Limbo; mas Deus criara-os para uma felicidade sobrenatural. Eternamente isso será impossível, porque essas multidões não receberam o Baptismo, e só a Graça santificante lhes daria capacidade de ver a Trindade. Eternamente apenas gozarão a Deus pelo conhecimento e amor naturais. Por isso Deus exercerá a Sua justiça — também eternamente — sobre os infanticidas. 18
Se assim é, qual não será a justiça de Deus sobre quem não precipita multidões de almas no Limbo, mas as encaminha para o Inferno? A sua missão era aperfeiçoar esses seres, em todos os seus aspectos e segundo a hierarquia dos valores, para que através da vida tivessem força de respeitar a ordem das cousas, isto é, para que a inteligência sempre obedecesse à verdade, a vontade à inteligência, as faculdades inferiores à vontade. Mas porque os pseudo-pedagogos, em vez de se dedicarem ao estudo profundo dos métodos eficientes de educação e dos indivíduos, se deixaram orientar por preconceitos e disposições de momento, em vez de conseguirem aperfeiçoar a natureza pela ordenação das partes, fomentaram a desordem com as incompreensões e injustiças de que fizeram vítimas os educandos. Ora, se é difícil conseguir o desenvolvimento e a coordenação das faculdades trabalhando-se desde a infância, quase é impossível consegui-lo mais tarde. A educação do indivíduo até se lançar na vida é que marca naturalmente o seu destino. 19
É claro que a vontade é livre e por isso o indivíduo, educado devidamente, pode desviar-se. Mas a verdade é que esses desvios são temporários, geralmente, e por fim regressam. As bases da educação eram sólidas. 20
A educação pode também ter sido deficiente e o indivíduo suprir essa deficiência com uma auto-educação embora já tardia. Mas não se pode contar com isso. Há indivíduos naturalmente de vontade forte, mas a maioria têm-na fraca. Era à educação desde o nascimento que cumpria robustecê-la. Além disso há outro problema: De que vale vontade forte se não estiver ao serviço de uma inteligência esclarecida? Era à educação desde o nascimento que competia iluminá-la. Raríssimas vezes a auto-educação tardia consegue suprir as deficiências anteriores, aliando a força à luz. Muitos vêem, mas não têm força; muitos têm força, mas não vêem. A educação não desenvolveu as faculdades harmonicamente: O mal dificilmente será reparado. 21
Isto significa que a responsabilidade do educador é tremenda; que é um crime não empregar todos os esforços para educar devidamente os indivíduos; que não educar as crianças segundo os métodos eficientes é fomentar a desordem — é orientá-las para o Inferno. 22
Mas a amplitude do crime é mais vasta: O pseudo-educador não assassina só o futuro das crianças que lhe são confiadas: Assassina ainda todas aquelas que deveria um dia ser educadas por essas, mas não podem porque ninguém dá o que não tem. E o crime repercute-se de geração em geração em ondas sucessivas ao longo do tempo e do espaço. 23
A missão do educador é aprofundar uma das mais belas ciências — a que estuda os métodos de aperfeiçoar a natureza decaída. 24
E não é só a de estudar, mas a de trabalhar numa das mais belas artes — a de ajudar a criança a embelezar o seu ser em todas as suas partes: De naturezas em desordem (pelo pecado original) fazer naturezas belas, restituindo-lhes a ordem em que Deus criara a Humanidade: Cooperar na elaboração da mais bela obra do Universo — o homem. Não o homem abstracto — animal racional — conceito universal que se encontra na inteligência e se realiza em todos os indivíduos; mas o homem concreto que realiza essas duas notas essenciais — animalidade e racionalidade - segundo o condicionalismo da individuação. 25
É esse homem concreto que é necessário embelezar integralmente para que espelhe cada vez com mais brilho a Trindade Sublime. 26











III

 
 

PRINCÍPIOS GENERALÍSSIMOS

   
 
  . 
Há, a meu ver, três princípios generalíssimos à luz dos quais é necessário orientar toda a verdadeira educação. Todos eles são de mentalidade tomista, e tanto se concluem por dedução como pela experiência: É a prova mais irrefutável da sua veracidade. Um princípio que se concluiu pela dedução do pensamento e se vê confirmado pela indução dos fados não pode deixar a menor dúvida de que é verdadeiro. 27
Não era preciso tanto: Uma verdadeira dedução ou uma verdadeira indução, por si só, leva à evidência. Mas como hoje se tiram conclusões com tanta leviandade — por ignorância ou por facciosismo — e como em Pedagogia as condições de laboratório são quase impossíveis de conseguir (tendo-nos de resignar a uma indução com simples valor estatístico), os princípios confirmados pelo pensamento e pela experiência não podem deixar de fazer ajoelhar os mais cépticos e caturras perante os esplendores da Verdade. 28
  
  

1 - AO ESSENCIAL PELO ACIDENTAL

  
O pedagogo tem de olhar aos pormenores mais pequeninos sem esquecer, nem por um momento, as grandes ideias mestras. Assim, a mãe ao beijar a criança, ao lavá-la, ao dar-lhe um remédio, ao brincar com ela, nunca perderá de vista os fins da educação e sobretudo o fim supremo — a salvação da sua alma. Quem perde de vista o fim perde-se infalivelmente. Educação em que o pedagogo se não deixou orientar, a cada instante, pelo sublime fim da sua missão — é educação falhada. 29
Que, pela desordem estabelecida pelo pecado original, a criança nasce com boas e más tendências — está fora de dúvida. À educação compete fomentar as boas tendências, e as más, isto é, as desregradas, orientadas para o mal, regrá-las e dirigi-las pelo caminho do bem — torná-las boas. 30
Deste modo trabalhar-se-á pela perfeição do educando, pela formação do homem perfeito. Neste conceito de homem perfeito, completo, temos de entender homem integral e homem ordenado: Não há perfeição onde não há integralidade e ordem. Isto quer dizer que há uma hierarquia de fins: Que é necessário aperfeiçoar todas as partes do homem sem desprezar nenhuma, mas dando-lhes a importância correspondente ao valor de cada uma. 31
Assim, o primeiro fim da educação, segundo esta ordem lógica, e o último, segundo a ordem ontológica (dos valores), é a perfeição da vida fisiológica. Esta é a base e o meio de se atingir a perfeição das partes superiores. Esta merece a primeira atenção — em parte por si mesma (porque é um valor), mas sobretudo em ordem aos valores superiores. 32
Dentro da parte fisiológica do homem há ainda uma hierarquia de valores. Começando pelo menor valor até o mais nobre, porque pelo secundário é que se atinge o principal, temos, segundo Weiss de Oliveira em Força pela Saúde, 1929, pág. 4: Sistema muscular, sistema ósseo, aparelho génito-urinário, aparelho digestivo, aparelho respiratório, aparelho circulatório, sistema nervoso. Todos estes aspectos da fisiologia humana merecem a atenção do pedagogo, mas seria criminoso não os aperfeiçoar segundo a ordem criada, e inverter os fins em meios e os meios em fins, desenvolvendo mais os aspectos inferiores em vez de os desenvolver harmonicamente, sempre em ordem ao valor mais nobre, à parte que deve ser mais cuidada. Criminosa é portanto a orientação que subordina toda a vida fisiológica ao desenvolvimento muscular, em vez de a subordinar ao equilíbrio nervoso. E se falarmos da pseudo-educação que pretende subordinar toda a vida do homem (e não só a fisiológica) à perfeição muscular, então não sei que termo aplicar a tal desordem. 33
Não: respeitemos os valores1; ordenemo-los e coordenemo-los. O valor inferior é meio dos valores superiores; e estes, fins dos valores inferiores. 34
Assim, como fim próximo da vida fisiológica, temos a vida psicológica - o mundo da actividade animal, das sensações. 35
Depois segue-se a vida espiritual — fim próximo da vida sensitiva e remota da fisiológica. Nesta temos a considerar ainda a intelectual e a moral — resultantes de cada uma das duas faculdades espirituais - inteligência e vontade. 36
Aspecto do homem que é preciso não desprezar é o estético, que localizaremos entre o sensitivo e o intelectual, pois pode ser de ordem sensitiva ou espiritual, embora seja sempre interpretado pela inteligência. 37
Finalmente a vida sobrenatural — fim último da educação e de toda a actividade humana. 38
Todos estes aspectos têm de ser considerados em relação ao próprio sujeito e ao próximo: O homem — complexo de todas estas partes — é um ser individual e social. 39
Este complexo de partes forma um ser uno. As partes do homem não se confundem, mas também não se separam — distinguem-se. As partes inferiores ordenam-se às superiores. As superiores sublimam as inferiores. A vida orgânica (fisiológica e sensitiva) do homem é diferente da vida orgânica das plantas e dos animais exactamente por isso — porque no homem se ordena e serve uma vida superior, e porque espírito informa e sublima o organismo do homem. 40
Portanto à educação cumpre aperfeiçoar o homem na sua integralidade - todos os aspectos sem desprezar nenhum — e com ordem — dando mais importância aos valores superiores do que aos inferiores. Não sacrificar os valores superiores aos inferiores, mas se algum valor se tivesse de sacrificar, sacrificasse-se o inferior para exaltar o superior. Mas isso só em caso de excepção. Poderá haver motivo extraordinário para sacrificar a vida, por exemplo, para bem da própria alma ou da colectividade. Mas geralmente não. 41
O primeiro passo para educar o temperamento da criança é tratar-lhe da saúde; o primeiro passo para aperfeiçoar a sua vontade é tratar-lhe da saúde e da sensibilidade; o primeiro passo para tratar-lhe da inteligência é tratar-lhe da saúde da psicologia e da formação moral; o primeiro passo para a santificação é tratar da saúde da vida psicológica, da moral e da intelectualidade. Primeiro os alicerces e depois o edifício. Primeiro os aspectos inferiores, depois o superior. Quer desenvolver-se a vida divina? Primeiro desenvolva-se a humana. Pelo humano se vai ao divino, pelo corpo à alma, pelo visível ao invisível, pelo criado ao Incriado, pelo finito ao Infinito, pelo fácil ao difícil, pelo secundário ao principal, pelo acidental ao essencial. 42
Isto não significa que só se trate do aspecto superior quando se tiver terminado a educação do inferior. Não: a educação tem de ser simultânea, embora respeitando este método lógico, esta ordem de valores. Doutro modo seria impossível, porque não pode conseguir-se a perfeição de uma parte do homem sem todas as outras estarem aperfeiçoadas: O homem é um complexo uno: As partes superiores completam, aperfeiçoam e sublimam as inferiores. Não se conseguirá, por exemplo, o auge da beleza da vida orgânica ou espiritual se a Graça divina as não sobrenaturalizar. 43
Eduque-se a criança integral, ordenada e simultaneamente. 44





1

Pelas suas aulas, pelos seus embora poucos livros e talvez pelo seu apostolado, Dr. M. Álvaro V. Madureira firmou-se já como verdadeiro pensador.

 

O respeito pela hierarquia dos valores é um dos pontos em que insiste como básico em todos os campos. Veja-se, por exemplo, Tudo pela Vida — Nada contra a vida, pág. 54.

 

A este grande pensador, que se vai «da lei da morte libertando», também deve o A. o despontar de novas e grandes luzes.





  
  

2 - UNIVERSALIDADE NA INDIVIDUAÇÃO

  
O abstracto e o concreto são dois aspectos sublimes do Universo, que fascinam os intelectuais. O temperamento, a educação, a mentalidade e muitas outras circunstâncias levam uns a apaixonar-se mais, ou até exclusivamente, pelo universal, outros pelo concreto. Cegas pelo brilho intenso de qualquer destes aspectos do Universo, as grandes inteligências esquecem a beleza do outro. Este exclusivismo é fatal — deforma a verdade, a verdadeira beleza, e desencaminha o mundo. Mas é preciso ser justo: O sábio vive das verdades que descobre e contempla. Algumas fascinam-no de modo mais violento. Pode não ter força de se desprender desse aspecto fascinante da verdade para contemplar a verdade integral. É preciso admirá-lo e perdoar-lhe essa falta. Mas perdoar não é condescender. A Providência permite essas quedas nos sábios para nós, de fora, vermos o perigo dos exclusivismos e dos extremos, e seguirmos, firmes, pelo meio, em busca da verdade integral. 45
A verdade não está no concreto nem no abstracto, mas na sua aliança; num aspecto nem noutro, mas na sua integralidade. O universal (e quando digo universal é no sentido próprio — abstracto e não colectivo) existe como tal nas inteligências e concretiza-se nos indivíduos. Os indivíduos são a realização das ideias abstractas — sem estas não existiriam aqueles, pois lhes faltava a causa exemplar. Afinal universal e concreto são iguais na essência — só diferem na existência. 46
O Universo é inexplicável só pelo abstracto ou só pelo concreto. As doutrinas que excluem qualquer destes aspectos são, implacavelmente refutadas por si próprias: A linha lógica de qualquer delas leva à outra oposta. Tirem-se todas as conclusões do individualismo: Chegaremos ao totalitarismo. E vice-versa. Os extremos chocam-se. O Tomismo tem provas irrefutáveis; mas não precisava: As filosofias inimigas encarregam-se de o confirmar. A virtude está no meio: E a verdade também. 47
Universalidade e individuação abrangem o infinito: Nada existe fora destes dois conceitos: Da matéria prima ao Acto puro, dos electrões aos sistemas astronómicos, tudo existe de modo abstracto ou concreto. Assim nenhuma ciência - quer da matéria quer do espírito - pode ignorar a universalidade e a individuação. Os mais pequeninos pormenores de qualquer ciência hão-de ser compatíveis com estes dois princípios, sob pena de serem falsos. A ciência é a expressão dos seres sob os seus múltiplos aspectos. Se fora da universalidade e da individuação não há seres, também não há ciência. 48
Para não errarmos em Pedagogia, temos também de respeitar esta grande verdade. À sua luz tiremos conclusões e apliquemo-las à formação do homem integral, em gérmen na criança. 49
  
  

ADAPTAÇÃO DE MÉTODOS

 
  
José da Silva, em artigo de 4 de Março de 1945, em LETRAS E ARTES, suplemento das NOVIDADES, chama-nos a atenção para a grande actualidade da secular Filosofia Tomista: As ciências experimentais mais modernas são a confirmação experimental das doutrinas do Angélico. 50
Um desses grandes princípios a que tanto se chega pelo Tomismo como pela Psicologia experimental é o da adaptação de métodos: Os métodos pedagógicos, fixos no essencial, devem variar na aplicação com os educandos e as circunstâncias. 51
O universal e o concreto — e aqui o método pedagógico e a sua aplicação são idênticos na essência, mas diversos na existência, que nada acrescenta na ordem essencial, mas acrescenta na ordem acidental. Esta a diferença entre universal e concreto. No concreto também há diferenças individuais. Os educandos são iguais na forma substancial, mas não o são nas formas acidentais e nas adquiridas pelo conhecimento. A forma substancial é da essência. Estas — as acidentais — advêm com a existência, são o modo como a essência se apresenta no concreto. Pela Medicina e Psicologia experimental podemos conhecer, em certa medida, essas diferenças acidentais. Além destas diferenças acidentais, há ainda uma diferença essencial de indivíduo para indivíduo, que se radica na matéria. Como, porém, esta diferença nos é desconhecida — o indivíduo é inefável — não podemos vir aqui buscar elementos para uma mais perfeita aplicação dos métodos pedagógicos. 52
Portanto: Assim como os educandos, iguais especificamente, diferem individualmente (e esta diferença é acidental e essencial), assim um método pedagógico, sendo sempre o mesmo, tem de variar na aplicação de indivíduo para indivíduo. Para uma aplicação perfeita é preciso estudar cada educando médica e psicologicamente. É claro que este estudo ainda não pode ser perfeito: A Biologia humana é quase totalmente desconhecida e a falta de cultura e de recursos impediria a maioria dos educadores de realizar este estudo com o auxílio dos sábios e técnicos. Mas se não podemos atingir o perfeito, podemos e devemos tender para ele: Na medida do possível, todo o educador está gravemente obrigado a estudar o educando e a adaptar-lhe o método pedagógico. 53
  
  

RESPEITO PELA PERSONALIDADE

 
  
Os métodos pedagógicos, fixos no essencial, têm de ser tantos, no acidental, quantos os educandos: A criança deve obedecer à vontade do pedagogo, mas este, sob pena de ser assassino da personalidade alheia, tem de se adaptar ao carácter e temperamento do educando. 54
Antes de a criança ter o carácter definido, o pedagogo deve auxiliá-lo e orientá-lo em tal empresa, mas sem esquecer que é um simples auxiliar e que é criminoso se torcer ou abafar a personalidade do educando para impor a sua. Seria um crime contra a pessoa, contra a Natureza e contra a Providência. 55
Quanto ao temperamento também é preciso educar — isto é, corrigir, moderar, orientar, mas nunca mudar nem matar. 56
O fim da educação é o pleno desenvolvimento da personalidade. É preciso que o educador se lembre de que cada um tem o seu tipo próprio e exclusivo de personalidade — segundo os planos da Providência. É orgulho, crime e estultícia, o pedagogo querer o carácter do educando moldado pelo seu. Não: O educador deve dizer muitas vezes com João Baptista: «É necessário que Ele cresça e eu diminua» (S. João, III, 30). À medida que o educando se desenvolve a missão do educador vai diminuindo. Há uma contínua e lenta transformação de educação em auto-educação. O pedagogo vigia, anima e só intervém na medida em que a auto-educação é insuficiente. 57
Do seio materno ao Seio de Deus, a vida do homem é um desenvolvimento e uma libertação constante. Nasce: A criança nada pode por si: A mãe é tudo. Muito lentamente a criança vai libertando-se — a personalidade vai definindo-se. É preciso respeitar, muito embora à custa de grande abnegação, essa liberdade necessária ao desenvolvimento. Ensina-se a andar depois anda por si. Obriga-se a estudar: depois estuda por vontade. Ensina-se a praticar o bem; depois pratica-o espontaneamente. Reprimem-se os defeitos; depois reprime-os por si. Vai definindo-se a personalidade, vai libertando-se. 58
É claro que esta libertação é relativa, porque o homem é social — há-de viver sempre actuando e sendo influenciado. Mas quanto mais se define a sua personalidade mais actua sobre o próximo e menos é influenciado. 59
Desde o seio materno ao Seio de Deus é preciso cuidar que a saúde, o temperamento, os hábitos, o ambiente, não estorvem o pleno desenvolvimento da personalidade nem a deformem. Preparar o terreno e vigiar pelo crescimento integral da personalidade, intervindo nos desvios — eis o papel do educador. 60
Do seio materno ao Seio de Deus, o homem precisa de um educador - primeiro assíduo, depois só nos desvios — até atingir a plenitude da liberdade, o pleno desenvolvimento do seu ser na Visão beatífica. 61
  
  

ABAIXO O GREGARISMO

 
  
É preciso lutar contra o gregarismo — negação de personalidade. É um grande mal sobretudo das casas de Educação. Por isso sou contra grandes comunidades. A família — e toda a comunidade de educandos devia ser uma família — nunca é uma multidão. O educador tem de ter um contacto directo com cada alma. Numa grande comunidade a educação tem de ser em série, todos têm de se conformar com uma educação uniforme, rígida, inadaptada. Ora é quanto há de mais antipedagógico. Os métodos, uniformes no essencial, têm de ser no acidental tantos quantos os educandos. 62
Depois vem a rotina e vem ainda o gregarismo — faz-se isto por ver os outros, anda-se no mundo por ver andar os outros. E assim se fomenta a irresponsabilidade, a cobardia sob o anonimato das multidões. Faz-se e diz-se no meio da multidão, escondido por esta, o que se não era capaz de fazer e dizer individualmente e às claras. Ignora-se o que seja o carácter e todavia toda a educação tem de se orientar para a formação do carácter. Daí o acanhamento e falta de coragem para qualquer acto pessoal. Aquele que era tão atrevido e tão forte no meio do anonimato da multidão, agora, pessoalmente, já não é capaz, já não digo de dizer e fazer o mesmo que dissera e fizera no meio da multidão, nem digo mesmo de defender uma causa legítima, mas agora, pessoalmente, já nem é capaz de falar com um superior ou um estranho sobre o assunto mais insignificante. Não tem personalidade, está desumanizado, é um simples acidente (e acidente separado do sujeito não é nada), é um simples acidente daquela besta que se chama multidão — e às vezes trinta ou vinte ou menos indivíduos já são multidão... 63
E aqui surge o problema das casas de educação e de assistência. Serei temerário, mas eu não temo levantar o meu grito: — Abaixo o gregarismo, abaixo todos os albergues de rebanhos humanos. É preciso remodelar toda essa orientação tradicional. A força do hábito não nos deixa ver o absurdo de tantos costumes. A tradição vale, mas a razão vale mais, e verdadeira tradição é aquele contínuo desenvolvimento à luz da razão1. 64
Vestir a todas as crianças de um colégio ou asilo um uniforme, obrigá-las a andar debaixo de forma e um certo número de determinações disciplinares adoptadas pelas comunidades, quando levadas ao exagero, são processos nocivos ao desenvolvimento da personalidade. É preciso tornar as crianças pontuais, disciplinadas, todavia sem recorrer a esses processos próprios para os militares e para um pequeno escol de homens — os religiosos — mas muito impróprios para formar o carácter das crianças. Educá-las em série, não atender às necessidades de cada uma, mas apenas às da colectividade, — são consequências necessárias da vida de comunidade, inteiramente antipedagógica. É preciso remodelar implacavelmente todos esses albergues de rebanhos humanos. Colégios e asilos têm de transformar por completo a sua organização. Em vez de vida de comunidade hão-de proporcionar às crianças um ambiente familiar — único propício à educação. 65
A vida de comunidade só convém a um pequeno escol de almas. Os homens, na sua grande maioria, é na família que devem ser educados e devem viver para que possam plenamente desenvolverem o seu ser. O colégio e o asilo que pretendem substituir a família, terão de ter uma organização que se lhe assemelhe o mais possível para poderem atingir o seu fim. É preciso que o colégio deixe de sacrificar a educação dos alunos ao interesse económico. É preciso que o asilo deixe de se limitar a dar o alimento e o agasalho e simples aparência de educação, desinteressando-se de formar nas crianças o carácter. Abaixo o vil interesse e os preconceitos que assassinam o destino da juventude. 66
Organização nova nos colégios e asilos! Abaixo o gregarismo! Avante pela Revolução Pedagógica! Dispersemos as multidões! Agrupemo-las em famílias! Pela educação integral das crianças, abaixo as comunidades! Viva a organização familiar nos colégios e asilos2! 67
  
  

ORIENTAR AS TENDÊNCIAS

 
  
O mundo não foi criado nem é regido por um princípio do bem e outro do mal — como pretendiam os Maniqueus e outrora os Persas. O mundo foi criado e é regido por um único princípio — o da Verdade e do Bem. Necessariamente, portanto, o mundo há-de ser perfeito, embora com várias gradações de perfeição e embora nós não atinjamos os graus inferiores. O mundo material e espiritual é bom. Todo o mal provém não da natureza, mas do abuso da liberdade. 68
Não afirmo, com Rousseau, que o homem é bom e que a sociedade é que o estraga. Mas afirmo que a natureza é essencialmente boa, que Deus a criou totalmente boa e que, se a natureza humana hoje se encontra acidentalmente viciada, é porque o homem abusou e abusa da sua liberdade não respeitando a ordem universal. O homem foi criado totalmente bom, mas agora nasce já com as faculdades em desordem — triste herança de Adão e de todos os outros seus descendentes e nossos ascendentes, que acentuaram com novas desordens a desordem inicial. Mas a natureza, as suas faculdades e as suas tendências continuam a ser boas. O que podem é estar desordenadas. 69
Isto é ponto importante em educação. Tudo que há na criança é bom. O que se impõe é dar-lhe a devida orientação e ordem. É preciso respeitar todas as suas tendências, todos os seus entusiasmos, todas as suas forças. Abafar, desprezar ou ridicularizar as suas virtualidades é amputar e assassinar a sua personalidade em detrimento próprio e da sociedade. É uma alma que se lança na incompreensão, no desespero e na atrofia. São forças que a sociedade perde e cuja falta se fará sentir indefinidamente no tempo e no espaço com repercussão na eternidade. 70
A esta luz todos nós trememos perante as barbaridades cometidas em nome da experiência. Os educandos não são senhores de ter um ideal, um entusiasmo. Mil exemplos derrotistas, sorrisos revoltantes de superioridade e até a violência são quase sempre os primeiros obstáculos que encontram os entusiasmos das crianças e os ideais dos jovens. E depois, ao menor insucesso, lá estão os risos e as conclusões derrotistas. É uma crueldade e uma catástrofe. Nas derrotas, nos desânimos, é preciso saber consolar e animar a não desistir nos belos ideais. Se no insucesso houve culpa, saber tirar uma lição. Não ridicularizar os belos propósitos, não rir das fraquezas, não convidar à desistência perante as dificuldades, mas animar na luta pela vitória custe o que custar. 71
Mas não é só crime entravar os ideais belos. Mesmo os outros é preciso aproveitar sublimando-os. Todas as tendências são boas; o que podem é ser mal dirigidas. Essas tendências não se devem atacar, mas orientar e ajudar a vencer. Por que atacar uma verdadeira vocação política? Defendem-se ideias erróneas ou arriscam-se temerariamente a vida e os bens? O remédio está em ordenar as ideias e os actos, e não em matar o político que talvez traga a verdadeira liberdade ao povo ou que pelo menos contribuirá para ela. Há um precoce desejo de matrimónio? O remédio não é oprimir, mas animar a completar uma brilhante educação e conquistar um belo lugar para que a felicidade conjugal seja máxima. Não é atacar, mas fomentar um ideal cada vez mais belo, ajudar a ser puro em fidelidade a esse ideal. E assim indefinidamente. Aquele ideal político que parecia mau, uma vez sublimado, é magnífico. Esta tendência conjugal que parecia má, será a felicidade de uma esposa e de uma descendência. 72
Pela sublimação far-se-á de uma criança introspectiva um pensador e não um neurasténico. De uma criança sentimental, um artista e não um nefelibata. De uma criança acentuadamente social, um apóstolo e não um vadio. De uma criança autoritária, um verdadeiro chefe e não um desordeiro nem um tirano. De um apaixonado, um extremoso marido e pai e não um devasso. 73
Nunca abafar nem ridicularizar, mas orientar as tendências e sublimar os ideais. 74
  
  

AJUDAR A DESCOBRIR VIRTUALIDADES OCULTAS

 
  
Como em tudo, também no estudo das ciências positivas é preciso respeitar a hierarquia dos valores. Nos últimos tempos tem-se notado um grande desenvolvimento das Físico-químicas sobretudo naquele ramo importantíssimo e fascinador — a Microfísica. Este facto só deveria alegrar-nos se não fora acompanhado de um grande atraso em Biológicas. Enquanto na Física e na Química temos leis sem dúvida certas, na Biologia quase nos temos de limitar a descrições e estatísticas. É que a vida não pode ser expressa naqueles moldes matemáticos como se expressam, por exemplo, as fórmulas químicas. A inteligência vive excessivamente da matéria e ser-lhe-la cómodo aplicar aos seres vivos os mesmos métodos que aplica aos anorgânicos. 75
Dificuldade semelhante também se vai encontrando à medida que se avança para o infinitamente pequeno. Os cientistas, entusiasmados com os grandes sucessos em Físico-químicas, querem prosseguir em avanço triunfal na descoberta do núcleo. Mas à medida que avançam vão-se desorientando. No mundo atómico as noções de espaço e tempo — tal como na Biologia — diferem formalmente das do mundo físico. 76
Compreende-se a dificuldade que a vida apresenta ao estudo — tanto mais que a inteligência humana está demasiado absorvida no mundo matemático e físico. Compreende-se a paixão provocada pela matéria. Mas isso não justifica a traição da Ciência nos últimos tempos. As Físico-químicas devem ser aprofundadas tanto quanto for possível. Primeiro pelo seu objecto formal — toda a ciência teria razão suficiente em si própria se outras razões ainda não reforçassem a sua legitimidade. E, em segundo lugar, para dar fundamento e luzes à Biologia. A Físico-química é fim de si mesma e meio de atingir a Biologia, embora formalmente diversa. 77
A traição não está no estudo da matéria anorgânica, mas no pouco estudo da orgânica. É preciso não desprezar ciência alguma e dar-lhes desenvolvimento segundo o seu valor ontológico. Na ordem lógica a Física primeiro, mas na ordem dos valores a Biologia. Aquela deve ser um meio e não um entrave ao desenvolvimento desta. 78
Esta orientação da Ciência reflecte-se imediatamente no conhecimento do homem. Conhece-se a constituição anatómica do homem, mas desconhecem-se as suas partes superiores. A vida, que anima a anatomia humana, não tem merecido tanto estudo como a própria anatomia. A Cirurgia está relativamente desenvolvida enquanto a Fisiologia e sobretudo a Psiquiatria estão num atraso aterrador. Daí a ignorância quase total do ser mais perfeito da criação visível. 79
A Medicina, na concepção do Dr. Alexis Carrel, seria a síntese de todas as ciências do homem não desprezando nenhum dos seus aspectos — anatómico, fisiológico, psicológico, estético, intelectual, moral, social e religioso. A medicina dar-nos-la o conhecimento experimental e integral do homem. A esta luz, que nome dar aos médicos que não ganham o pão de cada dia servindo a Ciência e a Humanidade, mas o ganham servindo apenas o interesse próprio? 80
Seja por unilateralismos seja por falta de competências ou por comodismos o facto é que o homem é quase totalmente desconhecido. No homem há um mundo imenso a descobrir. Mas, com os elementos, embora ainda pouco fecundos e escassos, que as ciências positivas do homem nos dão, e com os elementos da Filosofia e da Teologia, que também estudam o homem não por indução dos factos, mas por dedução de princípios certos — com esses elementos é preciso estudar já não digo só o homem em geral, mas os indivíduos de per si — outros tantos mundos profundamente diferentes e desconhecidos até dos próprios sujeitos. 81
Quantos benefícios para a Humanidade se os cientistas conseguissem estudar integralmente a espécie humana e elaborar uma verdadeira ciência! Mas não era suficiente: Depois impunha-se ao pedagogo e ao médico estudar as diferenças individuais de cada um, que longe de serem superficiais são bem profundas. Se as energias escondidas no seio da matéria anorgânica são extraordinárias, segundo a Microfísica, quão mais extraordinárias não devem ser as energias escondidas no seio do microcosmos humano? Sem dúvida que as energias da matéria viva são muito mais potentes e muito mais úteis à felicidade do homem. Energias formalmente diversas, umas e outras interessam ao homem, mas as energias biológicas são um valor muito mais precioso. 82
É preciso descobri-las. Cada indivíduo, procurando descobrir todas as suas virtualidades e activando-as, não só desenvolve a sua personalidade, mas ainda presta uma óptima colaboração à Medicina-ciência sintética do homem — e à Sociedade. As qualidades de cada um só se tornam actuais (isto é, só produzem actos) depois de conhecidas. Doutro modo permanecerão inconscientes, e embora o formidável mundo da inconsciência tenha grande influência na actividade humana, as virtualidades só conseguirão a sua plena expansão depois de desenterradas do inconsciente. 83
É preciso que o educador não despreze nenhum meio para ajudar o indivíduo na descoberta desse imenso mundo desconhecido. Os testes e tudo quanto nos forneçam os laboratórios psicológicos devem ser aproveitados. Mas é preciso não cair em precipitações nem unilateralismos. Em psicologia experimental e nos ramos auxiliares e afinal em todas as ciências da vida há muita investigação, mas pouca ciência propriamente dita. Por enquanto está-se mais no mundo das teorias do que no da certeza. No entanto, nada do que se tem investigado é para desprezar. 84
Se os educadores observassem e estudassem profundamente cada indivíduo, quantas aptidões vislumbrariam e poderiam assim fazer desenvolver! 85
A falta de competências em todos os campos e a falta de santos igualmente em todas as classes, talvez fosse remediada desse modo. 86
É preciso ensinar os educandos a conhecerem-se cada vez melhor e a conhecerem os outros. O estudo exclusivo de si próprios podê-los-la levar a uma introspecção excessiva e incompreensão dos outros. Ficariam fechados num mundo egocêntrico e isolado. Por isso requer-se o estudo dos outros com a mais integral objectividade. Mas, como em tudo, também aqui é preciso adequar os métodos a cada indivíduo. Assim, a certos espíritos demasiado introvertidos, talvez seja preciso afastá-los da observação de si próprios, sob risco de qualquer psicose. 87
Tudo isto é preciso ponderar e, para bem ponderar, é preciso desenvolver e aprofundar a Medicina — síntese de todas as ciências que estudam experimental e integralmente o homem. 88
  
  

RESPEITO PELA VOCAÇÃO

 
  
Vocação é aquele modo de vida que melhor se adequa a cada indivíduo encarado sobre todos os seus aspectos. O exame e a escolha são difíceis. Ao pedagogo cumpre orientar esse grande estudo, mas sem mudar os desígnios da Providência, o que seria um crime. Requer-se, primeiro, uma educação integral; depois, o estudo profundo de si mesmo e das diversas carreiras. 89
A consulta aos institutos de orientação profissional é aconselhável. Mas nada de excessiva confiança. Os estudos psicológicos estão muito atrasados. Já dissemos que havia muita investigação e pouca ciência propriamente dita. Depois há o perigo de unilateralismos. O exame tem de ser feito não só às faculdades naturais, mas ainda à vida sobrenatural. Quem sabe se o educando é chamado a uma missão superior? Quer dizer que não é só o médico e o psicólogo, mas também o padre que tem de ser consultado. 90
E ainda que todas as aptidões levem a crer que a vocação é uma determinada, resta saber se o sujeito quer. Não se pode dizer, ao menos com as luzes naturais, que certo sujeito tem uma determinada vocação se ele não tiver vontade. É que essa carreira adaptava-se a todas as suas faculdades menos a uma que em vocação talvez seja a mais importante — a vontade. 91
Por isso a escolha é difícil. Mas ela impõe-se necessariamente, e com uma responsabilidade tal que dela depende a felicidade própria e em parte da Sociedade, porque toda a desordem tem uma repercussão indefinida no tempo e no espaço. 92
Um único caminho é bom para cada indivíduo. Não o seguir por ignorância, infidelidade ou opressão é uma desordem funesta para todos. 93
A primeira causa de desordem a evitar é a ignorância. É preciso dar ao educando uma mentalidade verdadeira e ampla. Desviá-lo de ilusões e fazê-lo viver da realidade, mas da realidade integral — sob todos os aspectos legítimos — visível e invisível, natural, preternatural e sobrenatural. Torná-lo idealista, isto é, com um ideal que tenha por objecto uma realidade sublime, mas não nefelibata. Sonhador de sonhos reais, mas não de sonhos quiméricos. Só nesta mentalidade o educando estará apto a descobrir a vocação. 94
Sem o desenvolvimento harmónico das faculdades e sem uma mentalidade integral, o indivíduo não poderá, com êxito, descobrir o caminho da felicidade plena. Com efeito, tendo o educando hipertrofiada qualquer faculdade, facilmente se iludirá pensando estar nela a indicação do seu destino. O desenvolvimento de outra faculdade mais atrofiada talvez o levasse a crer o contrário. 95
Encarando também a realidade só por certos aspectos, semelhante ilusão se poderá dar. Como poderá um indivíduo encontrar a sua felicidade na virgindade se só conhece as belezas do matrimónio? Ou como poderá afirmar ter vocação de sacerdote se não estudou o problema do casamento? Como poderá realizar-se a felicidade em uma carreira se se desconhecem as outras? Sem um conhecimento o mais integral possível só pelo acaso se encontrará a vocação. É fácil de imaginar a desordem no mundo das vocações e as suas terríveis consequências para a vocação e felicidade do próximo. 96
A segunda causa de desordem é a infidelidade. Infidelidade no estudo da vocação: Olha-se à carreira mais rendosa ou cómoda e não àquela que a natureza e a Graça nos indica. Infidelidade no seguimento ou na perseverança da vocação que a Providência indica: Vê-se o caminho, mas prefere-se outro: À Vontade de Deus sobrepõe-se a vontade própria. É legítimo, porque Deus, embora trace o caminho a todos, dá-lhes liberdade de escolher outro. Todavia é temerário: Na vocação que a Providência traça, as graças são mais abundantes. Sendo-se infiel, Deus não faltará com as graças suficientes para a salvação, mas o que podem é não ser suficientes para as infidelidades em que repetidas vezes caímos. E assim se põe em risco a salvação eterna. 97
A terceira causa de desordem é a opressão. A autoridade paterna e civil arrogam poderes que Deus lhes não deu nem pela natureza nem directamente. Os filhos devem obediência aos pais, mas não a devem na escolha e seguimento da vocação ou no caso de os mandarem pecar. No campo da vocação apenas estão obrigados a ouvir com respeito e a ponderar as suas opiniões, reservando, porém, para si a decisão última. Os pais têm poder de mandar, mas essa autoridade tem por limite a personalidade dos filhos: Não lhes é legítimo impedir o seu pleno desenvolvimento nem a sua orientação. 98
Muito embora os filhos não queiram seguir a verdadeira vocação, a ninguém é legítimo impedi-los, pela força, de traçar livremente o seu destino. Entre as vocações legítimas, os filhos são livres na escolha ainda que não sigam a que mais lhes convém. Se é legítimo não obedecer ao plano divino das vocações, muito mais legítimo é não fazer a vontade dos pais. Não se trata de uma desobediência, porque os pais nesse campo não têm autoridade deliberativa. 99
Toda a autoridade tem por limite a personalidade humana. Tudo o que a não respeita é tirania infame — ofensa à liberdade humana e à Autoridade divina. Esta é a ordem maravilhosa que limita a autoridade e liberdade dos homens para que possa haver paz e felicidade. Todo o homem está enquadrado numa hierarquia. Como superior, deve mandar e fazer-se obedecer, mas não deve desrespeitar a personalidade alheia. Como súbdito, deve obedecer, defendendo, porém, a integralidade dos seus direitos. 100
Assim, os pais que impedem que os filhos, depois da puberdade, sigam livremente o destino que pretendem: cometem um abuso hediondo — primeiro, porque se arrogam uma autoridade que não têm nem por natureza nem por graça, segundo, porque não respeitam um direito natural dos filhos. 101
E o Estado comete outra injustiça não dando aos menores recurso para usar de um direito sagrado, e permitindo aos pais o abuso da sua autoridade. Só é justa a legislação que tem por base o Direito natural, e, portanto, nem é justa a legislação que não prestigia a autoridade paterna nem a que não protege a personalidade dos menores. 102
Não é que os pais devam ser alheios à escolha da vocação. Pelo contrário a eles cabe criar-lhes uma mentalidade integral, habituá-los a uma vida santa, aconselhá-los na orientação do futuro. Isto é dever grave. Mas igualmente grave é o dever de não abusarem do seu poder. Na escolha da vocação, a missão dos pais é aconselhar e rezar e jamais impor pela violência, mesmo quando convencidos do erro dos filhos, ou dissuadi-los de seguir a vontade de Deus — outra forma de tirania embora camuflada. 103
O difícil está em respeitar escrupulosamente os limites do Direito natural. Os pais, habituados a mandar em tudo, não têm a abnegação necessária para respeitar a legítima liberdade dos filhos. Outras vezes cometem a ilógica de condescenderem criminosamente com a desobediência, e na escolha da vocação mostrarem-se tiranos. Os filhos, habituados a obedecer aos pais, não têm força de lhes resistir respeitosamente à tirania. E outras vezes, desobedecendo irreverentemente em tudo, obedecem cobardemente naquilo em que os pais não têm autoridade — embora vejam que a vontade de Deus é outra e que muitas almas padecem com tal procedimento. 104
Pela Concordata o Governo português compromete-se a respeitar os casamentos religiosos entre menores, autorizados pelo Prelado, por motivo de perigo moral. É já alguma cousa. Mas o Direito civil português continuará tirânico enquanto não reconhecer todos os actos legítimos da Igreja Católica Romana e enquanto não respeitar e defender a liberdade da escolha da vocação aos menores depois da puberdade. Não tem discussão: Trata-se de direitos que brotam da própria essência do homem. O direito positivo não pode desrespeitar o natural, sob pena de perder o seu valor e autoridade. Pelo contrário, deve ser a sua tradução escrita e a sua aplicação prática. Lei que não se funda no Direito natural é injusta e nada vale perante as consciências. 105
Não é pela opressão, mas pela formação que se evitará a desgraça da juventude. Não é simulando-lhe ou roubando-lhe os direitos naturais que se evitará a sua perdição, mas convencendo-a e tornando-a capaz de responsabilidade. 106
A legislação da Igreja respeita todos os direitos de pais e filhos, soluciona à luz da razão e da Fé todos os problemas — é a mais fiel intérprete das leis que o Criador escreveu na própria essência das criaturas. Aos estados que pretendem exaltar a liberdade e igualdade basta-lhes defender a Doutrina da Igreja. O Direito natural diz-nos que a autoridade tem por limite a personalidade: Isto é verdade enquanto o homem for homem — o contrário seria a destruição da sua essência e portanto a destruição do próprio Criador. O Direito Canónico desenvolve e esclarece essa lei natural não gravada no papel, mas na própria constituição essencial dos seres. Diz-nos na prática como resolver o conflito entre a vontade dos pais e a vocação dos filhos. Quando os governos quiserem ser lógicos com os seus princípios de liberdade e igualdade, respeitarão a Igreja — defensora dos direitos do homem, guarda infalível da Verdade. 107
É dever grave dos pais obrigar os filhos, por hábito e convicção, desde a mais tenra idade, a uma obediência inteira. Mas os pais, que a todo o custo hão-de tornar os filhos obedientes, têm também de baixar a cabeça, respeitosos, perante a sua vontade na escolha do futuro. Aqueles que tiveram outrora de disciplinar os filhos, têm agora de ajoelhar perante os seus direitos sagrados. 108
Missão abnegada, mas sublime, a dos pais. 109
Ordem admirável a da Natureza, confirmada e aperfeiçoada pela Doutrina Católica. 110





1

Cf. António Sardinha, Ao Princípio era o Verbo, 1940, pág. XV.

2

É preciso encarar a realidade numérica sem desprezar a realidade qualitativa. Solucionar o problema quantitativo não é solucionar a realidade mas é mutilá-la, destruí-la, pois os problemas do real só se solucionam quando integralmente considerados. Os asilos e os colégios pretendem ter resolvido o problema da sua missão, porque resolveram o problema numérico; mas enganam-se, porque não se resolve problema algum senão quando se encara a realidade integralmente. Por isso é que também os plebiscitos não resolvem satisfatoriamente o problema da legitimidade de direito da autoridade e não trazem a felicidade ao povo, mas o tornam cada vez mais miserável. O aspecto quantitativo da realidade foi resolvido, mas não foi o aspecto qualitativo; e, pior ainda, aquele foi resolvido em prejuízo deste. Para que seja resolvido o problema integralmente só um caminho — organização familiar nos colégios e asilos.





  
  
  

3 - FAMÍLIA E COMUNISMO

  
A educação será tanto mais perfeita quanto mais verdadeiramente familiar for o ambiente. É uma conclusão certa quer do estudo filosófico do homem quer do estudo experimental. 111
Na contemplação integral da Natureza — do mais insignificante acidente ao mais íntimo da essência — o filósofo que existe em cada homem vê, se limpar a poeira dos olhos, a necessidade metafísica do ambiente familiar para a educação. Se aos pais cumpriu criar os filhos, aos pais cumpre necessariamente educá-los. E se o Criador estabeleceu esta ordem, é porque entendeu ser o meio mais útil e belo para a educação do homem, como mais útil e dignificativo entendeu ser, para a procriação, o enlace amoroso dos esposos. 112
É o maravilhoso plano divino1 que faz nascer o homem na família, fá-lo crescer e aperfeiçoar na família, para depois constituir outra família, onde atingirá a plenitude possível da sua perfeição. Os primeiros educadores são os pais; depois o esposo, a esposa. 113
Conclusão necessária tirada da essência das criaturas, negá-la seria negar o próprio homem e o seu próprio Autor. Se é realmente uma conclusão necessária da essência humana, é evidente que tem de ser certa. Mas será de facto necessária essa conclusão? Aqui se levanta o problema crítico — o problema do valor do conhecimento humano — sem o qual resolvido toda a discussão é estéril e absurda. Não admitir que a inteligência pode atingir princípios objectivamente verdadeiros e concluir com certeza — seria outra negação do homem, outra contradição insustentável. Mas pondo de parte estas verdades, para que da má vontade que há de as confessar não resulte igual má vontade de reconhecer o princípio basilar de Pedagogia que exponho, vejamos o testemunho da ciência positiva. Já não argumento com princípios filosóficos — é com a observação experimental dos factos. 114
Agora, na contemplação dos acontecimentos, vemos que só em ambiente familiar podem existir aqueles requisitos indispensáveis à educação integral- acção directa e aberta do pedagogo sobre a criança, carinho, compreensão, intimidade, castigos de resultados benéficos. Este trabalho científico e artístico — a educação — pertence sobretudo à mãe. Só ela sabe beijar e disciplinar a criança. Beijar sem moleza, pieguice ou sensualidade. Disciplinar sem barbaridade, rancor ou desvairamento. Beijar, isto é, acalentar as expansões legítimas da personalidade. Disciplinar, isto é, castigar as desordens da natureza, submeter e orientar. Beijar e disciplinar resumem toda a educação. Aquela que teve a principal missão na procriação também a tem na educação. 115
Filosóficas ou positivamente chegamos a esta conclusão muito embora contra tantas teorias e práticas erróneas defendidas por quem parece não ter tido uma mãe. 116
  
separadores 
  
Assim como os médicos, parteiras e enfermeiras são simples auxiliares no nascimento da criança, assim os professores e prefeitos são outros simples auxiliares na educação. Uns e outros indispensáveis quase sempre; no entanto não mudam a sua natureza de simples auxiliares dos pais. A creche ou a escola devem ser apenas para suprir as deficiências dos pais ou da organização económica. 117
Dada a complexidade de ensino e mesmo a conveniência de contacto com outros estudantes e com bons mestres, os pais devem delegar, em escola competente e condicionalmente, parte dos seus direitos de instruir. E digo «condicionalmente», porque a escola é uma colaboradora da educação integral dos filhos — não deve, com o ensino, mudar o rumo pedagógico da família, mas apoiá-lo e trabalhar no mesmo sentido (salvo orientação errónea); e digo «parte», porque os pais não deixam de ter, por sua vez, uma missão colaboradora na instrução. 118
Dada a incompetência dos pais, cumpre à escola suprir essa deficiência — quer pela Sua acção sobre os pais, quer sobre os filhos; mas sem os arrancar ao seio da família, salvo casos graves de imoralidade e salvo casos de necessidade temporária. 119
No primeiro caso a escola é necessária para a instrução2. Por mais instruídos que os pais sejam, a escola será sempre necessária. É preciso que os filhos a frequentem sem abandonar a família — colaboradora indispensável no ensino — e que a escola os instrua colaborando na educação integral que os pais se devem esforçar por lhes dar. No segundo caso a criança necessita da escola por falta de competência dos pais. É preciso remediar o mal educando os pais e suprindo junto dos filhos a sua deficiência pedagógica. Esta a dupla deficiência dos pais — a primeira deficiência impropriamente dita, resultante do avanço cultural e suas imposições; a segunda, deficiência propriamente dita, resultante da incompetência dos pais. A primeira não é um mal — é o progresso; a segunda é um dos maiores males — a inaptidão dos pais para desempenhar o seu sublime papel. A primeira não pode nem é preciso evitar-se. A segunda pode e deve evitar-se. 120
Outro motivo que pode arrancar a criança ao lar são as deficiências da organização económica. É a mãe que é forçada a trabalhar fora do lar, porque o pai não tem o salário suficiente: Tem de entregar os filhos a uma entidade competente que supra a sua falta durante o dia de trabalho. São os filhos que antes de completa a instrução e educação indispensáveis para a vida, se vêem forçados a lançar-se nela para ganhar o sustento. É o problema da assistência à criança que deverá ser solucionado à luz dos seguintes princípios: 121
1.º - Procurar que o chefe de família ganhe o suficiente para manter os seus de um modo digno. 122
2.º - Enquanto isso se não conseguir, só tirar a criança do lar o tempo indispensável. 123
3.º - Não internar as crianças de famílias indigentes em asilos, mas protegê-las no lar. 124
4.º - Só no caso de orfandade e de não haver pessoa de família idónea a suprir a falta dos pais, cumpre à assistência tomar conta das crianças. Assim se conclui que o estado que arranca a criança aos pais para a educar nas escolas, comete um abuso grave. Os pais que por comodismo entregam a educação dos filhos à escola, faltam a um dever grave. A assistência oficial ou particular que não protege a criança na família, mas lha arranca e a interna em asilos, comete erro grave. Só na medida requerida pelas circunstâncias — incompetência, pobreza, ou falta dos pais ou de pessoa idónea que os supra — é que será legítimo transferir totalmente a educação do lar para a escola. 125
E os seminários? Os seminários são também requeridos pela deficiência dos pais, que sem dúvida não estão aptos a preparar os filhos chamados ao sacerdócio ou à vida religiosa, e que, portanto, delegam a sua missão de educar no Prelado ou no superior da congregação — ficando, porém, com o dever de colaborar na medida permitida pelos regulamentos. E se os pais o não fizessem de boa vontade, a Igreja tinha o direito, e em certos casos o dever, de reivindicar para si a preparação dessas almas eleitas. O Criador, que entregou os filhos, aos cuidados dos pais, tem o direito de os escolher de um modo especial para Si, e os pais têm o dever grave de Lhos restituírem. Os direitos dos pais sobre os filhos são uma participação dos direitos divinos; por isso, antes dos pais, tem Deus direitos sobre os filhos. 126
  
separadores 
  
E na casa de educação ou de assistência, que organização deve existir? A sua organização deve ser a mais adequada ao fim. Ora, se o fim dessas casas é suprir a falta do lar, segue-se que a sua organização deve assemelhar-se, o mais possível, à da família. Nesse ambiente, como vimos, é que se encontram todos os requisitos para uma boa educação. As grandes comunidades são impróprias para a educação e vida dos homens. Só um pequeno escol poderá atingir a possível plenitude de perfeição em uma grande comunidade. É o caso dos religiosos. E, mesmo nessas comunidades, procura-se dar, o mais possível, um ambiente familiar. É caso frisante a Regra e a vida das abadias beneditinas. 127
Se, porém, certas almas eleitas conseguem viver um espírito de família numa grande comunidade, a maioria precisa de uma organização estritamente familiar para conseguir viver esse espírito — único propício à natureza humana. Aquelas comunidades conseguem de facto ser grandes famílias espirituais, porque se trata de almas de escol. Mas, repito, para as crianças e mesmo para a grande maioria dos homens essa vida em grandes comunidades tem como resultado a atrofia da personalidade, a rotina, o estagnamento, a aniquilação própria. O homem deixa de ser uma pessoa para ser um acidente ou daquela besta desenfreada — a multidão anónima — ou daquele ídolo tirano — o estado totalitário. 128
Casa de educação que não tenha organização e espírito de família, não atinge o seu fim. Sociedade que não é constituída por famílias, não atinge igualmente o seu fim. Destrua-se a família: fica uma multidão amorfa — número indefinido de indivíduos que só olham ao prazer próprio, liberdades sem limites que hão-de ofender necessariamente os direitos dos mais fracos. Impõe-se, então, uma organização para acabar com a anarquia e evitar a consequente ruína do povo. Mas essa multidão só pela força pode ser dominada. E todo o indivíduo — até aqui desenfreado — é agregado, algemado aos organismos do estado totalitário. Até aqui o fim da colectividade era o prazer individual. Agora — como consequência lógica (os extremos chocam-se) — é o estado o fim de todos. Primeiro era a morte da pessoa pela animalidade. Agora é a sua aniquilação pelo estado. 129
É que só a família é ambiente próprio ao desenvolvimento da pessoa humana. A família é a célula vital que renova os espíritos e as sociedades. Desaparecendo a família vem a anarquia ou a tirania. Essas nações falham na sua missão3, deixam de ser o meio de cada um desenvolver a sua personalidade para serem o seu entrave. A família é o organismo básico das sociedades. Poderão, talvez, as nações viver felizes sem outros organismos corporativos (do que duvido), mas sem a família não. A socialização dos organismos de um povo poderá trazer-lhe a felicidade (de que também duvido, excepto em casos particulares), mas a socialização da família não. A absorção das empresas pelo estado poderá, com efeito, para suprir as deficiências da iniciativa particular, trazer benefícios, mas a absorção da família pelo estado é que nunca trará a felicidade. Os organismos corporativos do povo são barreiras de defesa da personalidade mesmo dos mais fracos. Em povos de educação superior poderão, talvez, desaparecer essas barreiras sem detrimento para os direitos de todos; mas sem família é impossível: A família é a última barreira de defesa, mas esta é indispensável porque é reclamada pelo mais intimo da natureza humana. 130
O que se dá com a organização dos povos, dá-se, em certo modo, com a organização das casas de educação. É que uma e outra têm por fim o desenvolvimento da pessoa humana. Uma e outra têm de ter, portanto, na base a família. 131
Argumentar-me-ão, talvez, com o esplendor da Rússia, onde se não respeita a família e onde o estado se arroga o direito da educação das crianças. A Rússia é, de facto, um exemplo de esplendor agrícola, industrial e militar. Mas é nisso que consiste a felicidade do povo? Não: Isso é uma simples condição. A felicidade está na perfeição integral e não apenas na de certos aspectos. E que exemplo de personalidades integralmente desenvolvidas nos dá a Rússia? A Rússia está a falhar na sua finalidade, pois, em vez de fazer servir o seu esplendor material para o desenvolvimento das personalidades de todos e de cada um dos seus filhos, sacrifica-as, invertendo os fins em meios e os meios em fins. 132
Todas as organizações ou ausência de organizações que o homem invente, nenhumas suprirão a família. Família é o organismo básico e modelo de todos os organismos. Os povos são famílias de famílias. O mundo é uma família de povos. Mas é preciso que na base esteja a família propriamente dita a renovar os povos e o mundo. 133
As casas de educação e de assistência são famílias que hão-de suprir a falta da verdadeira família. Impõe-se que a sua organização e o seu espírito se lhe assemelhe o mais possível. Impõe-se banir a sua organização em grandes comunidades — viveiros de rebanhos sem personalidade, estagnamento e rotina dos espíritos — para dar lugar à organização familiar, que vivifica e renova a pessoa humana. 134





1

Havendo um grande respeito pela personalidade de cada um, cada membro da família, estando preso a ela por tantos laços, sente-se livre no seu próprio seio e pode expandir-se plenamente. Só assim a família atinge o seu fim — ser o meio da plena expansão da personalidade de cada um.
O indivíduo é para a família ou vice-versa? O indivíduo, no pensamento tomista, é para a família e a família para a pessoa. Cada um tem de se dar à família na medida necessária para esta poder ser, por sua vez, o meio de cada um realizar a felicidade.

 

Os direitos da família terminam ao começar os de cada um dos seus membros. Os direitos de cada um destes terminam ao começar os de algum dos outros membros. Quando a família abusa dos seus direitos, lançando as suas garras totalitárias, deixa de realizar o seu fim para ser um elemento de opressão. Quando o indivíduo, egoisticamente, desrespeita os direitos da família, fomenta a sua desagregação, a desordem.

2

Para a educação tem de haver organização estritamente familiar. Para a instrução já não é bem assim; mas mesmo aqui se requer contacto familiar entre mestre e aluno — contacto individual que complete o contacto colectivo das aulas. Refiro-me agora ao ensino superior, porque se falar do ensino primário, então neste terá de haver um magistério quase individual e tanto mais individual quanto inferior for a classe e mais criança o educando.

3

O fim das nações é o bem comum.





  
  
  

A — BEIJAR...

 
  
É conviver com a criança, exercer sobre ela uma acção pedagógica aberta, é acariciá-la, compreendê-la integralmente, cativar-lhe a simpatia e intimidade, é ouvir-lhe os desabafos, as confidências, as confissões das suas pequeninas faltas. 135
Os pedagogos poderão descobrir o segredo ideológico de conseguir estas maravilhas, mas, regra geral, só os pais, e sobretudo a mãe, conseguem realizá-las. Os outros poderão possuir a ciência, mas a técnica e a arte de actualizar essas doutrinas só os pais possuem. É a tendência para a arte de educar crianças, que brota do íntimo da natureza pelo simples facto de serem pais. 136
  
  
  

ACÇÃO DIRECTA E ABERTA

 
  
Há quase a certeza de que a acção a distância é uma impossibilidade metafísica. Parece repugnar à inteligência que um ser possa exercer qualquer influência sobre outro sem haver entre eles qualquer espécie de contacto. 137
No Universo toda a separação é relativa. Há pontos de contacto entre todos os seres. Mais do que isso, todos se interinfluênciam quer mediata quer imediatamente. Se uma inteligência humana conseguisse o encadeamento causal completo do Universo, mostrar-nos-la como — do mais pequenino elemento do núcleo atómico ao mais vertiginoso astro cuja luz ainda nos não alcançou, do mais insignificante ser ao mais poderoso anjo, da mais banal imagem ou ente lógico ao mais rico conceito ou concepção doutrinária — tudo influencia sobre o homem. Supomos às vezes viver sós e afinal estamos em comunhão constante e universal com a Natureza e os Espíritos. No mundo não há lugar para a separação: Os seres existem todos unidos, embora distintos. 138
Nesta concepção una do Universo não só é forçosamente impossível a acção a distância como a simples existência a distância. E como poderia, mesmo fora desta concepção, um ser agir sobre outro sem o tocar de algum modo — física ou virtual, mediata ou imediatamente? Os corpos necessitam da união física que, porém, pode ser mediante outros corpos — radiações, ondulações, partículas, etc. Os espíritos necessitam da união virtual: Para um anjo agir sobre o paciente tem de exercer sobre ele o seu poder. A sua natureza não lhes permite actuar simultaneamente em mais de um local. Deus, porém, actua simultânea e constantemente sobre todos os seres com o Seu poder criador que os mantém na existência e na vida. A inteligência humana unida ao corpo comunica os seus pensamentos por meio do organismo — ou fisicamente com sons e gestos ou virtualmente com escrita e artefactos. 139
Pela oração actuamos sobre as mais recônditas e ignotas existências, mas ainda aqui não é a acção a distância. A Comunhão dos Santos sublima e acrescenta mais uma união sobrenatural às múltiplas uniões naturais já existentes entre todos os seres. O Espírito Divino que une o Padre e o Verbo pelo Amor, também une amorosamente todos os seres inteligentes e com eles, de certo modo, todas as restantes criaturas na Trindade Indivisível. 140
Natural, preternatural ou sobrenaturalmente não se conhece acção a distância. Ela repugna em si, e mesmo que não repugnasse não teria lugar1 porque, fora da união universal vincada por tantos laços naturais e até sobrenaturais, não há existência. Se todos os seres estão unidos entre si, como poderia existir acção a distância? 141
Argumentar-me-ão com a telepatia e telestesia, mas qualquer que seja a hipótese explicativa que apresentemos — preternatural ou natural, do subliminal, das vibrações mentais, do fluido magnético, da força astral ou da exteriorização de uma força motora — temos sempre de admitir um meio de comunicação, uma união física ou virtual. Mesmo aqui não tem lugar a acção a distância. 142
Argumentar-me-ão ainda que pode haver outro universo; mas, se ele existe, ou está unido ao nosso, e portanto faz parte dele, ou então não tem com ele relação de espécie alguma, e portanto não há interinfluência. Também aqui não há lugar para a acção a distância. Se entre eles houvesse alguma interinfluência, seria por meio de Deus, em que todos os seres imagináveis e unem numa única Ideia —- o Verbo. 143
  
separadores 
  
Contra a Natureza, os factos, a Ciência, a Técnica e a Arte, vão alguns pedagogos (ou melhor, pseudopedagogos) que pretendem educar as crianças a distância. 144
A acção a distância — impossibilidade física, psicológica e metafísica — tem de o ser também pedagógica, e aqui com um significado mais rigoroso. Enquanto a acção corpórea e espiritual se pode realizar mediatamente com eficácia, a mesma eficácia não pode obter-se geralmente em Pedagogia senão exercendo uma acção imediata. A acção pedagógica, para ser eficiente, requer o contacto directo, individual, quase permanente e sobretudo aberto. 145
É impossível a educação simplesmente por meio de avisos colectivos, afixações, regulamentos, etc.: O educador tem de se comunicar directa e individualmente, tem de se dar a todos e a cada um, e consigo dar toda a sua alma, a sua formação, o seu amor. Ora não se conseguirá comunicar a própria educação apenas por formalismos e intermediários, nem usando de processos colectivos em vez de os adaptar a cada indivíduo. 146
Além de directa e individual, a acção pedagógica tem de ser quase permanente. Esta companhia não há-de, nem por sombras, lembrar um policiamento, mas há-de ser tão natural como é a companhia que os pais fazem aos filhos e os irmãos aos outros irmãos ou amigos. Na intimidade do lar, as crianças não se lembram geralmente de que os pais estejam ali a servir de polícias: A própria natureza revela que a ordem das cousas é essa. Mas em muitas comunidades, as crianças consideram os superiores como esbirros policiais. Porquê? Porque não são paternais, porque o ambiente não é familiar. Portanto a acção pedagógica constante, para ser eficiente e não nociva, tem de ser toda simples, familiar, natural. 147
Esta permanência quase constante requer-se: Primeiro, porque a educação não é feita aos arrancos, mas muito lentamente, quase insensivelmente. 148
Segundo, porque é preciso aproveitar todas as oportunidades para que se atinjam os mais pequeninos pormenores e para que a educação não seja formalística, mas natural. Não é tanto por prelecções esquemáticas que se forma o carácter da criança, mas sobretudo por conversas, exemplos e observações, vindos a propósito de qualquer facto. Era assim que Cristo formava os Apóstolos e discípulos e não consta na História da Pedagogia que existisse jamais maior mestre. 149
Terceiro, porque esta companhia é um estímulo. Mas a educação tende para a libertação da criança. E de facto este estímulo vai tornando-se suprimível à medida que o educando se forma até que esteja apto a encarar a vida sem a companhia física, mas tão somente moral, do educador. Cristo assim o fez também com os Apóstolos, e é sempre Cristo a ensinar-nos. Nem outra pretensão tem esta obra, senão relembrar a lição do Mestre. 150
Além de directa, individual e constante, a acção pedagógica tem de ser aberta. A verdadeira educação é interior e não apenas exterior. O exterior será a expressão do interior. O pedagogo tem de penetrar no íntimo sem indiscrição: O educando é que voluntariamente se mostrará. Doutro modo não só seria contraproducente como impossível. Por isso impõe-se a educação da franqueza desde os mais tenros anos. Como se corrigirão e orientarão as tendências mais íntimas, se a alma se fecha e não confia? 151
Assim é necessário, primeiro que tudo, que o educador conquiste a simpatia e a confiança para que haja uma grande franqueza entre ambos. Sem isto a sua acção só será prejudicial. Mas o educador tem de se impor à simpatia do educando, não pela excessiva condescendência, mas pela rectidão e pelas maneiras agradáveis. Se quiser conquistar a amizade tornando-se bonacheirão, nem conseguirá tal, nem tão pouco educará; mas cairá no ridículo e até na inimizade de muitos mal contentes e de outros que considerem pouco recto o seu proceder. É tributando um verdadeiro amor que se conseguirá a amizade dos educandos. Assim se poderá exercer uma influência aberta e eficaz. 152
  
  
  

CARINHO

 
  
Toda a Natureza respira carinho e amor. «Desde o princípio, antes que criasse alguma cousa», já o Senhor havia concebido o plano do Universo e havia amado essa concepção. No momento determinado, criou com amor; e deleitou-se com a Sua obra. E através dos tempos acaricia as Suas criaturas. 153
Criadas com ternura, amparadas com ternura, todo o ser tem uma tendência, íntima para acariciar e desejar ser acariciado. Com que meiguice as águas irrigam os campos, as plantas protegem as suas sementes, as avezinhas agasalham os seus filhos! É a Natureza que requer este carinho, porque o Senhor as criou assim. 154
Mas a ternura que observamos nos elementos não é mais do que pálido reflexo da ânsia de ternura da alma humana. As sementes e as avezinhas são acarinhadas: Com maior razão o têm de ser as crianças e os jovens. O educando tem de ser amado para que se sinta melhor do que em qualquer outra parte, na família e na escola. Se não tiver o carinho materno, irá buscar o carinho de outrem, irá buscar os prazeres fora da família, e talvez fora da liceidade. Eis o drama sentimental e sensual de tantos jovens. 155
Festas do lar, atractivos, alegria constante, harmonia absoluta, tudo deve atrair os membros da família de tal modo que, se houver um filho pródigo a fugir, também haja, depois, um filho pródigo a regressar, arrependido e lembrado da alegria e abundância do lar paterno. E isto que se diz do lar, diz-se da escola e de todo o organismo que colabore ou substitua (em caso de necessidade) a família. 156
Mas este carinho e atractivos familiares não devem amolecer os caracteres, mas devem ser temperados pela devida austeridade. O carinho não é (ou não deve ser) um incentivo para a indolência e sensualidade, mas um reconfortante para a luta pela vida e pela virtude, e a recompensa da vitória. Só assim o lar apresentará o máximo de atractivos e alegria, e os seus filhos encontrarão a felicidade. 157
Esta, outra pálida imagem do carinho com que Deus trata os seus filhos dilectos: «Quomodo si cui mater blandiatur, ita Ego consolabor vos». (Isaías, 66, 13). 158
  
  
  

COMPREENDER

 
  
Todo o ser é verdadeiro. Nenhuma das essências existentes no tempo deixou jamais de ser precisamente a mesma coisa que era na Eternidade. A existência não ousou modificar, no mínimo pormenor, as essências a que deu actualidade com os acidentes (que as tornam perceptíveis). Como na Eternidade as essências que fulguram no Verbo são a perfeita expressão da Inteligência divina, assim no tempo as criaturas são a perfeita realização — dessas essências. Quer dizer: todo o ser corresponde ao pensamento de Deus — é verdadeiro ontologicamente. 159
Se todo o ser é verdadeiro ontologicamente, é cognoscível e é conhecido totalmente pelo menos pela Inteligência criadora. Na cognoscibilidade dos seres há um mistério inefável — o mistério da Inteligência e Poder divinos. Por isso a inteligência humana — limitada — só limitadamente pode conhecer as criaturas. Eis o campo infinito dos investigadores; mas, porque é infinito, por mais que avancem, o desconhecido há-de ser sempre infinitamente maior do que o conhecido. O campo conhecido pode aumentar fenomenalmente, mas o desconhecido permanece sempre infinito. E o que se diz tanto se aplica ao mais esplendoroso sistema astronómico como ao elemento atómico que nos pareça mais insignificante (ilusoriamente, está claro, porque tão infinito é o infinitamente pequeno como o infinitamente grande). 160
A verdade lógica a que chegue o maior sábio é sempre infinitamente mais pobre do que a verdade ontológica. Verdade lógica tão rica como a ontológica só o Verbo atinge, porque é Ele próprio. A limitação da nossa inteligência — o primeiro obstáculo à mútua compreensão das criaturas. 161
O segundo obstáculo é o limite de perfeição das comunicações de pensamentos, imagens e sensações. 162
Os pensamentos comunicam-se por termos que provocam no próximo as disposições mentais que originam as mesmas ideias. 163
As imagens comunicam-se por descrição que provoque as mesmas na imaginação do próximo. É mais difícil a comunicação de imagens do que de ideias, porque estas são mais simples do que aquelas. Quanto mais universal mais fácil é a comunicação2; (I) quanto mais complexo mais difícil. Assim, à medida que se desce do universal para o concreto, a dificuldade aumenta. 164
O auge da dificuldade está nas sensações, porque estas são património exclusivo de cada indivíduo. A sensação também se comunica por descrição que provoque outra semelhante no próximo. Enquanto a ideia — universal abstracto (universal propriamente dito) — é idêntica em toda a inteligência (embora mais ou menos clara ou obscura, mais ou menos distinta ou confusa); enquanto a imagem — universal colectivo (universal impropriamente dito) — pode ser quase idêntica em cada imaginação; a sensação difere de indivíduo para indivíduo: Só por analogia com as nossas, se conhecem as sensações do próximo. 165
Para bem compreender as ideias do próximo não basta ouvir passivamente as suas palavras: É preciso possuir cultura proporcional e acompanhá-lo com dinamismo para pensar o mesmo que ele pensa. Só depois desta compreensão e do estudo, poderemos emitir juízos a favor ou contra. Porque de uma parte não houve explicitação suficiente e habilidade em escolher o momento oportuno em que o ouvinte estivesse nas disposições somáticas e psíquicas necessárias para os acompanhar nos pensamentos; e porque da outra parte não, houve a devida diligência em compreender e meditar ou se encontrou cultura desproporcionadamente inferior — tantas e tantas incompreensões se dão. 166
Para bem intuir as imagens do próximo é preciso que a descrição seja nítida, colorida, viva, e igualmente se requer atenção e cultura proporcionada do ouvinte. Se a imagem descrita é de igual conhecimento de ambos, mas está esquecida por um, a simples recordação pode provocar imagens quase idênticas nos dois. Mas, se só um a conhece, apenas pode provocar outra imagem, mais ou menos semelhante. 167
Para bem sentir as sensações alheias é preciso comungar intimamente com o próximo, é preciso amar, sofrer. Nada como o amor e a dor une as almas, e assim as torna semelhantes e mutuamente conhecidas. 168
O terceiro obstáculo à mútua compreensão das criaturas são a diferença temporal, alguns temperamentos, a incultura, a vontade, a cobardia e o orgulho, e a falta de verdade moral. 169
A diferença temporal — cada indivíduo vive no seu tempo biológico (individual, incomunicável), o que dificulta a compreensão tanto mais quanto maior for essa diferença. É preciso que o pedagogo se adapte ao tempo do educando, o procure compreender e o respeite. Por isso se aconselha a maternidade em tenra idade (embora por outros motivos o mesmo se não aconselhe). 170
Alguns temperamentos — que tornam o indivíduo ainda mais impenetrável do que já o é pelo simples facto de ser indivíduo. 171
A incultura — que é evidente muito contribuir para a incompreensão. 172
A vontade — que algumas vezes se opõe a deixar conhecer-se, o que é legítimo, embora possa ser prejudicial à educação. 173
A cobardia — que leva a temer a luz da verdade, que lhes mostraria as desordens da sua própria vida. E o orgulho — que leva a nunca torcer o braço, embora se veja a razão alheia. 174
E, finalmente, a mentira e a hipocrisia. Os elementos mostram perfeitamente o pensamento de Deus a seu respeito, são verdadeiros ontologicamente; mas o homem muitas vezes finge o que não é e o que não pensa. 175
  
separadores 
  
Se muitos pretendem não dar-se a conhecer, todos são naturalmente levados a desejar ser compreendidos. Parecerá ilógico, mas é a realidade. Não nego, porém, o caso daquelas almas que orgulhosamente se deleitam na incompreensão e das que heroicamente querem sofrer por amor de Cristo. 176
E eis-nos no problema pedagógico. O educando quer ser compreendido, e deve-o ser, e tem de o ser para a sua formação chegar a bom termo. Criminoso o pseudopedagogo que não emprega toda a inteligência, habilidade e força para que essa compreensão seja um facto. Para compreender o educando é preciso, estudá-lo, amá-lo, sofrer e sentir com ele. 177
Mas, ainda que o educando se feche voluntariamente, é preciso, mais do que nunca, compreendê-lo sem jamais pretender indiscretamante penetrar no íntimo — crime revoltante contra a personalidade. 178
Aos temperamentos fechados é preciso procurar abrir um pouco para se tornarem mais sociáveis, assim como aos demasiado abertos é necessário moderar para serem mais prudentes sem prejuízo da franqueza e sobretudo da intimidade com o pedagogo. 179
Aos cobardes e orgulhosos, mentirosos e hipócritas, é preciso corrigir implacavelmente. 180
Em todos os casos, mesmo ao corrigir3, e sobretudo ao corrigir, é preciso compreender o educando. O contrário torna-o fechado, desconfiado, revoltado, e assim é impossível a educação. Para educar é preciso compreender e sentir com as almas: Só assim as poderemos orientar. As almas têm sede de quem as compreenda verdadeiramente. Ver rir ou ver zangado o educador por causa de alguma das suas sinceras expansões — é uma das cousas que mais magoa o coração juvenil. Rir ou invectivar de «lorpa» uma criança que fez alguma pergunta ingénua — é imperdoável. Tornamo-la mais acanhada, retraída, e a sua formação, até intelectual, sofre muito. E depois, se as almas se não expandem, como as poderemos orientar? 181
Compreender o educando, ensiná-lo e habituá-lo a compreender o próximo, é contribuir para a compreensão dos homens e para a sua felicidade. A incompreensão é o drama mais ou menos doloroso de todas as almas. 182
  
  
  

CATIVAR A INTIMIDADE

 
  
Dois grandes mundos apaixonam os homens — o exterior e o interior. Um e outro são campos imensos de investigação, porque tanto por um como por outro se chega ao Infinito. 183
Entre os extrospectivos há os que procuram estudar sempre mais e mais a realidade exterior, e assim mitigam a sua extrospecção com aquela necessária introspecção requerida pelo estudo. E há os que vivem leviana, frenética e insaciavelmente das aparências da realidade exterior, sem sonharem sequer em a conhecer mais profundamente, como se a vida fosse a passagem contínua duma fita cinematográfica. 184
Entre os introspectivos há os que, indo buscar os elementos necessários ao exterior, investigam e estudam profundamente as riquezas da interioridade humana. E há os que vivem quase exclusivamente do interior, num remoer constante, doentio e estéril de imagens e sensações. 185
Para todos estes há maior ou menor necessidade de alguém com quem possam confidenciar. Precisam os introspectivos e extrospectivos mitigados para expandirem os seus pensamentos e sensações deslumbrantes; e precisam sobretudo os introspectivos puros para desabafarem as suas mágoas inexplicáveis e saírem um pouco de si mesmos, e os extrospectivos puros para reconsiderarem e entrarem em si. 186
Quantos talentos floresceriam se tivessem com quem se abrir e quem lhes descobrisse as virtualidades! Quantos inventos se realizariam se os intelectuais tivessem quem os compreendesse e ajudasse! E quantas desgraças se evitariam se se levassem os levianos a reflectir, e se se consolassem e auxiliassem os melancólicos! 187
Eis o papel da mãe, do pedagogo, do amigo e da esposa, que se tornarão víboras se o não desempenharem o melhor que, de facto, lhes seja possível. 188
Para isto é preciso ganhar tal simpatia que o educando, voluntariamente e sem repugnância, abra a sua alma em confidências sobre os seus problemas vitais e até intelectuais. Sobretudo na puberdade, o educando tem necessidade psíquica e moral de confidências. Estas, que podem ser do maior perigo se forem com um inexperiente ou pseudo-amigo, são grandemente salutares se o confidente for o pedagogo, um verdadeiro amigo (daqueles que diz a Escritura ser o maior tesouro) e sobretudo se for a mãe ou depois a esposa. Para isso impõe-se uma união íntima entre educador e educando, e não é em grandes comunidades que se consegue, nem quando os superiores vivem num mundo à parte. O educador tem de ser todo dos educandos: Doutro modo haverá pseudo-educação, deseducação — jamais educação. 189
  
  
  

CONFISSÃO DAS FALTAS

 
  
Intimamente ligado ao assunto do capítulo anterior, parece-me sumamente pedagógico habituar a criança, desde que começa a falar, a confessar as suas faltas à mãe, a aconselhar-se com ela na maior intimidade possível e a impor-se uma penitência de reparação e medicinal. 190
Deste modo não só a criança se irá educando muito mais perfeitamente, como, quando chegar a puberdade, não terá repugnância de contar à mãe os seus novos problemas, e poderá assim evitar a queda fatal na mocidade desorientada. Deste modo entrará o adolescente na juventude, ileso, puro, vitorioso, para abraçar a donzela ou a vocação que lhe estiver destinada. 191
Mas é preciso que a criança, e depois o adolescente, o faça o mais espontâneo e livremente possível, embora se provoque com prudência. Em caso de resistência é preciso respeitar; e é preciso ter bem presente que ninguém está obrigado a acusar-se mesmo das faltas externas (a não ser a Deus por meio do legítimo representante). Quem castiga é que tem de estar de posse das provas do delito. É preciso acima de tudo ser justo — nunca abusar da ingenuidade ou fraqueza da criança. É preciso que ela saiba até onde chega o seu dever, e que o resto é conveniente, mas não obrigatório. A criança deverá ser habituada com brandura a confessar as suas culpas; mas, à medida que a razão se lhe desenvolve, será sempre livre em perseverar ou não. 192
A conveniência desta intimidade entre a mãe e o filho é evidente: Seria supérflua mais qualquer explicação. À mãe, a pedagoga por excelência, cumpre usar de toda a sua ciência e técnica para conseguir, por mais este meio, levar a bom termo a sua obra de arte — a formação do homem integral. 193





1

Nesta concepção do Universo a acção a distância só poderia ter lugar se um ser não actuasse sobre os seres que estão imediatamente unidos e fosse actuar nos seres apenas mediatamente unidos sem se servir de qualquer meio. Mas também este caso nem foi jamais verificado nem parece possível.

2

Nós conhecemos a forma que especifica, mas desconhecemos a matéria que individua.

3

Esta compreensão tem de ser integral. Quantos defeitos, por exemplo, são devidos a causas somáticas, invencíveis pela vontade talvez; e pretendem corrigi-los por meios pedagógicos, quando afinal são casos médicos. Para evitar estes crimes é preciso que o médico colabore sempre com o educador.





  
  
  

B — ...E DISCIPLINAR

 
  
É castigar as desordens da natureza, submeter e orientar; é afastar todos os obstáculos e conduzir para os altos cumes; é ordenar, aperfeiçoar. 194
Só os pais sabem disciplinar sem barbaridade, rancor ou desvairamento. Só eles, e sobretudo a mãe, sabem disciplinar com verdadeiros frutos expiatórios e medicinais. 195
Só a dor provocada pelas mãos de uma mãe faz chorar as culpas e ascender à perfeição. 196
  
  
  

a — CRIME CONDESCENDER

 
  
  
Na constituição geológica, na arquitectura anatómica, no movimento astronómico — admiramos a ordem. Nos fenómenos físicos, nas reacções químicas, nas evoluções biológicas — admiramos a ordem. Na complexidade psicológica (mesmo aqui), nos actos volitivos, nas operações mentais — admiramos a ordem. Nas hierarquias angélicas, nas comunicações íntimas da Trindade, em todo o movimento ad extra sobrenatural — admiramos a ordem. 197
Ordem abrange todos os seres e o próprio Ser. Deus é o Modelo, o Início, o Sustentáculo da ordem — é a Ordem trinamente personificada. As leis naturais e reveladas são o verbo que palidamente nos revela a Ordem infinitamente perfeita que é a felicidade das três Pessoas divinas e de todos os que parcialmente A contemplam na eternidade ou A vislumbram na terra. 198
O Criador é a própria Ordem; e, ao criar o mundo, criou-o com ordem. E as Virtudes intervieram na formação do mundo, e agora assistem-no para que a ordem prevaleça até à consumação dos séculos. 199
E os elementos, cega e necessariamente, obedecem à ordem criada. Só ao homem, em congruência com a sua alta dignidade, foi dado obedecer racional e livremente a essa mesma ordem. E a ordem do Senhor a respeito do homem foi esta — que ele estudasse o melhor possível o plano do Criador acerca da humanidade e de si mesmo, e que a essa luz, com a força da vontade, se conformasse com a maior exactidão à ordem preestabelecida. 200
Dentro desta ordem o campo de actividade é vastíssimo e até infinito em muitas direcções. O teólogo, o filósofo, o matemático, o cientista, o artista, o técnico, o político — têm o Infinito para descobrir. O santo, o padre, o missionário, o frade, a religiosa, o educador, a virgem, o cristão têm o Infinito para ganhar e comunicar ao próximo. 201
Mas exactamente porque o campo da legitimidade é infinito, o Senhor não tolera a desordem. A Ordem trinamente personificada deixaria de ser Ordem, o Senhor deixaria de ser o Senhor, e tolerasse a desordem, não a punindo. Os direitos do homem consistem em exigir que todos respeitem essa ordem no que se refere a ele, e os deveres do homem consistem em respeitar essa ordem no que se refere a ele e ao próximo. 202
Direito de desordem — seja no campo intelectual ou no campo moral — é absurdo: o ERRO E O MAL NÃO TÊM DIREITOS. 203
Em Teologia católica chama-se pecado a toda a desobediência a uma ordem formal do Senhor (quer seja ordem expressa positivamente quer naturalmente). Se essa desordem for grave, o pecado chama-se grave; se for leve, chama-se venial. Este o campo da ilegitimidade, e todo o que o invadir será severamente punido. 204
A desobediência ao plano de Deus, não expresso formalmente, chama-se imperfeição. Não é de estrito dever seguir esse plano, mas é aconselhável e prudente, porque é sempre temerário ir contra a ordem preestabelecida, embora não imposta formalmente. Nem é digno da magnanimidade humana qualquer desordem por pequena que pareça. E, de facto, nenhuma desobediência é pequena: Toda a desordem, por minúscula que em si possa ser, origina outra desordem ou outras desordens; e estas, outras; e assim sucessiva e indefinidamente. Percorramos o tempo e o espaço: Aquela insignificante desordem originou as desordens mais extraordinárias, os cataclismos mais atrozes. 205
Na ordem está a perfeição e, portanto, a felicidade. Os educadores que condescendem com os defeitos e as faltas das crianças (e sobretudo com a mentira e a desobediência) são responsáveis pela infelicidade delas na terra e na Eternidade, e, ainda, pela infelicidade que estas provocarão a muitos outros. É preciso que a criança desde o berço seja obrigada a respeitar a ordem criada nos mais pequeninos pormenores. Um insignificante defeito que se tolerou na criança de colo talvez seja amanhã um vício. Mas no uso da razão é preciso que ela respeite a ordem não só por hábito, mas por convicção e com o conhecimento da hierarquia dos valores: É preciso que evite toda a desordem; mas o pecado grave como pecado grave e acima de tudo, o venial como venial e sem condescendências, a simples imperfeição como simples imperfeição. Procurar que ela não cometa uma desordem venial dizendo-lhe ser grave, é outra desordem, e desordem hedionda, estúpida: Não é com a desordem que se alcançará a ordem. 206
Se é preciso evitar toda a desordem em certos casos pode ser pedagógico condescender com certas imperfeições para que o educando condescenda connosco no principal. Mas isto são casos que só com todos os dados se podem resolver. O educando não deve conformar-se à ordem por condescendência, mas por convicção. Por isso, em princípio, guerra implacável à desordem1. 207





1

Incondescendência com a desordem não é incompatível com perdão, pelo contrário, subentende-o: O perdão que o juiz concede aos contritos comutando-lhes a pena e o perdão que todos devemos conceder nos corações ao nosso próximo — o perdão também é parte importante na ordem moral e nos métodos pedagógicos. A própria incondescendência com a desordem é que nos leva a perdoar como juízes (se somos educadores) tantas vezes quantas a sã pedagogia indicar e a perdoar como irmãos (do íntimo da alma) «setenta vezes sete» (S. Mateus, XVIII, 22). Esta é a verdadeira ordem — a ordem integral — com a qual não transigiremos.





  
  

b — TÉCNICA

 
  
  
Domínio próprio —  Só repreender ou castigar quando208
        se estiver com o perfeito domínio de nervos. 
  
  
Muitas vezes, a falta das crianças provoca no educador certo enervamento. Antes de repreender ou castigar é preciso que recobre o equilíbrio para a razão poder sentenciar livremente e para a criança poder compreender a justiça e se não revoltar por ver que é vítima da cólera. 209
Esta conclusão a que se chegou pela experiência, também se pode chegar por dedução. Não é pela desordem que se restabelece a ordem. O educador com as faculdades em desordem não pode pretender restabelecer a ordem desrespeitada pelo educando, mas só poderá agravar a desordem. 210
  
  
Proporção objectiva e subjectivaAdequar as repreen- 211
             sões  e  castigos  não  só à gravidade da falta  
             considerada objectiva como subjectivamente.  
  
  
A mesma falta varia muito de gravidade, subjectivamente considerada, pois depende das circunstâncias, do temperamento, da formação, do conhecimento e do consentimento. Não se olhando a tudo isto, o castigo será injusto e funesto. Assim a justiça, embora não pareça, pede porexemplo que a mesma falta seja diversamente punida quando praticada por um temperamento reflectido e por um irreflectido, etc. A irreflecção, os nervos, etc., desculpam até certo ponto. 212
Isto tornar-se-á claro se nós reflectirmos em que o castigo não tem apenas por função reparar a ordem universal, mas também restabelecer a ordem no próprio indivíduo. Ora, se para reparar a ordem universal é preciso considerar a falta em absoluto, para restabelecer a ordem no delinquente é preciso considerar a sua culpa. 213
Portanto, para castigar com justiça e eficiência medicinal, é preciso olhar à objectividade do delito (para dar à criança a consciência da responsabilidade social), mas de um modo muito particular à culpa (para lhe dar uma verdadeira consciência moral). 214
Para evitar revoltas provocadas pelo facto do mesmo acto ser punido diversamente, é preciso elucidar o educando sobre a responsabilidade social e moral. 215
E afinal, se reflectirmos nos critérios do Direito e da Ética, veremos a necessidade das minhas afirmações. 216
  
  
Função negativa e positivaNas repreensões e cas- 217
tigos,  não  esquecer, além  da sua  função  peda-  
gógica  negativa,  a   função  pedagógica  positiva,  
não menos importante e indispensável.  
  
  
Na repreensão e castigo deve haver duas partes: A primeira é a repreensão propriamente dita, a parte negativa, aquela em que se invectiva asperamente e se castiga o sujeito da falta cometida. A reacção psicológica é forte — pode haver mesmo certa revolta interior e certo movimento de resistência. E bom é que haja reacção: Se uma repreensão deixa indiferente o educando, mal estamos com este ou com o educador. 218
A segunda é a parte construtiva, positiva. Reduzido o educando a certo abatimento ou possuído de certa revolta, é preciso levantá-lo ou trazê-lo a si, mostrar-lhe a falta, a justiça e bondade do castigo, levá-lo a propósitos de emenda. 219
Repreendam e castiguem os educadores: De que vale se esquecem esta segunda parte, a essencial, a que há-de fazer dos faltosos, homens? Não educam, mas criam um ambiente de revolta, insuportável e talvez irreparável. 220
A repreensão e o castigo não têm só um fim expiatório e reparador, mas também medicinal. A educação não é só para punir as desordens, mas sobretudo para orientar os homens para a perfeição e felicidade — que se encontram na Ordem. 221
  
  
Repreensão particularPreferir repreender e castigar 222
em  particular  a  publicamente, pois estas últimas  
revoltam muito e corrigem pouco.  
  
  
A repreensão singular em público requer-se em caso de escândalo público. Tal repreensão não deve todavia excluir uma repreensão particular, adequada ao modo de ser do delinquente, e que lhe não deixe a mínima revolta ou má impressão, mas o converta. 223
A repreensão colectiva pode ser necessária, mas tem o inconveniente de não poder ser adequada a cada indivíduo, e por isso deve também ser acompanhada da repreensão particular nas condições já indicadas. 224
  
  
Repreensão aos nervososÀs crianças nervosas nunca 225
repreender   ou   castigar  nos  acessos  de  irritação,  
mas  esperar  que  regresse   o   equilíbrio   habitual.  
  
  
Se é necessário não perder a oportunidade da intervenção para que esta seja eficaz e perdure nos seus efeitos medicinais, mas não na depressão moral (provocada pela parte negativa do castigo), também é necessário que se espere pela calma do delinquente para que ele possa reagir como convém ao castigo e, depois, compreendê-lo. 226
Mas esperar a oportunidade não é adiar indefinida ou definitivamente. Os nervosos, mais do que ninguém, precisam de uma educação muito esmerada. Se, condescender com os outros é crime hediondo, não sei como classificar a atitude dos pais que tudo desculpam por o menino ter «nervinhos». Pois, exactamente, por ter «nervinhos» é que é preciso cuidar-lhe da saúde e da educação, é preciso que a vontade supra as deficiências orgânicas. Proceder doutro modo é preparar a infelicidade do educando e das pessoas com quem se relacione. O nervoso tem uma propensão acentuada para a infelicidade pelo menos imaginária (provocada pelo seu subjectivismo): Ora só a educação poderá minorar essa infelicidade ou até torná-lo feliz. 227
  
  

c — CASTIGO CORPORAL

 
  
  
São três os principais fundamentos do castigo corporal. 228
Por eles se podem concluir os vários casos em que se deve aplicar. 229
O primeiro é metafísico: O homem é um composto de matéria e espírito, e onde há composição tem de haver ordem. Portanto, não basta disciplinar as faculdades superiores, mas é preciso submeter as inferiores quando pretendem ocupar o lugar daquelas. 230
O segundo fundamento é o psicológico: Há educandos excessivamente exteriorizados e levianos ou demasiado orgulhosos que se não deixam sensibilizar por advertências. Para suprir a falta de reacção psíquica superior ou para reduzir o orgulho, impõe-se provocar uma maior ou menor dor física. Também a falta de compreensão das advertências devida ao ainda pequeno desenvolvimento mental, pode exigir que se usem de castigos corporais que façam compreender o que não seria compreendido por palavras. 231
O terceiro fundamento é o moral: O castigo corporal impõe-se como prevenção de desordens futuras, expiação de desordens passadas e remédio que cure e evite novas desordens. Portanto, em caso de desobediência formal, mentira, falta grave sem arrependimento e propósito de emenda e para extirpar qualquer mau costume, devem geralmente aplicar-se castigos corporais adequados. 232
Vejamos agora, muito rapidamente, algumas noções práticas: 233
1.° - Só se devem usar castigos corporais quando outros meios não sejam eficientes. 234
2.° - Só se devem aplicar pouco mais ou menos até aos onze anos. Depois não se devem usar, porque o educando já deve ter atingido uma relativa autonomia proveniente do crescimento e da educação. O castigo corporal ofenderia excessivamente a personalidade e seria funesto (excepto em certos casos). 235
Mas este limite de idade é muito relativo, pois é um erro imperdoável medir a vida pelo tempo físico: Só o tempo biológico nos elucidará sobre o assunto. Argumentar em Pedagogia com anos astronómicos é um crime: A idade biológica é que nos dá o desenvolvimento orgânico, e não as translações que a Terra descreve. Sobre a idade nada mais digo, pois este estudo (como todos os outros em Pedagogia) tem de ser feito individualmente. 236
3.º - Sobre o temperamento apenas direi que os irreflectidos precisam mais do que os reflectidos. Para estes últimos até podem ser nocivos, pois havendo outros meios eficazes não se deve recorrer ao castigo corporal. E sobre o desenvolvimento intelectual também apenas direi que quanto menor for esse desenvolvimento mais poderá ser necessário para mostrar com factos o que não perceberia com argumentos. 237
4.º - Quanto à aplicação propriamente dita do castigo: deve ser em lugar isolado (excepto se houver conveniência em fazê-lo diante de outros para exemplo, e em casos de necessidade de reparação pública); em parte do corpo sensível, mas não prejudicial ao organismo; e com instrumento que provoque dor, mas não fira. Puxar pelos cabelos, dar beliscões, bater na cabeça, costas, etc., é um crime. Bofetadas só são admissíveis quando se pretende abater o orgulho ou magoar psíquica e não fisicamente. Quando se pretende provocar dor corporal, a própria criança se deve desnudar por si e ir buscar a disciplina ou a palmatória. Isto robustece a vontade e torna o castigo mais eficaz. Ao pedagogo cumpre estudar rigorosamente a intensidade da dor que é necessário provocar — o que depende da idade da culpa, das disposições interiores da saúde, etc. Ultrapassar é um crime como é crime não a atingir, pois seria sujeitar a criança a uma prova dolorosa sem se tirar dela os devidos frutos. 238
Castiga-se muito e sem eficácia por deficiência da parte do pedagogo: Falta de justiça, falta da parte positiva [de que falámos]1 e falta da técnica adequada. Bate-se excessivamente, mas sem frutos. A criança habituou-se à pancada e aos ralhos e já não faz caso (embora sofra), porque isso já faz parte da sua vida. Ora, uma só chibatada, aplicada com a devida técnica, seria o suficiente para a emendar e mais frutuosa, portanto, do que mil tareias aplicadas sem a devida técnica2. Uma repreensão séria, calma, num quarto e a sós, é mais eficiente que mil ralhos que já entraram nos hábitos da sua vida. Ora, a repreensão e o castigo não devem entrar na rotina da vida — devem ser actos indispensáveis sim, mas raros, que fiquem bem vincados na vida do educando. 239
Para que tais frutos se colham é necessário ainda, não só este rigoroso estudo moral e psicológico para que haja justiça e essa inteligência na aplicação, mas um grande amor. Em pedagogia a justiça não basta: O amor é indispensável. Por isso a família é a primeira escola e o modelo de todas as escolas. Por isso, só os castigos dos pais, e sobretudo da mãe, são eficazes. Só a mãe sabe disciplinar, porque só a mãe sabe beijar. 240
  
  

d — DUAS PARTICULARIDADES

 
  
  
InfantilidadesNunca castigar uma criança por  infan- 241
tilidades próprias da idade ou descuidos inculpáveis.  
  
  
Isto não significa que se deixem as faltas por castigar: O que se pretende é que o castigo seja medicinal e não prejudicial. Ora, castigar uma criança por brincadeiras próprias da sua idade ou por certos descuidos, também próprios da sua idade, inculpáveis e sem consequências sociais — é contraprudecente é tolhê-la. 242
  
  
AcusadoresCastigar mais, ou até exclusivamente, a 243
criança  que  faz  queixa  indevidamente  de  outra  
do que esta que cometeu o delito.  
  
  
É necessário que a criança saiba conciliar os deveres de camaradagem particular e colectiva. Esconder os defeitos alheios e procurar corrigi-los sem os dar a conhecer — é obrigação de camaradagem. Mas se os defeitos alheios põem gravemente em perigo a colectividade, nesse caso é obrigação grave descobrir tal perigo ao superior — e esta obrigação também é de camaradagem, pois reverte em benefício dos seus companheiros. 244
Que diremos, porém, daqueles que, a torto e a direito, acusam os colegas? É vício que começa geralmente na escola primária e depois continua com toda a sua fealdade e o seu ridículo. A esses acusadores devemos castigar severamente para sua emenda e para exemplo. E, quanto às informações involuntariamente ouvidas, devemos usar para uma mais perfeita educação do acusado, mas sem que se perceba que demos qualquer atenção às acusações indesejáveis. 245
Logo de pequeninos, habituá-los a uma grande camaradagem e dar-lhes a sua verdadeira noção. 246
  
  

e — ESPERAR...

 
  
  
Ouvi algures: O tempo destrói tudo que não ajudou a fazer. O tempo resolve todas as dificuldades. 247
Nós não somos escravos do tempo: Ele é que é nosso escravo. Mas o tempo é um condicionalismo indispensável para a existência e para a vida que nos foram dadas - é de facto a quarta dimensão. Este mais um aspecto da ordem universal. 248
Deus ab aeterno idealizou, amou e ansiou pela Criação que lhe desse glória ad extra. Mas só em determinado momento exerceu o Seu poder criador. Cristo anseia pela Crucificação, mas só aos trinta e três anos se entrega. Os astros obedecem ao tempo físico, que lhes mede a existência e o movimento. Os orgânicos obedecem ao tempo biológico. O mundo microfísico obedece ao tempo atómico de que os cientistas ainda nos não deram a noção. 249
Estamos no mundo das três dimensões espaciais e das dimensões temporais. Estas duas espécies de dimensão condicionam todo o ser físico qualquer que seja o seu grau de imaterialidade. A perfeição consiste na integral adequação dos indivíduos com a ordem do Universo. E quase estou em afirmar que a mais difícil de todas as virtudes é a da conformidade com a ordem cronométrica - a pontualidade biológica. Se bem apreciarmos o panorama da nossa sociedade, constataremos esta flagrante desordem. Por exemplo, a impureza que é senão a consequência de se não saber esperar? E as incompetências que ocupam tantos cargos, não se devem muitas vezes a essa antecipação indevida? Saber esperar é o que há de mais difícil, porque esperar é o que há de mais doloroso sobretudo para certos temperamentos introspectivos ou impacientes. 250
Ao pedagogo cumpre, primeiro que tudo, compreender. Depois, proporcionar compensações que façam esquecer ou minorar o terror de esperar. Consoante as inclinações, assim se pode encontrar compensação na Literatura, na Arte, na Ciência, na Técnica, no turismo, nos desportos, na Religião, etc. 251
Quando a ansiedade é tal que não tolere compensações é preciso distinguir: Se o educando pretende alguma cousa que seja legítima, embora não seja a conveniente, é preciso condescender. O contrário seria crime contra a liberdade pessoal. Se o educando pretende ultrapassar o campo da legitimidade, é preciso não condescender. O ilegítimo não tem direitos; e Deus concede sempre as graças suficientes para se evitar o pecado. 252
Mas qual o critério para se conhecer a ordem cronométrica no educando? É evidente que não se pode querer submeter um ser vivo, e muito menos um ser humano, ao tempo físico que condiciona os anorgânicos. A quarta dimensão do homem é o tempo, não o tempo astronómico, mas o tempo subjectivo. Cada um tem o seu tempo, assim como tem a sua individualidade e o seu carácter: O método pedagógico tem de ser adequado ao tempo subjectivo. Nem se podem medir os anos do educando pelo tempo físico nem pelo tempo biológico de outro: O tempo biológico é individual. 253
Isto que é básico em Pedagogia, porque se relaciona com a difícil virtude de esperar, é quase ignorado e por ninguém praticado. Cada um vive no seu tempo — tempo desconhecido dos outros e incomunicável — e, portanto, é preciso tentar compreendê-lo e respeitá-lo. A orientação pedagógica tem de ser adequada ao tempo em que vive o educando. Quanto maior for a diferença temporal mais difícil se torna a compreensão. Mas esta impõe-se, porque é ao seu tempo biológico e não ao tempo biológico do pedagogo que o educando se tem de conformar. 254
Argumentos e atitudes baseados em comparações ou em idade física, são estúpidos e criminosos. O mais ignorante reconhecerá que o desenvolvimento orgânico não é medido de igual modo das translações da Terra, mas que tem de haver uma medida própria - a que chamamos tempo biológico — e que essa medida não é a mesma para todos, porque o desenvolvimento orgânico não é sincronométrico, mas que o tempo biológico tem de ser subjectivo. 255
Este o difícil, mas único critério para estabelecer a ordem cronométrica na personalidade do educando. 256
Mas se é desordem a antecipação, também é o adiamento. A perfeição não está nesses extremos, mas na pontualidade. Para uns — os frenéticos, impacientes e às vezes temerários — o tormento é o esperar. Para outros — os indolentes e às vezes cobardes — o tormento é a corrida vertiginosa do tempo que os obriga a avançar. E o mesmo indivíduo, muitas vezes, para umas coisas não quer esperar, e para outras jamais quer avançar. Só o pontual, paciente e corajoso está integrado na ordem do Universo. 257
Os dois grandes tormentos são ver o tempo correr mais ou menos do que nós: Se corre mais, temos de recuperar e é impossível... Se corre menos, temos que esperar, porque ele destrói tudo o que não ajudou a fazer — e é aterrador o ter de esperar... 258
Para ser feliz é preciso conformarmo-nos voluntariamente com a ordem cronométrica, como todos os restantes seres se conformam. Só assim se evitará a grande tragédia de ser forçado a esperar... 259





1

II — Princípio Generalíssimos, 3 — Família e Comunismo, B — ... e disciplinar, b — técnica, — Função negativa e positiva, págs. 120 e 121.

2

A criança castigada deve convencer-se de que lhe poderá acontecer o mesmo, e talvez pior, se ousar recair na mesma falta. E, se recair, deve perder toda a vontade em voltar a experimentar. Assim corrigir-se-á com um ou dois castigos fortes. Se, porém, umas vezes o educador o chama à responsabilidade e outras nem se importa, a criança começa a cometer a falta à experiência, a ver se passa, e só a não cometerá quando vir no pedagogo a mesma má disposição que costuma ver quando é castigada. A falta de persistência é fatal, inutiliza os castigos anteriores e até os toma funestos: A criança habitua-se a eles e obseca-se no mal. Uma falta, que seria para sempre corrigida com um ou dois castigos, não será corrigida nunca com centenas de castigos que só se aplicam quando se está mal disposto. Bate-se muito e não se consegue senão deseducar porque se não bate dentro das normas da sã pedagogia.














IV

 
 

ALGUNS PONTOS CAPITAIS

 
 
   
 
  . 
Na exposição dos principais pontos de Pedagogia — que mais me atraíram a atenção na mocidade e entrada na juventude e que constituíram afinal uma penetração constante, embora ao princípio inconsciente, no estudo da repercussão do princípio essencial radicai intrínseco de individuação — tratei primeiro dos três princípios generalíssimos a saber: 260
1.º — Pelo acidental se atinge o essencial. 261
2.° — Os métodos pedagógicos, fixos no essencial, variam na aplicação com os indivíduos e as circunstâncias. 262
3.º — A educação será tanto mais perfeita quanto mais perfeitamente familiar for o ambiente. 263
Coloquei-me sempre numa posição coerente com as conclusões experimentais da vida e com a posição tomista que mantenho à face do problema da radicação intrínseca do indivíduo. Na contemplação oposta (contrária, mas não contraditória) da individuação, isto é, através dos processos dedutivos da Filosofia e indutivos da Pedagogia, fulge cada vez mais a evidência do que expus até aqui. E que, filosoficamente, nós vemos a individuação por um prisma central e, pedagogicamente, vemo-la por um prisma particular — vemo-la ao contrário — e quando uma cousa vista assim por prismas opostos se mostra constante, é porque contemplamos, de facto, a verdade. 264
Coerentes com a nossa atitude e com as nossas vivências, descendo da exposição dos princípios generalíssimos para a exposição de princípios de carácter menos universal, pois já se contêm nos anteriores, e finalmente para a exposição de alguns Aparentes Pormenores, entramos na IV parte — Alguns Pontos Capitais — subdividida em Atenção ao Educador e Acção sobre o Educando, que, por sua vez, multiplamente se subdividem. 265
Seguem- se, portanto, Alguns Pontos Capitais sobre o educador e depois sobre o educando. 266
  
  

1 — ATENÇÃO AO EDUCADOR

 
  
  
Para que a obra resulte perfeita é preciso que os meios sejam adequados ao fim, a causa proporcionada ao efeito, o educador possua o espírito e a técnica próprios da sua missão. Se estas condições se não derem há impossibilidade metafísica e prática de se realizar a obra de educação. Por isso, antes de tratarmos de alguns pontos capitais sobre o educando, trataremos de seis pontos, também capitais, sobre o educador. Observar sem ser observado, imparcial idade, coerência integral, acessibilidade nas explicações, previsão das reacções psicológicas, acompanhar os tempos — eis seis requisitos indispensáveis para haver um verdadeiro pedagogo. Sem eles será impossível a obra de arte por excelência — a educação. 267
  
  

OBSERVAR SEM SER OBSERVADO

 
  
  
A observação é a primeira fase de todo o método experimental. Impõe-se, portanto, e de um modo imprescindível, em Pedagogia. A primeira necessidade do bom educador é ser bom observador. Para ser bom observador é preciso possuir muitas e variadas lentes — a observação vulgar, a científica, a filosófica e a sobrenatural — e dentro de cada uma destas é ainda necessário observar por prismas de número indefinido. Carrel, em o HOMEM ESSE DESCONHECIDO, Porto, Educação Nacional, 1942, págs. 84, faz-nos meditar no aspecto que o mundo nos apresentaria se a retina registasse os raios infravermelhos ou os ultravioletas. E noutro ponto (págs. 122) diz: «Nada é tão simples, tão homogéneo como a água do mar. Mas, se pudéssemos contemplá-la através dum aparelho que a amplificasse cerca de um milhão de vezes, a sua simplicidade desvanecia-se; aparecia como uma população extraordinariamente heterogénea, formada por moléculas de formas e dimensões diferentes, movendo-se com velocidades variadas, num caos inextricável». 268
Isto, se não nos deve levar a um relativismo essencial, deve-nos levar a um relativismo metódico, acidental, a experimentar todas as lentes actuais e possíveis antes de tirar uma conclusão. E quantas vezes havemos de ficar na probabilidade, na dúvida ou apenas na expectativa, renunciando a alcançar a certeza! É que há evidências negáveis só à custa da negação de nós mesmos; mas há um infinito na penumbra e sobretudo na escuridão que só muito lentamente se nos torna clarividente. E quantas desilusões nos custa, às vezes, o avanço para esse infinito! 269
Nada mais irritante e prejudicial do que aquelas afirmações dos superiores ditas em tom convicto, que afinal não têm fundamento e que vitimam o educando. Mesmo quando, o educador não está convicto, mas se deita a adivinhar ou a sondar de modo tão pouco recomendável, é sempre o seu descrédito, a revolta do educando, o cavar do abismo entre os dois — o que torna impossível a educação. 270
A educação tem de ser contínua, integral, e as conclusões não se hão-de tirar logo tão precipitadamente. O método experimental tem de seguir os seus trâmites e não permite lacunas. Nas ciências da matéria, só depois da observação — em que se procuram ver os factos pelo maior número possível das lentes de que falei —, da experimentação — em que se provocam os fenómenos nas condições de laboratório e em que se formulam as hipóteses — e da experiência — em que se verifica a confirmação dessas hipóteses —, só depois de tão aturado trabalho, que pode levar séculos, é que se concluem as leis da Natureza. Sendo assim, como é que em Pedagogia se pode concluir tão levianamente? 271
Não obstante, impõe-se muitas vezes, e até constantemente, ao pedagogo tirar conclusões do que observa. A acção educativa tem de se efectuar e, evidentemente, não pode esperar o progresso da ciência. Mas, então, seja-se prudente nas conclusões dos casos particulares e não se generalizem levianamente. A Pedagogia não só esbarra com manifestações muito mais profundas de diferenças individuais do que as ciências naturais, mas ainda esbarra com o livre arbítrio que impossibilita a certeza de toda a previsão. E, por isso mesmo, a observação investigadora continua a ter em Pedagogia um papel primordial e insubstituível. 272
Esta necessidade de observar cada indivíduo de per si — eis outro resultado da radicação do indivíduo na matéria. 273
  
separadores 
  
Mas, se é imperioso observar, igualmente imperioso se torna fazê-lo de modo discreto na vida quotidiana. (Não trato agora, está claro, dos trabalhos que o bom pedagogo realizará nos laboratórios psicológicos). Observar sem ser observado de fado é regra para todos e para o educador nem se fala. É ridículo pedantismo fazer ver que nada nos escapa, que tudo observamos. O educador que não observa com simplicidade e sem dar nas vistas, faz com que o educando se retraia, o procure até enganar, e, além disso, dá um mau exemplo. Educador que não sabe: observar sem ser observado estraga a sua obra. Não quero dizer que não diga ou negue que procura observar tudo: quero dizer que observe sem que essa sua observação seja notada, mas seja realizada com simplicidade. Quantas vezes os que se julgam grandes psicólogos, que tudo observam, são mil vezes mais observados do que tudo quanto observam ou pensam observar! É pedantismo imperdoável que é preciso evitar nos educadores e nos jovens que começam a fazer observações psicológicas — o que aliás é não só aconselhável, mas indispensável. O pedagogo ensine-os a observar, precavendo-os contra esse mal1. De resto, é indispensável que todos aprendam a ler no mundo as almas através e para além dos fenómenos. 274
  
  

IMPARCIALIDADE

 
  
  
Eis outra virtude indispensável ao educador. Mas trata-se de uma imparcialidade bem interpretada — fruto da equidade e não do capricho dos educandos. Não devem, portanto, admitir-se inveja ou ciúme, embora em certo modo fundados, e muito menos infundados. 275
O pedagogo deve ser inteiramente imparcial no modo de proceder. É muito conveniente até que os educandos não percebam as suas preferências, que aliás é legítimo ter e impossível não ter. 276
Todavia, deve criar um tal ambiente que seja livre em conceder mercês a este e não àquele sem isso ser levado a mal e sem magoar ninguém. Nunca se admita perrice a uma criança por ter sido dado um brinquedo a outra e não a ela, nem tão pouco, por esse facto, se lhe prometa também um brinquedo. Há um certo número de cousas que a justiça e um mínimo de caridade obrigam a dar a todos. Outras cousas, porém, são livres, e ninguém tem o direito de se magoar por não ter sido contemplado, nem tal denota, por si, menos estima ou amor. «Ou não me é lícito fazer (dos meus bens) o que quero? Porventura o teu olho é mau porque eu sou bom?» (S. Mateus, XX, 15). 277
Isto não vai contra a imparcialidade absoluta, bem interpretada, não vai contra a justiça e caridade, mas é a recta ordem. Um dom gratuito, porque se dá a um, não se está obrigado a dar a todos. O pedagogo deve esforçar-se por que todos compreendam isto teórica (o que é fácil) e praticamente (o que é difícil, mas indispensável). O descuido da educação neste ponto é das mais desastrosas consequências. 278
Se, porém, o educando for realmente vítima de parcialidade, nem então lhe é legítima a inveja ou o ciúme. A única atitude digna é a da resignação cristã, que não impede, no entanto, de empregar todos os meios legítimos para afastar a injustiça de que é vítima. E, ainda mesmo quando tudo nos é impossível fazer em nossa defesa, há um meio que nunca falta — orar por quem nos faz sofrer. 279
Também não vai contra a imparcialidade, mas pelo contrário é a equidade que o exige, adequar os métodos e os castigos a cada um. Uma falta num espírito reflectido pode ser muito mais grave e merecer castigo muito mais severo do que a mesma falta num espírito irreflectido. Foi-se parcial em castigar mais aquele do que este? Não: Foi-se justo, imparcial. 280
  
  

LÓGICA

 
  
  
Lógica ou coerência, propriamente dita, é a harmonia das actividades de um ser inteligente. 281
Lógica diz-nos, primeiro, harmonia. A desordem, ao menos em absoluto, jamais teve lógica. Porém, segundo um certo aspecto, podemos admitir que haja coerência, às vezes, em certas desordens. É o caso de se tolerar, temporariamente, a desordem com um fim moral, pedagógico ou medicinal. Deus tolera o mau uso da liberdade para poder premiar. O educador condescende com pequenas desordens, quando é o único meio de conseguir que o educando condescenda com o principal. O médico amputa certos membros para salvar a vida. Mas ainda aqui não é a desordem em si que tem coerência, mas o tolerar essa desordem, como único meio proporcionado ou mais aconselhável para determinado fim superior. Ainda aqui a coerência está na harmonia dos meios com os fins. Portanto, lógica diz-nos sempre harmonia, ordem, verdade, porque harmonia é uma das suas partes essenciais. 282
Além de harmonia, lógica diz-nos tratar-se de actividades de um ser inteligente. Harmonia, ordem e verdade já nos diziam relação com uma inteligência, mas enquanto estas tanto se dizem de pessoas como de cousas, lógica diz-se propriamente das pessoas e das suas actividades, e só por atribuição é que se diz das cousas. De facto não são, por exemplo, as cousas devidamente arrumadas que têm lógica, mas a arrumação — o acto desse ser inteligente — e o sujeito desse acto é que foram lógicos. Assim, dizemos com propriedade que Deus é a Coerência essencial e trinamente personificada, e que esta pessoa — no seu modo de ser e de agir — é coerente. Mas dizemos, apenas por atribuição, que as cousas — resultados da acção dos seres inteligentes — são coerentes. Efectivamente, a coerência que se reflecte nelas, e que está nelas, portanto, não é delas, mas do agente racional. 283
Pelo que vemos, a verdade ontológica existe em todas as cousas, e a lógica essencial existe propriamente em todo o ser inteligente e por atribuição em todos os outros. Uma essência de um ser inteligente sem lógica repugnaria tanto como qualquer ser sem verdade transcendental. Acidentalmente, porém, a coerência pode ou não existir nos seres, exactamente como a verdade predicamental — lógica ou moral — que frequentemente não existe nos seres inteligentes. Se, portanto, a coerência não existe tão radicada nos seres brutos como a verdade ontológica, porque esta penetra-os transcendental mente e aquela apenas por reflexão, nos seres inteligentes, porém, a coerência e a verdade ontológica confundem-se na essência. A radicação da lógica nos seres inteligentes é tão profunda que, sem lógica essencial (que aqui é o mesmo que verdade ôntica), o ser inteligente destruir-se-ia essencialmente. 284
Daqui vemos como o homem é essencialmente lógico e como é impróprio dele qualquer acto menos lógico. E agora uma série de contradições na realidade acidental das cousas — uma série de ilógicas acidentais. Se o homem é essencialmente lógico, é, porém, muitas vezes ilógico no seu modo acidental de ser e agir. E se é ilógico tão frequentemente no seu próprio feitio e actividade, não deixa quase nunca passar as ilógicas do próximo. E temos de concordar que a incoerência não está em ver as incoerências alheias, mas em não ver as suas, primeira, ou não as evitar. Já Cristo fazia a observação tão psicológica: «Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás para tirar a aresta do olho de teu irmão» (S. Mateus, VII, 5). É uma espécie, de compensação requerida pela lógica essencial: Já que o homem procede sem atender a ela, ao menos que nunca a esqueça ao criticar o próximo. Assim, a lógica, embora de um modo já em certo aspecto ilógico, é vingada na vida dos homens. Nem se concebera que a coerência só tivesse cabimento no mundo essencial e jamais nas suas exteriorizações existenciais e vitais. 285
Essencialmente lógico, o homem, embora na maioria das vezes proceda sem lógica, também muitas vezes é lógico parcial ou mesmo integralmente. A coerência essencial, embora muitas vezes contrariada pelo livre arbítrio, tende sempre a manifestar-se e é tal a sua energia ôntica que sempre se manifesta no homem — consciente ou inconscientemente. De facto, através e para além de tantas incoerências, nós podemos ver sempre uma certa coerência fundamental. E, assim, a verdade é que o homem — consciente ou inconsciente, eficiente ou não eficiente, certa ou erradamente - tende sempre para o bem. É este um aspecto da lógica fundamental — procurar sempre a felicidade. 286
  
separadores 
  
Esta energia essencial de coerência é tão grande que se manifesta nas crianças mais tenras ou nos homens mais rudes — às vezes até mais intensamente do que nos adultos e nos cultos. É que estes possuem a lógica da ciência adquirida (às vezes cheia de abominações) e aqueles a lógica natural (que brota espontaneamente da verdade transcendental). Se a criança nasce com esta magnífica tendência essencial, também nasce com aquela outra tendência acidental de ser ilógica no seu modo de ser e agir e só ser lógica na observação e críticas do próximo. 287
Eis porque é ponto básico para o educador — ser lógico em tudo: maneiras de ser, pensamentos, palavras, acções. Ser incoerente é mau exemplo e ainda desprestígio, desautorização, além de ser revoltante e tirar toda a eficiência à educação. 288
Outro aspecto não menos estúpido da ilógica do educador é o das ordens mal dadas. Muitos mandam cousas ilógicas e, portanto, impraticáveis física ou moralmente. 289
Outros já mandam sem esperar que lhes obedeçam e nem reparam. Ora, devem mandar pouco, mas essas poucas ordens hão-de dar-se de modo a que possam ser executadas e não se há-de desistir, custe o que custar, da sua execução. Dar ordens impraticáveis é revelar estupidez, perder a confiança e o prestígio. Não obrigar ao cumprimento das ordens é habituar à desobediência, desordenar, deseducar — é a ilógica das ilógicas para o pedagogo. 290
Portanto: atenção ao educador — coerência integral. 291
  
  

EXPLICAÇÕES COMPATÍVEIS

 
  
  
Explicar verdadeiramente é dar a conhecer as cousas, e as cousas na medida assimilável pela inteligência do explicando. Se o explicador ultrapassar por excesso essa medida, não se pode dizer, tão verdadeiramente, que explicou, pois foi estabelecer confusão quando devia iluminar. O mesmo se diga da explicação superficial, em que se peca por defeito, pois esta, em vez de iluminar, nega que seja preciso luz, nega que haja o desconhecido, desacredita a verdade. Estes dois extremos levam ao cepticismo, à indiferença ou ao ridículo. 292
Nas explicações nem se deve ser excessivamente profundo nem superficial, mas manter o justo meio adequado à natureza do assunto e à capacidade e disposições da inteligência do explicando. Seria ilógico aprofundar assunto de menos importância e tratar superficialmente outros de maior importância, como seria ilógico aprofundar os assuntos mais ou menos do que a inteligência é capaz quer por causa do seu desenvolvimento quer por causa de disposições de momento. Também não seria lógico escolher assuntos mais importantes para momentos em que a atenção é mais difícil e deixar os menos importantes para ocasiões de melhor disposição. 293
Mas, se não se deve ser excessivamente superficial nem profundo, é bom pender mais um pouco para a profundidade para que se veja quanto maior é o campo desconhecido do que o conhecido. Isto ainda é pedido pelo justo meio, pela lógica e pela verdade — o desconhecido ainda deve ser consciencializado no educando na medida que este o suportar. É que há uma confusão desordenada donde nenhuma luz pode sair e que pelo contrário escurece a pouca claridade que porventura exista. Dessa falámos há pouco para condenar as explicações pecaminosas por excesso. Mas há outra confusão ordenada e aconselhável de que falámos para condenar agora as explicações pecaminosas por defeito e que não pendem até um pouco mais para a profundidade. 294
É que a nossa inteligência não passa directamente da escuridão para a luz nem tal é a missão do explicador. A inteligência vai do obscuro para o claro, e do confuso para o distinto. E o explicador não nos deve levar da escuridão para a luz, mas, simplesmente, para a penumbra para que o explicando, por suas próprias forças, passe desta à luz — e a luz sempre mais clara e distinta. 295
Depois de se atingir esta aparente plenitude da luz — pela profundeza e pedagogia da explicação e pelo esforço compreensivo do explicando — é preciso ainda avançar mais; muito embora à custa de um esforço supremo, é preciso avançar mais, pouco que seja, para o campo ainda desconhecido e ainda incompatível, ao menos proximamente, com a inteligência do explicando. E, então, passa-se novamente do distinto ao confuso e do claro ao obscuro, não recuando, não perdendo o que se adquiriu, mas avançando para a escuridão do que ainda se não pode conquistar. 296
O primeiro avanço — das trevas para a luz — ensoberbece, o segundo — da luz para as trevas — humilha2. Mas, só quando se atinge esta segunda escuridão do desconhecido se atingiu o máximo possível do actual conhecimento. Um momento depois talvez já esse máximo possível seja outro mais elevado, mas no momento actual é esse o máximo possível do conhecimento. Só quando o educador consegue que o educando atinja a cada momento esse máximo possível da luz e da escuridão provisória, é que pode ter a certeza de que a explicação atingiu e não ultrapassou por defeito nem por excesso a medida assimilável pela inteligência do explicando e este deu o máximo do seu esforço para a compreensão. 297
Destes dois máximos possíveis e aconselháveis da luz e da escuridão — que estão no justo meio — provenientes da acção explicativa e da compreensiva é que resulta o conhecimento também máximo possível. Estes máximos possíveis vão, ou devem ir, aumentando, actualizando-se a cada momento. Nisto consiste a economia máxima e o rendimento máximo dos bens intelectuais. 298
É este outro aspecto da coerência que é preciso haver no educador e que consiste na harmonia do modo de explicar com a natureza do assunto e com a capacidade e disposições do explicando. E como segunda parte deste trabalho é preciso levar o explicando ao tal devido esforço compreensivo. Esforço explicativo e compreensivo adequados — dois pontos capitais no avanço coerente na conquista da verdade e da perfeição. Para eles, mais uma vez, atenção ao educador. 299
  
  

PREVER A REACÇÃO

 
  
  
A repercussão eterna do mais insignificante acto ou omissão e a diferença radical de indivíduo para indivíduo obrigam o educador, sob pena dos mais atrozes crimes pedagógicos, a medir o seu procedimento com máximo rigor, embora sem ser percebido e com a maior das naturalidades. 300
Essa medição das palavras, das acções, das omissões, da maneira de ser, tem de ser feita pela psicologia particular de cada educando. Este olhar, aquele sorriso, aqueloutra palavra, em Fulano deixa a mais suave impressão, a Sicrano enche mesmo de alegria, mas a Beltrano já pode provocar qualquer despeito ou mesmo abatimento ou revolta. Às vezes, a omissão do habitual bom acolhimento, sem qualquer motivo que não seja o descuido ou a má disposição de momento, pode deixar numa alma introspectiva a mais indelével mágoa. A mesma repreensão áspera pode ser a conversão de uma alma, e para outra já poderá ser a obstinação incorrigível. Tudo terá de ser medido — medido pela bitola objectiva e medido pelas bitolas sem número do modo de ser de cada educando e das suas disposições de momento. A psicologia de cada um — aliás como todos os restantes aspectos do seu ser — está em constante evolução e em constantes alternativas provocados por mil circunstâncias — internas e externas, conhecidas e sobretudo desconhecidas. Às vezes, uma má digestão mesmo insensível, o afloramento quase imperceptível de recordações à imaginação, a actividade ingente do inconsciente e do subconsciente — tudo modifica o tom afectivo. Além destas cousas ignoradas, quantas emoções, podem carregar ainda mais essas indisposições! 301
Nós todos somos escravos uns dos outros, porque jamais deveremos deixar de ser degraus por onde o próximo suba à felicidade. Mas sobretudo o pedagogo é o servo dos educandos. Nunca poderá proceder ou deixar de proceder sem primeiro estudar a reacção psicológica que vai provocar nos educandos. Obrigação de nós todos — porque todos somos responsáveis pela repercussão eterna dos nossos actos e omissões — é obrigação ainda muito mais rigorosa do educador, cuja missão é conduzir os educandos à felicidade. 302
Prever a reacção o mais cientificamente possível e com a máxima naturalidade — eis o quinto ponto para que desejava chamar a atenção do pedagogo. Prever a reacção psicológica no próximo é, afinal, um imperativo não só da pedagogia, mas até da prudência, da justiça e do amor. Aqui e sempre a adaptação de métodos a cada indivíduo — a luz do princípio radical de individuação. 303
  
  

ACOMPANHAR OS TEMPOS

 
  
  
Há velhos que mantêm a alma sempre renovada e há novos que estagnam e não acompanham os tempos. Para estar à altura de educar os nossos filhos é preciso compreendê-los e respeitá-los e compreender e respeitar o tempo e a civilização em que os novos começam a viver e os velhos ainda vivem. Querê-los sujeitar à mentalidade e aos costumes — excepto no que melindrar a verdade e as virtudes — do tempo em que outrora fomos educados é assassinar a sua personalidade e a civilização da actualidade. 304
É preciso da nossa parte um esforço de adequação ao Progresso e educar os filhos dentro dessa marcha veloz. Temo-nos de resignar com a realidade que felizmente não sofre ou não deve sofrer estagnamentos. Temos de compreender, por exemplo, que os nossos filhos já se não resignarão a viajar em comboios e paquetes — a não ser a título de desporto —, mas que reclamam muito legitimamente os transportes aéreos mais modernos e seguros. E com tudo nós temos de conformar e até de alegrar, desde que as circunstâncias de saúde ou de ordem económica ou prática nos permitam. 305
Mais ainda: Devemos ser os próprios a esforçar-nos por que os nossos filhos acompanhem o seu tempo e contribuam para o Progresso. Só assim se educa verdadeiramente. Qualquer processo pedagógico que não queira acompanhar os tempos é utópico e criminoso. O Progresso avança e a Pedagogia tem de o acompanhar para poder levar a verdade e a virtude a todo o lugar e indivíduo através dos tempos. 306
A necessidade de acompanhar os tempos e até de contribuir para o seu avanço civilizador — eis o sexto e último ponto para que queria chamar a atenção do educador3. 307





1

Padre Florentino Andrade, talvez o único educador que encontrei de procedimento perfeitamente coerente com a sua mentalidade, uma das almas mais verdadeiramente sacerdotais que possuímos, nas suas aulas de civilidade em que nos ensinava a viver na sociedade evitando atritos e aproveitando espiritualmente, precavia-nos contra esta ridícula fraqueza.

2

Até por aqui se vê quanto é defeituosa aquela ciência que não é acompanhada pela humildade. A perfeição da inteligência é impossível sem a perfeição de todos os outros aspectos do homem e sobretudo do seu aspecto moral, porque é condição e auxílio indispensáveis.

3

Se pretendesse ser mais completo, entre outros assuntos a focar, haveria o da unidade e o da lealdade. Primeiro: entre os superiores de uma casa de educação e entre os pais, sem prejuízo da personalidade de cada um, tem de reinar uma perfeita harmonia, que se não limitará aos métodos pedagógicos e à sua aplicação, mas a toda a vida, pois a menor desarmonia é o desprestígio perante os educandos e sem prestígio não há educação.

 

Segundo: o educador tem de ser sempre leal com o educando. Mentir-lhe, faltar-lhe à palavra, traí-lo nas suas confidências - são abominações em todo o homem, quanto mais num educador! Qualquer uma de tais faltas poderá inutilizar irremediavelmente todo o esforço educativo.





  
  

2 — ACÇÃO SOBRE O EDUCANDO

 
  
  
Depois de falar sobre o educador, cumpre-nos agora focar alguns pontos capitais sobre o educando. 308
Como já disse no princípio, nunca pretendi ser completo, nem sequer parecer tal: O meu único desejo é focar alguns daqueles pontos que mais me impressionaram durante os meus primeiros vinte anos. 309
Assim falarei sobre Higiene, Verdade e Beleza, Vida moral e social, «Deuses» por participação. São vários pontos referentes a alguns aspectos naturais e sobrenaturais do homem, que com a educação se pretende formar e valorizar. 310
  
  
  

A — HIGIENE

 
  
  
Nós nunca chegaríamos a conceber as substâncias e as essências se não foram os acidentes que advêm com a existência. É a forma substancial que, com a matéria-prima, forma o constitutivo da substância corpórea. Todas as outras formas acidentais nada acrescentam na ordem essencial. Mas, sem os acidentes não existiriam as substâncias, senão na mente criadora, nem poderiam ser conhecidas por nós. Pelos acidentes existem, mostram-se e agem as substâncias. 311
Uma filosofia só essencialista seria estéril, porque desconheceria as grandes realidades da existência. Seria inerte e mutilada — faltar-lhe-ia o dinamismo e a vida.Mas uma filosofia só existencialista, pretendendo ser sumamente dinâmica, cai, por força da sua própria lógica, na mais pura inércia, no caos, na morte. A tal está condenada todo o absurdo, e existência sem essência, formas acidentais sem forma substancial, são o mais flagrante absurdo. Existência é a actualização de uma essência. Admitir aquela sem esta não se concebe o que seja. Acidentes são aquelas entidades que não subsistem em si, mas noutrem. Negar este substracto e afirmar os seus acidentes também não é possível qualquer inteligência conceber. São contradições por natureza. 312
Vemos, assim, a importância do mundo sensível, que não podemos diminuir ou negar impunemente. Embora o essencialismo seja evidentemente a parte principal — necessária, essencial, eterna — e o existencialismo seja a parte secundária — contingente, acidental, temporal —, não podemos negar a devida importância desta, porque por ela é que atingimos aquela, e além de tudo porque também faz parte da realidade e a filosofia não pode ignorar nem o mais pequeno pormenor. Mas o mundo sensível não é um insignificante pormenor da realidade: Ele é parte importante, embora longe de ser a principal, — tem em si riquezas extraordinárias e depois é ele que nos põe em contacto com o absoluto, é mesmo o único caminho natural de o atingir. 313
  
separadores 
  
Não seriam necessárias estas considerações nem mesmo o testemunho da Medicina, para encarecer a necessidade e o lugar proeminente que a higiene deve ocupar: Tal necessidade está na lógica e está mesmo explicitada na linha geral da orientação pedagógica, que propus no 1.º Princípio Generalíssimo. Está longe de ser superfluidade, luxo ou vaidade a conservação, o revigoramento e embelezamento do nosso corpo. É, pelo contrário, o nosso primeiro dever em consideração ao valor real da matéria e sobretudo em ordem ao aperfeiçoamento espiritual. 314
Assim, é preciso não descurar a higiene, a ginástica, os desportos moderados e o trabalho manual. 315
O asseio no corpo, vestuário e maneiras, é indispensável; até para a guarda da castidade muito contribui. As crianças têm de ser habituadas desde pequeninas a andar com o nariz limpo, todo o corpo lavado, o cabelo penteado, os dentes alvos, as unhas cortadas, o vestuário e calçado asseado. 316
Tudo que seja contra a higiene é preciso banir, e quero fazer especial menção ao fumo, porque de facto é ridículo e revoltante, além de prejudicial, ver imberbes fumar com pretensões a homens. Pensam passar por adultos e afinal não conseguem o seu fim — pelo contrário passam por canalhas. É preciso convencê-los desta verdade que os faria corar, e mostrar-lhes os inconvenientes de ordem económica e higiénica de tal vício. Rapaz que não tenha força de vontade para evitar ou dominar este vício, como a terá para afastar os vícios pecaminosos? Até para robustecer a vontade é conveniente abster-se de fumar. Com tais convicções o educando, mesmo na idade em que lhe não ficaria tão mal fumar, não usará de tal faculdade por reputar o fumo inútil e prejudicial. Pode dar-se o caso, é certo, de ser conveniente, depois do vício entranhado e do homem estar formado, aplicar aquela regra de que já falei: condescender no menos para conseguir o mais. Será, de facto, melhor manter o vício do fumo do que contrair outros sucedâneos pecaminosos e talvez ainda mais prejudiciais à saúde. Mas aqui trata-se de desordens passadas, que já não é possível ignorar nem remediar radicalmente. Tudo vai da educação começar desde o nascimento, e direi melhor antes do nascimento: Pelos pais é que há-de começar a educação dos futuros filhos. 317
Em seguida à higiene e, afinal, ainda incluída nela, merece a nossa atenção a ginástica, os desportos moderados e o trabalho manual. A ginástica, sobretudo individual e com professor, também considero indispensável. É preciso, porém, ter prudência por causa das tentações e movimentos sensuais que pode provocar sobretudo se se faz nu. 318
No desporto é preciso haver moderação e conselho médico. Acima de todos recomendo o pedestrianismo e o campismo. 319
O trabalho manual (por exemplo, a jardinagem) é muito recomendável até para fomentar o espírito de observação. 320
Este é o método adoptado por uma das nossas mais simpáticas organizações — a Mocidade Portuguesa Feminina: Pelo rejuvenescimento e embelezamento do corpo das nossas raparigas atingir-lhes a alma, formar a dona de casa, a esposa e a mãe, dar-lhes uma religiosidade esclarecida e alegre. Este o verdadeiro e único método pedagógico para novos e para velhos, para rapazes e para raparigas, porque este é o método requerido pela nossa própria natureza humana1. 321
  
  
  

B — VERDADE E BELEZA

 
  
  
  
A inteligência tende naturalmente para o verdadeiro, a vontade para o bom e uma e outra para o belo. Na mais íntima onticidade confundem-se, porque não são mais que aspectos transcendentais do ser. Mas, enquanto este é encarado em relação à inteligência, diz-se verdadeiro; enquanto é apetecido pela vontade, diz-se bom; e enquanto deleita uma e outra com o seu esplendor, diz-se belo. Verdade ontológica é a adequação do objecto com a inteligência; verdade lógica é a adequação da inteligência com o objecto; e verdade moral a adequação das palavras com os pensamentos. Bondade é a qualidade de nos tornar felizes com a sua posse. Beleza participa da verdade e da bondade — é o esplendor da verdade e da ordem ou, o que é o mesmo, é a transfiguração, pela claridade, do ser íntegro e proporcionado, que nos agrada pela audição ou pela contemplação sensível ou espiritual2. A verdade ontológica dá-nos a possibilidade do conhecimento, a verdade lógica a cultura, a verdade moral a confiança, a bondade dá-nos a felicidade e a beleza o gozo auditivo e contemplativo, sensível e superior. 322
Neste capítulo quero chamar a atenção para a verdade lógica e para a beleza. Fomentar o gosto científico, técnico e artístico, que mais ou menos existe em todo o homem, é ponto essencial. Não haveria aquela integralidade e ordem na educação se se desprezassem a inteligência e as faculdades estéticas. Sem um culto e amor profundos pela Ciência e Arte, na mais vasta acepção destas palavras, não teremos o homem perfeito que é preciso formar de toda a criança. 323
Assim, primeiro por hábito, depois por convicção, é preciso obrigá-la ao estudo, à observação, à meditação, e a ver a verdade e a beleza onde quer que existam e a aproveitá-las donde quer que venham. O costume de só ouvir com atenção e respeito os superiores e de desprezar os inferiores não é moral nem inteligente: A verdade não depende de quem a transmite, mas tem o valor em si mesma. 324
Além de aproveitar toda a verdade e beleza que nos seja possível, é preciso ter-lhes uma grande submissão e amor. De que vale contemplar se se não abraça e vive? A posse da verdade exige de nós submissão imediata e integral, sem sofismas maquinados pelo amor-próprio, indolência ou interesse. É necessário persistência para a investigação e humildade para abraçar a verdade, mesmo quando seja preciso largar opiniões e atitudes anteriores. 325
Descobrir, contemplar, assimilar e viver sempre novas verdades e belezas: e depois exteriorizá-las e comunicá-las pela palavra, pela escrita, pela arte e sobretudo pelas atitudes — eis o que se pretende. Mas esta difusão não há-de ser forçada, mas uma necessidade espontânea de quem arde naquele amor sublime da Cultura. 326
  
  
  

C — VIDA MORAL E SOCIAL

 
  
  
  
Se por natureza a mais nobre faculdade é a inteligência, porque é a luz que nos mostra a verdade, a beleza e o bem, prática e moralmente, a vontade é a mais importante, porque é a força que, pelo livre arbítrio, nos leva para a felicidade ou infelicidade eternas. Assim, concluímos que o aspecto moral do homem é de todos os seus aspectos naturais o que mais lhe interessa pela força decisiva que tem no seu destino eterno e até já no terreno. 327
Este, como todos os outros aspectos do homem, pode ser encarado individual e socialmente. 328
Todos os constitutivos do homem têm como causas remotas a forma e a matéria a essência e a existência, o abstracto e o concreto, o universal e o particular; e têm como fins, sobretudo, a sociedade e o próprio indivíduo. Se nós temos o universal na nossa própria essência, parece que por essência somos atraídos para a vida social. Mas, se por outro lado também temos uma individuação radicada na essência e reforçada na existência, parece que todo o ser nos leva para nós próprios mais do que para a sociedade3. 329
Este o fundamento último do duplo aspecto individual e social das diferentes partes do homem, e aqui da sua parte moral. 330
  
  

a — SUBMISSÃO

 
  
  
Se a inteligência tem de estar submetida à verdade e só à verdade, a vontade tem de ter uma grande e perfeita submissão aos superiores. O fundamento supremo é sempre o mesmo, porque se toda a verdade é participação de Deus, também toda a autoridade emana de Deus. 331
Acima de todos os princípios de pedagogia está este — submissão sem revoltas e sem críticas. Ainda quando os superiores errem, essa é a vontade de Deus quoad nos. 332
Isto não significa que no nosso íntimo não tenhamos a nossa maneira de ver nem que a deixemos de seguir quando não estivermos debaixo de obediência. A inteligência só deve submissão à verdade; a vontade é que a temos de submeter aos superiores. 333
É lícito também expor respeitosamente a nossa opinião, se o superior o permitir, mas a última palavra é sempre deste. 334
Portanto, obrigue-se o educando a uma obediência imediata, exacta e alegre. 335
Outra norma importante neste capítulo é nunca prometer cousas ou meter falsos medos para sermos obedecidos. Por exemplo: — «Se fizeres isto dou-te um brinquedo» — torna a criança interesseira: mas se se prometeu, não se falte — o que a tornaria desconfiada, revoltada talvez, e nos tiraria todo o crédito. — «Faz isto senão vem o papão, o Sr. Abade, a ronca, etc.» — tolhe às vezes as crianças de medo, ficando medrosas, frequentemente para sempre, e dá-lhes uma noção muito errada da realidade. — «Se não fazes isto vais para o inferno» —, tratando-se de faltas veniais ou nem isso, torna-as de consciência errónea e tom falsos escrúpulos. A criança há-de obedecer por respeito e amor à autoridade. 336
Mas aqui, como em tudo, há a considerar os limites. Para que se possa exigir essa perfeita submissão é preciso, primeiro, possuir legítima autoridade sobre essa pessoa; e, depois, exercê-la só no campo em que se possui tal autoridade. Até a mais vasta autoridade que é a dos pais nos primeiros anos da vida dos filhos, tem limite — a Moral. Muitos se arrogam autoridade que não têm — ou mandando em quem nenhum direito têm, ou metendo-se em assuntos sobre os quais não têm direitos — ora por ignorância, ora por feitio, ora por vaidade, ora mesmo por conveniências. É o caso do prefeito que se quer meter em assuntos de foro interno e do director espiritual que perturba a disciplina externa. É o caso de professores que querem alargar a sua autoridade às cadeiras que lhes não pertencem. É o caso ainda dos pais que querem estorvar o destino dos filhos ou os querem sempre debaixo da sua rigorosa tutela como em pequeninos. É o caso de tantos e tantos. 337
Mas, se fora dos limites da autoridade esta nada vale, porque deixa de existir, dentro dos seus limites, é crime abdicar dos sagrados direito de se ser obedecido com submissão imediata, inteira, alegre - numa palavra, perfeita. 338
  
  

b — HÁBITOS E CONVICÇÕES

 
  
  
A educação, desde o nascimento até ao despontar da razão, isto é, pouco mais ou menos nos primeiros sete anos, tem de se orientar para dois pontos capitais — a criação de hábitos e a gravação de certas imagens indeléveis. 339
Seria inútil, nessa idade, procurar incutir-lhes ideias e princípios, mas é indispensável criar-lhes aqueles bons hábitos que depois hão-de ser praticados por convicção, e ainda gravar-lhes certas imagens auditivas e visuais que lhes fiquem indeléveis e os predisponham para convicções futuras. Isto é afinal familiarizar a sua imaginação com aqueles mundos que um dia hão-de ser o objecto das suas ideias, juízos, raciocínios e talvez a sua vocação. Imagens e gravuras religiosas, patrióticas, de sábios, literatos, etc. — tudo deve ter o seu devido lugar na educação. 340
De modo nenhum se há-de perder o mais pequenino momento nesta idade: Ela é a mais propícia e a única mesmo para criar os hábitos que devem ser de toda a vida e para vincar as imagens que hão-de ser a base do pensamento e da actividade também de toda a vida. É a idade mais moldável — perdê-la ou desviá-la do seu fim providencial é crime mortal. 341
Ao desabrochar da inteligência é preciso que esses bons hábitos se não continuem por rotina ou por mera tolerância com a tradição, mas que se mantenham por convicção. Por exemplo, o hábito da obediência não se deverá manter por falta de carácter ou por temor e muito menos com revolta interior, mas, pelo contrário, a obediência há-de ser uma afirmação dos seus princípios e do seu carácter — só esta é verdadeira obediência. 342
A medida do desenvolvimento mental hão-de sintetizar-se estas convicções em alguns poucos ou até num só princípio profundo que seja o lema e a orientação de toda a vida. Isto requer uma cultura integral e uma lógica perfeita entre as convicções e os modos de ser e agir. Quando o educando possuir uma dessas sínteses que englobem todo o seu pensamento, as suas tendências e a sua acção, então terá o carácter formado e estará apto a encarar a vida. 343
  
  

c — GRATIDÃO

 
  
  
Gratidão é talvez a virtude mais violada por nós todos: A solidariedade universal torna-nos devedores e credores de gratidão por milhares de benefícios conhecidos e milhões desconhecidos. 344
Mas se a ingratidão por tudo aquilo que recebemos dos nossos antepassados, dos construtores das pátrias, dos governantes, dos cientistas, dos literatos, dos artistas, da agricultura, da indústria, do comércio e das almas que se imolam pelo mundo, pode ter desculpa na falta de cultura, a ingratidão por tudo aquilo que conhecemos, só pode ter explicação na falta de sentimentos, na leviandade e má educação. Chamam negra à ingratidão e com uma propriedade extraordinária. 345
É uma virtude portanto que merece todo o esforço do educador. Desde o dizer «muito obrigado» — que deve ser a mais elementar demonstração de gratidão e não apenas de civilidade — até ao orar pelos benfeitores — a mais profunda demonstração de gratidão —, o educador não deixará a menor lacuna na educação desta virtude. Uma gratidão afectiva e sobretudo efectiva, uma gratidão que não espera pela doença, angústia ou morte do benfeitor para se manifestar, uma gratidão constante e perfeita — é esta a gratidão que é preciso incutir, porque esta é que é a verdadeira gratidão. Não é verdadeira gratidão aquela que só se manifesta por palavras e não por obras. Nem muito menos aquela que se não sente nem se exterioriza durante a vida, mas só quando nos falta o benfeitor: Afinal só se amavam os benefícios e não a pessoa que os fazia; afinal essa gratidão tardia não pode ser acreditada, porque é quase indubitável ser falsa, embora inconscientemente falsa. Nem tão pouco é verdadeira gratidão aquela que se esquece logo que se acabou de receber o benefício ou até mesmo antes de se acabar de o receber ou de o gozar. 346
Todos sofremos com a ingratidão e todos somos ingratos. A educação desta virtude traria uma parcela bem grande de felicidade aos homens. 347
  
  

d — SEXUALIDADE

 
  
  
Se o aparelho urinário-genital ocupa um dos últimos lugares na hierarquia da nossa vida fisiológica, a sua função social e as suas relações morais dão-lhe um lugar proeminente nas preocupações pedagógicas. 348
Aqui apenas me refiro aos problemas vitais, ao recato e à diferença de sexos. 349
  

Problemas vitais

 
  
Os problemas vitais devem ser ensinados oportunamente às crianças. É um erro e um perigo tremendo enganar as crianças nestes assuntos e sobretudo conservá-las ingénuas até muito tarde. Não quero dizer que se ensine tudo logo às primeiras perguntas da criança. Mas a pouco e pouco é preciso esclarecê-la e jamais enganá-la ou trazê-la desconfiada. Às suas perguntas responda-se com simplicidade e prudência, consoante o seu entendimento. Se não perguntar nada — o que suponho nunca se dar, a não ser que viva num ambiente muito apertado, — ensine-se-lhe oportunamente com analogias tiradas dos animais e plantas e com termos decorosos. 350
Se a mãe lhes não ensinar os problemas vitais da procriação, outros lhes ensinarão, apenas com uma diferença: Estes com malícia e com o incitamento a práticas ilícitas e a ocultá-las aos pais. Começa aqui a separação íntima entre a mãe e o filho: Esta deixa de ser a confidente. 351
Se, porém, a mãe for a reveladora desse novo mundo para o filho, terá uma bela maneira de o incitar à castidade por amor da saúde, da cultura, do futuro lar, do ideal; será talvez a sua confidente em alguma queda e será até o anjo que o levantará. 352
Em tudo, no entanto, prudência e conselho de director competente. Nunca confundir ingenuidade — atraso das faculdades cognoscitivas — com inocência - pureza baptismal. Aliar esta inocência a um verdadeiro entendimento dos problemas da procriação — a isso deve tender a educação. 353
  

Recato

 
  
Se se querem jovens recatados no vestir e nas maneiras, habituem-se as crianças a tal, mesmo antes do uso da razão. Então elas não adquirem convicções, mas adquirem hábitos, e são hábitos de modéstia que é preciso criar-lhes. 354
Promiscuidade de sexos, se é reprovável depois do uso da razão, também o é antes, pelo menos desde os três anos — idade em que geralmente tomam conhecimento rudimentar do sexo a que pertencem. Habituá-las, então, a vestir-se diante de crianças de sexo diferente, a andar descompostas, etc., é tirar-lhes aquele verdadeiro pudor que devem conservar pela vida fora. Habituá-las assim até certa idade e depois querer habituá-las doutro modo — é ilógica prejudicial à boa educação, é tirar à orientação pedagógica aquela unidade de que carece. 355
E depois, os hábitos adquiridos, mesmo antes do uso da razão, têm uma influência na vida inteira, por maior que seja a contra-reacção. 356
Imagem gravada — no consciente, subconsciente ou inconsciente — é também imagem que terá influência maior ou menor, mas para sempre — eterna. Após a mais insignificante sensação (mesmo inconsciente), nós nunca mais somos como seríamos se a não tivéssemos. 357
E não me refiro aqui a roubar conscientemente o pudor infantil, como é táctica política de certas organizações: A tal não me quero referir, porque nem mesmo saberia como classificar tal crime. 358
  

Diferença de sexos

 
  
A tendência democrática de considerar todos os seres humanos com iguais direitos ou confunde o que é preciso distinguir ou ignora não diz as mais elementares normas de Ética, mas até as maiores evidências biológicas. 359
É certo, e ninguém o nega senão a escravatura, que os direitos humanos que resultam do simples facto de sermos homens, são iguais em todos. Pois, se são direitos essenciais dos seres humanos, e se nós todos somos seres humanos, é evidente que esses direitos são de nós todos. E se a nossa individuação se radica na essência, é evidente que esses direitos não só são de nós todos em conjunto, mas ainda de cada um de nós em particular. Poderemos chamar-lhes direitos específicos, porque resultam do facto de pertencermos à espécie humana. 360
Mas se nós temos esse elemento comum — a espécie — e portanto direitos específicos iguais, já se não diga o mesmo quanto aos direitos resultantes de mil circunstâncias — nascimento, pátria, sexo, capacidade, função, cultura, etc. Os homens, portanto, são iguais nos seus direitos essenciais, mas não nos seus direitos acidentais. 361
Baseados nesta distinção exigida pela biologia e pela realidade das cousas, queremos chamar a atenção para a diferença de funções e direitos dos dois sexos. Como resultado do seu organismo, o homem tem todos os aspectos do seu ser ordenados para a paternidade: Ver-se-á a confirmação disto pelo simples exame do seu corpo, do seu psiquismo e da sua mentalidade: Tem, portanto, funções e direitos próprios do seu sexo. A mulher, igualmente, é toda inclinada para a maternidade: Tem também funções e direitos, não iguais aos do homem, mas próprios. Mesmo quando o homem se consagra à vida sacerdotal ou a mulher à virgindade, isso não é mais que a sobrenaturalização das suas tendências. 362
Permitir a menor cousa que masculinize a rapariga ou efemine o rapaz, é erro científico imperdoável. Isto não significa que se não preparem todos para o desempenho eventual de certas funções do outro sexo: A prudência e as realidades da vida obrigam-nos a tal. Mas uma cousa é estar pronto para todas as eventualidades e outra é inverter as funções e os direitos dos sexos. 363
É outro ponto capital para a felicidade do nosso século e até para a felicidade conjugal: Um dos maiores prazeres que os cônjuges proporcionam um ao outro é o conhecimento mútuo do que têm de diferente: É uma ânsia constante e um conhecimento sempre mais profundo, porque são inesgotáveis as belezas que cada sexo e cada indivíduo possui em todos os aspectos do seu ser. 364
  
  

e — RELAÇÕES

 
  
  
A par da libertação que se opera do seio materno ao seio de Deus (a que já me referi), dá-se também o desenvolvimento das tendências sociais. 365
À medida que o ser se aperfeiçoa, tende a manifestar-se, e assim o homem que a princípio é sobretudo egocentrista, começa a associar-se à pequena comunidade dos seus amigos, depois à dos compatriotas, depois à Humanidade, para finalmente se unir em Deus a todos os seres actuais e possíveis. E isto é tanto mais verdade (ainda que à primeira vista pareça o contrário) quanto mais vincada for a personalidade e o valor de cada um. 366
Não é a sociedade que deve absorver os cidadãos, mas são os grandes valores que devem absorver a sociedade: Este é que é o verdadeiro sentido da socialização humana: A personalidade, que já não cabe em si, comunica-se sempre mais e mais até se abismar no Infinito. 367
  

Civilidade

 
  
Não como verniz superficial, mas como hábito entranhado e exteriorização da mais íntima delicadeza e respeito, é preciso não tolerar nas crianças a mais pequena falta de civilidade. E, à medida que crescem, devem ensinar-se-lhes ainda as regras de etiqueta. 368
Mas, civilidade e etiqueta, em todos e sobretudo em crianças, pedem modos abertos e simples sob pena de se cair no ridículo ou na afectação. E é preciso evitar tanto a afectação como a grosseria: Uma e outra sejam severamente corrigidas. 369
É preciso ainda precaver a criança de supor que a civilidade é só para os superiores: Ela é também para os companheiros e inferiores. 370
A vida em sociedade é regulada nos seus traços mais gerais pelo Direito, é aperfeiçoada com mais penetração pela Ética, e finalmente a Civilidade e a Etiqueta embelezam os mais pequeninos pormenores4. Só quem não tem educação nem cultura nega a importância e a beleza da etiqueta. 371
  

Pontualidade

 
  
Já falei da pontualidade biológica como virtude que fica (como sempre) no meio dos dois defeitos opostos — impaciência que quer fazer as cousas antes do seu tempo e indolência que as quer fazer depois... ou nunca. Ora, as cousas devem ser feitas no seu devido momento e não antes nem depois. A tal virtude chamamos pontualidade. Se essa pontualidade for em relação ao tempo biológico, poderemos chamar-lhe, por necessidade de expressão, pontualidade biológica; e se for em relação ao tempo físico, pontualidade física. É para esta que chamo agora a atenção. 372
Se a orientação suprema e os grandes actos da nossa vida se devem conformar com a idade biológica, as actividades quotidianas têm de ser reguladas pelo tempo físico. Os astros e sobretudo o sol, têm grande influência sobre nós e prestam serviços imprescindíveis à vida. Além de muitas outras influências, por exemplo psicológicas, o calor e a luz desenvolvem a vida e aureolam de esplendor a Natureza. Mas, aqui, quero-me referir sobretudo aos movimentos astronómicos de que resultam a noite, o dia e as estações e que assim nos condicionam maravilhosamente a vida. 373
Não há contradição entre o mundo físico e o biológico: A harmonia e a colaboração são perfeitas. Só acidentalmente se podem notar desvios: Tudo está em saber respeitar os limites (que aliás por vezes são bem difíceis de determinar). A vida, no que tem de superior, de imaterial, não se pode sujeitar a dimensões temporais astronómicas. Mas no que ela tem de materialidade, é evidente que há-de conformar-se com o tempo físico. Os seres são independentes das dimensões na medida da sua imaterialidade5. Este o fundamento da pontualidade biológica e física. 374
No homem a matéria tem papel importante — limita e individua a forma. Este condicionalismo material tem de ser respeitado; por isso, não só teremos de ser pontuais ao horário biológico, mas também ao horário astronómico. Neste horário astronómico há a considerar a sua parte natural, que nos dá os traços gerais e a parte convencional que é traçada pela civilização, costumes e conveniências. 375
Este horário da nossa vida quotidiana — mais ou menos rígido, mais ou menos maleável, para ser de facto servidor e não tirano da vida — deve ser elaborado por cada um. E uma vez elaborado, segundo as exigências do agregado em que se vive e das conveniências pessoais, deve ser cumprido à risca. Uma falta de pontualidade é uma perda de tempo e, se atinge o próximo, é uma das maiores injustiças — roubar-lhe o tempo que jamais poderá restituir-se. A um horário bem elaborado nada justifica uma falta de pontualidade, porque o horário bem elaborado já é adequado à vida com todas as suas quotidianas contingências. E se, como dizia, o horário individual deve servir os nossos fins vitais e não tiranizar-nos, terei de dizer também que, perante um horário colectivo que nos abranja (embora não elaborado por nós), teremos de sacrificar os nossos mais legítimos interesses para o seguir à risca: Esta é uma exigência imprescindível da vida social, da civilidade e, como já disse, da justiça. 376
A missão de educar é uma missão de ordenar, e não haverá ordem onde não houver pontualidade. Falta de pontualidade é das desordens mais funestas para a colectividade e para o próprio indivíduo; é tão funesta quanto precioso é o tempo: Nada o pode pagar, porque nunca pode recuperar-se. 377
No sentido desta virtude deve orientar-se também a educação. 378
  

Preparação

 
  
É preciso preparar os educandos para a vida social sobre todos os seus aspectos e sobretudo para as suas relações com o sexo diferente. 379
Esta preparação, como sempre e como tudo, tem de começar nos mais tenros anos. As crianças devem conviver entre si e não apenas com adultos. Por isso, é péssimo, sob o ponto de vista pedagógico, os lares só com um ou dois filhos e pelo menos aos sete anos as crianças não frequentarem a escola. Esta falta de convivência infantil leva muitas vezes a perigosas precocidades e quase sempre a aparvalhamento ou inadaptação indeléveis. 380
Esta preparação para a vida social tem de continuar ininterruptamente até que o jovem e a jovem estejam prontos para todas as eventualidades da vida. Quem sabe se amanhã terão de tratar dos negócios do seu património familiar? Quem sabe se terão mesmo de ganhar a vida até com trabalhos servis? De qualquer modo, porém, terão de viver mais ou menos na sociedade. Saber viver nela sem ser logrado, sem se deixar contaminar, sem fazer tristes figuras e só fazendo o bem — eis ponto capital: Saber viver! 381
Outro ponto é o das relações com o sexo diferente. Prudência e simplicidade: Nem separação mortal nem confusão caótica — mas distinção devida. A Natureza, e por ela a Providência, não colocou os dois sexos em dois mundos separados, nem estabeleceu a promiscuidade. Preparar os educandos para que tais relações nunca degenerem em pecado ou sombras disso — eis outro ponto que merece toda a atenção do pedagogo. 382
Dadas as fortes tendências sociais de todo o nosso ser e talvez sobretudo nos nossos tempos — este assunto é também capital em educação. 383
  

Amizades suspeitas

 
  
Mais do que a vigilância, aliás indispensável, é com uma formação sólida e ampla do espírito e um ambiente aberto que se evitarão as amizades suspeitas. 384
O ideal de virgindade ou matrimonial deve encher a alma dos educandos desde os alvores da puberdade para, por seu amor, se manterem puros. Devem, todavia, pensar no matrimónio em abstracto, e não concretizá-lo muito cedo, o que traria muitos perigos até para o estudo. Assim o ideal, produto de uma sólida formação humana e sobrenatural proporcionada ao desenvolvimento, fá-los-á desprezar e fugir dessas amizades mesquinhas, que empestam a juventude. 385
Nos externatos predominam as amizades heterossexuais. Nos internatos as amizades homossexuais. É preciso que a juventude viva num ambiente aberto, onde se fale com o sexo diferente e do sexo diferente sem malícia nem falsos pudores, mas com simplicidade, pureza e respeito. As comunidades e os pais que isolam os adolescentes e jovens num ambiente fechado, onde nunca ou muito raramente se comunica com o sexo diferente, não os preparam convenientemente para a vida, mas provocam desastrosas consequências de compensação. Uma educação muito fechada dá origem a uma libertinagem oculta, a excessos loucos quando se consegue depor, por momentos que seja, o jugo do pai ou superior, e a sensações psicológicas perigosíssimas ao mais leve contacto com o sexo diferente. Estas funestas consequências dão origem à apologia de uma educação excessivamente livre e de não melhores consequências. E assim se anda de extremo em extremo, de reacção a contra-reacção, sem se atingir e se manter o meio termo em que reside a verdade e a virtude. 386
É preciso aproveitar o que há de bom e rejeitar o que há de mau nestas pedagogias extremistas e alcançar o ambicionado justo meio: Só assim se evitarão as amizades suspeitas hetero ou homossexuais. Punam-se severamente, então, os educandos que desrespeitarem a pureza alheia com acções, palavras, maneiras ou olhares. Mas enquanto vigorar alguma das duas pedagogias extremistas de que falei e se não der uma formação profunda e ampla, punam-se sobretudo os pseudopedagogos que vitimam, talvez irreparavelmente, a adolescência. 387
Formação com horizontes amplos, ambiente aberto, educador que sinta com o coração ardente da adolescência — e diminuirão as amizades suspeitas para aumentarem as amizades puras. 388
  

Patriotismo e universalismo

 
  
Se a sociedade familiar é uma exigência da própria natureza humana, que não pode desaparecer sem que a própria Humanidade se destrua, o mesmo temos de dizer da sociedade civil. O Cosmopolitismo ou Internacionalismo quer de conhecer c ta realidade como se fôssemos nós que construíssemos a essência humana ou a pudéssemos sequer modificar. Isso envolve ridículo absurdo, pois modificar uma essência era destruí-la, modificar a essência humana era destruir o homem. Querer destruir as sociedades civis independentes para formar uma só sociedade cosmopolita é tanto absurdo como querer destruir as famílias para formar uma só família ou como querer destruir a própria natureza do homem. 389
O educando, desde o abrir dos olhos, primeiro por imagens, depois por ideias, deve ser levado a conhecer, a amar e a engrandecer a sua própria Pátria que não é só a Metrópole, mas um Império. 390
A História, expurgada de todas as ficções e calúnias políticas, há-de dar-lhe a consciência nacional. É um crime de lesa-pátria dar para as mãos das crianças essas Histórias inspiradas nos escritores liberais: Os compêndios que as crianças hão-de estudar são os baseados naquela revisão histórica iniciada por António Sardinha. A esta luz e depois com uma sólida formação tomista, que irá sendo ministrada à medida do seu desenvolvimento, o educando poderá conceber claramente a finalidade colonial da nossa existência já de 800 anos, a organização política que melhor pode servir essa finalidade, a missão de Portugal no concerto das nações e a missão de cada um de nós dentro da Pátria. 391
O Império, a sua colonização e evangelização, há-de ser ponto capital da atenção, do amor e dos esforços do educando. É preciso convencê-lo de que é mau cidadão se não trabalhar de algum modo por esse Império que nos foi legado não para um usufruto de capitalistas, nem muito menos para conservar como tesouro inútil de velho avarento, mas para engrandecer e missionar. É preciso convencê-lo de que tanto é nossa pátria Lisboa como Díli ou Macau: Não se tratam de partes acidentais, de povos dominados e escravizados: Tratam-se de partes integrantes da nossa existência, de nossos irmãos tão portugueses como nós, de sangue do nosso sangue. Nós, ao expandir a civilização e ao missionar, não escravizamos, mas unimos o nosso sangue ao sangue dos que não conheciam a Cultura e Cristo. Fundimos o nosso sangue, as nossas riquezas, a nossa Civilização, a nossa Religião — ficamos irmãos. Esta a característica da nossa colonização, este o sentido nacional da nossa existência. 392
Não continuar a obra é crime de lesa-pátria e de lesa-civilização, é destruir a nossa própria existência nacional — é suicídio nefando. Nada terá conseguido o educador se não levar os educandos a trabalhar neste sentido. Cada um dentro da sua vocação — ou elevando o nível económico, técnico, cultural ou religioso, ou trabalhando na Metrópole ou nas Colónias — todos têm de engrandecer o Império, continuar a nossa Tradição histórica. 393
E os que tiverem tendências políticas, estudem e esclareçam o nosso povo do sentido da nossa História e da única organização política que nos pode manter fiéis à vocação e dar-nos aquela felicidade terrena que a Providência nos destinou. O Liberalismo e a Democracia precipitaram-nos no abismo. O Comunismo pretende voltar a lançar-nos nele. Só o Integralismo nos pode dar a felicidade. Perdido o sentido histórico com aquelas aberrações, a obra da restauração foi iniciada pelo Estado Novo — resta consumá-la com a Monarquia integralista. 394
A regra básica em todo o trabalho de engrandecimento pátrio é fomentar mais e mais a iniciativa particular num espírito de cooperação e coordenação e dentro de uma perfeita obediência à legítima autoridade. 395
  
separadores 
  
Mas, além dos deveres patrióticos, há os da solidariedade universal. Distintos pela independência nacional, estamos unidos a todos os povos pela humanidade. A colaboração internacional e o sentir com todos os povos as alegrias e as dores — é dever, senão necessidade, de todo o verdadeiro homem. E, afinal, todo o nosso trabalho em qualquer campo, através do engrandecimento pátrio, é uma contribuição para a felicidade universal. 396
Aliado ao sentimento nacional, deve haver um verdadeiro sentimento universalista bem diferente do Cosmopolitismo e Internacionalismo de que falei. 397
E se para além da Terra há outros seres inteligentes, humanos ou não, também a eles deve chegar o nosso sentimento universalista. 398
Vinquemos bem a nossa independência nacional para mais e mais vincarmos esta união universal. 399





1

Se quisesse ser completo viria agora a ocasião de falar da higiene psíquica e mental. Uma imagem é sempre indelével e quer trabalhe no consciente quer no subconsciente ou no inconsciente nunca deixa de fazer sentir a sua influência no próprio indivíduo e, por seu intermédio, no próximo, e assim essa repercussão é indefinida sem ser possível pôr-lhe termo. O máximo que se poderá é exercer uma contra-reacção. Uma desordem mental não teria menores consequências: Uma atrofia, uma hipertrofia ou um desvio são fatais e de repercussão não menor. Mais do que da higiene do corpo é preciso tratar da higiene da sensibilidade e do intelecto, e mais do que deste será tratar da higiene moral. Mas para bem tratar das partes superiores tratem-se primeiro das inferiores.

2

Cf. Paulus Dezza, Metaphysica Generalis.

3

Por outro lado também é verdade que o indivíduo é para a sociedade, esta para a pessoa, e esta para Deus, e portanto parece que a preponderância é do universal, embora se não dê um significado panteísta a este retorno à Divindade.

4

Cf. G. Pires Cardoso, Elementos de Direito Comercial.

5

A consideração profunda deste facto — a libertação de dimensões de que gozam os seres na medida da sua imaterialidade — abre-nos directamente horizontes sobre a hierarquia dos seres até ao Ser. É uma destas verdades resultantes da potência e do acto aristotélicos e que, como eles, também nos dá uma visão sobre o Infinito.





  
  
  

D — «DEUSES» POR PARTICIPAÇÃO

 
  
  
«Cesse tudo o que a Musa antiga canta, 
«Que outro valor mais alto se alevanta.» 
  
(Camões, LUSÍADAS, Canto I, 3). 
  
  
Cale-se a Natureza 
Que o Senhor vai falar: 
  
«DII ESTIS» (S. João, X, 34). 
  
  

ALICERÇAR A PIEDADE NO DOGMA

 
  
  
Reportemo-nos à Eternidade. O Senhor é o Infinito. O Senhor, por lógica necessária, conhece a Sua Beleza absoluta. E esse conhecimento é necessariamente substancial. (Nem se concebera acidente no Imutável). E essa Substância, na mesma sequência de necessidade, por um lado, supõe uma pessoa, e, por outro lado, tem de se confundir com o mesmo Senhor que a gera. (Nem se concebera substância espiritual concreta não personificada, nem pluralidade substancial no Acto puro). E, de facto, na Unidade divina temos de distinguir a Pessoa do Verbo da Pessoa do Pai, porque uma cousa é ser cognoscente e outra ser conhecido. A unidade de pessoas em Deus era tão impossível como a pluralidade de essência. 400
Mas ainda naquela imperscrutável Eternidade e seguindo a força lógica do Ser) o Senhor, ao contemplar-Se, ama a Sua Beleza infinita. E a Beleza contemplada ama a Beleza extasiada. O Pai e o Verbo «espiram». Pela mesma necessidade essencial da geração da segunda Pessoa, procede agora do Pai e do Verbo uma terceira Pessoa — o Espírito de Amor. 401
É este o Mistério da SS. Trindade — Dogma supremo e básico donde partem todos os outros dogmas. A Criação, a Encarnação do Verbo, a Conceição Imaculada de Sua Mãe, a Redenção, os Anjos Custódios, a Infalibilidade pontifícia, a Comunhão dos Santos, a Graça que nos torna «deuses» por participação — tudo brota da Beleza e do Amor do Senhor. 402
É nestes e nos demais dogmas que há-de basear-se a religiosidade, e não no sentimentalismo. Só essa religiosidade que é o resultado da certeza inabalável do Dogma católico, tem condições de estabilidade e progresso. Pelo contrário, a religiosidade que se baseia no sentimento é mutável e vã como este. O sentimento religioso há-de ser um resultado das convicções profundas e não vice-versa. Sobretudo na mulher é preciso evitar e corrigir esta veleidade religiosa. 403
No ensino da religião é preciso dar primeira importância ao Dogma. Desde o despontar da razão, e já antes por imagens, é preciso ir ministrando tal ensino sempre proporcionado à idade e ao desenvolvimento. 404
Esta Fé viva nas verdades religiosas é o alimento do cristão e sem tal alimento não pode subsistir. «O justo vive da Fé» (S. Paulo, aos Gálatas, III, 11). 405
  
  

PERFEIÇÃO NAS GRANDES E NAS PEQUENAS COUSAS

 
  
  
Dogma é a parte especulativa da Religião. Moral e Ascética são a religião praticada, vivida. A Moral é imposta a todos. A Ascética é aconselhada, em parte, a todos e, em parte, apenas a alguns eleitos. 406
Toda a nossa vida deve ser um esforço constante de aperfeiçoamento. A norma é a Moral e a Ascética. O modelo primário é Cristo; e os secundários são os santos. Mas se em Cristo tudo é perfeição objectiva, nos santos há muitas vezes actos heróicos sim, mas que objectivamente não podem aconselhar-se. Por isso se diz que esses actos devem admirar-se, mas não imitar-se. 407
O estudo da Moral e da Ascética e a leitura da Bíblia e da Hagiologia hão-de ajudar o educando a atingir o mais alto grau de santidade que a natureza e a Graça lhe permitirem. A causa exemplar, em concreto, dessa obra de santificação é a faceta de Cristo ou de um santo (mas no fundo é sempre de Cristo) com que mais se conforme a sua personalidade. Assim uns imitam Cristo sendo missionários, outros sendo contemplativos, outros dando-se a trabalhos servis. A nota característica de S. Francisco de Assis foi a observância à letra da pobreza evangélica, a de S. Bernardo o amor a Maria, a de S. João Bosco a pedagogia cristã. Santa Teresinha quis ser outra Santa Teresa de Ávila e S. João de Brito outro S. Francisco Xavier. Cada religioso quer imitar a seu modo o Fundador do Instituto a que pertence. Próxima ou remotamente é sempre imitar a Cristo, em alguma faceta, já que a nossa limitação natural não permite uma imitação completa. 408
Mas nem só os religiosos podem imitar a Cristo e aos Santos: A fecundidade destes modelos é tal que tanto servem para sacerdotes como para leigos, para virgens como para cônjuges, para saudáveis como para doentes1, para intelectuais ou artistas como para técnicos ou operários. O governante ou o varredor da rua têm na Moral e na Ascética a norma e em Cristo e nos Santos o modelo. E, para serem fiéis a essa norma e a esse modelo, basta que levem o seu esforço de aperfeiçoamento até a heroicidade. E o varredor da rua que cumpre bem o seu dever é mais santo e dá maior glória a Deus do que o governante desleixado: A santidade não reside nos grandes actos, mas na perfeição perseverante com que se realizam todos os actos, até os mais pequeninos. 409
E eis uma noção de santidade em que nos devemos deter por ser tão esquecida pelo menos na prática. Muitos são capazes de rasgos heróicos, mas não perseveram na perfeição das pequeninas cousas. Ora, é maior a heroicidade de se ser perfeito nas pequeninas cousas de todos os dias do que nas grandes cousas de longe a longe. E quantas vezes estas não custam porque todos as vêem ou porque são uma novidade para quem as faz, e aquelas custam tanto porque ninguém as vê ou pelo menos porque já estamos cheios delas! Pois é exactamente o que ninguém vê e o que se faz quotidianamente que mais agrada a Deus. Os grandes actos só terão valor para a santidade se não tiverem sombra de amor-próprio e se forem continuados pela perfeição nas pequeninas cousas. A santidade reside sobretudo nestas, porque estas é que são a sua prova real. Cristo, durante trinta anos, nada fez de extraordinário, e todavia tão santo foi na Cruz ou a operar milagres como a aplainar madeira e a dormir. A escola da infância espiritual de Santa Teresinha, hoje tão em moda, não é senão a verdadeira escola evangélica e não tem nada (como muitos suporão) de mole ou pieguice, mas pelo contrário é o caminho de maior renúncia, exactamente porque é mais difícil ser perfeito nas pequeninas cousas do que nas grandes. Quantos renunciaram a riquezas e, contra a observância que abraçaram, não são capazes de renunciar a qualquer pequeno objecto! Quantos obedeceram a dolorosas ordens e não obedecem a ordens insignificantes! Pois era exactamente nesse pormenor tão pequenino da observância que Deus se deleitava, e no entanto aquele que renunciou ao mundo não é capaz de renunciar a esta pequenina falta. É a ilógica na vida ascética. Estes nunca chegarão a santos, porque santidade é a lógica perfeita com o fim sobrenatural a que nos propomos. Santo será só o que for perfeito nos actos mais pequeninos da vida quotidiana e não apenas nos grandes actos. 410
  
  

RENOVAÇÃO CONSTANTE

 
  
  
O culto religioso não é apenas um dever, mas uma necessidade do homem e do cristão. Cheios das grandes verdades da Fé e com a vida ordenada pela Moral, somos levados à oração por um impulso irreprimível. 411
A Liturgia é o culto oficial da Igreja e portanto deve constituir a nossa principal oração. Na Missa, nos Sacramentos, no Ofício divino, em todos os actos litúrgicos encontramos satisfação plena à nossa piedade. Vivendo a Liturgia, nós vivemos todo o Dogma, toda a Sagrada Escritura, toda a vida do Corpo Místico. A Liturgia é o melhor método de culto e ainda de assimilação das verdades de Fé e de enriquecimento sobrenatural. Cada festa litúrgica não é apenas uma homenagem e uma rememoração: é uma revivência operada pela Graça e pela Eucaristia — centro de toda a Liturgia. 412
Mas com a apologia do culto oficial da Igreja não quero negar a legitimidade e o dever do culto privado. Nós não somos só parte de uma sociedade religiosa, mas somos também indivíduos, e por isso também devemos a Deus um culto privado além do público. E se é erro prejudicar o culto público com o privado (como por exemplo levando para a missa outros livros que não sejam o missal, rezando o terço durante os actos litúrgicos, etc.) também é erro prejudicar a oração privada com a pública (como seria se se não desse nenhum tempo nem nenhum cuidado àquela). Além da oração litúrgica, cumpre-nos de facto meditar, rezar o terço, visitar a Jesus Sacramentado, fazer a Via Sacra, e todos aqueles actos de piedade que o Espírito nos inspire e as circunstâncias nos permitam. Mas o que nada prejudica a oração privada e até a beneficia é inspirá-la mais e mais na liturgia e na Bíblia. Nenhumas orações nem nenhuns motivos serão mais belos do que os litúrgicos e os bíblicos. E, afinal, isto é só interpretar o pensamento da Igreja, pois todas as devoções particulares são inspiradas na Liturgia e Pio XII, na Sua Encíclica «Mediator Dei», relembra-nos que «é necessário que o espírito da Sagrada Liturgia e os seus preceitos exerçam uma influência benéfica sobre elas». 413
  
separadores 
  
Por um lado é tão útil e tão bela a vida de oração que se corre o risco de prejudicar com esse entusiasmo o cumprimento dos deveres de estado. Ora, é preciso dar a cada cousa o seu tempo. Há um mínimo obrigatório; se, porém, depois do cumprimento dos deveres sobrar tempo, então podê-lo-emos dar também à oração sem escrúpulos e com grande proveito para nós e para o próximo. 414
Mas, por outro lado, o elemento material do nosso ser é tão forte que, apesar de toda a beleza da vida de oração, esta pode degenerar em rotina. Ora é preciso evitar, por uma renovação constante da espiritualidade, que os educandos se acostumem ao Sobrenatural, passando a considerar ordinário o extraordinário, humano o sobre-humano, natural o sobrenatural. 415
É o grande mal das pessoas que lidam muito com o Sagrado: Habituam-se, já se não comovem, endurecem o coração. As verdades eternas já as não fazem tremer, e desleixam-se no caminho da perfeição. Por um esforço de vitalidade, é preciso renovar sempre as altas concepções das realidades sobrenaturais. Para isso, é preciso descobrir sempre novos aspectos nessas verdades — inesgotáveis para o nosso pensamento finito. E, sendo a Liturgia uma oração sempre viva e a Bíblia um mundo sempre novo, nenhuma desculpa teremos para a apatia religiosa. 416
Estes assuntos merecem a principal atenção do educador, porque tratam da parte superior do homem — a vida sobrenatural. 417
  
  

DIRECTOR E CONFESSOR

 
  
  
A necessidade sobrenatural e até humana de ter um confessor e um director espiritual é-nos confirmada por autores espirituais por psicólogos. 418
O pedagogo pode dar o seu parecer; tem, todavia, que respeitar em absoluto a liberdade do educando na escolha. Deve ser um sacerdote prudente, sábio e santo.Uma vez escolhido, não deve mudar-se - o que não tira fazer-se uma ou outra confissão ou consulta a outro sacerdote. 419
Para avançar na vida da Graça é importante este assunto da direcção espiritual.Mas, se não houver toda a franqueza e lealdade da parte do dirigido, melhor fora não ter director. 420
  
  

MARAVILHOSO IRREAL

 
  
  
Nunca se criem nas crianças convicções lendárias em matéria profana e muito menos religiosa. É grave erro convencer as crianças da veracidade de mouras e príncipes encantados, fadas, pai natal, etc. Além de muitas outras influências nocivas psicológicas e intelectuais, quero focar sobretudo a seguinte: Chegados à conclusão de que tudo isso é falso (como hão-de chegar mais tarde ou mais cedo), não porão também em dúvida a veracidade das realidades invisíveis e sobrenaturais? 421
Ora, com estas realidades é que é preciso familiarizar as crianças de tal modo que nem se tornem incrédulas a tudo que os olhos não vêem (como se a inteligência não visse mais para além do que eles) nem se tornem de tal modo piegas que em tudo vejam indevidamente manifestações preter e sobrenaturais. É preciso familiarizá-las com factos reais — Deus, anjos, santos, milagres, oração, graças, etc. — e precavê-las contra crendices, histerismo, alucinações, misticismo piegas. 422
O maravilhoso cristão Já é suficiente para embelezar a vida — não precisamos da falsidade que nada pode acrescentar de belo à realidade. Para as crianças basta este maravilhoso cristão para prender a atenção, divertir e formar. Outros maravilhosos só perturbarão o seu desenvolvimento. Um dia mais tarde, nos seus estudos clássicos, terão tempo de se relacionar com esses assuntos. Antes é absurdo e prejudicial. 423
  
  

CRISTO EM TUDO

 
  
  
Com duas alusões quero terminar estas notas sobre a educação da parte sobrenatural do educando: A primeira é à Comunhão dos Santos e a segunda ao zelo apostólico. 424
O Verbo é ab œœterno o Espelho (digamo-la por falta de outra expressão) de Deus e portanto também de todos os seres possíveis que existem na Mente divina unidos numa só Ideia2. Mas, uma vez encarnado, o Verbo não só é o Espelho de todas as criaturas possíveis como é ainda, Ele próprio, uma criatura humana sem deixar de ser Deus. Pela união hipostática temos a maior de todas as maravilhas — Cristo, Síntese divina e humana, o Criador e a Criatura numa só Pessoa. À segunda Pessoa da SS. Trindade, agora mais do que nunca, é próprio o nome de Verbo. Até a união hipostática era Verbo divino: Agora é também Verbo humano. Verbo divino — Expressão da Beleza incriada e Ele próprio essa Beleza incriada. Verbo humano — Expressão de toda a beleza criada e Ele próprio Criatura no Corpo e na Alma, que a Si uniu hipostaticamente. Em Cristo e por Cristo fomos novamente elevados ao plano sobrenatural. Mas, agora, já não somos só «deuses» por participação como nossos primeiros Pais e como os Anjos até a Encarnação do Verbo: Agora nós e os Anjos somos também «cristas» por participação. É que a Graça, se é atribuída primariamente ao Espírito do Amor, a Sua restauração foi operada por Cristo e em Cristo. Por Ele e n'Ele é que o Espírito do Amor nos comunica a Sua Graça e nos torna assim participantes da Vida de Cristo e, portanto, também da Vida íntima da SS. Trindade. O Espírito Santo que une o Pai e o Verbo pelo Amor, também une pelo Amor os Anjos e os homens a Cristo: É esta a nossa encorporação em Cristo. 425
A alegoria de S. Paulo é de flagrante eloquência: Cristo e as criaturas sobrenaturalizadas formam um Corpo místico. Mas, se esta alegoria já estaria justificada com a nossa encorporação em Cristo, torna-se incomparavelmente mais expressiva com a Comunhão dos Santos. Cada membro, ao encher-se de Graça santificante, trasborda para os outros membros actuais do Corpo Místico e faz pressão sobre os membros possíveis, que ficam em potência mais próxima para chegar ao estado de Graça. 426
A solidariedade universal tem aqui o maior de todos os significados. Todas as acções, conscientes ou inconscientes, boas e indiferentes, das almas em Graça são uma oração universal, um aumento de Seiva divina, que vai revigorar os mais longínquos membros do Corpo Místico de Cristo. O primeiro zelo apostólico deve ser o da oração e do sacrifício. E, depois, também o da palavra e da acção. Assim — não esquecendo os nossos irmãos do Purgatório, da selva e dos caminhos escuros, nem os que connosco trabalham no apostolado — assim seremos verdadeiros membros da sociedade humana e cristã. 427
Portanto, não havemos de ver só a Cristo nos superiores hierárquicos — neles veremos a Cabeça do Corpo Místico —, mas em todas as outras pessoas também veremos a Cristo — membros desse Corpo, membros nem sempre actualmente vivos, mas pelo menos sempre com possibilidade de adquirir essa vida, pelo menos membros possíveis. E ainda veremos a Cristo na Natureza, porque ela é um reflexo do Verbo divino e humano e porque também ela participou, a seu modo, da encorporação em Cristo. 428
E não nos limitaremos a admirar o apostolado do sacerdócio e das ordens religiosas, mas unir-nos-emos a eles para dar vida a esses membros mortos ou possíveis, por cada um dos quais Cristo morreu — inutilmente se lhe não fizermos chegar a Seiva da Vida. 429
Com esta convicção de que somos «cristos» e de que devemos ver a Cristo nos superiores, em todos os homens e em todos os seres (em certo modo), através mesmo dos seus defeitos, com esta convicção devem os educadores deixar ficar as crianças e os jovens ao ministrar-lhes o ensino destas verdades sublimes. 430
Isto levá-los-á a um grande respeito por todo o ser humano e a um ardente zelo. Aliás é bem lógico que com um pequenino esforço evitemos a desgraça eterna de milhões de seres. O contrário é ser mau camarada, e nenhuma criança há que se alegre em o ser: Pelo contrário, estimulando-as, todas quererão ser exemplares camaradas. 431





1

Naturalmente não pode haver alma sã em corpo doente. Mas a Graça pode suprir as deficiências somáticas e até convertê-las numa condição para maior aperfeiçoamento espiritual. O mesmo se diga, mutatis mutandis, da falta de recursos materiais.

2

Essa Ideia é o próprio Verbo.














V

 
 

APARENTES PORMENORES

 
 
   
 
  . 
Nas Artes há, por vezes, pormenores sublimes. E nas Ciências e na vida também há certos pormenores que têm importância definitiva nos seus rumos. 432
É a onze desses aparentes pormenores de Pedagogia que me refiro. Com a sua exposição termino a minha obra. 433
Se bem atendermos aos métodos que se devem adoptar nestes aparentes pormenores, veremos que é sempre o princípio de individuação a iluminar-nos. 434
  
  
  

PEQUENINOS SACRIFÍCIOS

 
  
  
Quer para fortalecer a vontade, quer por espírito sobrenatural, devem habituar-se as crianças a fazer pequeninos sacrifícios, a viver sujeitas à lei da renúncia1 e mesmo a uma certa austeridade. 435
Os pequeninos sacrifícios quotidianos, às vezes, custam mais do que os grandes e são preparação magnífica para estes. É que eles exigem mais abnegação e abnegação mais contínua. O amor-próprio, nos grandes sacrifícios, pode ser lisonjeado: Nestes, não. Um acto de heroicidade requer muita vontade, mas o hábito da heroicidade requer muito mais. Com que generosidade — um religioso se doa totalmente na profissão! Renunciou à vida conjugal, à riqueza, à vontade própria: E depois, pela vida fora, quantos pequeninos bem pequeninos sacrifícios lhe são exigidos e ele só de má vontade os suporta (se os não pode afastar)! Renunciou às grandes cousas e, afinal, não é capaz de renunciar, de boa vontade, a um quarto melhor, a um livro, a um objecto, a um nada. E por esses nadas quantas vezes se revolta contra o superior, ele que havia renunciado às riquezas, honras, prazeres! E que o abandono do mundo, embora mal interpretado por muitos, foi objecto de admiração. Agora o sacrifício da mudança de cela, imposta pelo superior, ou a renúncia a certa leitura ou a certa conversa - isso ficará na obscuridade, não será objecto daquela admiração de quando disse renunciar ao mundo, embora, todavia, requeira talvez heroicidade bem maior. Santa Teresinha dizia a uma religiosa que ganharia mais méritos em prontamente acorrer ao toque da sineta, largando tudo, deixando mesmo uma letra em meio, do que alcançando favores do governo francês para o Carmelo. Certo religioso que havia renunciado às mais fabulosas riquezas e renunciara até às honras sacerdotais, preferindo o lugar de simples converso, morre a caminho de Roma, onde ia pedir ao Santo Padre o cargo de porteiro do seu convento, de que o superior o destituíra. 436
Habituemos, pois, as crianças a esses pequenos sacrifícios segundo a escola da infância espiritual de Santa Teresinha e dos Pastorinhos de Fátima. Antes de tudo façam-se os sacrifícios impostos pelo dever. Depois, além desses, façam-se outros voluntários. A mãe ou o educador vigie, porém, para que elas não façam cousas prejudiciais à saúde. Os sacrifícios deverão ser ocultos, mas a mãe deverá ser confidente também neste ponto. Uma pequenita, talvez de cinco anos, lembrou-se de não urinar quando tivesse vontade: É preciso nestes casos mostrar que isso não é lícito. É preciso mesmo orientá-las na escolha sem tolher, porém, a sua iniciativa: É maravilhoso observar as indústrias infantis para se sacrificarem por amor de Deus e dos pecadores. 437
Na sua devida idade, atendendo à saúde e só moderadamente, os jovens piedosos deveriam jejuar, usar cilícios e disciplinar-se. Isto, porém, requer a aprovação do director espiritual2. 438
  
  
  

CONTACTO COM A MISÉRIA

 
  
  
Para levar a bom termo a obra de educação é preciso proporcionar ao educando um contacto oportuno com a miséria material e moral. 439
A criança há-de começar, bem cedo, a compadecer-se dos que sofrem. Visitar pobres, levar-lhes esmolas, confortá-los, ensiná-los, rezar por eles — são práticas muito salutares. Sacrificar-se, orar e fazer apostolado no seu pequenino mundo de relações — tudo pela conversão dos pecadores — tem grande importância na educação. 440
O contacto directo com a miséria faz-nos compreender muitos problemas que os livros só nos fariam vislumbrar ou nem isso. Os chefes e governantes, por muitas vezes não descerem pessoalmente às camadas inferiores, não chegam a ver bem muitos problemas. Este contacto é indispensável para todos: É fonte inesgotável de lições. 441
Mas desçamos às camadas baixas para as elevar, e não nos deixemos contaminar. Condescendamos, provisoriamente. com o acidental, para que condescendam connosco, definitivamente, no essencial. 442
Sem este contacto não é possível o apostolado externo nem se conhecerá o mundo em toda a realidade. 443
  
  
  

TRABALHOS SERVIS

 
  
  
Sobre a necessidade de habituar os educandos a trabalhos servis na devida medida, diz Seb. Kneipp, em VIVEI ASSIM, I volume, págs. 331 e 336: «Devem também aprender a servir-se eles próprios de muitas cousas; porque quem não aprendeu a trabalhar não pode fazer um juízo seguro acerca do trabalho. 444
«Quem na mocidade é sempre servido por outros, habitua-se a dar ordens a todos os momentos e em todas as circunstâncias, e torna-se demasiado impertinente para com os criados; não vê as cousas senão por um prisma, exige muito dos outros, e acaba por se tornar enfadonho e insuportável. 445
«Além disso, as ocupações secundárias têm uma importância extrema para a saúde. Não é um exercício higiénico fazer a cama, sacudir e escovar a roupa, engraxar o calçado, ir por suas próprias mãos buscar a água para o lavatório, etc....? 446
«Eu prefiro isso a um passeio. Assim cada um adquire o hábito de tratar dos seus pequenos negócios, e torna-se apto para dirigir depois uma casa inteira.» 447
«Disse-me um dia um conde que havia estado num instituto, onde, durante os estudos, tinha aprendido muita economia doméstica; todas as manhãs era obrigado a fazer a cama, cuidar da roupa, esfregar até o soalho. Foi assim que aprendeu a executar os trabalhos domésticos. Estava muito reconhecido a essa casa de educação, e teve muitas vezes ocasião de se aproveitar dessas aptidões. 448
«Disse-me que ia confiar os filhos ao mesmo estabelecimento, porque o ensino ali é verdadeiramente prático.» 449
Isto, que se aplica perfeitamente aos rapazes, às meninas, então, nem se fala. Estas aprendam o essencial — governar a casa, cuidar do marido, educar os filho — se depois dediquem-se às ciências, artes e línguas, o que também é indispensável para não ficarem em plano inferior ao dos maridos, para os poderem compreender e auxiliar, para estes se não sentirem sós e deslocados. A mulher tem de ter uma cultura compatível com a do marido. Esta falta de proporção é que a converte muitas vezes em escrava e traz a desordem ao lar. Mas, antes de tudo, ser boa dona de casa, boa esposa e boa educadora. O descalabro provocado por esta falta é ainda muito, muitíssimo maior. 450
Mas os rapazes, sem se converterem em maricas, precisam também de saber de tudo um pouco. A educação tem de ser completa, e depois ninguém sabe as contingências do futuro. Embora, sejam mesmo intelectuais, e sobretudo sendo intelectuais, precisam de conhecer bem e habituar-se ao trabalho manual: Só assim poderão adquirir uma noção exacta da realidade da vida. 451
Aos novos-ricos, aos aldeões que por qualquer circunstância são deslocados para um ambiente citadino, e aos pedantes, que não podem pegar em nada sem calçar as luvas (para não ofender a polpa dos dedos) ou tocam a campainha para o criado apanhar o lápis caído — peço meditem no exemplo do conde atrás citado. 452
Assim, diminuir-se-á a eterna incompreensão entre trabalhadores servis e intelectuais. Aqueles apelidam de preguiçosos estes: Porquê? Porque desconhecem a nobreza do pensamento e quanto este cansa mais do que o trabalho manual. Os intelectuais (ou melhor: os pseudo-intelectuais) tratam com altivez os servos: Porquê? Porque ignoram quanto é árduo o seu trabalho. Se os primeiros experimentassem o trabalho dos segundos ou estes o daqueles, seriam mutuamente mais justos. Mas os intelectuais são mais culpados nessa injustiça, porque têm muito maior obrigação em reflectir na condição dos trabalhadores manuais e em que, se não foram eles, não teriam o condicionalismo material indispensável para a vida de pensamento. 453
  
  
  

REFLEXOS MORAIS

 
  
  
Estabelecer na criança «reflexos» úteis sobretudo no campo moral — eis outro pormenor importante. 454
Diz o Dr. Alexis Carrel, em o HOMEM, ESSE DESCONHECIDO, Porto, 1942, págs. 342 e 343: «O valor de cada um depende da sua capacidade de enfrentar, sem esforço e rapidamente, situações diferentes. É pela construção de numerosos reflexos, de reacções instintivas muito variadas, que se atinge esse resultado. Os reflexos são tanto mais fáceis de estabelecer quanto mais novo for o indivíduo. A criança é capaz de acumular em si vastos tesouros de reflexos úteis. É fácil treiná-la, muito mais fácil do que ao mais inteligente dos cães de pastor. É possível treiná-la a correr sem se fatigar, a cair como um gato, a trepar, a nadar, a estar de pé e a caminhar harmoniosamente, a observar com exactidão o que se passa à sua volta, a acordar depressa e completamente, a falar várias línguas, a obedecer, a atacar, a defender-se, a servir-se habilidosamente das mãos para os trabalhos mais diversos, etc. Os hábitos morais criam-se por idêntico processo. Os próprios cães aprendem a não roubar. A honestidade, a franqueza, a coragem, devem desenvolver-se pelos processos empregados na construção dos reflexos, isto é, sem raciocínio, sem discussão, sem explicação. Numa palavra, a criança deve ser condicionada. 455
«O condicionamento, segundo a terminologia de Pavlov, não é senão o estabelecimento de reflexos associados. Reproduz sob uma forma científica e moderna os processos usados desde sempre pelos domesticadores de animais. Na formação destes reflexos, estabelece-se uma relação imediata entre uma cousa desagradável e uma cousa desejada pelo sujeito. Um toque de sino, um tiro, e até uma chicotada tornam-se para um cão sinónimos de um alimento de que gosta. O mesmo sucede com o homem. Não se sofre a falta de alimentação e de sono que exigiria uma expedição a um país desconhecido. O sofrimento físico facilmente se suporta, se acompanhar o sucesso dum longo esforço. A própria morte sorri quando associada a uma grande aventura, à beleza do sacrifício ou à iluminação da alma que se abisma no seio de Deus». 456
O trabalho de criar reflexos nas crianças merece todo o esforço do educador — uma vez conciliado este assunto com o que fica dito sobre a criação de hábitos e convicções. 457
  
  
  

AMUOS

 
  
  
Não se devem admitir amuos nas crianças, excepto quando são uma forma de legítima defesa. A criança, débil, sem força para se desagravar ou defender das autênticas injustiças, amua por vezes. Mas os amuos quase sempre revelam um princípio de orgulho que é preciso combater implacavelmente, ou pelo menos revelam uma falta de educação. Nada de mais antipático do que uma criança que amua: Torna-se aborrecida, sempre inadaptada, deseducada e orgulhosa. 458
Isto, que ao princípio será fácil de corrigir com uma observação ou um castigo, tornar-se-á um dia quase impossível: E o pedagogo será o responsável por tudo que resultar da sua falta de actuação no tempo devido. 459
Os amuos encobrem um mundo imenso que nunca se chega a descobrir inteiramente. Seria interessante um estudo feito no sentido da explicação integral dos amuos — ver o que atrás deles se encontra. Em tudo se toca com aquele infinito desconhecido. E a nossa pior e mais funesta ignorância é passar pelas fronteiras desse mundo desconhecido que nos cerca constantemente, sem o pressentir e julgando até que tudo conhecemos. 460
  
  
  

TREJEITOS

 
  
  
Admitir nas crianças certos trejeitos físicos é dar lugar a hábitos difíceis de corrigir. 461
Uma simples brincadeira, repetida, pode originar um hábito. Uma necessidade de qualquer movimento, se começa a repetir-se muito, pode degenerar também em hábito desfeiante. Assim, meter os dedos no nariz, nos ouvidos, roer as unhas, mexer na cabeça, espreguiçar-se, e mil outras coisas, se se permitem, em pouco tempo se tornam hábitos dificílimos de corrigir. 462
  
  
  

BRINCADEIRAS DE NAMOROS

 
  
  
Banir conversas impróprias e brincadeiras de namoros — eis outro aparente pormenor para que quero chamar a atenção. 463
Os adultos abusam da candura infantil: Têm na sua presença conversas e dizem palavras inconvenientes para a sua idade sob pretexto de não perceberem. Ora, se as crianças não percebem (o que às vezes é falso), fixam e virão a perceber antes do que era necessário e não pelo método aconselhado. 464
Outro abuso é o das brincadeiras de namoros: — Olhem que par! — Estão mesmo um para o outro! — Hão-de casar-se! — E chegam mesmo a simular namoros e casamentos. Isto, ainda que não tivesse outras consequências — torná-las maliciosas, dar-lhes conhecimentos precoces e por meios menos recomendáveis, etc. —, tinha pelo menos o grave inconveniente do exemplo péssimo de brincar com cousas sérias e santas e de habituá-las a tal. O matrimónio é sagrado e o noviciado para ele também. É preciso criar no educando esta convicção e não é com tais brincadeiras que se cria. 465
É preciso banir os sorrisos maliciosos ao falar do matrimónio e encará-lo com respeito semelhante àquele com que se encara a Ordem ou a profissão religiosa. Fosse esta a mentalidade que se criasse nos educandos e diminuiriam os pecados sensuais — insultos repugnantes ao ideal do Matrimónio. 466
  
  
  

PLEBEÍSMOS

 
  
  
Por amor da nossa língua e da boa educação, banam-se todos os plebeísmos ou deturpações de nomes comuns. Por exempIo: Não se admita que a criança diga: — Ó cousa! — Dá-me a cousa! — A cada objecto há-de dar o seu nome. Não se satisfaça também um pedido sem a criança ter pronunciado as palavras e frases com a correcção própria da sua idade e desenvolvimento: Admitir-lhe uma linguagem peculiar ou repetir as suas asneiras é erro crasso que muito atrasa o seu desenvolvimento. Não se admitam ainda os plebeísmos propriamente ditos: — Pá! Bestial! etc. 467
  
  
  

DIMINUTIVOS

 
  
  
Por amor à verdade, ao bom gosto e a um esclarecido sentimento, banam-se os diminutivos e deturpações de nomes próprios. Por exemplo: Milú, Nini, Neca, etc., ou sopinha, arrozinho, pãozinho, etc. — torna a criança efeminada e piegas. — Mamã, papá — pelo mesmo motivo deve ser substituído por mãe e pai, nomes de inexcedível beleza e ternura. Que cena jamais observamos com maior ternura do que a do encontro de Jesus e Madalena depois da Ressurreição? E, todavia, que palavras pronunciaram ? — Maria. — Mestre. 468
  
  
  

COMENTÁRIOS INDISCRETOS

 
  
  
É uma estupidez contar as graças e habilidades das crianças na sua frente, pois além de todas as outras influências, perdem até a sua simplicidade e beleza. 469
As crianças devem ser o alvo das nossas atenções, porque o merecem de facto — são fontes inesgotáveis de lições de toda a ordem e de candura sem igual. Mas não o devemos dar a perceber para as não tornar egocentristas, vaidosas ou acanhadas. Com os nossos reparos podemos tolher a livre expansão e desenvolvimento infantis. 470
  
  
  

BRINCADEIRAS DEFORMADORAS

 
  
  
Devem evitar-se brincadeiras de ladrões, guerras e cousas semelhantes, pois vai influenciar na formação do carácter. Em vez dessas deformadoras brincadeiras, devemos orientá-las no sentido de fazer surgir e fomentar as tendências técnicas, o gosto artístico, o amor pelo cumprimento dos deveres, etc. De tudo pode tirar o pedagogo lições e tudo pode orientar para a grande obra da educação. 471





1

Dr. Álvaro Madureira, em Tudo pela Vida, pág. 50, diz que a lei da renúncia consiste em «renunciar ao menos para conseguir o mais». De facto, nós quando renunciamos a um bem é sempre para conseguir outro maior. Em Cristo, todavia, não se verificou esta lei: A renúncia de Cristo seguiu outra lei só compreensível pela loucura do Seu amor. Ele próprio era muito maior valor, infinitamente maior valor do que toda a Humanidade, e todavia morreu por ela: Renunciou a Si mesmo para conseguir a nossa restauração na Graça. Renunciou ao mais para conseguir o menos: Tal é a loucura da Cruz.

2

Sobre o assunto remeto o leitor para quatro artigos publicados nos números 2, 3, 4 e 5, de Junho, Julho e Agosto de 1944, da revista da juventude Escolar Católica — Flama (Redacção: Campo dos Mártires da Pátria, 43, Lisboa) - sob o título Rasgos da «Juventude Nova» e o subtítulo Trinta cilícios.

O exemplo da juventude argentina merece especial atenção aos nossos educadores e educandos.
















VI

 
 

EPÍLOGO

 
 
   
 
  . 










    
 

 
    


Actualizações



Alterações realizadas:
Data
Ajuda nas ligações dentro do OTHELANA 5
15/02/2014
Excursos - Alguns Aspectos da Escola Nova 4
18/11/2013
Reestruturação das notas 3
29/11/2012
Novo layout do OTHELANA 2
27/01/2010
Breves indícios de OTHELANA 1
01/04/2006