Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro

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OVETEKULA



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Arquivo Histórico de Moçambique

2000




    
   
 
    


Índice




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Primeira Parte



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CAPÍTULO PRIMEIRO



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A mesma hesitação de há vinte e quatro anos: que pode interessar, a pessoas que vivem em ambientes tão diversos e com preocupações tão divergentes, a minha última viagem a Angola ou o meu primeiro abraço a guerrilheiros e guerrilheiras que, há décadas, tentaram a libertação de Moçambique? 1
Indecisão
Valerá a pena desenterrar dos milhares e milhares de papelinhos que me cercam aquelas quatro folhas escritas na euforia da última terça parte de 1974? 2
Utilidade
Dos sorrisos maliciosos de quem me considere ingénuo – já devo estar vacinado, não fora eu (ou não pretenda ser) discípulo do Aquinense, que já há séculos nos recomendava, ao menos com o exemplo, não temermos as troças que os idealistas (e dualistas) fariam do nosso realismo (agora diríamos materialismo dialéctico). 3
"Ingenuidade"
O que me preocupa não é esse desfasamento de ideologias – vivências globais das minorias satisfeitas e das maiorias carentes. O que me preocupa é escolher, de entre esses montões de papelinhos, aqueles que vale a pena serem repensados ou mais urgentemente devem ser repensados para dar o meu contributo à construção do presente e do futuro que, em solidariedade com essas maiorias, pretendemos. 4
Escolha
No meio de grandes ou pequenos acontecimentos, quem sabe se não há um ou outro pormenor que passe desapercebido até a astutos historiadores e que o pensador seja capaz de destacar para explicar fracassos passados e evitar futuros, e para facilitar tácticas mais realistas? 5
Apreender o desapercebido
E todos os anos penso e desconsigo enviar algumas linhas para os leitores do FRATERNIZAR. 6
Adiamento
Este ano, porém, depois do que me foi dado viver em S. Pedro da Cova e em Oliveira de Azeméis, não tenho direito de hesitar mais. É a força que vem do Quarto para o terceiro mundo. 7
Força radiante daquelas operárias
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Tinha estado acampado na Galiza (fins de Julho, inícios de Agosto de 1974) e tinha visitado pela primeira vez a Madeira, Porto Santo e grande parte das ilhas dos Açores. O regresso a Quelimane urgia, porque o trabalho político não podia esperar mais e eu não resistia sem passar uns dias em Angola, aliás como era meu costume nas poucas vezes em que, até a independência, me deslocava ao hemisfério norte ou regressava ao sul. 8
A frátria à espera
Logo em Lisboa, porém, fiquei retido no Hotel Altis devido à greve dos TAP. É claro que aproveitei o tempo para rever os amigos de Lisboa. Estive uma tarde com o Fernando e a Rosália (de Moçambique); outra, com o Fernando (do Hotel do Porto), o Luís (irmão dele) e os pais, na residência de cascais. Visitei os pais do Rui Afonso; encontrei na Avenida da Liberdade o Rui de Sousa, aquele amigo que viveu em nossa casa (na Manga) e que já há uns dezoito anos não encontrava nem sabia onde parava. Contactei livrarias e sobretudo o Centro de Informação e Documentação Anticolonial (CIDAC), hoje Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral. 9
Greve proporciona encontros
Em Luanda, logo no primeiro dia, tive de dactilografar uma participação às Forças armadas referente a uma agressão nos muceques de que resultou a morte de um negro e o ferimento de um outro. Isto mostra-vos como fui bem aceite por pessoas que ainda há minutos desconhecia. Logo que se certificavam de que eu estava com o MPLA, sentia-me entre amigos e amigas. 10
Pátria é onde se luta para que se converta em frátria
Na Universidade e no Liceu tive vários encontros; e mais de uma vez comi no meio de estudantes, operários e deslocados de várias raças e de várias condições sociais, todos unidos pelo ideal revolucionário. Estive com a Clara Gonçalves (que havia conhecido na Beira, à ida, e que estudava na Holanda e na Bélgica). Vi rapidamente a Sara, amiga do Alípio, e parece que ficou a gostar imenso de mim. É interessante que já no ano anterior era para a ter visitado, mas temi a insipidez de um encontro sem profundidade: afinal bastaram poucos minutos para sintonizarmos. Estive com a Celina e o Fernando, que teimaram para que eu passasse em casa deles o último fim de semana. 11
A felicidade dos encontros
Mal sabiam que havia de ser um triste fim de semana (o de 7 a 9 de Setembro de 1974), estragado logo no jantar de Sábado, quando o criado do restaurante, muito contente, nos transmitia as notícias de Lourenço Marques: golpe de estado levado a efeito por Kaúlza e Jorge Jardim – uma deturpação do movimento de "Moçambique Livre", levado a cabo pelos Dragões da Morte e que pretendia a independência unilateral (à rodesiana). 12
Balde de água fria
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Mas, antes desse fim de semana, fui ao sul de Angola: estive com o Júlio (estudante de Direito) no Lobito; os pais convidaram-me para ficar em casa deles; no dia seguinte fui com ele a Benguela, e mais uma vez confirmei o que havia dito acima: no fim de uma conversa com um camarada que via pela primeira vez, e como ele não pudesse ausentar-se do banco onde trabalhava, pegou nas chaves do seu carro, e entregou-mas para visitar a cidade, apenas pedindo que ao meio dia lhas restituísse, para ir almoçar. Até me sentia em Moçambique, no meio de pessoas conhecidas há um quarto de século. Ali, porém, havia mais do que vinte e cinco anos de conhecimento, que até poderiam não significar nada: havia o ideal revolucionário – MPLA e FRELIMO são a mesma coisa, o povo que toma consciência de que tem de passar de objecto a sujeito da própria história. O FNLA e a UNITA não têm qualquer representatividade, senão dos reaccionários: aquela parece que representa interesses americanos; esta, europeus. Quanto à Quarta Força surgida em Angola, não passa de interesses capitalistas dos portugueses e brancos radicados na Colónia e que não desistem dos seus privilégios. 13
No sul, a mesma camaradagem
Em Moçâmedes, para onde parti, de novo sozinho, de Benguela (via Sá da Bandeira), deveria encontrar-me com a Néné e o Zézé. Mas não os avisei, devido à irregularidades dos aviões. Calculai como fiquei desolado quando soube que haviam partido para o Lobito (donde eu vinha) exactamente nesse dia. 14
Tristeza do desencontro
Mas gostei imenso de ter estado em Moçâmedes: o deserto, com as suas miragens (que tive a sorte de ver) e a célebre flor welvitsch, proporcionou-me momentos extraordinários. Fiquei em casa de uns missionários goeses, jantei um dia com os pais da Néné (digo, com a mãe e o padrasto), e tive vários contactos que me ajudaram a conhecer a realidade de Angola naquele extremo sul. 15
Fascínio do deserto
E regressei a Luanda, onde me aguardavam a Celina e o Fernando. Fui à praia com eles e com umas amigas e amigos, passámos uma tarde a passear e a jogar a sueca, tudo magnífico, se não foram as notícias que de hora a hora escutávamos de Lourenço Marques. A simpatia com que a Emissora de Luanda falava do movimento e a alegria dos brancos de Luanda (com excepções, evidentemente) mostrava-me nem o foco reaccionário em que estava. 16
Fim de semana de incertezas
Na minha longa mesa de restaurante, por exemplo, só a Celina e um rapazinho recém-chegado de Portugal (depois soube ser um oficial do exército) é que se mantinham do lado da FRELIMO todos os outros, mesmo os que até aí a aceitavam, começaram a dizer tamanhas enormidades que me pareceu melhor ficar calado. Mas, no fim do jantar, embora em Luanda, nessa altura, fosse perigoso exteriorizar ideias revolucionárias, interpelei um por um:  –Você explora os pretos? –Não. –E é explorado pelo seu patrão? –Sou. –Então, por que faz essa figura de se aliar aos exploradores em vez de se unir aos explorados? 17
Os convictos e os oportunistas
Aos poucos e poucos, fui verificando que não havia em Lourenço Marques qualquer tomada de poder, mas apenas a tomada da Emissora, com a passividade e conivência das tropas portuguesas. O Acordo de Lusaka, inegavelmente obra prima jurídica, tinha de se cumprir. 18
O direito vence
Segunda-feira, 9 de Setembro de 1974, passei a manhã com a Aránzazu e outras dominicanas (que tiveram de abandonar os Muceques), e, à tarde, iniciei a viagem para Moçambique. Horas de espera dentro do avião sem sabermos qual seria o nosso destino. Os aeroportos de Lourenço Marques e da Beira ou estariam fechados ou não ofereceriam segurança. Era um jumbo, e com poucos lugares vagos. 19
As incertezas de um voo
Finalmente partimos para a Beira, mas, trinta minutos antes da hora de chegada, avisam que vamos aterrar... não na Beira ...nem em Lourenço Marques, mas na Rodésia! Já me imaginava refém de Moçambique Livre. Um rodesiano big percorre as cochias. Ninguém sabe o destino. Finalmente noticia-se a partida para o aeroporto da Beira. Nunca desejei tão pouco estar em Salisbury: noutra circunstâncias, até seria agradável experimentar mais um hotel. 20
Desvio para a Rodésia
E finalmente chegamos à Beira, já de noite, bem vigiados pelas forças armadas  e  sem ninguém ou quase ninguém a esperar-nos. 21
Desembarque sombrio
Escolhemos os hotéis (desta vez fui para o Embaixador, para, um ou dois dias depois, mudar para o Estoril, indo comer ao D. Carlos), e logo fomos avisados de que nada se sabia sobre os nossos destinos: todos os voos estavam cancelados. A Beira estava em greve, forçada pelos reaccionários, a tensão era fortíssima. 22
Hospedagem forçada com limite incerto
Passei uns dias com o Alípio, a Domínica (que estava em casa da Neca) e os amigos que ia visitando: Comitis, Morgados, Corte Reais, Resendes, e aquele casal (já com filhos bem crescidos) com quem tinha viajado desde Lisboa até a Beira de 29 de Setembro a 3 de Outubro de 1950; e até encontrei pela última vez o Miguel Murupa, já de abalada, antes que fosse tarde demais... A reacção foi cedendo, os voos restabelecidos, e pude regressar a Quelimane, onde o Governador se tinha mantido fiel ao Acordo de Lusaka, o que lhe valeu, até o momento da partida, há dias, os maiores elogios da FRELIMO. (Escritos meus de 2 de Dezembro de 1974.) 23
Desanuviamento e encontro
A reacção aqui, de facto, tinha-se limitado a uma manifestação e pouco mais. O suficiente para se ficarem a conhecer melhor as pessoas. Os estudantes e os capuchinhos de Bari, com destaque para o Prosperino, evitaram um recontro entre frelimistas e reaccionários, que poderia ter sido sangrento. 24
Também Quelimane sob tensão
O Doménico (missionário dehoniano a quem tinha emprestado o carro durante os dois meses de ausência: Julho e Agosto) iniciou com os jovens um belo trabalho de alfabetização (segundo o método de Paulo Freire) nos subúrbios. Nunca vi em Quelimane um grupo tão grande de rapazes e moças de todo as raças (e tanto universitários como liceais e técnicos) inserirem-se com tanta disponibilidade no seio das populações e colocarem-se à usa disposição. 25
Mas o trabalho político continuou, intenso
Esse trabalho continua, mesmo depois da retirada dos universitários, e já vamos no 3.º curso de alfabetizadores (Novembro de 74). O Doménico teve de retirar para o Alto Ligonha, mas tudo continua. Eu tenho trabalhado sob a orientação do grupo base, quer no apoio às reuniões e aos cursos, quer na visita aos círculos de cultura (espalhados pelos subúrbios), quer numa deslocação a Mocuba. Sob o signo da revolução, tudo se vai fazendo com método, entusiasmo e alegria. 26
Alfabetização funcional e transformadora
Cada um procura desenvolver em si o espírito revolucionário e extirpar tudo quanto ainda permaneça de reaccionário. As sessões de crítica e autocrítica são admiráveis, porque aí tudo se afere pelo ideal que nos une. Faz-se uma revisão completa às nossas atitudes sem acepção de idades, instrução, classes, raça, sexo, etc. e sem sombra de qualquer ataque pessoal (o que seria uma atitude reaccionária e, portanto, prejudicial à revolução, como é evidente e contra o que Mao nos põe de sobreaviso). 27
Luta também interior
Numa viagem, por exemplo, fizemos a reunião de crítica e autocrítica à primeira sessão política. Uma militante (a Natércia, salvo erro) sugeriu que a análise não incluísse apenas essa sessão, mas começasse pelo momento em que saímos de casa e entrámos na automotora. Tinha razão: também no comboio revolucionário tem de saber ser revolucionário. A dinâmica revolução-reacção é de um poder transformador total. 28
Revolucionários também no comboio
Com o Acordo de Lusaka terminou a luta armada, mas a luta revolucionária continua – tinha-nos dito Bonifácio Gruveta, em 17 de Setembro de 1974. Revolucionário é todo aquele que trabalha cientificamente para que todo o povo cresça, evolua harmonicamente, no seu conjunto, segundo as leis da cibernética. Reaccionário é todo aquele que impede, estorva, retarda essa evolução. Moçambique agora é um povo que vai deixando de ser instrumentalizado, reificado, coisificado, para se tornar sujeito consciente e activo da sua própria história. É esse o significado dos círculos de cultura espalhados pelo subúrbios: pequenos grupos que se vão consciencializando, a revolução levada ao recôndito dos bairros populares e ao íntimo de cada pessoa. 29
Felicidade de trabalhar às claras
Quem diria que haveríamos de trabalhar à luz do dia e com o apoio governamental, quando ainda há pouco só clandestinamente o podíamos fazer! O primeiro curso que se realizou para animadores foi em Janeiro passado, sob riscos incalculáveis. Livros e apontamentos circulavam com os máximos cuidados. O nome de Paulo Freire era evitado. Há cerca de dois anos conheci o método. Há cerca de um ano fez-se a primeira experiência em Quelimane. A de Vila Pery havia sido suspensa, porque a repressão avançava e temia-se a descoberta desta poderosa arma revolucionária: a conscientização. 30
O que antes era clandestino... agora é legal e oficial
Mas não expliquei quem é o Doménico, referido atrás, nos parágrafos 25 e 26. Deve estar em Moçambique desde 1973, e logo em Nampula (onde se iniciava para o trabalho missionário) sofreu a perseguição da PIDE, tendo ficado sem o dente do siso com um murro dado dentro do jeep em que ia detido. É um dos meus maiores amigos, embora pouco tenhamos convivido. Segue a linha da não-violência activa. É uma simpatia tal que, só por o ter apresentado, uma vez, na rua, a um jovem, logo foi acolhido no meio da juventude revolucionária. E desse encontro resultou o que acima contei. Seria um grande apóstolo entre a juventude (e não só entre a juventude). Mas obrigaram-no a ir para o mato. Pelo muito amor que os superiores têm às populações do interior? Oxalá tenha sido esse o raciocínio! 31
Um não-violento activo
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Estes apontamentos de viagem são extraídos de uma carta escrita em 2 de Dezembro de 1974, que provocou as mais diversas reacções, desde a crítica virulenta à silenciosa indiferença, e também ao aplauso de quem vivia e ainda vive (ontem mesmo o confirmei) o ideal da libertação do povo. 32
Arquivos sem poeira
Só que há vinte e quatro anos, tínhamos o apoio oficial e até a protecção de guerrilheiros e guerrilheiras (não confundir com guerreiros), e agora temos de remar contra a maré, desprotegidos e no meio dos riscos constantes de um império: único (o muro não foi derrubado?), 33
Derrota definitiva?
-     globalizante (os excluídos contam?),  
-     fim da história (terminadas as privatizações, quem se atreverá a continuá-la?),  
-     democracia perfeita (a hipocrisia não é a verdade?).
Riscos? Nulos. Até poderemos dizer e, talvez, fazer tudo... desde que: 34
Riscos?
-     não insistamos demasiado nos muros emergentes e bem mais altos do que o de Berlim,  
-     não perturbemos a globalização com os "inexistentes" excluídos,  
-     não tentemos que esses excluídos se tornem sujeitos de uma história que está a Terminar tão lindamente sem eles,  
-     não caiamos no "absurdo" de querer estender os direitos humanos a "inexistentes".  
Riscos? Chegados à perfeição da democracia, só loucos podem desejar continuar a caminhada da história, e loucos só têm cabimento em estabelecimentos adequados. 35
Conde Ferreira
No Extremo-Oriente, antigo companheiro de luta (companheiro e professor, porque na altura parecia bem mais adiantado do que eu) apelidou-me de exagerado e excêntrico (...por ter sido seu bom discípulo?). Talvez por compaixão, não me apelidou de louco; mas é claro que o exagero é meio caminho para a excentricidade, e esta para a loucura. Não foi assim que Cristo com tanta insistência mereceu essa acusação por parte dos colaboracionistas (ora por oportunismo teórico ora pragmático) do império da altura e sobretudo por parte dos familiares e conterrâneos? E não será por isso que nas homilias se silenciam ou contornam... os exageros, as excentricidades e as loucuras das propostas evangélicas?


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Caminho para a loucura
Polana, Maputo, 15 de Novembro de 1998.  




    
 

 
    


CAPÍTULO SEGUNDO



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17 de Setembro de 1974: de manhã, uns três carros (grupo dos democráticos, grupo dos estudantes, grupo dos capuchinhos de Bari, assim chamados pelo local de reunião) dirigiam-se ao Irrua (Cerâmica). Além destas poucas pessoas, apareceu também o Intendente, dois oficiais das Forças Armadas, um fotógrafo e três jornalistas. Quelimane nem sonhava com o que se ia passar. 37
O grande dia para Quelimane
O sol já estava alto quando alguns carros e um machimbombo, vindos da base de Milange (aberta, salvo erro, em 1 de Julho anterior), transportavam alguns chefes da FRELIMO e, talvez, uma meia centena de guerrilheiros e guerrilheiras. Pararam ao pé de nós, abraçámo-nos naquele abraço que há anos esperávamos, naquele abraço preparado com tantos riscos e tantos sofrimentos. 38
O grande abraço
E, sem perda de tempo, todos avançámos para Quelimane, no meio de cânticos revolucionários, com a bandeira de Moçambique desfraldada, numa comoção, numa alegria e num entusiasmo que talvez há séculos se não vivia. Da cabine, subi para cima do Jeep. O espectáculo era único. À medida que avançámos, via-se toda a gente, que, ao longe, trabalhava nas machambas, largar tudo e correr para a estrada a saudar as Forças Populares de Libertação de Moçambique. À medida que nos aproximávamos de Quelimane, o espectáculo tornava-se sempre mais grandioso. Muitos conseguiam saltar para os carros. Todos acorriam à nossa passagem. 39
O grande desfile... improvisado
De súbito, o cortejo – já enorme – pára.   Entreolhamo-nos:  –Que foi? Estávamos em Namacata: Bonifácio Gruveta, o comandante das FPLM e, depois, governador da Zambézia, vai abraçar a mãe, que já não via desde o início da luta armada. Todos nos sentimos emocionados. Mas foram só breves minutos. Urgia entrar na cidade. E, alguns quilómetros depois, eis-nos a percorrer apoteoticamente as ruas de Quelimane. 40
O encontro com a mãe
Os europeus estavam espantados com o que viam. Chegados ao recinto do edifício das repartições do governo, alguns chefes guerrilheiros e guerrilheiras assomaram a uma varanda do prédio Bulho e falaram à população. Foram homens e mulheres que libertaram Moçambique; e, pelo Acordo de Lusaka, jamais haverá discriminação sexista – como costumam dizer as minhas camaradas de alfabetização. Foi o primeiro comício em que tomei parte em Quelimane. 41
O grande comício espontâneo
Parte dos guerrilheiros ficou no quartel. As guerrilheiras e os chefes com alguns outros guerrilheiros ficaram hospedados no convento dos capuchinhos de Bari durante cerca de quatro semanas. Eu quase todos os dias ia lá jantar. Durante anos que evitei comer com os opressores. –Sabes por que confiamos em ti? – perguntava-me por aqueles dias uma companheira de trabalho negra, para logo responder ela mesma:  –Porque não comias com eles. Agora sentia uma alegria imensa em comer com os libertadores. Pouco conseguia falar com eles, porque trabalhavam desalmadamente nas sessões com o povo, na vigilância, nos contactos com as autoridades ainda em exercício. Mas pelo menos às refeições podia ouvi-los e, no fim, tomar parte nos colóquios. 42
Hospitalidade capuchinha
O Stefano, que por vezes aparecia no fim do jantar, dizia-me: -Estes  serões parecem mesmo os dos primeiros franciscanos. 43
Semelhança de ideais
E o Clarindo e outros que conheciam os revolucionários da América latina já me tinham falado da mística do guerrilheiro. Mas agora pude senti-la de perto. A primeira preocupação, ao chegarem à cidade, além da segurança, foi o não se deixarem contaminar, o não se deixarem corromper. A corrupção, porém, não vem só do álcool, da suruma, da prostituição ou do suborno declarado. A corrupção vem de certos convívios, de certos convites que se aceitam, de certas lisonjas, de certos presentes, de certas delicadezas. Contra tudo estavam prevenidos. 44
Mística revolucionária
Mas, longe de ficarem numa atitude negativa, de medo, contra o que os ascetas chamariam pecado (primeira via da santificação), os guerrilheiros vinham com a grande preocupação de aprender do povo (via iluminativa) e identificarem-se com o povo (via unitiva). A FRELIMO é o POVO. Não está Cristo em tudo isto? E, se lhes falta o Evangelho, conseguirão manter-se nestas alturas? 45
Através de uma ascese popular
A Igreja local e a Igreja de Roma estará, com os homens que a servem, à altura desta missão libertadora e salvadora? Por que será que, nesta emergência, Mao convence e Cristo não, quando afinal a verdade e a eficácia de Mao está exactamente na parte (grande parte) que coincide com Cristo? Será porque a Palavra evangélica já não tem força ou porque os evangelizadores a deturpam, a retorcem, a escondem? A reacção da hierarquia continua a ser aflitiva. Seremos capazes de também a ela levar a revolução? 46
Hierarquia: colaboracionista antes, do contra agora
De 18 a 21 de Novembro de 1974 estive em Morrumbala no Capítulo regional dos Capuchinhos de Bari, presididos pelo Provincial, que no ano anterior me havia hospedado no convento de Santa Fara (na cidade de Bari, no sul da Itália). Ajudei-os na elaboração do documento sobre a Pobreza, e devia regressar logo na Terça ou Quarta-feira, quando, com grande espanto meu, até da parte dos velhos me vieram pedir para ficar até o fim. Eu sabia que os novos apreciavam a minha actuação; mas que os veteranos, além de me suportarem, Quisessem a minha presença em actos tão íntimos como são os capitulares, foi uma grande surpresa. Vim edificado com aquela abertura: um capítulo, antigamente reservado só a frades, e da mesma ordem ou até só da mesma província, agora activamente participado por religiosas e outros elementos leigos de ambos os sexos. Também lá estavam dois jovens americanos: o Bernardo, missionário leigo na Morrumbala, e a Katy, missionária leiga no Luabo. Gostei muito de rever esta última, que tinha chegado em angustiantes momentos do início do ano. 47
Um capítulo que aceita colaboração exterior
O Norberto já regressou de Espanha e está como professor no liceu. Ensina Filosofia, História e Geografia. Moçambique é uma nação não pluri-racial (como antigamente se dizia, partindo logo da diversidade de raças), mas anti-racista (isto é, onde se não faz acepção de raças, onde se olha apenas para a pessoa humana e para as suas qualidade e dignidade). Moçambique é o primeiro país de língua oficial portuguesa (não sei a Guiné-Bissau, que nos antecedeu com a sua independência unilateral em 73) que reconheceu igualdade absoluta de direitos a ambos os sexos. Que eu saiba, nenhum país europeu ainda o conseguiu, embora já haja outros países africanos que a decretaram após a independência. (Note-se que escrevia em 2 de Dezembro de 1974.) Moçambique é uma nação onde todos têm lugar, desde que não sejam reaccionários. Quem quiser privilégios ou não desistir deles é melhor que saia e não volte. Os revolucionários, pelo contrário, devem regressar urgentemente. São precisos. Fazem falta. Agora para Moçambique, amanhã para a libertação dos países irmãos. 48
Nação anti-racista e que supera o sexismo
Tudo quanto tem acontecido a intimidar quadros válidos é obra dos reaccionários, e quer os que pegam em armas quer os   que lançam, acolhem ou propagam boatos, quer ainda os que nada fazem para ajudar na mudança das estruturas coloniais ou ridicularizam o  nosso esforço revolucionário – todos são altamente  prejudiciais e perigosos. Pais e professores, com algumas excepções, são do piorio: continuam a domesticar filhos e alunos. O António José esteve cá, em Quelimane, uns dez dias e trouxe-nos a interpretação correcta de tudo quanto se passou em Lourenço Marques. É claro que qualquer provocação, sobretudo armada, imediatamente excitará as populações e sobretudo as massas suburbanas. 49
Armas da reacção
As tropas estão a ser mandadas embora, segundo suponho. Nunca se sabe onde estão os fiéis ao Movimento das Forças Armadas e os fiéis a Kaúlza. Por outro lado, aqui em Quelimane, aumentaram as Forças Populares de Libertação de Moçambique. 50
Até que enfim: tropas em retirada
Os Dragões da Morte querem lançar o terrorismo urbano, mas estamos atentos, e aqui mesmo temos um comandante especializado em guerrilha urbana, embora todo o treino destes dez anos tenha sido no mato. É claro que os mercenários que ganham fabulosos salários poderão provocar mortes: é fácil fazer explodir uma bomba ou matar à queima-roupa, mas já não impedirão a marcha da revolução. 51
Mas o perigo não está erradicado
A escassez de quadros talvez fosse a esperança dos reaccionários , mas a verdade é que, se assassinarem os dirigentes que cá temos, reforços virão da Tanzania, onde muitos outros trabalham. O Carlos Lobo, por exemplo, continua lá, embora já tenha vindo a Lourenço Marques. 52
Reforços ainda na rectaguarda
Todo o povo está vigilante: agora não são precisos pides. Qualquer manobra será imediatamente detectada e neutralizada. Por outro lado, vive-se um clima de confiança e alegria: o trabalho é tanto que nenhum revolucionário perde tempo com boatos e medos. Só os reaccionários, activos e passivos, vivem no terror. Uns, porque maquinam o mal; os outros, porque, não trabalhando pela construção de Moçambique, passam a vida a lamentar o que pode acontecer de desgraças e a recordar melancolicamente o passado. Que pena não se poderem manter os privilégios em vias de desaparecer! Que pena não poder restaurar-se o passado colonial! E assim vão envelhecendo, como envelhecem todos quantos não acompanham os tempos ou, mais do que isso, não antecipam os tempos. 53
Vigilância, trabalho, unidade
Sobre as testemunhas de Jeová, que eu próprio nos anos cinquenta tanto ataquei, penso que têm muito de válido. Foram os primeiros objectores de consciência em Portugal, pelo menos de uma maneira colectiva e pública e enfrentando os tribunais com a Bíblia na mão. Fazem pela divulgação dos Livros Sagrados o que poucos de nós fazemos. Com esta plataforma tão válida, parece-me que pode estabelecer-se um contacto benéfico, ajudando-as a interpretar melhor os textos sagrados. Aliás, quantos de nós, católicos e protestantes, não os interpretamos ainda hoje fundamentalisticamente? 54
Injusta repressão
E quantos de nós, revolucionários, cristãos ou não, quantos de nós, no meio desta euforia de 74 e 75, não guardávamos, no íntimo, germens de reacção, que em breve se manifestariam, e que a preconizada luta interior não conseguiu erradicar? 55
A reacção mais perigosa
Por isso, João Honwana, com uma lucidez empolgante e uma juventude contagiante, não se cansava nem nos cansava – tal era a sua eloquência – com as suas longas análises e oportunos alertas, sempre em fraternal diálogo. 56
Um comandante esclarecido
De facto, não existem revolucionários a um lado e reaccionários a outro: a linha divisória passa por dentro de nós mesmos. 57
A fronteira que nos divide
Penso que valeria a pena recordar algumas dessas manifestações, porque a culpa do que veio a acontecer não foi só dos outros... 58
Para evitar as mesmas quedas no futuro
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Queria, no entanto, centrar-me no 17 de Setembro de 1974, nesse dia de euforia, de encontros inesquecíveis, de início de uma nova etapa de trabalho revolucionário, sério e entusiasmante. 59
No meio de tanta alegria
Nesse mesmo dia, no meio de toda aquela alegria jamais vivida no meu primeiro meio século de vida, uma conversa com o comissário político, no meio da tarde, no terraço do convento dos capuchinhos, deixara-me reflexivo, reticente, preocupado. O assunto, parecendo banal, colidia com a essência da própria revolução. 60
Uma sensação de tristeza
Noutra data não muito distante (mas que dificilmente agora determinaria), o Prosperino chamava-me a atenção (não sei se também preocupado ou apenas crítico) para o silêncio revelador (?) daquela que haveria de ser a primeira dama (que expressão tão pouco revolucionária!) perante uma intervenção minha... sempre acalorada, é evidente. 61
Silêncio revelador?
E uma outra cena, essa logo nos primeiros dias em que os capuchinhos hospedaram no seu convento as Forças Populares, também nunca me pode esquecer, embora com sabor a profecia da desgraça. 62
Profecia da desgraça
Um dos comandantes, cujo nome já não me lembro, parecia triste, a reflectir com a cabeça apoiada numa das portas de entrada. Eu passeava na grande varanda o rés-do-chão com uma companheira, sem dúvida a analisarmos os acontecimentos recentes e a planearmos o próximo trabalho. Ao chegarmos ao pé dele, esta logo o interpela: "–Por que estás triste, Camarada?" Olhou para nós, e apenas disse: "–Estava a pensar no revisionismo (...que não tardará)." 63
Revisionismo à espreita
Houve culpas, sem dúvida, e irresistíveis, dos outros, mas nós também as tivemos, e vieram a agir como cumplicidade facilitadora. 64
Cumplicidade facilitadora
E, no entanto, no início, pareciam desvios bem pequeninos ... que mesmo na euforia da queda do colonialismo português (caiu mesmo?) não poderíamos ter ignorado nem sequer minimizado. 65
Insignificâncias que afinal significam
Como a amada, no auge do enlevo do encontro com o amado, mesmo quando este lhe dizia: "–Vê o inverno: já passou! Olha a chuva: já se foi!",  soube  muito bem  retorquir:  "–Agarrai-me as raposas, as raposinhas, que devastam os vinhedos." (Cantares,2,11,15) 66
Raposinhas
Ou como os MAKOLO – os grandes na sabedoria lómwe – não se cansavam de fazer ecoar nos nossos ouvidos: 67
Sabedoria dos inícios
 –NYENYENYE YANYETTIHA MUKUMI WA MMWENE – a chuva miudinha molhou até a manta do rei (BB/136): aforismo em forma de parêmia recolhido por Gian Battista Brentari, aquele gigante na evangelização que, numa empatia invulgar, chegou a falar o lómwe melhor do que a própria língua materna. 68
Chuva molha tolos
E Elia Ciscato, que continuo a considerar o maior antropólogo que temos em Moçambique, e prossegue a evangelização do povo no norte da Zambézia (mas, por outro lado é pena que não ensine numa das nossas universidades), na sua ainda muito mais vasta recolha de dizeres comuns, tem dois aforismos que não deveríamos ter esquecido naqueles dias de euforia: 69
Valor bem aproveitado?
–ON’KHWELA MUNYEPU WA VATE – o coelho morre por causa da erva fresca do quintal (458/C). Quer dizer, até as pequeninas coisas, às vezes, fazem sofrer muito: podemos morrer por causa daquilo de que mais gostamos. 70
Até o coelho caíu
E de que é que mais gostamos? O que é que mais invejávamos no colonizador e nem sequer ousamos tentar extirpar das nossas mentes? 71
Servir ou ser servido?
Ter moleques – a grande tentação, a inexpugnável tentação, porque nem consentimos considerá-la como tal. Tabu, embora inconsciente em muitos, nas sessões de crítica e autocrítica. E, pior ainda, tentando justificar marxisticamente, como os cristãos com tanta frequência tentam justificar evangelicamente as maiores aberrações. 72
Vocação revolucionária ou de ser patrão?
–WAHULA MURUPA – uma desfiadura rasga a mochila (124/C).  ...E, na euforia do primeiro abraço entre as Forças Populares de Libertação de Moçambique e o povo do Chuabo, nem deu para reparar na desfiadura que começava a rasgar a mochila! 73
Rasgão visível começa em desfiadura desapercebida
O texto constante dos parágrafos trinta e sete a setenta e três foi elaborado em 2 de Dezembro de 1974, e retocado por uma reflexão que talvez já tenha começado na Zambézia, mas se prolongou a contemplar o Índico, instalado no Polana a saborear um bom café (...não fora eu um razoável edonista), se continuou ainda há dias a sintonizar com as montanhas do Reino da Swazilândia, e finalmente terminou hoje, manhã do segundo Domingo do Advento do Ano A, a 6 de Dezembro de 1998, na solidão do Arquivo Histórico de Moçambique.


74
Localização no tempo e no espaço
Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro




    
 

 
    


CAPÍTULO TERCEIRO



ovetekulap01c03
É fácil de dizer que todas as profissões são boas, necessárias, têm a sua razão de ser, e padres e freiras até são capazes de afirmar que todas são queridas por Deus (que deus?), em todas nos podemos santificar... como se a resignação ao mal ou a estupidez algum vez pudessem ser santificáveis... 75
Todo o trabalho é bom
Bastará, porém, certas situações atingirem-nos, ou sequer tocarem-nos ou passarem-nos por perto... para logo nos indignarmos e praguejarmos: –Que mal fizemos para que tal nos acontecesse? Não merecíamos tal sorte! 76
Para os outros
...é claro
Que profissões, então, entendemos serem intoleráveis? Todas aquelas que nem podemos imaginar para nós ou para qualquer dos nossos filhos ou dos nossos maiores amigos. 77
E se fôssemos sinceros?
E nem é preciso ilustrar o panoramas. Um agente de saúde, a qualquer nível que seja, um construtor de imóveis ou móveis, um arquitecto de exteriores ou interiores, ou um decorador, um agricultor  ou um industrial, um comerciante, um educador ou um professor, um artista, um escritor, um pensador – eu sei lá: tudo isto é pensável para nós, os nossos filhos, os entes mais queridos, desde que se tenha essa vocação. 78
Só o que razoavelmente pode ser apetecível
Mas quem – de mente sadia ou não forçado por circunstâncias premente – pode querer ser engraxador de sapatos, varredor de ruas, porteiro, criado de servir, para já nem falar em carrasco, capataz, espião e tudo o mais que a sociedade exploradora inventou? 79
Nem sadismo
nem masoquismo
Se passarmos destas vivências tão reais em cada um de nós – de com tanta naturalidade acharmos bem que todas essas profissões existam desde que nem sequer seja imaginável que elas sejam ou venham a ser exercidas por nós ou por alguém que consideremos parte de nós mesmos –, se passarmos deste quotidiano para o confronto de tais profissões com a essência da cultura dos diversos povos, teremos então outra série de reflexões. 80
Na diversidade de culturas
Numa cultura greco-romana, que conseguiu assimilar os agora portugueses (e não só) até a medula – pensemos como dos celtas só restam duas escassas dezenas de vocábulos –, aceitar o binómio senhor-servo como fatalidade ou até como ideal é muito fácil. 81
Assimilados até a raiz dos cabelos
Tão fácil que até o aristotelismo repensado pelo tomismo e neotomismo não conseguiu neutralizar o platonismo com todos os seus diversos seguidores idealistas, dualistas, maniqueístas, materialistas mecanicistas.  82
Nem o hilemorfismo vingou
Até a hierarquia católica – que tão zelosamente impunha às suas universidades e seminários a doutrina aquinense (ainda hoje o parágrafo 3 do Cân. 252 do Código de Direito Canónico é explícito) – não resiste à tentação de impingir aos laicos catecismos eivados de platonismo e homilias do mesmo género, que temos de gramar em silêncio e sobre as quais só nos é dado pedir qualquer eventual explicação na sacristia... 83
Graças à cumplicidade das Congregações ditas Sagradas
Engaiolados assim por uma filosofia domesticadora (alma prisioneira do corpo) e uma pastoral mentalizadora, como poderemos lutar pelo realismo contra o idealismo, pelo materialismo dialéctico contra o materialismo mecanicista, pela visão global, clara e distinta do mundo contra o dualismo, pela libertação contra a servidão? 84
Luta inglória
Assim não admira que tão natural e facilmente aceitemos o binómio senhor-servo em todos os sectores da nossa via e do nosso pensamento, e nem sequer nos lembremos de que podemos e devemos destruí-lo, se de facto queremos ser felizes e não nos contentemos com a ilusão de o ser, com a mentira ou pelo menos a falsidade que constantemente estamos a impingir a nós mesmos e aos nossos cúmplices, quando nos reificamos ou reificamos os outros. 85
de consequências lesa-humanidade
E essa dicotomia (senhor-servo) talvez não seja tão indestrutível como parece – não só no campo teórico como no prático. E se para o conseguir, naquele, basta libertar a inteligência pela verdade, neste, basta libertar a vontade pela justiça, porque tanto é injusto o explorador como o explorado – um, por explorar, outro, por se deixar explorar (ainda que seja com o intuito de ser privilegiado...). Tanto um como outro estão a impedir-se de serem felizes. 86
Binómio letal
Se, porém,  um dos termos desse binómio se recusar a sê-lo, automaticamente o outro deixa de poder existir como tal, e a dicotomia destrói-se a si mesma: proposição que, para ser pronunciada, talvez não exija grande coragem, mas que, para ser praticada, pode exigir heroicidade. 87
Solução fácil na teoria...
...martirial na prática
Ao fim de séculos, na cultura greco-romana, ainda se não chegou à conclusão definitiva (alguma coisa é definitiva?) de que o dualismo não é uma vertente dessa cultura, mas simplesmente – ou exactamente – uma anticultura. 88
Anticultura
Na cultura banta, pelo contrário, se tudo parece mais simples teoricamente (tal é a riqueza da sua filosofia!), na prática as coisas cada vez se complicam mais – graças à assimilação galopante, se não em extensão (os camponeses e alguns intelectuais continuam fiéis à própria identidade), ao menos em profundidade, nas mentes dos favorecidos pela economia de mercado, que repudiaram constituir-se em vanguarda para se constituírem em elite. 89
Uma luz donde menos se esperava
Que de uma guerra resultassem escravos, até podia acontecer; mas não definitivamente: por fim, ou regressavam ao seu povo ou se integravam, por opção, na nova comunidade humana. 90
Desvios não definitivos
Que trabalhassem para outrem por solidariedade – é bem patente nos usos e costumes. Que aceitassem o estatuto de trabalho por conta de outrem – não é imaginável (a não ser à força e sempre com relutância). 91
Surge o inimaginável
Que, em vez de trabalho individual ou familiar, se optasse pelo trabalho colectivo – com distribuição do produto proporcionalmente ao trabalho de cada um – tudo muito bem, numa mentalidade genuinamente banta. Trabalho para enriquecer patrão estrangeiro – só por oportunismo (ou à força, evidentemente). Trabalhar para compatriota armado em patrão – só por grande necessidade, mas sempre com grande raiva. Quem enriquece sozinho é demónio – ONRELA  YEKA  MUKWIRI. 92
Só à força
Falta de trabalho? Impossível onde impera a solidariedade, Pode, isso sim, a sua repartição ser viciada. Mas, de um modo geral, todos contribuíam segundo as suas capacidades. 93
Um falso problema, mas rendoso
Que numas épocas do ano haja mais serviço e noutra, menos – isso é natural. Que qualquer melhoria tecnológica diminua a necessidade de mão de obra – isso até é bom. Que, em vez de diminuírem as horas laborais de cada um, se sobrecarreguem uns  e se lancem na inactividade outros – isso é uma aberração na mentalidade banta. 94
Outro absurdo ainda mais rendoso
Que, para comer, se tenham de inventar serviços inúteis ou até prejudiciais ou indignos para o ser humano – isso seria igualmente aberrante. Como aberrante seria trabalhar só para aquecer. Para isso estão as actividades lúdicas: não as profissionais. 95
Trabalho?
Só o racional e livre
Que o trabalho doméstico nem sempre tenha sido correctamente dividido – também é verdade: certos serviços mais para mulheres, outros mais para homens, Mas tudo de tal modo flexível que, mal surja um impedimento, logo a substituição surge sem qualquer dramatismo. 96
Divisão de trabalho
Por exemplo: à mulher compete a cozinha; mas qual o homem (ainda não contaminado pelo vírus da assimilação) que não sabe cozinhar e não o faz nos impedimentos da mulher? 97
Flexível
Mesmo assim, na cultura banta, ainda se não chegou ìndiscriminação profissional, à perfeição de levar a todas as profissões e tarefas as dimensões feminina e masculina. Isso só a revolução – não a colonização – é que nos trouxe. 98
A caminho da perfeição
(Seria bom que reflectissem nisto certas jovens armadas em contra-revolucionárias, que, no entanto, gozam e não abdicam das conquistas dessa mesma revolução que se dão ao luxo de repudiar, como agora passou a ser moda. Facto constatado há muito entre europeias, é doloroso ter de constatar agora entre africanas.) 99
Incoerência também entre as mulheres
Que se saiba, no entanto, também nunca se chegou (a não ser em meios ditos "civilizados") à incivilização – aberração – do homem senhor do mundo, a mulher rainha do lar: ele, só fora de casa, ela, só dentro de casa. No mundo banto sempre a mulher trabalhou fora e dentro de casa, e o homem a mesma coisa, embora em tarefas distintas, como se disse. Assim os vemos: ela a cozinhar, ele a costurar; ela a capinar, ele a derrubar e estroncar; ela com a rede de caça, ele com a zagaia; e até na pesca, naquelas lindas praias de Pemba, nunca me esquece de as/os ver juntos. 100
Os dois géneros sempre presentes
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O problema não está na existência de profissões femininas e profissões masculinas. Nisso estávamos todos de acordo desde o primeiro dia – o tal dia de euforia (17 de Setembro de 1974). O problema estava no âmbito das denominadas (pela revista VIDA NUEVA, de Espanha) profesiones increíbles. 101
"Increíble"
E nem sequer em todas elas. Lembra-me bem como acabámos com explicadores (então os professores que fazem nas aulas?) e guardas nocturnos (então qual é a tarefa dos polícias?). E de como nos chocávamos  com os engraxadores (então cada um não pode limpar os próprios sapatos? então admitimos um ser humano a nossos pés? então não temos tanto trabalho útil a realizar?). 102
Plataforma de acordo
O problema estava nos serviçais domésticos – último reduto do colonialismo que se instalara no mais recôndito das cabecinhas de quem se preparava, afinal, para uma pseudo-independência. Quantos moçambicanos ficariam assim condenados ao servilismo? E agora não para servir estrangeiros: agora os patrões seriam os compatriotas... De um dia para o outro, se dividia de novo o País em senhores e servos. 103
Pomo de discórdia
Esse binómio estava ultrapassado na produção – no projecto emergente de cooperativas e empresas estatais (talvez até não pondo de parte a autogestão). Nas reuniões cantávamos entusiasmados a internacional: 104
Profecia lucana

letra de música
Qual eco materializado do texto lucano:
letra de música
que à tardinha, lá para horas de Vésperas, nos Capuchinhos de Bari, meditávamos profundamente, ora em silêncio ora em voz alta e em diálogo – nós os que, sem deixarmos de ser revolucionários, continuávamos coerentemente a ser cristãos e católicos, em comunhão, portanto, com o bispo.
Também nas relações de género, a satânica dicotomia parecia ultrapassada, embora com certa incongruência na primeira Lei da Nacionalidade – que me fez subir indignado as escadas do Governo Provincial e motivou os protestos de certo sector da O. M. M. (Organização da Mulher Moçambicana), que acabou por vencer. 105
Incoerência de oportunismo político
Também no ensino e sobretudo na alfabetização (salvo o problema das línguas), uma vez que não restavam dúvidas de que todos temos muito a aprender e muito a ensinar. 106
Todos alunos, todos professores
Igualmente na política, com o grande movimento do poder popular a partir do local de residência e do local de trabalho, nas três preconizadas fases: democracia nacional (alcançada com a independência), democracia popular (que esperávamos consolidar numa década) e democracia socialista (não reformista, evidentemente). 107
As três democracias
(Por culpa nossa, e também do império único que emergiu após a queda do muro, nem a segunda etapa pudemos prosseguir...) 108
Derrube que levanta muros mais altos
Mas nos lares, embora a igualdade de direitos dos cônjuges já não fosse posta em causa (ao menos teoricamente), ficava o tal reduto colonialista: os criados disfarçados pela denominação de empregados domésticos. 109
Virose
Bem escondido dos grandes sectores da sociedade – igrejas, estado, família alargada, escolas, empresas, casas de divertimento –, lá estava o binómio senhor-servo: quem descobri-lo-ia? Vírus escondido na célula base da sociedade, passando desapercebido como tal – exactamente como era com a maior naturalidade que ainda há um século até missões católicas porventura teriam escravos, ou como há décadas (e agora não?), no mundo "civilizado", se relegava a mulher nos trabalhos domésticos. 110
Naturalidade "inocente"
Às claras, sim, toda a vida seria participativa: não queríamos nós continuar, agora com a ajuda da ciência e da técnica, o tradicional processo do mundo banto de participação e reciprocidade? 111
Cultura da participação e da reciprocidade
Às claras, sim, era preciso aliar trabalho intelectual e manual, sem complexos, para compreensão mútua e benefício de tudo e de todos. 112
Caminho para a empatia
Às claras, nem sequer imaginar a sobrevivência do binómio senhor-servo, qualquer que fosse o disfarce com que se apresentasse. E éramos fecundos em análises perspicazes. 113
Caminho só parcialmente percorrido
Mas no recôndito dos domicílios... como prescindir do pequenino, do moleque, do mainato, do cozinheiro? 114
caminho para a hipocrisia
Se a mulher trabalha fora do lar, e não é justo trabalhar mais outras oito horas dentro, como na Europa meridional ainda acontece, não há outra alternativa, por mais que seja anti-revolucionária. 115
Desculpa de mau pagador
E depois, já que não se pode ser senhor, patrão, na empresa, pelo menos deixem-nos sê-lo em casa. Dividir as tarefas domésticas entre mulher e marido (ainda que não seja mecânica e matematicamente, como advertia Samora Machel) – isso não calha muito bem, pelo menos ao macho. 116
Escape dos sem convicções
Também se foi dizendo que o Partido permitia, que não era exploração, desde que se pagasse bem (nem salários mínimos se mantiveram!), que os serviçais domésticos não produziam mais valia (será mesmo assim, ao menos indirectamente?). 117
"Aproveitamento" das mínimas frestas
E o vírus ficou e bem activo: num mundo global como o nosso, seria possível acabar com as dominações, se em algum recanto elas continuassem? 118
Vírus político
Na tarde eufórica do 17 de Setembro de 1974, fiquei triste, fiquei triste quando percebi que o Comissário Político das Forças Populares de Libertação de Moçambique, recém-chegadas a Quelimane, não se apercebia da desfiadura que haveria de romper a mochila, de que nos fala a literatura tradicional, nem se dava conta das raposinhas a devastar as vinhas já floridas, de que tão poeticamente nos fala o Cântico dos Cânticos (2,15). 119
Desvio sintomático
A tristeza do outro Comandante a vislumbrar o revisionismo era profética... 120
Previsão sombria
...E eis-nos de novo num país de patrões e servos, de muito ricos e muito pobres, aqueles em quantidade diminuta (os lacaios dos verdadeiros senhores), estes em quantidade crescente (os excluídos) – tudo por obra e graça do império (agora único) que globaliza alguns e exclui muitos, e ridiculariza qualquer utopia ou esperança. 121
Neocolonialismo: quase recolonização
Mas também porque não soubemos levar a sério a descolonização mental, que nos recomendava Samora Machel. Daqueles que o ouviram, quantos se não deixam intimidar pelas armas do império e buscam alternativas? Quantos não desistem do projecto de as riquezas de Moçambique (e são muitas: senão não existiria o saque...) virem a ser participadas, equitativamente, por todos os moçambicanos? 122
Quota-parte da nossa responsabilidade
Vigilância – era uma das palavras de ordem, afinal também de Cristo. Cuidado com as imperceptíveis desfiaduras de qualquer tecido que seja, porque acaba mesmo por rasgar, e cerzir é muito difícil... 123
Palavra de ordem
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No mundo missionário que me foi dado viver durante décadas, constatei, fins dos anos sessenta, princípios dos setenta, como padres e freiras iam participando, indiscriminadamente, de tarefas até aí reservadas apenas a estas ou apenas àqueles. 124
Atitudes proféticas frustradas?
Em meios teórica ou praticamente ateus, presenciei, na intimidade de um lar, como o pai dava banho ao bebé, sem esperar que a mãe chegasse. O primeiro que regressasse do trabalho avançava logo para os serviços domésticos. 125
Ateus profetas?
Actos proféticos infelizmente sem grande continuidade no nosso meio social – nem nos que fazem voto de pobreza (que pobre pode ser aquele ou aquela que se arroga o direito de ter criados?), nem naqueles que se arvoravam em vanguarda (mas em casa nunca se dispensava de ser patrões, e, no trabalho, logo se aproveitaram da mais pequenina abertura do Partido). 126
Involução só transitória?
Todos, no entanto, cantávamos (convictos?):
ACABA O REINO DOS PATRÕES
127
Oportunismo?
Milhões de moçambicanos, porém, continuam a acreditar que pessoa humana – MUTTHU – só aquela e aquele que se esforça por crescer conjuntamente e não isoladamente: os outros, as outras poderão ser indivíduos (demónios, mais exactamente): nunca pessoas. Os que assim pensam e vivem poderão ser os tais excluídos: mas não se excluem a si mesmos! Uma grande virtude quase lhes é intrínseca: paciência activa (não resignação, ainda que pareça). Mais de cinco milhões exprimem-na pela palavra OVILELELA. Os outros dez milhões (também excluídos) devem exprimir essa virtude noutros termos. Acredito na unidade da cultura banta (e não são usos e costumes diferentes que a vão destruir) e na sua eficiência, uma vez servida pela ciência e pela técnica. Acredito nas sementes do Verbo.


128
Palavras com eficácia
Maputo, 27 de Março de 1999




    
 

 
    


CAPÍTULO QUARTO



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Descanço do guerrilheiro




Bonifácio Gruveta tinha sido bem claro naquela varanda do prédio Bulha em Quelimane no histórico 17 de Setembro de 1974: – A luta armada terminou. Iniciamos (continuamos) a luta  revolucionária. 129
Nova etapa da luta
Esta palavra mobilizou-nos a todos, à excepção, é claro, dos saudosistas. E trabalhámos a sério por alguns anos. Mãos dadas ou punho erguido (sabeis o simbolismo destes gestos?), corríamos para o local de trabalho e para o local de residência, para as sessões de esclarecimento ou para os centros de alfabetização, para os cursos políticos (sabeis o que era política para nós?) ou para o trabalho manual. 130
Mãos dadas
punho erguido
Mãos dadas – era a corrente de força pensada e sentida, eficaz e entusiasmante, a circular nas companheiras e companheiros que mais proximamente se aplicavam às tarefas revolucionárias. 131
O elã
Punho erguido – era o sinal de estarmos juntos com todo o povo na luta libertadora. 132
Gesto motivador
Política? Era o sentido de toda a actividade em todas as vertentes. A mesma ciência, a mesma técnica, para nós nunca era neutra (para mim e para muitas e muitos continua a não sê-lo): tanto podia ser revolucionária como reaccionária, consoante visava o bem de todo o povo a começar pelos menos favorecidos ou o dos antigos ou novos privilegiados. 133
Direcções antagónicas
Política da saúde, política da educação, política do trabalho, política da habitação, política das relações internacionais, política financeira... – era o sentido da expressão: a política no comando (posteriormente tão deturpada). 134
Amplitude da política
Era uma luta em todas as frentes, abrangente, profunda: se escolhêssemos bem ou fôssemos bem escolhidos, nenhum de nós podia sentir-se deslocado: eu, por exemplo, realizei-me plenamente na expansão do livro, na orientação dos cursos políticos (com destaque na cultura banta) e na supervisão dos centros de alfabetização. 135
Viver em pleno
A camaradagem que vivemos de 1974 a 1977 foi exemplar: mãos dadas/punho erguido. Não o digo preso ao passado, mas contente com o passado. Hoje vivo outras camaradagens... e o presente é sempre melhor do que o passado, porque aproveita da experiência já vivida, vive novas experiências e está mais perto do futuro. 136
Saborear o presente
Não lamento o que perdi, porque não perdi nada: sempre me enriqueci mais. Sonho com o futuro, porque trabalho com redobrado entusiasmo no presente: gozo o presente, porque, mesmo com as poucas forças que sempre tive (nos meus quinze anos, o médico de família dizia que eu não podia vir para África...), procuro lutar contra o império (do mal: o império é sempre mau). 137
Vida montante
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Neste contexto é evidente que a luta armada era um facto histórico que ninguém queria fosse necessário repetir. Nenhum de nós se atreveria, no entanto, a atirar pedras a quem se lançou nela: quem não compreendia que, de facto, todos os outros recursos pareciam esgotados, que a "legítima" defesa sempre foi apresentada como legítima, que razões sérias levaram os teólogos tradicionais a admitirem a existência de "guerras justas"? 138
Legitimidade
de matar?
Se até teoricamente o recurso à luta armada se "justificava", quanto mais, praticamente, a poderiam justificar as minhas camaradas alfabetizandas (e seus maridos e filhos) que sofreram na pele (não é figura de retórica: é anatomicamente real) os efeitos da política colonial do trabalho? E até eu, que só por transfixão  os sofri... 139
Crucificados e transfixados
Seria de mau gosto e até ridículo armarmo-nos em moralistas e atirarmos a primeira pedra (por pequenina que fosse) a quem recorreu à contraviolência para acabar com a violência – sobretudo se nunca nos tivéssemos insurgido contra esta. 140
Moralismo?
Mais do que isso e mais do que nem sombra de censura,  era até evidente a nossa admiração e o nosso reconhecimento por aquelas e aqueles que tiveram a coragem de se organizar, planear e utilizar os meios de que dispunham para libertar Moçambique do colonialismo. 141
Moral de situação?
E se olharmos não apenas aos fins (os fins não justificam os meios, não é? será?), mas também aos métodos, à maneira de conduzir a guerra, também parece que muito teríamos a admirar, apesar de tudo, comparando-os aos de Kaúlza no terreno, Marcelo ou Salazar, de longe. 142
Meios adequados
aos fins
Por tudo isto, também houve um certo entusiasmo pela luta armada que nos conduziu à independência. 143
Meios inadequados atingem a finalidade?
E, salvo a Índia, graças a Gandhi, quem a conseguiu sem pegar em armas letais? 25 de Setembro de 1964  (primeiro tiro disparado  no mato) – 7 de Setembro de 1974  (dia da vitória). Ninguém pode levar a mal que se festejasse e se festeje a vitória de um punhado de guerrilheiras e guerrilheiros (apoiadas e apoiados pelo povo) sobre um exército – membro da NATO. 144
Duradoiramente?
O pior, no entanto, foi quando, numa espécie de bajulação (como são apetecíveis as boas graças dos vencedores!), se começou obcecadamente a referir a torto e a direito as proezas da luta armada ou os encantos das zonas libertadas. 145
Subjectivismo divorciado da objectividade
E era mais fácil a todos e nomeadamente aos improvisados professores de política relatar a "história" da luta armada do que o projecto político em curso (que talvez até pouco lhes interessasse ou até lhes desagradasse – tais eram as suas ambições mal disfarçadas). 146
Desvios "inocentes"
Lembro-me das "secas" que lhes dava quando apareciam na minha livraria (que durante alguns anos foi de bom tom frequentar, não obstante a sua conotação cristã). 147
Tertúlias ou acção pessoal?
Era o futuro que se impunha construir e não repisar sempre no passado. Este era apenas como alicerce, como lição e, nos aspectos positivos, como inspiração. 148
O conteúdo
E o local não podia ser melhor: palavra confirmada nos textos clássicos e nos discursos recentes – tudo num grande informalismo e até humor. 149
...e o local das
"secas"
E os livros vendiam-se (também era de bom tom possuir uma boa biblioteca revolucionária), e, juntamente com os clássicos ocidentais e orientais (Mao era predilecto), nunca vendi tantas histórias de Moçambique (na época colonial nem existiam...) e tantas Bíblias (na época colonial poucas se vendiam). 150
Moda, mas não só
Lembro-me também, quando preparávamos, salvo erro, o terceiro curso de alfabetizadores, da preocupação do responsável provincial de Educação em saber como a minha equipa o ia orientar. 151
Quadros de alfabetização
–Camarada Carlos (Silva), queremos que as futuras alfabetizadoras e os futuros alfabetizadores saiam dele, além de perfeitamente à vontade nas técnicas de alfabetização funcional, também muito conscientes e com noções muito claras e distintas, tanto teórica como praticamente, do que seja natureza e cultura, colonialismo e neocolonialismo, independência e internacionalismo, capitalismo e imperialismo, socialismo e comunismo, socialismo reformista e socialismo revolucionário, centralismo burocrático e centralismo democrático, poder popular, emancipação, desenvolvimento e libertação da mulher – tudo isto não a partir de princípios abstractos, mas a partir do nosso dia a dia e do dia a dia do nosso  povo. 152
Seu alfobre
–Será disto que, neste momento, o povo precisa, camarada Júlio? Está a chegar a camarada Graça (Simbine). Ela ficará contente? 153
Dúvida "inocente"
–Tenho a certeza e toda a equipa responsável pelo curso também: é exactamente disto que todos, desde a base ao topo, precisamos – respondi convencido e a querer convencer, antes que tivesse de suportar uma "seca" de lutas armadas... e, sobretudo, antes de ter de ouvir ordens a contrariar o nosso plano e a estragar o nosso curso. 154
Convicção
que perdura
Carlos Silva cedeu: quem poderia contrariar, naquele contexto histórico, a linha revolucionária, quando bem fundamentada e vivida com entusiasmo? 155
A força  da
Verdade e do
Entusiasmo
Carlos Silva apareceu no curso, integrando-se no círculo. Todos nos dispúnhamos em circunferência, sem destaque para ninguém, "estrutura" que fosse. Mais importante, para nós, era a pessoa que no momento estivesse a falar, e, dispondo-nos assim, todos nos víamos na cara só com um simples movimento de olhos. Também interveio, mas nada teve a criticar... 156
Geometria  eficaz
Eu dava-me muito bem com as minhas camaradas, mas não digo que uma ou outra não resvalasse na lisonja... aos comandantes, e na mistificação da luta armada. Uma até quase me irritava com as suas intervenções visivelmente oportunísticas, que às vezes até desviavam para a direita o rumo dos acontecimentos. (Só não revelo o nome, porque ela, agora, embora já muito longe da revolução, é de uma delicadeza inexcedível para comigo: agora sou eu o oportunista...) 157
Oportunismo irritante
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Trabalhando na base (era um simples  chefe de quarteirão) e sendo o poder popular ainda muito insípido, nada pudemos contra aquilo que reputo como um dos maiores desgostos a quebrar a euforia daqueles anos: os treinos político-militares (políticos, muito bem, militares, muito mal), que se iam estendendo a locais de trabalho, de residência e não sei se de estudo; e, logo no dia da independência, a arma abraçada à enxada, na bandeira nacional. (Não é bem a cruz e a espada... mas até podia lembrar.) 158
Símbolo letal
E, simultaneamente, um fanatismo pelos símbolos da pátria, que levava a parar o trânsito nas horas  do içar ou arrear da bandeira, e, pior ainda, ia levando a respeitar mais o símbolo do que o simbolizado: mais o pano da bandeira do que o povo e as pessoas que o constituíam e de que a bandeira era o símbolo. 159
Fanatismo
"religioso"
Uma vez estava em Lichinga hospedado em casa do Director de Finanças, Jorge Viegas, poeta ainda hoje muito apreciado em Moçambique, embora tenha preferido ir viver para Portugal. Estávamos, salvo erro, em Setembro de 1977, e eu vinha da Beira, onde participara na I Assembleia Nacional de Pastoral, e aproveitava o facto de me ter ausentado de Quelimane, para pisar a única província que ainda desconhecia: o Niassa. 160
Hospitalidade de
um poeta
Tinha-me levantado cedo, tinha colhido e comido uns bons pêssegos do quintal do meu hospedeiro e vim para a rua ver o nascer do sol. Alguns passos andados, e deparo com uma miudinha, talvez com menos de dez anos, perfilada e também com os olhos voltados para o Nascente. Emocionado (afinal não era eu o único a extasiar-me perante aquele espectáculo...), esbocei uma tentativa de entrar em comunicação com ela. 161
O fascínio do belo
Aquele nascer do sol com a Xanda, na praia do Xai-Xai, meia década antes, não tinha sido muito mais maravilhoso do que se o tivesse gozado sozinho? 162
A Xanda numa madrugada
Mas a pequena estava mesmo perfilada, e esboçou-me uma ordem de silêncio. Não era, porém, por causa do nascer do sol, não: lá longe, talvez a mais de cem metros de distância,   percebia-se uma bandeira a ser içada... 162
Unidos pelo sol
(ou pela bandeira?)
Isto, no entanto, seria o menos. Até podemos captar um certo maravilhoso nesta "religiosidade". O pior era a violência (preconizando a contraviolência, muitas vezes, cai-se exactamente na violência que queríamos combater...): a violência para quem não parasse o carro e descesse dele e se perfilasse. E também a arma que fizeram questão em colocar juntamente com os outros símbolos, esses, sim, cheios de beleza e significado bem positivo: livro, enxada, produtos da terra, roda dentada, mapa, oceano, sol, estrela, cores. 163
Infiltrações subtis
ou descaradas?
separadores  
 
Mais tarde, em 25 de Setembro de 1980, novo choque: a lei n.º 5/80 estabelecia o sistema de patentes militares.  O exército seria estruturado como todos os outros dos países que usam da violência não como último recurso e em legítima defesa, mas sempre que lhes interesse usar dela. 164
Mística desfeita
Definitivamente se esvaía a mística do guerrilheiro: a aliança com o povo, o trabalho com o povo, a utilização da arma só e exclusivamente quando se impusesse para defender esse povo. 165
Aliança desfeita
Eu próprio – por mais não violento activo que quisesse ser – experimentei a sensação de me sentir protegido, ao fim de um quarto de século em que (por transfixão que fosse, mas não só) havia sentido o peso da ocupação, e o alívio à medida da retirada do exército português (nem todos estavam com o 25 de Abril, e já tínhamos a experiência do 7 de Setembro e do 21 de Novembro de 74). 166
Tentação de um
certo conforto
Sabeis o que é poder vender às claras os livros e revistas que até aí só o podia às escondidas e com todas as precauções  para não tocar nas malhas que se iam apertando (todas as semanas, pelo menos uma vez, visitas indesejáveis...)?  167
Sensação de liberdade
Sabeis o que é finalmente poder falar com os portugueses e dizer tudo quanto pensava, quando ainda há pouco, se resvalava nem que fosse apenas em exaltar valores da cultura banta, logo eu ou o meu bispo era incomodado pelo meu "desvario"? 168
Ao fim de um
quarto de século
Não é que tivesse alguma vez perdido a confiança naquele que sempre me acompanhou nos momentos mais aflitivos, mas era confortável – confesso – sentir-me protegido por guerrilheiros e guerrilheiras que nada mais pretendiam de mim do que continuasse a luta revolucionária (para bem do povo e, portanto, para meu próprio bem). 169
A força eficaz e a
força ilusória
Agora, com a lei 5/80 toda a camaradagem se esvaía. 170
O rasgão
acentua-se
É certo que, com o recrutamento de novos elementos das F.P.L.M., as coisas já se tinham alterado muito: o comportamento dos formados na Argélia e na Tanzania e que haviam feito a guerrilha era muito diferente  dos recrutados após a independência – sem quaisquer ideais revolucionários e, muito menos, prática. Atrevêssemo-nos nós a qualquer crítica ou sequer observação (que, aliás, era frequente fazermos com simplicidade até a comandantes)... 171
Os infiltrados
Os princípios, no entanto, mantinham-se os mesmos, e sempre venceríamos, se recorrêssemos. 172
Princípios, mas
pouco actuantes
Agora, porém, já não eram guerrilheiros, mas exército regular, e todos percebemos o que isso significa. 173
Consagração da violência
Nesse dia, em que me chegou às mãos o "Boletim da República" n.º 38 – Suplemento de quarta-feira, 25 de Setembro de 198O, pág. 140 (1-2) – I Série, lembrei-me, quase com saudades, daquela noite em que ouvi o jovem comandante João Honwana a explicar a jovens oficiais do exército português que nunca na República Popular de Moçambique se haveria de estabelecer o sistema de patentes. 174
Serás hoje fiel a
essa convicção?
Foi logo na primeira ou segunda noite (17 ou 18 de Setembro de 74) em que parte do contingente das Forças Populares se hospedara no convento dos Capuchinhos de Bari, porque não cabiam todos no Quartel de Quelimane. 175
Ainda sois assim hospitaleiros?
Era necessário estabelecer a segurança do convento, que passaria a ser alvo dos "dragões da morte" (como depois pude comprovar por uma carta assinada e dirigida ao Prosperino, na altura superior dos capuchinhos de Bari). 176
Segurança militar
Eu, na minha ingenuidade, pensava que tal competia às próprias Forças Populares, e via com desconfiança a presença de soldados do exército português. 178
A minha ingenuidade
Mas João Honwana logo me fez compreender que era às Forças Armadas que, por enquanto, competia tal segurança: até porque qualquer problema que surgisse ficaria da responsabilidade delas. 179
Pragmatismo habilidoso
E lá fomos os dois, depois do jantar, numa visita para mim inédita. As portas do quartel logo se abriram e os oficiais acolheram-nos com simpatia. E aí se desenrolou a conversa, logo após ter sido resolvido o problema da segurança. 180
Como entrei num quartel
E eles diziam que, mais dia menos dia, viríamos a cair nas patentes, e João insistia em que não: eram duas ideologias antagónicas. 181
Duas ideologias:
por quanto tempo?
Seis anos depois, constato que afinal os dois jovens oficiais haviam profetizado a nossa queda. 182
Profecia da desgraça
E uma boa década depois, constato como, com guerrilheiros e guerrilheiras, tínhamos vencido uma potência integrada na NATO, e, com um exército regular, tínhamos saído vencidos a ponto de termos de chamar PAZ à desistência forçada de um projecto libertador e de assistir ao consequente espectáculo de um punhado de moçambicanos a enriquecer desmedidamente (embora só com migalhas dos estrangeiros) e uma esmagadora maioria a empobrecer ainda mais desmedidamente. 183
Vitória
mal aproveitada
derrota
mal contornada
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Naquele Setembro de 74, tudo era claro: o próprio povo conotava reacção com guerra e revolução com paz. As próprias crianças. 184
Ao princípio tudo
era claro
O caminho era único: alfabetização para os oprimidos, não violência activa face aos opressores. É verdade que nunca se chegou à perfeição de renunciar à contraviolência, mas esta seria um ultimíssimo recurso cada vez mais indesejável. 185
Consciencialização
e libertação
E, se não era para esquecer, o fenómeno guerra também não era para repetir. Sem condenar o recurso a ela em 64, era preciso ter consciência de que ela pode ser eficiente a curto prazo, mas logo a recuperação imperialista não se fará esperar. E isto por três motivos: primeiro, porque a tendência dos oprimidos, quando vitoriosos através das armas letais, é a de se tornarem opressores – um conselho do povo português reza assim: "não sirvas a quem serviu nem peças a quem pediu" –; segundo, porque utilizarmos as mesmas armas dos opressores é o primeiro passo para os imitarmos, pormo-nos ao mesmo nível, tornarmo-nos como eles; terceiro, porque aos ricos nunca o dinheiro lhes faltará, e poderão sempre dizer a última palavra no foro bélico. 186
Caminho não paradigmático
Temos de renunciar a uma eficiência a curto prazo e optar pela eficiência a médio e longo prazo. Talvez fosse para recordar aqui  a paciência como virtude revolucionária de que nos falava Samora e o termo macua  OVILELA ou talvez ainda melhor OVILELELA tantas vezes repetido e sobretudo vivido pelo povo ao norte do Zambeze. Mesmo quando se falava da necessidade de se adiar a independência, não era no sentido de continuarmos a guerrilha, mas no sentido de dar tempo a uma maior consciencialização da parte do povo moçambicano que sofria as consequências do "vírus" da assimilação (dos vocacionados à burguesia). 187
O tempo desfaz
tudo quanto não
ajudou a fazer
Muitas vezes se me punha o problema: será que vingará a revolução moçambicana, apesar de ter surgido de uma guerra? Será que os agora vencidos não voltarão em força? Será que os agora libertadores não se aliarão aos opressores, seja a que pretexto for? 188
Abanão nas convicções
É claro que o pacifismo, que nos reduz ao reino vegetal, é bem pior do que a contraviolência, que pelo menos nos mantém no reino animal. Mas, embora seja muito diferente da violência, a contraviolência ainda não nos eleva a uma verdadeira humanidade – só atingível pela não violência activa. 189
As três vias
Por isso, durante a época colonial, não podiam vender-se livros de Ghandi, Luther King, Danilo Dolce, Paulo Freire, Helder da Câmara e tantos outros, a não ser clandestinamente, e agora (a partir do 17 de Setembro de 1974)  já os podia vender às claras e sem o menor perigo. 190
Via paradigmática
Tudo indicava que era esse o caminho de opção desde a base ao topo – aquela, por predisposição da cultura banta, este, por conclusões científicas. 191
Certeza duplamente confirmada
Muito interessante um episódio ocorrido em Quelimane ainda antes de terminar o mês de Setembro de 74. 192
Processos arquivados
Logo após o 25 de Abril – que foi bem claro tratar-se da libertação do povo português, mas não do povo moçambicano (embora os próprios ditos democratas tentassem tornear o problema) – não faltou quem começasse a instaurar processos contra os criminosos que não arredavam de Moçambique nem davam mostras de sincera conversão. Não nos animava qualquer espírito de vingança, mas exactamente protegê-los contra uma sempre possível justiça pelas próprias mãos – a chamada, aí em Portugal, justiça de Fafe. 193
Contra a justiça de
Fafe
De facto, podiam ouvir-se, por vezes, ânimos exaltados:
–Ela pensa que vai embarcar de avião? Eu não a deixarei sair do aeroporto. Ela há-de pagá-las aqui: não lá na Europa. (Era um aluno a referir-se a uma professora que, além da sua conotação de racista, até chegaria a ter dito que queimaria a "sua" casa antes de embarcar...)
194
Primeiros escapes
Fazendo sempre apelo à cultura herdada dos "makolo" (antepassados) e às conquistas modernas, intensificámos reuniões para discutir a melhor maneira de acabarmos com as injustiças e libertarmo-nos conjuntamente. 195
Justiça nos fins e
nos meios
Sempre distanciados do pacifismo cobarde e da contraviolência temerária, íamo-nos enfarinhando nos processos da não violência activa. 196
A única via eficaz
Um dos nossos grupos, entretanto, não se cansava, dia e noite, de documentar o melhor possível os processos dos criminosos que nunca os tribunais coloniais teriam aceitado. 197
Livro negro?
Mal chegaram as F.P.L.M., numa reunião a que  não assisti (não sei se alguém teria levantado a hipótese de eu pertencer à CIA – táctica fácil de afastar uma pessoa), iam ser entregues esses processos para que justiça fosse feita, mas legalmente e não pelas mãos das vítimas. 198
Ultrapassagem magnânima
Só que, por um lado, a alegria do povo era tanta que não dava lugar a ressentimentos (admirável povo este!), e a clarividência dos vencedores era tal que não estavam interessados em mandar ninguém responder em tribunal. 199
Felicidade?
Só se partilhada
por bons e maus
Reconhecidos, agradeceram o trabalho, que não teria sido inútil: a história tudo registará e nada ficará esquecido. Mas tudo quanto se passou até os Acordos de Lusaca, em 7/9/1974, estava ultrapassado: os criminosos poderiam até, e puderam, permanecer em Moçambique. 200
Não esquecer,
mas perdoar
Mas tudo que fizessem ou tenham feito depois da assinatura desses Acordos, então o caso seria ou será diferente. 201
Marco de referência
E sou testemunha em como ofendidos cruzavam na rua com os próprios ofensores sem que qualquer gesto ou sequer sentimento de rancor se esboçasse. A felicidade era demais para se  perder tempo com mesquinhices. 202
Reconciliação
sem espectáculo
É também neste contexto que, em breve, algumas portuguesas e alguns portugueses, num comício, foram apresentados ao povo, para que este as e os ajudasse à recuperação... porque se haviam manifestado contra as decisões do próprio governo de Lisboa, que havia reconhecido o direito à independência de Moçambique. 203
Recuperáveis?
Era depois do 7 de Setembro, mas, apesar disso, além dessa humilhação, nada mais lhes aconteceu, deixando-as e deixando-os imediatamente em liberdade. 204
Como usaram dessa liberdade?
separadores  
 
Neste contexto, mesmo sem condenar a luta armada 64-74, havia que tirar grandes lições dela no sentido de jamais voltar a ela, nem mesmo como último recurso – na certeza de que um povo consciente tem armas muito mais eficazes, se não a curto prazo, pelo menos a médio e longo prazo, na certeza de que as armas letais de eficácia a curto prazo produzem efeitos de pouca duração, ao passo que as armas da não violência produzem efeitos de longa duração. 205
Aprendemos a lição?
Mistificar a luta armada foi mais um rasgão no tecido revolucionário – difícil agora de recompor. 206
O grande rasgão
E a mistificação das zonas libertadas resultou num ridículo semelhante ao dos religiosos que quiseram fazer do éden bíblico um facto histórico dos primórdios, quando na verdade é um projecto para construir e gozar no futuro, embora a partir do presente – a utopia que temos de começar a tornar realidade desde aqui e desde agora, já, sem perda de tempo.


207
Dois ridículos
por falta de objectividade
Rovuma, "Bula-bula", Sábado, 14 de Abril de 1999.  




    
 

 
    


CAPÍTULO QUINTO



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Mistificação e mitificação da luta armada logo a partir dos símbolos nacionais, apego ao binómio senhor-servo ainda que fosse no recôndito do lar: ficariam por aí os desvios à direita, os rasgões no tecido revolucionário, as raposinhas a devastar a vinha? 208
Multiplicação negativa
BOLETIM DA REPÚBLICA / PUBLICAÇÃO OFICIAL DA REPÚBLICA POPULAR DE MOÇAMBIQUE/ Sábado, 30 de Agosto de 1975 / I SÉRIE – Número 29 / SUMÁRIO / (...) Conselho de Ministros: / Decreto n.º 10/75: / Fixa as remunerações mensais a que têm direito o Presidente da República, os membros do Conselho de Ministros e os responsáveis do Governo e das Forças Populares de Libertação de Moçambique. (...) 209
Dinheiro no topo
Embora já com estatuto de Estado no tempo da dominação portuguesa, Moçambique era uma simples província, com um governador geral, um secretário geral e secretários provinciais para as diversas áreas da governação, mas nunca tivera ministros antes do dia da vitória, e muito menos presidente. Impunha-se, evidentemente, legislar sobre os vencimentos de quem desempenhasse esses cargos que surgiam pela primeira vez neste emergente país. 210
Novidade na governação
Num contexto revolucionário, porém, torna-se chocante começar pelo topo, e com verbas, talvez bastante comedidas em qualquer país do primeiro mundo ou de países governados por assimilados, mas, sem dúvida, bastante escandalosas em plena luta contra a exploração do homem pelo homem. 211
Servir na activa ou na passiva?
Não poderiam os ministros contentar-se com os vencimentos daqueles que integraram o Governo Provisório ou mesmo o Governo de Transição (que já não era nada pouco) e o presidente, em vez de se abarbatar com o dobro de um vice-ministro, não poderia contentar-se com um pouco mais do que um ministro, apenas para salvaguardar a hierarquia de que era tão cioso? 212
Exploração à espreita?
Nunca defenderamos o igualitarismo absoluto, e até o condenávamos severamente como grave desvio de esquerda. Mas estávamos bem cientes também de que camarada a ganhar mais do que o rendimento "per capita", sendo este já tão baixo, era camarada a prejudicar o seu próprio camarada: o leque de remunerações é sempre a pedra de toque da credibilidade de uma revolução socialista. 213
Amigos, amigos, negócios à parte
Não sei se será exacta uma divisão linear das reacções que este Decreto provocou entre nós; mas pareceu-me que os sinceros chocaram-se verdadeiramente, enquanto os oportunistas até se alegraram e defendiam, porque isto das vanguardas serem as primeiras nos sacrifícios e as últimas nos benefícios... nunca lhes deve ter caído muito bem. 214
Revolução às avessas?
E devo dizer que na altura nem era preciso ter muito dinheiro: basta saber-se que os nossos filhos tinham ensino gratuito desde o primário até o secundário, o médio e o superior, com viagens e lares, consoante os casos. 215
Educação sem dinheiro
E as consultas médicas custavam o equivalente a menos de meio dólar americano: sou testemunha de como pobres, que ficariam o resto da vida cegos, recuperavam a vista após intervenção cirúrgica, pagando apenas aquela ridicularia. 216
Saúde sem dinheiro
Recordo com agrado um jovem que frequentava a minha livraria: era baixinho e cego de um olho, muito interessado por leituras e, segundo as suas poucas posses, lá ia comprando este ou aquele livro. Depois deixei de o ver: talvez eu próprio tenha viajado, mas ele também deve ter estado bastante tempo sem aparecer na livraria. Quase me esquecera dele: pouco fisionomista que sou, como fixar tantos clientes que passei a ter após a independência? 217
Os cegos...
Um dia estava sozinho, e entra um cliente de baixa estatura e bastante jovem: dirige-se às estantes e percorre-as lentamente, pegando num ou outro livro, consultando e recolocando tudo no sítio. Parecia mesmo aquele simpático rapazinho: o olhar, porém, era diferente (não tinha aquele jeito característico de quem apenas vê com um olho). Ia interrogá-lo, mas parece-me que foi ele mesmo que veio ao encontro das minhas cogitações. Era ele próprio: um grande especialista que veio da Índia ajudar-nos havia-o curado, hospitalizando-o e submetendo-o a uma intervenção cirúrgica. A ele e a muitos outros. A Saúde havia sido nacionalizada, talvez com o  lado antipático de todas as nacionalizações, mas para logo ser socializada, com todo o seu lado simpático bem patente. 218
...vêem
Lembro-me de um outro caso, que me atingia pessoalmente. O director de uma escola média de agronomia e silvicultura pedia aos pais uma contribuição pecuniária. A esse propósito, escrevi nessa altura (7 de Junho de 1979): "Penso que o estudante, como jovem trabalhador que é, merece um vencimento com o qual possa viver. Na fase actual, porém, e como medida de emergência, talvez  o exposto na circular de 18 de Maio seja, de facto, o mais eficaz. E o critério das mensalidades estabelecido é muito justo. Penso, no entanto, que, repito, só como medida de emergência e, portanto, transitória, isso se explica. 219
Estudante merece salário
"O encargo da formação dos estudantes cabe a todos os cidadãos na proporção não dos seus filhos (antes pelo contrário), mas na proporção dos seus rendimentos. Se, portanto, o que nós pagamos de impostos não chega, que nos sejam aumentados esses impostos até o limite necessário. Cada um de nós é responsável pelas despesas não dos respectivos filhos, mas pelas despesas dos filhos de todo o Povo. É em função dele que se escolhem os cursos e tudo se planeia, não em função do interesse de cada família." 220
Finalidade dos impostos
O aluno em causa (e dos outros podia dizer-se o mesmo) estava ali, naquela escola nos planaltos de Manica, não por conveniências ou planos familiares, mas por conveniência do Povo moçambicano e segundo planos nacionais. 221
Vocação e plano
Falar assim só era possível numa revolução séria, e,  na verdade, milhares de moçambicanos que nunca teriam tido acesso aos estudos secundários, médios e superiores conseguiram formar-se e converter-se nos melhores quadros do nosso país. E isto sem qualquer discriminação étnica, geográfica, classista, religiosa ou de sexo. 222
O que ficou de mais positivo
Sol de pouca dura: em breve regressaríamos ao regime de propinas e ao remedeio das bolsas: já não era um direito, mas uma concessão. Revolução sem revolucionários não era possível, e estes eram poucos: os infiltrados em breve os neutralizaram, isto mesmo sem falar em causas exteriores (difíceis de delimitar). O avanço inicial, no entanto, foi inestimável. E perdura, apesar de tudo. 223
...a pesar da reacção emergente
Isto só para dizer que, nos primeiros anos, nos quais nem se falava no FMI a não ser para lamentar os estragos que ia fazendo por todo o terceiro mundo que lhes caía na alçada, e nos quais os seus emissários ainda não eram notícia a não ser para ocupar uma ou duas linhas da imprensa (só os muito atentos cogitavam: boa coisa não andam por cá a fazer!), nos primeiros anos, dizíamos, nem era preciso muito dinheiro para viver, muito menos os do topo, que tinham tudo, quase sem despender nada dos bens pessoais. 224
FMI à espreita
De um director provincial, que, para suprir a falta de quadros, interrompera o curso de agronomia (quase no final), lembro-me muito bem de me ter dito não precisar de vencimento tão alto. Era casado, tinha um filho, e estava habituado a viver bem, mas tinha consciência revolucionária: percebia que o leque salarial não podia ser muito largo e sabia da situação dos camponeses. 225
Sinceridade inicial
A justiça social era qualquer coisa que nos parecia intrínseca. E a renúncia e disponibilidade que se vivia no meio revolucionário não sei se poderíamos encontrar, com a mesma alegria e entusiasmo, no meio dos religiosos e religiosas. Dava-se mais do que aquilo que nos era pedido, queríamos antecipar os tempos: ser verdadeira vanguarda, nos antípodas do elitismo. O "mundo melhor" de Lombardi e Vieira Pinto, dos anos sessenta, agora vivido até por ateus ou promovido até por estes? 226
Secularização do "mundo melhor"
E isto nos limites do bom senso. Na segunda metade de Setembro e primeira de Outubro de 74, jantava quase sempre com as guerrilheiras e guerrilheiros hospedados no convento dos capuchinhos de Bari. No fim, habitualmente, havia um relato dos acontecimentos principais e um debate em que todos participávamos. (Era este serão que fazia relembrar ao Stefano Cinti os primórdios do franciscanismo.) 227
À mesa com guerrilheiras e guerrilheiros
Ali não podia haver entusiasmos bacocos, esquerdismos ou ressentimentos: era o realismo que imperava (em vez de realismo poderia dizer materialismo, se me não arriscasse a ser mal interpretado). E lembro-me bem do cuidado em nunca prejudicar as grandes companhias, para que a produção nunca fosse afectada, mas beneficiada com um trabalho mais consciente, agora que a independência estava à vista. 228
Materialismo no sentido de realismo
Certos elementos da base, no entanto, como ganhavam excessivamente pouco, foram aumentados desmedidamente em relação ao que estavam habituados. Um conheci eu: ganhando quinhentos escudos,  passou logo para quatro mil, e, pior ainda, de professor das primeiras classes e bom intérprete, dá um pulo para responsabilidades empresariais... E aquele que ainda há poucos meses atrás resistiu às tentações pecuniárias da PIDE, tendo-me, assim, salvo – a mim e a muitos outros (eu dirigia na altura um curso subversivo), cai nesta triste figura. 229
Dinheiro que mata o revolucionário
Um aumento gradual teria sido muito mais pedagógico. Assim, embora soubesse repetir o que ouvia e fazer mecanicamente o que lhe mandavam, nunca se formou como revolucionário: pelo contrário criou um espírito elitista e oportunista nele e na família. Por outro lado, muitos aumentos, desmedidos como este, espalhados por todo o país, é evidente que contribuíram para o surto inflacionário. 230
...e também a revolução
Eu costumava dizer, nesses tempos, que a Frelimo demonstrava uma grande capacidade para estruturar, mas uma incapacidade a toda a prova em escolher quadros, ou, se escolhia bem, em formá-los. (É claro que eu gostaria que todos os quadros passassem pelos cursos de alfabetização funcional que dirigia com a minha equipa... – por isso, sou suspeito!) 231
Ciência esquecida: a psicologia
Evidentemente que Samora nunca se deixou corromper pelo dinheiro. E o pior já não é quando os chefes se contentam com os vencimentos, por maiores que sejam... As formas de acumulação de riqueza (embora muitas vezes começando por aí) passaram a ser  muito outras: até lhes permitiriam renunciar a esses vencimentos, insinuando-se como altruístas. 232
Impoluto perante o dinheiro, apesar do evidente autoritarismo
Quando me referi a termo-nos escandalizado com o decreto das remunerações, foi porque, de facto, na altura, isso já aparecia como um estorvo no avanço revolucionário, e nem admitíamos que viéssemos a chegar ao que chegámos após a morte do nosso primeiro presidente, mas já incubado antes dela. (As tais linhas quase imperceptíveis passaram, depois, a parangonas...) 233
Por isso nos descuidamos
O tal leque salarial, que a muitos até poderia parecer bem apertado, foi suficientemente largo para atiçar os apetites. Se o sector privado é de continuar, se é preciso incentivar a economia, se os outros cidadãos podem ser empresários, por que os membros do Partido o não hão-de poder ser? (E, de facto, se podiam ser patrões no local de residência, por que não o poderiam no local de trabalho?) 234
do vírus,
que não dorme
E, muito tímida e discretamente, o Relatório do Comité Central ao V Congresso, em meados de 1989, vai preparando o terreno: "É por isso de ponderar sobre a possibilidade de admitir, como membros do Partido, proprietários que sejam de conduta exemplar e respeitados pela comunidade, uma vez verificada a sua identificação com os objectivos do Partido expressos no seu Programa e Estatuto." (Final da pág. 53.) 235
...e até se institucionaliza
Pequenina e (quem sabe se ardilosamente) imprecisa abertura: mais que suficiente, no entanto, para todos quantos se sentiam comprimidos se lançarem nela e a alargarem à medida das suas ambições. 236
"inocentemente"
Talvez se pensasse inicialmente em pequenos empresários: os proprietários de um moinho lá na terreola ou de algumas cabeças de gado, ou de quaisquer outros bens de produção de diminutas proporções. 237
Revisionismo, primeiro, tímido
Enquanto, porém, no caso dos polígamos e dos religiosos talvez se tratasse de um reajustamento à linha correcta, aqui era demais evidente tratar-se de um desvio revisionista (lembrais-vos da triste "profecia" daquele guerrilheiro com a cabeça encostada na porta do convento capuchinho, numa tarde  da segunda metade de Setembro de 74?). 238
e a coberto de justas correcções
E, num ápice, surgem grandes senhores – com vocação frustrada (porque não passam de lacaios) a senhores do mundo... 239
depois, descarado
Não estou a falar das causas externas, mas das internas: não estou a falar da derrota que tivemos de assinar em Roma para evitar outro possível milhão de mortos, mas da derrota nas nossas fileiras. (A que ficou reduzida a vitória assinada em Lusaca em 7 de Setembro de 1974?) 240
Foro interno
Nem sequer falo no facto do Partido ter virado de comunista em socialista (e de que socialismo! – não revolucionário, de certeza): acredito que naquela conjuntura não houvesse outra saída. 241
Recuo táctico?
De momento, é claro, porque posteriormente já se poderia ter desmembrado em dois ou três, para que cada membro pudesse ser consequente com as próprias ideologias (de direita, centro ou esquerda). Sérgio Vieira, primeiro, e Machado da Graça, bastante depois, penso que preconizaram isso mesmo. 242
Coerência
Falo sim daqueles senhores "camaradas" com tantas capacidades empresariais não as terem aproveitado para desenvolver o sector  cooperativo. (Na Resolução Final da Reunião Nacional da Política Económica do Partido realizada no Maputo de 31 de Agosto a 5 de Setembro de l987, lê-se: todos os membros do Partido têm que ser cooperativistas, para que possam mostrar aos camponeses, na prática, as vantagens da cooperativa.) Ou noutras formas de autogestão ou de qualquer maneira participativas, consoante económica e socialmente fosse mais indicado. 243
Incoerência ou camaleonismo?
É claro que num projecto capitalista como nos foi imposto pela globalização (=império) não se pode viver como num projecto socialista pelo qual  havíamos optado. Ao fazermos apelo à coerência e sinceridade, não preconizamos a ingenuidade ou a parvoíce. As privatizações alteram, forçosamente, a táctica que nos há-de conduzir a médio ou mesmo a longo prazo (se tal tiver que ser) à estratégia traçada. 244
Mudança de táctica: não de estratégia
A esta é que não podemos renunciar: seria um suicídio – o suicídio cultural (deixaríamos de ser atthu para passarmos a ser akwiri, que nem vou traduzir, por vergonha). O império de Roma (e ele continua com outros nomes, e todos sabemos muito bem os nomes que tem tido) estruturava-se e estrutura-se fundamentalmente  no binómio senhor-servo. 245
Suicídio cultural
Para aqueles que nasceram ou renascemos no mundo e na cultura banta a visão cósmica é toda outra. Pour la pensée africaine le couple Maître-Esclave n’est pas "struturel" – afirma E. Mveng em L’ART D’AFRIQUE NOIRE / Liturgie cosmique et langage religieux, a páginas 121 (Maison Mame ). 246
Perspectiva banta
Não vamos tolerar (a não ser por táctica, a ver se contornamos a razia da globalização) que, de cultura tão rica, só guardemos os elementos transitórios (como hábitos, usos ou até costumes) e ainda por cima o que há de negativo em feiticismos e regulados. 247
Trocar o essencial pelo transitório?
Nem vamos pegar e apregoar valores isolados, por muito bons que sejam ou se afigurem, como família alargada, respeito pelos mais velhos, amor à própria terra, obediência à autoridade, solidariedade e tantos outros, porque tudo isso pode e é frequentemente instrumentalizado, se fora do contexto evolutivo e revolucionário da essencialidade da vida forte, fecunda, fraterna – essa, sim, em dimensões cósmicas. 248
Ou o fundamental pelo formal?
Ekumi – dizem cerca de cinco milhões de moçambicanos com uma emoção só própria de um povo para o qual palavra e realidade são uma e a mesma coisa.(Egumi – diz uma minoria desse mesmo povo, mas num sentido exactamente igual.) 249
Eficácia da palavra
Dinheiro, sim, mas só na medida e na maneira de servir a vida e não de fabricar uma minoria de senhores do mundo e, consequentemente, uma maioria de empobrecidos e excluídos. 250
Ser e Ter
Dinheiro é pedra de toque para aferir, por um lado, o valor que se atribui a uma coisa, a um serviço ou a uma pessoa, mas, por outro, e sobretudo, para aferir o espírito revolucionário de cada um, e, por maioria de razão, o espírito evangélico dos cristãos. 251
Pedra de toque
E, perante o Decreto 10/75, quem vai condenar os que desanimaram com o 4/80 também do Conselho de Ministros, cinco anos depois? Ou quem vai condenar os católicos por se lançarem também na busca desenfreada de bens materiais, se a própria hierarquia os precede, com os mais diversos pretextos, não, porém, com autêntica argumentação evangélica? 252
Quem atira a primeira pedra?
Não é, no entanto, o exemplo dos topos (palavrão nem  revolucionário nem evangélico) ou mesmo dos companheiros que nos pode desculpar de não prosseguir a luta com a maior coerência possível, mudando todos os dias de táctica, se, perante as novas circunstâncias, for preciso, com todas as forças que nos restarem e que quotidianamente readquirirmos,  e ainda que nos queiram ridicularizar por contemplarmos os lírios do campo, como Lucas (12, 27) nos sugere, ou por confiarmos na força extraída das nossas fraquezas, como Paulo nos ensina (1Cor 1,24-26; 4,9-13; 15,30-31; 2Cor 1,3-10; 4,7-12; 6,4-10; 7, 5; 11,23-32; 12,7-10; Col 1,24; 1Tes 2,2 e 9; 2Tim 1,8; 2,9-10; 3,11-12; Rom 8,35-39; Gál 6,14 e 17; Fil 2,25-27; 4,11-13). 253
Os lírios do campo
Os lírios lucanos evoca-me um quadro de Fugel de que a Maria José (a fundadora do Lar Feminino, de Quelimane) gostava muito e que nos abria horizontes talvez até aí mal sonhados... e não sei até que ponto nos transformou e até que paragens nos conduziu. 254
Pintor alemão convertido
E lembro-me da interiorização que a Rosa Maria conseguia das palavras de João XXXIII a explicar-nos a justiça social; e partilhava comigo, nos breves minutos que permanecesse na livraria que o bispo me confiara desde 1 de Julho de 1956 até a independência. Foram de entusiasmo e transformação interior aqueles anos de 1958 a 1963, em que tínhamos João como sucessor de Pedro. 255
Fim do constantinianismo?
De facto, a noção de justiça social ainda hoje ou se confunde com as de justiça comutativa, justiça legal e justiça distributiva, ou se dilui em noções tão vagas que ninguém se sente obrigado a ela. 256
Justiça diluída
Quanto à primeira, se formos honestos, facilmente compreenderemos que entre o que se paga e o que se recebe (coisas ou serviços) tem de haver equiparação (para ficarmos quites). É a justiça no sentido mais estrito. 257
Os pesos da balança
Quanto à segunda, quem não compreende que temos de contribuir proporcionalmente para o estado (quer nas formas centralizadas quer nas descentralizadas) para que ele possa zelar pelo bem comum? 258
Impostos e serviço civil (em substituição do militar)
E quanto à terceira, todos entendemos – e queremos (assim também quisessem os governantes) – que o estado e as autarquias não podem privilegiar nem marginalizar ninguém dos bens e serviços que constitucionalmente lhe forem confiados. 259
Bem comum
Mas, quanto à justiça social, que nos levaria a entregar (na verdade, restituir) o (ou do) nosso supérfluo àqueles que nem o mínimo vital têm, todos dizemos não possuirmos qualquer supérfluo, além, talvez, de algumas quinquilharias que até nos estorvam e que, a custo, e  se calhar, ou quando calhar, daremos a uns discípulos de Emaús, a umas Conferências de São Vicente de Paula, ou simplesmente deitaremos no lixo. 260
A justiça incómoda... até para os bons
Por muito rico que alguém seja, nunca se sentirá possuidor de supérfluo, quer pelas ambições desmedidas, quer pelos investimentos com que sonhe, quer pela insegurança do sistema.> 261
A consciência "impossível"
E o mínimo vital, quando se trata dos outros, reduz-se a tão pouco que nem sei se, vendo-os a dormir ao relento ou a morrer de fome, nos convenceríamos a restituir o que é deles e não nosso. Só se for a título de esmola... 262
As duas medidas
É aqui que intervém João XXIII: o supérfluo de cada um de nós mede-se pela necessidade de cada um dos outros. Alguém pensou nisto quando fala de justiça social? 263
Flecha incómoda
Quando, em 1962, no Colégio das Religiosas do S.C.Maria, de Quelimane, perante perto de uma centena de missionárias e missionários, me atrevi a tocar no tema do voto de pobreza, o mais idoso dos membros da LAIN (vulgo,  "pátria morena") dizia em surdina: "–É preciso que ele dê o exemplo." De facto, tive sempre o vício de falar, mais ainda de escrever, e o de dar o exemplo nunca foi meu apanágio; e vou-me sempre refugiando numa desculpa crónica (de mau pagador): não é por não ser capaz de fazer que vou deixar de dizer ou escrever o que penso (em mim, palavra e realidade não são uma e a mesma coisas como nos meus compatriotas de origem banta). 264
Atrevimento de um "laico"
Sincera ou insinceramente, também ponho as minhas dúvidas sobre a eficiência para a humanidade de conversões isoladas (ainda que cheguem ao martírio físico ou psíquico): serão sempre excepções, e a confirmar a regra ainda por cima. Muito menos vou em conversões em série ou em massa (tipo Constantino, por exemplo). 265
Ineficiência do indivíduo e da massa
Acredito, sim, na conversão, salvação, libertação, em grupo, mas estas exigem igualmente a restituição, sob pena de tudo ficar em comédia e hipocrisia. 266
Eficiência do grupo
A teologia moral, mesmo a clássica, não diz que o pecado do furto e do roubo não pode ser perdoado só pela confissão, mas exige que se restitua o que a outros pertence? E Padres da Igreja há, categóricos: "–És rico? Ou tu ou os teus pais são ladrões." 267
Exigência que ergue muralhas
Falhámos em termos de revolução e em termos de igreja, salvaguardando, é claro, certos grupos e certos sectores (uns conhecidos, outros bem escondidos); mas não desistimos. 268
Cair e levantar
A restituição, porém, tem de ser criteriosa para ser eficiente. De que valeu aquele meu companheiro ter tido repentinamente um aumento descomunal? Mas a pretexto de critério, não podemos adiar indefinidamente. Temos de pensar e realizar, a partir de já, numa restituição estruturada e bem estruturada de maneira que ekumi (essa vida forte, fecunda, fraterna/sororal) seja, de facto, palavra e realidade, palavra tornada realidade.  269
Se não restituis, não serás perdoado
Vamos restituir o supérfluo de cada um de nós, medindo-o não pela "ambição pequena" de ser rico (de que ainda anteontem nos falava na TVM o nosso Arquitecto José Forjaz), mas pelas grandes ambições de um João XXIII?


270
Ambição pequena contentar-nos-á?
E.T. – Ao ver anunciada a reabertura da Faculdade de Ciências de Educação da Universidade Eduardo Mondlane, e ao redigir o § 24.º deste artigo, relembro o Alípio que tanta falta nos faz para ensinar Psicologia (e não só) e de quem ainda hoje se fala com ternura e simpatia nos meios académicos.

 
Maputo, Coop, Domingo, 21 de Novembro de 1999  




    
 

 
    


CAPÍTULO SEXTO



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Há coisas tão pequeninas em si mesmas e sobretudo tão insignificantes em comparação aos grandes projectos revolucionários que até parece mesquinhez preocuparmo-nos com elas ou mesmo propósito de gastar tempo, para não dizer desviar as atenções do principal para o secundário, fazendo-nos perder no caminho. 271
Reacção objectiva ou subjectiva?
Que mal haveria em que Bonifácio Gruveta procurasse uma gravata e um casaco para comparecer num jantar que o governador colonial  lhe oferecera pouco depois da sua chegada a Quelimane à frente do primeiro contingente das Forças Populares? Não seria muito mais condizente do que apresentar-se com o seu fato de caqui, por mais limpo e asseado que fosse? 272
Etiqueta ou bom senso?
Eu, no entanto, opinei (outros também terão pensado, mas não falaram):  –Não faças isso, veste-te como costumas, és mais autêntico. – Samora faz questão nisso, camarada – respondeu-me. 273
Inoportunismo
E lá devem ter ido, ele e a comitiva, de casaco e gravata. E eu fiquei a magicar:  –Será só por obediência? Será por gosto? Será por cedência? Escaparão a um certo ridículo? Como se sentirão dentro de um casaco com chumaços e o pescoço apertado por uma gravata num clima tropical, sobretudo aqueles que nunca se tenham vestido assim ou raramente o tenham feito? 274
Direito ao ridículo
Se foi por questões disciplinares, que libertação será esta que nem sequer deixa cada um vestir-se como quer? Se foi por gosto, muito bem: cada um deve ser livre, mesmo perante a opinião dos que têm outros gostos ou dos que pensam que determinado vestuário se não coaduna com o clima ou o trabalho ou até a cultura. Se foi por cedência, por respeito a certa etiqueta,  ou para facilitar o diálogo, ou por táctica, ou por qualquer outro motivo prático, parece-me tudo muito discutível.  275
Globalização da etiqueta?
Nunca mais se falou neste incidente – aliás é possível (talvez certeza) que só para mim ou para muito poucos é que foi incidente. O trabalho continuou cada vez mais intenso, a euforia não diminuiu, os convívios, tanto de reflexão como de amizade, nunca perderam o encanto inicial. Mas eu fiquei sempre apreensivo:  –Não estaríamos a camuflar exactamente aquela assimilação que tanto condenávamos e de que nos queríamos libertar, como luta indispensável para construir aquele Moçambique sem excluídos ou sequer marginalizados? As motivações daquele pormenor não seriam muito mais profundas do que poderiam parecer?  Aquele comportamento não reflectiria uma mentalidade fomentadora da reacção 276
Sintoma de mal profundo?
Mandela (ao menos no que toca ao vestuário) resistiu às investidas paternalísticas e moralizantes de Tutu, mantendo-se liberto perante protocolos com os quais não alinhava. E Ghandi, sempre me habituei a vê-lo igual a si mesmo. Pode tratar-se apenas de gostos, mas estes, simultaneamente, também podem revelar perfis íntimos a projectarem-se em percursos históricos mais libertadores. 277
Comparações sempre odiosas, ou às vezes ilustrantes?
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Volta e meia, nos mais diversos pontos da Zambézia, de Manica e Sofala ou de qualquer outro ponto de Moçambique, missionárias com quem lidava mais intimamente, sobretudo espanholas, diziam-me: –Pareces mesmo Paulo Freire! ou:  –Falas mesmo como Paulo Freire! E isso soava-me a elogio, sentia-me lisonjeado. Mas a verdade é que eu não o conhecia nem nunca o tinha lido, e desculpava-me e pedia que mo dessem a conhecer. 278
Coincidência?
Finalmente: por um lado, sou convidado pelos capuchinhos de Bari para um minicurso dado pela Nilza, na altura operária da Soalpo (Vila Peri, agora Chimoio), à porta fechada, é evidente; por outro lado, o nome de Paulo Freire surge nas listas dos livros proibidos elaboradas pela PIDE/DGS; por outro lado ainda, consigo que os editores me enviem algumas das suas obras, e logo as ponho à venda com as precauções fáceis (ou talvez difíceis) de imaginar. 279
Nome perigoso
Mesmo para quem já vivia um cristianismo pós-mundo melhor (confirmado posteriormente pelo Vaticano II), e daquela maneira entusiasmante como o foi nos meios missionários da Zambézia, e de alguns pontos de Manica e Sofala, um curso ou mesmo um minicurso ou até uma simples conferência ou colóquio sobre o método de alfabetização de Paulo Freire resultava sempre em qualquer coisa como revelação,  transfiguração: a força transformante da palavra, quando encontrada, descoberta, inventada em conjunto e em conjunto posta em prática. 280
Método subversivo
Grupo a descobrir, a pronunciar, a libertar a palavra certa, é grupo a transformar a realidade que essa palavra exprime, é grupo a libertar-se, a não se conformar com este mundo, como Paulo (Rm,12,2) nos recomenda, a tentar incarnar a palavra que Mateus (5,48) nos retransmite: "Sede perfeitos" (=fraternos, comunitários, participativos, na liberdade, na autenticidade, na ternura). 281
Alfabetização funcional
"O diálogo é este encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu."(Paulo Freire, pedagogia do oprimido, Porto, Afrontamento, p. 113.) O tutoyer não é tudo, evidentemente, mas é um subentendido indispensável, porque a amizade é tão necessária para qualquer produção verdadeiramente humana (e de qualquer género que seja: agrícola, técnica, artística, intelectual, de serviços, etc.) como o amor conjugal o é para uma reprodução humana digna desse nome. Assim como se vai sentir a falta do amor universal quando se trata da justiça distributiva. 282
Os três amores
Na Zambézia, já desde há muito que o tutoyer era normal e espontâneo tanto no campo da evangelização (aí deve ter começado nos anos 60) como no campo político (de esquerda, é claro) logo no início dos anos 70, ou talvez até antes. Assim recebemos, de braços abertos, no célebre 17 de Setembro de 74, guerrilheiras e guerrilheiros, que também a nós nos tratavam por camaradas, companheiras, companheiros, irmãs e irmãos, convictas e convictos de que só a sororalidade/fraternidade nos libertaria de qualquer dominação e tornaria possível conquistar aquela relativa felicidade para todos os habitantes deste país, em breve independente. 283
Sororalidade
Neste contexto, sobretudo as e os jovens liceais (e depois as universitárias e universitários em férias) que vinham a trabalhar na alfabetização já desde Abril ou Maio não deixaram de estranhar que, apesar de toda a cordialidade, os guerrilheiros, ao falarem, empregassem usualmente a terceira pessoa e não a segunda. João Honwana, o nosso grande ideólogo de circunstância, a quem devemos imenso na formação e nas tarefas políticas, tomou a sério a advertência (tal era o respeito, a seriedade e o à vontade das nossas relações), e, numa noite, dentro do carro que eu pusera à disposição das FPLM, disse-me: –Camarada Júlio, ainda não temos a mente completamente descolonizada. E o tutoyer ganhou campo entre todos. Sem este clima não teríamos feito nem metade, naqueles anos, pelo menos de 74 a 77. 284
A importância do tutoyer
Aos que considerem o tratamento por tu com qualquer conotação populista ou irrespeitosa, posso citar o insuspeito Moura Vitória na secção Como falar.../Como escrever... na edição n.º 19474 do NOTÍCIAS, do Maputo, de sábado, 19 de Novembro de 1983, e logo concluiremos que essa forma de tratamento, longe de irreverente, mesmo quando usada com superiores, é até a mais correcta e de harmonia com a língua portuguesa. 285
O falso respeito
E muitas vezes penso por que motivo a hierarquia católica de Portugal (e também a de Moçambique, tanto colonial como pós-colonial... pelos vistos) não quis e não quer que tratemos a Deus pela segunda pessoa do singular e imponha o plural majestático, talvez muito a jeito do Antigo Testamento, mas nada consentâneo com o Novo. E não colhe o argumento de ser trino, porque a fórmula a que me refiro – o Pai Nosso – refere-se a uma só Pessoa: à Primeira. E o pior, para nós, é essa mentalidade ter sido contagiada a toda a "lusofonia africana". Nisto, felizes os francófonos, para não falar dos anglófonos, já de outra raiz linguística. 286
O plural majestático
É claro que ninguém nos pode tirar a liberdade dos filhos de Deus, também para tratar o Pai como entendermos ou como o Espírito nos sugerir. Também aqui, e não só na política, o formalismo nos esvazia e frustra. (Como seria bem pastoral rever a esta luz toda a liturgia... e catequese, é claro.) 287
Objecção de consciência
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Tenho aqui à minha frente o Suplemento de A VOZ DE MOÇAMBIQUE  n.º 419, ano XVI, Agosto/Setembro de 1975: ENCONTRO DE SAMORA MACHEL COM OS JORNALISTAS.Seis páginas repletas da melhor doutrina revolucionária capazes de mobilizar todo um auditório de jornalistas. É claro que, e felizmente, nem todos poderíamos concordar com tudo, mas, no essencial, penso que, naquela altura, vibrávamos em uníssono em qualquer parte do país onde estivéssemos a lutar. 288
Aparato
Samora, num grande à vontade, impecavelmente vestido à europeia: fato, colarinho, nó de gravata maravilhoso, cinto nas calças, botões de punho, e sem nada de ridículo. Na mesa, também pelo menos dois tinham gravata. No resto da assembleia, tudo informal: ainda não devia ter sido "decretada" ou implementada a única alternativa protocolar: fato e gravata, ou conjunto (balalaica e calça – comprida evidentemente – do mesmo tecido). Cada um vestia a seu gosto, e muito bem... 289
Etiqueta
O pior é que podemos aliar esta maneira de vestir do nosso camarada presidente a estas palavras logo na terceira coluna da primeira página do referido suplemento, que eu nem sequer sublinhei... a ver se esquecia (mas não esqueci): "Eu fico muito satisfeito quando me chamam senhor. Senhor não significa reaccionário."(sic) 290
Haverá senhor sem servo?
Pior ainda é se relacionamos estas palavras com a sua posterior opção prática pelo estalinismo, mesmo sem nunca ter renunciado à opção teórica pelo marxismo-leninismo. 291
Relacionamentos maliciosos?
Nas formas de tratamento e no modo de vestir tanto podem esconder-se como manifestar-se simples gostos, como também profundas inclinações, que mais tarde ou mais cedo se traduzirão em actos e até em lutas. Sem farisaísmos e sem intolerâncias, nenhum mal fará em estarmos atentos, sobretudo a nós próprios. 292
Vigilância
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Neste clima de formalismos, não tardou que se "decretassem" batas,  uniformes, fardas... para as escolas. E o que mais me custou foi a passividade com que tais medidas eram acatadas e toda a ideologia subjacente, sem um mínimo de espírito crítico, naquela obediência mecânica que tanto condenávamos em comícios, reuniões e cursos de política. Até quem, para encanto meu e conversão minha, décadas atrás me havia alertado para os malefícios de tal uniformização! 293
Meninos de uniforme
Então não continua a ser essencial a educação estética também no modo de vestir? O que fica bem numa ou num não ficará mal ou menos bem noutra ou noutro? E a educação para a liberdade onde fica, se até no vestir houver imposições? E a educação higiénica? O vestuário não deve diferir consoante  vivem longe ou perto da escola,   fazem o percurso a pé ou de carro, a estação do ano, a estrutura somático-psíquica, e tantos outros factores? 294
Alternativas no vestuário
O cúmulo é quando me vêm com sermões éticos: disfarçar a desigualdade económica, encobrir a miséria, reprimir a pompa e o estadão. E por que não, por um lado, ajudar a sair da miséria (enquanto novas estruturas não a erradiquem) e, por outro, convencer a menina ou o menino de famílias ricas a terem vergonha da ostentação e vestirem com simplicidade (enquanto uma conscientização não se opere nelas e neles)? 295
A mania (ou a manha?) do encobrimento
Do uniforme e da farda ao militarismo irá grande diferença? Os treinos político-militares não estariam nessa linha? Como situar, então, todo aquele belíssimo discurso de Samora contra o militarismo, e aquela ainda mais encantadora preocupação de que as crianças não brincassem com nada que imitasse armas, e isto exactamente quando incitava adultos a não fugirem ao serviço militar obrigatório? 296
Brinquedos em forma de armas
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Nos primeiros tempos, lá fomos aceitando, embora com muita pena, a interdição de passagem pela marginal do Rio Kwakwa (apelidado de "Bons Sinais" por Camões) no troço que vai da Madal até a Pérgola, porque ali se situava o palácio do governador provincial. 297
Espaços interditos
 Todos gostavam, qualquer que fosse a idade ou a condição social, de passear ali, sobretudo nas tardes dos fins de semana, ou mesmo nos outros dias, quando o trabalho terminava e o sol se ia pondo, lá para os lados do nosso porto de Quelimane. 298
Formas e cores que fascinam
Estava, porém, uma revolução em curso, os reaccionários não desistiam e isso era realidade, não fantasia ou mania de perseguição: toda a vigilância e segurança era pouca, e todos os sacrifícios valiam a pena para triunfarmos. 299
Renúncia que parecia necessária
E por todo o país foram surgindo ruas bloqueadas, passeios bloqueados (–Então os passeios não são para os peões? – insurgira-se uma vez o próprio Samora), locais, recintos e monumentos bloqueados, às vezes com sinalização tão insuficiente que era mesmo preciso andar com muita atenção ou adivinhar... E ai de quem quisesse dialogar ou apresentar as suas razões, ainda que fosse invocando o que do topo vinha determinado... 300
A caminho do estalinismo ou/e do sacro?
Até o grande jardim fronteiriço à Câmara Municipal de Quelimane, que era tão agradável atravessar, ainda que fosse para encurtar caminho, foi interdito, mesmo sem qualquer sinal a indicar essa proibição. Então seria preciso assinalar uma evidência destas? Lá no centro... um simulacro de monumento aos heróis da libertação nacional!!! Quem ousaria pisar parte que fosse do  grande quadrado (de umas boas dezenas de metros de lado) – todo ele também virado sagrado por proximidade tão sagrada? 301
Sacralização
Cheguei a reclamar, mas sem efeito. Como poderia eu, tão inserido no meio revolucionário, desperceber o óbvio? Só em dias especiais, e com rituais protocolares, se podia pisar aquele terreno... e quem fosse digno disso... evidentemente. 302
Religião dos não religiosos
Eu próprio fui protagonista de três pequenos incidentes. O primeiro foi em Lichinga, no segundo semestre de 1977. Era a única capital de província que ainda desconhecia. Andava feliz por estar a pisar mais um pedaço de Moçambique (zona libertada da humanidade – como se lia, em emocionantes parangonas, no tempo de Samora, mal desembarcássemos de qualquer avião no aeroporto do Maputo), andava feliz por reencontrar conhecidos e por estabelecer novas relações. O convívio com dois magistrados e um poeta durante aqueles dias, nunca poderei esquecer. Mas, ao mesmo tempo, por pequeníssimos incidentes, comecei a sentir que qualquer coisa já não corria como nos anos anteriores. Restrinjo-me a contar aquilo que se refere aos tais espaços que eu apelido de sagrados. 303
Fraternidade a quebrar-se
Uma rua estava vedada aos carros por enorme cancela levadiça, mas a parte dos peões não tinha qualquer vedação. Além disso, na série de sinais de proibição ali patentes, nenhum se referia a peões (ou pedestres, como dizem os brasileiros). Saudei o guarda de serviço e dispunha-me a avançar. Este avisa-me que não podia circular naquela rua. Habituado que estava a falar, na mais amistosa camaradagem,   com guerrilheiros e guerrilheiras, disse-lhe que nenhum daqueles sinais se referia a peões. Ele, porém, logo me cortou a palavra e secamente me advertiu de que não admitia conversa. Terminava o clima de confraternização que vivera até aí não só em Moçambique como em Angola, na Madeira, nos Açores e em Lisboa, após o 25 de Abril? 304
Obedecer e calar

Doutra vez, foi no Maputo. O NOTÍCIAS avisava que o monumento onde estavam os restos mortais dos nossos heróis de libertação nacional estaria aberto ao público no dia seguinte, da parte de manhã. Fiquei contente, porque nunca o havia visitado, embora passasse lá frequentemente, quando ia ou vinha do aeroporto. E lá compareci à hora indicada. Era para levar o recorte do jornal, mas pareceu-me desnecessário. Como em certos  monumentos ao soldado desconhecido (da 1.ª guerra mundial) que havia visitado na Europa, lá estavam dois sentinelas perfilados como estátuas. Olhei para todos os lados a ver se, além deles, haveria alguém a indicar o caminho e, depois, a entrada, que, ao longe, não me parecia nada clara. Como não vi ninguém nem nenhuma guarita, avancei lentamente para o centro da enorme rotunda. E ia a pensar:  –Os sentinelas não falam, não se vê nenhuma porta, como poderei entrar? Mas um dos sentinelas, quase sem se mexer e muito delicadamente, avisou-me de que não devia ter avançado. E mal me viro, ou ainda antes de me virar, já um outro soldado vem no meu encalço, alvoroçado, que eu não podia ter feito aquilo sem autorização, e logo me conduz ao chefe. 305
Restos exigentes
Como é que eu me atrevi a pisar chão sagrado (a expressão é minha: não dele). Só em grupo se pode fazer isso. Expliquei que vivia no Norte e que lera no jornal... mas penso que não ligou muito. Se ia só, tinha que trazer uma guia... e que tinha de ser acompanhado por um deles, para me ensinarem o respeito com que se tem de visitar esses lugares. Pediu-me a identificação, escreveu, escreveu, e, por fim, mandou-me embora sem me deixar visitar os lugares sagrados. (De facto, à entrada do Ministério da Agricultura, havia uma casinha onde estavam os soldados: eu é que não relacionei Ministério e monumento, Agricultura e panteão, e devia tê-lo feito, pelos vistos...) 306
Preço da minha curiosidade
E ainda de uma outra vez, não me lembro se antes ou depois desta merecida lição de civismo e sobretudo religiosidade (como é que eu podia saber respeitar os caídos durante a guerra anticolonial, se um soldado me não ensinasse?), tive de ouvir longa pregação. Tinha ido falar com o P.Arlindo, franciscano da Polana, e entrara pelo lado da igreja. Mas, à saída, fui conduzido à porta principal, e fiquei logo em plena Avenida Armando Tivane, quase na esquina da Nkwam Nkrumah, e esse troço virara sagrado pela proximidade de quartel, não do templo católico, evidentemente.  Então eu não sabia que, se entrei no convento franciscano por um lado, tinha de sair pelo mesmo? Era, de facto, muito grave. Como é que eu, tão vivido em lutas revolucionárias, fui cair em tal incongruência? (Ainda me fez namoro ao relógio, mas eu, em consciência, não podia ceder, e, por fim, lá consegui continuar caminho, mesmo sem retornar àquele pelo qual tinha entrado...) 307
A lógica de mim desconhecida
Mais tarde, já na minha casa de Quelimane, contei isto a um ministro que me fora visitar. E rimo-nos. Eu, porém, fiquei sempre preocupado, porque era impossível que qualquer coisa na revolução não estivesse a desmoronar-se. (E estava!) 308
Riso que se torna amarelo
Com tudo isto, como poderia estranhar quando ouvi que na presidência da república havia uma cadeira na qual só o nosso máximo se podia sentar? Não é verdade que uma vez o arcebispo da Beira chamara à atenção do bispo de Quelimane para o facto deste último se ter sentado, na ausência do primeiro, na cátedra arquidiocesana? De facto, qual é mais importante: o terem sido os dois sagrados como bispos da Igreja católica ou um ter o título de arcebispo e o outro ser seu sufragâneo? Qual é mais importante: a teologia ou o direito canónico? Se este último até fica acima dos evangelhos... 309
Cátedra da contradição
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Da sacralização de espaços para a de pessoas, não sei que distância fica. A globalização galopa: dinheiro, honra e todos os seus símbolos. 310
Galope sacrossanto
A pirâmide substitui o círculo, o topo e a base passam a articular-se pelo centralismo burocrático, embora continuem a chamar-lhe de democrático, como era de praxe, e as reuniões, essas, nunca chegaram a respeitar a cultura moçambicana nem a ciência e a técnica das relações humanas: sempre continuaram como a potência ocupante fazia (mesa para os sagrados, alinhamentos sucessivos para os profanos). 311
Geometria sagrada
Redondo? Só onde chegava a iniciativa dos alfabetizadores, quando não acontecia, até estes, serem subtilmente reprimidos por conotações com democracias cristãs... A arrogância dos assimilados nem os deixava compreender a tradição mais genuína nem a ciência mais moderna, que, neste caso, se abraçavam. 312
Geometria popular
E o termo camarada passa a ser tratamento só entre membros do Partido, e só dentro das reuniões: –Camaradas? Nem de escola! – diria um alto dirigente do nosso principal banco. (Já bastante antes, logo nos inícios, se havia determinado que isso de camarada não se aplicava a nível de estado, onde o excelência e senhor dos colonialistas continuava, obrigatoriamente...). 313
Morte da sororalidade/frater-nidade
Calções – começam a cair  mal: –Não sabia para onde vinha? – perguntava-me um administrador, exactamente como outrora me perguntava um juiz colonial por eu chegar ao desplante de não levar gravata. 314
Calções
Mini-saias – são  conotadas com má vida. E ai de quem se não apresentasse num restaurante sem fato e gravata, ou, então, de balalaica e calça comprida a condizer (o tal conjunto). Ficaria à porta, do lado de fora, ou teria de se ir mudar, compor... 315
Minis
Jeans? Nem pensar: homem ou mulher que fosse. E, por mais elegante que uma pessoa se apresentasse, isso não contava. Mas, com uma gravata muito mal posta (bem ao contrário de Samora) e um fato muito mal amanhado, logo as portas se abriam... e com todas as vénias. 316
Vénias à gravata
E dos casamentos revolucionários, cheios do simbolismo da aliança operário-camponesa, passou-se a um casamento civil esbatido no machismo dos casamentos religiosos, onde nem faltava o véu da submissão feminina e a homilia do representante do conservador: –O marido é como o presidente, e a mulher, como o primeiro ministro. Anticonstitucionalidade até o ridículo! 317
E as "homilias"?
Isto ouvi eu até no casamento do nosso primeiro embaixador plenipotenciário junto da ONU, e, depois, ministro dos recursos minerais. E ele bem me prometeu que eu nunca mais ouviria semelhante aberração nos Registos Civis de Moçambique. Mas ouvi. Carlos Lobo desconseguiu – até que a sua invisibilização o atingiu, juntamente com a do nosso, apesar de tudo querido, Samora, em 19 de Outubro de 1986. 318
Carlos Lobo
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A forma é, ontologicamente, para expressar/exprimir o fundo; e, logicamente, para nos possibilitar e ajudar a abordar, penetrar e saborear, se possível até a exaustão, esse fundo. 319
Forma e fundo
O formalismo esconde o fundo, frustra tal possibilidade de penetração, porque esvazia o conteúdo e nos conduz exactamente ao oposto: ontológico e lógico. 320
Formalismo
Por isso, quando vinha ao Maputo e me proporcionavam algum encontro com "altas(?) estruturas" (outro termo aberrativo), apesar de todas as críticas e talvez subtis ameaças de nunca mais mos proporcionarem, eu nunca perdia a ocasião de condenar o formalismo em que nos estávamos a afundar como uma das mais perigosas reacções.  321
Mein kampf
E o mais interessante é que o topo sentiu-o e tremeu...: a vanguarda não era mais vanguarda, porque já não se identificava com o povo: virara élite, separada, portanto, dele. E que poderíamos realizar sem o apoio do povo, ou, pior ainda, com o medo e a hostilidade do povo? 322
Tardiamente, o topo vê
Lembro-me muito bem de uma das últimas orientações que recebi quando era chefe de quarteirão e presidia à comissão de moradores: –A posição de sentido é para os militares, não para os civis. Sempre que dirigentes ou governantes passem pelas ruas ou surjam algures, o povo deve manifestar a sua alegria acenando ou como melhor se coadune com os seus sentimentos, mas nunca perfilado ou em sentido. 323
Tentativa a desoras
Obedeci, como sempre que não fosse contra a minha consciência, mas essa obediência só serviu para continuar, agora com o apoio do topo, o que sempre havia feito... porque nunca esperei por orientações para seguir e prosseguir na linha revolucionária (sem desvios à direita ou à esquerda). 324
Disciplina revolucionária
Mas fiquei contente por ter mais este argumento vindo do topo, como contente havia ficado com o Vaticano II e até já com algumas ou parte de algumas encíclicas, por confirmarem e valorizarem o que já há bastante fazíamos no campo missionário. 325
O apoio vindo de cima
Quando as coisas, porém, são ditas ou feitas não por convicção, mas por populismo, outra forma de oportunismo (agora de cima para baixo) – o povo, o povo, o povo, dos políticos, ou os leigos, os leigos, os leigos, dos clérigos), não resultam: soam a oco. 326
Vacuidade:
o continente já sem conteúdo
Numa visão hilemorfista, forma substancial (acto) e matéria prima (pura potência), sendo princípios quo (pelos quais) e não quod (o qual) não existem separadamente, mas só unidos – no plano essencial: aquela é o princípio da especificação, esta, o da individuação. 327
Essência
No plano existencial, porém, a substância, embora normalmente exprimindo-se, manifestando-se pelas propriedades (necessárias, mas não essenciais) – quantidade e qualidades – e estas, pelas notas individuantes (acidentes), pode ocasionalmente separar-se delas: é o fundo a esvaziar a forma, ou, talvez, a forma a deformar o fundo, a forma a escoar o precioso conteúdo.. 328
Existência
É o drama do formalismo, roupagem imprópria a esconder corpos cheios de beleza.


329
Incongruência do formalismo
Citronellas Café, Sugar Beach, Mauricius,
23 de Março de 2000.
 
Júlio M. R. Ribeiro  




    
 

 
    


CAPÍTULO SÉTIMO



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Quando tinha voz activa no campo missionário, o primeiro Bispo de Quelimane sempre me facilitou encontros, deslocações e  todo o género de iniciativas  que me permitissem, na base, ajudar a criar uma autoconsciência dos próprios valores, da própria cultura, da própria identidade, e, no topo,  participar numa reflexão sobre a maneira de cristianizar: –Será correcto transmitir um cristianismo europeizado? Ou sacramentalizar antes de uma profunda e prolongada evangelização? A missa no início (à maneira da Ilha de Moçambique ou de Porto Seguro, há cinco séculos) ou no fim de uma árdua caminhada comunitária (à maneira da véspera da morte de Cristo)? E evangelizar logo depois de uma qualquer adaptação (ou até sem ela) ou só depois de uma verdadeira inculturação? 330
Evangelizar por direito ou por concessão?
Os Padres Brancos, primeiro, o Mundo Melhor, depois, e o Vaticano II, por fim, e essa reflexão vai surgindo um pouco por todo o lado, talvez com predominância na Beira, Quelimane e Nampula, e vamo-nos comunicando com crescente entusiasmo. Na Zambézia, destaca-se Ambrosio Comotti, dehoniano, com os cursos de reciclagem  de Milevane em 1975,  o Texto Base das LINHAS DE PASTORAL NA DIOCESE DE QUELIMANE e o organigrama estrutural, tudo elaborado comunitariamente e já numa perspectiva não eclesiástica, piramidal, mas eclesial, circular. E nunca vi tanto respeito e carinho pelos nossos bispos e presbíteros como quando a távola redonda virou costume. Era o enlace fraternal/sororal entre topo e base – termos que saem do nosso vocabulário: sois todos irmãos... a ninguém chameis de pai(=padre) sobre a Terra... nem de mestre... (Mt,8,9-10). 331
Da pirâmide ao círculo
Hoje, a maior parte dessas conquistas são pacíficas, ao menos teoricamente. Ninguém questiona a cultura banta, as línguas nacionais, as comunidades com os seus ministérios e carismas, o catecumenato, a participação activa do laicado, a igualdade de direitos de mulheres e homens, a Bíblia... O que não significa que, na prática, não exista um reducionismo da cultura a elementos acidentais, secundários ou até negativos, não se deleguem as línguas bantas para segundo plano, se não esvazie o significado de comunidade ou de catecumenato, se não mistifique a participação dos leigos e das mulheres em especial, se não descure o estudo da Bíblia (quem sabe se a favor de "revelações" particulares, como acontece com a Liturgia, "pastoralmente" subalternizada a devoçõezinhas). Já é muito animador, porém, uma certa plataforma teórica, que, em tempos, estava longe de existir. Mas já não tem cabimento a euforia dos fins dos anos sessenta e inícios dos setenta. 332
Avanço e recuo
Lembro-me de como o Vicente, numa das minhas poucas viagens ao Sul, me apresentou à assembleia dominical onde eu surgira, talvez nos meados da década de setenta. E lembro-me de como exteriorizei a minha alegria: sim, estava contente, era um cristianismo incarnado na realidade africana pelo qual todos lutávamos e não por um produto importado do estrangeiro (e logo da potência ocupante e/ou anexadora). E lembro-me de ter manifestado a minha esperança de também chegarmos a um consenso sobre a compatibilidade do Evangelho com uma transformação socialista e a incompatibilidade do mesmo com a manutenção do capitalismo. 333
Nova etapa
E em 77, quando pela última vez me foi dado exprimir a minha opinião perante o topo, que condescendia em ouvir a base, mas não se dignava misturar-se com ela nos grupos que antecediam os plenários, o que me levou a dizer alto e bom som que me sentia recuado vinte anos, não perdi a ocasião de manifestar o método que me parecia melhor seguir, no momento, perante a revolução em curso. 334
mas esta... fracassada?
De facto, havendo uma plataforma humana tão importante com o que de essencial há no marxismo-leninismo, não adianta lutar contra essa linha: adianta sim, e isso com toda a urgência e com todas as nossas forças, evitar que caiamos no stalinismo, que, aliás, nunca figurou nos documentos oficiais, mas que, na prática, parecia iminente. 335
Contraviolência gratuita
E por que haveríamos de lutar contra o centralismo democrático, que nada tem de desumano e pode ser um mecanismo bem eficaz de comunicação base-topo-base? Lutar, sim, contra o centralismo burocrático, que já começava a fazer das suas, a coberto da confusão entre os dois centralismos. 336
Opressão disfarçada
Até mesmo o materialismo dialéctico, em vez de afrontá-lo, por que não penetrá-lo e aproveitar os seus aspectos positivos? Afrontar, sim, e sem hesitações, o materialismo mecanicista, absolutamente incompatível com o nosso humanismo e sobretudo com a nossa fé. 337
Reducionismo
Se aceitamos o jogo democrático (para o poder temporal, evidentemente, que para o mundo eclesiástico isso não funciona), e a grande maioria dos eleitores vive do seu trabalho e não de rendimentos, temos de aceitar a vontade dessa maioria. O que temos de evitar é que ela seja manipulada pela ditadura declarada ou tácita de qualquer elite. Sobretudo para quem pronunciou voto de pobreza, parece ser evidente a opção: será?... 338
Democracia de exportação
A alfabetização era uma palavra de ordem, e com ela facilmente distinguíamos a vigilância revolucionária, popular, da vigilância reaccionária, pidesca, a disciplina revolucionária da disciplina opressora, o protocolo revolucionário do protocolo dos ricos. E aqui, será difícil a opção? 339
As duas linhas
E sobre o recurso à ciência e à técnica a favor não apenas  de elites, mas de todo o povo, teríamos algo a obstar? O que tínhamos era de exigir que fôssemos, de facto, verdadeiramente científicos sem omitir nenhuma das ciências, como estava a acontecer, por exemplo,  com a pedagogia e a psicologia. E que as tecnologias fossem, de facto, as mais adequadas para sair do subdesenvolvimento. 340
A via mais eficaz
E (isso não o disse na altura, mas disse-o noutras ocasiões) que mal haveria até em assumirmo-nos como ateus (em sentido relativo, é óbvio), se até os primeiros cristãos eram considerados como tais por não adorarem nenhuma criatura, imperadores que fossem ou deuses do Olimpo? Não nos veda o Evangelho curvarmo-nos (ajoelharmo-nos) perante o dinheiro, o poder e os demais ídolos de que a sociedade de consumo está cheia? E não foi tão educativo não pronunciarmos o nome de Deus nas escolas durante aqueles primeiros anos? Pelo menos não o invocámos em vão, como tantas vezes  o fazíamos, convertendo-o, na melhor das hipóteses, num deus tapa-buracos (para safarmo-nos da nossa ignorância e da nossa preguiça de estudar) ou  num deus justiceiro (atribuindo-lhe o nosso espírito vingativo, que assim até se disfarçava em virtude) – em todos os casos, num ídolo feito à nossa imagem e semelhança. Tomáramos nós a morte desses deuses! 341
Nós, ateus
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Com que cara ia eu atacar o stalinismo emergente e crescente, se eu próprio há décadas ajudava com todas as minhas forças a implantar em Moçambique uma Igreja que, também ela, em determinada época histórica, se estruturou na violência, querendo expandir a fé com o recurso (aberto) da espada ou o recurso (subtil) do braço secular – e este último mesmo nos nossos dias?... (Não é o Papado a última monarquia absolutista da Europa – como nos chama a atenção Hans Kung?) 342
Como ser coerente?
Cristo, qualquer que tenha sido a prática posterior da hierarquia ou mesmo a teoria dos teólogos para a defenderem, foi bem claro quanto ao recurso da espada (Mt,26,52; Lc,22,49-51; Jo,18,10-11). E naquele livrinho de bolso (capa vermelha e letras douradas) que todos líamos e discutíamos – CINCO ARTIGOS DO PRESIDENTE, das Edições em Línguas Estrangeiras, de Beijing, publicado em 1972 – Mao Zedong, também qualquer que tenha sido a sua incoerência neste assunto,  é bem claro, a páginas 58, em condenar, como comportamentos reaccionários, mesmo na disciplina militar, o recurso a execuções e castigos corporais. 343
Putschismo
Quando lemos as punições dos crimes contra a segurança do Povo e do Estado Popular de Moçambique da Lei 2/79, publicada na I Série do BOLETIM DA REPÚBLICA n.º 25, de Quinta-feira, 1 de Março de 1979, páginas 83-89, e, quatro anos mais tarde, a medida punitiva e educativa aos autores, cúmplices e encobridores de vários crimes, consumados, frustrados ou tentado (sic) da Lei n.º 5/83 publicada no Suplemento de Quinta-feira, 31 de Março de 1983 do BOLETIM DA REPÚBLICA n.º 13, páginas 26 (1-2),  também da I Série, com a agravante do art. 8 – A presente lei entra imediatamente em vigor e aplica-se  aos casos ainda não julgados – e, passados mais quatro anos (Samora já tinha desaparecido fisicamente: outros culpados há... e sempre houve), a Lei 17/87 – dos Crimes Militares – publicada no 6.º Suplemento, de Segunda-feira, 21 de Dezembro de 1987, do BOLETIM DA REPÚBLICA  n.º 50, páginas 418 (19-32), também da I Série, com a menção desonrosa da alínea e) do art.21, arrepiamo-nos: a revolução tinha acabado! 344
Repressão
Suicida
Mesmo que não tivéssemos dado motivo para isso, é discutível que, de momento, a ganhássemos, tal era a força ora subtilíssima ora brutalíssima do imperialismo, agora disfarçado pela globalização – palavra atraente, se não significasse exactamente o contrário: exclusão. 345
Facilitámos o caminho
Mas demos motivos de sobra: rusgas a improdutivos e a prostituas, a conotarem aquelas rusgas que eu via no tempo colonial para fornecimento de mão de obra para as companhias; campos de reeducação a conotarem os que conhecemos na Europa nos inícios dos anos quarenta; aldeias comunais (a nossa grande esperança, se geradas pela conscientização) a conotarem os aldeamentos da guerra colonial; e, agora, uma repressão do género stalinista ou mesmo da mais extrema direita. 346
Caímos na imitação
Um processo revolucionário nunca será sustentável enquanto não formos capazes de  resistir à tentação de utilizar as mesmas armas dos patrões: só transitoriamente eles serão derrotados, porque, além do mais sofisticado armamento ser sempre o deles (a sucata é que nos é vendida), o poderio dos meios de comunicação social é de uma profundidade psicológica e de uma expansão tal que é até ridículo comparar (qual a tiragem, por exemplo, de um FRATERNIZAR e de qualquer jornal dos grandes empresários do mesmo país?).  347
...até nas armas!
Só levaremos uma revolução a cabo se a nossa agressividade for sempre norteada pela verdade (que exclui a ineficiência técnica, o erro científico e a hipocrisia) e pelo amor político (que exclui tirar a vida ao próximo e sobretudo exclui  desistir de proporcionar ao inimigo, que de facto existe em nós e nos outros, ocasiões de se conscientizar, não lhe dando mesmo margens a fugir delas).  348
Agressividade sem violência
Só essa convicção de que a verdade é mais forte do que a falsidade, o erro e a mentira, e de que o amor é mais forte do que o ódio (por mais hipocritamente que este  esteja escondido), e resistindo a todas as provocações que nos façam cair no desespero, ou às publicidades que nos acenam com falsas esperanças, ou às tais balas de açúcar de que falava Samora e que nos levam à tentação de nos acomodarmos e desistirmos... às vezes dizendo que é só um parêntesis, mas que, de facto, se abre e nunca mais se fecha para recomeçar... – só essa fé na verdade e no amor pode levar a bom termo uma revolução que, no fundo, afinal, não passe de reacção. 349
Paciência sem resignação
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A Lei 5/83 e a alínea e) do art. 21 da Lei 17/87 são revogadas na Segunda-feira, 18 de Setembro de 1989, pela Lei 4/89, publicada no 3.º Suplemento do BOLETIM DA REPÚBLICA n.º 37 – I Série – página 348 (5), tarde, muito tarde, para as autoridadezinhas perderem o vício de tudo querer resolver à pancada (mal se abriu um precedente jurídico, logo todos se arvoravam em juízes – ilegalidade era mato – como até se pode ler nos jornais). Tarde, muito tarde, sobretudo para readquirirmos a credibilidade. (Custa muito termos de ouvir que afinal também nós, católicos, não podemos esperar readquirir a credibilidade pedindo desculpas com um atraso de séculos, e continuando a festejar triunfalisticamente os quinhentos anos, e não só!) 350
Adeus, credibilidades
Perante este trunfo que os grandes, médios e pequenos senhores constantemente nos atiram à cara, que faremos? Resignarmo-nos? Desistir? Dar-lhes razão? Aproveitar pelo menos as migalhas que nos deixem dos grandes, médios e pequenos assaltos? Camaleonarmo-nos? Virarmos misantropos? Suicidarmo-nos? 351
Trunfo na mesa
=
xeque-mate?
Se até Saramago, ainda que muito grande, não deixa de ser herdeiro da cultura greco-romana, e afirma com toda a veemência e dignidade:  –Este  fracasso, esta derrota histórica não significa uma derrota definitiva nem desses ideais nem das possibilidades de chegar, por uma via mais justa e mais humana, a um grau de felicidade e de bem estar relativos que se distinga do espectáculo deplorável que no mundo existe. [SARAMAGO, José – Cercos (Os) de Lisboa / (Em foco). "Jornal (O) Ilustrado", Lisboa, Suplemento n.º 775 de "Jornal (O)" de 29/12/1989 a 4/1/1990, página 11.]... 352
Derrota provisória
...Quanto mais, herdeiros e estudiosos da cultura banta, que não tolera assimetrias humilhantes, seremos capazes de não deixar morrer em nós aquela grande virtude que em língua macua se exprime pelo termo ovilelela – uma paciência activa que, sem nada de resignação, nos dá a força necessária para nos sabermos conter e só actuar no momento comunitariamente considerado eficaz! 353
Contenção estratégica
É claro que não foi para derrubar o stalinismo que os senhores (deuses do Olimpo?) decidiram acabar com o projecto socialista de Moçambique – exactamente como não o foi na Europa de leste. Mas foi um trunfo inestimável: pretexto apresentado como causa, verdades para diluir a verdade, factos para provocar a miragem de um salto da escravidão para a liberdade, o salto desnecessário do muro de Berlim, porque foi derrubado... miragem dos supermercados... miragem do usufruto de todos os direitos humanos... 354
Miragem vendida como realidade
Só que...  um povo com fome não é um povo livre – diz Saramago na obra acima citada. E bem sabemos que, se tem fome, não é por preguiça nem mesmo por ser pobre, mas por ter sido empobrecido (pelos tais deuses que se contentam com o tratamento de senhores). 355
Deuses empobrecedores
Giovanni Bonalumi, dehoniano, cujo entusiasmo apostólico me foi sempre bem patente desde o dia em que o conheci na Missão de Muliquela, no Ile – em 17 de Setembro de 1956, uma Segunda-feira –, não se assustou com a guerra colonial, nem com  a revolução nem com a reacção:  ardia por evangelizar a todos! Em 1977, escreve e oferece-me um manuscrito, que tenho aqui na minha frente, com o título FEDE MARXISTA E FEDE CRISTIANA / La Verità è il Cristo / Nela fede marxista: che è il vero? / e nel mondo: chi è la verità? / 101 Risposte di fede cristiana (138 páginas, que suponho nunca terem merecido a atenção dos superiores e certamente nunca foram publicadas, mas que atestam bem a sua preocupação e o seu zelo). E, na segunda metade dos anos oitenta, aceita um prolongado e itinerante cativeiro, e, sempre com o mesmo ardor apostólico com que, primeiro, abordou os soldados da potência ocupante, depois, os guerrilheiros vitoriosos e libertadores, agora entrega-se ao anúncio entre guerreiros desestabilizadores – numa caminhada de anos,  forçada, cheia de sacrifícios , agruras e privações. 356
Capelão de guerreiros
Pois esse missionário, que, embora muito aberto, como pude constatar, primeiro, pelo interesse que manifestou pelos métodos dos Padres Brancos, depois, pelo seu espírito de hospitalidade, finalmente, pela sua participação nos cursos de Milevane (que acima referi), era de uma piedade toda tradicional e sem qualquer simpatia por ideais revolucionários, pois esse missionário, uma vez liberto e regressado à Zambézia, dizia aos seus confrades que não tinha valido a pena fazer essa guerra: teria sido muito melhor continuar a insistir com a Frelimo para que seguisse a tal linha correcta, mas verdadeiramente correcta, sem desvios, excessos, e sobretudo sem abusos do poder. 357
Opinião insuspeita
E o mais caricato, se não fosse trágico, é que reclama-se agora cobro à exploração, mas não se suportou a luta que fazíamos contra a exploração do homem pelo homem, porque era um chavão... (e até se teve de eliminar do texto constitucional!) Prega-se contra o facto da maioria estar cada vez mais pobre e a riqueza acumular-se em poucas mãos (os pobres cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos), mas não descansaram enquanto não se reinstaurou o regime capitalista. E isto num período de tempo tão curto que até parece que só se quis eliminar o nosso projecto de justiça para que depois fossem os clérigos a terem a honra de se arvorarem em seus defensores: levar à falência a iniciativa de pobres laicos, para depois surgir uma hierarquia como salvadora. (Mas, afinal, em que ficamos? Não é esse que dizeis ser o nosso campo específico? Ou continuaremos sempre menores, necessitados de tutela?) 358
Caricato trágico
Quem não quer trabalhar também não há de comer (2 Tes. 3,10) será menos verdadeiro quando escrito por um clássico comunista do que quando escrito por Paulo? E, quando  falávamos de homem novo, entraríamos em contradição com Col,3,9-10, ou,  ainda que muitos de nós inconscientemente, estaríamos, sim, a preparar o caminho do Senhor (Mt,3,3 e Jo,1,23)? E, quando contrapúnhamos emulação (socialista) a competição (capitalista), não estaríamos muito mais em sintonia com Rm,11,14 do que quando aplaudimos as altas competições, ainda que fosse só nos campos de futebol? 359
Subjectivismo intencional?
Pelo contrário,  não deveríamos ficar contentíssimos por até ateus, agnósticos ou simplesmente não cristãos terem assumido como sua a Palavra de Deus – agora (incarnada no mundo)  – feita palavra do homem? Ou, ao fim de vinte séculos, ainda  sofreremos do zelo não esclarecido de que fazem eco Marcos (9,38-40) e Lucas (9,49):  –Mestre, vimos um homem que expelia demónios em teu nome, e nós lho proibimos, porque não é dos nossos. Sabemos a resposta de Cristo, sabemos como ele se identifica com o povo e sabemos como, na cultura banta, rico e demónio se identificam. 360
Despeito?
Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai.(Mt,7,21) 361
Para bom entendedor...
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A desfiadura parecia pequeníssima, nem dava para ver, pouquíssimos ou pouquíssimas a toparam, talvez parecesse ridículo falar dela, ou até mesquinho. E, no entanto, parecendo que não, era um vírus profundo: o binómio anticultural senhor-servo, muito escondidinho e muito bem disfarçado (humanitariamente disfarçado, digamos). 362
Quinta coluna
Mais uma malhazinha vai caindo: profissões muito boas, mas que ninguém as quer para si nem para os entes queridos. 363
Hipocrisia?
O rasgão já espreita: há erros que se compreendem e até deles se podem tirar lições; mas se, em vez de emendá-los no presente e no futuro, ainda os exaltamos e mistificamos... 364
Contumácia?
E a mochila rasga-se mesmo, e sem conserto: o dinheiro que só se acumula roubando aos outros, a arrogância que impõe moldes subservientes e alienantes (o tal formalismo) e o poder que deixa de ser autoridade e que se impõe mesmo à custa da integridade física do próximo – são tudo pesos excessivos... e a mochila rasga-se mesmo, e sem conserto! 365
Orgulho?
Vamos confeccioná-la com tecido novo? Assim não nos falte a tal virtude que dá pelo nome de ovilelela, nem a fé revolucionária, nem aquela esperança cristã, que suplementa todo o nosso entusiasmo de recomeçar ou continuar a todo o momento.


366
O amor nunca desiste
Maputo, Coop, 13 de Junho de 2000.  




    
 

 
    


Segunda Parte



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CAPÍTULO PRIMEIRO



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Estava a acabar de ler a PERSPECTIVA de Helder Muteia, publicada na última página do NOTÍCIAS de Sexta-feira, 20 de Dezembro de 1991, e a pensar: afinal também aqui nem todos se deixam ir na cantiga. E uma série de interrogações me assaltaram: 367
Não estamos sós
Até quando teremos possibilidade de debater estes assuntos? É que, nas ditas democracias, é costume haver muita liberdade... para os ricos. 368
"Direito" dos plutocratas
Por quê tanto medo em copiar os modelos de leste, e tanta aceitação nos modelos ocidentais? Será que só os outros é que colidiam com a nossa cultura e personalidade? 369
Modelo "aceitável"
Por quê tanta fobia pelo termo popular e tanta simpatia pelo termo democracia? Será que este está historicamente ileso de conotações desagradáveis? 370
Conotações impertinentes
Por quê tanta meticulosidade em fazer as vontades dos citadinos e tão facilmente se desrespeita  as vontade dos camponeses? (Longe de nós pensar em qualquer coisa que se pareça com uma réplica de assimilados e indígenas!) 371
Democracia:
para quem?
Por quê tanto contentamento pela erradicação do centralismo democrático e nem uma palavra contra o centralismo burocrático? Será que é mesmo este último que pensamos perpetuar? 372
Burocracia ou democracia?
Por quê eliminar sem mais a distinção entre propriedade pessoal e privada? Será que aquela nos vai ser reduzida a um mínimo miserável a favor dos afortunados que se vão ou se estão a encher com a tão decantada privatização? 373
Ricos e pobres:lindo ideal!
E por que a propriedade privada irá cair nas mãos apenas de alguns trabalhadores e até de não trabalhadores? Será que cada um não terá direito a ser dono do que produz e daquilo com que produz? Será democracia a privatização só para alguns afortunados? 374
Patrões ou donos?
Por quê tanto entusiasmo na luta anticolonial e agora tão doentia ansiedade pelo neocolonialismo? Será porque neste uns  tantos nacionais tomam parte mais proveitosa? Mas também não foram sempre os colaboracionistas que tornaram possível o colonialismo? 375
Colónia, não Neocolónia, sim?
Por quê tão pouca clareza no emprego da palavra paz, parecendo que ela equivale a um cessar fogo? E se este, ainda por cima, for à custa de velhas e novas dominações? 376
Simular a paz?
Por quê aquelas duas forças que, por natureza, se identificariam com o povo se digladiaram? Será que não viam que nos lançavam no abismo? 377
Destruir plataforma tão rica?
Ainda outra vez: por quê tanto valor na luta contra o colonialismo e tanto desvalor perante o neocolonialismo? Será que já não enxergamos a realidade das aparências? Afinal, ninguém estaria convicto? 378
Arranjismo ou convicção?
Mas, deixando os que no fundo só buscavam bons lugares, bons vencimentos, bons casamentos, não será o momento de se reagruparem os outros, os que com sinceridade e sacrifício serviram os ideais propostas em 74? Não acredito que todos se desorientassem, se perdessem, deixassem apagar a fé revolucionária, a esperança no futuro, o amor do povo.


379
Apelo aos coerentes: quem  não os reconhece?
Livraria Ovetekula
Quelimane
23 de Dezembro de 1991




    
 

 
    


CAPÍTULO SEGUNDO



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Inken:
 
Quando me escreveste em 10 de Fevereiro de 1991, já tinha partido para a Europa, e, por isso, só li a tua carta no regresso, em fins de Julho. Apreciei muito a serenidade e objectividade com que analisas a situação, que todos estamos a viver. Desde a queda do muro que estava para te escrever, congratulando-me, evidentemente (como gostaria que todos os muros, e não só esse, fossem derrubados!), mas indignando-me também com a hipocrisia ocidental, que tanto se afligia com o de Berlim e tenta ignorar o que existe (e bem pior!) entre o Norte e o Sul, e mais flagrantemente (porque mais próximo) o que aprisiona na miséria o quarto mundo1. 380
Euforia de um lado
Hipocrisia do outro
Alegrei-me imenso e alegro-me ainda por já poderes viajar por todo o mundo, aspiração tão humana e direito tão evidente. Ansiava há muito pela erradicação da herança stalinista2 que tanto desfigurou e desacreditou o marxismo-leninismo. E sempre considerei «pouco seguro» o socialismo imposto de cima para baixo. (Não era só o nosso que era «pouco seguro»...) Mas não queria acreditar que houvesse quem deseje saltar do segundo para o primeiro mundo, sabendo que isso acarretaria a criação de um quarto mundo mesmo no próprio seio3. 381
A isca da liberdade

Também aqui (e em Angola) a reconquista4 está a ser terrível (mas pode5 a CEE viver no nível em que vive sem dominar a África, ou a USA sem dominar a América latina?). Tanto quisemos evitar o neocolonialismo6! Mas desaguentámos: em parte por nossa culpa (a pressa de enriquecer, ainda que seja sozinho7, ainda que seja à custa dos outros). Vencemos a primeira guerra (a anticolonialista): perdemos a segunda (a neocolonialista). 382
Não queríamos qualquer independência,
e afinal...
Vencidos, não convencidos. Se em parte foi por nossa culpa, em grandíssima parte foi por forças que nos ultrapassam muito. À semelhança da célebre conferência de Berlim no século passado, os nossos destinos estão a ser traçados bem longe de nós8, numa paródia de mau gosto, querendo fazer acreditar que somos nós que não nos entendemos, que não somos capazes, que precisamos de quem nos deite a mão, que precisamos de esmolas9, quando na verdade sabemos o que queremos, temos recursos, e, se precisamos de solidariedade, é aquela de que toda a gente precisa: os problemas só se resolvem a nível mundial. E foi, exactamente, quando viram que éramos capazes, que se lançaram em força na reconquista, utilizando guerreiros (não guerrilheiros, que é muito diferente) pretos, exactamente como na época esclavagista e colonial, em que se utilizavam régulos, capatazes e sipaios, para o odioso não recair nos estrangeiros. E, depois desta mortandade, que continua enquanto as novas (ou velhas?) metrópoles se não entendem, mandam-nos "caritativamente" migalhas daquilo que nos espoliaram e expoliam, ainda uma multidão de organizaçõezinhas ditas não governamentais para as administrarem... Não mandavam também missionários os ditos descobridores (ibéricos), para encobrirem os verdadeiros objectivos e cobrirem de "caridade" o empreendimento10? 383
A grande farsa
Mas não há que ficar em lamentações: a realidade é a realidade e só essa nos interessa: o que há é que, a partir dela, cá como aí, repensar e recomeçar11; porque, se ainda tínhamos ilusões, agora já não temos o direito de ignorar ou fingir ignorar o que já sabíamos ou o que ficamos a saber: 384
Revigorados pela lição
1.º - O mundo que desejamos – um mundo de todos nós e de cada um de nós, e no qual nós todos e cada um de nós se possa realizar plenamente – não se constrói de cima para baixo, mas de baixo para cima. (É evidente, não é?)12 385
Não ao centralismo burocrático
2.º - Não é pelo pacifismo (resignação vegetativa) que se consegue acabar com a exploração; mas também não é pela violência revolucionária ou contraviolência (atitude já menos estúpida do que a vegetativa, mas, mesmo assim, ainda muito bestial, ainda pouco humana, e, por isso, por vezes, de eficácia a curto prazo, mas sempre pouco duradoira). A exploração só acaba se a tornarmos impossível: pode haver explorador sem haver explorado? Então, se todos os explorados ou exploráveis se recusarem a sê-lo, não é evidente que também deixam de existir exploradores e exploração13? 386
Não ao
deixar-correr
 nem à guerra
Não é fácil conseguir recusar ser explorado e isso pode custar e custa, muitas vezes, a morte. Mas a guerra não custa muito mais mortes e, ao fim e ao cabo, não é sempre o explorador a vencer? É que as armas mortíferas são dos ricos e, felizmente, são ineficazes nas mãos dos pobres (senão, também estes se tornavam, como tantas vezes se tornam, exploradores). Que fazer? Que armas são as próprias dos pobres? Como tornar eficaz e duradoira a erradicação dos sistemas exploradores14? Penso que estudando, aprofundando e sobretudo pondo em prática progressiva os princípios e as técnicas da NÃO VIOLÊNCIA ACTIVA15. De acordo? 387
Sim à luta eficiente
Vou terminar, porque isto já está a ultrapassar os limites de uma carta, muito embora, ainda há dias, tenha escrito para Itália uma outra de nove páginas a dar uns tópicos comentados da minha caminhada missionária (e da luta que lhe está inerente) desde a chegada a África no início do quarto trimestre de 195016. Tinha eu vinte e cinco anos de idade, com alguns já de luta – luta inspirada no contacto com os camponeses e sobretudo com a miséria das ilhas da cidade do Porto (não na periferia, mas no próprio centro), que são o quarto mundo onde me iniciei na adolescência e início da juventude17. 388
Fonte de inspiração, o quarto mundo e também o campo
Querem-nos ludibriar, deixando ir na enxurrada do estalinismo também o que há de essencial e positivo18 no marxismo-leninismo. Dizem-nos que estes sofrimentos são próprios de toda a transição e resultados dos nossos erros, e que dentro de alguns anos todos atingiremos um nível de vida satisfatório. Mas esquecem que nós , além de inteligência, também temos memória; e é exactamente esse quarto mundo (para não repisar no terceiro mundo) que é a mais flagrante contradição de tudo quanto dizem e prometem. Se tais são as virtudes do capitalismo19, por que mantiveram esses submundos durante  os dois séculos de reinação? 389
Tudo lixo?
Esta é uma reflexão minha, mas não me sinto só20: tenho bastantes documentos sobre os diversos temas explanados nesta carta que o podem provar. E de variada proveniência. Também os teólogos católicos21 têm estado atentos a toda esta evolução. Se precisares que te cite fontes bibliográficas, fá-lo-ei numa futura carta. 390
Unidos... mesmo em diáspora
É difícil andar pelo meio, evitando os desvios de direita e de esquerda. Também as mulheres tiveram desvios, recuos, fiascos: mas na sua luta de libertação há avanços definitivos e bem evidentes, irreversíveis (se bem que já tenha medo de dizer esta palavra...). E quem fala da mulher fala de muitos outros aspectos da libertação humana. Quem quereria recuar algumas décadas que fossem? Sabes quanto custou a Maria Montessori entrar na universidade22? 391
Utopia não é ilusão
Um abraço cheio de esperança e de entusiasmo do





JÚLIO
Quelimane, 7 de Dezembro de 1991



.
PÓS-ESCRITO:
Já depois de ter remetido a carta de 7/12/1991 e mesmo antes de obter resposta, não resisti sem te enviar algumas citações que de algum modo a ilustrem, documentem, mostrem que, embora em diáspora, não estou isolado. Converti-as em notas de fim do documento para melhor estruturação do conjunto do texto.
Quelimane, 2/3/1992.





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CAPÍTULO TERCEIRO



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Denise:  
Não calculas a alegria que me proporcionaste com a tua carta de 9 de Março de 1994, recebida em Quelimane em 14 do mesmo mês. De facto, sempre que nos últimos anos tenho passado pela Suíça, não nos temos encontrado, ou por estares ausente ou por te imaginar tão ocupada que nem numa refeição pudéssemos estar juntos. Sobretudo quando estavas em Lausanne, quantas vezes pensei em ir ver-te! 392
A alegria da amizade
Tenho em mente voltar à Suíça em Junho de 1995, mas, nessa altura, já terei setenta anos e, embora cada vez me sinta mais feliz no trabalho e na luta ideológica, e até me surpreenda ser velho, ser da terceira ou Quarta idade, ou ser do grupo da vida montante (vie montante – como tão delicadamente nos classificam os de língua francesa), a verdade é que sempre estive bem consciente  de que em qualquer momento posso ser eliminado da arena por desaparecimento físico... Mas, se até lá isso não acontecer e se ainda estiver no activo, espero desta vez podermos estar juntos, como sempre tenho estado com os nossos comuns amigos desse maravilhoso País de montanhas e lagos e de uma democracia muito original. 393
na vida montante
E, por falar em democracia, penso que sabes bem o que se está a passar connosco, porque foste uma daquelas que com entusiasmo nos ajudaste aqui, em Moçambique, e nos continuaste a ajudar quando regressaste à Europa. Sabes bem como o Povo moçambicano tem raízes ancestrais democráticas, como a nossa luta revolucionária foi sempre para construir a democracia – democracia nacional (primeira fase, conquistada pela independência), democracia popular (segunda fase, que ainda ajudaste a iniciar e que seria conquistada pelo poder popular durante uma década, planeávamos nós...), democracia socialista (terceira fase, que nem chegámos a iniciar, porque nem a segunda nos deixaram completar). 394
Democracia unívoca?
E, pegando e repegando em certos desvios stalinistas em que, de facto, caímos, e confundindo-os com a essência do nosso projecto, querem-nos fazer convencer ou pelo menos que finjamos convencer-nos de que nada disso é democracia, que o Ocidente é que nos há-de ensinar o que é democracia e como a temos de construir. E temos de aceitar isto tudo de cara alegre e até com festejos, se não queremos que recomece a guerra a que chamam civil – mas nunca o foi – e que motivou milhares de mutilados, cerca de um milhão de mortos e milhões de deslocados. 395
O ridículo
(e não só)
 do paternalismo
E até os sectores que tanto se afligiam com a imitação de modelos orientais (que sabes muito bem nunca admitimos fosse servil ou mecânica) agora batem palmas à imitação mais do que servil dos modelos ocidentais. 396
...e da assimilação
E quando vozes tímidas de certos diplomatas reconhecem que de facto a democracia não se constrói em todos os países da mesma maneira, é já depois de nos terem obrigado a passar por cima da vontade popular (interessante não é? Uma "democracia" não baseada na maioria!) e de suportar todo o ridículo desta campanha... para divertimento (e proveito) do primeiro mundo. E, talvez mais humilhante ainda, termos de chamar doadores a exploradores. Evocação dos tempos em que se tinha de dizer obrigado depois de um saguati de palmatoadas?... 397
...e dos modelos e terminologia imposta
Temos de assistir a uma mistificação do voto, nos meios de comunicação e sobretudo nos templos, como se os verdadeiros destinos de Moçambique estivessem, de facto, na maneira de exercermos esse nosso direito e dever, sem uma explicação e um protesto sobre as limitações, o beco de difícil saída, que, à força das armas, desaguentámos evitar. Sem uma palavra sobre os verdadeiros centros de decisão, qualquer que venha a ser o resultado das eleições (com fraude ou sem fraude...), sobre as verdadeiras metrópoles (económicas e a histórica e cultural, é claro), sobre as novas coordenadas das Tordesilhas, digo, da Nova Ordem (?) económica, a que, de facto, não nos quisemos nem queremos submeter, e que nos custou o massacre acima referido e o assistencialismo apolítico e desinteressado, evidentemente(!), do primeiro mundo. 398
Mistificação do voto e neometrópole
Por mais que nos queiram ensinar e por mais dinheiro que gastem nessa pedagogia, nunca chegaremos a perceber o que é democracia? Estará a razão do lado desses "analistas" portugueses? 399
Maus alunos
De facto, porque tanto empenho no nosso voto, agora em que a escolha pouco altera o nosso futuro (sem negar que com ela poderemos minorar certos males), e não fomos consultados em questões essenciais como a adesão ao FMI? E para quê ter sido o Povo consultado sobre o mono e pluripartidarismo, se afinal se não respeitou a vontade da maioria e até se foi cair no multipartidarismo? Democracia é só fazer a vontade do Povo quando esta coincidir com a dos grandes? 400
Decidir no acidental?
E isto sem falar nas vitórias forjadas muito democraticamente pelos métodos psico-sociais (em que embaixadas e organizações ditas não governamentais são mestras) e pela mentalização dos grandes meios de comunicação social (numa esmagadora maioria nas mãos da plutocracia). Que tiragem têm, por exemplo, os jornais que defendem os interesses da minoria privilegiada, e que tiragem têm os jornais que conseguem exprimir os verdadeiros interesses das maiorias, quer na parte utilizada quer na parte excedentária? 401
...ou nem isso?
É evidente que não queremos a guerra, e espero que já todos nos tenhamos convencido de que nem à defensiva voltaríamos a recorrer, nem como último recurso, porque a guerra nunca é justa, porque ela a curto prazo pode parecer eficaz, mas, por último. Vai sempre beneficiar a tal minoria. Os oprimidos têm de recorrer e reinventar outro género de armas, eficazes a  longo prazo. 402
Ou aceitas a nova psico-social ou suportas a velha repressão
Mas não podemos tolerar que se chame paz à não beligerância, que por todos os meios (e novamente os templos à frente de todos)se queira convencer a população de que estamos em paz. E se alguém pode saber que paz não consiste apenas no cessar fogo, embora este já seja uma grande vitória, são exactamente as hierarquias religiosas. Pelo menos a católica, além das Escrituras, dispõe de uma vasta documentação papal sobre o assunto. Por que será que, salvo raras excepções, a ouvimos constantemente empregar o termo paz quando o seu conteúdo não permitiria ir além de não beligerância? 403
O equívoco da paz
Não queria ver nisto qualquer comprometimento com o neocolonialismo (agora consolidado com o termo do processo eleitoral) nem recordar o antigo comprometimento com o colonialismo. Mas não posso deixar de muitas vezes me perguntar: qual foi o requinte de maior crueldade dos nazis – o de fuzilar os prisioneiros ou de os deixar morrer à fome? Impossível desconhecer a situação económica da grande maioria dos moçambicanos. Por quê recorrer a bodes expiatórios em vez de reconhecer as verdadeiras causas? É claro que não vão ser os analistas do primeiro mundo que no-las vão dar. Mas se experimentássemos a coligação de analistas do terceiro e quarto mundos? 404
Nova versão da cruz e da espada?
Denise: termino esta carta já no início da segunda semana de Novembro e já de posse da contagem de 75% dos votos. Quando penso no centro-norte, não posso deixar de recordar o que ouvia em Quelimane antes de ter mudado a minha residência para o Maputo: «–Vamos votar na RENAMO só para que não haja mais guerra.» E logo penso também no motivo da derrotados sandinistas já lá vão alguns anos. O factor medo é muito importante. 405
O medo é democrático?
Mas isso não é o pior: o pior é chamarem a isso vontade do povo, democracia, liberdade. E não penses que só eu penso assim: vão-se multiplicando os intelectuais moçambicanos que se não deixam assimilar e vão encontrando maneiras de exprimir o sentir do povo e da sua cultura. Pascal dizia, se a memória me não falha, que o homem é maior do que o universo, mesmo quanto este o esmagasse... porque sabia que ia morrer. Sim, Denise, o moçambicano, enquanto homem do terceiro mundo, é maior do que o do primeiro, porque tem consciência do sistema de que está a ser vítima. Fatalisticamente? Não: quem soube libertar-se do colonialismo também saberá libertar-se do neocolonialismo, por mais que este recorra a novas formas tentadoras, subtis e mistificadoras e sobretudo neoconstantinianas. 406
Consciência e liberdade renascem da derrota
Queria ainda elencar certas fontes, citações, explicações, confirmações de algumas passagens desta carta, mas ela já vai longa e gostava que ainda a recebesses no Vietnam e soubesses da minha mudança de residência – principal motivo de tanta demora na resposta. Daqui a alguns dias (semanas?) farei isso num pós-escrito... documental. 407
e reagrupamo-nos
Um abraço desta neocolónia da União Europeia para essa neocolónia do Japão, se é que, com as transnacionais, ainda se pode falar em termos de coordenadas e tão linearmente.


408
Paralelismo África/Ásia
JÚLIO  




    
 

 
    


CAPÍTULO Quarto



ovetekulap02c04
Quase se fica com pena do dia 4 de Outubro neste ano de 1992 calhar a um Domingo, impedindo assim liturgicamente, a memória obrigatória de Francisco de Assis. Mas os textos1 do 27.º Domingo do Tempo Comum, se bem aprofundados até encontrar a sua flagrante unidade (à primeira vista nada simples sequer de vislumbrar), levam-nos facilmente ao jovem que, aos vinte e cinco anos, contesta e repudia a vida burguesa, submete-se a Cristo e à Hierarquia, e, mais tarde, propondo estruturas religiosas libertadoras, procura destruir as opressivas... que vão minando a Igreja, a sociedade e, sabe-se hoje, até o próprio Planeta. 409
ocorrência e concorrência
Na primeira leitura, ouvimos Habacuc (ou seremos nós mesmos milhares de anos depois?) a protestar: «–Até quando, Iahweh, pedirei socorro e não ouvirás, gritarei a ti: violência!, e não salvarás? Por que me fazes ver a iniquidade e contemplar a opressão? Rapina e violência estão diante de mim, há disputa, levam-se contendas!»2 410
Surdez divina ou proposta de vida adulta?
E veio Cristo revelar o Reino em que se extingue para sempre a relação senhor-servo,3 e a escravatura vai mudando de nome,4 mas continua, tomando, por vezes, até formas mais requintadas, porque mais disfarçadas.5 E a guerra e a rapina continuam aqui mesmo ao pé de nós.6 411
Fracasso
E veio Francisco, retomando o Evangelho, tão esquecido ou retorcido até pelos que mais o deveriam praticar e difundir, e a ganância continua (quem ama a Dama Pobreza?), e a destruição da Terra intensifica-se (onde está a fraternidade do Cântico das Criaturas?). 412
em cima de fracasso
E vieram tantos outros (e até nos nossos dias os profetas da ecologia e da não violência activa das mais diversas filiações),7 e insiste-se ou em querer resolver tudo pela violência ou em deixar correr... como passivos espectadores. 413
e sempre fracasso?
Passam-se gerações e gerações, e a nossa reclamação continua no mesmo tom: «–Até quando, Senhor, implorarei sem que escuteis?»8 E Habacuc (e nós?) obtém resposta: «Então Iahweh respondeu-me dizendo: –Escreve a visão, grava-a claramente sobre tábuas, para que se possa ler facilmente. Porque é ainda uma visão para um tempo determinado; se ela tarda, espera-a, porque certamente virá, não falhará! Eis que sucumbe aquele cuja alma não é recta, mas o justo viverá por sua fidelidade.»9 414
Não será em vão a nossa luta
É que Deus não tem de prestar-nos contas,10 mas sim nós a Ele. Não reflectíamos, no Domingo 23.º deste ano C,11 em que ser cristão não é uma facilidade, mas uma exigência?12 A Palavra de Deus não falha, realiza-se, mas não é de nossa conta saber quando. A nossa esperança (a nossa espera) não será frustrada. Da nossa parte basta a fidelidade, a fé operativa, a fé com obras.13 Que obras? Obras de justiça e de amor. 415
se a fé for operativa
Se continuássemos a ler Habacuc, encontraríamos as cinco imprecações, maldições: 1.º - contra os que acumulam o que não é seu;14 2.º - contra os que ajuntam ganhos injustos;15 3.º - contra os que constroem (casas, impérios, neocolónias?) com sangue;16 4.º - contra os que manipulam (propaganda, mass media?)17 5.º - contra os que fabricam ídolos (religiosos, políticos, desportistas, vedetas?).18 416
Os cinco pecados de ontem e de hoje
Cruzar os braços será ter fé? Será ser fiel? Fidelidade não será, pelo contrário, lutar – o termo é já de João Paulo II19 –, mais do que contra acções, contra as estruturas opressivas religiosas, políticas familiares, escolares, económicas e recreativas? 417
As seis frentes da luta
O Reino está garantido: pela Incarnação do Verbo, o Rico fez-se Pobre, o Senhor fez-se Servo, a fraternidade universal é uma realidade: essas dicotomias jamais existirão. Quando?... «Se ela tarda, espera-a. Certamente virá, não falhará.»20 418
A Vitória
Mas não faremos uma triste figura21 perante o mundo? Não zombarão de nós, apelidando-nos de ultrapassados, apegados a causas perdidas? 419
Quixotismo?
Paulo a Timóteo – estamos na segunda leitura22 – é bem claro:23 «–Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de sabedoria. Não te envergonhes(...), sofre comigo pelo Evangelho(...)». 420
Ou realismo?
E novamente pensamos em Francisco, que não temeu24 nem os poderosos do dinheiro nem o ridículo (o que ainda custa muito mais): 421
Franciscanismo:
1.º - Repudia uma paternidade que virava opressiva, e passa a somente a Deus chamar Pai, como Cristo mandou de modo bem claro (por muito que pese a toda uma classe).25 422
- um único Pai
2.º - Leva a sua fraternidade não só aos seres humanos, mas às feras, às plantas, aos seres inanimados.26 423
- e todos irmãos
3.º - E vai mais fundo27, porque a Igreja e a sociedade não estavam a ser minados tanto por pecados isolados ou individuais, mas colectivos e, pior ainda, estruturados, institucionalizados. 424
- estrutura de pecado
4.º - Não é verdade que os mosteiros enriqueciam, ainda que individualmente os monges vivessem pobres?28 E a fraternidade não estava a ser minada por um clericalismo e por uma dicotomia entre monges de coro e conversos – estrutura que nos aparece, talvez pela primeiro vez, em Vallis Umbrosa, graças a João Gualberto?29 425
- senhores e servos vestidos de hábito
5.º - Então Francisco, sempre submisso à Hierarquia e numa veneração a toda a prova ao clero, estabelece uma Ordem de Frades Menores (percebemos o que isso significa?) e um voto de pobreza não apenas individual, mas colectiva (a que estará hoje reduzida?).30 426
- estrutura libertadora
6.º - E Francisco vive feliz31 nesta fraternidade (intimidade) com deus e as criaturas, não passivamente perante o mal (estruturado ou não estruturado), mas numa não violência bem activa: 427
- a harmonia
7.º - Não o vemos no Norte de África a falar com cristãos e muçulmanos para tentar impedir uma nova cruzada? E sem temer a morte nem as ironias dos grandes e dos seus lacaios? 428
- oferecer a vida, mas nunca a tirar
E, depois disto tudo, termos de nos considerar servos inúteis?32 Não será demais? A primeira leitura33 propõe-nos esperar ainda que sejam séculos ou milénios; a segunda34 propõe-nos trabalhar sem medo e arduamente; agora a terceira35 não nos deixa reclamar, porque não fizemos mais do que a nossa obrigação... 429
O cúmulo da exigência?
E se rezássemos como os Apóstolos: «–Aumenta-nos a fé!»36? Cristo não nos responderia: «–Se tiverdes fé como um grão de mostarda»37...? 430
Maneira de a aceitar como carga leve
Perante tudo isto, não se torna bem claro que, sendo mesmo abandonados por todos os outros (o que não acontece), nós, cristãos, temos de continuar a lutar por uma sociedade equitativa, sororal/fraternal, livre, onde os rendimentos sejam proporcionais ao trabalho,38 onde todos participem nas decisões,39 e possam realizar-se plenamente?40 431
Mais responsáveis do que os outros
E, com os pés no chão, será algum mal caminhar sempre para novas estruturas, que, progressivamente, permitam cada um dar segundo as próprias possibilidade e receber segundo as necessidades?41 432
Mesmo para além do socialismo...
A guarda do depósito da fé,42 por vezes tão manipulado pelo reaccionarismo, não é uma força a mais que os outros não têm, e que não nos desculpará fraquejar perante esta nova (des)ordem mundial?43 433
Depósito passivo ou activo?
Será que a razão está do lado do mais forte, daquele que conseguiu (até quando?) vencer pelo poder das armas mortíferas e da manipulação dos meios de comunicação social? Mas será mesmo uma vitória definitiva ou uma prova para caminharmos melhor44 e com mais fé? 434
Como nos duelos?
Afinal foi magnífico que o 4 de Outubro calhasse este ano num Domingo com textos tão ricos sobre a soberania de Deus e a nossa fé.45 435
Feliz concorrência





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Excursos




Júlio em meditação
no monumento a Patrício Lumumba
na Avenida de General de Gaule em Strasbourg no ano 2000


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Fundamentos para uma sociologia renovada
Obra escrita entre 1945 e 1950 e publicada em Guimarães em 1956.
monarquia
Foi apreciado pela Junta Escolar do Porto da Causa Monárquica nas suas sessões das 21.30 horas das sextas-feiras,
nos dias 20 e 27 de Janeiro, 10 e 24 de Fevereiro, e 3 de Março de 1950





    
 

 
    
Monumento a Patrício Lumumba na Avenidade General de Gaule em Strasbourg
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Fundamentos para uma sociologia renovada


Nota do Autor do sítio

Foi preciso renascer na África austral para me dar conta do absurdo de um deus no masculino, do antagonismo entre bispo de Roma e chefe de estado do Vaticano, da incompatibilidade entre Evangelho e Direito canónico, da aberração dos poderes espiritual e temporal, e da contradição e ineficácia de uma igreja piramidal e não circular. Tendo deixado o hemisfério norte em 1950, em que já tinha escrito FUNDAMENTOS PARA UMA SOCIOLOGIA RENOVADA, é fácil de perceber as passagens que ofuscam o essencial da obra.






 Ela só (a Realeza) - porque a sua autoridade não depende de confirmações periódicas - estará, normalmente, em condições de, à luz da justiça, tentar as reformas sociais mais arrojadas, sem perigo para a Ordem Social, que ou será justa, existindo, por isso, nos espíritos, ou não passará de «ordem aparente», de «transitória ausência de desordens».


 (Do «Comunicado da Causa Monárquica» de 9-VII-951 por ocasião da Eleição Presidencial, subscrito pelo Lugar-Tenente de EI-Rei, o Prof. Doutor Fezas Vital.)



Obra escrita entre 1945 e 1950

monarquia

SEPARATA DA REVISTA DE PORTUGALIDADE GIL VICENTE
GUIMARÃES
1956







    
   
    


Índice



I–JUSTIÇA SOCIAL 
    A) Fundamentos da Justiça social 1 e 2
        1) Específicos 3
            a) Teleológicos 4 a 10
            b) Ônticos. 11 a 15
            c) Axiológicos 16 a 18
        2) Individuais 19 a 23
    B) Concepção de Justiça social 24 a 30
    C) Conclusões  
        1) Dificuldades 31 a 33
            a) Económicas 34 a 39
            b) Sociais. 40 a 49
        2) Soluções  
            a) Possíveis discordâncias dos que não sofrem 50 a 56
            b) Argumento dos que sofrem 57 a 75
II-TÉCNICA 76 a 109
    A) Perspectivas técnicas 110 a 113
    B) Nova escravatura  
            Causas. 114 a 123
    C) Obstáculos à solução  
        1) Interesses capitalistas 124 a 127
        2) Super-produção e desemprego 128 a 134
    D) Soluções  
        1) Corporativa (insuficiente)135 a 143
        2) Municipalista (eficaz)144 a 156
            Só na Monarquia será eficiente a solução municipalista 157 a 165
III-ACÇÃO ESTADUAL 
    A) Localização do Estado na sociedade civil  
        1) Causas da sociedade civil166
            a) Eficiente 167 a 173
            b) Final 174 e 175
            c) Material e formal 176 a 178
        2) Condicionalismo179
    B) Orgânica estadual  
        1) Ineficaz  
            a) Capitalismo 180 a 188
            b) Socialismo 189 a 193
        2) Eficaz  
            a) Descentralização194 a 205
            b) Centralização206 a 220
IV-LIBERDADE  
    A) Causas ônticas 221 a 232
    B) Condições 233
        1) Estaduais 234 a 236
        2) Pedagógicas  
            a) Igreja 237 a 249
            b) Nobreza 250 a 252
            c) Família e escola 253
    C) Amplitude  
        1) Liberdade política e económica 254 a 257
        2) Liberdade civil  
            a) Aspectos 258 a 261
            b) Limites. 262 a 271
V-PLENITUDE DOS TEMPOS  
    A) Aspectos da plenitude dos tempos  
        1) Plenitude da Justiça social 272 a 274
        2) Plenitude da técnica 275 a 276
        3) Plenitude da acção estadual 277
        4) Plenitude da liberdade 
            a) Momento imperial 278 e 279
            b) Momento católico 280 e 281
    B) Significado da plenitude dos tempos 283 a 287
Conclusão 288 a 294
NOTAS 




    
   
    


I - Justiça social




A - Fundamentos da Justiça social



Não é uma expressão vã como tantas que se ouvem para aí. Não foi a habilidade política que a inventou (embora a explore por vezes). Não é arbitrariamente que se pronuncia. Justiça social encontra os seus fundamentos na mais íntima onticidade. É sobre esses profundos alicerces que vamos iniciar este estudo. 1
Na consideração dos seres encontramos sempre dois princípios que nos dão a sua explicação última intrínseca - a especificação e a individuação.2
  
1 - Específicos
  
Comecemos pela especificação. Três momentos podemos considerar aqui - o teleológico, o ôntico e o axiológico. 3
Teleológicos
Momento teleológico4
Visão do homem: o seu aspecto anatómico ou físico ordena-se ao químico, este ao fisiológico, este ao sensitivo, e este ao racional. 5
Visão da Natureza: os minerais ordenam-se aos vegetais, estes aos animais, estes aos homens, e estes a Deus. 6
Há uma distinção de razão raciocinada maior entre esses aspectos do homem, os quais constituem uma unidade substancial. E há uma distinção real e separação relativa entre os elementos da Natureza, que constituem uma unidade acidental, de ordem - o chamado Universo. No microcosmo (homem) a parte inferior limita a superior, e esta sublima aquela. Há uma ordenação final intrínseca. No macrocosmo (Universo) os elementos inferiores servem os superiores, e estes servem-se daqueles. Há uma ordenação final extrínseca. 7
Em conclusão: 1) Além do fim específico, há dois extra-específicos: um infra-específico (sublimar as partes inferiores) e outro supra-específico (ministerial) no qual está a plenitude teleológica. 8
2) No homem verifica-se isso entre as várias diferenças específicas que constituem a sua essência. Na Natureza verifica-se isso entre as variadas espécies essencialmente distintas. 9
3) As espécies superiores têm o direito de se servirem das inferiores, e estas, portanto, têm o dever de as servirem. Como estas noções jurídicas subentendem natureza racional, na Terra só o homem goza de tal direito sobre as espécies inferiores. Mas surge uma questão interplanetária insolúvel talvez: Como se não sabe se em outros astros haverá habitantes dotados de qualquer parcela espiritual, ignoramos até que ponto, o homem será senhor do Universo. 10
Ônticos
Momento ôntico11
Considerando os seres 'tais, isto é, em concreto, temos o aspecto físico da questão. Os seres, fisicamente considerados, podem ser simples (ou espirituais) e compostos (ou materiais). Estes, anorgânicos ou orgânicos. Estes, viventes ou sensitivos. E estes, finalmente, brutos ou racionais. 12
Considerando os seres não no modo de ser, mas como seres, isto é, no 3° grau abstracto, lemos o aspecto metafísico - fundamento do físico, explicação última de tudo. É o transcendental abstracto que só predicamentalmente se pode concretizar (como acabamos de ver na consideração física). É ainda o Transcendental concreto. O ser, como transcendental, nas criaturas não, se pode concretizar, porque transcendental diz tudo, infinito, e as criaturas são, necessariamente, finitas. 13
O ser, como transcendental, só em Deus se concretiza. Este ainda pode ser considerado filosófica ou teologicamente, consoante tomarmos os dados da razão natural ou os da razão sobrenaturalizada pela Revelação. 14
Em conclusão: Ônticamente, o físico é explicado pelo metafísico, e, neste, o transcendental abstracto é explicado pelo concreto, e, neste, finalmente, o aspecto natural é explicado pela fé. Isto não significa confusão de ciências, mas harmonia e colaboração só possíveis se aquelas se mantiverem distintas. Do que não pode restar dúvida é de que a Metafísica é o centro de todo o saber, e de que da fé jorra muita luz sobre toda a Cultura. 15
Axiológicos
Momento axiológico 16
A ordem teleológica será apenas existente ou também válida? E a ordem ôntica será apenas constitutiva ou também normativa? 17
A teleologia terrestre exprime não apenas uma constituição ôntica, mas ainda um dever-ser, que lhe dá carácter normativo. De facto, as espécies dos vários elementos do Universo e os aspectos do homem são autênticos valores. A sua teleologia exprime a hierarquia desses valores. E ainda quando os elementos dotados de livre arbítrio não respeitam a ordem valorativa, esta continua a ser válida, a dever-ser. 18
  
2 - Individuais
  
E passemos à individuação. 19
Esta penetra o ser totalmente como a especificação. São dois princípios identicamente indispensáveis para a explicação ôntica. 20
A individuação apresenta-se, nas naturezas intelectuais, com um novo aspecto - a personificação. Os brutos são indivíduos. O homem é pessoa na medida em que é espiritualizado, e indivíduo na medida em que é materializado. É sempre e necessariamente uma coisa e outra. 21
Onde se radica a individuação? A espécie vem da forma substancial - elemento "quo" pelo qual a inteligência conhece o ser. O indivíduo vem da matéria-prima o outro elemento "quo" inacessível ao conhecimento. Conhecemos, de facto, o que há de específico no homem animalidade e racionalidade. Mas é-nos vedado conhecer a diferença essencial - a " haecceitas" - de cada um. Por isso nos limitamos a diferençá-los pelas notas individuantes. 22
Mas há, é forçoso, uma explicação mais profunda. Não são apenas os acidentes a diferençar-nos: estes são já a manifestação da diferença essencial. Doutro modo seríamos todos uma só pessoa, seríamos meros acidentes ou manifestações desse único homem. Também não explicaríamos o indivíduo pela forma (especificadora). Esta é que lhe dá actualidade, mas não o explica radicalmente. Muito menos interessa para aqui a explicação extrínseca da causa eficiente: o que nos interessa é o porquê intrínseco ao ser. Esse porquê último, radical, encontramo-lo na matéria-prima em ordem à quantidade. 23


B - Concepção de Justiça social



Com este panorama ôntico ficamos habilitados a conceber a verdadeira justiça social. Apenas tocamos os pontos fundamentais que interessam ao caso e fugimos de explicações e desenvolvimento. O nosso intuito é apenas partir dos dados do Tomismo e não prová-lo. São inúmeros os compêndios e as obras em que tal trabalho está feito. Seria desviar-me do caminho repeti-lo. Mas quem conhecer bem o Tomismo, repassou pela inteligência estes grandes problemas e viu bem os fundamentos metafísicos da justiça social. 24
Uma aplicação coerente destes princípios filosóficos leva-nos já a rejeitar a falsa concepção comunista que pretende só seja possível a justiça social por meio da propriedade colectiva (com exclusão absoluta da particular) e da distribuição estática (igual para todos e em todas as circunstâncias) dos bens vitais. Não: a natureza humana exige, de facto, a propriedade colectiva, mas só na medida requerida pelo bem comum; e exige, portanto, a propriedade particular limitada por esse mesmo bem comum (o que legitima impostos, expropriações, nacionalizações, municipalizações, fiscalização, etc.) e limitada ainda pelo bem particular do semelhante, quando este é atingido nos seus direitos: os que não possuem o mínimo vital têm o direito de o exigir aos que possuem o supérfluo. Destas últimas palavras parece-me poder concluir-se o que seja a justiça social palavra tão repetida e tão pouco realizada. 25
Justiça social não é, portanto, justiça comutativa (pela qual temos o direito de exigir a paga daquilo que fornecemos), nem é justiça distributiva (pela qual temos o direito de exigir do estado que nos faça, equitativamente, participantes do bem comum), nem é justiça geral (pela qual o estado tem o direito de exigir o nosso equitativo contributo para a realização do bem comum). Justiça social não é ainda o altruísmo, filantropia ou humanitarismo - sentimento e virtude naturais que nos levam a proteger o semelhante de graça, por favor, mesmo sem obrigação estrita; nem é mesmo caridade, que é o próprio humanitarismo realizado já não por simples motivos naturais, mas por um amor sobrenatural. 26
Justiça social é a virtude pela qual temos de entregar o supérfluo aos que não possuem o mínimo vital. Não é por favor que o fazemos: eles têm o direito a esse mínimo vital pelo próprio facto de serem homens como nós. 27
E não nos atemorizemos com a insistência nestas palavras: justiça, direito. A caridade não as veio banir. E, do mesmo modo, elas não tiram a vez à caridade. Sob o pretexto de caridade, muitas vezes se falta à justiça, e muitas outras se passa, vaidosamente, por fazer um favor, quando nem sequer se cumpriu, completamente, um dever estrito 28
A caridade não veio substituir a justiça, mas sublimar as relações com o próximo. 29
Ao fazeres justiça, fá-la como quem faz o estritamente obrigatório e não como quem faz um favor. Mas não te limites nunca a esse dever de justiça: sobrenaturaliza todos os teus actos pela caridade. Só pela justiça não te salvas: precisas de amar. Mas se quiseres amar sem ser, primeiro, justo, enganas-te a ti mesmo, porque é impossível amar sem ser justo. Entrega o supérfluo aos pobres, ama-os e neles ama Cristo - e serás salvo. Se não entregares, porém, o que pertence ao pobre e se o não amares - serás condenado. E lembra-te de que os pecados dos outros (mesmo dos mais ricos do que tu) não justificam os teus. 30


C – Conclusões



1 - Dificuldades
  
E eis-nos habilitados a tirar certas conclusões impostas pela justiça social. O supérfluo há-de ser distribuído, na medida necessária, para que todos tenham o mínimo vital dinâmico (adequado a cada um e a cada circunstância). 31
Mas esbarramos com dificuldades intransponíveis sem uma modificação radical da rotina económica e social em que vivemos, não obstante o esforço corporativo do Estado Novo. A vida económica está cheia de círculos viciosos, contradições e incertezas, que só aproveitam a uma pequena minoria capitalista - desfrutadora das mais fabulosas riquezas à custa da maioria que geme dê dificuldades e, muitas vezes, até de fome e frio. Essa plutocracia tudo maneja na sombra, sacrifica vidas, povos e civilizações, e não sei se é mais venenosa quando lança mão da revolução e da guerra, se quando corrói por dentro a sociedade e as suas organizações mais úteis e bem-intencionadas. (Que esta é uma eloquente faceta da Maçonaria é supérfluo esclarecer.) E esta minoria maneja e ilude as próprias massas que imola ao seu egoísmo, e diz-se a sua protectora e defesa (!). E as próprias massas que passam fome, frio e vivem infectas "ilhas", prestam homenagem e seguem esses "mestres" hipócritas, podres de dinheiro e podres de consciência. 32
É assim que essa plutocracia consegue ser (ia dizer, se não fosse blasfemo) omnipotente. É esse o capitalismo moderno que tem merecido as condenações dê Roma - daquela Roma infalível, vigilante e misericordiosa, que vela pelos pobres e indigentes, pelos que gemem sob a oculta influência da pior de todas as seitas e pior de todos as heresias - o capitalismo mação. Se o comunismo é ateu, este é diabólico. E ao atacar um, é preciso nunca perder de vista o outro. Os comunistas são desmacarados por Moscovo, mas os outros sabem trabalhar melhor … Vale a pena ler o artigo "La Chiesa Cattolica e il Capitalismo" (in L'Osservatore Romano, Cittá del Vaticano; 8 Maggio 1949). Nunca é de mais firmar bem a posição da Igreja.33
Económicas
A primeira espécie de dificuldades para estabelecer o reino da justiça social é, de facto, económica. Esta terrível engrenagem em que, se se aumentam os ordenados, logo os preços sobem, se se descem estes, logo aqueles se têm de descer, nunca se resolvendo o problema das classes pobres e médias, em que as evoluções da bolsa são tão bruscas que empobrecem ou enriquecem muitos apenas por mera sorte (e jamais por mérito), em que, finalmente, ninguém vive tranquilo, nem mesmo os ricos, (excepção feita a meia dúzia dos tais "mestres", conhecedores profundos e exclusivos desta "economia"), esta terrível engrenagem não permite o advento da justiça social por maior que seja (ou que fosse) a boa vontade e até a heroicidade dos ricos. 34
De facto, ainda que eu possua milhões, quem me afirma que tal ou tal quantia é supérflua? Tudo isso, que hoje se afigura supérfluo, daqui a segundos não será um seguro ou fundo de reserva que me livre da derrocada? Sou obrigado a dar o supérfluo; mas não o conheço, porque nesta engrenagem ele nunca existe. 35
Há depois dificuldades de ordem social. A primeira é o egoísmo que me levaria a não entregar o supérfluo ao seu dono - ao pobre -, ainda mesmo que o pudesse determinar, porque preferiria viver no luxo a matar a fome ao meu semelhante. A coacção estadual talvez pudesse remediar esta dificuldade. 36
Surge uma segunda dificuldade - o parasitismo. Se o rico tem de me dar o supérfluo, eu não trabalho e viverei à custa dos "lorpas" que trabalham e economizam para mim. Também a coacção policial poderia, talvez, remediar este mal, ao menos em parte. 37
Mas depois destas duas dificuldades sociais de ordem particular, surgem outras de ordem pública: a dificuldade do estado determinar os sujeitos possuidores do supérfluo e obrigados a entregá-lo numa certa proporção; e de determinar os sujeitos responsáveis por não possuírem o mínimo vital, pois a estes o rico nada tem de restituir em nome da justiça social. 38
E não vejo modo de solucionar, dentro do capitalismo, problemas tão complexos, como não vejo ainda o de conseguir estimular o rico (que só trabalhava num sentido egocêntrico) a continuar a trabalhar para o pobre. Pois se sou obrigado a entregar o supérfluo, para que hei-de granjeá-lo? Limitar-me-ei ao indispensável para mim e para os meus, se a tanto chegar a minha generosidade. E quantas outras dificuldades que me não ocorrem agora! 39
Sociais
A justiça social será uma utopia ou é que precisará de conserto radical? Temos de negar o primeiro termo do dilema, pois a justiça social alicerça-se no mais profundo da nossa natureza e onticidade. Resta corrigir a máquina. 40
Como? 41
1) Nacionalizando ou, melhor, municipalizando (sempre que a descentralização seja possível) a produção dos bens indispensáveis à vida; e expropriando a propriedade domiciliária supérflua, na medida necessária para que todos a possuam condignamente. 42
2) Obrigando cada um a contribuir com o seu trabalho para a produção do mínimo vital (adequando, no entanto, esse trabalho, na medida do possível, à saúde, vocação e vontade de cada um). 43
3) Dando a cada um, como paga desse trabalho, o mínimo vital dinâmico familiar (nunca em dinheiro, que só existirá para o supérfluo, mas nos próprios bens directos). 44
A utopia comunista e socialista da posse colectiva até mesmo dos bens directos não é repetida, pois defendemos a propriedade privada destes e só admitimos o colectivismo (isto é, a propriedade colectiva dos bens indirectos). 45
O erro comunista e socialista da centralização é desfeito pelo municipalismo. 46
A complicada engrenagem capitalista da moeda desaparece, ao menos para a aquisição dos bens indispensáveis à vida, assim já não dependentes das altas e baixas da bolsa. 47
O parasitismo é banido pelo trabalho obrigatório. 48
O erro democrático e comunista da igualdade é banido na concepção do mínimo vital dinâmico, isto é, adequado ao organismo, mentalidade, hábitos, gostos e circunstâncias de cada um; e o erro democrático e também comunista (por absurdo que pareça) do individualismo é emendada pela concepção do mínimo vital familiar.49
  
2 - Solução
Possíveis discordâncias dos que não sofrem
Que a justiça social é um imperativo da nossa natureza e que não a devemos desprezar, mas fazê-la reinar - isso provamos filosoficamente: pode reduzir-se, portanto, à evidência. 50
Que a solução apresentada seja a melhor e a única - isso, assim se nos afigura, mas não com a mesma clareza. Pelo menos até hoje parece nenhuma outra ter aparecido: o nosso corporativismo é um grande passo, mas não extirpa todos os males capitalistas. Nas próximas considerações sobre a Técnica, talvez, porém, esta opinião se consolide. 51
Impõe-se um esclarecimento: esta solução, basicamente, não é minha - é de Daniel Rops1. Eu apenas a purifiquei de possíveis erros, a conciliei com o Tomismo e a adequei ao caso português. Tudo isto se verá melhor no fim destes estudos. 52
Os críticos vão ser pessoas que não sofrem os horrores da insuficiência vital e, por isso, não concordarão comigo. O problema é grave de mais para o seu comodismo se não manifestar de algum modo directo ou camuflado; e dirão talvez: - É caminho aberto para o Comunismo. - Mas, senhores, tudo é caminho aberto para o erro e para o mal desde que se não siga pelo meio, isto é, desde que se não tome a verdade integral e se enverede por unilateralismo. O que há de mais santo pode degenerar em pecaminoso. Ora a verdade é que no Comunismo há uma parte que não é original: é aquela que traduz conceitos evangélicos. "No Marxismo nem tudo é satânico" - disse o Eminentíssimo Cardeal Patriarca de Lisboa na Sua mensagem de 25 de Dezembro de 1948. Há, de facto, uma parte justa no manifesto de Karl Marx. Para que o negar? Esta atitude só nos dá força para o atacarmos nos seus erros sempre condenados e novamente condenados pela Santa Sé. 53
Atacar-me-ão, ainda, considerando tal solução um tutelismo deprimente. Mas, embora deprimente, é o nosso egoísmo que o impõe. Quer dizer: o egoísmo é que é deprimente e vergonhoso e não O remédio adequado. O essencial é salvaguardar os direitos da pessoa, e estes são-nos salvaguardados ainda mais eficazmente do que nas pseudo-soluções capitalistas. 54
Dir-me-ão, ainda, que o lucro é indispensável para fomentar a iniciativa particular. Ora a verdade é que se abusa muito do valor do lucro para estimular a iniciativa particular socialmente útil. Essa iniciativa, movida pelo lucro, leva mais ao invento de sofismas, burlas, imitações, falsificações, etc. do que ao aperfeiçoamento. É vulgar dizer-se que os homens honestos não triunfam no comércio e na indústria, e a experiência confirma-o. A iniciativa particular é mais útil quando movidas pelo bem comum, pela Pátria, pela fé, porque assim é que se seleccionam os verdadeiros valores e verdadeiros dirigentes. Foi o que sucedeu com os nossos nobres (enquanto essa classe existiu com relativa pureza, isto é, até D. João V); e estes construíram uma obra bem grande, enquanto os burgueses agravam cada vez mais a nossa situação económica e social. É preciso, de facto, banir o lucro, mesmo o legítimo, e dar lugar ao bem comum - verdadeiro estímulo dos autênticos valores. É preciso que a aquisição dos bens indispensáveis à vida não dependa das terríveis engrenagens do capitalismo. 55
Haverá também (os ricos e comodistas que se não sentem mal) quem defenda as dificuldades económicas como estímulo para a afirmação de valores. Ora, se é verdade haver alguns desses casos, há (e deve ser a regra geral, pois até para a santidade se requer um mínimo de conforto) muitos outros casos de valores que se nulificam pela falta de um mínimo de possibilidades económicas. É que vivemos numa orgânica em que as dificuldades são muitas vezes ou, melhor, são quase sempre mais difíceis de vencer aos honestos do que aos sem escrúpulos. Àqueles é frequente aparecerem barreiras intransponíveis; a estes tudo é, possível, porque procedem como se superassem o bem e o mal (cfr. Nietzsche). Não vale, pois, o argumento, tanto mais que fraco valor seria aquele que, por não encontrar dificuldades económicas, se estiolasse. Mas grande valor é aquele que prefere as dificuldades e a não expansão pessoal naquele campo em que fosse indispensável um mínimo de capital, a transgredir a lei moral. Isto afinal, porém, nem sequer merecia referência, porque é -ditado por aqueles que se não querem incomodar nem despender do seu supérfluo em favor dos que não têm um mínimo económico que lhes permita a expansão em qualquer campo da sua especialidade. 56
Argumento dos que sofrem
E, para terminar, apenas este caso. Quando frequentava a Universidade de Roma, conheci um rapaz fraco, nervoso, ardente, de mentalidade ampla e profunda, vivamente crente. Chefe exemplar de não menos exemplar família, fora obrigado a empregar-se na capital e deixar a esposa e os filhos nos subúrbios. Educado num ambiente capitalista, mal atingiu a maioridade, preferiu a livre expansão da sua personalidade, num sentido cultural e social, embora à custa de dificuldades, a uma vida fácil e abundante, mas estreita, atrofiante dos verdadeiros valores - burguesa, numa palavra. 57
Era meu amigo: encontrei-o, um dia, num daqueles momentos de revolta, ansiedade e desânimo. Trabalhava e economizava; mas, para manter os seus e equilibrar o orçamento, tinha de se sujeitar às refeições mais económicas. E isto de nunca completar o estômago, um dia, dois, três, e sempre (só com os lenitivos dos fins de semana em que ia a casa) - acaba por debilitar o corpo e fazer decair o psíquico. A sua fisiologia requeria uma alimentação bem diversa dessa que se consegue fora de casa, sobretudo quando se não pode ultrapassar uma certa despesa. E o seu psíquico reclamava: - comer, comer até reconstituir as forças. Não era uma ânsia gulosa; era uma ânsia toda orgânica de um estômago todos os dias e a todas as refeições insatisfeito. É certo que ele podia, uma vez ou outra, saciar-se. Mas, se fosse a comer sempre o que o seu organismo pedia, arruinava-se infalivelmente: o pouco capital que possuía seria consumido em curtos meses; e depois, em vez de um bocado de apetite, sofreria a fome - fome para ele e para o seu lar. E desabafava: - De que me vale a fortuna que um dia venha a herdar, se agora definho, e já a não posso gozar? E o resto de apetite com que ficava após as refeições, afigurava-se-lhe já como fome, fome não tanto do pão, mas de saúde, força e vida: - Quero alimentar-me, alimentar-me bem como o meu fraco organismo e o meu trabalho requerem, alimentar-me para viver com a minha esposa, educar os meus filhos, chefiar e gozar o meu lar. 58
É este o drama tantas vezes repetido na classe média, sobretudo entre aqueles que mantêm uma conduta moral a toda a prova. Se tivesse roubado os seus patrões ou sócios, não como vagabundo que pega em duas batatas e vai preso, mas como contabilista exímio que desfalca com legalidade, ao menos aparente, e sabe tocar as cordinhas da farsa capitalista - seria um grande valor, um homem que soube vencer. (Estas palavras, na realidade, significam um grande vigarista, um homem que soube roubar de tal modo e quantias tão avultadas que, em vez de cadeia, como o vagabundo que pega em duas batatas para não perecer de fome, foi homenageado e criou fama.) Mas, porque esse rapaz foi sempre honesto e trabalhador, não passa de um medíocre aos olhos da mentalidade (?) burguesa. 59
O drama deste rapaz - bem focado naquele momento de crise não pode deixar impassível a mais embotada sensibilidade. Esse drama dá-se e repete-se para que a tal minoria viva na podridão da abundância. Esse drama é suficiente para nos obrigar, em consciência, a rever a nossa orgânica económica e social. 60
Mas, senhores, pensais que são só certas dificuldades e relativa insuficiência ao lado dessa podridão burguesa? 61
Mudemos o cenário: entrai naquela "ilha". Casas de rés-do-chão e sótão com dois inquilinos. Uma ruinha estreita no meio, um morro enorme no fundo. O sol mal penetra nas casas, quando penetra… Pai, mãe, filhos e até avós, às vezes, amontoam-se em um ou dois enxergões. Outras vezes, em lugar de casas pequeninas (e mesmo assim divididas por mais de um inquilino) são casas maiores; mas aqui o amontoado ainda é pior: já não são dois inquilinos para cada casa: é um inquilino para cada quarto. Cozinha (?), sala de jantar (?), quartos (??) tudo se resume nesse compartimento escuro, sem ar e, por vezes, térreo. E que comem? É o caldo e o pão, mas escassos. É uma côdea, muitas vezes, porque não tinham combustível. É o deita; com fome, fome autêntica; mas deitar nuns míseros enxergões e só com uma ou duas mantas que mal cobrem a todos. E quando há frio e não há lume e há fome e não há forças? É o acabrunhamento e a revolta, o desespero e o desfalecimento. É a depressão da personalidade até o aniquilamento ou até a mais aterradora deformação. 62
E quem há-de exigir que do meio desta miséria surja o carácter, a generosidade ou o reconhecimento pelas migalhas que lhe damos ou, melhor, restituímos? Quem exigirá que desta miséria surja o bom senso, a higiene, a civilidade, o tacto financeiro, a economia, a previdência? Quem não compreenderá o alcoolismo que ilude o estômago e o frio e faz esquecer a vida? Só a nossa estultícia e o egoísmo poderão conceber tal exigência. Se conhecesses o Tomismo - essa Filosofia do "justo meio", da "áurea mediocridade ", do bom senso -, saberias que para a santidade se exige, como condição, um mínimo de conforto. E, se fosses vicentino, terias concluído o mesmo. E se bem soubesses deduzir dos princípios metafísicos ou induzir dos dados da miséria - terias concluído que a reforma se impõe, que se fez alguma coisa, mas que falta muito ainda, que a revolução ou, melhor, a contra-revolução tem de continuar num sentido sempre construtivo; o regime tem de evoluir num sentido de consolidação. 63
Estou a fantasiar? 64
A viúva daquele tuberculoso, com dois filhitos pequenos (e um é aleijado) e a mãe inválida, paga 95$00 de renda e ganha 494$00: tem de alimentar cada um com 3$35 por dia. Recebe 20$00 da Conferência de S. Vicente de Paulo, mas nem sequer chegam para vestir a todos. 65
E aquela viúva de um criado de café, com três filhas, sendo uma louca e a maior de 12 anos? A mais velha ganha 6$00 por dia na costura, a mãe não ganha nada: e todos passam fome. 66
E aquele desempregado, involuntariamente, com mulher e cinco filhos? 67
E aquele que tem de alimentar cada um dos seus com dois escudos por dia, fora o vestir? 68
E aqueloutro que os tem de alimentar e vestir com 1$00? 69
E o rosário ia longe, se eu transcrevesse todos os depoimentos fidedignos dos vicentinos e vicentinas que tenho interrogado. E quantos casos ainda piores se darão e que eu não conheço, mas conhece Deus e conhecem aqueles grandes homens que têm vivido à procura desses miseráveis pelas vielas, pelas ilhas, pelos portais, pelas ruas: S. Vicente de Paulo, Ozanam, Dr. Barnardo, Padre Américo e tantos outros. 70
Mas, além dos envergonhados, há os mendigos que também têm não muito melhor fadário, embora por vezes consigam juntar dinheiro. Passam dias na cadeia, dias no albergue, dias a esmolar, e assim sucessivamente. E quantos, sem um tecto ou uma cama, dormem pelos portais ou em pleno relento? E quando chove e venta? Que horror! 71
Lembraste-te alguma vez, quando saboreias consolado o café, a mesa ou a cama, e a chuva bate nos vidros ou o trovejar te proporciona uma admirável sinfonia, lembraste-te alguma vez dos mendigos que regelam, todos molhados, e sem terem onde se secar, aquecer ou dormir, ou daqueles que, embora com uma imunda habitação, gemem de fome e frio? E quando te refazes na cama de uma constipação ou gripe, lembraste-te alguma vez dos miseráveis que tuberculizam e morrem sem conforto, nem carinhos, nem sacramentos? Lembraste-te alguma vez de ser vicentino e, ao mesmo tempo, colaborar com os homens de pensamento e de política, que sinceramente e acertadamente trabalham pela causa dos pobres e indigentes? Ou pelo contrário só pensas em destruir o pouco que está feito filiando-te em partidos comunistas, socialistas ou - ainda pior - democráticos? Se não pensasses só "em "mudar o tacho" a ver se te calha alguma coisa, mas pensasses no bem comum e na causa daqueles que sofrem mais do que tu, já terias no campo religioso, enfileirado como militante da Igreja Romana, e, no campo político, como militante de Salazar e de S. M. o Senhor Dom Duarte ", porque o termo lógico e necessário do Estado Novo (sem o qual tudo está perdido) é a Monarquia, a nossa tradicional Monarquia que se começou a perder com D. João V e se perdeu, totalmente, com D. Miguel I. Estes trabalham, de facto, pelo pobre e indigente. Os outros enganam-nos, escravizam-nos, deixam-nos morrer de fome e frio depois de lhes terem sugado tudo quanto querem - o suor do rosto e os filhos? 72
Mas agora compreendeste bem a necessidade da revisão à mentalidade capitalista. O primeiro passo foi o Corporativismo do Estado Novo: a contra-revolução, porém, ainda não terminou: o veneno capitalista não foi extirpado de todo. Na esteira da Tradição é preciso evoluir e consolidar essa renovação constante. 73
Por detrás da voz cavernosa dos tuberculosos, dos berros revoltados dos monstros morais que vivem nas "ilhas" infectas, ouve-se bem nítida a palavra, a um tempo severa e amorosa, do Vigário de Cristo: 74
"Ai do que olvide que uma verdadeira sociedade nacional inclui a justiça social e exige uma equitativa e conveniente participação de todos nos bens do país! Porque, de outro modo, já vedes que a nação acabaria por ser uma ficção sentimental, um pretexto ilusionista, encobridor de grupos particulares2…". 75





1

Vid. «Para um futuro Humano», in Para Além da Ciência … , Porto, Livraria Tavares Martins, 1942, cuja leitura é absolutamente indispensável para compreender este estudo.

2

Pio XII– Cit. Na Pastoral do Bispo das Canárias Apud Ecclesia de 21-VII-945.




    
   
    


II - Técnica


Se a especulação é tendência natural do homem, reforçada ilicitamente, não é menor tendência a da aplicação utilitária dessas verdades descobertas pela função especulativa da inteligência. O sábio investiga as leis, o técnico procura tirar delas tudo o que possuam de útil. 76
E assim se tem conseguido o aumento da produção, a comodidade do consumidor, a diminuição do trabalho quantitativo e também, "per accidens", a diminuição do trabalho qualitativo (do que resultou a mecanização do operário). 77
Apenas um exemplo de invenções técnicas: a célula fotoeléctrica de utilização tão económica e fácil. Enumeremos algumas das suas aplicações: 78
1)Instalações de protecção de casas particulares, isoladas no campo, bancos, joalharias, vidrarias e museus. 79
2)Aparelhos de protecção para operários. 80
3)Paragens automáticas de máquinas. 81
4)Escadas automáticas rodantes. 82
5)Portas automáticas de restaurantes, garagens e armazéns. 83
6)Aplicações nos hospitais e clínicas, para abrir e fechar automaticamente armários e torneiras de água. 84
7)Registo de frequência de pessoas, veículos e passagens de objectos. 85
8)Sinalização de trânsito nas cidades e rios navegáveis. 86
9)Iluminação automática de letreiros luminosos, provoca da por peões. 87
10)Advertência no esgotamento de tanques. 88
11)Funcionamento de máquinas verificadoras com tarjas picotadas. 89
12)Contadores automáticos. 90
13)Fotografia e medição da velocidade de projécteis. 91
14)Verificação de transparência de gases e líquidos. 92
15)Medição de espessuras e superfícies. 93
16)Abertura automática de luzes. 94
17)Verificação de combustão. 95
18)Prova de porosidade de chapas e tubos. 96
19)Verificação de água potável. 97
20)Conservação constante da temperatura de fornos. 98
21)Dispositivo para a têmpera automática do aço. 99
22)Aparelho de prova de lâmpadas incandescentes. 100
23)Classificação de objectos pela cor. 101
24)Construção de padrões para teares. 102
25)Instrumentos fotométricos. 103
26)Medição de brilho e de iluminação. 104
27)Comparação de intensidade de coloração. 105
28)Medição da transparência de vidros para aparelhos ópticos. 106
29)Medição do poder de reflexão de espelhos. 107
30)Transmissão de imagens a distância e televisão. 108
Etc., etc.1.109


A - Perspectivas técnicas



À vista destas grandes perspectivas, pensaremos ter encontrado a libertação do homem. E a lógica assim no-lo afirma, e só um tremendo absurdo no-lo poderá negar. A realidade, por outro lado, mostra-nos o homem novamente escravizado; e assim somos obrigados a concluir que esse absurdo existe - que grave contradição está a vitimar a vida humana. 110
De facto, uma vez tecnizada a indústria e a vida, o trabalho do operário, embora diminuído, deixou de ser qualitativo. Antigamente, cada peça de calçado ou vestuário era uma obra em que o artista tinha empregado toda a sua inteligência e, talvez, amor. Hoje, uma vez escolhido o padrão ideal, tudo é feito mecanicamente. 111
Lucramos qualitativamente se o padrão foi escolhido com critério e não apenas por motivos económicos. Lucramos quantitativamente, porque, com menos trabalho e maior economia, se abasteceu o mercado. Mas prejudicamo-nos sob o ponto de vista da adequação, pois assim o consumidor tem de se resignar aos padrões fabricados. E prejudicaram-se os operários, que passaram a ser meras máquinas, pois, uma vez aprendido o serviço, só o têm de repetir indefinidamente e ao ritmo da própria máquina: já não há a diferenciação de obra para obra, mas todas se têm de identificar com uma única forma. 112
Esta mecanização do trabalho humano atingiu um ponto intolerável, revoltante, assassino da personalidade, gerador de terríveis psicoses, com a divisão do trabalho, o processo de tarefa marcada e o tapete rolante (com uma cadência tal que obriga o operário a trabalhar com um máximo de rapidez sem poder faltar à perfeição) do " sistema Taylor "2. 113


B - Nova escravatura



Causas
E surge-nos já a pergunta: a tendência técnica é falhada, não aperfeiçoa o homem, ou a maneira e a orgânica em que se tem desenvolvido é que são falhadas? 114
A máquina veio libertar o homem, isto é, veio diminuir-lhe o trabalho, aumentar a comodidade, elevar o nível de vida. É interessante recordar o estudo do Comandante Lefebvre des Noetes, L'attelage, le cheval de selle à travers les âges, - Contribuition à L' Histoire de L' Esclavage, pelo qual se verifica que só depois da invenção da atrelagem moderna e doutros aperfeiçoamentos, que permitiram ao cavalo " um esforço de tracção três vezes superior ", foi possível terminar com a escravatura3. 115
É certo que isto de nada valeria sem a Igreja como elemento pedagógico. Mas também de nada valeria a pregação evangélica se as condições materiais e económicas da vida não permitissem a sua efectivação. 116
Mas esta libertação da escravatura antiga trouxe a escravatura da máquina de que falámos. E eis o motivo para perguntar se tal contradição resulta da própria tendência técnica do homem ou de outras suas tendências egoísticas que tenham como resultado a desorganização social. 117
Não podemos, de modo algum, condenar a tendência técnica, porque ela é natural, mas essencialmente natural e não um desvio acidental da natureza, como o egoísmo e as demais tendências desregradas. 118
Dever-se-á, porém, tal escravidão a algum abuso que levasse a tecnizar mesmo aquilo que nunca deve ser tecnizado, isto é, os sectores imateriais da vida? Poder-nos-ia parecer isso ao considerar a mecanização do operário. Mas um exame mais minucioso leva-nos a concluir que mesmo essa quantificação do trabalho se deve, não a uma hipertrofia técnica, mas a uma incoerente atrofia. 119
Não foi arbitrariamente que fizemos vislumbrar ao leitor as enormes perspectivas técnicas no estado actual do seu desenvolvimento, pondo mesmo de parte os grandes progressos que poderíamos esperar para um futuro próximo. A célula fotoeléctrica é um pequenino exemplo das enormes possibilidades do "homo faber". Mas bastam-nos os dados da actualidade, e ponhamos de lado o futuro que, embora certo se Deus permitir, não o possuímos, porém, neste momento. Não estou a fazer um estudo para o futuro, mas para, o presente: assim o compreendam os homens e não o estraguem os organismos secretos e satânicos. 120
De facto, se levarmos as aplicações técnicas até as suas últimas consequências (mesmo considerando apenas as descobertas presentes e pondo de parte as futuras), nós conseguiremos libertar o homem de pesados e enfadonhos serviços - próprios da máquina e nem sequer de animais e muito menos do homem. 121
E vamos ao que há de mais comezinho: Admitem-se carregadores com malas às costas, quando temos guindastes e carrinhos? E admitem-se carros de cavalos ou, pior ainda, puxados à mão, quando temos caminhetas? E admitem-se funcionários horas e horas, dias e dias, meses e meses, anos e anos, uma vida inteira a vender selos, bilhetes do caminho-de-ferro, e tantas outras coisas que poderiam fazer-se com máquinas automáticas? E o mesmo se diga de fiscais, guardas, porteiros, contínuos, etc. - de tudo em que a célula fotoeléctrica poderia ser aplicada. E admitem-se tantos e tantos tipógrafos a cansarem a vista e definharem a saúde, quando, pela teletipografia, um só "notipista poderia compor, talvez, todos os jornais portugueses4?. E as donas de casa e o seu pessoal, que tanto tempo perdem prejudicando a educação dos filhos e o cultivo das artes e ciências femininas, quando tudo se podia fazer muito mais rápida, económica e higienicamente pela técnica? 122
Estamos a trabalhar para aquecer ou por gosto? Se é para aquecer, temos a ginástica e os desportos bem mais higiénicos do que esses trabalhos degradantes (no plano natural) para nós que nem somos meros animais nem muito menos máquinas. Se é por gosto, dediquemo-nos a trabalhos qualitativos. Se, porém, o gosto é exactamente nesses trabalhos mecânicos, então, deixemos entregues a eles quem quiser, mas não sacrifiquemos a técnica e a vida a esses infra-homens, que tenham gosto em ser mais animais que homens e mais máquinas que animais. Bem sei da dignificação que Cristo trouxe a todo o trabalho, mas nunca a sobre naturalização nos dispensa de resolver os problemas naturais. A graça não veio substituir a natureza, mas elevá-la até onde ela se não podia elevar. 123


C - Obstáculos à solução



1 - Interesses capitalistas
  
Parece-me bem, no entanto, que a questão não está aí. Com o industrialismo moderno criaram-se situações e interesses capitalistas que seriam gravemente comprometidos com novas invenções que fossem cair em empresas alheias. Daí o não emprego do meio de obter fogo sem fósforos e do sucedâneo conveniente da essência para automóveis, o atraso da química têxtil em França, a esterilização de patentes5. 124
E eis-nos novamente perante o inimigo - o capitalismo moderno. 125
Este, e não a máquina, é que escraviza o operário. Vede bem, senhores, não é a técnica que escraviza, mas o seu voluntário atraso; não é a máquina libertadora (que só por absurdo admitiríamos ser tirana), mas o capitalismo (que na Maçonaria encontrou a grande arma de conquista) é quem escraviza o homem; não é a técnica tendência falhada, mas falhada é a engrenagem em que a Maçonaria nos obriga a viver - falhada para as massas que dela esperam a salvação, mas não falhada para os "grão-mestres" que por ela conseguem os seus perniciosos intuitos. 126
E se não fosse a Omnipotência Divina, a Assistência do Espírito Santo à Igreja, a "eternidade" de Roma - não temeria em afirmar a vitória dessa minoria plutocrata e judaica. É que não é no comunismo que está a salvação: o judaísmo também encontrou nele uma arma para a sua ganância: por absurdo que pareça, comunismo, muitas vezes, equivale a capitalismo estadual. Mesmo, porém, no autêntico comunismo ou até, vá lá, no socialismo, não está a salvação contra a Maçonaria. Só Roma, com a Companhia de Jesus como guarda avançada e os monges puramente contemplativos como arsenal de munições e reforços, só Roma com a sua Hierarquia e os seus organismos - tem armas mais eficazes do que tal seita. Embora muitas vezes pareça perecer, o triunfo final será de Roma. Não é uma opinião: é dogma. Também Cristo padeceu e morreu na Cruz, mas, afinal, ressuscitou e, com Ele, nós todos. Tinha vencido a batalha e, com Ele, venceu a Igreja.127
  
2 - Super-produção e desemprego
  
Além desta lesão de interesses que leva a esterilizar patentes e a não aplicar as invenções já conhecidas (e, portanto, a não fomentá-las), há ainda duas consequências desastrosas da técnica (devido à orgânica capitalista em que vivemos, está claro): a superprodução - de que resulta uma baixa de preço mais rápida do que a de custo e, portanto, a respectiva crise - e o desemprego - de que resulta a miséria6. 128
Novamente surge a pergunta: o erro está na técnica ou na organização que a condiciona? 129
É absurda a primeira hipótese (tendência radicada na essência humana não pode ser falhada): resta a segunda. 130
Não podemos admitir, porque é um absurdo, que, havendo processos de realizar os serviços indispensáveis à vida com menos esforço e maior rapidez, comodidade, higiene e economia, sejamos, todavia, obrigados a fazê-los morosa e penosamente sob pena de os não poder utilizar. Se com menos trabalho se pode produzir mais, como se compreende que essa diminuição de trabalho traga a fome? 131
E nem a explicação religiosa do pecado original nem as subtilezas políticas podem esclarecer tal absurdo. A condenação do homem está fora de dúvida e não vem para o caso. Ninguém diz que o trabalho quantitativo ou sua penosidade podem acabar, totalmente, com a técnica. Apenas se afirma que diminuem. E, mesmo sob o aspecto religioso, longe de ser um mal, isto é um bem. Mal seria não utilizar as faculdades, que Deus concedeu por meio da natureza, para maior aperfeiçoamento do homem e da sociedade; mal é não fazer render os talentos. 132
A condenação da Humanidade pelo pecado original é, evidentemente, num sentido de privação de dotes que ultrapassavam as exigências da natureza, e não num sentido positivo (a não ser acidentalmente). Portanto, mantém-se o direito e até a obrigação de trabalhar por um melhoramento da vida humana. Deus, ao condenar-nos a trabalho penoso, não nos quis tolher as possibilidades técnicas, mas estimulá-las; assim como Cristo, ao pregar as obras de misericórdia corporais, não quis que deixássemos de reprimir as causas da pobreza e da doença, mas, pelo contrário, quis estimular-nos a atacar o mal pela raiz conhecendo-o nos seus efeitos. 133
Para suprimir a crise provoca da pela superprodução e o desemprego provocado pela máquina, não podemos admitir, portanto, a limitação do progresso técnico (porque é antinatural), nem a destruição de produtos ou a limitação da produção (porque ainda há quem passe fome), nem tão pouco a guerra (o que, por evidente, dispensa justificação). Qual será, então, a solução?134


D - Soluções



1 - Corporativa (insuficiente)
  
Dentro da orgânica do capitalismo liberal é impossível solução coerente do problema. A limitação corporativa e do estado-árbitro elimina os abusos capitalistas, mas mantêm-se os erros da própria essência capitalista. 135
Quer para a solução do problema da justiça social quer, agora, para a do problema da libertação do homem pela técnica, temos sempre concluído o mesmo. 136
De facto: 137
1) A Assistência não é solução definitiva para o problema dos que não possuem o mínimo vital por motivo de invalidez ou por qualquer outro motivo de que não sejam culpados. O mínimo vital é de cada um por justiça social e não por mera filantropia. 138
2) A oficialização do desemprego também não é solução aceitável, e é bastante problemática a possibilidade corporativa de emprego para todos por meio do rateio de horas de trabalho ou por quaisquer outros meios, muito especialmente em épocas de crise (e temos de contar com estas muito frequentemente). Apenas por curiosidade: folheando (} Boletim do Comissariado do Desemprego de 1947, verifiquei a existência de mil cento e tal empregados (médios) e oitocentos e tal assalariados filiados como desempregados. 139
3) A coordenação económica e o corporativismo não evitam que os preços baixem mais depressa do que o custo quando a produção aumenta, rapidamente, pela técnica, por exemplo. O tabelamento, neste caso, não passaria de estabelecer preços fictícios, porque o aumento da oferta e correlativa diminuição da procura obrigariam os preços reais a baixar. 140
4) Também não evitam que o aumento de salários provoque um aumento de custo e, portanto, de preço; e que uma diminuição de preços 9brigue a diminuir o custo dos factores da produção e que, portanto, os salários sejam os primeiros a ser sacrificados, quer pela importância dos seus quantitativos quer porque os direitos do trabalho não podem prevalecer contra os do capital. De facto, se fôssemos à admitir salários que, embora justos, fossem superiores às possibilidades do capital, teríamos a falência, e é muito pior o desemprego do que o salário insuficiente. Nestas crises, o trabalhador é o sacrificado enquanto o capitalista apenas sofre uma limitação na sua abundância. E, embora seja um grande passo sobre o liberalismo (em que o trabalhador é sempre sacrificado quer em crises quer fora delas), não podemos admitir que esta solução corporativa seja definitiva, porque não podemos admitir que haja alguém com mais do que o mínimo vital enquanto outros nem sequer o tiverem. 141
5) Não evitam as oscilações da bolsa, embora as diminuam muito; e, portanto, continua dependente de tais casualidades a fortuna e a vida de muitos. 142
6) Não evitam ainda a transmissão dos bens indispensáveis à vida própria e do agregado familiar. Ora não se pode conceber que a parte do salário indispensável para manter dignamente a família possa ser esbanjado na superfluidade. E não se me diga que são assuntos particulares com que a gestão pública nada tem. Quando a pessoa é lesada, seja mesmo no próprio lar, o Estado tem o dever de intervir. Seja tutelismo seja o que for, a verdade é que temos de contar com muitos casos destes e, portanto, é preciso conseguir que á parte do salário que cabe, por justiça social, aos membros do agregado familiar a eles seja aplicada convenientemente. Concedamos liberdade para o supérfluo, mas nunca para o mínimo vital. O erro e o mal não têm direitos de espécie alguma. O livre arbítrio de que somos dotados não tem por finalidade a prática do mal, mas o mérito na prática do bem.143
  
2 - Municipalista (eficaz)
  
Ora se o próprio corporativismo de associação não consegue extirpar todos os erros capitalistas (porque muitos lhe são essenciais), que solução daremos aos problemas de que vimos a tratar (da justiça social,no estudo anterior, e da técnica como condicionalismo indispensável para a libertação do homem, neste presente estudo)? 144
Exactamente a mesma: 145
1) Nacionalizar ou, melhor, municipalizar (sempre que a descentralização seja possível) a produção dos bens indispensáveis à vida; e expropriar a propriedade domiciliária supérflua, na medida necessária para que todos a possuam condignamente. (Escusado será dizer que todas as nacionalizações, municipalizações ou expropriações serão pagas dentro de um critério justo, excepto em casos de enriquecimento ou posse ilegítimos. Para isso impor-se-á um aumento de impostos para aqueles que possuam rendimentos superiores a uma determinada e avultada quantia.) 146
2) Obrigar cada um a contribuir com o seu trabalho para a produção, do mínimo vital (adequando, no entanto, esse trabalho, na medida do possível, à saúde, vocação e vontade de cada um). 147
3) Dar a cada um, como paga desse trabalho, o mínimo vital dinâmico familiar. 148
Assim, o progresso técnico, longe de perturbar a vida económica ou social, ou de lesar interesses particulares, será sempre um bem para todos, pois: 149
1)Diminuirá o tempo de serviço civil, que cada um tem de prestar ao município ou ao estado para ganhar o mínimo vital dinâmico familiar. 150
2)Aumentará a comodidade em que tal serviço é prestado. 151
3)Elevar-se-á o nível geral de vida, melhorando esse salário vitalício - o mínimo vital dinâmico familiar. 152
E parece-me que nada estimulará tanto o inventor a prosseguir nos seus estudos e o dirigente a aproveitá-los, facilitá-los e fomentá-los. No regime municipalista, sim, poder-se-á levar a técnica até as suas últimas aplicações e, desse modo, o trabalho quantitativo diminuirá sempre mais e mais até um mínimo irredutível (que será distribuído equitativa mente por todos os homens, porque todos hão-de ganhar o pão com o suor do seu rosto). O homem não é só espírito, mas também matéria: o trabalho quantitativo nunca deixará de existir: o próprio trabalho qualitativo é sempre acompanhado, mais ou menos, por um certo trabalho quantitativo (a própria inteligência trabalha por meio do cérebro). 153
Mas o que interessa é que a cada coisa se dê o seu lugar. Ora neste regime municipalista dá-se a condição básica para a supremacia do espírito. Uma vez reduzido o trabalho quantitativo, isto é, reduzida a matéria ao seu lugar de serva e não de senhora, ficam tempo e forças para o trabalho qualitativo. Este é infinitamente variado: cada um terá largas para escolher o da sua vocação. 154
A técnica é o condicionalismo para tal poder dar-se: resta agora um elemento pedagógico que torne actual o que se tornou possível pela técnica. De facto, de nada vale ter tempo, forças, condições para o trabalho qualitativo, se não houver vontade. 155
Mas, mesmo que o tempo e as forças sejam malbaratadas e todas as condições desprezadas, já não são pouco a vadiagem e o parasitismo não poderem prejudicar o próximo no seu mínimo vital. 156
Só na Monarquia será eficiente a solução municipalista
Pelo estudo da justiça social e da técnica, ficamos habilitados a afirmar que, para a miséria desaparecer e as condições materiais e psíquicas do trabalho e da vida melhorarem, bem como para ser possível a supremacia do espírito e a liberdade pessoal, torna-se indispensável, sempre num sentido rigorosamente tradicional, continuar a evolução do Liberalismo e da República (que cortaram essa Tradição) para o Corporativismo (que a reatou em parte) e para a Monarquia (que a reatará totalmente); e, depois de já consolidados na nossa tradicional Monarquia, evoluir, no sector da economia, do corporativismo de associação não para um corporativismo estadual (muito semelhante ao comunismo), mas para uma espécie de corporativismo administrativo'. Sob um certo aspecto, será ainda evolução para um cooperativismo económico municipal, porque os consumidores passam a trabalhar directamente na produção dos bens indispensáveis à vida, e o lucro que havia de ser para alguns, é rateado por todos (pela elevação do nível do mínimo vital). 157
Tal evolução só na Monarquia se pode realizar sem perigo para a unidade nacional, para a integridade da pessoa, com a certeza de resolver o problema das classes médias e pobres, e de tecnizar a produção e o aspecto material da vida de tal modo a melhorar o nosso nível económico e assim ser-nos possível. a libertação do espírito, a expansão da personalidade integralmente. 158
Tal tarefa só é possível numa continuidade dinástica, e só a confiança num rei que herde o sangue e as virtudes (não só sangue, porque, também somos espírito, e não só virtudes, porque também somos matéria), só a confiança num rei que herde o sangue e as virtudes dos reis que construíram o Império de Portugal, nos permitirá não temer ser logrados pelos politiqueiros liberais, republicanos ou democráticos, que se servem da expressão "bem comum" e "pátria" em favor do bem do partido e do bem particular. Mas na Monarquia tradicional portuguesa não há partidos: há uma causa única - a do Povo e a do seu Império. 159
A descentralização administrativa realizada pelo municipalismo e o poder unificador do rei, só limitado pela Ética e pela "Lei Fundamental", permitem-lhe uma superior orientação e uma eficaz protecção ao desprotegido. 160
Os críticos, porque não carregam pesados fardos nem se neurastenizam em rotineiros ofícios, mais uma vez não concordarão comigo. Mas a esperança daqueles que se acabrunham até a psicose no trabalho degradante nas fábricas (mais ou menos taylorizadas), daqueles que trabalham quantitativamente uma vida inteira sem lhes restar tempo e energias para o trabalho qualitativo da sua especialidade, e, no fim, nem sequer ganham o suficiente para manter condignamente o seu lar ou para terminar tranquilamente o fim desta vida, a esperança de toda a miséria humana do nosso Portugal - Metrópole e Ultramar - está, depois de Deus e da nossa Rainha, a Virgem medianeira de todas as graças (com o Seu séquito de Anjos e Santos nossos patronos), está em S. M. o Senhor D. Duarte II e em S. A. R. o Príncipe Herdeiro. 161
Salazar reatou a Tradição: a Monarquia eternizará a extraordinária obra de tão grande pensador e político. 162
Ouçamos Oliveira Martins: 163
'"Um dia num desses assomos de franqueza tanto dele, Sampaio, o grande jornalista, disse que, na derrocada universal dos prestígios e das influências, um poder apenas ficaria de pé - o Rei! Sampaio disse uma grandíssima verdade. 164
Com efeito, este povo, apático por temperamento, melancólico por índole, pessimista por génio, maltratado pela política, sem crenças nem esperanças em quem quer que seja, abraça-se à tradição monárquica, e o bom senso instintivo diz-lhe que uma solidariedade de interesse o liga aos seus reis7… ". 165





1

Vid.lnácio Puig, «A Célula Fotoeléctrica», in Brotéria, vol. XXXIX, fasc. 6, Dezembro 1944, págs. 559 a 567.

2

Vid. Daniel Rops, «Para um Futuro Humano», in Para Além da Ciência … , Porto, Livraria Tavares Martins, 1942, pág. 276.

3

Idem, ob. cit., págs. 265, 266 e 267.

4

Daniel Rops, ob. Cit., pág.281.

5

Daniel Rops, ob. Cit., pág.282.

6

Daniel Rops, ob. Cit., págs.281, 289 e 307.

7

Dispersos, pág.67.




















    
   
    


III - Acção estadual




A - Localização do Estado na sociedade civil



  
1 - Causas da sociedade civil
  
Para o estudo intrínseco do estado, convém localizá-lo na sociedade civil, isto é, considerá-lo extrinsecamente. 166
Eficiente
A causa eficiente primeira da sociedade civil é o Criador. A causa eficiente segunda é a propriedade ou o próprio do homem chamado socialidade. Nós somos, natural e ilicitamente, sociais. Daí resulta esse laço que nos agrega - não essencial, não acidental, mas necessariamente. É a chamada união de ordem. 167
Esse novo ente moral que resulta da propriedade social do homem não se confunde com a soma dos indivíduos componentes: transcende-os. De facto a nossa sociedade civil - Portugal não é a mera soma dos portugueses contemporâneos nem mesmo com os antepassados e os vindouros. Esse conjunto amorfo nunca daria uma sociedade civil - daria um aglomerado informe. Ora Portugal é o conjunto dos antepassados com os presentes destes com os futuros, todos ordenados por uma forma estadual peculiar unificados pela terra, pelo mar, pelo sangue, pelo psiquismo, pela língua, pelos costumes e, mais do que tudo isso, por um fim comum, um ideal em parte idêntico ao de outras nações, mas noutra parte bem diferençado, com um cunho bem característico. 168
Tudo isso que diferencia as sociedades umas das outras está espelhado nas respectivas histórias, quando escritas com rigor. Assim compreendemos que o Portugal desde do exílio de D. Miguel I e até já antes, no reinado de D. José, não é o verdadeiro Portugal, mas um Portugal vestido de estrangeirismo. Só com a Revolução de Maio se começou a despir roupa tão infecta, e Portugal começou a refazer-se da infiltração maçónica, a restaurar-se de novo, a tornar-se o verdadeiro Portugal. 169
E assim ficamos a compreender que Portugal não é a mera soma de todos os portugueses, mas a sua união segundo uma ordem em parte comum (porque todos somos membros da Humanidade, somos universais) e em parte peculiar (porque não somos internacionais, mas portugueses). Ora porque não é uma soma amorfa, mas uma união com determinada ordem, exactamente por isso resulta um novo ente distinto das entidades componentes - um ente moral. 170
Isto torna-se ainda mais claro com a confirmação "a posteriori": o "operari" da sociedade civil (organizada) não é o mesmo "operari"dos seus membros em particular: logo o "esse" daquela não pode ser o mesmo "esse" destes. 171
Se repudiamos esse individualismo, também repudiamos o Cosmopolitismo ou Internacionalismo. É certo que a qualidade social tem características comuns a todo o homem, mas também tem outras particulares a certos grupos e ainda outras singulares. Daqui ressalta a necessidade da organização corporativa ou integralista do Universo. Mas se quisermos a prova experimental, é apenas estudar a Antropologia, a Psicologia e a História. 172
Os indivíduos necessitam tanto da sociedade para realizarem os seus fins, como as sociedades necessitam de se distinguir pelas características próprias para poderem prover ao bem comum.173
Final
E eis-nos a tocar noutra causa extrínseca - a final. Há uma expressão que designa o fim de cada uma e de todas as sociedades: o bem comum temporal. 174
Mas se esse bem comum é o mesmo, sob certos aspectos, para todas as sociedades, sob muitos outros é diferente. Prover ao bem comum é sempre proporcionar aos membros da sociedade possibilidades de expandirem a sua personalidade integralmente, mas os modos dessa expansão é que variam de sociedade para sociedade, exactamente por causa das diferenças particulares de que falámos. Depois há ainda características de grupos mais pequenos e até individuais, e, por isso mesmo, não só o conjunto das sociedades civis deve ser organizado corporativa ou intregralistamente, mas essas próprias sociedades devem adoptar, internamente, uma orgânica corporativa ou integralista adequada (e nunca uniforme). Um bem para nós pode não o ser para os outros; a "verdade de aquém dos Pirenéus e erro além" (Pascal) - o que se não deve interpretar num sentido absoluto, mas relativo.175
Material e formal
E, vistas as causas extrínsecas - eficiente e final -, faltam as intrínsecas - material e formal. 176
A primeira é o povo. A segunda é o estado que a informa, isto é, que a organiza. 177
Este pode ser considerado num sentido lato - e temos toda a organização do povo, mesmo a descentralizada, - e num sentido mais restrito (que é o mais vulgar) - e temos a forma centralizadora. Esta primeira organização do povo brota dele próprio directamente. A ulterior organização desses grupos descentralizados, pela qual são ultimamente - unificados, brota daquele que, saído desse mesmo povo, a Providência colocou à sua frente, não de um modo directo, sobrenatural, mas devido aos méritos e às qualidades governativas, que o fizeram sobressair e o impuseram sobre todos os outros no momento da História em que surge a nova sociedade civil.178
  
2 - Condicionalismo
  
Mas não bastam as causas para a explicação de um novo ente: requerem-se ainda certos condicionalismos. E temos, assim, por exemplo, o geográfico e territorial, donde a palavra pátria; o sanguíneo, donde a palavra nação (excluído o sentido rácico); e o histórico, que proporcionou, coevamente, circunstâncias favoráveis. 179


B - Orgânica estadual



  
1 - Ineficaz
  
Capitalismo
Localizado o estado na sociedade civil, consideremo-lo intrinsecamente. 180
Há orgânicas ineficazes para a prossecução do fim - o bem comum - e há uma orgânica eficaz para cada sociedade civil. Interessa apenas o nosso caso. 181
Entre as primeiras temos a capitalista e a socialista. Aquela diferencia-se desta: 182
1)Pelo fim lucrativo das empresas. 183
2)Pela posse da propriedade privada. 184
3)Pelos rendimentos sem trabalho (capital no sentido jurídico, assim chamado para se diferenciar do capital em sentido técnico, que são os bens indirectos). 185
Quanto à extensão, há um capitalismo nacional e outro cosmopolita, - que é o preconizado pela Maçonaria. Todos nós estaríamos subordinados ao comando supremo dessa satânica organização. 186
Quanto à qualidade, temos o liberal ou anárquico, o estadual e o corporativo. O primeiro é o mais defendido por todos aqueles que querem explorar e escravizar o próximo à sua vontade. O segundo dá-se quando o fim lucrativo e o capital (no sentido jurídico) passa dos particulares para o estado. O terceiro, por fim, é o primeiro devidamente delimitado pelo bem comum, é o capitalismo extirpado dos abusos liberais. É um grande passo, seria mesmo o auge, se não conhecêssemos organização mais eficiente. É que a própria essência do capitalismo tem características que, embora legítimas ou Iegitimadas pelas circunstâncias, não são aptas a proporcionar o bem comum. 187
Pode, de facto, haver um regime que permita a posse privada dos bens directos, mas não dos indirectos, e em que desaparecesse o capital em sentido jurídico, bem como o lucro, ao menos nas transacções dos bens indispensáveis à vida, e ainda em que estes bens não pudessem ser trocados por superfluidades. 188
Socialismo
O socialismo caracteriza-se pela: 189
1)Ausência do fim lucrativo - o qual cede lugar ao bem comum. 190
2)Ausência da posse privada de todos os bens, mesmo dos directos. Esta utopia é desfeita pelo Colectivismo que só bane a posse privada dos bens indirectos, do capital no sentido técnico, mas admite a propriedade privada dos bens directos. 191
3)Ausência do capitalismo jurídico, isto é, de rendimentos sem trabalho. 192
Este também pode ser, quanto à extensão, nacional ou cosmopolita (que é o caso da Rússia). E, quanto à qualidade, mitigado e totalitário (que é o caso do comunismo). 193
  
2 - Eficaz
  
Descentralização
E passemos a considerar a orgânica eficaz do estado. 194
Na forma descentralizadora temos a considerar, sobretudo, o momento municipal e o familiar. 195
Momento municipal. 196
A função geral do município de promover o bem comum temporal (material e espiritual), vigiando (tutela jurídica - único fim do estado admitido pelos liberais), auxiliando, fomentando e suprindo a iniciativa privada, radica-se na própria essência da natureza humana. 197
A função especial do município (a que nos vamos referir) é exigida não pela essência, mas pela corrupção acidental da natureza humana. 198
Esta função é indispensável não pelo facto de sermos homens, mas apenas porque temos defeitos 'morais (num sentido absoluto, negativo e não apenas num sentido de privação como os restantes defeitos físicos, psíquicos ou intelectivos): somos, sobretudo, egoístas. 199
Esta função tem dois aspectos - tecnizar completamente toda a produção do mínimo vital (municipalizando esse sector da economia como já fica dito) e manter a justiça social, garantindo a propriedade privada da habitação e dos demais bens directos indispensáveis à vida e, portanto, procedendo à distribuição equitativa do mínimo vital. 200
Momento familiar. 201
O chefe de família tem, sobretudo, um dever e um correlativo direito perante o município. 202
O dever consiste na prestação do serviço civil equitativamente rateado por todos os chefes de família e ainda por todos os que, não o sendo, estão aptos a sê-lo. Será prestado, sempre que possível, na própria paróquia, e será adequado à saúde, às aptidões e, tanto quanto possível, à vontade. 203
O direito consiste em receber, desde o momento em que funde um lar ou em que se separe, economicamente, do agregado familiar a que pertence, o mínimo vital dinâmico familiar. Este consiste em alojamento independente, alimentação, vestuário, remédios e médicos (de escolha livre), instrução, férias e viagens, tudo limitado, evidentemente, pelas possibilidades económicas do município e da nação. 204
Pela habitação, que será sempre casa com quintal de preferência aos andares (de sabor americano e nada português) fica garantida a propriedade privada sem prejuízo da do próximo como lamentavelmente acontece no regime capitalista. O bem-estar, a coesão e o desenvolvimento dos lares conjugais são, deste modo, garantidos - como base de toda a sociedade e principal escola de todo o indivíduo. A posse privada dos bens directos salvaguarda a integridade familiar e pessoal.205
Centralização
Na forma centralizadora temos a considerar dois momentos – um orgânico e outro directo. 206
O orgânico desdobra-se ainda em descendente e ascendente. 207
Momento descendente. 208
O rei, autoridade jurídica suprema, que unifica, portanto, os poderes legislativo, executivo e judiciário, e que só é limitada pela Ética e pela "Lei fundamental" (Cfr. Bodin), vigia, auxilia, fomenta e suprime as deficiências da iniciativa municipal e' particular. Para isso age por meio de órgãos governativos apropriados (Iegislativos e executivos) e de órgãos judiciários. 209
A separação dos poderes é um absurdo e um mito. O poder estadual ou jurídico tem três funções - a legislativa, a executiva e a judiciária -, mas, na sua essência, é uno, como necessariamente tinha de ser. Ora o que por essência é uno não se pode separar senão em imaginações desregradas. O chefe de estado, detentor desse poder, delega as funções em mandatários que em tudo dependem dele. As funções jurídicas distinguem-se - e, de facto, são vários os órgãos que as exercem -, mas não se separam, pois são manifestações de um único poder (o estadual ou jurídico). Como o detentor desse poder tem de ser absoluto (no campo político apenas e não totalitário portanto), vitalício e hereditário (porque só assim pode possuir essa suprema e única autoridade jurídica ou estadual), poderemos ainda chamar a esse poder jurídico poder real. 210
Momento ascendente. 211
Para que o governo supremo seja eficiente há câmaras técnicas representativas das profissões e com função consultiva; e há as cortes gerais representativas de instituições, corporações e regiões, com função deliberativa no que determinar a "Lei fundamental" (orçamento, tributos, alienação territorial, declaração de guerra, celebração de paz, sucessão duvidosa) e com função consultiva no restante. 212
No momento directo também há a considerar um ascendente e outro descendente. 213
Momento ascendente. 214
Além da representação orgânica, todos são livres em se dirigir ao rei. Estão na nossa Tradição tais audiências e apelos. 215
Momento descendente. 216
Mas, além de tal facilidade, o próprio rei desce imprevistamente e, por vezes, ocultamente, a auscultar as necessidades do seu povo. Só assim, de facto, se pode saber governar. 217
Os nossos governantes e deputados falham tantas e tantas vezes por falta deste contacto directo. Se frequentassem as ilhas e os becos e não ficassem só pelas repartições, talvez gozássemos de maior prosperidade. 218
Isto para não tocar numa outra causa (que não vem agora a propósito): a falta de um escol de famílias (e não apenas de indivíduos), donde saíssem dirigentes; e, consequentemente, o recrutamento de governantes embuídos do espírito (?) burguês, dos interesses capitalistas. 219
Mais uma vez a esperança dos desprotegidos está no rei para quem podem apelar e que, ele próprio, descerá ao encontro das suas necessidades. 220




    
   
    


IV - Liberdade




A - Causas ônticas



Que nós estamos para o estado como as partes para o todo - é uma verdade na medida em que somos terrestres. Mas há qualquer coisa em nós que supera o temporal e, portanto, o estado, e, então, já este tem razão de meio e não de fim. É neste sentido que se preconiza a fórmula: o indivíduo é para o estado (nacionalismo), este para a pessoa (personalismo), e esta para o Infinito (Catolicismo). O individualismo que nos endeusa e mata a sociedade (anarquia) ou o totalitarismo que endeusa o estado e nos aniquila (tirania) - são aberrações semelhantemente perniciosas para a nossa felicidade, mesmo temporal. Esta só se encontra num nacionalismo limitado pelo personalismo, mas por um personalismo subordinado ao Catolicismo. 221
O primeiro momento da questão foi estudado na Acção Estadual e ninguém põe em dúvida que, dentro da mesma ordem qualitativa, a parte deve ordenar-se ao todo. "Num plano de igualdade, os valores do bem comum sobrelevam os particulares, mas se o bem particular for de ordem sobrenatural, então já este sobreleva aqueles. Ora se o fim último do corpo social é o bem comum temporal e o fim último da pessoa humana a vida sobrenatural, ainda que num plano de valores equivalentes de ordem temporal, o bem comum sobreleve o particular, a sociedade é que se não deve opor, mas ainda estimular tudo que contribua para que o indivíduo cumpra a missão que Deus lhe destinou1". 222
Resta-nos considerar, exactamente, esse aspecto do homem que supera o temporal - o espírito. Enquanto indivíduos, ordenamo-nos para o estado, como a parte para o todo; mas, enquanto pessoas, somos livres perante o estado: só ao Criador e à Hierarquia eclesiástica devemos submissão. 223
Está liberdade pessoal perante o estado tem, como tudo, causas extrínsecas e intrínsecas (o que nem sempre é fácil descobrir). 224
A causa eficiente primeira é, evidentemente, o Criador. A segunda é a nossa natureza espiritual (as propriedades resultam da essência da substância). 225
A causa final próxima é a possibilidade de uma plena expansão temporal e espacial da pessoa, subordinada evidentemente (porque toda a causa próxima se subordina à última) à trans-temporal e trans-espacial, que só em Deus (Causa final última) se pode efectivar. 226
A causa formal (da nossa liberdade perante o estado, não o esqueçamos) é a nossa tendência supra-temporal, isto é, a tendência natural e, pela Graça, sobrenatural para Deus. 227
E a causa material é a nossa substância espiritual, isto é, o aspecto humano intrinsecamente independente da matéria. E compreende-se que assim seja, porque este, de facto, é o limite, o âmbito da liberdade. O espírito e não os restantes aspectos do homem é que têm direito de liberdade perante o estado. 228
Mas surgirá já uma dificuldade: somos um complexo substancialmente uno. Algemada a matéria, o indivíduo, ao estado, eis-nos totalmente algemados. Enquanto unido ao corpo, mesmo só dependendo dele extrinsecamente, o espírito não pode agir senão por meio dele. E de facto, como adiante veremos, consideramos a cultura das partes inferiores do homem também como livre perante o estado. 229
Pessoa e indivíduo não são duas realidades, mas uma única: o homem. São apenas dois prismas por que vemos o homem. Considerando-o através das partes inferiores até as superiores, focando sobretudo as inferiores, temos o indivíduo. Considerando-o através das superiores até as inferiores, focando, porém, sobretudo as superiores, temos a pessoa. Sendo assim uma única realidade, como compreender, então, que o indivíduo se ordene ao estado e a pessoa o supere? É que, por liberdade pessoal, significamos a daquele aspecto humano intrinsecamente independente da matéria e a dos restantes aspectos apenas na, medida indispensável (e conveniente se possível) para garantir a liberdade daquele. Por ordenação individual para o estado significamos a dos aspectos do homem material e económico e a dos restantes na medida requerida para o provimento do bem comum temporal integralmente considerado, mas só na medida em que não prejudique (mas favoreça) o destino eterno da pessoa. 230
Assim fica bem esclarecida a causa material da liberdade perante o estado - o aspecto espiritual "simpliciter" e os restantes "secundum quid" (apenas na medida requerida para a liberdade do espírito). 231
E só me resta notar bem, de novo, que não enumeramos as causas da liberdade em geral ou do livre-arbítrio perante o bem e o mal ou de outro qualquer aspecto da liberdade, mas apenas as causas deste aspecto restrito, a saber: liberdade perante o estado. Não tendo sempre bem presente de que espécie de liberdade ou que aspecto de liberdade estamos a estudar, poder-se-iam estranhar certas afirmações. 232


B - Condições



Compreendidos assim os motivos últimos da liberdade espiritual, convém focar as condições necessárias para que ela tenha realidade de facto e não apenas de direito - isto é, para que seja e não se limite a dever ser.233
  
1 - Estaduais
  
Momento estadual. 234
Primeiro que tudo, requer-se competência e honestidade da parte dos dirigentes para que, pela técnica, o serviço civil se reduza ao mínimo, a produção e, portanto, o nível do mínimo vital se eleve ao máximo, e a tudo presida a equidade. 235
Requer-se ainda, evidentemente, tempo livre todos os dias não apenas para o trabalho ser, depois, mais produtivo, mas (e aqui é que está a questão) para que seja possível o cultivo directo ou indirecto do espírito. Um horário de trabalho que deixe não apenas horas livres pára o indispensável à vida familiar e social, mas ainda para a cultura pessoal - é ponto basilar.236
  
2 - Pedagógicas  
  
 Igreja
Momento pedagógico. 237
Mas não basta haver tempo e energias e todas as demais condições culturais: requerem-se ainda factores pedagógicos que estimulem a vontade. É a vez da Igreja e da Nobreza. 238
O clero secular, as ordens religiosas - contemplativas, mistas e activas, as missões, as associações de aperfeiçoamento espiritual, apostolado ou beneficência - tudo tem o seu lugar insubstituível nesta sociedade. 239
O clero e as ordens religiosas têm o dever, mesmo perante o estado, de exercer a sua acção pedagógica e sobrenatural. Até as ordens puramente contemplativas ou, melhor, principalmente estas, prestam um serviço relevante e insubstituível ao estado, quando erguem os seus louvores e sacrifícios ao Senhor dos senhores2.240
Correlativamente a esse dever, gozam do direito perante o mesmo estado de receber o mínimo vital dinâmico e demais bens necessários para o cumprimento da sua missão divina, e, necessariamente, do de liberdade no exercício das suas funções e de isenção de serviço civil ou militar. É claro que o padre ou religioso inútil ou pernicioso que o prelado ou superior exclua das suas fileiras, perde todas essas regalias. 241
Nestas condições pode a Igreja trabalhar livremente. Tudo depende de uma boa orientação - a um tempo científica e sobrenatural. 242
Entre outras, duas condições se impõem para a eficácia do apostola do exterior - cativar a simpatia e exercer uma acção directa. 243
Sem cativar a simpatia, a admiração, a confiança e a atenção (sem nenhuma vaidade - o que estragaria tudo) é impossível convencer os descrentes da liberdade que conquistariam se abraçassem o Catolicismo. 244
Padres e bispos apenas de gabinete não satisfazem também às exigências apostólicas. Vicentino, militante da Acção Católica ou seja quem for, nunca substituem o padre - apenas o auxiliam. É preciso que o bispo e o padre se concentrem no seu gabinete para superiormente dirigirem o apostolado, mas o contacto directo com os fiéis e, muito especialmente, com os pecadores nunca pode ser deixado para segundo lugar. É preciso que a Igreja não enfermize de burocratismo como é costume enfermizarem as melhores obras. O próprio bispo tem de baixar até o seu clero e até o seu povo, mesmo e sobretudo o infiel. Só assim poderá ser um grande bispo. Os fiéis ascendem até o padre, mas os infiéis ou tíbios precisam de que o padre desça até eles. É esta a lição do Mestre. 245
Cativando a simpatia (sem condescendência com o mal evidentemente) e exercendo uma acção directa, a pregação do Dogma, da Moral e da Liturgia tem condições de eficácia. Mas não bastam as condições extrínsecas: é necessário que a própria pregação seja bem orientada. 246
A primeira necessidade é ensinar o Dogma - fundamento da Moral. Este devia preencher a maior parte da pregação. Com tal fundamento será bem mais fácil a exortação à prática do bem. Mas não cumpre ao padre rememorar apenas as verdades de fé, não o vamos às vezes assemelhar a um disco de gramofone. Ao padre cumpre expô-las de um modo sempre novo, descobrindo nelas, pela meditação, aspectos sempre novos. O Dogma é inesgotável em beleza desconhecida. Na Sagrada Escritura e na Liturgia, também encontrará o padre sempre belezas novas ainda ignoradas. Exactamente por falta de estudo, meditação, contemplação e adequação às circunstâncias e aos ouvintes, é que tantas vezes aborrece ouvir a palavra divina. 247
Depois vem a Moral. É preciso falar dos problemas que interessam aos ouvintes, mostrando a incoerência do pecado e como a Igreja tudo soluciona satisfatoriamente. A Moral tem aplicações e pormenores ainda não estudados. Expor vagamente os mandamentos que quase todos conhecem (embora não cumpram) torna-se de tal modo enfadonho que já ninguém Iíga importância - porque já têm os ouvidos demasiado arrotinados. Ora é preciso abordar os mais pequeninos pormenores dos problemas de cada classe: só vendo que o padre os conhece, compreende e sabe resolver, é que ganha a atenção e o crédito do auditório. É preciso ainda fazer compreender que religião não é apenas frequentar sacramentos, ir à missa e rezar, mas é também o cumprimento exacto de todos os nossos deveres, o aperfeiçoamento integral de nós próprios. Tratar da saúde, estudar, ganhar dinheiro, assegurar o futuro à família, educar, governar a casa, aperfeiçoar-nos na profissão - tudo é santificar -nos se for subordinado ao fim último (sobrenatural) e se for realizado em Graça. 248
Finalmente é preciso que os fiéis tomem parte activa no culto litúrgico. As rezas ou cânticos alitúrgicos durante aquele - é alheá-los do pensar e sentir da Esposa de Cristo. É preciso que se associem consciente e activamente ao culto público, rezando, cantando e tocando as orações, os hinos e as músicas litúrgicas. O culto alitúrgico e a música sacra não gregoriana também têm o seu lugar, mas é preciso nunca inverter os valores. E fora destes actos em que todos hão-de participar, é preciso observar rigoroso silêncio. O rezar a meia voz, o bichanar, o cochichar, além de pouco respeitoso, perturba o culto individual dos outros fiéis. Nada de mais belo do que o silêncio das igrejas apenas quebrado pela música sacra ou pelos cânticos ou orações rezadas em conjunto. Havendo silêncio e respeito, cria-se um ambiente mais propicio e convidativo para irmos aos pés de Jesus Sacramentado falar- Lhe e fazer-Lhe companhia. 249
  Nobreza
A Nobreza também tem a sua missão pedagógica. 250
Nobreza é uma classe formada por elementos do povo que se distinguem pelos seus méritos intelectuais, morais, militares, colonizadores, etc.- É necessariamente hereditária. Doutro modo o nobre, não vendo o futuro dos filhos tão risonho como o seu, dedicar-se-ia a garanti-lo com prejuízo das obras em favor do bem comum, que o levaram a merecer o título de nobre. Além da hereditariedade do título, requer-se, do mesmo modo necessariamente, que a nobreza goze do usufruto de bens económicos que permitam um condigno bem-estar à família. Esse usufruto tem de ser também hereditário. Sem tal usufruto já o nobre se não daria todo ao bem comum, porque desejaria melhorar a situação económica dos seus. 251
Mas isto não significa que os cargos sejam hereditários (o acesso a estes nem será por herança nem por concursos democraticamente elaborados, mas por competência e vocação) nem que se forme uma casta. A nobreza é aberta para todos os novos valores como para excluir os que deixem de merecer. Assim sucederá à descendência que se não torne digna dos seus ascendentes. Esta selecção permanente de valores - é realizada pelo alto critério do rei, e assim se assegura sempre um escol donde saiam os - dirigentes políticos e os mentores da cultura e da santidade. Estes são os verdadeiros representantes do povo - primeiro porque saem dele e segundo porque são o seu escol - sem prejuízo, evidentemente, da representação directa do povo nas cortes Gerais. O povo não saberá o modo como solucionar os seus problemas, mas sabe o que quer. Deve, pois, ser ouvido, consultado. Erram os que desejariam ver os miseráveis ou os pobres a governar, pensando que estes, porque sofreram, não esqueceriam os seus companheiros da desgraça. Nada de mais falso: primeiro faltar-lhes-ia competência, e de nada vale querer resolver problemas sem saber resolvê-los (como de nada vale saber sem querer); segundo por um motivo psicológico e ético tão conhecido até do próprio povo: "Nunca sirvas a quem serviu nem peças a quem pediu." Mas erram também os que excluem o povo da consulta dos problemas nacionais. A democracia é uma farsa para iludir o povo de que manda pela não menor farsa do sufrágio universal. Só a nossa Tradicional Monarquia dá, de facto, a devida importância à opinião do Povo e à solução dos seus problemas. 252
  Família e escola
Estranhar-se-á que omita aqui algumas considerações acerca do fundamental elemento pedagógico - a família. Pelo contexto se compreenderá a importância de tal factor educativo no sistema preconizado. Permito-me, porém, não o desenvolver em, virtude de já o ter feito em duas obras anteriores3. 253


C - Amplitude



   
1 - Liberdade política e económica  
   
Resta-nos considerar a amplitude da nossa liberdade perante o estado, saber em que consiste, como a utilizar. 254
Esta liberdade é a civil e não a política ou a económica. Aquela consiste em vivermos e aperfeiçoarmo-nos integralmente, Exige-se sem sombra de dúvida. Estas só se exigem na medida requerida para assegurar aquela. 255
Assim, já o dissemos, a forma estadual descentralizadora brota do povo, e a forma estadual centralizadora é que brota do rei; e, junto deste, existem as câmaras representativas. É claro que tratamos dos fundamentos próximos, porque, se fossemos ao último e supremo, bem sabemos que todo o legitimo poder vem de Deus. Isto quanto à liberdade política. 256
Quanto à económica já se assegurou também o indispensável para a integridade da pessoa - a posse privada dos bens directos (isto é, de consumo). Mas, além disto, que é essencial e, portanto, eterno, há a liberdade (ao menos provisória e limitada por um corporativismo de associação) da produção e transacção dos bens não indispensáveis à vida e que não pertencem, portanto, ao mínimo vital. 257
   
2 - Liberdade civil
   
  Aspectos
Sobre a própria liberdade civil, o campo é vastíssimo. No aperfeiçoamento do homem há dois momentos: o absoluto (a cultura) e o relativo (o social). No primeiro há ainda o orgânico (individual) e o espiritual (pessoal). No orgânico temos o fisiológico (sistema muscular, sistema ósseo, aparelho génito-urinário, aparelho digestivo, aparelho respiratório, aparelho circulatório e sistema nervoso) e o psíquico (ou sensitivo ou animal). No espiritual temos o moral (vontade) e o intelectual (inteligência). 258
Para a cultura da nossa parte vegetativa, temos a ginástica, o desporto, o trabalho manual. Para a cultura da parte sensitiva, temos os divertimentos sadios. Para a cultura da vontade, temos a prática da virtude. E, para a cultura da inteligência, temos a Técnica, a Arte, a Literatura, a Ciência, a Matemática, a Filosofia e a Teologia. Para a vida social, além das reuniões de cultura (considerada sob todos os aspectos que acabamos de enumerar) temos ainda a prática das obras de misericórdia e o apostolado. 259
Se pelo preconizado regime municipalista se resolve a questão do mínimo vital, ainda ficam muitas outras misérias e dores, que é preciso aliviar. E, entre tantas, lembram-se agora os órfãos. Estes ficarão, irremediavelmente, sem um lar? Havendo pessoas de família idóneas, o caso está resolvido; mas, na sua falta, também é preciso dar solução ao caso. Duas se me afiguram: ou famílias idóneas se propõem a tomar conta deles, tratando-os como filhos, ou, então, e talvez não fosse pior, teríamos a Obra dos Ninhos (já experimentada em França), que se adequaria às circunstâncias de/cada país e até de cada região. Raparigas, virgens por amor de Cristo, adoptariam alguns órfãos; e cada uma delas iria viver com os seus filhos adoptivos, formando assim verdadeiros lares, cheios de alegria e vida, porque neles não faltaria o elemento principal - a "mãe". 260
E, já que se falou no assunto, não seria este o melhor processo de assistência aos órfãos mesmo e sobretudo nas condições económicas em que vivemos? E nesses lares não se poderiam também admitir alguns velhinhos sem amparo? Assim o concebeu uma portuguesa muito antes de conhecer a Obra dos Ninhos em França e até as obras similares que se têm realizado. Essa portuguesa está apta e pronta a dar início à sua obra desde que seja resolvido o condicionalismo financeiro (sem o qual nada se pode realizar). E, por ser concepção de uma portuguesa, não merecerá o apoio particular e até estadual? 261
  Limites
Eis o imenso campo da liberdade. Vamos aos limites. Só dois: o erro e o mal. Estes limites têm de ser respeitados ainda que o estado, em nome do bem comum e da própria liberdade pessoal, tenha de empregar os seus poderes coercivos. 262
Mas quem há-de interpretar o erro e o mal? No campo cultural (humano) nenhum critério infalível pode haver. Mas no campo religioso há a Infalibilidade pontifícia. Este o único critério infalível para afirmar onde está o erro e o mal. Este, portanto, tem de ser respeitado a todo o custo. 263
Será proibido tudo quanto ofenda o Dogma, a Moral e o Direito Canónico. Impõe-se, pois, uma censura neste sentido a jornais, revistas, livros, filmes, espectáculos, reuniões, etc. E impõe-se um poder judiciário criterioso, forte e rápido para julgar todos os delitos. 264
Só com esta constante luta contra o erro e o mal será possível assegurar a liberdade pessoal. Erros e maldades que surjam são sempre estorvos, e não pequenos, para a cultura e para a vida social. 265
Para, esta protecção contra o erro e contra o mal se realizar com eficácia é preciso que o alto poder estadual se curve perante outro ainda mais alto - o pontifício. Até hoje só os reis o fizeram na nossa Pátria. A esperança dos sequiosos de justiça está, novamente, na competência e virtude de S. M. o Senhor Dom Duarte II. 266
Então, poderemos gritar, convictos: 267
- Indigentes: alegrar-vos-eis! 268
Proletários: descansareis! 269
Capitalistas: não empobrecereis, mas continuareis a enriquecer 270
Indigentes, proletários, capitalistas: podereis dar-vos à Cultura e a Deus. 271





1

Professor Doutor João Porto em lição pronunciada no Porto, III Semana Social Católica, de 2 a 8 de Maio de 1949: Vid. Acção Médica, ano XIII, nº 52, 2.° trimestre de 1949, págs. 241 e 242.

2

Vid. Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro, Ressurreição de Alcobaça, Porto, Depósito da Livraria Machado & Ribeiro, Lt.da, 1947, in 8.° (195 x 130 X 13 mm), 118 págs.

3

Vid. Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro, Alguns aspectos da Escola Nova – «Visão Inconsciente da Fecundidade de um Princípio» (Ensaio de Pedagogia), Porto (Largo dos Loios, 50), Livraria Machado & Ribeiro, Lt.da (1948), in-8.o (194 X 130 X 16 mm), 255 págs. Na parte «Família e Comunismo», que vai de págs. 72 a 136, tocam-se os problemas da família, da escola e do estado perante a educação.
Vid. ainda a minha comunicação para o Aspecto Formativo do I Congresso de Educação Interiberoamericano (realizado em Madrid de 16 a 25 de Outubro de 1949 e ao qual não pude comparecer pessoalmente) intitulada – «O principio radical de individuação perante três princípios pedagógicos». Na terceira parte dessa comunicação defende-se a organização familiar nos colégios e asilos.




    
   
    


V - Plenitude dos tempos




A - Aspectos da plenitude dos tempos



   
1 - Plenitude da Justiça social
   
A medida que Portugal (na sua amplitude ultramarina) se for enriquecendo, o nível de vida vai-se elevando, as exigências vitais de cada um vão-se multiplicando. Eis mais um motivo a militar a favor da concepção dinâmica do mínimo vital e contra a estática, a favor da equidade e contra a igualdade, numa palavra, a favor do vitalismo (integralmente considerado) e contra o matematicismo. De facto, não só o mínimo vital não é o mesmo de região para região, de família para família e de indivíduo para indivíduo, mas ainda não é o mesmo de idade para idade, de época para época e até de ano para ano e de estação para estação. E isto não chegando ao pormenor do dia e da hora, porque, embora seja uma grande realidade a diferença de necessidades vitais de momento para momento, não interessa já para a gestão pública: a média mensal ou de estação é-lhe suficiente. 272
Ora, elevando-se o nível do mínimo vital, as municipalizações têm de aumentar: quer dizer, o supérfluo, o campo económico da liberdade (limitada pelo corporativismo de associação) vai diminuindo. Há uma tendência perfectível para o aumento daquele e diminuição deste. Quando aquele atingir o máximo e este se anular, teremos a plenitude dos tempos da justiça social. 273
Então não haverá diferenças económicas, nem sequer no supérfluo, motivadas por contingências da sorte ou por truques financeiros: tudo será equitativamente distribuído segundo as exigências e circunstâncias vitais e ainda segundo o mérito. A nobreza, para ter possibilidade de se manter tal, gozará de maior esplendor económico do que o povo. Mas tal esplendor já não será à custa da miséria e de privações, mas será o penhor de felicidade do próprio povo elevado a um nível de vida superior. E é claro que os fidalgos indignos serão despojados e os populares dignos serão exaltados: a nobreza é uma classe aberta, uma selecção constante de valores realizada pelo rei. A equidade, efectivamente, não exige só que a distribuição dos bens directos económicas se adeqúe à biologia e ao psiquismo de cada um, mas ainda ao seu mérito (sobretudo moral). Só assim haverá equidade e só então se atingirá a plenitude da justiça social. 274
   
2 - Plenitude da técnica
   
Para se verem chegar tais tempos, exige-se que a lavoura, a indústria e todo o aspecto material da vida pública e doméstica estejam totalmente tecnizados. A Técnica permitirá extrair um máximo de riqueza da terra, do subsolo, dos rios, do mar e dos ares; permitirá subjugar a Natureza nos limites providenciais. A Técnica aumentará a produção na medida das necessidades e legítimos desejos do homem. A Técnica facilitará o trabalho municipal e o doméstico de tal modo que será possível dedicarmos o tempo devido à Cultura, à família e à sociedade. 275
Aos inventores, técnicos, e dirigentes, cumpre o principal contributo para se atingir a plenitude da Técnica. 276
   
3 - Plenitude da acção estadual
   
Tais tempos requerem ainda uma grande perfeição estadual: orgânica e funcionamento impecáveis; servidores, isto é, governantes com um máximo de competência e honestidade. 277
   
4 - Plenitude da liberdade
   
  Momento imperial
Nesses tempos, na plenitude dos tempos, o homem terá, por uma ascese constante, ordenado as faculdades segundo a hierarquia dos seus valores. A Cultura será o espelho desse progresso e dessa ordem. A cada arte e ciência dar-se-á o seu devido valor objectivo e subordinado à vida. O cultivo das virtudes e a vida da Graça serão a máxima preocupação humana. A. Liturgia atingirá o auge do esplendor. Trabalho, estudo, vida familiar e social, tudo será um cântico à Suprema Beleza. 278
Depois do estado, como condicionalismo material, será esta a grande obra das "elites" - da secular (a Nobreza) e da eclesiástica e religiosa (a Igreja). A elas deverá o Povo a sua felicidade. Será impossível ouvir uma nota discordante nesta harmonia humano-divina do nosso Império. 279
  Momento católico
Mas, nesta plenitude dos tempos, não só Portugal será feliz: é impossível a felicidade de uma parte quando as outras partes sofrem. Ora Portugal é uma parte da Humanidade sobrenaturalizada, isto é, é um membro do Corpo Místico de Cristo. Nesses tempos ter-se-á dado a conversão universal. A Cristandade será mais que nunca católica, una e santa na pleníssima acepção dessas palavras. 280
Roma, o Papa, será a fonte não só de toda a doutrina e disciplina religiosa, mas ainda do Direito Internacional. Todas as outras concepções de união entre os povos são utopias ou, pior ainda, manejos interesseiros e perniciosos de certos países e seitas. Só Roma pode unir os povos, porque só Roma pode ditar um Direito das Gentes imparcial, equitativo, porque só Roma pode sobrenaturalizar a Justiça pela Caridade - sem a qual tudo é mentira: a natureza só se pode realizar completamente pela Graça, porque a natureza pura não existe e porque, portanto, a natureza sobrenaturalizada, perdendo a Graça, fica acidentalmente defeituosa. A Justiça perfeita é impossível sem a Caridade. A união dos povos só é possível em Roma, no Santíssimo Padre, em Cristo, pela Seiva de Amor do Corpo Místico. 281


B - Significado da plenitude dos tempos



A plenitude dos tempos da Justiça Social, da Técnica, da Acção Estadual e da Liberdade da Pessoa terá de ser a plenitude dos tempos da Comunhão dos Santos: E eis-nos no limite entre a terra e o Céu: 283
Neste momento deixaremos de ser peregrinos e teremos atingido a Pátria. A plenitude dos tempos é a consumação dos próprios tempos, porque tal felicidade já não pode ser comportada na terra - exige a passagem para o Céu. Seria qualquer coisa de semelhante ao que se passaria no Éden na altura em que os últimos representantes da Espécie humana entrassem na Glória. 284
A morte, castigo do pecado, veio transtornar esta evolução normal da Humanidade divinizada. De facto, esta plenitude dos tempos não é uma realidade temporal, mas um ideal para que se deve tender, um modelo de perfeição que devemos ir sempre imitando mais e mais ("sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito"); é ainda a grande alegoria dos complexos das nossas aspirações temporais. E se, temporalmente, tais aspirações se não realizarão jamais por completo, não serão falhadas, no entanto, na eternidade. Para isso nos resgatou Cristo. 285
O Juízo Universal será a consumação de todas essas aspirações sublimadas, porque nele se ratificará, socialmente, a justiça dos juízos particulares. E será, então, o triunfo de Roma; e todos nos abismaremos, eternamente, na Visão e no Amor beatíficos. 286
A Virgem Medianeira de todas as Graças (oxalá tenhamos a alegria de ainda em nossa vida assistir à definição de tal dogma), a Virgem Medianeira de todas as Graças nos proteja na terra nestes estudos e nestas campanhas a favor de uma ordem social mais justa e mais bela, para que mereçamos a Sua companhia na Eternidade. 287




    
   
    


Conclusão


A Junta Escolar do Porto da Causa Monárquica, tendo apreciado nas suas sessões das 21.30 horas das sextas-feiras, nos dias 20 e 27 de Janeiro, 10 e 24 de Fevereiro, e 3 de Março de 1950, o trabalho de Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro, Fundamentos para uma sociologia renovada, que consiste numa adaptação (sem servilismo ou estrangeirismo) do estudo de Daniel Rops, Para um futuro humano, ao Tomismo e à Tradição Portuguesa, concluiu: 288
1) Nem o capitalismo nem o socialismo são essenciais à Monarquia e, portanto, quer um quer outro são conciliáveis com ela, uma vez purificados dos seus erros (nomeadamente individualista e totalitarista) e ressalvada assim a integridade pessoal, familiar e eclesiástica. 289
2) Quer a purificação do capitalismo realizada pelo corporativismo de associação (ou de nação) quer a purificação do colectivismo realizada pelo autor do estudo em questão, isto é, por um corporativismo municipalista (a que também se poderá chamar cooperativismo sui generis) tendem para o mesmo justo meio, onde reside toda a verdade e virtude e, portanto, a possibilidade de um pleno desenvolvimento técnico, a justiça social, a felicidade do Povo Português. 290
3) Os sistemas económicos são sempre um complexo (em proporções variadíssimas) do capitalismo e do socialismo, como os sistemas políticos são sempre o resultado de maior ou menor percentagem de autocracia e democracia. As fórmulas puras são meros ideais utópicos. Ora assim como a nossa Monarquia é a fórmula mais perfeita (para o bem comum) de autocracia (forma estadual centralizadora) e de democracia (forma estadual descentralizadora) assim também o corporativismo de associação e o corporativismo municipalista (preconizado por Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro) pretendem atingir o perfeito meio-termo, a plena conciliação do que há de verdadeiro e bom no capitalismo e no socialismo; mas a verdade é que o primeiro tende para aquele e o segundo tende para este. Ambos, porém, um partindo do capitalismo, o outro partindo do socialismo, caminham em direcção do mesmo ideal - o justo meio, a ordem, donde brota toda a paz e felicidade. 291
4) Em conformidade desta aproximação de pontos de vista, a purificação do colectivismo merece idêntica atenção à prestada habitualmente à do capitalismo. 292
5) Reconhece-se que os espíritos monárquicos não estavam preparados para receber esta comunicação, que se impõem futuros estudos sobre o mesmo tema e que há a maior vantagem em um trabalho complementar em que se concretize a possibilidade económica de um tal sistema só realizável (nunca é demais repetir) em plena Monarquia. 293
6) Assim como para a realização do corporativismo de nação é preciso repudiar sem complacências de espécie alguma a Maçonaria, assim também para a realização de um tal sistema preconizado por Júlio Meneses Rodrigues Ribeiro é preciso repudiar a mínima colaboração (seja sob que aspecto for) com a Maçonaria, com os comunistas ou com qualquer espécie de socialistas não integrados na nossa tradicional Monarquia e na perfeita obediência à Igreja Católica Apostólica Romana. 294




    
     
    


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